quinta-feira, novembro 22, 2012
Os inocentes Dirceu e Genoino - ALOÍSIO DE TOLEDO CÉSAR
O ESTADÃO - 22/11
Se alguém entrar numa penitenciária e conversar com os presos, individualmente, verificará uma situação muito curiosa, até mesmo engraçada: não há ali nenhum culpado. Quando se pergunta ao preso, como todo juiz faz, ao longo da carreira, "qual é a sua bronca?", logo vem a resposta: "Ah, doutor, armaram pra mim, eu num fiz nada".
Se houver insistência quanto ao tipo de crime de que são acusados, quase todos se saem do mesmo jeito: "O meu é o 155", ou o 158, ou o 171, e assim por diante. Quase sempre há dificuldade em obter do preso afirmações como "eu matei", "eu roubei", "eu trafiquei drogas" e outras que tais, porque, afinal, todos se dizem inocentes. Por isso acham preferível dizer o número do artigo do Código Penal pelo qual foram enquadrados, julgados e condenados.
O mesmo poderá acontecer com os condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no processo do mensalão José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares quando estiverem na cadeia, porque, conforme eles propagam o tempo todo, nada fizeram de errado e o que ocorreu - na desculpa esfarrapada com se encobrem - foi o julgamento de um partido político vitorioso. Sim, na visão que procuram propagar, o que houve foi tão somente um julgamento político de pessoas inocentes, tão inocentes que talvez pudessem até ser canonizadas.
Enfim, quando José Dirceu, já preso, for indagado a respeito de sua "bronca", depois de reiterar a proclamação de inocência, ele poderá dizer que é o 333, ou seja, corrupção ativa, e o 288, formação de quadrilha. O primeiro prevê pena de 2 a 12 anos e o segundo, de 2 a 5 anos, além de multa, podendo ser aumentada da metade se a vantagem ilícita for também destinada a servidor ou agente público.
Dada a gravidade da conduta, por envolver o então chefe da Casa Civil, o cargo mais poderoso da República após o de presidente, não se pode alegar que tenham sido severas as penas a ele impostas. Para os ministros do STF Ricardo Lewandowski, revisor do processo, e Dias Toffoli, não havia prova alguma contra José Dirceu e José Genoino. Havia, sim, provas contra todos os outros, menos contra esses dois mais poderosos.
Na visão desses dois juízes, os mesmos delitos, decorrentes das mesmas condutas criminosas, foram admitidos para a imposição de penas aos demais réus, mas não a José Dirceu e Delúbio Soares. Isso equivale a dizer que as provas dos autos foram válidas para condenar e para absolver, conforme as pessoas, sugerindo um paradoxal silogismo jurídico, capaz de entortar o cérebro de quem buscar entendê-lo.
Consequência disso está no infeliz surgimento de anedotas que mostram sempre o relator, Joaquim Barbosa, em posição de antagonismo com o revisor, Ricardo Lewandowski. Numa delas, que circula de boca a boca e também pela internet, aparece um preso, na hora do julgamento, pedindo, pelo amor de Deus, para ser julgado por Lewandowski. Apesar de ser tão sério o assunto, o espírito jocoso do brasileiro sempre encontra uma forma de se divertir.
Contribui para tal o comportamento desse ministro, ao causar a impressão de que se opõe deliberadamente aos julgamentos e à forma de julgar do relator, Joaquim Barbosa. Lewandowski parece não se haver dado conta de que está sob a luz dos holofotes e de que milhões de brasileiros acompanham, pela televisão, cada gesto, cada olhar, cada palavra dele.
Sua irritação quando se retirou do plenário do Supremo porque Barbosa alterou a ordem dos julgamentos, prerrogativa do relator, serviu para demonstrar que Lewandowski anda com os nervos à flor da pele. Não se vê o mesmo nervosismo em Gilmar Mendes, em Celso de Mello, em Marco Aurélio nem em nenhum outro.
Essa atitude o diferencia e o deixa numa situação realmente desconfortável perante o julgamento que cada pessoa faz dos ministros daquela Corte. Sim, os ministros estão sendo julgados por cada um de nós e esse ponto é positivo para o reforço de uma instituição que há anos vem sofrendo processo de deboche e desmoralização.
Também ganha com esse histórico julgamento a democracia brasileira. Exemplo disso está no próprio José Dirceu, que, ameaçadoramente, afirma que não se vai calar e que vai continuar lutando. Para sua sorte, ele está no Brasil e aqui vai cumprir pena, porque se estivesse na sua amada Cuba, cujo regime sonhou importar para nós, nunca mais poderia abrir a boca, a não ser para cantar o hino cubano e dar vivas a Fidel Castro.
É curioso observar que o canto de sereia marxista, que encantou gerações e, felizmente, já não seduz, continuou a fazer estragos e vítimas no Brasil. José Dirceu e José Genoino são duas delas. A geração deles, a mesma da presidente Dilma Rousseff, passou anos a fio estudando Marx e discutindo se foi certa ou errada a opção de Stalin ou de Trotsky para substituir o moribundo Lenin.
Até hoje, alguns desse grupo ainda acham que a matança de mais de 10 milhões de adversários, por Stalin, não é fato relevante nem deslustra o encanto do verdadeiro comunismo. Sempre é bom que cada um de nós pergunte a si mesmo se o verdadeiro comunismo é aquele de Cuba, o da China ou o que foi sepultado na Alemanha Oriental, com a queda do Muro de Berlim.
Enfim, pelo jeito, foi por água abaixo o sonho do pequeno grupo que pretendeu usar dinheiro público - dinheiro nosso, arrecadado dos impostos que pagamos - para a aventura consistente em comprar votos no Congresso Nacional, em atos de corrupção e de formação de quadrilha, com o propósito de implantar no Brasil uma República sindical socialista.
Por trás das grades, terão tempo suficiente para refletir. Dirceu e Genoino já cumpriram pena antes, mas, desta vez, a prisão a eles imposta não vem de ditadura alguma, mas do cumprimento da lei, à qual todos estamos subordinados.
Posses & poderes - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 22/11
Com os olhos voltados hoje à posse do novo presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, políticos das mais diversas matizes não deixam de avaliar o que virá pela frente em termos de julgamentos na fase pós-mensalão. O presidente da Embratur, Flávio Dino, por exemplo, ressalta alguns pontos. O primeiro deles é se o STF manterá a sua jurisprudência. Numa conversa comigo e com o repórter Paulo de Tarso Lyra essa semana, Dino foi direto: “Tenho sérias dúvidas e uma grande curiosidade”, comenta. Dino se refere especialmente a dois pontos: a já propalada e discutida tese do “domínio do fato” e, ainda, não ser necessário ato de ofício para decretar corrupção passiva.
“O STF reviu a sua jurisprudência”, diz ele. Flávio Dino se refere ao caso do ex-presidente Fernando Collor. Na década de 1990, Collor foi inocentado no processo sobre a CPI que investigou seu governo porque não havia um só ato dele enquanto presidente que configurasse justificativa para recebimento de qualquer vantagem indevida. Ou seja, do ponto de vista do exercício da Presidência, o STF à época considerou que Collor não havia cometido qualquer ilícito que justificasse o recebimento do tal Fiat Elba. “Desta vez, da Ação Penal 470, foi diferente e, por mais que alguém não tenha gostado da nota do PT a respeito do caso, o efeito foi colocar luz sobre isso. E agora, daqui para frente, vamos ver se o STF manterá o mesmo rigor, temos que debater esses temas mais a fundo”, comenta Dino, ex-presidente da Associação dos Juízes Federais (Ajufe), uma das instituições de maior prestígio da Justiça brasileira.
Na avaliação de Dino, “hoje, o que se vê é o STF como a terceira casa legislativa. O processo político passa pela Câmara, pelo Senado e deságua no Supremo. E o Supremo mais acerta do que erra”, diz o ex-deputado, citando como exemplos a chancela à política de cotas nas universidades e a Lei da Ficha Limpa. Pelo que se observa, mais do que nunca os políticos vão observar o Supremo e demais tribunais superiores. Tudo indica que a Justiça chegou à ribalta para ficar e não apenas porque pelos próximos dois anos terá Joaquim Barbosa na presidência.
Por falar em rigor…
O relatório da CPI que investigou as relações de Carlos Cachoeira ainda vai gerar muita polêmica. Entre os integrantes da Comissão, há a certeza de que o relator Odair Cunha (PT-MG) foi ao extremo de indiciar vários personagens, inclusive quem não foi chamado a prestar depoimento, para logo ali na frente poder dizer que foi “punido” por ter sido rigoroso demais. Vamos aguardar a próxima semana, quando certamente surgirá uma série de votos em separado para se contrapor ao do petista.
Enquanto isso, no PMDB…
Deputados do partido fizeram chegar ao líder Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) uma carta com 61 assinaturas pedindo a antecipação da escolha do futuro comandante da bancada. O líder não gostou. A proposta dele é promover a eleição em 30 de janeiro, ou seja, às vésperas da eleição do presidente da Câmara. Os deputados voltam a discutir o assunto na semana que vem.
E na Comissão Mista de Orçamento…
A definição do PMDB vai embolar com o desfecho da CPI do Cachoeira e o prazo fatal que os parlamentares deram ao governo para receber as emendas ao Orçamento da União deste ano, além dos restos a pagar. Deputados e senadores estão pra lá de preocupados. Afinal, 2012 está se despedindo e as prometidas liberações de recursos para os municípios, em especial as verbas oriundas das chamadas emendas individuais ao Orçamento, não foram cumpridas.
Não por acaso, as votações caminham a passos lentos na Câmara. É a “operação padrão” que todos os anos surge para pressionar o governo a liberar os recursos das emendas. Há quem diga que, se até o próximo dia 29 não houver repasses para cumprimento das emendas, o Orçamento de 2013 não sai.
O azar dos políticos é que a presidente Dilma Rousseff não se rende a esse tipo de paralisação. Quanto mais eles a desafiam, mais ela aperta os aliados. Resta saber se, dessa vez, Dilma manterá a base e a oposição a pão e água. Afinal, com tantos temas indigestos para o governo em pauta — como o fator previdenciário —, tem muito deputado achando que é hora de Dilma ser mais maleável com a base e, assim, evitar surpresas. Mas essa é outra história.
Uma estátua para Dirceu - ROGÉRIO GENTILE
FOLHA DE SP - 22/11
SÃO PAULO - José Dirceu passou o feriadão na Bahia, onde, num dia, curtiu o sol e a praia com uma belíssima bermuda estampada e, no outro, foi homenageado por companheiros petistas com uma paella e uma saborosa costela de bode.
Em seu merecido descanso, teve tempo de sobra para refletir sobre o julgamento do mensalão e a argumentação do ministro Toffoli contra o emprego de pena de prisão para crimes contra o patrimônio público. Segundo Toffoli, que, por mera coincidência, foi assessor de Dirceu, multas e a recuperação de valores desviados surtem mais efeito "pedagógico" do que prender o responsável.
De fato, é um absurdo obrigar uma pessoa como Dirceu, que "dedicou sua vida ao Brasil e à luta pela democracia", como ele mesmo se descreve, a trocar os prazeres da Bahia pelo sol quadrado de uma penitenciária.
Afinal, coitado, ele não é o primeiro político a desviar recursos públicos e a comprar apoio parlamentar. E, definitivamente, mandar político para a cadeia não faz parte da tradição brasileira. Uma multinha seria mais do que suficiente para servir de exemplo aos demais, não seria?
Até porque não existem tantas provas contra Dirceu. É só uma grande coincidência, por exemplo, ele ter se reunido com Valério e dirigentes do BMG num dia e o banco ter liberado recursos para o mensalão dias depois. Também é só uma casualidade o fato de sua ex-mulher ter recebido favores do operador do esquema.
O problema é que o julgamento, em um tribunal formado em sua maioria por ministros indicados por Lula e Dilma, foi "político", como diz o PT, e permeado pela "paixão", como insinuou a presidente. Convenhamos, os ministros tinham motivos de sobra para castigar o PT, que lhes impingiu um emprego estafante, atulhado de processos e com sessões sonolentas. E o pior, como reclamou Ayres Britto na sua despedida do STF, com salários defasados. Vingança pura, claro. Pensando bem, Dirceu merece ganhar uma estátua.
SÃO PAULO - José Dirceu passou o feriadão na Bahia, onde, num dia, curtiu o sol e a praia com uma belíssima bermuda estampada e, no outro, foi homenageado por companheiros petistas com uma paella e uma saborosa costela de bode.
Em seu merecido descanso, teve tempo de sobra para refletir sobre o julgamento do mensalão e a argumentação do ministro Toffoli contra o emprego de pena de prisão para crimes contra o patrimônio público. Segundo Toffoli, que, por mera coincidência, foi assessor de Dirceu, multas e a recuperação de valores desviados surtem mais efeito "pedagógico" do que prender o responsável.
De fato, é um absurdo obrigar uma pessoa como Dirceu, que "dedicou sua vida ao Brasil e à luta pela democracia", como ele mesmo se descreve, a trocar os prazeres da Bahia pelo sol quadrado de uma penitenciária.
Afinal, coitado, ele não é o primeiro político a desviar recursos públicos e a comprar apoio parlamentar. E, definitivamente, mandar político para a cadeia não faz parte da tradição brasileira. Uma multinha seria mais do que suficiente para servir de exemplo aos demais, não seria?
Até porque não existem tantas provas contra Dirceu. É só uma grande coincidência, por exemplo, ele ter se reunido com Valério e dirigentes do BMG num dia e o banco ter liberado recursos para o mensalão dias depois. Também é só uma casualidade o fato de sua ex-mulher ter recebido favores do operador do esquema.
O problema é que o julgamento, em um tribunal formado em sua maioria por ministros indicados por Lula e Dilma, foi "político", como diz o PT, e permeado pela "paixão", como insinuou a presidente. Convenhamos, os ministros tinham motivos de sobra para castigar o PT, que lhes impingiu um emprego estafante, atulhado de processos e com sessões sonolentas. E o pior, como reclamou Ayres Britto na sua despedida do STF, com salários defasados. Vingança pura, claro. Pensando bem, Dirceu merece ganhar uma estátua.
A farsa da comissão - DORA KRAMER
O ESTADÃO - 22/11
As conclusões da CPI do Cachoeira elaboradas sob a ótica da tropa governista, representada por um relator designado pelo PT, acabaram saindo bem pior que a encomenda.
Isso devido ao afã de atender à sanha de vingança contra os desafetos do PT em geral e do ex-presidente Lula em particular: a imprensa e o Ministério Público, considerados responsáveis pelo escândalo do mensalão ter se transformado em processo e resultado na condenação da antiga cúpula do partido.
Enquanto a expectativa era a de que o relatório fosse apenas uma peça de ficção montada para proteger a construtora Delta e seus contratantes governamentais, tratava-se de patrocínio à impunidade.
Passaram ao terreno do espetáculo burlesco com o pedido de indiciamento de um grupo de jornalistas e a solicitação ao Ministério Público para abertura de investigação sobre a conduta do procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Para fazer-se de isento, o relator Odair Cunha pediu ao MP que indicie também o empresário Fernando Cavendish, da Delta.
Mera mise-en-scène, porque nada disso irá em frente: foi a própria comissão que resolveu deixar de fora de seu foco o procurador, o empresário e o jornalista Policarpo Júnior, da Veja. Os outros agora incluídos nem haviam sido citados.
O comando da CPI recorre à encenação barata também quando manda todos os documentos aos procuradores e alega com isso ter feito o que deveria. Ora, a obrigação da comissão de inquérito seria justamente aprofundar as investigações já feitas pela polícia e pela procuradoria. Seu papel não era o de devolver as informações à origem.
Nada mais falso que os ares de dever cumprido e a pose de magistrados imparciais, avalistas da observância das formalidades do regimento, exibidos ontem pelo comando da CPI: os petistas Odair Cunha e Paulo Teixeira e o pemedebista Vital do Rego.
Nada mais dissimulado que a postura circunspecta de parlamentares governistas na defesa do relatório ainda não lido, mas cujos pontos principais já divulgados revelam inconsistências, incongruências e nenhuma preocupação com a solidez investigativa.
Investigar nunca foi mesmo objetivo. Quando pareceu que a CPI chegaria a algum lugar por meio da quebra de sigilos que apontavam para a Delta como uma espécie de lavanderia do esquema do bicheiro Carlos Cachoeira, os generais deram ordem para a soldadesca bater em retirada. E foi assim que quem não pôde desmontar "a farsa do mensalão" tratou de montar a farsa de comissão.
Bem dosado
Não têm base real queixas de que o Supremo Tribunal Federal tenha "pesado a mão" nessa fase agora de definição das penas.
Observadas com atenção as sentenças aplicadas, nota-se que a pena base (aquela estipulada como patamar sobre o qual incidirão, ou não, agravantes ou atenuantes) imputada a cada réu na média até agora tem ficado mais próxima do mínimo que do máximo previsto em lei.
Exceção feita quando o intuito foi claramente o de fugir da prescrição, como no caso de formação de quadrilha, cuja pena mínima é de um ano e a máxima de três.
Marcos Valério, por exemplo, foi condenado a 3, 4 e 7 anos em diferentes casos de corrupção ativa, crime para o qual é prevista prisão de até 12 anos.
O que faz as penas resultarem elevadas é a quantidade de vezes e a multiplicidade de crimes cometidos.
Liturgia do cargo
Na sessão que ontem conduziu como presidente interino do Supremo, Joaquim Barbosa comportou-se de modo mais contido. Sem ironias e despido dos maneirismos de promotor. Sinal de adaptação ao peso da cadeira que hoje assume oficialmente.
As conclusões da CPI do Cachoeira elaboradas sob a ótica da tropa governista, representada por um relator designado pelo PT, acabaram saindo bem pior que a encomenda.
Isso devido ao afã de atender à sanha de vingança contra os desafetos do PT em geral e do ex-presidente Lula em particular: a imprensa e o Ministério Público, considerados responsáveis pelo escândalo do mensalão ter se transformado em processo e resultado na condenação da antiga cúpula do partido.
Enquanto a expectativa era a de que o relatório fosse apenas uma peça de ficção montada para proteger a construtora Delta e seus contratantes governamentais, tratava-se de patrocínio à impunidade.
Passaram ao terreno do espetáculo burlesco com o pedido de indiciamento de um grupo de jornalistas e a solicitação ao Ministério Público para abertura de investigação sobre a conduta do procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Para fazer-se de isento, o relator Odair Cunha pediu ao MP que indicie também o empresário Fernando Cavendish, da Delta.
Mera mise-en-scène, porque nada disso irá em frente: foi a própria comissão que resolveu deixar de fora de seu foco o procurador, o empresário e o jornalista Policarpo Júnior, da Veja. Os outros agora incluídos nem haviam sido citados.
O comando da CPI recorre à encenação barata também quando manda todos os documentos aos procuradores e alega com isso ter feito o que deveria. Ora, a obrigação da comissão de inquérito seria justamente aprofundar as investigações já feitas pela polícia e pela procuradoria. Seu papel não era o de devolver as informações à origem.
Nada mais falso que os ares de dever cumprido e a pose de magistrados imparciais, avalistas da observância das formalidades do regimento, exibidos ontem pelo comando da CPI: os petistas Odair Cunha e Paulo Teixeira e o pemedebista Vital do Rego.
Nada mais dissimulado que a postura circunspecta de parlamentares governistas na defesa do relatório ainda não lido, mas cujos pontos principais já divulgados revelam inconsistências, incongruências e nenhuma preocupação com a solidez investigativa.
Investigar nunca foi mesmo objetivo. Quando pareceu que a CPI chegaria a algum lugar por meio da quebra de sigilos que apontavam para a Delta como uma espécie de lavanderia do esquema do bicheiro Carlos Cachoeira, os generais deram ordem para a soldadesca bater em retirada. E foi assim que quem não pôde desmontar "a farsa do mensalão" tratou de montar a farsa de comissão.
Bem dosado
Não têm base real queixas de que o Supremo Tribunal Federal tenha "pesado a mão" nessa fase agora de definição das penas.
Observadas com atenção as sentenças aplicadas, nota-se que a pena base (aquela estipulada como patamar sobre o qual incidirão, ou não, agravantes ou atenuantes) imputada a cada réu na média até agora tem ficado mais próxima do mínimo que do máximo previsto em lei.
Exceção feita quando o intuito foi claramente o de fugir da prescrição, como no caso de formação de quadrilha, cuja pena mínima é de um ano e a máxima de três.
Marcos Valério, por exemplo, foi condenado a 3, 4 e 7 anos em diferentes casos de corrupção ativa, crime para o qual é prevista prisão de até 12 anos.
O que faz as penas resultarem elevadas é a quantidade de vezes e a multiplicidade de crimes cometidos.
Liturgia do cargo
Na sessão que ontem conduziu como presidente interino do Supremo, Joaquim Barbosa comportou-se de modo mais contido. Sem ironias e despido dos maneirismos de promotor. Sinal de adaptação ao peso da cadeira que hoje assume oficialmente.
Pizza famiglia - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 22/11
A votação hoje do arremedo do relatório final da CPI do Cachoeira vai dar uma boa medida sobre a situação da moral vigente no Congresso Nacional. Ficará explícito se a maioria governista existe para coonestar qualquer ação fraudulenta liderada pelo PT ou se, pelo contrário, alguns dos partidos aliados ainda têm independência para não colocar seus nomes em documentos como aquele, que dá um fecho farsesco apropriado a todo um processo que nunca deixou de ser falso, a começar de sua gestação.
Todo mundo sabia desde o começo que a CPI do Cachoeira foi criada sob inspiração do ex-presidente Lula e do hoje réu condenado José Dirceu com objetivos bastante claros: desmoralizar a oposição, o procurador-geral da República Roberto Gurgel e o que chamam de mídia, a fim de tentar atingir a credibilidade do julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal. Não deu certo porque a farsa não teve força para encobrir as revelações que foram surgindo, dia após dia, no STF, e também porque no desenrolar da CPI surgiu um fato insuperável na figura do empreiteiro Fernando Cavendish e sua construtora Delta.
A partir da revelação do relacionamento do empreiteiro com figuras notáveis do governismo, como os governadores do Rio, o peemedebista Sérgio Cabral, e de Brasília, o petista Agnelo Queiroz, e a atuação suprapartidária do bicheiro Carlinhos Cachoeira em vários estados brasileiros, em ligação estreita com a Delta, a maioria governista viu que não seria possível continuar as investigações da CPI sem dar vários tiros no pé.
Durante o desenrolar da CPI, alguns deputados e senadores independentes do PDT, PMDB, PSOL resistiram bravamente aos avanços petistas vocalizados por figuras patéticas usadas como “laranjas” para ações de vingança contra o procurador-geral da República e a revista “Veja”, na figura de seu redator-chefe Policarpo Junior.
Sem conseguir apoio político para convocar seus alvos preferenciais, e enfraquecidos por não quererem ver no banco dos réus seus apaniguados, os governistas perderam o rumo da CPI para proteger o empreiteiro Fernando Cavendish, e decretaram seu final melancólico quando recusaram a prorrogação dos trabalhos para que as ligações da Delta no mundo político fossem investigadas a fundo.
Por isso o relatório final da CPI do Cachoeira, de autoria do deputado petista Odair Cunha divulgado ontem é uma patética demonstração de ineficiência do instrumento investigativo congressual e uma confissão de sabujice poucas vezes vistas em tempos recentes, que, diga-se, não foram pródigos em atitudes desassombradas ou de altivez por parte de nossos congressistas.
Este pseudo relatório supera todas as indignidades porventura cometidas, na sua sanha acusatória seletiva. Misturando alhos com bugalhos, o relator Odair Cunha não conseguiu acobertar seus desmandos com a aparência de seriedade que quis dar em alguns momentos, especialmente quando trata do trabalho da imprensa.
Chega a ser ridículo seu conceito de relação de jornalista com a fonte, quando se dá ao desplante de definir o que está certo e o que está errado nesse relacionamento. A tal ponto que até mesmo o presidente da Federação Nacional do Jornalismo (Fenaj), normalmente alinhado com o petismo, teve que advertir que se tratava de uma interferência no trabalho jornalístico que não é aceitável.
Em outro ponto, o deputado do PT Odair Cunha se arroga a analista de valores dos tempos modernos, afirmando que “em nossos dias, existe uma profunda cisão entre a mensagem divulgada cotidianamente pela mídia, através dos diferentes meios de informação, e os valores éticos que a sociedade e a civilização ocidental alegam cultivar”. Como se seu relatório espelhasse qualquer valor ético.
O deputado Miro Teixeira, do PDT do Rio, um dos mais destacados membros do grupo independente que tem impedido que a insensatez domine completamente os trabalhos da CPI, denunciou que a colocação de jornalistas no relatório final tem a finalidade de produzir um ato diversionista que desvie a atenção do fracasso da CPI e da enorme pizza que se produziu para impedir que a relação da empreiteira Delta com os mais diversos níveis políticos fosse investigada.
A votação hoje do arremedo do relatório final da CPI do Cachoeira vai dar uma boa medida sobre a situação da moral vigente no Congresso Nacional. Ficará explícito se a maioria governista existe para coonestar qualquer ação fraudulenta liderada pelo PT ou se, pelo contrário, alguns dos partidos aliados ainda têm independência para não colocar seus nomes em documentos como aquele, que dá um fecho farsesco apropriado a todo um processo que nunca deixou de ser falso, a começar de sua gestação.
Todo mundo sabia desde o começo que a CPI do Cachoeira foi criada sob inspiração do ex-presidente Lula e do hoje réu condenado José Dirceu com objetivos bastante claros: desmoralizar a oposição, o procurador-geral da República Roberto Gurgel e o que chamam de mídia, a fim de tentar atingir a credibilidade do julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal. Não deu certo porque a farsa não teve força para encobrir as revelações que foram surgindo, dia após dia, no STF, e também porque no desenrolar da CPI surgiu um fato insuperável na figura do empreiteiro Fernando Cavendish e sua construtora Delta.
A partir da revelação do relacionamento do empreiteiro com figuras notáveis do governismo, como os governadores do Rio, o peemedebista Sérgio Cabral, e de Brasília, o petista Agnelo Queiroz, e a atuação suprapartidária do bicheiro Carlinhos Cachoeira em vários estados brasileiros, em ligação estreita com a Delta, a maioria governista viu que não seria possível continuar as investigações da CPI sem dar vários tiros no pé.
Durante o desenrolar da CPI, alguns deputados e senadores independentes do PDT, PMDB, PSOL resistiram bravamente aos avanços petistas vocalizados por figuras patéticas usadas como “laranjas” para ações de vingança contra o procurador-geral da República e a revista “Veja”, na figura de seu redator-chefe Policarpo Junior.
Sem conseguir apoio político para convocar seus alvos preferenciais, e enfraquecidos por não quererem ver no banco dos réus seus apaniguados, os governistas perderam o rumo da CPI para proteger o empreiteiro Fernando Cavendish, e decretaram seu final melancólico quando recusaram a prorrogação dos trabalhos para que as ligações da Delta no mundo político fossem investigadas a fundo.
Por isso o relatório final da CPI do Cachoeira, de autoria do deputado petista Odair Cunha divulgado ontem é uma patética demonstração de ineficiência do instrumento investigativo congressual e uma confissão de sabujice poucas vezes vistas em tempos recentes, que, diga-se, não foram pródigos em atitudes desassombradas ou de altivez por parte de nossos congressistas.
Este pseudo relatório supera todas as indignidades porventura cometidas, na sua sanha acusatória seletiva. Misturando alhos com bugalhos, o relator Odair Cunha não conseguiu acobertar seus desmandos com a aparência de seriedade que quis dar em alguns momentos, especialmente quando trata do trabalho da imprensa.
Chega a ser ridículo seu conceito de relação de jornalista com a fonte, quando se dá ao desplante de definir o que está certo e o que está errado nesse relacionamento. A tal ponto que até mesmo o presidente da Federação Nacional do Jornalismo (Fenaj), normalmente alinhado com o petismo, teve que advertir que se tratava de uma interferência no trabalho jornalístico que não é aceitável.
Em outro ponto, o deputado do PT Odair Cunha se arroga a analista de valores dos tempos modernos, afirmando que “em nossos dias, existe uma profunda cisão entre a mensagem divulgada cotidianamente pela mídia, através dos diferentes meios de informação, e os valores éticos que a sociedade e a civilização ocidental alegam cultivar”. Como se seu relatório espelhasse qualquer valor ético.
O deputado Miro Teixeira, do PDT do Rio, um dos mais destacados membros do grupo independente que tem impedido que a insensatez domine completamente os trabalhos da CPI, denunciou que a colocação de jornalistas no relatório final tem a finalidade de produzir um ato diversionista que desvie a atenção do fracasso da CPI e da enorme pizza que se produziu para impedir que a relação da empreiteira Delta com os mais diversos níveis políticos fosse investigada.
Triste pastelão - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 22/11
BRASÍLIA - Não é séria uma CPI que começou para investigar o esquema suprapartidário e suprarregional do Cachoeira e chega ao fim preservando todos os amigos do rei e atingindo três alvos: o procurador-geral da República, a revista "Veja" e um único governador -de oposição. Quem fez, de fato, esse parecer?
Os três objetivos originais eram analisar documentos da Polícia Federal e do Ministério Público sobre os negócios de Cachoeira, investigar as ligações perigosas do então senador Demóstenes Torres com o esquema e escarafunchar as relações da empreiteira Delta com autoridades de todos os Poderes e vários Estados.
Mas a CPI não avançou um pingo no caso Cachoeira; Demóstenes foi cassado à parte, pelo Conselho de Ética do Senado, e nada foi apurado sobre a Delta, verdadeiro banco de lavagem de dinheiro público, federal e estadual.
O dinheiro saía do Dnit (responsável pelas estradas) e de órgãos de diferentes Estados, entrava no saco sem fundo da Delta e saía para dezenas de empresas-fantasmas. E daí em diante? Para quais contas e bolsos a dinheirama lavada escorria?
"Aí está o ouro", grita Pedro Taques (PDT), ex-procurador e atual senador em primeiro mandato e primeira CPI. Sem rastrear os recursos e saber quem eram os destinatários finais, a CPI não cumpre seu papel, os culpados se livram, tudo vira um lamentável pastelão.
Taques e outros deputados e senadores que se autointitulam independentes tentam um atalho, enviando um relatório informal e paralelo à Procuradoria-Geral da República. Isso, porém, só tem um efeito moral e político, mostrando que ainda há quem leve as coisas a sério no Congresso. Aliás, quem se leve a sério.
Na prática, porém, não muda o destino -e o vexame- da CPI, que tem um erro de origem: CPIs são instrumentos da minoria, nunca deveriam ser alvo de acordões nem manipuladas pelo poder de plantão.
BRASÍLIA - Não é séria uma CPI que começou para investigar o esquema suprapartidário e suprarregional do Cachoeira e chega ao fim preservando todos os amigos do rei e atingindo três alvos: o procurador-geral da República, a revista "Veja" e um único governador -de oposição. Quem fez, de fato, esse parecer?
Os três objetivos originais eram analisar documentos da Polícia Federal e do Ministério Público sobre os negócios de Cachoeira, investigar as ligações perigosas do então senador Demóstenes Torres com o esquema e escarafunchar as relações da empreiteira Delta com autoridades de todos os Poderes e vários Estados.
Mas a CPI não avançou um pingo no caso Cachoeira; Demóstenes foi cassado à parte, pelo Conselho de Ética do Senado, e nada foi apurado sobre a Delta, verdadeiro banco de lavagem de dinheiro público, federal e estadual.
O dinheiro saía do Dnit (responsável pelas estradas) e de órgãos de diferentes Estados, entrava no saco sem fundo da Delta e saía para dezenas de empresas-fantasmas. E daí em diante? Para quais contas e bolsos a dinheirama lavada escorria?
"Aí está o ouro", grita Pedro Taques (PDT), ex-procurador e atual senador em primeiro mandato e primeira CPI. Sem rastrear os recursos e saber quem eram os destinatários finais, a CPI não cumpre seu papel, os culpados se livram, tudo vira um lamentável pastelão.
Taques e outros deputados e senadores que se autointitulam independentes tentam um atalho, enviando um relatório informal e paralelo à Procuradoria-Geral da República. Isso, porém, só tem um efeito moral e político, mostrando que ainda há quem leve as coisas a sério no Congresso. Aliás, quem se leve a sério.
Na prática, porém, não muda o destino -e o vexame- da CPI, que tem um erro de origem: CPIs são instrumentos da minoria, nunca deveriam ser alvo de acordões nem manipuladas pelo poder de plantão.
O caixa da Petrobrás - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 22/11
Ontem, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, fez duas declarações surpreendentes. A primeira, que "não há demanda da Petrobrás para aumento de preços da gasolina". A outra, que "a Petrobrás não tem dificuldade de caixa; é o maior caixa das empresas brasileiras".
São também dois equívocos. Se deixou de haver demanda da Petrobrás por reajustes dos combustíveis, estamos diante de uma novidade. Ficam, assim, todos informados de que, durante anos, fizeram um enorme teatro: o ex-presidente José Sergio Gabrielli; a atual, Graça Foster; e o diretor de Finanças e de Relações com Investidores, Almir Barbassa.
Todos eles fizeram inúmeras declarações públicas de que a Petrobrás precisa do reajuste dos preços para tocar seus investimentos. Ao longo deste ano, a diretoria da Petrobrás reconheceu uma diferença de pelo menos 15% nos preços dos combustíveis. Ou seja, advertiu para "o desalinhamento entre preços internos e externos e para seu impacto sobre seu plano de negócios".
Em nenhuma economia saudável o critério para a formação de preços é a situação de caixa da empresa. Numa economia aberta, como a do Brasil, quando não obedecem estritamente à lei da oferta e da procura, os preços de bens ou serviços geram distorções.
Uma das distorções provocadas pelo atraso nos reajustes dos combustíveis é o salto do consumo de gasolina no Brasil, de cerca de 22% em dois anos. Outra distorção é o aparecimento de um subsídio. A Petrobrás está revendendo volumes cada vez mais altos de gasolina importada no mercado interno pagando por ela mais do que recebe do consumidor. Quanto mais alta a cotação do dólar, maior a conta do consumidor paga pela Petrobrás.
Mas as distorções não se restringem aos negócios da Petrobrás. A própria presidente Graça Foster, em inúmeras ocasiões, alertou para o esvaziamento do setor do etanol causado pela ausência de reajustes nos preços de alguns derivados de petróleo, na medida em que o consumidor passou a optar mais por gasolina. O resultado mais notório é a queda da produção do etanol, importado para suprir o consumo interno.
Caso, de uma hora para outra, os diretores da Petrobrás tenham decidido negar o que tantas vezes sustentaram e passem a afinar seu discurso com o do ministro Mantega é porque foram devidamente enquadrados, o que também diz muita coisa.
Se os preços deveriam sempre seguir o princípio sugerido pelo ministro, qualquer empresa com premência de caixa teria obrigação de elevar seus preços para se safar da bancarrota. Ou, então, toda empresa bem-sucedida teria de derrubá-los ou de mantê-los estáveis, porque não precisaria dos reajustes. De todo modo, falta saber qual é o critério dos preços dos combustíveis da Petrobrás.
O que o ministro Mantega não quer admitir é que está usando o caixa da Petrobrás para fazer política de preços. Em vez de se valer da política fiscal (manejo de receitas e despesas do setor público) ou da política monetária (política de juros), utiliza o caixa da empresa para conter a inflação - o que gera outras distorções. Ou seja, o governo Dilma envereda pelo mesmo desvio populista escolhido pela administração da presidente Cristina Kirchner, que está afundando a economia da Argentina.
Na batalha do royalty governo já é perdedor - RAQUEL ULHOA
VALOR ECONÔMICO - 22/11
O desfecho que a presidente Dilma Rousseff dará ao projeto de lei mudando a distribuição dos recursos provenientes da exploração do petróleo (royalty e participação especial) entre União, Estados e municípios é desconhecido, mas os parlamentares preparam-se para nova polêmica em torno do assunto: garantir a destinação total dessa riqueza em educação.
Como bandeira, a ideia é simpática. Tem "grande apelo populista", como diz o presidente da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), Paulo Ziulkoski. Mas, se a intenção do governo for - de fato - tornar obrigatório o investimento em educação (por Estados, municípios e a própria União) de todo o dinheiro dos royalties e participações especiais resultantes da exploração do petróleo do mar, a chiadeira vai ser grande. Prefeitos e governadores não querem engessar o dinheiro. E tem forte demanda do setor da saúde.
Dilma pode sancionar o projeto do Congresso (que reduz a parte dos Estados e municípios produtores na renda do petróleo) e deixar que Rio de Janeiro e Espírito Santo recorram ao Supremo Tribunal Federal (STF). Podem ser anos de incerteza. Ela pode também sancionar uma parte - a que trata do futuro, da divisão dos royalties do petróleo do pré-sal (explorado pelo novo modelo de partilha de produção) - e vetar tudo o que relativo à arrecadação dos campos já explorados atualmente. É o que esperam os ditos produtores.
Planalto opera mal desde 2009 e agora tem nova etapa
Se fizer isso, a presidente desagrada pelo menos 24 dos 27 Estados da Federação (São Paulo em geral fica em cima do muro) e milhares de municípios. Essas unidades continuam mobilizadas e já mostraram força. Desde 2009, seus representantes impõem sucessivas derrotas ao governo nesse assunto. Dilma estaria sujeita a ter seu veto derrubado, embora a prática seja raríssima no Legislativo (dois terços de cada Casa).
Desde o início da discussão sobre o marco regulatório da exploração do petróleo do pré-sal, deputados e senadores têm deixado claro que a questão dos royalties está politicamente decidida: o país não aceita mais que o petróleo extraído do mar beneficie apenas Estados cujos litorais são voltados a esses campos, principalmente Rio e Espírito Santo. Não aceitam sequer que eles sejam chamados de produtores, e sim "confrontantes".
Pelas regras atuais, fixadas em lei de 1997, Estados e municípios produtores ficam com cerca de 60% dos royalties e 50% da participação especial. À União cabem 30% dos royalties e os outros 50% da PE. Para os demais, são destinados menos de 10% dos royalties e nada da PE. Em 2010, esses recursos chegaram a R$ 22 bilhões. Rio e seus municípios ficaram com 4,3 bilhões de royalties e R$ 5,5 bilhões de PE. Com a descoberta do pré-sal, Vital calcula, em seu relatório, que em 2020 essa verba chegue a R$ 60 bilhões. Mas os não produtores não querem esperar o futuro.
O governo do Rio, com o governador Sérgio Cabral (PMDB), à frente, argumenta que o Estado vai quebrar. Perderia em 2013 cerca de R$ 4,6 bilhões. Até 2020, a perda estimada é de 77 bilhões. Cabral diz que a organização da Copa do Mundo e da Olimpíada fica ameaçada. Além disso, a dívida do Estado com a União e a previdência dos servidores são vinculadas à renda do petróleo.
Uma passeata está sendo preparada para o dia 26. O governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), que calcula sua perda em cerca de R$ 1 bilhão por ano, a partir de 2013, participará do ato no Rio. Diz que, se o projeto for sancionado, vai desorganizar a economia, obras serão paralisadas e o plano de investimento terá de ser revisto. Na sexta-feira, será reativado um comitê em defesa ao Espírito Santo.
Interlocutores de Dilma afirmam que ela não tomou decisão sobre o projeto. Os sinais são lidos de acordo com os interesses dos ouvintes. Para Rio e Espírito Santo, a presidente já deixou claro, em discurso em evento para os próprios prefeitos, que não quer alterar o passado (ou seja, a distribuição do dinheiro arrecadado nos campos já licitados).
Para representantes de Estados que hoje praticamente nada recebem, como o senador Wellington Dias (PT-PI), ex-governador e autor da proposta original que resultou no projeto aprovado pelo Senado e pela Câmara, o texto não pode ser considerado inconstitucional por não alterar os termos dos contratos firmados entre União e empresas.
O projeto que aprova o Plano Nacional da Educação (PNE) - que fixa diretrizes para o setor nos próximos dez anos - saiu da Câmara destinando 50% dos royalties para a educação, como forma de se atingir a meta de 10% do Produto Interno Bruto (PIB).
O líder do governo no Congresso, senador José Pimentel (PT-CE), relator da proposta na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), quer discutir a ampliação desse percentual para 100%, atendendo à determinação da presidente, reafirmada em entrevista ao Valor desta semana. As primeiras audiências públicas, com o ministro da Educação, Aloísio Mercadante, pela manhã, e várias entidades do setor, à tarde, serão realizadas no dia 29.
O PNE já causa fissuras. Roberto Requião (PMDB-PR), presidente da Comissão de Educação, Cultura e Educação (CE), diz que não caberia à CAE chamar Mercadante, pois a discussão do mérito é prerrogativa de sua comissão. O PNE, para ele, tem que ter um "planejamento operacional" para a educação e não ter como meta principal a destinação de recursos.
"Esse percentual de 10% do PIB não é impositivo. Pode até ficar. É bandeira sindical. O PT está querendo empunhar a bandeira [de mais recursos para educação]. Estão fazendo uma comissão de educação paralela", diz. Ele até concorda com a hipótese de destinar todo o royalty para educação, desde que o projeto seja factível. Quando estiver em suas mãos, novo texto pode ser feito.
O STF pode até manter o direito dos produtores. Nada que impeça o Congresso de aprovar uma emenda constitucional mudando tudo. Pelas evidências que se acumulam, esse é um dos assuntos em torno dos quais o Congresso não está dividido: está majoritariamente decidido a mudar o quadro atual. De um jeito ou de outro.
O desfecho que a presidente Dilma Rousseff dará ao projeto de lei mudando a distribuição dos recursos provenientes da exploração do petróleo (royalty e participação especial) entre União, Estados e municípios é desconhecido, mas os parlamentares preparam-se para nova polêmica em torno do assunto: garantir a destinação total dessa riqueza em educação.
Como bandeira, a ideia é simpática. Tem "grande apelo populista", como diz o presidente da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), Paulo Ziulkoski. Mas, se a intenção do governo for - de fato - tornar obrigatório o investimento em educação (por Estados, municípios e a própria União) de todo o dinheiro dos royalties e participações especiais resultantes da exploração do petróleo do mar, a chiadeira vai ser grande. Prefeitos e governadores não querem engessar o dinheiro. E tem forte demanda do setor da saúde.
Dilma pode sancionar o projeto do Congresso (que reduz a parte dos Estados e municípios produtores na renda do petróleo) e deixar que Rio de Janeiro e Espírito Santo recorram ao Supremo Tribunal Federal (STF). Podem ser anos de incerteza. Ela pode também sancionar uma parte - a que trata do futuro, da divisão dos royalties do petróleo do pré-sal (explorado pelo novo modelo de partilha de produção) - e vetar tudo o que relativo à arrecadação dos campos já explorados atualmente. É o que esperam os ditos produtores.
Planalto opera mal desde 2009 e agora tem nova etapa
Se fizer isso, a presidente desagrada pelo menos 24 dos 27 Estados da Federação (São Paulo em geral fica em cima do muro) e milhares de municípios. Essas unidades continuam mobilizadas e já mostraram força. Desde 2009, seus representantes impõem sucessivas derrotas ao governo nesse assunto. Dilma estaria sujeita a ter seu veto derrubado, embora a prática seja raríssima no Legislativo (dois terços de cada Casa).
Desde o início da discussão sobre o marco regulatório da exploração do petróleo do pré-sal, deputados e senadores têm deixado claro que a questão dos royalties está politicamente decidida: o país não aceita mais que o petróleo extraído do mar beneficie apenas Estados cujos litorais são voltados a esses campos, principalmente Rio e Espírito Santo. Não aceitam sequer que eles sejam chamados de produtores, e sim "confrontantes".
Pelas regras atuais, fixadas em lei de 1997, Estados e municípios produtores ficam com cerca de 60% dos royalties e 50% da participação especial. À União cabem 30% dos royalties e os outros 50% da PE. Para os demais, são destinados menos de 10% dos royalties e nada da PE. Em 2010, esses recursos chegaram a R$ 22 bilhões. Rio e seus municípios ficaram com 4,3 bilhões de royalties e R$ 5,5 bilhões de PE. Com a descoberta do pré-sal, Vital calcula, em seu relatório, que em 2020 essa verba chegue a R$ 60 bilhões. Mas os não produtores não querem esperar o futuro.
O governo do Rio, com o governador Sérgio Cabral (PMDB), à frente, argumenta que o Estado vai quebrar. Perderia em 2013 cerca de R$ 4,6 bilhões. Até 2020, a perda estimada é de 77 bilhões. Cabral diz que a organização da Copa do Mundo e da Olimpíada fica ameaçada. Além disso, a dívida do Estado com a União e a previdência dos servidores são vinculadas à renda do petróleo.
Uma passeata está sendo preparada para o dia 26. O governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), que calcula sua perda em cerca de R$ 1 bilhão por ano, a partir de 2013, participará do ato no Rio. Diz que, se o projeto for sancionado, vai desorganizar a economia, obras serão paralisadas e o plano de investimento terá de ser revisto. Na sexta-feira, será reativado um comitê em defesa ao Espírito Santo.
Interlocutores de Dilma afirmam que ela não tomou decisão sobre o projeto. Os sinais são lidos de acordo com os interesses dos ouvintes. Para Rio e Espírito Santo, a presidente já deixou claro, em discurso em evento para os próprios prefeitos, que não quer alterar o passado (ou seja, a distribuição do dinheiro arrecadado nos campos já licitados).
Para representantes de Estados que hoje praticamente nada recebem, como o senador Wellington Dias (PT-PI), ex-governador e autor da proposta original que resultou no projeto aprovado pelo Senado e pela Câmara, o texto não pode ser considerado inconstitucional por não alterar os termos dos contratos firmados entre União e empresas.
O projeto que aprova o Plano Nacional da Educação (PNE) - que fixa diretrizes para o setor nos próximos dez anos - saiu da Câmara destinando 50% dos royalties para a educação, como forma de se atingir a meta de 10% do Produto Interno Bruto (PIB).
O líder do governo no Congresso, senador José Pimentel (PT-CE), relator da proposta na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), quer discutir a ampliação desse percentual para 100%, atendendo à determinação da presidente, reafirmada em entrevista ao Valor desta semana. As primeiras audiências públicas, com o ministro da Educação, Aloísio Mercadante, pela manhã, e várias entidades do setor, à tarde, serão realizadas no dia 29.
O PNE já causa fissuras. Roberto Requião (PMDB-PR), presidente da Comissão de Educação, Cultura e Educação (CE), diz que não caberia à CAE chamar Mercadante, pois a discussão do mérito é prerrogativa de sua comissão. O PNE, para ele, tem que ter um "planejamento operacional" para a educação e não ter como meta principal a destinação de recursos.
"Esse percentual de 10% do PIB não é impositivo. Pode até ficar. É bandeira sindical. O PT está querendo empunhar a bandeira [de mais recursos para educação]. Estão fazendo uma comissão de educação paralela", diz. Ele até concorda com a hipótese de destinar todo o royalty para educação, desde que o projeto seja factível. Quando estiver em suas mãos, novo texto pode ser feito.
O STF pode até manter o direito dos produtores. Nada que impeça o Congresso de aprovar uma emenda constitucional mudando tudo. Pelas evidências que se acumulam, esse é um dos assuntos em torno dos quais o Congresso não está dividido: está majoritariamente decidido a mudar o quadro atual. De um jeito ou de outro.
MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO
FOLHA DE SP - 22/11
'Private equity' movimenta procura por alto executivo
O mercado de colocação profissional especializado em cargos de primeiro escalão neste ano foi movimentado pelo setor de "private equity", segundo levantamento da Page Executive, empresa do PageGroup, que também é dono da Michael Page.
O crescimento tímido de 5% em 2012, resultado de um primeiro semestre fraco, com retomada no segundo semestre, é atribuído à necessidade de mudanças orientadas pela chegada de um fundo investidor ou pela simples expectativa, segundo Fernando Andraus, da Page Executive.
A empresa é especializada em recrutar presidentes e diretoria financeira, de operações, comercial e de RH.
"Entre nossos clientes, 10% já têm movimentação motivada por um fundo de 'private equity'. Muitas são empresas familiares ou médias se preparando para a venda."
A participação de empresas com faturamento anual de R$ 100 milhões a R$ 500 milhões na demanda por altos executivos saiu de 22% em 2011 para 34% em 2012, segundo a pesquisa.
Neste ano, a procura por CFOs (diretores financeiros), que representa 20% do total, cresceu 50% ante 2011.
"Em geral, quando há mudança societária, os primeiros cargos que se movimentam são presidente e CFO."
50% foi o crescimento da demanda por diretores financeiros em 2012, ante 2011
20% é quanto representa a procura por diretores financeiros em relação ao total da demanda da empresa
10% é a parcela dos clientes que têm movimentação motivada pela chegada de um fundo de 'private equity'
5% é o crescimento esperado pela empresa de recrutamento neste ano em volume de projetos
REMÉDIO NO AEROPORTO
Após a mudança para a gestão privada, o aeroporto de Brasília manteve o programa de flexibilização de tarifas para armazenar remédios importados que a Infraero praticava com as farmacêuticas, segundo o Sindusfarma (entidade do setor).
No Galeão e demais aeroportos operados pela Infraero, a base de preços também não será alterada. O Sindusfarma aguarda a posição da concessionária de Viracopos.
Já a concessionária que assumiu a gestão do aeroporto de Guarulhos decidiu, na última semana, que não manterá a política de preços.
A concessionária informa que a flexibilização estava restrita a apenas um setor e que, para "manter a equidade de condições entre todos os clientes do aeroporto que usam o terminal de cargas", adotará diretrizes estabelecidas pela Anac para as tarifas.
Segundo o Sindusfarma, com o volume de remédios importados pelos terminais aeroportuários do Estado de São Paulo, de US$ 2 bilhões por ano, o aumento das tarifas elevará os custos das empresas de US$ 10,61 milhões para US$ 33 milhões por ano.
PORTAS ABERTAS
A empresa de móveis planejados Ornare pretende abrir mais de 15 lojas no Brasil por meio da expansão de franquias nos próximos anos. Em 2012, foram Fortaleza, Recife, Ribeirão Preto, Campinas e outra unidade até o final do ano.
No ano que vem, serão outras sete, segundo Murillo Schattan, presidente da empresa. "Queremos, por meio dessa expansão, aumentar a nossa rede de relacionamento com arquitetos em todo o país", afirma.
Os investimentos serão acompanhados de uma nova linha de portas de passagem para casa.
"Para isso, fizemos uma parceria com uma empresa italiana", afirma.
CONTENÇÃO DE DESPESAS
A maioria dos britânicos acredita não ter sido afetada pelos cortes de gastos realizados por seu governo, de acordo com uma pesquisa da consultoria Ipsos.
Dos entrevistados, 59% acham que os cortes em gastos públicos não tiveram impacto em suas vidas, mas 61% estão preocupados com o próprio futuro econômico.
Em relação aos 12 meses anteriores, 43% creem estar em pior situação financeira e apenas 14% acreditam que houve melhora.
Apesar de a maioria não ter sentido diferenças nos serviços públicos no período, 69% dos entrevistados disseram acreditar que estes vão auxiliar menos pessoas nos próximos anos.
O levantamento foi realizado com 1.009 pessoas.
MAIS VAGAS NA AVENIDA
O camarote Brahma de São Paulo vai ampliar seu espaço no Carnaval do ano que vem.
Terá capacidade para receber 5.000 pessoas após a incorporação da arquibancada do setor J do sambódromo.
Serão mil pessoas a mais que na edição anterior, de acordo com a BBHouse, organizadora.
Nas ruas...
A Perto, fabricante brasileira de caixas eletrônicos, irá instalar seu 2.500º equipamento na Índia. Os aparelhos estão em sete Estados e 12 cidades do país.
...da Índia
Para atender a demanda indiana, a empresa investirá US$ 65 milhões na construção de uma fábrica no país, em Jaipur. No mês passado, a companhia inaugurou seu escritório em Mumbai.
China vai crescer - ALBERTO TAMER
O Estado de S.Paulo - 22/11
A liderança na China vai encontrar um PIB em recuperação após dois trimestres de recuo, e não deve mudar a política econômica porque seus novos desafios, além da corrupção, são sociais, emprego, salário, que só se enfrentam de forma eficaz com mais crescimento. A política econômica deu certo, o valor do PIB passou de US$1,5 trilhão em 2002 para US$ 8,3 trilhões. Com sinais de tensão social aumentando e reações populares contidas pelo governo, como no caso das manifestações em favor a Primavera Árabe, o caminho é crescer.
Em comunicado oficial, o Partido Comunista chinês afirmou que vai "insistir na decisão de avançar firmemente, prestaremos mais atenção em manter um crescimento constante." "O Produto Interno Bruto (PIB) da China deve ultrapassar 8% no próximo ano devido ao aumento do crescimento doméstico", disse Lu Zhongyuan, vice-diretor do Centro de Pesquisa de Desenvolvimento do Conselho de Estado, no ultimo domingo.
Ásia ajuda. Para a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, não só a economia chinesa, mas a dos outros países do Sudeste Asiático deve crescer mais, impedindo um PIB mundial menor. A estimativa é de pelo menos 6,3% em 2013 e nos próximos cinco anos.
Os emergentes asiáticos não enfrentam os mesmos desafios de déficits fiscais e um endividamento elevado, como os Estados Unidos e a Europa. E estão adotando a política recomendada pelo G-20, de aumentar investimentos e gastos e estímulos e não austeridade para equilibrar a desaceleração mundial.
Brasil beneficiado. A retomada de um crescimento sustentado na China é importante para o Brasil porque esse é, na verdade, um dos únicos mercados em expansão comercial. As exportações se baseiam em commodities, principalmente alimentos que se retraem nos países em crise e se expandem para a China. Ela adotou uma novo modelo de crescimento, voltado para o aumento da demanda interna, o que implica em mais consumo de alimentos. É o que mostra, por exemplo, a colega Raquel Landim, em matéria da última segunda-feira. A China já se tornou praticamente a principal importadora de produtos agrícolas. De tudo o que exportamos nesse setor no primeiro semestre, 24,3% foi para a China. (Para a União Europeia, 24,6%). Em 2008 a participação era de apenas 11,5%, informa o estudo do Conselho Empresarial Brasil-China. O comércio agrícola entre os dois países duplicou em três anos, passando de US$ 8 bilhões em 2008 para US$ 18 bilhões no ano passado. Há uma distorção, quase tudo é soja, 66,7%, seguido de açúcar e pasta de madeira. Essa dependência de um país e um produto preocupa, mas mais grave se o novo governo chinês não reafirmasse a política de continuar crescendo via aumento do consumo. Não se pode contar nem com a União Europeia nem com os Estados Unidos
Outra frente. Outra frente que a China apresenta, tema da Conferência Internacional do Conselho Empresarial Brasil-China, realizada ontem em S.Paulo, são as oportunidades de investimentos chineses no País. Estima-se 60 projetos de empresas chinesas interessadas em investir no país. Muitos foram anunciados entre 2007 e junho de 2012 de valores acima de US$ 50 milhões, diz o Cebec, dos quais 65% estariam confirmados. Isso somaria em tese cerca de US$ 24 bilhões. De quando até quando? Não se sabe. Há muito otimismo nesses números. Segundo o Banco Central, o estoque de investimentos chinês passou de US$ 8,5 bilhões para US$ 10,4 bilhões (considerando empresas chinesas em outros países). A maior parte, já conhecida, 66%, está em petróleo e gás mineral, extração de minerais metálicos (17%) e, o que é novo, 17% em serviços financeiros, um campo que se abre agora, diz Sergio Amaral, presidente do Cebec. Na verdade, de tudo o que as empresas chinesas anunciaram, há muito está ainda que pode ser investido no país.
E surgem questões delicadas como a reação do Brasil à agressividade comercial chinesa no mercado interno e as medidas de defesa adotadas pelo governo brasileiro para proteger sua indústria. E isso sem contar a questão agrícola. Os chineses querem comprar grandes extensões de terras para produzir soja e outros produtos dos quais são grandes consumidores no Brasil. Para a Confederação Nacional da Agricultura, estamos perdendo investimentos nessa área já que não podemos atender a toda demanda chinesa. Para a indústria, essas concessões não podem ser feitas enquanto a China continuar exportando mais 70% de produtos manufaturados a preços reduzidos favorecidos por custos aviltados e pelo protecionismo e importando commodities e alimentos.
Transparência já! - GUILHERME AFIF DOMINGOS
FOLHA DE SP - 22/11
A aprovação da lei que obriga que o consumidor possa ver na nota fiscal o valor dos impostos é uma grande vitória. Agora é torcer pela sanção de Dilma
No dia 13, a Câmara aprovou um projeto de lei que é uma revolução na relação entre Estado e sociedade.
O texto obriga que o consumidor seja informado sobre o valor dos impostos federais, municipais e estaduais que incidem sobre mercadorias ou serviços adquiridos.
Dentre as muitas distorções do sistema tributário brasileiro (como alíquotas elevadas, superposição de tributos, complexidade, burocracia e regressividade), podemos acrescentar a falta de transparência, que impede que a população saiba quanto e como está pagando seus impostos.
Considerando a importância de o cidadão ter clara noção de que é um contribuinte -e tem o direito de exigir contrapartida do Estado pelos impostos que paga-, apresentei, quando deputado constituinte, proposta que se transformou no quinto parágrafo do artigo 150 da Constituição.
O texto: "A lei determinará medidas para que os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e serviços". Esperava que na reforma tributária fosse dada transparência à tributação, cumprindo o dispositivo constitucional.
Passados muitos anos, a reforma não ocorreu e todas as mudanças realizadas no sistema tributário só aumentaram a falta de transparência.
Em 2006, quando presidente da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo, lançamos o De Olho no Imposto, para mobilizar a população e cobrar a regulamentação do texto constitucional.
O movimento coletou mais de 1,5 milhão de assinaturas. Elas foram entregues ao então presidente do Senado, Renan Calheiros, que assumiu a paternidade do texto, referendado pelos líderes partidários.
A tramitação do projeto na Câmara foi muito demorada em virtude de resistências do Fisco em expor a enorme magnitude da tributação dos bens e serviços. Essa barreira foi vencida somente agora, graças ao empenho de parlamentares como os deputados Guilherme Campos e Walter Ihoshi (ambos PSD-SP) e das pressões das associações comerciais e de outras entidades empresariais e de trabalhadores.
A sistemática prevista na lei não pretende criar burocracia adicional para o comércio, uma vez que o cálculo dos impostos será feito por estimativa e elaborado por órgãos especializados, como o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário. A informação virá automaticamente, quando da emissão dos documentos fiscais das transações.
O objetivo da medida é permitir ao consumidor saber o quanto paga de impostos e mostrar que sua posição de contribuinte lhe dá o direito à cidadania plena: o poder de cobrar serviços e o dever de fiscalizar como são aplicados os tributos. E levando-se em conta que se trata de uma matéria de relações de consumo e não tributária, seria de grande valia se o texto fosse regulamentado pelas áreas de defesa do consumidor.
A lei é um passo indispensável, mas cabe às entidades iniciarem campanha para esclarecer empresários e consumidores sobre a importância de implementar a transparência tributária e, principalmente, difundir à população a consciência de que ela contribui para a sustentação do Estado e que por isso tem o direito à contrapartida. O lema da campanha De Olho no Imposto deve ser resgatado: "Pago, logo exijo".
O projeto de lei vem ao encontro da legalidade, pois regulamenta o que está na Constituição desde 1988. É totalmente democrático, pois foi gerado pela iniciativa popular, aprovado no Senado e na Câmara e leva transparência à população. Vamos torcer agora pela sanção da presidenta Dilma Rousseff.
A aprovação da lei que obriga que o consumidor possa ver na nota fiscal o valor dos impostos é uma grande vitória. Agora é torcer pela sanção de Dilma
No dia 13, a Câmara aprovou um projeto de lei que é uma revolução na relação entre Estado e sociedade.
O texto obriga que o consumidor seja informado sobre o valor dos impostos federais, municipais e estaduais que incidem sobre mercadorias ou serviços adquiridos.
Dentre as muitas distorções do sistema tributário brasileiro (como alíquotas elevadas, superposição de tributos, complexidade, burocracia e regressividade), podemos acrescentar a falta de transparência, que impede que a população saiba quanto e como está pagando seus impostos.
Considerando a importância de o cidadão ter clara noção de que é um contribuinte -e tem o direito de exigir contrapartida do Estado pelos impostos que paga-, apresentei, quando deputado constituinte, proposta que se transformou no quinto parágrafo do artigo 150 da Constituição.
O texto: "A lei determinará medidas para que os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e serviços". Esperava que na reforma tributária fosse dada transparência à tributação, cumprindo o dispositivo constitucional.
Passados muitos anos, a reforma não ocorreu e todas as mudanças realizadas no sistema tributário só aumentaram a falta de transparência.
Em 2006, quando presidente da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo, lançamos o De Olho no Imposto, para mobilizar a população e cobrar a regulamentação do texto constitucional.
O movimento coletou mais de 1,5 milhão de assinaturas. Elas foram entregues ao então presidente do Senado, Renan Calheiros, que assumiu a paternidade do texto, referendado pelos líderes partidários.
A tramitação do projeto na Câmara foi muito demorada em virtude de resistências do Fisco em expor a enorme magnitude da tributação dos bens e serviços. Essa barreira foi vencida somente agora, graças ao empenho de parlamentares como os deputados Guilherme Campos e Walter Ihoshi (ambos PSD-SP) e das pressões das associações comerciais e de outras entidades empresariais e de trabalhadores.
A sistemática prevista na lei não pretende criar burocracia adicional para o comércio, uma vez que o cálculo dos impostos será feito por estimativa e elaborado por órgãos especializados, como o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário. A informação virá automaticamente, quando da emissão dos documentos fiscais das transações.
O objetivo da medida é permitir ao consumidor saber o quanto paga de impostos e mostrar que sua posição de contribuinte lhe dá o direito à cidadania plena: o poder de cobrar serviços e o dever de fiscalizar como são aplicados os tributos. E levando-se em conta que se trata de uma matéria de relações de consumo e não tributária, seria de grande valia se o texto fosse regulamentado pelas áreas de defesa do consumidor.
A lei é um passo indispensável, mas cabe às entidades iniciarem campanha para esclarecer empresários e consumidores sobre a importância de implementar a transparência tributária e, principalmente, difundir à população a consciência de que ela contribui para a sustentação do Estado e que por isso tem o direito à contrapartida. O lema da campanha De Olho no Imposto deve ser resgatado: "Pago, logo exijo".
O projeto de lei vem ao encontro da legalidade, pois regulamenta o que está na Constituição desde 1988. É totalmente democrático, pois foi gerado pela iniciativa popular, aprovado no Senado e na Câmara e leva transparência à população. Vamos torcer agora pela sanção da presidenta Dilma Rousseff.
O triste fim da CPI do talião - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 22/11
O triste fim da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dita do Cachoeira foi anunciado desde o princípio. Em abril, quando foi noticiada sua instalação, cumpridas as formalidades burocráticas para tanto, sabia-se que ela tinha tudo para morrer pagã como nasceu: sem a simpatia das bancadas de apoio ao governo nem a aprovação dos partidos da chamada oposição. Logo se percebeu, contudo, que ela tinha padrinho forte: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, respaldado pela presidente Dilma Rousseff, que ele escolheu e elegeu para o lugar que deixava, e temido pelos oposicionistas por causa de seus astronômicos índices de popularidade. Já então se sabia que o patrono faria dela um instrumento pessoal de vingança contra um dos políticos comprometidos na cadernetinha do bicheiro goiano Carlinhos Cachoeira - o governador tucano de Goiás, Marconi Perillo. Lula nunca escondeu os ressentimentos guardados contra Perillo, que havia tornado público o fato de haver alertado o então presidente para a compra de votos para apoio ao governo no Congresso, que se tornaria conhecida como o escândalo do mensalão.
Àquela ocasião, já se conhecia a desgraça em que havia caído outro desafeto de figurões petistas, o senador Demóstenes Torres (então do Democratas de Goiás), que escondia atrás de seu desempenho de caçador de corruptos a condição de despachante de luxo do meliante flagrado pela Polícia Federal (PF) na Operação Monte Carlo. Lula não se deixou deter pelas evidências de que uma CPI daquelas poderia revelar relações espúrias entre altos hierarcas do governo federal e a construtora Delta, de Fernando Cavendish, amigo de todas as horas de um poderoso chefe político aliado, o governador fluminense Sérgio Cabral, do PMDB.
Nestes últimos meses, em que Perillo teve sua conexão com o bicheiro influente devassada, outros elementos foram sendo acrescentados à retaliação petista. Em nenhum momento a CPI se mostrou interessada em desvendar o propinoduto óbvio da Delta, azeitando as engrenagens do poder na máquina pública. Mas não perdeu uma oportunidade de focar também personalidades que, de alguma forma, contribuíram para revelar os malfeitos da companheirada.
O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, autor do libelo acusatório do escândalo do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), caiu nesta malha grossa por não ter autorizado a continuação das investigações da Operação Vegas, da mesma PF, que apontou os primeiros indícios de ligação do contraventor com parlamentares, entre os quais o citado Demóstenes Torres.
Um dos membros da CPI, o senador Fernando Collor, fez o que pôde para desqualificar o trabalho de Gurgel no julgamento histórico e delatou outro desafeto importante dos antigos inimigos petistas, o chefe da Sucursal da Veja em Brasília, Policarpo Junior. A existência do número do telefone de Policarpo na memória do celular do bicheiro bastou para que o jornalista, autor de várias reportagens que desagradaram ao PT, Lula e à cúpula do governo Dilma, passasse a ser réu em potencial.
Sem nada ter apurado sobre as evidências da ação nefasta da Delta, o relator governista Odair Cunha (PT-MG) recomendou que o assunto seja tratado por outra CPI. Ainda assim, optou pelo caminho mais cômodo de pedir o indiciamento do proprietário da empresa, que, apesar de considerada inidônea pelo Tribunal de Contas da União, é vice-campeã entre contratados para obras federais.
Na companhia dele e de mais 46 indiciados não estão os governadores ligados à base governista Agnelo Queiroz (PT-DF) e Sérgio Cabral (PMDB-RJ), mas Perillo, Demóstenes, é claro, e o prefeito petista de Palmas, Raul Filho, na certa para disfarçar a impunidade garantida a outros companheiros e aliados mais poderosos. Policarpo foi indiciado pelo relator Odair Cunha por "formação de quadrilha", porque "sabia dos interesses da quadrilha".
O relatório prova que Cachoeira foi só pretexto. Seu nome não deveria ter sido invocado. O título correto seria CPI do talião: olho por olho, dente por dente.
Na Argentina, cerco à democracia - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 22/11
O que se quer não é trabalhar com a realidade: é impor uma ideia. Se ela não corresponde à realidade, pior para a realidade
A primeira greve geral do período kirchnerista acaba de dizer à presidente da Argentina que a sua versão dos fatos já não é comprada por boa parte da população. É a mesma mensagem do “caçarolaço” de semanas atrás, e que levou um milhão de pessoas às ruas das principais cidades argentinas. A greve geral, comandada pelos sindicatos em oposição ao governo, tinha como um de seus temas principais a taxa de inflação, que a Casa Rosada manipula, o que significa um confisco monetário aplicado aos aposentados e às classes mais pobres da população.
Face a essa insatisfação que vai deixando de ser silenciosa, o governo até agora opta pelo confronto. “Vamos por tudo” — é a declaração de guerra da presidente. E todas as armas são usadas nessa direção. Tenta-se a todo custo desmontar o equilíbrio dos Poderes (a esta altura já bastante afetado). Ataca-se o Conselho de Magistratura. Casos polêmicos que interessam ao Estado vão sempre parar, misteriosamente, nas mãos dos mesmos juízes.
A economia desacelera, sem que se possa falar em descalabro iminente. Há três câmbios, e o paralelo já está perto de 7 pesos por dólar.
O clima geral é de opressão indisfarçável. Toda crítica, venha de onde vier, é tomada como demonstração de hostilidade. Criou-se o maniqueísmo total: ou você é aliado, ou é inimigo da democracia, e merece todas as punições. Como instrumento de pressão atuam os agentes do Fisco, prontos para desembarcar em qualquer empresa que se dê ao luxo de reclamar.
O jornalismo tradicional passa a ser o inimigo número um. O que se quer é o jornalismo militante, que trabalhe como força auxiliar do governo. Trata-se não de lidar com a realidade, de tentar compreendê-la, e sim de impor uma ideia. Se a realidade não combina com isso, pior para a realidade.
Nesse clima, que é quase de terror, não sofre apenas o jogo político. Espalha-se uma atmosfera de fanatismo que entra até nos meios familiares — amigos e parentes que deixam de se falar porque têm opiniões contrárias. O que se tenta, sem muito disfarce, é desarticular a própria máquina do Estado, de modo que todas as manipulações sejam possíveis.
Tudo será feito para tentar destruir realidades como o jornalismo independente. É o caso da “Lei de Medios”, que trata das comunicações, e que, contra o grupo “Clarín”, acena com o já famoso 7 de dezembro — data em que o grupo teria de abrir mão de parte de suas operações. É um assunto que está sendo tratado na Corte Suprema, e, em tese, uma vez confirmado o prazo, o “Clarín” teria pelo menos um ano para adaptar-se às novas regras. Mas há o temor de que isto seja atropelado pelos fatos, tão grande é a sanha do oficialismo em relação ao grupo.
O que se quer não é trabalhar com a realidade: é impor uma ideia. Se ela não corresponde à realidade, pior para a realidade
A primeira greve geral do período kirchnerista acaba de dizer à presidente da Argentina que a sua versão dos fatos já não é comprada por boa parte da população. É a mesma mensagem do “caçarolaço” de semanas atrás, e que levou um milhão de pessoas às ruas das principais cidades argentinas. A greve geral, comandada pelos sindicatos em oposição ao governo, tinha como um de seus temas principais a taxa de inflação, que a Casa Rosada manipula, o que significa um confisco monetário aplicado aos aposentados e às classes mais pobres da população.
Face a essa insatisfação que vai deixando de ser silenciosa, o governo até agora opta pelo confronto. “Vamos por tudo” — é a declaração de guerra da presidente. E todas as armas são usadas nessa direção. Tenta-se a todo custo desmontar o equilíbrio dos Poderes (a esta altura já bastante afetado). Ataca-se o Conselho de Magistratura. Casos polêmicos que interessam ao Estado vão sempre parar, misteriosamente, nas mãos dos mesmos juízes.
A economia desacelera, sem que se possa falar em descalabro iminente. Há três câmbios, e o paralelo já está perto de 7 pesos por dólar.
O clima geral é de opressão indisfarçável. Toda crítica, venha de onde vier, é tomada como demonstração de hostilidade. Criou-se o maniqueísmo total: ou você é aliado, ou é inimigo da democracia, e merece todas as punições. Como instrumento de pressão atuam os agentes do Fisco, prontos para desembarcar em qualquer empresa que se dê ao luxo de reclamar.
O jornalismo tradicional passa a ser o inimigo número um. O que se quer é o jornalismo militante, que trabalhe como força auxiliar do governo. Trata-se não de lidar com a realidade, de tentar compreendê-la, e sim de impor uma ideia. Se a realidade não combina com isso, pior para a realidade.
Nesse clima, que é quase de terror, não sofre apenas o jogo político. Espalha-se uma atmosfera de fanatismo que entra até nos meios familiares — amigos e parentes que deixam de se falar porque têm opiniões contrárias. O que se tenta, sem muito disfarce, é desarticular a própria máquina do Estado, de modo que todas as manipulações sejam possíveis.
Tudo será feito para tentar destruir realidades como o jornalismo independente. É o caso da “Lei de Medios”, que trata das comunicações, e que, contra o grupo “Clarín”, acena com o já famoso 7 de dezembro — data em que o grupo teria de abrir mão de parte de suas operações. É um assunto que está sendo tratado na Corte Suprema, e, em tese, uma vez confirmado o prazo, o “Clarín” teria pelo menos um ano para adaptar-se às novas regras. Mas há o temor de que isto seja atropelado pelos fatos, tão grande é a sanha do oficialismo em relação ao grupo.
CPI da insensatez - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 22/11
Quando nada mais se esperava da CPI do caso Cachoeira, o deputado Odair Cunha (PT-MG), relator da comissão, encontrou um modo canhestro de surpreender a todos.
No relatório final que começou a ler ontem, Cunha conferiu a essa CPI duas características inusitadas: as conclusões atestam que os parlamentares foram incapazes de avançar em relação às apurações da Polícia Federal; e seu relator lhe dá o arremate insensato de pedir o indiciamento de pessoas que nem sequer foram investigadas.
Esse é o caso de Policarpo Junior, redator-chefe e diretor da sucursal brasiliense da revista "Veja". Cunha alegou que as "investigações" sobre Junior teriam permitido estabelecer que a relação entre ele e Carlos Cachoeira (condenado anteontem, em primeira instância, por formação de quadrilha e tráfico de influência) não era apenas a de um jornalista com sua fonte.
Como o deputado chegou a essa conclusão é difícil dizer, já que Policarpo Junior, repita-se, não foi investigado nem chamado a depor no Congresso -o que seria uma inaceitável tentativa de intimidação.
O mais provável é que o petista estivesse fazendo uma mesura à ala liderada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ávida por fustigar opositores e imprensa.
Se essa razão explica o desatino, em nada contribui para melhorar a imagem de Cunha. O deputado aceitou desmoralizar de vez a CPI, rebaixando um poderoso instrumento de investigação a mecanismo de vingança política.
Não é por outro motivo que o relatório final pede o indiciamento do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), mas poupa o do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT).
A mesma lógica decerto presidiu a inclusão, no documento, do procurador-geral da República, Roberto Gurgel -ele redigiu as alegações finais da denúncia do mensalão.
Com tanto desequilíbrio, não surpreende que diversos parlamentares tenham pedido a interrupção da leitura do relatório. Diante das discordâncias, Cunha admitiu alterar alguns pontos de sua peça.
É bom que o faça. Seria ingenuidade, porém, esperar que o documento afinal venha a espelhar o propósito oficial dessa CPI: averiguar as ligações de Carlinhos Cachoeira com políticos de várias legendas -algo que não interessa a quase ninguém no Congresso.
O que não interessa à sociedade, contudo, é ver a desfaçatez institucionalizada: a irrelevância já é um final lamentável para a CPI, mas seu completo desvirtuamento será um desserviço ainda maior.
Quando nada mais se esperava da CPI do caso Cachoeira, o deputado Odair Cunha (PT-MG), relator da comissão, encontrou um modo canhestro de surpreender a todos.
No relatório final que começou a ler ontem, Cunha conferiu a essa CPI duas características inusitadas: as conclusões atestam que os parlamentares foram incapazes de avançar em relação às apurações da Polícia Federal; e seu relator lhe dá o arremate insensato de pedir o indiciamento de pessoas que nem sequer foram investigadas.
Esse é o caso de Policarpo Junior, redator-chefe e diretor da sucursal brasiliense da revista "Veja". Cunha alegou que as "investigações" sobre Junior teriam permitido estabelecer que a relação entre ele e Carlos Cachoeira (condenado anteontem, em primeira instância, por formação de quadrilha e tráfico de influência) não era apenas a de um jornalista com sua fonte.
Como o deputado chegou a essa conclusão é difícil dizer, já que Policarpo Junior, repita-se, não foi investigado nem chamado a depor no Congresso -o que seria uma inaceitável tentativa de intimidação.
O mais provável é que o petista estivesse fazendo uma mesura à ala liderada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ávida por fustigar opositores e imprensa.
Se essa razão explica o desatino, em nada contribui para melhorar a imagem de Cunha. O deputado aceitou desmoralizar de vez a CPI, rebaixando um poderoso instrumento de investigação a mecanismo de vingança política.
Não é por outro motivo que o relatório final pede o indiciamento do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), mas poupa o do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT).
A mesma lógica decerto presidiu a inclusão, no documento, do procurador-geral da República, Roberto Gurgel -ele redigiu as alegações finais da denúncia do mensalão.
Com tanto desequilíbrio, não surpreende que diversos parlamentares tenham pedido a interrupção da leitura do relatório. Diante das discordâncias, Cunha admitiu alterar alguns pontos de sua peça.
É bom que o faça. Seria ingenuidade, porém, esperar que o documento afinal venha a espelhar o propósito oficial dessa CPI: averiguar as ligações de Carlinhos Cachoeira com políticos de várias legendas -algo que não interessa a quase ninguém no Congresso.
O que não interessa à sociedade, contudo, é ver a desfaçatez institucionalizada: a irrelevância já é um final lamentável para a CPI, mas seu completo desvirtuamento será um desserviço ainda maior.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Vamos agora convocar o Cachoeira para ver se ele fala na CPI”
Deputado Sílvio Costa (PTB-PE) que defende o adiamento do término da comissão
REFORMA MINISTERIAL, EM FEVEREIRO, SERÁ MODERADA
A presidente Dilma somente vai promover alterações em seu ministério a partir de fevereiro de 2013, após as eleições para as mesas diretoras do Senado e da Câmara dos Deputados. Ainda assim, a “reforma ministerial” será bem mais moderada do que se espera. As mudanças devem ser pontuais, como na Casa Civil, com a saída da ministra Gleisi Hoffmann para preparar sua candidatura ao governo do Paraná.
PMDB AVANÇA
O PMDB espera ganhar espaço maior no governo, por isso pretende indicar o futuro ministro dos Transportes.
BOCA DE ESPERA
Gabriel Chalita (PMDB-SP), se quiser, será ministro de Ciência e Tecnologia, mas o partido acha a oferta “modesta” para o deputado.
ACOMODAÇÕES
A presidente Dilma pretende também acomodar o PSD de Gilberto Kassab em seu ministério, e dar mais espaço ao PSB.
PARTIDOS CIENTES
A decisão da presidente de não promover uma reforma ministerial ampla já foi comunicada aos principais partidos de sua base.
EIKE GANHA R$ 267 MILHÕES COM FRACASSO ESTATAL
Com os R$ 267 milhões que o BNDES vai injetar na fábrica de semicondutores SIX, de Eike Batista, o governo federal soma quase R$ 1 bilhão investidos no “Vale do Silício” tupiniquim, que ainda não produziu um só tablet. Inaugurada por Lula em 2009, a estatal de chips Ceitec, ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, já consumiu mais de R$ 600 milhões com a promessa de “impulsionar” a microeletrônica.
CYBERTARTARUGA
A Ceitec virou pé de página, com atrasos no cronograma, problemas de transferência de tecnologia e de gestão num setor altamente deficitário.
TÔ FORA
O alemão Eduard Weichselbaumer, que presidia a estatal, se mandou para a Califórnia em 2010, criticando “aparelhamento” e “defasagem”.
PASSAPORTE
O maior sucesso da Ceitec é o contrato assinado este ano com a Casa da Moeda para utilizar os chips nos novos passaportes brasileiros.
PARECIAM ALIADOS
O senador e presidenciável Aécio Neves (PSDB-MG) teve um encontro efusivo, ontem, com outra jovem liderança, o deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP), no restaurante A Bela Sintra, de Brasília. Efusivo demais.
NOMENCLATURA
A vice-presidente da Câmara dos Deputados, Rose de Freitas (PMDB-ES), soprou “presidenta” quando o locutor anunciou a “presidente” da Petrobras, Graça Foster, na entrega da medalha do Mérito Legislativo.
CARLOS ALBERTO PRESIDENTE
Primeiro ministro negro do Tribunal Superior do Trabalho, Carlos Alberto Reis de Paula será eleito presidente no dia 12 e assume em 5 de março. É mestre e doutor em Direito e torcedor do América-MG.
COM INDEPENDÊNCIA...
Por oito meses, entre 2011 e 2012, a empresa Delta anunciou no site claudiohumberto.com.br, como em inúmeros outros veículos. A relação comercial não afetou a independência editorial, como mostram as 278 notícias publicadas, quase todas negativas, por respeito aos fatos.
..E SEM ACUSAÇÃO
Em seu relatório, a CPI do Cachoeira conclui: “(...) entendemos que o jornalista Cláudio Humberto não praticou qualquer conduta que seja de molde a merecer, em nossa avaliação, responsabilização por parte dessa CPMI.” Dar aspecto de “denúncia” a isso é manipular a verdade.
VOZ DO BOM SENSO
A senadora Ana Amélia (PP-RS) critica o Fórum Social Palestina Livre, que o governador Tarso Genro (PT) banca em Porto Alegre, dia 28, durante pleno conflito no Oriente Médio: “Relações diplomáticas são políticas de Estado e um gaúcho, Osvaldo Aranha, reconheceu Israel em 1948”.
SOB PRESSÃO
A bancada do PMDB entregou ontem ao líder Henrique Alves (RN) documento com a assinatura de 68 deputados pedindo a antecipação para dezembro da escolha do novo líder do partido na Câmara.
MUITO A AVANÇAR
O Nordeste precisa crescer 20% sobre o PIB nacional por vinte anos, só para empatar com o crescimento do País, lembrou Luiz Gonzaga Paes Landim, superintendente da Sudene, no dia em que o Senado aprovou a nova estrutura do órgão.
PERGUNTA EM HONDURAS
Só falta o chapéu ou Lula está a cara grisalha do ex-presidente defenestrado de Honduras Manuel Zelaya?
PODER SEM PUDOR
QUE SATISFAÇÃO!
Quase um ano depois da morte do chefe político nordestino Pedro Badoque, uma comissão de inquérito da ditadura sugeriu o confisco dos seus bens. Ministro da Justiça, Petrônio Portella temia uma injustiça contra a família do morto. Pediu provas. E um atestado de óbito. Dias depois, ele recebeu um ofício da Polícia Federal: "Senhor Ministro, temos a satisfação de encaminhar o laudo cadavérico do sr. Pedro Badoque" etc. Petrônio sapecou um despacho na parte de cima do papel:
- Que mórbida satisfação!
Deputado Sílvio Costa (PTB-PE) que defende o adiamento do término da comissão
REFORMA MINISTERIAL, EM FEVEREIRO, SERÁ MODERADA
A presidente Dilma somente vai promover alterações em seu ministério a partir de fevereiro de 2013, após as eleições para as mesas diretoras do Senado e da Câmara dos Deputados. Ainda assim, a “reforma ministerial” será bem mais moderada do que se espera. As mudanças devem ser pontuais, como na Casa Civil, com a saída da ministra Gleisi Hoffmann para preparar sua candidatura ao governo do Paraná.
PMDB AVANÇA
O PMDB espera ganhar espaço maior no governo, por isso pretende indicar o futuro ministro dos Transportes.
BOCA DE ESPERA
Gabriel Chalita (PMDB-SP), se quiser, será ministro de Ciência e Tecnologia, mas o partido acha a oferta “modesta” para o deputado.
ACOMODAÇÕES
A presidente Dilma pretende também acomodar o PSD de Gilberto Kassab em seu ministério, e dar mais espaço ao PSB.
PARTIDOS CIENTES
A decisão da presidente de não promover uma reforma ministerial ampla já foi comunicada aos principais partidos de sua base.
EIKE GANHA R$ 267 MILHÕES COM FRACASSO ESTATAL
Com os R$ 267 milhões que o BNDES vai injetar na fábrica de semicondutores SIX, de Eike Batista, o governo federal soma quase R$ 1 bilhão investidos no “Vale do Silício” tupiniquim, que ainda não produziu um só tablet. Inaugurada por Lula em 2009, a estatal de chips Ceitec, ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, já consumiu mais de R$ 600 milhões com a promessa de “impulsionar” a microeletrônica.
CYBERTARTARUGA
A Ceitec virou pé de página, com atrasos no cronograma, problemas de transferência de tecnologia e de gestão num setor altamente deficitário.
TÔ FORA
O alemão Eduard Weichselbaumer, que presidia a estatal, se mandou para a Califórnia em 2010, criticando “aparelhamento” e “defasagem”.
PASSAPORTE
O maior sucesso da Ceitec é o contrato assinado este ano com a Casa da Moeda para utilizar os chips nos novos passaportes brasileiros.
PARECIAM ALIADOS
O senador e presidenciável Aécio Neves (PSDB-MG) teve um encontro efusivo, ontem, com outra jovem liderança, o deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP), no restaurante A Bela Sintra, de Brasília. Efusivo demais.
NOMENCLATURA
A vice-presidente da Câmara dos Deputados, Rose de Freitas (PMDB-ES), soprou “presidenta” quando o locutor anunciou a “presidente” da Petrobras, Graça Foster, na entrega da medalha do Mérito Legislativo.
CARLOS ALBERTO PRESIDENTE
Primeiro ministro negro do Tribunal Superior do Trabalho, Carlos Alberto Reis de Paula será eleito presidente no dia 12 e assume em 5 de março. É mestre e doutor em Direito e torcedor do América-MG.
COM INDEPENDÊNCIA...
Por oito meses, entre 2011 e 2012, a empresa Delta anunciou no site claudiohumberto.com.br, como em inúmeros outros veículos. A relação comercial não afetou a independência editorial, como mostram as 278 notícias publicadas, quase todas negativas, por respeito aos fatos.
..E SEM ACUSAÇÃO
Em seu relatório, a CPI do Cachoeira conclui: “(...) entendemos que o jornalista Cláudio Humberto não praticou qualquer conduta que seja de molde a merecer, em nossa avaliação, responsabilização por parte dessa CPMI.” Dar aspecto de “denúncia” a isso é manipular a verdade.
VOZ DO BOM SENSO
A senadora Ana Amélia (PP-RS) critica o Fórum Social Palestina Livre, que o governador Tarso Genro (PT) banca em Porto Alegre, dia 28, durante pleno conflito no Oriente Médio: “Relações diplomáticas são políticas de Estado e um gaúcho, Osvaldo Aranha, reconheceu Israel em 1948”.
SOB PRESSÃO
A bancada do PMDB entregou ontem ao líder Henrique Alves (RN) documento com a assinatura de 68 deputados pedindo a antecipação para dezembro da escolha do novo líder do partido na Câmara.
MUITO A AVANÇAR
O Nordeste precisa crescer 20% sobre o PIB nacional por vinte anos, só para empatar com o crescimento do País, lembrou Luiz Gonzaga Paes Landim, superintendente da Sudene, no dia em que o Senado aprovou a nova estrutura do órgão.
PERGUNTA EM HONDURAS
Só falta o chapéu ou Lula está a cara grisalha do ex-presidente defenestrado de Honduras Manuel Zelaya?
PODER SEM PUDOR
QUE SATISFAÇÃO!
Quase um ano depois da morte do chefe político nordestino Pedro Badoque, uma comissão de inquérito da ditadura sugeriu o confisco dos seus bens. Ministro da Justiça, Petrônio Portella temia uma injustiça contra a família do morto. Pediu provas. E um atestado de óbito. Dias depois, ele recebeu um ofício da Polícia Federal: "Senhor Ministro, temos a satisfação de encaminhar o laudo cadavérico do sr. Pedro Badoque" etc. Petrônio sapecou um despacho na parte de cima do papel:
- Que mórbida satisfação!
QUINTA NOS JORNAIS
- Globo: Na CPI do Cachoeira… Relator poupa aliado, e ataca jornalista e procurador-geral
- Folha: Homicídios dobram em SP; cai secretário de Segurança
- Estadão: Governo de SP troca cúpula da Segurança; homicídios dobram
- Correio: Brasil dá hoje mais um passo à frente
- Valor: Exportadoras têm R$ 10 bi em créditos fiscais retidos
- Zero Hora: Exclusivo – Deputado Rubens Paiva ficou preso no DOI-Codi
- Estado de Minas: Macarrão acusa Bruno de mandar matar Eliza
- Jornal do Commercio: Doméstica fica mais cara
quarta-feira, novembro 21, 2012
Casas - MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 21/11
Era cedo da manhã e eu estava na sacada do meu apartamento lendo o jornal e pegando um pouco de sol. Foi quando a escavadeira começou o seu serviço. Com um barulho irritante, foi demolindo uma casa onde vivia uma velhinha miúda e briguenta. Não raro eu a via em plena calçada, de roupão, discutindo com algum vizinho. O que será que aconteceu a ela? Espero que esteja bem, mas sua casa morreu de morte matada.
No fim daquele mesmo dia, havia tudo sido posto abaixo. Pilares, paredes, telhado. Do ponto de vista de onde eu estava, a casa me pareceu pequena, uma miniatura insignificante. Mas nunca será insignificante um lugar onde foram criados filhos, onde refeições em família aconteceram, onde Natais foram celebrados, onde amigos foram recebidos e onde houve um jardim. Casas possuem algo de sagrado.
Nunca morei em casa, sempre em apartamentos que serviram de cenário para a história de vida que construí. O da Rua Fabrício Pillar, onde passei a infância, o da Dom Pedro II, onde vivi a adolescência, o da Lavras, onde morei sozinha, o da Mariz e Barros, onde escrevi meus poemas e tive minhas filhas, o da João Obino, onde as criei e comecei a escrever crônicas, e este onde vivo agora, num andar alto em que posso observar boa parte da cidade e o estrago que algumas escavadeiras fazem em volta.
Tenho ótimas lembranças dos meus ex-apartamentos, mas, se os edifícios em que se localizam fossem demolidos, a nostalgia seria repartida entre muitos, não me sentiria atingida de forma especial. Casa tem um status diferente. Cada casa é única. Traz o DNA da família. Não é produto de classificados.
Não moro em casa porque sou prática, gosto de bater a porta e não me preocupar com questões de segurança, além de fazer questão de vista panorâmica. Mas não deixo de admirar as casas de rua, casas passadas de pais para filhos, casas teimosas que se mantêm de pé a despeito das escavadeiras. Toda casa é uma sobrevivente, deveria exibir na porta uma medalha pela resistência.
Esse preâmbulo todo é pra falar do novo livro da Cintia Moscovich, Essa Coisa Brilhante que é a Chuva, onde ela reúne contos primorosos, com um humor muito peculiar e uma humanidade que nos nocauteia. O mais longo, que encerra o livro, narra a história de uma casa e de uma família.
“Uma forma de herança”, chama-se, e comove profundamente, pois traz à tona o que está mais que evidenciado: as escavadeiras andam passando por cima das nossas eternidades. Hoje não preservamos as matrizes da nossa história, viramos cidadãos dispersados, cada um sob seu teto. A solidão, quem diria, também pode ser um subproduto da especulação imobiliária.
A Feira acabou, mas os livros seguem no mercado. Anote: Essa Coisa Brilhante que é a Chuva, de Cintia Moscovich. Se você acha o título longo e difícil de guardar, decore ao menos uma palavra: brilhante.
Era cedo da manhã e eu estava na sacada do meu apartamento lendo o jornal e pegando um pouco de sol. Foi quando a escavadeira começou o seu serviço. Com um barulho irritante, foi demolindo uma casa onde vivia uma velhinha miúda e briguenta. Não raro eu a via em plena calçada, de roupão, discutindo com algum vizinho. O que será que aconteceu a ela? Espero que esteja bem, mas sua casa morreu de morte matada.
No fim daquele mesmo dia, havia tudo sido posto abaixo. Pilares, paredes, telhado. Do ponto de vista de onde eu estava, a casa me pareceu pequena, uma miniatura insignificante. Mas nunca será insignificante um lugar onde foram criados filhos, onde refeições em família aconteceram, onde Natais foram celebrados, onde amigos foram recebidos e onde houve um jardim. Casas possuem algo de sagrado.
Nunca morei em casa, sempre em apartamentos que serviram de cenário para a história de vida que construí. O da Rua Fabrício Pillar, onde passei a infância, o da Dom Pedro II, onde vivi a adolescência, o da Lavras, onde morei sozinha, o da Mariz e Barros, onde escrevi meus poemas e tive minhas filhas, o da João Obino, onde as criei e comecei a escrever crônicas, e este onde vivo agora, num andar alto em que posso observar boa parte da cidade e o estrago que algumas escavadeiras fazem em volta.
Tenho ótimas lembranças dos meus ex-apartamentos, mas, se os edifícios em que se localizam fossem demolidos, a nostalgia seria repartida entre muitos, não me sentiria atingida de forma especial. Casa tem um status diferente. Cada casa é única. Traz o DNA da família. Não é produto de classificados.
Não moro em casa porque sou prática, gosto de bater a porta e não me preocupar com questões de segurança, além de fazer questão de vista panorâmica. Mas não deixo de admirar as casas de rua, casas passadas de pais para filhos, casas teimosas que se mantêm de pé a despeito das escavadeiras. Toda casa é uma sobrevivente, deveria exibir na porta uma medalha pela resistência.
Esse preâmbulo todo é pra falar do novo livro da Cintia Moscovich, Essa Coisa Brilhante que é a Chuva, onde ela reúne contos primorosos, com um humor muito peculiar e uma humanidade que nos nocauteia. O mais longo, que encerra o livro, narra a história de uma casa e de uma família.
“Uma forma de herança”, chama-se, e comove profundamente, pois traz à tona o que está mais que evidenciado: as escavadeiras andam passando por cima das nossas eternidades. Hoje não preservamos as matrizes da nossa história, viramos cidadãos dispersados, cada um sob seu teto. A solidão, quem diria, também pode ser um subproduto da especulação imobiliária.
A Feira acabou, mas os livros seguem no mercado. Anote: Essa Coisa Brilhante que é a Chuva, de Cintia Moscovich. Se você acha o título longo e difícil de guardar, decore ao menos uma palavra: brilhante.
De PT, Ayres e egos - ZUENIR VENTURA
O GLOBO - 21/11
Foi preciso o discreto e recatado Ayres Britto se aposentar para que se prestasse atenção nele, como presidente, e não só no relator ou no revisor
Poucos dias depois que a Executiva Nacional do PT lançou uma nota oficial criticando as condenações da Ação Penal 470, vulgo mensalão, e acusando o STF de “instaurar um clima de insegurança jurídica no país”, o ex-presidente da Corte Carlos Ayres Britto, que acaba de se aposentar, deu uma longa entrevista aos repórteres Valdo Cruz e Felipe Seligman, da “Folha de S.Paulo”. Entre as duas manifestações, a do partido e a do ministro, há um abismo. Lendo o que ele disse e sabendo de sua inatacável reputação, é impossível admitir sem má-fé que esse poeta e filósofo declaradamente “contemplativo”, “espiritualista”, adepto da física quântica, da meditação e de um violão, íntegro, sereno e sensato, tenha permitido que a Casa presidida por ele tivesse sido capaz de “partidarizar” o julgamento, fazendo política em vez de justiça, entre outros desvios jurídicos como falta de isenção, “transferência do ônus da prova aos réus”, “transformação de indícios em provas”, “penas desproporcionais”.
É bom lembrar que, paradoxalmente, todas essas queixas-denúncias foram apresentadas justamente pelo partido no qual Ayres Britto militou durante 18 anos e pelo qual ainda nutre uma mal disfarçada simpatia, ressaltando, por exemplo, que o mensalão “não é o julgamento do PT; são réus que ocuparam cargos de direção no PT”. Ao analisar o que ele considera ser o esgotamento da “fase ideológica” do PSDB e do PT, com perda do que os gregos chamam de “Deus dentro da gente”, entusiasmo, ou seja, “aquele ímpeto depurador das instituições”, Britto adverte: “Não podemos ser injustos, porque o PT continua com quadros muito bons.” E cita o caso do governador Tarso Genro, “que chegou a escrever um artigo a favor do Supremo”.
Quando lhe foi perguntado se houve “traição” e se os presidentes petistas erraram nas nomeações, já que, dos dez ministros do julgamento, sete foram indicados por Lula ou Dilma, ele respondeu: “A nossa postura técnica, independente, isenta, desassombrada, é uma postura que honra os nomeantes. Não só os nomeados.” E aproveitou para esclarecer que Lula nunca “se aproximou para cobrar, fazer queixa”
Diante das homenagens que lhe estão sendo prestadas, é curioso observar que foi preciso o discreto e recatado Ayres Britto se aposentar para que se prestasse atenção nele, presidente, e não só no relator e no revisor. Uma questão de mais ou de menos ego.
Foi preciso o discreto e recatado Ayres Britto se aposentar para que se prestasse atenção nele, como presidente, e não só no relator ou no revisor
Poucos dias depois que a Executiva Nacional do PT lançou uma nota oficial criticando as condenações da Ação Penal 470, vulgo mensalão, e acusando o STF de “instaurar um clima de insegurança jurídica no país”, o ex-presidente da Corte Carlos Ayres Britto, que acaba de se aposentar, deu uma longa entrevista aos repórteres Valdo Cruz e Felipe Seligman, da “Folha de S.Paulo”. Entre as duas manifestações, a do partido e a do ministro, há um abismo. Lendo o que ele disse e sabendo de sua inatacável reputação, é impossível admitir sem má-fé que esse poeta e filósofo declaradamente “contemplativo”, “espiritualista”, adepto da física quântica, da meditação e de um violão, íntegro, sereno e sensato, tenha permitido que a Casa presidida por ele tivesse sido capaz de “partidarizar” o julgamento, fazendo política em vez de justiça, entre outros desvios jurídicos como falta de isenção, “transferência do ônus da prova aos réus”, “transformação de indícios em provas”, “penas desproporcionais”.
É bom lembrar que, paradoxalmente, todas essas queixas-denúncias foram apresentadas justamente pelo partido no qual Ayres Britto militou durante 18 anos e pelo qual ainda nutre uma mal disfarçada simpatia, ressaltando, por exemplo, que o mensalão “não é o julgamento do PT; são réus que ocuparam cargos de direção no PT”. Ao analisar o que ele considera ser o esgotamento da “fase ideológica” do PSDB e do PT, com perda do que os gregos chamam de “Deus dentro da gente”, entusiasmo, ou seja, “aquele ímpeto depurador das instituições”, Britto adverte: “Não podemos ser injustos, porque o PT continua com quadros muito bons.” E cita o caso do governador Tarso Genro, “que chegou a escrever um artigo a favor do Supremo”.
Quando lhe foi perguntado se houve “traição” e se os presidentes petistas erraram nas nomeações, já que, dos dez ministros do julgamento, sete foram indicados por Lula ou Dilma, ele respondeu: “A nossa postura técnica, independente, isenta, desassombrada, é uma postura que honra os nomeantes. Não só os nomeados.” E aproveitou para esclarecer que Lula nunca “se aproximou para cobrar, fazer queixa”
Diante das homenagens que lhe estão sendo prestadas, é curioso observar que foi preciso o discreto e recatado Ayres Britto se aposentar para que se prestasse atenção nele, presidente, e não só no relator e no revisor. Uma questão de mais ou de menos ego.
A favor do feriado - RUY CASTRO
FOLHA DE SP - 21/11
RIO DE JANEIRO - De quarta-feira até ontem à noite, o Brasil teve uma semana de feriado. Mesmo para os nossos padrões, deve ser recorde. Você dirá: Outros países não costumam enforcar tantos dias entre um feriado e outro. Eu responderia: Mas, em matéria de férias, direitos trabalhistas, assistência médica, aposentadoria etc., tudo neles difere de nós, não? Eles têm cidades em que os feriados são tão chatos que é melhor trabalhar.
Os brasileiros mais responsáveis deploram esse festival de feriados e forcas, e lamentam os dias em que, com as fábricas e boa parte do comércio fechadas, o país para, a produção estaciona, o desenvolvimento emperra. Mas será assim tão trágico? Os dias de vadiagem não trarão compensações em outras categorias?
Por exemplo: nos feriados, brasileiros e brasileiras multiplicam o seu quociente de beijos, abraços e carícias, sem contar as vias de fato -se incluirmos os turistas estrangeiros, tal quociente irá à estratosfera.
Os dias vazios convidam à maciça entrega mútua, do que se beneficiam bares, restaurantes, táxis, motéis. E a venda de Viagra, óleos e camisinhas? Alguém já calculou o que isso rende?
Nesses dias, aumenta também o índice de bocejos, sonecas, noites bem-dormidas e recuperação de sono atrasado. Além dos benefícios para a produtividade dos cidadãos quando eles voltarem de pilha nova ao trabalho, imagine a indispensável providência para se passar dias de molho: abarrotar a geladeira. Dispara o movimento nos supermercados, padarias e lojas de conveniência -quanto não vale isso em milhões?
Os shoppings, praias, hotéis, aviões e aeroportos bombam. E vende-se mais gasolina, protetor solar, cachorro-quente e biscoito Globo do que nunca. Enfim, muitos setores progridem e se expandem. Só diminui a corrupção -pelo fechamento das repartições oficiais. Viva o feriado.
RIO DE JANEIRO - De quarta-feira até ontem à noite, o Brasil teve uma semana de feriado. Mesmo para os nossos padrões, deve ser recorde. Você dirá: Outros países não costumam enforcar tantos dias entre um feriado e outro. Eu responderia: Mas, em matéria de férias, direitos trabalhistas, assistência médica, aposentadoria etc., tudo neles difere de nós, não? Eles têm cidades em que os feriados são tão chatos que é melhor trabalhar.
Os brasileiros mais responsáveis deploram esse festival de feriados e forcas, e lamentam os dias em que, com as fábricas e boa parte do comércio fechadas, o país para, a produção estaciona, o desenvolvimento emperra. Mas será assim tão trágico? Os dias de vadiagem não trarão compensações em outras categorias?
Por exemplo: nos feriados, brasileiros e brasileiras multiplicam o seu quociente de beijos, abraços e carícias, sem contar as vias de fato -se incluirmos os turistas estrangeiros, tal quociente irá à estratosfera.
Os dias vazios convidam à maciça entrega mútua, do que se beneficiam bares, restaurantes, táxis, motéis. E a venda de Viagra, óleos e camisinhas? Alguém já calculou o que isso rende?
Nesses dias, aumenta também o índice de bocejos, sonecas, noites bem-dormidas e recuperação de sono atrasado. Além dos benefícios para a produtividade dos cidadãos quando eles voltarem de pilha nova ao trabalho, imagine a indispensável providência para se passar dias de molho: abarrotar a geladeira. Dispara o movimento nos supermercados, padarias e lojas de conveniência -quanto não vale isso em milhões?
Os shoppings, praias, hotéis, aviões e aeroportos bombam. E vende-se mais gasolina, protetor solar, cachorro-quente e biscoito Globo do que nunca. Enfim, muitos setores progridem e se expandem. Só diminui a corrupção -pelo fechamento das repartições oficiais. Viva o feriado.
Do tempo das águas turvas - DIANA CORSO
ZERO HORA - 21/11
“País de mestiços, onde branco não tem força para organizar um Ku Klux Klan, é país perdido para altos destinos.” Publicado na revista Bravo, edição 165, o trecho acima faz parte de uma carta enviada por Monteiro Lobato para um destinatário tão entusiasta da eugenia quanto ele próprio. Antes de ser ventilado o racismo de Lobato, lembro de ter enfrentado um constrangimento pessoal por suas posições.
Tinha o hábito de ler suas histórias para minhas filhas pequenas. Nos deliciávamos ao vê-lo trazer para nosso quintal um exército de personagens clássicos.
O ogro verde Shrek, nascido no século seguinte, foi muito elogiado por mixar e recriar os contos de fadas. Só que no Brasil já estávamos habituados a essas paródias graças à irreverência de Lobato. Peter Pan, Gato Félix, anjos e seres mágicos da mitologia, da literatura e do folclore confraternizam no Sítio do Picapau Amarelo. Era empolgante essa mestiçagem na ficção, algo que aparentemente ele não aprovava na vida real.
Quando apareceram expressões inaceitáveis alusivas à Tia Nastácia, minhas filhas se revoltaram e perderam o entusiasmo pelo Sítio. Acabaram reincidindo, não há menina brasileira que tenha crescido alheia às reinações de Narizinho. Aliás, é bom lembrar que ela casou com o príncipe peixe do Reino das Águas Claras sem nenhum preconceito! Essa pequena crise doméstica deixou-me claro que hoje banhamo-nos em outras águas, bem menos turvas.
Nosso tempo não perdoa o racismo. Hoje é inaceitável a incoerência de valores entre vida pessoal e obra. A hipocrisia, embora eterna, perdeu espaço. Como valorizar algo feito por aqueles que a história condenou? É sempre bom lembrar que os campos de extermínio nazista derramavam sua fumaça fétida sobre as comunidades que viviam coladas a eles.
Como era possível àquela gente conviver com esse horror? Condenando Lobato ao ostracismo, banindo suas obras, julgamos que nada se aproveita de alguém assim. Seria o mesmo que condenar todo o legado cultural da população da Alemanha e da Polônia pelo que promoveu. O julgamento é justo e necessário, mas separar o joio do trigo vale a pena. Principalmente porque as crianças precisam saber que o autor genial, assim como o cidadão vizinho ao campo, eram pessoas comuns como nós.
Eles cometeram muitos erros e, mesmo hoje, nenhum de nós está livre de imitá-los. Covardia é furtar-se a esse debate com filhos e alunos. A propósito, ontem foi o Dia da Consciência Negra, data pensada para lembrar as atrocidades que somos capazes de cometer.
“País de mestiços, onde branco não tem força para organizar um Ku Klux Klan, é país perdido para altos destinos.” Publicado na revista Bravo, edição 165, o trecho acima faz parte de uma carta enviada por Monteiro Lobato para um destinatário tão entusiasta da eugenia quanto ele próprio. Antes de ser ventilado o racismo de Lobato, lembro de ter enfrentado um constrangimento pessoal por suas posições.
Tinha o hábito de ler suas histórias para minhas filhas pequenas. Nos deliciávamos ao vê-lo trazer para nosso quintal um exército de personagens clássicos.
O ogro verde Shrek, nascido no século seguinte, foi muito elogiado por mixar e recriar os contos de fadas. Só que no Brasil já estávamos habituados a essas paródias graças à irreverência de Lobato. Peter Pan, Gato Félix, anjos e seres mágicos da mitologia, da literatura e do folclore confraternizam no Sítio do Picapau Amarelo. Era empolgante essa mestiçagem na ficção, algo que aparentemente ele não aprovava na vida real.
Quando apareceram expressões inaceitáveis alusivas à Tia Nastácia, minhas filhas se revoltaram e perderam o entusiasmo pelo Sítio. Acabaram reincidindo, não há menina brasileira que tenha crescido alheia às reinações de Narizinho. Aliás, é bom lembrar que ela casou com o príncipe peixe do Reino das Águas Claras sem nenhum preconceito! Essa pequena crise doméstica deixou-me claro que hoje banhamo-nos em outras águas, bem menos turvas.
Nosso tempo não perdoa o racismo. Hoje é inaceitável a incoerência de valores entre vida pessoal e obra. A hipocrisia, embora eterna, perdeu espaço. Como valorizar algo feito por aqueles que a história condenou? É sempre bom lembrar que os campos de extermínio nazista derramavam sua fumaça fétida sobre as comunidades que viviam coladas a eles.
Como era possível àquela gente conviver com esse horror? Condenando Lobato ao ostracismo, banindo suas obras, julgamos que nada se aproveita de alguém assim. Seria o mesmo que condenar todo o legado cultural da população da Alemanha e da Polônia pelo que promoveu. O julgamento é justo e necessário, mas separar o joio do trigo vale a pena. Principalmente porque as crianças precisam saber que o autor genial, assim como o cidadão vizinho ao campo, eram pessoas comuns como nós.
Eles cometeram muitos erros e, mesmo hoje, nenhum de nós está livre de imitá-los. Covardia é furtar-se a esse debate com filhos e alunos. A propósito, ontem foi o Dia da Consciência Negra, data pensada para lembrar as atrocidades que somos capazes de cometer.
Veta, Dilma I - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 21/11
Veta, Dilma II...
Casagrande vem com o prefeito eleito de Vitória, Luciano Rezende, deputados federais e senadores do estado.
Veta, Dilma III...
Cabral também convidou Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, para a passeata.
O paulista ficou de pensar.
Veta, Dilma IV...
O estado de São Paulo também perde com a roubalheira dos royalties.
Mas alguns municípios paulistas ganham com o butim.
Os favoritos
Os alemães da Thyssen, dona da Companhia Siderúrgica do Atlântico, que está à venda, chamaram a CSN e a Techint para uma rodada final de conversa.
O encontro será esta semana.
Hora e vez de Dirceu
Do grande produtor Luiz Carlos Barreto, o Barretão, para um curioso que queria saber sobre o estado de espírito do seu amigo Zé Dirceu, condenado no mensalão:
— Ele está como o personagem Augusto Matraga, de Guimarães Rosa: cuidando de suas feridas.
No mais
No país de Joaquim Barbosa, diz o IBGE, apenas 13% dos juízes, profissão mais bem remunerada da nação, são pretos ou pardos.
Chica da Silva
Aderbal Freire-Filho, o querido diretor, escreveu e vai dirigir em 2013 um musical sobre a vida de Chica da Silva, a famosa escrava mineira que já virou filme, novela, samba-enredo.
O MinC autorizou a Showbrás Produções a captar R$ 1.961.350.
Itaparica em festa
João Ubaldo Ribeiro, 71 anos, o grande escritor membro da ABL, que nasceu na Ilha de Itaparica, na Bahia, é o novo imortal da Academia Baiana de Letras.
Toma posse amanhã e ocupará a cadeira nº 9, que foi de Cláudio Veiga.
O palhaço e o camarada
“O palhaço”, o longa de Selton Mello que vai representar o Brasil na disputa pelo Oscar, abre, hoje, o Festival de Cinema Brasileiro em Moscou.
Niemeyer no Marrocos
Avança o projeto de construção do Centro Cultural Mogador, em Essaouira, no Marrocos. O projeto é de Oscar Niemeyer.
Ontem, o embaixador brasileiro Frederico Duque Estrada Meyer se reuniu com o ministro da Cultura de lá, Sbihi Mohamed, para tratar do assunto.
CADÊ A CACHOEIRA QUE ESTAVA AQUI?
Um paraíso ambiental dentro de uma das maiores unidades de conservação do Rio esconde um triste cenário. A cachoeira da Mãe d'Água, no Parque Nacional da Tijuca, virou um "filhote d'água”, repare na foto ao lado, desde que passaram a captar de forma irregular o precioso líquido em sua nascente, cujo acesso é por uma trilha a partir da Rua Marianópolis, no Grajaú. A prática põe em risco a fauna e a flora locais. Frequentadores da cachoeira descobriram tubulações (veja acima parte do “gato”) de até um quilômetro de extensão, que desviariam boa parte da água para a favela da Borda do Mato, pacificada em 2010 e que ganhou uma caixa-d’agua novinha sem o aval da Cedae.
É sabido que ninguém pode viver sem água, mas as autoridades precisam impedir aberrações como esta. Se a situação continuar, Deus terá mais trabalho para protegera nossa querida natureza
A biografia do ator Reynaldo Gianecchini, que, como saiu aqui, vai se chamar “Giane - Vida, arte e luta”, já está na gráfica.
A obra, escrita pelo coleguinha Guilherme Fiuza, começa a ser vendida mês que vem, nas livrarias e em versão digital.
Ted Boy no carnaval
O “Meu bem, volto já”, o bloco de carnaval, fará homenagem a Ted Boy Marino, que faleceu em setembro.
No desfile do ano que vem, o cordão vai cantar seu samba de 2006, cujo enredo foi o herói do telecatch.
Cena carioca
O publicitário Armando Strozenberg estava, ontem à noite, curtindo o final do feriadão com amigos no Jojô Café Bistrô, no Horto, quando se aproxima um cara beirando uns 30 anos, de jeans, camisa branca e simpático:
— Desculpem a interrupção, mas gostariam de ouvir a palavra de Deus durante alguns poucos minutos?
Rio em alta
A revista “Vogue” deste mês celebra o Rio, viva!, com a capa “Rio: nunca foi tão bom viver lá”.E logo abaixo escreve: “28 novas razões para amar o balneário”.
Só que...
Balneário é o cacete.
Minhas idiossincrasias - PAULO SANT’ANA
ZERO HORA - 21/11
Pela primeira vez nos últimos 30 anos, troquei de carro para modelo e marca mais baratos.
Meu carro percorria três quilômetros e meio por cada litro de gasolina. O carro que comprei agora faz seis quilômetros com um litro dentro da cidade.
Fiz isso por falência múltipla de órgãos financeiros, não suportava gastar uma fortuna de gasolina com meu ex-carro.
Esse meu carro novo é menos confortável que o outro, tem menos potência (nem sei para que preciso disso, se não viajo de carro), o importante é que meu novo carrinho me leva e traz para o serviço, estou satisfeito.
Minha atitude é também um protesto contra o preço selvagem da gasolina, injustificável num país autossuficiente em petróleo. Serve também de protesto contra os cartéis das empresas distribuidoras de gasolina para os postos e também contra os postos que se combinam para fixar o preço dos combustíveis.
Meu novo carrinho é modesto, mas quem não tem cão caça com gato e eu estou protestando contra os gatos.
E, se prosseguirem a Petrobras e seus revendedores com essa ganância, trocarei imediatamente para uma bicicleta.
Gosto muito de carnes. E prefiro nitidamente as costelas com matambres.
Ocorre que muitas vezes as costelas e outros tipos de carne são duras, difíceis e incômodas de comer.
Agora, no entanto, o engenheiro químico Newton Augusto dos Santos, o popular Macaco, turfista emérito, ensinou-me um truque que passo para os meus leitores como dica preciosa: a gente envolve a costela num papel laminado, depois de dar-lhe um banho com amaciante de carnes marca Maggi. E lança ao forno.
Meus amigos, as costelas fica parecendo um salmão, de tão macias. Os matambres, que adoro, desmancham na boca.
É um milagre. Aproveitem essa dica, é um achado.
Determinei-me a não ler e-mails que me remetem e que têm mais de 15 linhas.
É uma questão técnica, eis que prometi a mim mesmo ler todos os e-mails que me enviam. E, se for ler os que têm mais de 15 linhas, não terei tempo de ler todos.
Tem gente que me manda e-mails de mais de 80 linhas, alguns até são relatórios de atividades de suas empresas, tenham dó, isso é um abuso.
Mais de 15 linhas, não leio. Devem conter assuntos interessantes, mas são inúteis, eu não leio.
Acontece que não tenho onde guardar esses calhamaços.
Outra coisa: recuso-me a receber livros que tenham mais de 400 gramas.
Mandam-me livros que pesam dois ou mais quilos, relatórios, pesquisas. Enfim, uma infinidade de volumes de mais de um quilo cada um.
Tem gente que escreve livros, relatórios, balanços ou tratados dificílimos de serem lidos e resolve mandar de presente para quem conhece. Ou para quem tem coluna muito lida.
Não recebo mais. Nem os toco. É um abuso.
Pela primeira vez nos últimos 30 anos, troquei de carro para modelo e marca mais baratos.
Meu carro percorria três quilômetros e meio por cada litro de gasolina. O carro que comprei agora faz seis quilômetros com um litro dentro da cidade.
Fiz isso por falência múltipla de órgãos financeiros, não suportava gastar uma fortuna de gasolina com meu ex-carro.
Esse meu carro novo é menos confortável que o outro, tem menos potência (nem sei para que preciso disso, se não viajo de carro), o importante é que meu novo carrinho me leva e traz para o serviço, estou satisfeito.
Minha atitude é também um protesto contra o preço selvagem da gasolina, injustificável num país autossuficiente em petróleo. Serve também de protesto contra os cartéis das empresas distribuidoras de gasolina para os postos e também contra os postos que se combinam para fixar o preço dos combustíveis.
Meu novo carrinho é modesto, mas quem não tem cão caça com gato e eu estou protestando contra os gatos.
E, se prosseguirem a Petrobras e seus revendedores com essa ganância, trocarei imediatamente para uma bicicleta.
Gosto muito de carnes. E prefiro nitidamente as costelas com matambres.
Ocorre que muitas vezes as costelas e outros tipos de carne são duras, difíceis e incômodas de comer.
Agora, no entanto, o engenheiro químico Newton Augusto dos Santos, o popular Macaco, turfista emérito, ensinou-me um truque que passo para os meus leitores como dica preciosa: a gente envolve a costela num papel laminado, depois de dar-lhe um banho com amaciante de carnes marca Maggi. E lança ao forno.
Meus amigos, as costelas fica parecendo um salmão, de tão macias. Os matambres, que adoro, desmancham na boca.
É um milagre. Aproveitem essa dica, é um achado.
Determinei-me a não ler e-mails que me remetem e que têm mais de 15 linhas.
É uma questão técnica, eis que prometi a mim mesmo ler todos os e-mails que me enviam. E, se for ler os que têm mais de 15 linhas, não terei tempo de ler todos.
Tem gente que me manda e-mails de mais de 80 linhas, alguns até são relatórios de atividades de suas empresas, tenham dó, isso é um abuso.
Mais de 15 linhas, não leio. Devem conter assuntos interessantes, mas são inúteis, eu não leio.
Acontece que não tenho onde guardar esses calhamaços.
Outra coisa: recuso-me a receber livros que tenham mais de 400 gramas.
Mandam-me livros que pesam dois ou mais quilos, relatórios, pesquisas. Enfim, uma infinidade de volumes de mais de um quilo cada um.
Tem gente que escreve livros, relatórios, balanços ou tratados dificílimos de serem lidos e resolve mandar de presente para quem conhece. Ou para quem tem coluna muito lida.
Não recebo mais. Nem os toco. É um abuso.
Pajelanças homéricas - MARCELO COELHO
FOLHA DE SP - 21/11
Teatro e política não se unem numa coisa só, mas se transcendem numa catarse ritual
Para vencer a crueldade é preciso ser mais cruel ainda. Ajudar o próximo é tornar-se cúmplice da violência que o levou a pedir ajuda. Apesar de todo o progresso técnico, o preço do pão não diminui.
São ideias do velho Bertolt Brecht, em plena ebulição revolucionária europeia depois da Primeira Guerra Mundial.
Quem as ressuscita, a propósito da crise econômica de Espanha, Portugal e Grécia hoje em dia, é José Celso Martinez Corrêa, no espetáculo "Acordes".
Com textos de Brecht e música de Paul Hindemith, além de muitas intervenções próprias, José Celso criou uma espécie de ópera-teatro multimídia, em cartaz no Oficina até 23 de dezembro, com transmissões ao vivo pela internet.
O público é convidado a participar moderadamente do espetáculo, respondendo "sim" ou "não", como uma espécie de massa coral, às perguntas propostas pelo encenador.
Apesar das suas presumíveis convicções de esquerda, dificilmente alguém da plateia estaria disposto a levar às últimas consequências o elogio da crueldade revolucionária defendido no texto.
Nem mesmo o próprio José Celso, claro. Os atores e atrizes de sua companhia já foram mais bonitos do que atualmente, mas como sempre derramam o mel de seus olhares diretos sobre os espectadores alinhados na arquibancada do teatro.
Mais do que isso, oferecem pedaços de melancia à plateia, num momento em que a peça se abre para uma espécie de comunhão eucarística. Há outras referências ao imaginário cristão, aliás muito bem integradas à narrativa. Quando um ator se limpa da maquiagem que o desumanizava, para se tornar "apenas uma pessoa", seu lenço sujo de tinta azul e vermelha se apresenta como um Santo Sudário.
Despir-se de si mesmo, deixar de se considerar alguém, tornar-se "ninguém": a humildade cristã devora, nesse espetáculo, o materialismo de Brecht.
"Morte, onde está tua vitória?", perguntava São Paulo na epístola aos Coríntios. José Celso não seria José Celso, de todo modo, se não misturasse à mensagem bíblica todo tipo de referências, criando uma vasta pajelança contra o capitalismo.
Assim, temos Santos Dumont pelado, mas de chapéu, tomando banho de água fria; o médico-legista Harry Shibata com uma serra elétrica; depoimentos de índios guarani-caiová; vídeos do ministro Gilmar Mendes e homenagens a Henriette Morineau.
Poderiam aparecer Madame Satã e Giordano Bruno, Picasso e Friedenreich, pouco importa: a arte de José Celso, verdadeiramente grande, tem a capacidade de integrar tudo o que quiser numa bagunça que é apenas aparente.
E talvez sejam aparentes, também, as contradições e anacronismos da "mensagem" proposta pela peça. Com certeza, apesar de todo o desespero dos portugueses, dos espanhóis e dos gregos, a crise atual não se compara à de 1929; e o preço do pão, ainda que a barbárie continue, baixou muito daqueles tempos para cá.
Por isso mesmo, o Brecht vivido por Marcelo Drummond usa uma roupa dourada, e todo seu antigo esforço de mobilizar a massa da plateia é figurado, com grande poesia, pelo uso de serpentinas brilhantes que se trançam entre os espectadores, como uma rede carnavalesca e mágica, convidando-os delicadamente a sair de seus lugares.
Ideais mortos são assim revividos religiosamente, sincreticamente. Teatro e política não se unem numa coisa só, mas se transcendem numa catarse ritual.
Os mesmos problemas, com estilo parecido, mas sem a aspiração dionisíaca, estão presentes em outra excelente peça em cartaz. Trata-se da "Odisseia" de Homero, com dramaturgia de Samir Yazbek, direção de Marco Antonio Rodrigues e os esplêndidos atores (recém-formados) do grupo Estúdio da Cena.
Novamente, tudo pode entrar no espaço abafado do Galpão do Folias. Aquiles é Che Guevara, Penélope transformou Ítaca num vasto empreendimento imobiliário de luxo, a ilha dos lotófagos se traduz numa cracolândia admiravelmente realista.
Dentro de todos esses contextos, que não parecem nada forçados graças à encenação vibrante e criativa, Ulisses corresponderia ao velho ideal de esquerda procurando em vão uma terra firme nos dias atuais.
Poderia parecer apenas um sintoma de nostalgia ideológica, apesar da imaginação espantosa do espetáculo (que transforma, por exemplo, uma cena de estupro em verdadeira proeza de concisão poética). Mas a peça, na última hora, cria uma pausa ("tchecoviana", diz o texto) -e as ilusões se dissipam.
Já o teatro, aqui como em "Acordes", continua -e vai bem de saúde.
Teatro e política não se unem numa coisa só, mas se transcendem numa catarse ritual
Para vencer a crueldade é preciso ser mais cruel ainda. Ajudar o próximo é tornar-se cúmplice da violência que o levou a pedir ajuda. Apesar de todo o progresso técnico, o preço do pão não diminui.
São ideias do velho Bertolt Brecht, em plena ebulição revolucionária europeia depois da Primeira Guerra Mundial.
Quem as ressuscita, a propósito da crise econômica de Espanha, Portugal e Grécia hoje em dia, é José Celso Martinez Corrêa, no espetáculo "Acordes".
Com textos de Brecht e música de Paul Hindemith, além de muitas intervenções próprias, José Celso criou uma espécie de ópera-teatro multimídia, em cartaz no Oficina até 23 de dezembro, com transmissões ao vivo pela internet.
O público é convidado a participar moderadamente do espetáculo, respondendo "sim" ou "não", como uma espécie de massa coral, às perguntas propostas pelo encenador.
Apesar das suas presumíveis convicções de esquerda, dificilmente alguém da plateia estaria disposto a levar às últimas consequências o elogio da crueldade revolucionária defendido no texto.
Nem mesmo o próprio José Celso, claro. Os atores e atrizes de sua companhia já foram mais bonitos do que atualmente, mas como sempre derramam o mel de seus olhares diretos sobre os espectadores alinhados na arquibancada do teatro.
Mais do que isso, oferecem pedaços de melancia à plateia, num momento em que a peça se abre para uma espécie de comunhão eucarística. Há outras referências ao imaginário cristão, aliás muito bem integradas à narrativa. Quando um ator se limpa da maquiagem que o desumanizava, para se tornar "apenas uma pessoa", seu lenço sujo de tinta azul e vermelha se apresenta como um Santo Sudário.
Despir-se de si mesmo, deixar de se considerar alguém, tornar-se "ninguém": a humildade cristã devora, nesse espetáculo, o materialismo de Brecht.
"Morte, onde está tua vitória?", perguntava São Paulo na epístola aos Coríntios. José Celso não seria José Celso, de todo modo, se não misturasse à mensagem bíblica todo tipo de referências, criando uma vasta pajelança contra o capitalismo.
Assim, temos Santos Dumont pelado, mas de chapéu, tomando banho de água fria; o médico-legista Harry Shibata com uma serra elétrica; depoimentos de índios guarani-caiová; vídeos do ministro Gilmar Mendes e homenagens a Henriette Morineau.
Poderiam aparecer Madame Satã e Giordano Bruno, Picasso e Friedenreich, pouco importa: a arte de José Celso, verdadeiramente grande, tem a capacidade de integrar tudo o que quiser numa bagunça que é apenas aparente.
E talvez sejam aparentes, também, as contradições e anacronismos da "mensagem" proposta pela peça. Com certeza, apesar de todo o desespero dos portugueses, dos espanhóis e dos gregos, a crise atual não se compara à de 1929; e o preço do pão, ainda que a barbárie continue, baixou muito daqueles tempos para cá.
Por isso mesmo, o Brecht vivido por Marcelo Drummond usa uma roupa dourada, e todo seu antigo esforço de mobilizar a massa da plateia é figurado, com grande poesia, pelo uso de serpentinas brilhantes que se trançam entre os espectadores, como uma rede carnavalesca e mágica, convidando-os delicadamente a sair de seus lugares.
Ideais mortos são assim revividos religiosamente, sincreticamente. Teatro e política não se unem numa coisa só, mas se transcendem numa catarse ritual.
Os mesmos problemas, com estilo parecido, mas sem a aspiração dionisíaca, estão presentes em outra excelente peça em cartaz. Trata-se da "Odisseia" de Homero, com dramaturgia de Samir Yazbek, direção de Marco Antonio Rodrigues e os esplêndidos atores (recém-formados) do grupo Estúdio da Cena.
Novamente, tudo pode entrar no espaço abafado do Galpão do Folias. Aquiles é Che Guevara, Penélope transformou Ítaca num vasto empreendimento imobiliário de luxo, a ilha dos lotófagos se traduz numa cracolândia admiravelmente realista.
Dentro de todos esses contextos, que não parecem nada forçados graças à encenação vibrante e criativa, Ulisses corresponderia ao velho ideal de esquerda procurando em vão uma terra firme nos dias atuais.
Poderia parecer apenas um sintoma de nostalgia ideológica, apesar da imaginação espantosa do espetáculo (que transforma, por exemplo, uma cena de estupro em verdadeira proeza de concisão poética). Mas a peça, na última hora, cria uma pausa ("tchecoviana", diz o texto) -e as ilusões se dissipam.
Já o teatro, aqui como em "Acordes", continua -e vai bem de saúde.
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