domingo, outubro 21, 2012

Barrado portenho - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 21/10


Dois milhões de pares de sapatos brasileiros deveriam estar pisando solo argentino. Estão impedidos de cruzar a fronteira. Foram comprados e não podem ser entregues pelas medidas protecionistas do governo Kirchner. A indústria de máquinas e aparelhos elétricos deixou de faturar US$ 750 milhões pelas restrições. As automobilística e aeronáutica exportaram US$ 1 bilhão a menos.

A exportação da indústria química caiu US$ 200 milhões. A coluna entrou em contato nos últimos dias com vários setores prejudicados pelo protecionismo argentino. Eles se queixam de que o governo brasileiro está passivo e não tem defendido os interesses da indústria. Nem os empresários argentinos compreendem a postura do governo brasileiro diante das medidas de restrição ao comércio.

Os executivos argentinos não falam abertamente porque têm medo de retaliações por parte do ministro Guillermo Moreno, que controla tudo com mão de ferro. Um empresário do ramo de máquinas que faz negócios com o Brasil contou que o governo tem usado até a TV estatal para expor quem faz críticas à política de restrição à importação.

- Estamos vivendo uma ditadura no comércio exterior. Quem fala mal do governo é criticado na TV. Nós, argentinos, somos favoráveis ao Brasil porque as medidas econômicas são irracionais. Já ouvi queixa de empresário brasileiro que recebeu ligação de um alto integrante do governo argentino para que reduzisse preços. E ele baixou, por medo - disse o executivo argentino.

Nosso saldo comercial com os argentinos caiu de US$ 4,4 bilhões para US$ 1,8 bi este ano. De janeiro a setembro, exportamos US$ 13,4 bilhões. No mesmo período de 2011, foram US$ 16,8 bi. Não há problema algum na redução do saldo, mas o que preocupa é a forma como as exportações estão caindo. O governo argentino acabou com a licença automática de importação. Só pode importar quem o governo autoriza e a decisão é arbitrária, segundo empresários.

- A indústria de calçados tem 2,2 milhões de pares que já foram vendidos mas aguardam liberação para entrar. Há mais de 50 mil pares pendentes de 2011. São mais de nove meses de espera e ninguém sabe os critérios técnicos da restrição - disse o diretor da Abicalçados (Associação da Indústria de Calçados) Heitor Klein.

O diretor de comércio exterior da Abimaq (Associação da Indústria de Máquinas), Klaus Curt Müller, disse que a perda está na casa de 30%, com picos de 50%. A saída é buscar outros mercados.

- A Argentina é um mercado importante, mas os empresários brasileiros estão tendo que mirar outros países na América do Sul, como a Colômbia, para compensar - disse Muller.

De janeiro a setembro, a receita de manufaturados caiu de US$ 15 bilhões para US$ 12 bi, em relação a 2011. A venda de veículos de transporte, que inclui veículos, aeronaves e embarcações, foi US$ 1 bilhão menor, uma queda de 16%. A exportação de automóveis leves caiu quase 30%; de tratores, 20%.

A Argentina passa por uma crise de divisas. Está faltando dólares no país. O governo decidiu que as empresas só podem importar se comprovarem que estão exportando. É a volta do comércio compensado, dos anos 70.

- Regredimos 30 anos na Argentina. Os empresários brasileiros também estão sendo prejudicados e não podemos contar nem com uma postura mais firme do governo brasileiro - disse o empresário argentino.

O normal seria o governo usar os canais diplomáticos para defender os interesses das empresas brasileiras atingidas pelo intervencionismo e protecionismo da Argentina.

O futuro da humanidade - HÉLIO SCHWARTSMAN


FOLHA DE SP - 21/10


SÃO PAULO - Dados do Censo 2010 mostraram que o brasileiro tende a casar-se com alguém do mesmo grupo de cor ou raça (69,3%) e do mesmo nível de instrução (68,2%).
O efeito não é inédito nem está limitado a categorias sociais. Sabe-se que, quando podem, pessoas acabam se unindo preferencialmente a parceiros com altura e peso compatíveis, que frequentem a mesma igreja, tenham os mesmos gostos e partilhem um razoável número de traços de personalidade. Até mesmo afinidades políticas entram nesse jogo.
Pelo menos no Ocidente não patriarcal, indivíduos nunca foram tão livres para decidir com quem se casarão. Influências antes poderosas, como divisões tribais, castas e a influência de pais, com seus interesses em forjar alianças políticas, desempenham um papel cada vez menor nas sociedades industrializadas.
Com menos filtros externos que impunham alguma aleatoriedade às escolhas, os casais ficam cada vez mais parecidos. Em genética, esse processo tem o nome de acasalamento assortativo e pode levar ao aumento (ou à redução) da ocorrência de certas características na população.
É aqui que as coisas começam a ficar interessantes. Simon Baron-Cohen, um dos mais respeitados pesquisadores de autismo, especula que o acasalamento assortativo pode estar ligado à crescente prevalência da moléstia. Dois nerds que adoram números e têm certa fobia social se conhecem na faculdade de engenharia, se casam e têm um filho autista. No momento, Baron-Cohen tenta descobrir se ex-alunos do MIT têm uma proporção maior de filhos autistas.
E isso não é tudo. John Alford e John Hibbing, que estudam as bases genéticas da política, levantam a hipótese de que casamentos assortativos sejam um dos ingredientes do aumento da radicalização partidária. Já descambando para a ficção científica, podemos imaginar um futuro com o Brasil cindido em bandos de Homo lulensis e Homo tucanus.

A democracia autoritária - GAUDÊNCIO TORQUATO


O Estado de S.Paulo - 21/10


Democracia autoritária? Essa figura existe no dicionário de política? O conceito, que expressa incongruência, pautou dias atrás os argumentos de dois ex-presidentes da República, Fernando Henrique Cardoso e Alan García, durante sessão da Assembleia-Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), realizada em São Paulo.

O brasileiro e o peruano denunciavam o retrocesso político que ameaça os meios de comunicação na América Latina, decorrente de "uma espécie de democracia autoritária", que, apesar de se estribar em vitórias eleitorais, despreza valores democráticos como liberdade de expressão e direito à informação. A inoculação do vírus autoritário no corpo democrático, discutida pelos participantes no evento, faz-se ver, aqui e ao derredor, por intermitentes manifestações (e concretizada em ações, como na Venezuela, no Equador e na Argentina) de interlocutores governamentais e partidários acerca da necessidade de estabelecer controles sobre a mídia. O voto tem sido a arma sacada pela governança "democrático-autoritária" para exercer a vontade e ditar regras aos regimes latino-americanos.

Não sem razão o ex-mandatário peruano lembra que pleitos eleitorais e separação dos Poderes já não bastam para definir os valores da democracia. Pois uma de suas vigas centrais, a liberdade de expressão, é despedaçada toda vez que mandatários, à moda dos caudilhos, impõem sanções à imprensa. Não fossem a reação da própria mídia e a indignação de polos sociais contra o viés autoritário de governos, mordaças contra ela já se teriam multiplicado. O fato é que a liturgia que envolve o altar democrático tem sido conspurcada em partes do planeta, o que sugere a questão: por que tal propensão autoritária? E por que floresce com maior abundância nos jardins do nosso continente?

A análise começa com um pouco de História. A comunicação no formato da massificação das ideias nasceu em 1450 numa sociedade autoritária. Firmou-se sobre o primado do Estado como ente superior ao indivíduo na escala dos valores sociais. Serviu como esteio da unidade de pensamento e ação, formando a base para a continuidade dos governantes, os herdeiros monárquicos; os nobres, que a usavam para proteger sua identidade na política e na guerra; e os dirigentes da Igreja Romana, sobre os quais pesava a responsabilidade de proteger a revelação divina.

O autoritarismo refluiu ante a expansão dos princípios liberais, cujo escopo situava o Homem, independente e racional, acima do Estado. Cabia a este prover os meios capazes de propiciar o máximo de felicidade humana. O preceito autoritário dá vez ao axioma libertário, assim sintetizado por John Stuart Mill no ensaio On Liberty: "Se toda a humanidade, com exceção de uma pessoa, tiver certa opinião, e apenas esta pessoa defender opinião contrária, a humanidade não abrigaria mais razão em silenciá-la do que ela à humanidade". Essa visão iluminou os códigos da sociedade democrática, como se vê na Constituição norte-americana, cuja Primeira Emenda reza: "O Congresso não poderá formular nenhuma lei (...) que limite a liberdade de opinião, ou a liberdade de imprensa". Ou a Quarta Emenda, que prescreve: "Nenhum Estado poderá formular ou aplicar qualquer lei que limite os privilégios ou imunidades dos cidadãos dos Estados Unidos".

Na América Latina o viés autoritário tem sido mais acentuado. A explicação pode estar no aparato que fincou profundas raízes desde o vasto e milenar Império Inca, com seus grandes caciques, e depois o poderio espanhol, povoado por reis, vice-reis, conquistadores, aventureiros e corregedores, todos inclinados a implantar regimes de caráter autocrático. A propósito, Maurice Duverger utiliza essa modelagem para explicar a opção latino-americana por um presidencialismo de caráter imperial, ao contrário do sistema parlamentarista que vicejou na Europa, inspirado na ideologia liberal da Revolução Francesa. Aliás, o timoneiro Simon Bolívar, que tanto faz a cabeça do comandante venezuelano Hugo Chávez, foi um dos primeiros a retratar a vocação latino-americana para o personalismo: "Não há boa-fé na América nem entre os homens nem entre as nações. Os tratados são papéis, as Constituições não passam de livros, as eleições são batalhas, a liberdade é anarquia e a vida, um tormento". Observando a contundência das batalhas eleitorais, as nossas incluídas, constata-se o acerto (e a atualidade) da profecia bolivariana.

O Brasil não escapa ao pendor autoritário, importado pela colonização portuguesa e ramificado na árvore patrimonialista. Fernando Henrique, que enxerga na contemporaneidade o nascimento de "uma democracia autoritária", certamente há de registrar a disposição monocrática que grassa em nossos costumes desde a velha Constituição de 1824, a qual atribuía a chefia do Executivo ao imperador. O presidencialismo brasileiro é um desfile de mandatários que vestem o manto de pais da Nação, beneméritos, heróis, salvadores da Pátria.

Ademais, por aqui os direitos foram introduzidos de maneira invertida, contribuindo para enxertar na seara democrática sementes autoritárias: primeiro, os direitos sociais (veja-se a legislação social-trabalhista e previdenciária do ciclo getulista), depois os políticos e por último os civis, ao contrário do modelo clássico da cidadania, que começa com as liberdades civis. Não por acaso, faz parte da nossa cultura o hábito de "mamar nas tetas do Estado", sob as quais se desenvolve uma cidadania passiva. A receita do bolo completa-se com o fermento populista, estocado nos bornais de meia dúzia de perfis e usado para insuflar as massas a partir de uma liturgia assistencialista.

As estacas autoritárias fincadas ao redor do arco de valores democráticos funcionam como barreiras ao livre exercício da expressão. Jornais e revistas passam a ser os alvos prediletos dos cultores de uma ordem que desfralda, de um lado, a bandeira da liberdade e, de outro, a tarja negra da coação.

A demagogia das cotas - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 21/10



Ao divulgar o decreto e a portaria que regulamentam a Lei de Cotas, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, acabou reconhecendo que a lei dará acesso às universidades públicas a estudantes que não estão preparados para cursá-las. Aprovada há dois meses pelo Congresso, a Lei de Cotas obriga as universidades e institutos técnicos de nível médio federais a reservarem 50% de vagas para alunos que tenham feito integralmente o ensino médio em escolas públicas.

A lei também estabelece subcotas por critérios de renda e de raça. No primeiro caso, metade das vagas reservadas a "cotistas" deverá ser preenchida por estudantes com renda familiar mensal per capita de até 1,5 salário mínimo (R$ 933). As universidades e institutos técnicos federais poderão exigir cópia da declaração do Imposto de Renda, extratos bancários e até nomear uma comissão encarregada de visitar o domicílio dos candidatos para verificar se vivem em famílias com baixa renda. O decreto cria ainda um Comitê de Acompanhamento das Reservas de Vagas nas Instituições Federais de Educação Superior e de Ensino Técnico, que terá, entre outras, a incumbência de fiscalizar o cumprimento da Lei de Cotas e propor "programas de apoio" a cotistas.

Já no caso das subcotas raciais não haverá qualquer tipo de controle, bastando aos candidatos declarar se são pretos, pardos ou indígenas. Pelo decreto, os candidatos pretos, pardos e indígenas disputarão as mesmas vagas. Caberá, contudo, às universidades federais a prerrogativa de separar as subcotas raciais das cotas para indígenas.

"Fomos o último país a abolir a escravatura nas Américas. A política de ações afirmativas busca corrigir essa dívida histórica. Temos de dar mais oportunidade àqueles que nunca tiveram, que são os pobres", disse o ministro da Educação, depois de anunciar que vem preparando um sistema de tutoria e cursos de nivelamento para cotistas. "Os alunos terão um tutor que os acompanhará, verá as deficiências, ajudará a reforçar o que é necessário", afirmou. Com isso, ele admitiu os problemas de aproveitamento e desempenho escolar que a Lei de Cotas introduzirá nas universidades e institutos técnicos federais. É como se reconhecesse que as universidades e institutos técnicos federais passarão a ter dois tipos de alunos - os de primeira classe, escolhidos pelo princípio do mérito, e os de segunda classe, beneficiados pelo sistema de cotas.

"A experiência demonstra que parte desses alunos precisa de acompanhamento, especialmente no início do curso. Temos de garantir que saiam em condições. Inclusive, vamos fazer uma política de assistência estudantil, para que os cotistas possam se formar e ter seu diploma", afirmou.

Contudo, mostrando como são tomadas as decisões do governo na área social, o ministro anunciou que o "modelo nacional de nivelamento e tutorias" não deverá estar pronto antes do próximo vestibular, quando o regime de cotas entra em vigor. Portanto, apesar da retórica oficial em favor de políticas afirmativas, o MEC não estava preparado para lidar com os problemas trazidos por uma lei que aumentará significativamente as responsabilidades, a burocracia e os gastos das universidades e institutos técnicos federais com atividades-meio.

A preocupação em agitar a bandeira das cotas às vésperas de uma eleição é tanta que, na mesma entrevista em que reconheceu que o governo ainda não tem um plano de nivelamento e tutoria para cotistas, Mercadante disse que está cogitando de usar o sistema de cotas também no programa Ciência sem Fronteiras, que dá bolsas de graduação e pós-graduação no exterior. Mas, segundo ele, essa iniciativa teria de ser precedida do ensino em massa de inglês e de outras línguas. "Se não tem proficiência em inglês, só posso mandar os alunos para Portugal", afirmou. O ministro alegou que o MEC está preparando o programa Inglês sem Fronteiras. Mas, como se tornou rotineiro na administração petista, ele deverá ser implantado depois do anúncio da extensão do regime de cotas para o Ciência sem Fronteiras.

Carminha e Malala - CLÓVIS ROSSI


FOLHA DE SP - 21/10

Nada contra novela, mas não custava prestar atenção ao confronto entre civilização e barbárie

Quer dizer, então, que o final de "Avenida Brasil" mobilizou o país a ponto de o governo ter decidido fornecer energia elétrica extra?

Nada contra (nem a favor, a propósito). Não sou dos que torcem o nariz para a telenovela como se fosse uma sub-arte. Se é ou não, que os especialistas discutam à vontade. O fato é que, se entrou para os hábitos brasileiros de entretenimento, por algo será.

O que me incomoda não é a audiência para o destino de Carminha, mas a falta de audiência, no Brasil, para o destino de Malala Yousafzai.

Para quem não sabe quem é, resumo: Malala é uma menina paquistanesa de 14 anos baleada na cabeça e no pescoço por um ativista do Taleban quando estava no ônibus escolar que a levaria para casa, na cidade de Mingora (vale do Swat, região do Paquistão em que os talebans agem à vontade).

Malala se tornara conhecida por conduzir uma campanha pela educação, especialmente das meninas, o que o Taleban considera contrário à lei islâmica, conforme anunciou no comunicado em que assumiu o atentado.

Malala foi removida para o Reino Unido, e ainda "não saiu das trevas, mas está indo bem", segundo Dave Rosser, diretor médico do hospital (público) que a trata.

Reclamar um pouco de atenção para o drama da menina pode parecer moralismo ou ranzinzice politicamente correta.

Pode ser, mas é, acima de tudo, o inconformismo ante a omissão quando o que está em jogo é o confronto entre civilização e barbárie.

No Reino Unido, o jornal "Independent" lançou a campanha "We are Malala", para recolher assinaturas em favor da liberdade de expressão e do direito à educação de toda criança paquistanesa e contra a "desumanidade" do Taleban.

No Paquistão, cerca de 50 doutores da lei islâmica, próximos ao Conselho pela Unidade Islâmica, emitiram uma "fatwa" em que declaram o crime contrário ao Islã -clara demonstração de que o problema não é a religião em si, mas o fanatismo que nela se escuda.

No Brasil, o noticiário a respeito foi parco e as redes sociais tampouco vibraram como vibram com temas em que a fronteira não é tão definitiva como civilização x barbárie.

Temo, aliás, que parte do silêncio se deva à incapacidade dos "americanofóbicos" de atacar adversários dos Estados Unidos e, mais abrangentemente, do Ocidente.

Tudo bem que a dita civilização ocidental e cristã comete seus crimes. Não é, portanto, sempre civilizada. Mas seus inimigos, quando bárbaros, são bárbaros sempre.

É o caso, em outro exemplo, da Síria. Porque o ditador Bashar Assad é antiamericano, muita gente se opõe a uma intervenção (não necessariamente militar) para evitar o banho de sangue na Síria. Esquecem, como diz a "Economist" que está nas bancas, que "nada fornece argumentos para a intervenção mais fortemente do que as brutais táticas de Mr. Assad".

Ou, posto de outra forma, pode-se ser contra as políticas norte-americanas sem calar sobre ditadores, quaisquer que sejam, ou sobre selvagens como o Taleban.

O investidor não é bobo - SUELY CALDAS


O Estado de S.Paulo - 21/10


O governo Dilma Rousseff espera passar o segundo turno eleitoral para anunciar seu pacote de investimentos em portos e aeroportos. Como nos oito anos de Lula, também Dilma se rende à agenda política e deixa em plano secundário a urgência desses investimentos para o País. Ela quer atrair investidores privados com competência e experiência, mas, como não aceita a ideia de abrir mão do poder de mando na gestão, tem buscado formas de driblar investidores estrangeiros.

Depois da fracassada proposta de manter a Infraero no comando do negócio - rejeitada por grandes operadoras internacionais -, a equipe de Dilma pensou em criar uma ação golden share para os Aeroportos do Galeão (Rio de Janeiro) e Confins (Belo Horizonte). Tal modelo daria, sim, poder de mando ao governo, mas limitado a situações muito esporádicas e previamente definidas no contrato de concessão. Partiu-se, então, para uma segunda alternativa: a Infraero e o setor privado serão minoritários e os fundos de pensão de estatais completarão o controle acionário. Dessa forma, somadas as ações da Infraero e dos fundos, o governo manteria o poder permanente de gestão e decisão nos dois aeroportos.

Óbvio, esse segundo modelo só terá sucesso se com ele concordarem as grandes operadoras que a presidente quer atrair. Não as médias, que levaram as concessões dos Aeroportos de Brasília, Viracopos e Guarulhos. Estas Dilma desconfia que não darão conta do recado. Ela quer as que administram os terminais de Heathrow (Londres) ou Atlanta (EUA), os mais movimentados do mundo. Mas conseguirá com dribles?

O investidor estrangeiro vê no Brasil um grande, promissor e atraente mercado. Não é à toa que o ingresso de capitais de investimento deverá somar US$ 60 bilhões em 2012. Mas, quando se trata de parceria com o governo, ele olha com desconfiança o longo histórico de interferências políticas ruinosas para os resultados dos negócios. E o governo parece fazer questão, a todo instante, de reafirmar seu comando de uma forma, digamos, inconveniente.

Agora mesmo, na questão da redução da tarifa de energia, Dilma tomou coragem e fez o que seus antecessores - Lula inclusive - não fizeram: incorporar à tarifa a queda de custo das empresas decorrente de amortização de ativos. É legal, legítima e bem-vinda a redução tarifária. Mas fez de forma tão autoritária e unilateral que no exterior isso é visto como mais uma intervenção do governo em negócios privados a afastar potenciais investidores interessados em outros setores no Brasil.

É o que acontece agora em relação aos aeroportos, justamente no momento em que o governo precisa atrair as maiores operadoras do mundo. Se a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) cruzasse seus números com os das empresas elétricas para chegar a um entendimento comum, a redução da tarifa não estaria agora sob o risco de ser adiada sabe-se lá até quando. Nem as gestoras de aeroportos estariam assustadas imaginando que a parceria com o governo pode lhes trazer surpresas desagradáveis, caso aceitem vir para o Brasil.

Dilma parece estar longe de acertar o passo com o investimento, agora que descobriu ser esta a forma mais segura de recuperar o pálido crescimento econômico em sua gestão. Em licitação, entregou o controle acionário de três grandes aeroportos para empresas médias e inexperientes e, agora, nega esse controle às maiores do mundo. Sentou em cima de gigantescas jazidas de petróleo da área do pré-sal e deixa de explorar um setor com forte e garantida adesão de investidores privados ávidos em retomar investimentos paralisados há mais de quatro anos.

Além disso, mesmo depois de quase dez anos de experiência em gestão pública, a presidente continua mantendo uma relação imatura e ideológica com a privatização, atrapalhando projetos de investimentos em infraestrutura. Ela vê a privatização como saída para suprir a ausência do Estado e trazer para o País experiência, eficiência e novas tecnologias em serviços públicos. Mas ingenuamente imagina que o investidor aceita ser domado e vai se submeter às suas determinações. Ele não é bobo não, dona Dilma.

O preço do trânsito travado - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 21/10



Os congestionamentos das grandes cidades do Brasil não são apenas exasperantes. Avançam cada vez mais sobre o bolso dos proprietários de veículos e sobre o de cada cidadão.

Estudos do professor Marcos Cintra, vice-presidente da Fundação Getúlio Vargas, tiveram a conclusão ainda preliminar de que, só em São Paulo, o trânsito cobra em perdas de recursos e desembolsos mais de R$ 40 bilhões por ano. Equivale a 95% do orçamento do Município previsto para 2013; ao preço de 1,5 milhão de veículos populares novos (como o Gol); e ao investimento em 80 km de metrô.

Desse total, 75% correspondem ao custo de oportunidade - riquezas que deixam de ser produzidas enquanto as pessoas permanecem bloqueadas dentro do carro. Outros 25% são o que Cintra chama de custo pecuniário. Inclui gastos adicionais com queima de combustíveis; com tratamento de doenças respiratórias causadas por gases poluentes; e a alta do frete, pelo excessivo tempo gasto nas entregas. Fora isso, para driblar engarrafamentos, empresas atuam madrugada adentro, o que implica pagar adicional noturno e horas extras.

Os prejuízos não param por aí. Desde 2006, dobraram as tarifas cobradas pelos serviços de estacionamentos. Em 2011, subiram 13% - aponta a agência AutoInforme. E estacionar nas ruas de São Paulo virou uma batalha inglória. Quem acha uma vaga, ou desembolsa R$ 3,00 por hora pela folha do talão da zona azul e/ou é extorquido pelo flanelinha.

O congestionamento médio, de acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-SP), diminuiu em São Paulo. No entanto, em junho deste ano, a cidade bateu seu recorde histórico, com filas de 295 km, o que é sinal de que as últimas intervenções no fluxo de veículos não foram eficazes.

O entupimento das veias de trânsito não é um problema local. Em todo o País, há carros demais para ruas e estradas de menos. A frota nacional cresce progressivamente. Era de 29,5 milhões de veículos em 2000, chegou a 71,8 milhões neste ano. São 42,3 milhões de carros a mais em somente 12 anos - aumento de 143%.

Para Sérgio Ejzenberg, ex-diretor da CET-SP, o trânsito não voltará ao que era. Tende a piorar. Apenas investimentos pesados e de longo prazo em transporte de massa, principalmente em metrô, melhorarão a mobilidade urbana e a qualidade de vida do cidadão.

Em Nova York, por exemplo, há 22 mil carros para cada km², enquanto, em São Paulo, são 5 mil. Em Nova York, o metrô suporta as horas de pico, de uma ponta à outra da cidade, em 45 km de linhas para cada milhão de habitantes. São Paulo tem somente 7 km por milhão.

A desculpa de sempre é a de que o Brasil não tem recursos. Ejzenberg discorda: "Veja a nossa carga tributária... O problema é de aplicação". Ele dá exemplos do que considera casos de recursos mal empregados pelos governos municipal, estadual e federal: (1) o túnel em construção entre a Rodovia dos Imigrantes e a Avenida Roberto Marinho e a duplicação da Marginal do Tietê (R$ 6 bilhões); o (2) Rodoanel (R$ 30 bilhões); e (3) o futuro trem-bala (R$ 80 bilhões). "Para decisões estapafúrdias, não falta dinheiro. Querem ligar São Paulo ao Rio de Janeiro, mas fica tudo parado nas cidades." Com cada bilhão, garante, seria possível fazer ao menos dois quilômetros de metrô. Portanto, com a soma desses projetos, 232 quilômetros.

O rodízio de carros e as restrições aos veículos de carga no perímetro urbano não bastam. Um dos temas recorrentes nas discussões é a adoção do pedágio urbano - eleitoralmente inviável, mas de inegável sucesso em Londres, Milão e Cingapura. Mas, sem um sistema eficiente de transportes de massa, com integração entre metrô e corredores de ônibus por toda a cidade, essa taxação teria efeitos meramente arrecadatórios. COLABOROU GUSTAVO SANTOS FERREIRA

É a inflação, não os juros - HENRIQUE MEIRELLES


FOLHA DE SP - 21/10

Fala-se muito de juros no Brasil, particularmente da Selic, a taxa básica da economia estabelecida pelo Banco Central. Ela tem estado acima dos padrões internacio-nais desde a estabilização de 1994, apesar de já ter caído bastante. E sua queda é um desejo da sociedade.

Assim, por que o Banco Central sobe os juros ao invés de só baixá-los até atingir níveis internacionais?

A experiência internacional mostra que o manejo da taxa base de juros é o instrumento de controle da inflação mais eficaz e o que gera menores distorções na economia. Quando a inflação sobe, o BC, subindo os juros, influencia a demanda, a atividade econômica e a inflação por diversos mecanismos, chamados canais de transmissão, como o crédito, o câmbio e as expectativas de inflação, entre outros.

Vamos tomar como exemplo a expectativa de inflação na sociedade. Quanto mais baixa for, menor precisa ser o juro para combatê-la. Quando a sociedade se convence de que a inflação estará na meta, os agentes econômicos tendem a reajustar seus preços em linha com a meta, e não acima dela, o que demandaria juros mais altos, com maior custo à população.

O Brasil tem história de hiperinflação e periódicas crises fiscais e cambiais. Essas são as principais razões que levaram as taxas a ficarem tão elevadas por tanto tempo. Depois de anos de hiperinflação, comerciantes, empresários e trabalhadores demandavam aumentos de salários e preços muito mais altos, mesmo com a economia já estabilizada. Para quebrar essa mecânica de inércia inflacionária, o BC teve que fixar taxas mais elevadas que em outros países.

A boa notícia é que, no momento em que o país começou a ganhar a luta contra a inflação, as expectativas de inflação começaram a cair e, por consequência, as taxas de juros também.

Por que tivemos êxito? Por vários fatores: 1) a inflação ficou na meta por muitos anos, diminuindo o risco de descontrole; 2) a situação fiscal melhorou muito, principalmente pela queda dos juros e dos custos de financiamento do Tesouro; 3) a melhora nas contas públicas reduziu a dívida pública; 4) as reservas internacionais aumentaram de forma exponencial; 5) a capacidade de exportar cresceu.

A melhor maneira de derrubar a taxa de juros de forma sustentável, sem gerar inflação à frente ou outros riscos, é assegurar à sociedade que não só o governo seguirá atuando para controlar a dívida pública, mas, principalmente, que o BC tomará as medidas necessárias para manter a inflação na meta.

Ironicamente, portanto, a melhor maneira de derrubar as taxas de juros é não se preocupar tanto com as taxas de juros, e sim com a inflação.

Um novo tripé - AMIR KHAIR


O ESTADÃO - 21/10
O que caracterizou a política econômica durante o segundo mandato do governo FHC (1999/2002) foi o denominado tripé: meta de inflação, superávit primário e câmbio flutuante. O que foi saudado, equivocadamente, por algumas análises, como acerto na política econômica do governo Lula (2003/2010) foi a manutenção deste tripé. O que vem sendo tratado em várias análises nestes 22 meses de governo Dilma é se essa política do tripé foi abandonada.

Parece-me claro que foi dado adeus ao tripé original e, desde o início deste ano, passou- se a ter um novo tripé:meta de crescimento, resultado fiscal e câmbio administrado.

As análises que defendem o tripé original argumentam que ele assegura a inflação sob controle e finanças públicas e contas externas em equilíbrio. O crescimento, ora o crescimento, é consequência.

Vamos analisar esses argumentos, quanto aos objetivos pretendidos.

Inflação. Meta de inflação é necessária, mas não suficiente. Necessária, pois dá um balizamento aos agentes econômicos quanto ao comportamento previsto para a evolução dos preços. Insuficiente, pois os agentes, se puderem, costumam fazer a correção dos preços olhando pelo retrovisor, ou seja,a inflação passada e, mais insuficiente ainda, pois os condicionantes da inflação pouco dependem da política econômica. Esses condicionantes são os preços internacionais, preços dos serviços e preços monitorados pelo governo(federal, estadual e municipal).

Estatisticamente, pelos dados dos últimos 17 anos, cerca de 60% da inflação depende dos preços dos produtos comercializáveis, que são os que sofrem a concorrência externa, com destaque para as commodities.O preço dos serviços condicionam cerca de 25% da inflação,eos preços monitorados, 15%.

Neste ano, a influência na inflação mundial se deu pela seca nos Estados Unidos,que encareceu os alimentos. Até setembro, a inflação atingiu 3,77% e a dos alimentos,6,44%.Cerca da metade da inflação neste ano, segundo algumas análises, virá dos alimentos. Nem a meta nem o governo podem alterar isso.

Os serviços ficaram abaixo da inflação de 1999 a 2004 e, a partir de 2005, ficaram acima, provavelmente pela demanda maior que a oferta. Para conter a inflação de serviços, só com maior arrocho na economia para gerar desemprego, o que não constitui objetivo deste governo, que luta para conseguir retomar o ritmo de crescimento que vigorou de 2004 a 2008 (4,8% ao ano). Vale notar que algumas análises argumentam que a inflação virá, pois os salários estão sendo corrigidos acima da inflação em razão do baixo nível de desemprego. Será que pregam ampliar o desemprego para conter o mal da inflação? Não creio. Os preços monitorados (energia elétrica, telefone, combustíveis, água e esgoto, passagens de ônibus, etc), de 1995 até 2006, foram corrigidos acima da inflação e, após 2006, têm contribuído para reduzir a inflação. Exemplo disso é o não reajuste dos combustíveis da Petrobrás por nove anos - um erro, pois está enfraquecendo a principal empresa do País, quando o governo deveria fazer o contrário.

Assim, pode-se fixar meta de inflação, mas a ação do governo federal é apenas sobre parte dos 15% que influenciam os preços monitorados e, assim mesmo, em larga escala, dependerá das agências reguladoras, sujeitas a poderosos lobbies das concessionárias de serviços públicos.

Vale sempre repetir: quanto mais baixa a Selic, maior o estímulo ao investimento privado; portanto, na ampliação futura da oferta, melhor antídoto contra a inflação. Por isso, parar em 7,25% atenta contra os objetivos do governo de estímulo ao investimento, de crescimento, de combate à inflação e na saúde das contas públicas.

Finanças públicas. O uso do superávit primário (diferença entre as receitas e despesas, exclusive financeiras) para a saúde das finanças públicas é inadequado, pois olha só um lado da moeda. O outro, as despesas com juros, não é considerado neste conceito, que é tanto mais inadequado quanto maior o peso dos juros nas contas públicas. Por exemplo: em 2003, o superávit primário foi de 3,3% do PIB e o déficit,de 5,2% do PIB.Em 2009, o superávit primário foi 2% do PIB e o déficit, 3,3% do PIB. O que marcou isso foi a despesa com juros,que foi de 8,5% do PIB em 2003 e de 5,3% em 2009.

Felizmente, o descarte do resultado primário começou a ser feito pelo governo e por número crescente de análises sobre contas públicas.

Câmbio flutuante.

É das pernas do tripé a que foi rifada há vários anos.O enterro definitivo ocorreu em todos os países após a crise de 2008, quando o Fed (banco central americano), o Banco Central Europeu e os bancos centrais da Inglaterra e Japão injetaram na economia algo equivalente a US$ 10 trilhões. Isso ocorreu e continua para salvar os sistemas bancários desses países e permitir a desvalorização de suas moedas para estimular as exportações.

Em resposta a essa avalanche de liquidez, há de desvalorizar o real para devolver às empresas a competitividade que lhes foi subtraída com a valorização do real. O Brasil tornou-se um país caro até na comparação com os países desenvolvidos. Não é que o preço externo tenha baixado tanto que ficou mais barato comprar fora.É que o preço do nosso produto ficou mais caro com a valorização da moeda.Tenho repetido em artigos que o câmbio que permite o equilíbrio das contas externas é pouco acima de R$ 3. Assim, é necessário desvalorizar o real injetando liquidez na economia e,para isso,só via câmbio administrado.

Meta de crescimento. Se pouco pode fazer o governo para alterar a inflação, que não depende mais da Selic, muito tem a ser feito em favor do crescimento econômico. O mais importante é retirar as travas do crescimento: juros bancários elevados e carga tributária alta sobre o consumo.

É necessário continuar a pressão sobre os bancos privados para reduzir o pouco que fizeram para reduzir os juros.O caminho é continuar a redução da Selic até 5% (média dos países emergentes) e tabelar, reduzindo as tarifas bancárias. Com isso reduz-se duas importantes fontes de lucro bancário, induzindo-os à concorrência nos empréstimos.

Para diminuir a carga tributária sobre o consumo, não é simplificando o ICMS estadual, mas sim reduzindo suas elevadas alíquotas. Com isso, os preços caem, favorecendo o combate à inflação, a melhor distribuição do ônus tributário que pesa sobre as pessoas e a maior competitividade para as empresas.O crescimento econômico gerado compensa os Estados da aparente perda com a redução de alíquotas.

O velho tripé garantiu polpudos e fáceis lucros aos bancos. Que o novo,em conjunto com outras políticas, especialmente as voltadas para uma melhor distribuição de renda, ajude a impulsionar o desenvolvimento econômico. Vale acompanhar.

Sicofantas e tagarelas - ROBERTO ROMANO


O Estado de S.Paulo - 21/10


A palavra é o maior valor ético na ordem pública. Graves atentados ao decoro político são cometidos por gestos e incontinências verbais. Segundo Spinoza, o respeito exige que os governantes sejam prudentes quando movem a língua e o corpo. Ele adverte: "O Estado, para garantir o próprio domínio, se obriga a manter as causas do temor e do respeito (...). Aos que assumem o poder público é proibido se exibir em plena embriaguez ou sem roupas na companhia de prostitutas, imitar os palhaços, violar ou desprezar abertamente as leis editadas por eles mesmos" (Tratado Político). Gestos ou palavras devem ser medidos na política.

Quem não controla a fala por ela é dominado. A prudência requer disciplina e caráter. É árduo, diz Plutarco, "fazer dos dentes uma barreira sólida contra o dilúvio da língua". Usando termos da medicina, o teórico batiza a moléstia que acomete o falador como asingesia, a impossibilidade de manter silêncio. Ao piorar a doença, chega-se à diarréousi, a diarreia da boca (Sobre o Palavrório). As frases devem ser pesadas (a origem de "pensar" e "pesar" é comum). Caso oposto, elas aniquilam a sociedade. A ninguém é lícito ignorar a polidez, marca do convívio civil. Sem respeito pelas normas do pacto social, os líderes transformam os cidadãos em alcateia facínora cuja boca é usada para estraçalhar, nunca para exercer o diálogo.

Vejamos a semântica do termo "delator", aplicado pela mídia ao sr. Roberto Jefferson. A origem do termo é grega, como quase todos os vocábulos relevantes de nossa política e medicina. Hoje atravessamos uma crise inédita do Estado. O soberano não consegue exercer na plenitude os monopólios da ordem jurídica, dos impostos, da violência física. Preocupa a incerteza quanto aos limites dos Poderes. Há bom tempo se discute nos meios políticos, ideológicos, religiosos e financeiros a "judicialização" da vida pública, a hipertrofia do Judiciário (C. Neal Tate, The Global Expansion of Judicial Power, 1995).

Em Atenas não existia Ministério Público e nenhuma autoridade legal poderia entrar na Justiça em defesa dos interesses estatais. Cabia "a quem desejasse" (fórmula democrática instaurada por Sólon) o direito de falar em nome do Estado. Quem assim fazia se tornava parte do processo judicial em favor da "polis". Aqueles indivíduos agiam por amor à justiça? Já nos primórdios da vida democrática grega os magistrados desconfiaram dos interesses que movem os acusadores. Logo transformada em profissão, a atividade do sicofanta esmera-se na chantagem pecuniária (para responder em nome alheio a acusação ou renunciar a um processo perigoso para o acusado).

O mister de sicofanta, segundo C. R. Kennedy (citado por John Oscar Lofberg em Sycophancy in Athens, 1976), é "uma feliz mistura de chicaneiro, denunciador, processualista, apalpador, salafrário, mentiroso e caluniador. Ela supõe a calúnia, a conspiração, a acusação mentirosa, a litigância de má-fé, a ameaça de processos judiciais para extorquir dinheiro e, de modo geral, todos os recursos abusivos nos procedimentos legais com fins desonestos".

A inflação dos sicofantas ameaçava a democracia ateniense, pois dividia os cidadãos, enfraquecendo a solidariedade coletiva. Aristófanes dá o nome de "vespas" aos delatores, porque suas picadas molestam a paz coletiva. Embora sua existência se universalize, o delator é odiado. Como no inferno descrito por Sartre, sicofanta é sempre o outro (Catherine Darbo-Peschanski, Por um punhado de figos, judicialização moderna e sicofantismo antigo - in Pauline Schmitt Pantel: Athènes et le Politique).

No Direito Romano, quem denuncia pode funcionar como acusador. Caius permite que escravos delatem seus mestres, mas Claudius proíbe a prática e Galba a pune. Constantino veta a oitiva dos delatores e os condena à morte. No Digesto, a delação é tida como odiosa. Na ordem moderna, o delator aponta o crime, mas o acusador é o interessado em repará-lo buscando a justiça dos tribunais.

No século 18, era das Luzes, o problema apaixona pensadores e políticos. A Enciclopédia coordenada por Denis Diderot disseca o tema. Em verbete é dito que "denunciar, acusar, delatar são termos relativos ao mesmo ato por diferentes motivos. O estrito apego à lei parece motivar quem denuncia, um sentimento honrado ou gesto razoável de vingança, ou uma outra paixão, são marcas de quem acusa. No caso do delator a devoção baixa, mercenária ou servil, o prazer malicioso de fazer o mal aos outros, tudo pode ocorrer sem que ele receba benefícios em troca. Acreditamos que o delator atraiçoa; que o acusador é uma pessoa irritada; que o denunciante é alguém indignado. Embora as três figuras sejam odiosas para a opinião pública, o filósofo às vezes deve elogiar o denunciante e aprovar o acusador. O delator é sempre desprezível".

Temos aí o saber dos séculos contra Roberto Jefferson.

E a "tese" sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) como tribunal de exceção? A língua assim usada contra os juízes é imprudente. O delator indicou ações cometidas por ele e comparsas e foi sancionado negativamente. Os juízes do caso não agiram segundo os moldes do soberano "que decide sobre o estado de exceção". Defensores da Carta Magna, eles não se colocaram acima dela. Tal realidade represa a torrente de palavras e de insultos dirigidos contra os magistrados.

Exigir que todos sejam punidos de modo semelhante, sem discriminação partidária ou ideológica, é um avanço democrático. Nivelar instituições e malfeitores sinaliza o pior atraso político. Hoje é o mensalão petista. Amanhã, o tucano e quejandos. Mas todos os partidos dependem da justiça. Se um deles a recusa alegando "golpismo burguês", a quem apelar no futuro? Às Forças Armadas, às milícias, à guerrilha?

Prudência, senhores, recordem a lição de Fujimori.

Os postes iluminados de Lula - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE S. PAULO - 21/10


Com Dilma e Haddad, Lula dá banho de loja no PT, mas "new look" ainda está longe de ter substância



O PT ANTIGO, para não dizer mesmo original, autodestruiu-se a fim de eleger Lula presidente. As lideranças que a partir de meados dos anos 1990 transformaram o partido na máquina centralizada, profissional, burocrática e pragmática que venceria em 2002 estão caídas, exiladas da política ou sob risco de prisão.

O PT novo, ou pelo menos o PT de 2012, brota dos detritos dessa máquina, a geringonça personalista comandada por Lula.

Sabemos pouco do que foi feito das "bases petistas" ou do futuro dos profissionais da burocracia do partido. Mas os eleitos de Lula quase nada têm a ver com os velhos PTs e nem com o próprio Lula.

Fernando Haddad está para vencer a eleição paulistana, a segunda mais importante desde o fim do governo Lula. Dilma Rousseff é a presidente. Os dois fizeram carreiras marginais no PT, não vieram das "bases", não comandaram a máquina e são, a seu modo, "intelectuais".

Apesar de popularíssima, Dilma não tem ascendência sobre o PT nem dissipou a névoa sobre 2014, pois ainda é frequente a falação sobre a volta de Lula. Haddad é noviço de todo. Embora esteja para subir na enorme plataforma que é a Prefeitura de São Paulo, isso não o habilita automaticamente a escalar outros degraus. Vide os casos de Marta Suplicy e Luiza Erundina.

Mas não se pode desprezar a novidade, seus possíveis efeitos sobre o PT e até mesmo sobre partidos que um dia se orgulhavam de seus quadros, como o PSDB.

Como está óbvio, Lula procura dar um banho de loja no PT.

Apesar de ridiculamente anacrônica, a imagem de partido "popular demais", de militantes enjoados, enfim, de esquerdistas, ainda pega mal entre muito paulista, pelo menos. O partido ficou ainda pior na foto quando vestido dos trapos das corrupções. Dilma e Haddad dão um ar, digamos, mais limpinho ao partido. São os postes iluminados, ilustrados, que Lula ajudou a eleger.

Ajudou a eleger, ressalte-se. Lula colocou o "new look" na prateleira, mas o eleitorado é que decidiu comprá-lo.

Como está óbvio, o eleitorado comprou "gente nova", dissociada da imagem do político "normal", com aparência apolítica, algo tecnocrática e de classe média. Pelo menos para o grande público, Dilma e Haddad não estão identificados com nenhuma causa célebre, ideologia distinta ou corrente política além do lulismo (que nem é um movimento popular, aliás).

O que o eleitor levou? Dilma e Haddad têm um passado de extrema esquerda, cada um a seu modo. No presente, estão mais preocupados em sobreviver, pragmaticamente.

Dilma procura quase apenas e desesperadamente reaquecer a economia enquanto toca o nosso pobrinho e precário Estado de Bem-Estar Tropical, sem grandes novidades.

Apesar de ter feito parte das equipes de Marta (prefeitura) e Guido Mantega (Planejamento) e de ter sido ministro, Haddad acabou de descer de paraquedas na política profissional. Não tem equipe, seguidores, causa ou projeto publicado.

Dilma e Haddad serão capazes de dar substância ao "new look", organizar uma nova corrente política? Ou não passarão da versão petista das "novas caras" da política, um grande vazio de homens/mulheres e ideias?

Momento de decisão - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 21/10


O ministro Celso de Mello não se abala com ataques aos procedimentos do Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalão nem se deixa impressionar pelos elogios. "Isso tudo é passageiro", ameniza.

Permanente mesmo - o mais importante na opinião dele - é o "alto poder pedagógico" do processo, cuja essência não está na distinção entre técnica e política, mas em seu caráter moral. "A peça fundamental em exame é a ética de governos."

Obviamente o ministro repudia a versão de que o STF estaria atuando como um "tribunal de exceção", distanciando-se do rigor legal para enveredar pelo terreno da perseguição a um partido: "Os conceitos emitidos não estão distanciados da realidade constitucional. Ao contrário. A fidelidade à Constituição é que nos permite demonstrar a transgressão".

O juízo definitivo, considera, será dado pela percepção do País a respeito do que vem sendo dito há quase três meses pelo Supremo. "Há um esforço do tribunal para que a coletividade saiba perfeitamente por que os réus são condenados ou absolvidos."

Daí a utilidade e a necessidade de os ministros sustentarem seus votos em argumentos doutrinários e também em princípios como o defendido por ele no dia 1.º de outubro na condenação de deputados por corrupção passiva: "Quem tem nas mãos o poder do Estado não pode exercer o poder em proveito próprio".

Celso de Mello acompanha todas as críticas, lê os sites mais desaforados, cita autores, reproduz trechos de memória. Descontado o desconforto com as que "beiram a irracionalidade" e as que "resvalam para a ofensa pessoal", celebra o "pluralismo de ideias" e aponta que aí reside a beleza da democracia.

"Ruim era o tempo em que injúrias a ministros do Supremo eram consideradas crimes de lesa-pátria", diz, exibindo como prova o artigo da Lei de Segurança Nacional ainda em vigor, mas neste aspecto letra morta. "Ainda bem", comemora.

O decano, desde 1989 na Corte, prepara-se para dar por encerrada sua missão - "este é meu último outubro aqui" - antecipando uma aposentadoria que por idade ocorreria só em 2015, a conselho do médico por causa das sucessivas crises de hipertensão.

Não provocadas, mas agravadas pelo excesso de trabalho do processo em curso, "uma exaustiva maratona". O esgotamento físico, contudo, é, na visão do ministro, largamente compensado pela oportunidade de estabelecer novos paradigmas no trato de crimes cometidos a partir do controle do aparelho de Estado.

"Não estamos julgando simples delitos de corrupção, estamos diante de uma ação corruptora destrutiva do fundamento essencial da República, que é a separação dos Poderes e o equilíbrio entre eles."

A tentativa de subjugar o Legislativo às vontades do Executivo e ainda mediante a compra dessa submissão, na concepção de Celso de Mello, afronta a integridade do Estado de direito e põe em risco a garantia das liberdades.

Como? O decano explica: "Se um dos Poderes concentra toda a força e, mais grave, constrói essa hegemonia por meio de iniciativa criminosa, o que se tem é uma aguda distorção institucional decorrente da ilicitude e do modo imperial de governar".



A expectativa do ministro é que esse julgamento funcione também como um estímulo à restauração dos preceitos republicanos.

Torce para que a sociedade compreenda o panorama que emerge de todo esse debate e se esforce para defender seu direito de contar com "administradores íntegros, parlamentares probos e juízes incorruptíveis".

Para Celso de Mello a mensagem do STF está dada: "A absoluta intolerância do Poder Judiciário em face de atos de corrupção".

Sobre o maior ou menor alcance que isso terá daqui em diante o melhor juiz é "o povo brasileiro" que, na opinião do ministro, vive "um momento de decisão".

Daqui para a sucessão - JANIO DE FREITAS


FOLHA DE S. PAULO - 21/10


Serra mostrou-se, mais uma vez, nas palavras do jargão, grande puxador de votos -para o adversário



A provável vitória de Fernando Haddad, prenunciada na dianteira de 20% sobre José Serra nos votos válidos, tem vigor bastante para zerar as preocupações do PT com as possíveis e temidas repercussões, sobre o futuro petista, de condenações feitas pelo Supremo Tribunal Federal. As recentes e sigilosas reuniões de Lula com Dilma Rousseff e alguns petistas confirmam os temores e sua intensidade.

As preocupações justificavam-se já pela temeridade da escolha pessoal feita por Lula, impondo um candidato sem experiência eleitoral e pouco conhecido no eleitorado. Condições agravadas pela doença que minimizou a participação de Lula na campanha, pela agenda dada ao mensalão no STF e pela tradicional posição de grande parte dos meios de comunicação. Mas, na hora do enfrentamento, é inegável que muito desses agravantes foi compensado pelo adversário.

José Serra é o homem que não aprende. Mostrou-se, mais uma vez, nas palavras do jargão, grande puxador de votos -para o adversário. Com débito grande no eleitorado, pelo abandono da prefeitura e, ainda por cima, para o reprovado Gilberto Kassab, foi incapaz de reduzi-lo. Foi incapaz da criação de alguma ideia sedutora, de um argumento qualquer que remendasse sua imagem. Preferiu ser apenas o agressor descontrolado de sempre. Deu, porém, uma oportunidade ao eleitorado: a de dobrar-lhe a elevada rejeição e com isso desmentir que os eleitores esquecem tudo e depressa.

A propósito, o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, em alta hospitalar por diabetes e problemas renais, afirmou que "o mensalão não foi bandeira de campanha do PSDB". Fica a suspeita: ou trataram a crise errada ou deixaram efeitos colaterais esquisitos.

Agora quem fará reuniões de temor e preocupação é o PSDB. Necessárias a Aécio Neves, porque a provável derrota de Serra não o beneficia, como muitos têm dito e escrito. A vitória fortaleceria o partido como a derrota o descredencia, no eleitorado e entre as forças políticas. O jogo sucessório acelera-se a partir de agora. Com José Serra no partido que fez Kassab criar para uma eventualidade? É melhor não duvidar.

NA REALIDADE

Para não faltar com o mensalão. As ministras Rosa Weber e Cármen Lúcia, seguidas pelo revisor Ricardo Lewandowski, recusaram a acusação de "quadrilha" no mensalão, entre outras razões porque, no Código Penal, configura-se como "crime contra a paz pública". Dois professores da Fundação Getulio Vargas/Rio propõem indagações a respeito, em artigo no "Globo": "Onde e como essa paz começaria a ser ameaçada? Pelo tamanho da quadrilha? Pela violência dos crimes?"

Às obscuridades muitos sugestivas para alguns ministros do STF, opõe-se a simples realidade leiga: a paz social é ameaçada quando o grupo tem a posse de armas, visa apropriar-se de bem alheio privado ou público, ou põe em risco a vida, a integridade física ou a propriedade de outrem.

E ainda há mais características exigidas para a definição de quadrilha. Se não para todos os doutores do Direito, por certo para as leis e a realidade. Mas tudo depende de querer julgamentos isentos.

Um sucesso para ninguém botar defeito - ELIO GASPARI

O GLOBO - 21/10


A notícia pareceu uma simples estatística: entre 1997 e 2011, quintuplicou a percentagem de negros e pardos que cursam ou concluíram o curso superior, indo de 4% para 19,8%. Em números brutos, foram 12,8 milhões de jovens de 18 a 24 anos.
Isso aconteceu pela conjunção de duas iniciativas: restabelecimento do valor da moeda, ocorrido durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, e as políticas de ação afirmativa desencadeadas por Lula.
Poucos países do mundo conseguiram resultado semelhante em tão pouco tempo. Para ter uma ideia do tamanho dessa conquista, em 2011 a percentagem de afrodescendentes matriculados em universidades americanas chegou a 13,8%, 3 milhões em números brutos. Isso depois de meio século de lutas e leis.
Em 1957, estudantes negros entraram na escola de Little Rock escoltados pela 101ª Divisão de Paraquedistas.
Pindorama ainda tem muito chão pela frente, pois seus negros e pardos formam 50,6% da sua população e nos Estados Unidos são 13%.
O percentual de 1997 retratava um Brasil que precisava mudar. O de 2011, uma sociedade que está mudando, para melhor. Por trás desse êxito estão políticas de cotas ou estímulos nas universidades públicas e no ProUni.
Em seis anos, o ProUni matriculou mais de 1 milhão jovens do andar de baixo, brancos, pardos, negros ou índios. Deles, 265 mil já se formaram. Novamente, convém ver o que esse número significa: em 1944, quando a sociedade americana não sabia o que fazer com milhões de soldados que combatiam na Europa e no Pacífico, o presidente Franklin Roosevelt criou a GI-Bill.
Ela dava a todos os soldados uma bolsa integral nas universidades que viessem a aceitá-los. Em cinco anos, a GI-Bill matriculou 2 milhões de jovens. Hoje entende-se que a iniciativa foi a base da nova classe média americana e há estudiosos que veem nela o programa de maior alcance social das reformas de Roosevelt.

MANGUINHOS, JOIA DA COROA OU GUARDANAPO
A desapropriação dos 500 mil metros quadrados da refinaria de Manguinhos pode se tornar uma das joias da coroa da administração do governador Sérgio Cabral. Tudo bem se a indenização tiver que cobrir os impostos que a empresa deve (só de ICMS são R$ 675 milhões, bem como seu passivo trabalhista).
Se os donos de uma refinaria obsoleta que contamina o ambiente e envenena o solo embolsarem algo como R$ 200 milhões, será um caso de guardanapo na cabeça. Essa decisão, contudo, caberá ao Poder Judiciário.
Manguinhos fica dentro da cidade e degradou a região de tal forma que está cercada por comunidades miseráveis.
A ideia de usar seu terreno para recuperar a região poderá resultar na pacificação urbanística do que hoje é a favela de Ramos. Seria uma intervenção do tamanho da revitalização da zona portuária, mesmo sem o seu charme.
Não se deve subestimar os poderes da turma de Manguinhos, estabelecida quando o presidente Getúlio Vargas alavancou seu primeiro dono, o empresário Peixoto de Castro. Recentemente, os novos controladores tiveram novos anjos da guarda, os comissários Marcelo Sereno e José Dirceu, mais a bancada dos precatórios do PMDB.
Nos anos 50, a turma do refino privado foi incomodada no Conselho Nacional do Petróleo por um economista e um coronel. Deram um trato ao economista (Jesus Soares Pereira) cassando-o em 1964. Ao coronel, ofereceram a presidência da Petrobras no governo JK, desde que ficasse quieto. Como ele não ficou, derrubaram-no.
Faltou-lhes a sorte. O coronel Ernesto Geisel tornou-se presidente da Petrobras e da República. Ele gostava de contar como foi atrás deles.

ARQUIVO
José Roberto Arruda, ex-governador de Brasília e ícone do mensalão do DEM, voltou a falar:
"Só digo uma coisa: não apareceu nem metade da missa".
Como diria Camila Pitanga: "Fala, Arruda".

O CONTRADITÓRIO
A revista "Retrato", dirigida pelo repórter Raimundo Rodrigues Pereira, chegará às bancas nesta semana com uma capa intitulada "A vertigem do Supremo". Ela afirma que os ministros do STF deliraram ao aceitar a tese segundo a qual houve um desvio de R$ 76,8 milhões do Banco do Brasil para a turma do mensalão. A reportagem sustenta que não há trabalho contábil de fé que ampare essa acusação e coloca no site da revista 108 documentos (cada um com cerca de 200 páginas) da auditoria feita pelo banco.
Com mais de 40 anos de carreira e obsessões investigativas, Raimundo já contrariou a sabedoria convencional em duas ocasiões. Há dois anos, provou que o banqueiro Daniel Dantas foi satanizado pelo delegado Protógenes Queiroz na Operação Satiagraha. Nenhum dos fatos que mencionou foi desmentido.
Em 1996, ele investigou as denúncias de má conduta profissional feitas contra a cientista brasileira Teresa Imanishi. Tinha do outro lado um Prêmio Nobel e o governo americano. Prevaleceu e depois de dez anos a cientista foi inocentada, com pedidos de desculpas do "New York Times" e do "Washington Post".

AVISO AMIGO
Quando o ministro Joaquim Barbosa assumir a presidência do Supremo deverá ter uma preocupação. Ele sabe que não é estimado pelos colegas. O que talvez não saiba é que muitos deles não pretendem levar desaforo para casa.

PESADELO AMERICANO
Sempre que a eleição americana marcha para um final apertado ressurge o fantasma do empate no colégio eleitoral.
Desta vez existe a remota possibilidade de Barack Obama e Mitt Romney empatarem, cada um com 269 votos, no colégio eleitoral.
Nesse caso, a escolha irá para uma assembleia de 50 eleitores (um para cada Estado) e tudo indica que Romney saia vitorioso, pois os republicanos tendem a manter a maioria na Câmara dos Representantes.
Se esse cenário improvável ocorrer, a crise de 2000, quando George Bush 2º prevaleceu sobre Al Gore, será vista como uma mixaria, sobretudo se o companheiro Obama conseguir mais votos populares.
A democracia americana sairá mal da foto. Olhando-se para seus últimos oito presidentes, três passaram por processos anômalos. Bush 2º ganhou a Casa Branca na Corte Suprema, Richard Nixon foi obrigado a renunciar, e John Kennedy foi assassinado.
(A possibilidade do empate e a discussão do processo eleitoral estão descritos no site "Sabato's Crystal Ball". Apesar de ter escolhido nome bobo, o professor Larry Sabato, da Universidade da Virgínia, é um respeitado estudioso das eleições americanas.)

EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota e muda de opinião a cada dia.
Às segundas, quartas e sextas é favorável ao "kit anti-homofobia". Às terças, quintas e sábados é contra.
Em todos os casos, por idiota, acredita que essa discussão criará mais escolas, creches e hospitais na cidade de São Paulo . Por quê? Eremildo não sabe, mas está procurando quem saiba.

Condenação do sistema - JOÃO BOSCO RABELLO


O Estado de S.Paulo - 21/10

Embora não se deva perder de vista seu efeito objetivo de sustar o financiamento de um projeto hegemônico de poder com dinheiro público, seria reducionista limitar o sentido histórico do julgamento do mensalão a essa consequência mais visível de desmontar o esquema de compra de apoio político construído no governo do ex-presidente Lula.

Alvo da hora, o PT amarga a corrosão de sua imagem de partido originalmente avesso a alianças com a velha política (caminho repetido pelo PSOL), indiferente ao fato de que o calvário de seus dirigentes tem origem na adoção das práticas que condenava - do caixa 2 que "todos fazem" aos "300 picaretas" do Congresso que denunciou para depois comprar.

A amplitude do esquema criminoso na estrutura dos poderes Legislativo e Executivo explica a estrondosa repercussão do caso, considerada injusta pelo partido. Mas registrados o ineditismo e a gravidade de sua dimensão, a imensa ferida aberta pelo julgamento contagia todo o espectro partidário.

O recado do Supremo Tribunal Federal, explicitado em alguns votos históricos, como os dos ministros Celso de Mello e Carmem Lúcia, é de intolerância com os modos e costumes arraigados no sistema político a cuja reforma se mantêm refratários seus atores, esquecendo que a condenação pelo Judiciário é avalizada pela sociedade e, agora, firmou jurisprudência.

Está em xeque o Congresso Nacional, cuja omissão diante das questões nacionais mais importantes transfere para o STF o ônus legislativo e, há algum tempo, o julgamento de seus pares, só punidos pela corporação. Quando a pressão externa torna mais caro mantê-los.

Efeito colateral

Efeito colateral da exposição positiva gerada pelas vitórias do PSB em Belo Horizonte e Recife, o PSDB desdenha nos bastidores a possibilidade do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, antecipar para 2014 seu projeto presidencial. Lideranças tucanas não veem no rival e potencial aliado, ao mesmo tempo, uma ameaça. O argumento é que apesar do crescimento do PSB no pleito municipal, só dois Estados nordestinos dariam sustentação a Campos: Pernambuco e o Ceará, este último se Cid e Ciro Gomes marcharem com ele. Atribuem a vitória em Belo Horizonte a Aécio Neves e afirmam que lhe faltam palanques no Sul e no Sudeste para uma 
campanha presidencial.

Maniqueísmo

Não obstante as alianças no 2.º turno em Campinas, Fortaleza, Manaus e Uberaba, e a vitoriosa em Minas, tucanos estão irritados com o vice do PSB, Roberto Amaral, para quem uma aliança com Aécio seria ir para a direita. Aécio reagiu: "Essa coisa de direita e esquerda é um discurso ultrapassado e maniqueísta".

A conta

O PMDB não acredita no estímulo - e muito menos no apoio - do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, a uma eventual candidatura do deputado Júlio Delgado (PSB-MG) à presidência da Câmara, em oposição a Henrique Alves (PMDB-RN). Lembram que o presidente do PSB tem uma dívida de gratidão com o PMDB, que apoiou a indicação da mãe de Campos, a ex-deputada Ana Arraes (PSB-PE), para o Tribunal de Contas da União (TCU). Agora o PMDB vai cobrar a fatura.

Melhor, logo...

Líderes partidários apressam ida ao STF para obter prazo de correção das regras de distribuição do Fundo de Participação dos Estados (FPE), que o tribunal considerou inconstitucionais. Querem pegar Ayres Britto na Presidência, por temerem um não do sucessor Joaquim Barbosa.

Ciumeira no PMDB - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 21/10


Líderes regionais do PMDB estão irritados com o tratamento privilegiado que a direção nacional deu às candidaturas a prefeito de Eduardo Paes, no Rio, e de Gabriel Chalita, em São Paulo. Reclamam que, enquanto a maioria dos candidatos peemedebistas esteve à míngua, a Executiva Nacional investiu R$ 18 milhões na campanha de Paes e R$ 9 milhões na de Chalita.

A vitrine do PSOL será no Rio
Os candidatos do governador Sérgio Cabral (PMDB) e do ex-governador Anthony Garotinho (PR) perderam as eleições de Itaocara, no Norte Fluminense. Eles foram derrotados pelo primeiro prefeito eleito pelo PSOL, Gelsimar Gonzaga. O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) relata as primeiras medidas anunciadas pelo futuro prefeito: vai auditar as contas da prefeitura, criar um Portal da Transparência e rever a quantidade e a distribuição de cargos em comissão (são 198 em um município de 23 mil habitantes). E vai rever o salário do prefeito, R$ 15 mil, e dos secretários. A maioria dos servidores recebe em torno de um salário mínimo.

Não se fala de outra coisa
A orientação do Planalto e do PT é evitar o clima de "já ganhou" em São Paulo. Mas não se fala em outra coisa em Brasília a não ser o futuro secretariado de Fernando Haddad. Há disputa ferrenha entre os deputados federais do partido.

Todo mundo quer
Com os resultados animadores de petistas escolhidos pelo ex-presidente Lula para concorrer a prefeito, como Fernando Haddad, em São Paulo; e Márcio Pochmann, em Campinas, a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) passou a semana comentando no Planalto, entre risos, que o PT vai instituir as prévias para "poste de Lula."

Na reta final
Os ministros vão aparecer em peso nas campanhas do PT e partidos da base, onde não há disputa direta com os petistas, a partir desta segunda-feira. Fizeram fila no PT nacional na semana passada para gravar os depoimentos.

Garibaldi x Gabas
A relação entre o ministro Garibaldi Alves (Previdência) e seu secretário-executivo, Carlos Gabas, que já não era das melhores, azedou de vez. Garibaldi não gostou da atitude de Gabas, que sem consultá-lo, se reuniu com a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) para reclamar do trabalho de Mauro Luciano Hauschild, que acabou demitido da presidência do INSS.

Simples assim
Uma campanha ganha corpo na internet: "Queremos nome decente para a mascote da Copa". O texto tem a adesão de 40 mil pessoas e sugere que o nome seja simplesmente Tatu-Bola. Os sugeridos pela FIFA: Amijubi, Zuzezo e Fuleco.

Segurança no front
Secretaria de Direitos Humanos da Presidência lança amanhã grupo de trabalho para reunir informações sobre jornalistas mortos no exercício da profissão. Lançará manual de procedimentos aos profissionais para garantir a segurança.

A POLÍTICA COMO ELA É. Suplente da ministra Gleisi Hoffmann, o senador Sérgio Silva desafia o PMDB e apoia Gustavo Fruet (PDT) em Curitiba.

Último capítulo - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 21/10


Diante da possibilidade de empate, o ministro Marco Aurélio Mello passou a ser visto como o fiel da balança para definir se a antiga cúpula do PT e outros réus do mensalão serão condenados ou absolvidos por formação de quadrilha. Advogados levantam casos anteriores em que o ministro votou contra imputações "abrangentes" desse crime pelo Ministério Público. A pressão sobre Rosa Weber e Cármen Lúcia, consideradas votos pela absolvição, é grande, segundo colegas do STF.

Inspiração 

Técnicos que auxiliam ministros do STF citam frase clássica do filme "O Homem-Aranha" para explicar que os personagens principais do mensalão, como José Dirceu, deverão ter as penas mais duras na dosimetria: "Quanto maior o poder, maior a responsabilidade".

Euforia 

Diante da possibilidade de empate no item sobre formação de quadrilha, no entanto, pessoas próximas ao ex-ministro da Casa Civil retomaram o otimismo e dizem que, se ele for absolvido, cresce a chance de cumprir pena em regime aberto.

Quem dá menos 

A semana será marcada pela chuva de novos memoriais de defesa dos réus, dessa vez com a cantilena uníssona pedindo a aplicação da pena mínima para os réus condenados.

Todo mundo 

Para tentar chegar o mais próximo desse placar de pena mínima, advogados agem nos bastidores para que os ministros que votaram pela absolvição possam participar da dosimetria.

Sem pompa 

A presidente Dilma Rousseff convocou apenas Marco Aurélio Garcia e Antonio Patriota (Itamaraty) para o encontro de amanhã com Nicolas Sarkozy.

Nem pauta 

Sem estafe de chefe de Estado, o ex-presidente francês irá à reunião acompanhado somente de uma assessora pessoal. O assunto da conversa ainda é mistério para o Planalto.

Alto nível 

Antes do debate SBT/UOL, quarta-feira, José Serra e Fernando Haddad devem duelar amanhã em evento da Nossa São Paulo. A ONG quer impedir questões que não digam respeito ao "conteúdo programático de cada candidatura".

Perdas... 

Além de reforçar o risco de descontinuidade de programas da gestão de Gilberto Kassab, o QG de Serra pretende explorar na última semana da campanha eventuais prejuízos às parcerias da prefeitura com o governo do Estado, em caso de vitória de Fernando Haddad.

... e danos 

Tucanos vão repisar o escasso histórico de convênios da administração de Marta Suplicy com o Bandeirantes, sobretudo em projetos de mobilidade urbana.

Recomeço 

A reforma do secretariado de Geraldo Alckmin, prevista para novembro, terá como pano de fundo a reconfiguração de forças à reeleição. Quatro partidos aliados ensaiam mudança de rota para 2014: PP, PSB, PDT e PSD planejam rediscutir a relação com o tucano.

Fidelidade 

Alckmin tem convicção do apoio de DEM, PPS e PV, todos desidratados nas urnas, e PTB. Para fazer frente a possíveis baixas, o governador corteja PRB e PR. As siglas, que já votam com ele na Assembleia, podem ser agraciadas com cargos.

Caipira 

Também mirando novo mandato, o tucano deseja incorporar prefeitos que deixam as funções em dezembro, como Barjas Negri (Piracicaba), Vitor Lippi (Sorocaba) e Eduardo Cury (São José dos Campos).

Terceira via 

Pesquisas à disposição do PSDB mostram Celso Russomanno bem posicionado também no interior para a sucessão paulista.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

TIROTEIO

"O PT perdeu e está feliz. Nós ganhamos e estamos muito felizes. Vamos continuar assim e viveremos felizes para sempre."
DO SENADOR AÉCIO NEVES (PSDB-MG) sobre Patrus Ananias ter dito que o partido está satisfeito com o resultado da eleição em Belo Horizonte.

CONTRAPONTO

Sucesso de público

Ao entregar pauta de reivindicação dos aposentados para Fernando Haddad (PT), anteontem, o presidente do sindicato nacional da categoria, João Inocentini, fez um pedido adicional ao candidato à prefeitura:

-Se o senhor quiser colocar na cesta de medicamentos para distribuição gratuita algumas unidades de Viagra, ficaríamos agradecidos...

O candidato petista prontamente respondeu, arrancando gargalhadas na sede da entidade:
-Olha, vou analisar com cuidado. Pela reação da plateia, me parece que é um pleito pertinente.

CLAUDIO HUMBERTO

“Funciona como balde de água quente, para estimular”
José Serra (PSDB) sobre pesquisas que apontam sua derrota para Fernando Haddad


BRAGA SE AGARRA A POLÍTICOS PARA MANTER LIDERANÇA
A decisão da presidente Dilma de promover um “rodízio” de líderes, na Câmara e no Senado, tem deixado insones as noites do senador Eduardo Braga (PMDB-AM), que substituiu Romero Jucá (PMDB-RR) na liderança do governo no Senado e quase não foi notado. Informado de que poderá ser substituído no começo do ano, Braga se agarra às lideranças que hostilizou, em seu partido, para tentar manter o cargo. 

ISOLAMENTO
Feito líder, Eduardo Braga desafiou José Sarney e Renan Calheiros, e no Amazonas se afastou do governador Omar Aziz, campeão de votos.

OS ALVOS
Dilma sinalizou que vai mudar líderes do governo no Senado, Eduardo Braga, na Câmara, Arlindo Chinaglia, e no Congresso, José Pimentel.

NEM AÍ
O PMDB não criara obstáculos à substituição de Eduardo Braga, nem o PT brigará para manter os lideres Arlindo Chinaglia e José Pimentel.

TOM SOMBRIO
O noticiário sobre mandatários da América Latina continua versando sobre suas fichas médicas: Fidel, Lugo, Chávez, Cristina, Lula, Dilma.

SENHAS DE ARAPONGAS DAVAM ‘SOPA’ NA ABIN
A investigação do roubo de documentos “confidenciais” da Agência Brasileira de Inteligência pelo agente “William” poderá revelar uma trama digna de “Inspetor Clouzot”: além de um sistema vulnerável, a Abin, ligada à Presidência da República, mantinha senhas dos agentes em local de fácil acesso. “William”, suposto ladrão de documentos, pode ter usado senha de outro agente para acessar o sistema.

MEDALHAS DE VOLTA
Militares da reserva vão pressionar o comando do Exército a confiscar as medalhas do Pacificador concedidas a mensaleiros condenados.

LISTA EXTENSA
Os mensaleiros condenados José Genoino, José Dirceu, João Paulo Cunha, Waldemar Costa Neto receberam a Medalha do Pacificador. 

CONDENOU, DANÇOU
Segundo decreto de abril de 2002, perdem medalhas os “condenados por sentença transitada em julgado por atentado contra o erário”. 

VAMOS À LA PLAYA
A conta com cartão corporativo na Abin, secreta “em nome da Segurança Nacional”, vai aumentar muito: os arapongas torram a cota de passagens e diárias para não ter que devolver nada ao Tesouro. 

IRMÃOS BEM NA FOTO
Dilma falou bem, a políticos nordestinos, sobre a candidatura do atual prefeito de Campina Grande, Veneziano Vital do Rego (PMDB), ao governo da Paraíba, em 2014. Ele é irmão do senador Vital do Rego, cuja atuação na presidência da CPI do Cachoeira ela também elogia.

PT QUER SANGUE
Lula prometeu ir a Fortaleza na terça (23) e os petistas locais querem que ele dê o troco no ex-deputado Ciro Gomes, cujas críticas ao ex-presidente calam fundo. Ciro sumiu da campanha neste segundo turno.

AGU CONTRA A UNIÃO 
A Advocacia-Geral da União recorreu da decisão do Tribunal de Contas da União, que fixa prazos para invasores do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, deixarem o local. Decisão curiosa, já que retarda a aplicação de uma decisão que favorecia a própria União.

MELHOR A MORTE
Misto de porteiro e dono do PSDB-DF, Márcio Machado diz ter recebido a garantia do presidente nacional, Sérgio Guerra, de que qualquer nova filiação de político só será aceita “sob consenso” da direção local.

ADELANTE, COMPANHEIROS
Senador de oposição da Bolívia, Roger Pinto poderá fazer companhia a Waldemar Costa Neto, do mensalão, na Organização dos Estados Americanos: sem salvo-conduto na embaixada do Brasil em La Paz, Pinto quer recorrer à corte internacional para denunciar Evo Morales. 

USO DO CACHIMBO
Deputados distritais têm reclamado da ex-governadora do DF Maria Abadia (PSDB). Ela diz não querer mais saber de política, mas estaria assediando os gabinetes com pedidos de empregos para parentes.

HUMOR NEGRO NA WEB
Na divertida página “fake” (falsa) de Oscar Niemeyer no Twitter, alguém tascou em nome do arquiteto, dia 1º: “Putz! Morreu o Eric Hobsbawm! Abriu a porta para comunista centenário. Melhor me esconder!”

PASTO
Uma pesquisa do IBGE revela que no Brasil o rebanho de gado supera a população: 212, 8 milhões. Sem contar as vaquinhas de presépio... 

PODER SEM PUDOR

O DELEGADO PROFESSOR

Tancredo Neves, recém-formado, foi para São João Del Rey exercer a promotoria. Com aquela conversa que o levaria ao poder anos mais tarde, foi chegando e arranjando namorada. Mal sabia que o delegado havia proibido namoro nas praças, por isso ele se misturou aos muitos casais que ocupavam um dos jardins públicos da cidade. A polícia chegou de repente e expulsou todo mundo.Tancredo se preparava para protestar contra a violência quando foi notado pelo delegado. Rápido no gatilho, o policial mostrou que tinha muito a ensinar a Tancredo:
- Doutor, botei esse pessoal para fora para deixar o senhor à vontade..