segunda-feira, outubro 15, 2012

Cautela com os estímulos ao crédito - GUSTAVO LOYOLA


O Estado de S. Paulo - 15/10


O Relatório de Estabilidade Financeira, recentemente divulgado pelo Banco Central (BC), trouxe um diagnóstico favorável sobre a atual situação do Sistema Financeiro Nacional (SFN). Segundo o BC, apesar da presença de elevados riscos para a estabilidade financeira global, o nível de capitalização dos bancos brasileiros é confortável, tanto para enfrentar cenários macroeconômicos mais negativos quanto para se adaptar às novas exigências de capital impostas por Basileia III.

Entendimento menos otimista, porém, foi manifestado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em documento divulgado na semana passada, por ocasião de sua reunião anual em Tóquio. Para a instituição, o Brasil precisaria tomar cuidado com o elevado endividamento das famílias e empresas, resultado da rápida expansão do crédito verificada nos últimos anos.

Apesar do alto grau de conforto quanto à resiliência do SFN a cenários macroeconômicos adversos, e igualmente com relação à elevada qualidade da regulação e supervisão bancária no Brasil, as transformações recentes no mercado doméstico de crédito impõem ao regulador e às entidades reguladas novos desafios, notadamente o de lidar com o maior nível de endividamento das famílias e, simultaneamente, menores margens financeiras para absorção das perdas de crédito.

Acredito que o sistema bancário brasileiro está preparado para tal desafio. O bem-sucedido processo de retomada do crédito no Brasil, no período pós-estabilização, mostrou a capacidade de resposta dos bancos ao novo ambiente macroeconômico surgido após o Plano Real. Em especial, reformas no ambiente legal e regulatório propiciaram o lançamento de novos produtos de crédito, como o consignado, e a retomada das operações de financiamento habitacional. Além disso, o crescimento das carteiras de empréstimos e financiamentos das instituições financeiras foi suportado pelo aperfeiçoamento dos processos de concessão de crédito e de constituição de garantias, assim como de captura de informações cadastrais positivas e negativas de seus clientes potenciais.

Ocorre que as recentes e repetidas incursões voluntaristas do governo sobre o setor bancário - que vão muito além do campo da indispensável regulação prudencial - trazem certo grau de preocupação, notadamente porque sinalizam objetivos incompatíveis com a estabilidade financeira no médio e no longo prazos. Em especial, a ideia de utilizar o crescimento do crédito bancário como instrumento de política macroeconômica de curto prazo parece cheia de perigos, pelo risco de criação de bolhas de crédito, cujas consequências podem vir a ser muito negativas para a economia brasileira.

Como se sabe, o Brasil está em pleno processo de adoção das novas recomendações do Comitê de Basileia sobre o capital das instituições bancárias (Basileia III). Assim, nos próximos anos, o nível de capital exigido dos bancos brasileiros deve aumentar, assim como haverá restrições adicionais sobre os instrumentos subordinados de captação que poderão servir como base de capital.

Vale ressaltar que um dos principais objetivos do arcabouço regulatório de Basileia III é amortecer o caráter pró-cíclico do crédito bancário, inclusive pela criação de um colchão de capital nas épocas de bonança que seria utilizado para fazer frente a um aumento das perdas nos períodos de vacas magras. Esse tipo de exigência é decorrência direta das lições aprendidas na crise do subprime, que teve como uma de suas causas principais o relaxamento dos padrões de concessão de crédito pelos bancos no período de grande disponibilidade de liquidez nos mercados financeiros.

Agora, a insistência do Ministério da Fazenda em utilizar a aceleração do crescimento do crédito bancário como instrumento de ativação da demanda agregada, em especial por meio do uso dos bancos públicos, está na contramão do espírito da nova regulação de capital preconizada pelo Comitê de Basileia, ora em adoção pelo BC.

Por exemplo, a farta provisão de recursos a custo zero ou subsidiados pelo Tesouro Nacional às instituições bancárias federais - tanto por aumento de capital quanto por subscrição de dívida subordinada - subverte o princípio macroprudencial de limitação da expansão creditícia nas situações de afrouxamento monetário, inclusive porque distorce a correta precificação das operações de crédito. Tal política, se praticada de forma abusiva, pode induzir à seleção adversa, já que os tomadores de crédito de maior risco tenderiam a migrar para os bancos públicos, notadamente se tais instituições embarcarem numa política agressiva de conquista de market share amparada na abundância de recursos de capital providos pelo Tesouro.

Em suma, as recentes crises bancárias nos EUA e na Europa indicaram claramente a necessidade de manutenção de altos padrões na regulação e na supervisão bancária, além do emprego de instrumentos macroprudenciais para evitar a formação de bolhas de crédito. Ao estimular o crédito numa conjuntura em que este já cresce em torno de 10% reais a cada ano e na qual há um maior comprometimento de renda das famílias, o governo parece ignorar as lições duramente aprendidas pelos países desenvolvidos.

Mensalão condenado - ROBERTO FREIRE


Brasil Econômico - 15/10



O Supremo Tribunal julgou e condenou os crimes praticados no esquema do mensalão, que Lula e o PT exaustivamente diziam que era uma invenção da imprensa golpista. Foram condenados políticos de diversos partidos por corrupção passiva e outros crimes comuns.

O presidente do Partido dos Trabalhadores e o seu tesoureiro à época dos fatos, Genoíno e Delúbio, foram condenados por corrupção ativa, bem como pelo mesmo crime o ex-ministro chefe da Casa Civil de Lula, José Dirceu.

Agora, pronunciada a instância máxima de nosso Judiciário, são oficialmente corruptores que fraudaram o sistema democrático por meio de compra de votos de deputados para compor a base aliada do governo Lula. A verdade dos autos, portanto a verdade juridicamente válida, é que o mensalão existiu e este não é mais um fato controverso.

A corrupção é um mal endêmico no país. Seu combate precisa avançar para além desta condenação. O dano causado à sociedade pela corrupção é maior que o dano causado pelos crimes comuns que não envolvem o Estado.

Um homicídio causa um dano irreparável a uma pequena parcela da sociedade, os familiares e amigos da vítima. A corrupção afeta a sociedade toda. Suas consequências são pessoas mortas por falta de atendimento nos hospitais que não foram construídos porque o dinheiro se esvaiu ilicitamente; crianças que não terão oportunidades no futuro por falta de educação; mais violência porque o dinheiro para o combate ao crime também não estava disponível.

Há criminosos que matam com armas em punho. Há criminosos que matam com canetas nas mãos. Precisamos construir um sistema penal, cuja discussão sobre um novo código está na pauta do Congresso, em que a pena seja proporcional ao dano causado à sociedade.

O combate à corrupção passa também por uma mudança cultural. Como salientou em seu voto a Ministra Carmem Lúcia, confessar um crime como o caixa dois de campanha eleitoral na tribuna do Supremo como se fosse algo corriqueiro e menor é uma agressão à sociedade.

O respeito às leis precisa se tornar a base da moral de cada cidadão. É na afirmação diária do respeito às leis que poderemos cobrar de nossos governantes o mesmo. A ética precisa deixar de ser discurso de diferenciação entre partidos e candidatos para se tornar pressuposto da ação política.

O julgamento do mensalão pode ser um marco de moralização da política e uma oportunidade para o seu resgate como atividade fundamental de exercício da cidadania. Depende das atitudes efetivas dos atores envolvidos.

O principal ator que pode operar reais mudanças é o cidadão no momento do voto. É o eleitor que possui o poder de extirpar da política essas práticas, considerando o histórico dos candidatos ao votar. Afinal, se políticos corruptos estão no poder é porque conseguiram conquistar votos. As pessoas precisam deixar de apenas reclamar e agir responsavelmente.

O poder não fica vago e por isso é necessário que as pessoas resgatem a vontade de fazer a boa política e doem parte de seu tempo para a sociedade, não só no momento do voto, mas também na construção de partidos e alternativas.

Enxame de abelhas - LUIZ FELIPE PONDÉ


FOLHA DE SP - 15/10

O apartheid do bem é a nova invenção do governo. E nós pagamos essa farra fascista

"Vou me pintar de afrodescendente", gritou irritado um amigo meu carcamano, um apelido carinhoso que espero nunca ser considerado assédio cultural.

Às vezes, à noite, sou atormentado pelo que dizia Paulo Francis: os "frouxos venceram", não vamos poder pensar, dizer, criar, intuir mais nada que não esteja na cartilha dos autoritários. Sob o signo dos ofendidos, cala-se a alma, o humor e a inteligência. Antes era em nome do racismo nazista, do novo homem comunista, das heresias, agora é em nome dos "ofendidos".

Este meu amigo, normalmente, é uma pessoa doce, mas às vezes perde as estribeiras. Outro dia, acabou indo com a esposa e as duas filhas, num domingão quente pra burro, ver a Bienal no Ibirapuera.

Parou o carro longe (claro, trânsito infernal, sem lugar para parar o carro, e chamam isso de lazer...) e teve que fazer as três meninas andarem até o pavilhão sob o Sol, obviamente o culpando por tudo.

A mulher sempre culpa o marido por tudo de forma tranquila e sem pudores. Estas queixas vêm seguidas de beijos, sorrisos e sexo, quando passa a irritação, que numa mulher passa na mesma velocidade da luz em que ela cai no tédio.

Aprendeu uma dura lição: Ibirapuera domingo é para iniciantes (a menos que chova, aí é legal...), pior quando tem Bienal porque aí se junta o povo que quer ter saúde com o povo que quer fingir que gosta de arte. O mundo está dividido em dois grupos: os que gostam de arte e os que gostariam de gostar de arte.

O mesmo vale para jazz, blues e música erudita.

Outro dia ele foi fazer aquele negócio chamado "controlar", mais uma taxa para pagarmos. Esta é "verde". O burocrata técnico recusou seu carro por um detalhe qualquer. Daí, ele teve que começar tudo de novo. A vida, passo a passo, se torna uma teia infernal de controles.

O melhor é não ter carro, não dar emprego a ninguém, não casar, não ter filhos, enfim, negar investimento a um mundo controlado pelos "babacas do bem".

Mas não é disso que quero falar, mas sim da irritação do meu amigo carcamano com o novo edital racista do ministério da cultura. Todo mundo ouviu falar do edital para afrodescendente (não ouso usar qualquer outra expressão por medo de ter minha vida destruída pelos "amantes da liberdade").

Enquanto esses tecnocratas ideológicos não conseguirem criar de fato racismo à la Ku Klux Klan no Brasil, não sossegarão.

A indústria do assédio jurídico cresce e os amantes da liberdade que tanto criticam a maldita ditadura e pedem uma Comissão da Verdade só para um dos lados, gozam com as novas formas de autoritarismo que empesteiam nossas vidas.

O apartheid do bem é a nova invenção do governo. Tanta gente morreu na Segunda Guerra Mundial, tanta gente morreu na mãos dos comunistas, e o fascismo venceu assim como um enxame de abelhas vence: começa devagar, você achando que está lutando apenas contra uma, mas, zumbindo, elas invadem sua casa e sua vida.

No mesmo processo, querem proibir Monteiro Lobato. Adianto que não gosto da obra de Monteiro Lobato, nem ela me marcou na infância. Preferia as aventuras de Abraão, Moisés e Deus. Mas meu gosto pouco importa.

Por que não fazem esses fascistas assistirem à famosa cena em que nazistas queimavam livros na Alemanha de Hitler? O que esses tarados não entendem é que os nazistas também achavam que tinham um bom motivo e que aqueles livros degeneravam as novas gerações. Alguma semelhança?

E ainda, para piorar, quem paga essa farra fascista somos nós. O governo e sua máquina imoral de arrecadação de impostos, este sócio parasita de cada pessoa que trabalha no país, alimenta tecnocratas aos montes deixando que inventem medidas discriminatórias dizendo que são do bem.

O argumento de que somos todos culpados pela escravidão é falso. Não conheço, no meu círculo de pessoas, ninguém que tenha tido escravos ou ganhado dinheiro com a escravidão ou coisa parecida.

Melhor seria este governo fascista criar uma educação decente de uma vez por todas para acabar com a pobreza cultural do país em vez de ressuscitar medidas racistas.

A força redentora da música - CARLOS ALBERTO DI FRANCO


O ESTADÃO - 15/10


Frequentemente a informação veiculada na mídia provoca um travo na alma. Violência, crise, trânsito caótico e péssima qualidade da educação e da saúde, pautas recorrentes nos cadernos de cidade, compõem um mosaico com pouca luz e muitas sombras. A sociedade desenhada no noticiário parece refém do vírus da morbidez. Crimes, aberrações e desvios de conduta desfilam na passarela da imprensa. A notícia positiva, tão verdadeira quanto a informação negativa, é uma surpresa, quase um fato inusitado.

Redescobri, no entanto, que a sociedade violenta não inibe comoventes iniciativas de solidariedade. Foi o que pude constatar em recente apresentação da Camerata Bachiana do maestro João Carlos Martins, em evento comemorativo dos 40 anos da Escola de Direito do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS), em São Paulo.

Jovens nascidos nas zonas sombrias da exclusão, mas carregados de talento e esperança, mostraram que a solidariedade pode virar o jogo e transformar a vida. O jovem tenor Jean Willian, criado pelos avós, ele boia-fria e ela faxineira, foi aplaudido de pé. Descoberto pela Fundação Bachiana, apoiado e estimulado pelo maestro João Carlos Martins, Willian está estudando em Milão. Seu nome, estou certo, ocupará lugar de destaque no cenário da música erudita mundial.

A Fundação Bachiana apostou na música como instrumento de inclusão social. E os resultados comovem e impressionam. A Bachiana Filarmônica Sesi é uma formidável ferramenta de democratização da música clássica. Recebida calorosamente pela crítica e pelo público no Carnegie Hall e no Lincoln Center, no coração de Nova York, a Bachiana é um belo exemplo da força redentora da música. Jovens infratores da Fundação Casa escreveram recentemente uma carta ao maestro João Carlos Martins. Conheceram, todos, o fundo do poço das drogas e da criminalidade, mas foram tocados pela magia da música. "A música venceu o crime", assim terminava o recado dos adolescentes ao maestro. Impressionante!

O papa Bento XVI, brilhante intelectual e apaixonado pela música, defendeu o papel da arte como instrumento redentor. "É preciso construir um novo humanismo", disse o papa em discurso aos artistas repleto de citações de personalidades como Dostoievski, Michelangelo e Herman Hesse. "Graças ao seu talento, vocês têm a possibilidade de falar ao coração da humanidade, de tocar a sensibilidade individual e coletiva, de suscitar sonhos e esperanças." Dostoievski põe nos lábios de Dimitri Karamazov uma certeira definição do drama humano: "A beleza é uma coisa terrível e espantosa. É o duelo do diabo e de Deus, sendo o coração humano o campo de batalha". O papa também acredita que o mundo será salvo pela beleza.

Iniciativas, inúmeras, algumas quase anônimas e cimentadas na força da solidariedade, comprovam o papel redentor da arte. Basta pensar no magnífico trabalho de resgate social desenvolvido pela Fundação Bachiana. Favelas com frequência ocupam a crônica policial. A música, no entanto, transportou o universo das periferias esquecidas para as páginas de cultura. Jovens abandonados pelos governos e teoricamente predestinados a uma vida de crime, drogas, prostituição, miséria e dor encontraram na música o passaporte para o resgate da dignidade e da esperança.

Jornais, frequentemente dominados pelo noticiário enfadonho do País oficial e pautados pela síndrome do negativismo, não têm "olhos de ver". Iniciativas que mereceriam manchetes sucumbem à força do declaratório. Reportagens brilhantes, iluminadoras de iniciativas que constroem o País real, morrem na burocracia de um jornalismo que se distancia da vida e, consequentemente, dos seus leitores. O negativismo gratuito é, sem dúvida, uma das deformações da nossa profissão. "O rabo abana o cachorro" - o comentário, frequentemente esgrimido em seminários e debates sobre a imprensa, esconde uma tentativa de ocultar algo que nos incomoda: nossa enorme incapacidade de trabalhar em tempos de normalidade.

Estou convencido de que boa parte da crise da imprensa pode ser explicada pelo seu desligamento da realidade, por sua orgulhosa incapacidade de ouvir o mundo real. Os anos de chumbo da ditadura foram os melhores aliados da mediocridade profissional. A luta contra o arbítrio escondeu limitações e carências. A censura, abominável e sempre burra, produziu poucos heróis verdadeiros, mas também gerou gênios de fachada. Quatro linhas de protesto, independentemente da qualidade objetiva da matéria, já eram suficientes para conferir um passaporte para a celebridade. A democracia, no entanto, tem o poder de derrubar inúmeros mitos. A estabilidade conspira contra a manchete fácil.

"Quando nada acontece", dizia Guimarães Rosa, "há um milagre que não estamos vendo." O jornalista de talento sabe descobrir a grande matéria que se esconde no aparente lusco-fusco do dia a dia. A mídia, argumentam os aguerridos defensores do jornalismo-realidade, retrata a vida como ela é. Teria, contudo, o cotidiano do brasileiro médio nada além de tamanhas e tão frequentes manifestações de violência e tristeza? Penso que não. Há uma evidente compulsão a pinçar os aspectos negativos da realidade.

Por mais que a sociedade tenha mudado, tenho a certeza de que o pretenso realismo que se alardeia para sustentar o excesso de violência e mau gosto que diariamente desaba sobre leitores e telespectadores não retrata a realidade vivida pela maioria esmagadora da população. Na verdade, ainda há muita gente que cultua os valores éticos, que dão sentido e dignidade ao ato de viver.

A grandeza humana bem vale uma matéria.

Salto rosa - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 15/10


A indústria foi o setor em que as mulheres obtiveram maior ganho salarial em relação aos homens na década. Eles tiveram aumento de 26,9%. E elas, de 31,7%. Os dados são do Ministério do Trabalho.

MEDALHA

A melhoria nas condições de trabalho também atrai mais mulheres para o ensino profissional. Nos últimos dez anos, aumentou cinco vezes a participação feminina na Olimpíada do Conhecimento -competição nacional promovida pelo Senai, que reunirá em novembro os melhores estudantes da educação técnica do Brasil. Elas eram 28 competidoras em 2002. Agora, são 141.

CÊ JURA?

O governador Eduardo Campos, de Pernambuco, não reagiu com a alegria que se espera de um aliado ao tomar conhecimento dos números das pesquisas Datafolha e Ibope que, em SP, dão vantagem ao PT, com quem seu partido, o PSB, está coligado. Em mais de uma conversa, chegou a semear dúvida em relação à margem de dez pontos que Fernando Haddad (PT-SP) tem sobre José Serra (PSDB-SP).

DIVIDIR E GOVERNAR

Interlocutor do governador diz que Campos não ficaria exatamente chateado se o partido de Lula saísse enfraquecido com uma derrota na cidade -quando ele despontaria definitivamente como maior vitorioso das eleições. Ao mesmo tempo, Campos veria o PSDB seguir dividido em relação a dois candidatos à Presidência: Serra e Aécio Neves (PSDB-MG).

CORAÇÃO

Hebe Camargo não estava sozinha no quarto quando teve uma parada cardíaca, na manhã de 29 de setembro. Havia enfermeiras de uma empresa de "home care" acompanhando a paciente 24 horas por dia. Os médicos que cuidavam da apresentadora foram informados imediatamente.

NEM UM SEGUNDO

A informação de que um segurança teria encontrado Hebe já sem vida e sozinha "é uma bobagem de um funcionário que levava os cachorros para passear", diz auxiliar da apresentadora. "Ela não ficou desassistida nem por um segundo", afirma o médico Euro Palomba, responsável pela UTI instalada no quarto da apresentadora.

ADAUTO NO GARIMPO

O ator Daniel Oliveira não poderá mais fazer o filme "Serra Pelada", de Heitor Dhalia. Em seu lugar entra Juliano Cazarré, o Adauto de "Avenida Brasil". Wagner Moura, afirma o diretor, continua no elenco, que também conta com Matheus Nachtergaele, Júlio Andrade e Sophie Charlotte. "Começaremos as filmagens em São Paulo no dia 29. O Wagner conseguiu reorganizar a agenda dele e estará no longa", diz Dhalia.

A PRAÇA É DE QUEM?

Dez dias depois de inaugurada, após reforma que custou R$ 55 milhões, a praça Roosevelt, no centro de São Paulo, já tem fissuras no degrau de concreto e corrimões descascados. A prefeitura diz que a reforma está em fase de adaptação e que vistorias já estão em andamento.

MUTIRÃO

O governo estadual começa a aplicar hoje testes para HIV e sífilis em cerca de dez mil presas. O mutirão atinge 19 unidades prisionais do Estado. Ficam de fora em torno de 1.400 mulheres detidas em cadeias públicas.

NELSON CEM ANOS E AINDA NOVO
O diretor Walter Lima Jr. e as atrizes Priscila Gontijo e Vanessa Prieto foram à abertura da mostra "Nelson Rodrigues 100 Anos", no teatro do Sesi da avenida Paulista. O projeto em homenagem ao cronista e dramaturgo é curado por Ruy Castro, seu biógrafo e colunista da Folha. A programação tem montagens inéditas de peças do autor.

ARTE SERPENTEIA

As artistas Lenora de Barros e Marina Saleme se encontraram no lançamento da mostra "Serpentes", de Carmela Gross. A ceramista e atriz Lidia Lisboa também foi à galeria Vermelho.

Curto-circuito

Acontece hoje a 15ª edição do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10, na Sala São Paulo, a partir das 19h30. Milton Nascimento se apresenta, e Dan Stulbach é mestre de cerimônia.

Luiz Felipe Moura e Gabriel Matarazzo lançam o livro "Mulheres do Brasil". Hoje, às 19h, no MIS.

Língua de Trapo faz show no bar Melograno. 12 anos.

O ministro Marco Antonio Raupp (Ciência e Tecnologia) é esperado na abertura da Expocietec 2012, que será realizada na sede da Fecomercio de São Paulo hoje e amanhã.

A rede antissocial - LÚCIA GUIMARÃES


O Estado de S.Paulo - 15/10


Estava respondendo emails de trabalho quando o anúncio piscou no alto da tela: "Two people unfriended you" - duas pessoas excluíram você, do Facebook, naturalmente, a rede social responsável por esta contribuição semântica duvidosa ao jargão contemporâneo. A outra é "like" (curtir) e ainda engasgo quando leio websites de notícia me convidando a gostar da manchete sobre um massacre na Síria. Ironia não viaja bem na rede social.

O anúncio, baseado na pescaria que fazem na nossa correspondência privada, deve ser de um software que ajuda a descobrir quem "desamigou" você, mas nem precisei conferir. Não tenho um só amigo no Facebook. A minha conta existe apenas como cortesia para este jornal, para facilitar a mediação de comentários. Antes que o leitor comece a ficar com pena do meu isolamento, explico: prefiro não marcar encontro com amigos num espaço virtual que diariamente me faz a pergunta orwelliana - "no que você está pensando?"-, manda e-mails perguntando se eu conheço fulano ou sicrano e enche a minha página com listas de pessoas que eu "talvez" conheça (sempre se engana, folgo em dizer).

Quando o Facebook passou a marca de 1 bilhão de usuários, diga-se de passagem mais lentamente do que previra, ficamos sabendo que o Brasil é a menina dos olhos da companhia em busca de expansão, junto com Índia, Indonésia, México e, é claro, os Estados Unidos. O caso americano é diferente, o crescimento desacelerou por falta de população alvo e, para continuar conquistando gente aqui, o Facebook estuda uma forma de deixar menores de 13 anos se tornarem membros sem burlar o Ato de Proteção à Privacidade da Criança. Além disso, a companhia acusou o governo federal de cercear a liberdade de expressão de adolescentes porque quer proibir ditos menores de curtir anúncios ou ser seguidos por publicidade em sites de crianças.

Se aquela experiência com os pequenos chimpanzés que usam iPads no zoológico de St. Louis der certo, quem sabe...

A história do capitalismo digital se repete: o revolucionário de hoje é o ditador de amanhã. À medida que aumenta a pressão de anunciantes para monetizar a rede social, continuam soando os alarmes sobre como sua comunicação com seus amigos online é vendida sem a sua permissão. Uma companhia que tem acesso aos dados de 70 milhões de consumidores americanos usa seu banco de dados para descobrir se uma compra foi feita através de um anúncio no Facebook, o que, denunciam críticos, viola a promessa de privacidade feita aos membros quando o Facebook pagou US$ 9,5 milhões de multa à Comissão Federal de Comércio americana, em 2011. O usuário não tem a opção de se excluir da garimpagem de seus passos feita pela nova parceira de sua rede social.

A Europa continua à frente dos Estados Unidos em erguer obstáculos para invasões de privacidade por gigantes como Google e Facebook. No mês passado, o Facebook concordou em apagar o arquivo de membros da União Europeia usando, sem permissão, a tecnologia de reconhecimento facial. A tecnologia foi desenvolvida por uma companhia israelense comprada este ano pelo Facebook. Nos Estados Unidos, cuja Constituição inclui emendas que ajudaram a definir o direito à privacidade, a minha cara no Facebook ainda pode ser usada para descobrir com quem convivo no mundo real, seja através de câmeras na rua ou fotos postadas online.

O Facebook é apenas a maior rede e atrai o maior escrutínio. Mas, à medida que todos os conglomerados, seja operadoras telefônicas, sites de busca ou fabricantes de eletrônicos como a Apple, travam suas batalhas monopolistas, é impossível para o consumidor se manter informado sobre as consequências de sua interação com os outros, seja por amizade, consumo ou necessidade profissional. Na última vez que consultei o dicionário, antissocial era sinônimo de violar a moral da vida em comunidade.

Crise transposta - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 15/10


O movimento racialista desembarcou em Brasília no governo tucano de FH, mas foi na Era PT, com os dois mandatos de Lula e na sequência do governo Dilma, que esta força política passou a usar, de maneira efetiva, recursos de poder. Encrustados na máquina do Estado, numa secretaria específica, com status de ministério, e representantes no Congresso, racialistas passaram a executar o projeto de criação de cotas raciais, e não apenas na Universidade.

Se o plano de instituir cotas em vários setores - cinema, propaganda, fornecedores do setor público etc. - foi frustrado com a desidratação, no Congresso, do projeto do "Estatuto da Igualdade Racial" - exemplo precioso do uso prático da novilíngua, criação de George Orwell no livro "1984" -, o mesmo não ocorreu com as cotas no ensino superior público.

Depois de alguns estabelecimentos de ensino estaduais terem adotado o regime dessas cotas, o Supremo as ungiu, ao julgar uma reclamação específica contra a discriminação pela cor da pele na distribuição de vagas no ensino superior. A corrente racialista ganhou força, o projeto das cotas foi aprovado pelo Congresso e sancionado pela presidente Dilma.

Reitores reclamaram de o MEC exigir a aplicação da lei já no próximo vestibular. O governo não arredou pé e manteve o calendário apertado. Metade das vagas precisa, já em 2013, ser destinada a alunos oriundos do ensino médio público. Deste total, metade beneficiará filhos de famílias com renda de até um salário mínimo, mas prevalecerá sobre os dois critérios o conceito de "raça", cujas cotas serão distribuídas a partir da proporção das "raças" conforme o último censo demográfico.

A aplicação desta equivocada lei consuma sério revés para a política de melhoria da qualidade do ensino público em geral. Queiram ou não, as cotas servem para governos contornarem, de forma ilusória, o sério problema da baixa qualidade do ensino básico, pois a cor da pele passou a representar uma espécie de passaporte privilegiado para o ensino superior. O preço será pago pelo país, na forma de uma mão de obra e profissionais mal instruídos.

E, se a universidade pública se consolidou como uma instituição de ensino de qualidade mais elevada que os estabelecimentos particulares, agora será obrigada a absorver um contingente de alunos pouco preparados.

Os primeiros anos dos cursos mais procurados por "cotistas" serão preenchidos por aulas de reforço, em prejuízo do rendimento geral das universidades. Ou o padrão de ensino terá de ser rebaixado.

Por mais uma infeliz coincidência, as cotas raciais entram em vigor no momento em que pesquisas do IBGE anunciam um desastre: comparados os períodos de 1995/2003 e 2003/2011, cai a proporção de jovens entre 15 e 17 anos na escola.

Ou seja, na crise geral da educação pública brasileira, há uma específica no ensino médio. Que será transportada para a Universidade por meio das cotas.

Guerra dos sexos - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 15/12


Ainda que o marketing de Fernando Haddad hesite, o "kit gay" passará a ser abordado pela campanha petista na tentativa de colar na candidatura de José Serra o rótulo da intolerância contra as minorias. Por ora distante da propaganda na TV, o tema tomou conta da ofensiva do PT nas redes sociais e levou o núcleo da Diversidade Tucana, que reúne ativistas LGBT filiados ao PSDB, a se posicionar, refutando elo do ex-governador com Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus.

Onde pega Serristas, contudo, afirmam que introduziram o tema como parte da estratégia de desconstrução da gestão de Haddad no MEC. "Não vamos entrar no conteúdo. O que importa é mostrar o despreparo na condução do ministério", diz um membro do QG tucano.

Prevenção Para se blindar de ataques, Serra lembra que implantou em 2005, quando prefeito, a Coordenadoria da Diversidade Sexual, vinculada à Secretaria de Participações e Parcerias.

No papel Em seu programa de governo, a ser anunciado hoje, o candidato tucano também inseriu trecho em que promete "ampliar políticas públicas de inclusão e proteção à cidadania e contra todas as formas de preconceito com foco na valorização da diversidade e no combate à violência homofóbica".

Menos Em conversa com Dilma Rousseff, Lula analisou o desempenho de Eduardo Campos projetando 2014. Avaliou que o governador, se quiser pleitear a Presidência, precisará amarrar o PSB, já que em cidades como Belo Horizonte e Campinas o partido seria "sublegenda'' do PSDB, que lançará Aécio Neves.

Autonomia Já interlocutores de Dilma se mostram surpresos com o PSB, que ainda não reivindicou mais espaço no governo após o bom resultado nas urnas. Acreditam que a sigla prepara desembarque da base aliada, já que os atuais ministérios -Portos e Integração Nacional- são periféricos.

Dúvida Impulsionado pela votação à prefeitura, Gabriel Chalita já se posiciona, nos bastidores, para 2014. A movimentação preocupa Paulo Skaf, que recebera de Michel Temer garantia da legenda para governador.

Muita calma... Ministros do STF corroboram entendimento de que não haverá prisões imediatas ao fim do julgamento do mensalão. Ainda que o relator Joaquim Barbosa endosse esse pedido, feito pelo Ministério Público, a maioria da corte considera que as penas só devem ser cumpridas após a publicação do acórdão.

... nessa hora O que o Supremo pode fazer é decretar, na sentença, a suspensão de todo os prazos de prescrição. Com isso, quando os réus finalmente forem cumprir penas, não haveria risco de elas se tornarem inócuas.

Novo round 1 Além dos desentendimentos que protagonizam, Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski devem travar discussões também no âmbito do CNJ, do qual agora são presidente e vice-presidente, respectivamente, segundo a expectativa de ministros da corte.

Novo round 2 Enquanto o relator do mensalão defende um desempenho mais ativo do órgão, Lewandowski tende a adotar uma visão mais corporativista.

Tribo Observadores da campanha em Manaus dizem que os ataques de Lula a Arthur Virgílio beneficiaram o tucano no final da campanha. Nas redes sociais, o ex-senador passou a ser comparado ao índio Ajuricaba, símbolo da resistência da tribo manaó aos portugueses no Amazonas no século 18.

Tiroteio

"A voz de Eduardo Paes no PMDB sempre foi muda, ainda mais quando parte para a piada de propor a República dos Guardanapos."

DO EX-DEPUTADO GEDDEL VIEIRA LIMA,

em resposta ao prefeito do Rio, que sugeriu o governador Sérgio Cabral para substituir Temer como vice de Dilma.

Contraponto

Pro netinho e pro vovô

Os candidatos a prefeito de Manaus, sem exceção, se comprometeram no primeiro turno a manter um programa, implementado na gestão de Amazonino Mendes na capital do Amazonas, batizado de Leite do Meu Filho.

Quando fazia corpo a corpo nas ruas, Serafim Corrêa (PSB), que já ocupou a prefeitura, era constantemente cobrado por eleitores a continuar o projeto. Mas foi surpreendido por um mendigo numa caminhada.

-Prometa instituir o programa Viagra do Meu Velho! Aí é certeza que o senhor ganha a eleição!

Serafim riu, mas não se comprometeu com a proposta.

Sola do sapato - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 15/10


RIO DE JANEIRO - Leitores de biografias às vezes se espantam com a quantidade de informações contidas nelas e vêm me dizer: "Mas que pesquisa, hein?". A intenção é boa e a admiração, sincera, mas a palavra não faz jus ao trabalho de um biógrafo. Ou de alguns biógrafos.

"Pesquisa" costuma significar um mergulho em coleções públicas ou particulares contendo recortes, documentos, manuscritos, ou seja, material previamente escrito ou impresso. Se a função do biógrafo fosse de apenas coligir esse material, ele seria um enviado especial ao arquivo, e seu livro, um reles requentado de textos alheios. Na prática, a consulta a esse material é apenas o primeiro passo do trabalho, e do qual ele não representa mais que 20%. A papelada reunida pelo biógrafo só serve para orientá-lo na escalação do elenco de fontes que ele deverá procurar -e delas colher informações de primeira mão.

Uma biografia que se pretenda abrangente não ouvirá menos de 150 a 200 pessoas, algumas das quais várias vezes. Como essas fontes não são identificáveis de saída (muitos nomes só aparecem à medida que o trabalho avança) e podem levar anos para se achar e marcar um encontro, essa fase -que toma pelo menos 50% do tempo necessário para se produzir uma biografia- ficaria melhor se chamada de investigação. A sola do sapato é uma medida realista do esforço.

Alguns críticos, indiferentes à faina exigida para se levantar a vida de alguém, preferem dizer que esse levantamento é comprometido pela visão do biógrafo, manchado pelas visões conflitantes de um mesmo fato, inevitavelmente incompleto ou simplesmente impossível. Enfim, que a biografia é ficção ou fraude.

O biógrafo, ao ler isto, apenas enxuga o suor da testa e sai para conversar com mais uma fonte que ele levou um ano para localizar num remoto subúrbio.

Quem venceu - RICARDO NOBLAT


“Não é assalto a banco, mas a cofres públicos”
Joaquim Barbosa, relator do processo do mensalão


Os mais sinceros e capachos dirigentes do PT ocupam-se em proclamar uma verdade que imaginam inquestionável: tanto quanto o partido ou até mais, Lula é o grande vitorioso do primeiro turno da eleição deste ano. Dizem que por causa do empenho de Lula e das sábias decisões tomadas por ele, o PT foi o campeão de votos. E irá vencer o segundo turno da eleição em São Paulo com o novato Fernando Haddad.

A “VERDADE” DISSEMINADA pelo PT tem pouco de verdade. Relevante em eleição municipal é aumentar o contingente de prefeitos sob seu controle. Porque eles serão os cabos eleitorais das eleições seguintes para deputado federal e senador. Veja o PMDB: nunca elegeu o presidente da República. Mas é o partido que dispõe das maiores bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado. Ninguém governa sem ele.

O PT FOI O partido mais votado no primeiro turno porque venceu em cidades populosas. Quem elegeu o maior número de prefeitos foi o PMDB. O PSB foi o que mais cresceu em termos absoluto e proporcional. Além dos que tinha eleito em 2008, elegeu mais 100 prefeitos. A cada dois anos, os partidos travam duas batalhas — a do voto e a da interpretação dos resultados. Quase sempre a segunda é mais barulhenta.

REPRODUZO O QUE disse Gilberto Carvalho, o ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, a respeito do desempenho do PT em São Paulo e Belo Horizonte. Em São Paulo, o PT ainda não ganhou. Em Belo Horizonte já perdeu. Disse Gilberto: “São Paulo foi uma vitória de Lula. Em Belo Horizonte, Patrus Ananias quase foi para o segundo turno. Foi uma derrota com sabor de vitória."

O BRASIL PERDEU A Copa do Mundo da Argentina jogando muito bem. Ao voltar para casa seu técnico conferiu à seleção o título de “campeã moral’! Pa-trus foi o vencedor moral da eleição em Belo Horizonte. Por que se atribui a Lula a boa situação de Haddad hoje? Foi Lula que o empurrou goela abaixo do PT — fato. Lula abandonou quase tudo para cuidar apenas dele — fato.

MAS HADDAD TEVE menos votos do que o PT costuma ter em São Paulo — fato. E enfrentando o político mais rejeitado pelos paulistanos — fato. Se Serra conseguisse se eleger prefeito de São Paulo, a derrota de Haddad seria debitada pelos petistas na conta de Lula? Se me responderem que sim, aceitarei que a provável eleição de Haddad no segundo turno terá sido mais uma façanha de São Lula.

LULA FOI A Belo Horizonte pedir votos para Patrus. Aproveitou a ocasião e anunciou que o estado de Minas Gerais está falido. Posso dizer que Lula perdeu em Belo Horizonte? Ou lá quem perdeu foi unicamente Patrus? Dilma também foi a Belo Horizonte. Perdeu ali para Aécio Neves, que apoiou o prefeito eleito? Ficou da passagem dela por lá a pergunta venenosa de Aécio: “Onde Dilma, a mineira, votará?" Trilegal, não?

SOB O PATROCÍNIO DE Lula, o senador Humberto Costa disputou a prefeitura de Recife, cidade governada pelo PT há quase 12 anos. Acabou em terceiro lugar. Uma derrota humilhante. Lula fez comícios em duas capitais com o único propósito de esmagar seus desafetos — ACM Neto em Salvador, e Arthur Virgílio em Manaus. ACM foi o mais votado. Arthur Virgílio teve o dobro de votos da candidata de Lula.

OS RESULTADOS COLHIDOS pelo PT em Belo Horizonte, Recife, Salvador e Manaus atestam que a força eleitoral de Lula está em declínio? Duvido. A não ser para aqueles que costumam enxergar o povo pelo o que ele não é — um simples detalhe.

A era das leis raciais - VINICIUS MOTA


FOLHA DE S. PAULO - 15/10



SÃO PAULO - Os Estados Unidos aboliram a escravidão em 1865, mas só cem anos depois deram cabo das leis de discriminação racial. O Brasil extinguiu a escravidão, e com ela qualquer distinção legal em razão da cor da pele, em 1888. Mais de um século depois, reintroduzem-se aqui instituições segregacionistas, agora a título de promover os negros.

Dissemina-se a pressão pelas cotas, amparada no Estatuto da Igualdade Racial, de 2010, e na decisão do Supremo Tribunal Federal que em abril passado referendou a reserva de vagas no ensino superior. Até o final do ano, o governo federal pretende estender as cotas por critério de cor aos concursos do funcionalismo.

Trata-se de uma onda avassaladora, a induzir silêncio e autocensura nos que se opõem a sua implantação.

Pelo estatuto racial do século 21, é considerado negro todo brasileiro que declare ser parda ou preta a cor de sua pele. Estranho estratagema. Por que não determinar ao IBGE que restrinja as suas categorias a "negro" e "branco" -suprimindo-se o "pardo" e o "preto"-, a fim de saber ao certo o grau de negritude no Brasil?

Já que imitamos os EUA no diagnóstico e no tratamento da questão, por que não importar também a nomenclatura dualista das raças imiscíveis? Obriguem-se 82 milhões de brasileiros (43% da população) autodeclarados pardos a tomar partido. Que os próprios cidadãos se pronunciem nos termos do jogo proposto.

A sociedade dividida à força entre brancos e negros consumaria o retrocesso histórico da recidiva das leis raciais no Brasil. Chame-as de "racistas" ou "racialistas", na língua da moda, elas exumam e validam termos de velhos adversários da modernidade quando instituem privilégios baseados em atributos corporais. O sangue, a cor, a linhagem.

Desta vez é para fazer o bem e reparar o mal, argumenta-se. Tenho dúvidas e saudades do tempo em que ser moderno era não discriminar nem aceitar discriminação.

O governo desmonta as instituições fiscais - MAÍLSON DA NÓBREGA e FELIPE SALTO


FOLHA DE SP - 15/10

Com o apoio entusiasmado do ministro da Fazenda, o governo tenta camuflar gastos para, no momento de calcular a meta fiscal, fingir que ela foi atingida

O orçamento público aprovado pelo parlamento, particularmente no mundo ocidental, é parte relevante das ações que deram fim ao absolutismo e à tirania, modernizaram instituições fiscais e permitiram o planejamento da atividade do governo.

No Brasil, infelizmente, orçamento é procedimento meramente burocrático, sem raízes na sociedade ou maior importância na definição dos rumos do governo e da economia.

Nos últimos anos, o governo tem contribuído para agravar esse problema, ao desestruturar as instituições de finanças públicas construídas desde a redemocratização.

As reformas institucionais dos anos 80 puseram fim ao atraso que permitia a existência de orçamentos múltiplos. A maioria era aprovada pelo próprio Executivo, contendo aberrações como a "conta de movimento" do Banco do Brasil, pela qual o banco era suprido de recursos públicos sem autorização legislativa.

Esse grande avanço não foi suficiente, todavia, para evitar que o orçamento continuasse a ser uma peça de certa forma fictícia.

Sua discussão no Congresso e posterior execução servem para o fisiologismo e para o desperdício de recursos. Seus termos são em grande parte desprezados pelo Executivo, com apoio de parlamentares e de formadores de opinião, sob o argumento equivocado de que o orçamento é "autorizativo" e, como tal, não precisa ser cumprido pelo Executivo.

No governo Lula, esse quadro institucional piorou. Com a crise de 2008/2009 como pretexto, o governo iniciou o aumento de gastos e a redução de metas de superávit primário com argumentos supostamente keynesianos.

Na realidade, com o apoio entusiasmado do ministro da Fazenda, orquestrou-se uma expansão generalizada da despesa. Criou-se a possibilidade de abater vultosos recursos da meta fiscal anual, fixada em lei: na prática, são descontados do cálculo todos os gastos com o PAC. Em 2009 e 2010, as metas de superávit primário somente foram cumpridas por meio deste subterfúgio.

O exercício de 2012 deverá assistir, de novo, à estratégia de cumprimento de "metas descontadas", ou seja, de "não cumprir cumprindo".

Outro erro se deu em 2010, quando da capitalização da Petrobras e da cessão onerosa das reservas doPré-sal pela União a ela. À época, o governo conseguiu considerar no cálculo do superávit primário uma receita ainda inexistente, que apenas surgirá ao longo dos anos, fruto da exploração do petróleo. A manobra permitiu que a execução financeira do governo central ganhasse um reforço, em 2010, de 0,85% do PIB, cerca de R$ 40 bilhões.

O terceiro mecanismo de degradação institucional é a não contabilização como despesa primária dos subsídios ao Programa de Subsídio à Habitação de Interesse Social (PSH) e ao BNDES.

A quarta perda de qualidade das instituições fiscais é a concessão de empréstimos ao BNDES. Desde 2008, os volumes de títulos emitidos com esse objetivo aumentaram fortemente, elevando o endividamento federal e, portanto, caracterizando a política fiscal como ainda mais expansionista, sem mencionar os efeitos negativos sobre o crédito e sobre a política monetária.

Some-se a isso o custo dos subsídios implícitos nas operações do BNDES (a diferença entre a taxa de juros pela qual o Tesouro se financia, mais alta, e a taxa de juros a ele paga pelo BNDES, mais baixa; na sua maior parte, esse benefício é transferido às empresas) em favor do relativamente pequeno número das empresas "escolhidas" por sua burocracia. Ela é de cerca de R$ 14 bilhões, se considerarmos os cerca de R$ 280 bilhões já aprovados ou emitidos para o BNDES nos últimos anos. Este valor corresponde, como lembrou Eduardo Giannetti da Fonseca, ao orçamento anual do programa Bolsa Família, que beneficia cerca de 45 milhões de brasileiros.

Mais do que tudo isso, com o aumento do volume de crédito do BNDES, seus resultados são maiores e, consequentemente, maior será a distribuição de dividendos. Como as receitas de dividendos da União são, equivocadamente, consideradas no cálculo do superávit primário, o governo expande o resultado primário sem um efetivo esforço de contenção fiscal. (Os subsídios implícitos, escondidos do orçamento, não são contabilizados como despesa primária. Logo, os dividendos gerados pela mesma operação não deveriam ser considerados como receita primária.)

Esse retrocesso institucional enfraquece a democracia, turva as estatísticas, piora a alocação dos recursos e reintroduz práticas orçamentárias que se imaginava banidas. Tal ataque à responsabilidade fiscal precisa ser abandonado o quanto antes.




Mais trabalhadores estrangeiros - EDITORIAL O ESTADÃO


O ESTADÃO - 15/10

O agravamento da crise europeia, que vem provocando índices recordes de desemprego, tem forçado a emigração de trabalhadores para outras regiões, especialmente a América Latina. Estima-se que, só do Brasil, os europeus enviem anualmente para seus países cerca de US$ 1 bilhão, como mostrou reportagem do correspondente do Estado em Genebra, Jamil Chade (6/10).

O êxodo decorrente da crise europeia é um dos fatores que ajudam a explicar a crescente entrada de trabalhadores estrangeiros no Brasil, apesar da acentuada redução do ritmo de crescimento da economia brasileira e das exigências legais que complicam e retardam a concessão de autorização para que profissionais de outras nacionalidades possam trabalhar no País.

No primeiro semestre deste ano, o governo concedeu autorização para 32.913 estrangeiros obterem trabalho permanente ou temporário no País. É um número 24% maior do que o total de estrangeiros autorizados a trabalhar no Brasil nos primeiros seis meses do ano passado.

Embora o ritmo de crescimento do número de estrangeiros que entram legalmente no mercado de trabalho brasileiro tenha arrefecido - em 2010, o aumento foi de 30,5% e, em 2011, de 25,9%, sempre em rela- ção ao ano anterior -, ainda é acelerado, sobretudo se se considerar que as projeções mais frequentes para o crescimento da economia brasileira neste ano estão abaixo de 2%. Esses dados não consideram os estrangeiros que entram clandestinamente no País para trabalhar em condições precárias no mercado informal.

No caso de profissionais qualificados, categoria na qual se enquadra grande parte dos portugueses e espanhóis que vêm para a América Latina, a demanda brasileira não é para trabalho temporário. A escassez de trabalhadores com treinamento e conhecimento adequado está se tornando aguda em alguns setores que, apesar da crise, continuam a receber grandes investimentos e a contratar pessoal, como o de engenharia, o de exploração de petróleo e o de tecnologia de informação.

O sistema de ensino e de formação de mão de obra do País não está sendo capaz de suprir essa demanda no volume e na qualidade exigidos pelo mercado, daí o crescimento da imigração de profissionais estrangeiros, num processo que tende a ser longo. Nesse aspecto, a crise europeia acaba sendo benéfica para o Brasil.

Os dados relativos ao primeiro semestre não deixam dúvidas quanto à qualificação dos profissionais que chegam ao País. Nada menos do que 61,4% desses trabalhadores têm curso superior completo (e 3,3% têm mestrado ou doutorado). Os demais têm ensino médio completo - são, em geral, técnicos com elevado grau de especialização.

Os principais destinos desses profissionais - Rio de Janeiro e São Paulo - indicam que a maior carência desse tipo de trabalhador está em áreas como exploração de petróleo, construção, indústria de alta tecnologia e serviços financeiros.

Esse nível de qualificação é consequência das exigências para a concessão de autorização do trabalho de estrangeiros no País. Para obter essa autorização, o estrangeiro precisa provar que tem experiência profissional e formação educacional para exercer a função que irá desempenhar no Brasil e que sua presença é indispensável para a empresa contratante de seus serviços, pois não há disponibilidade de mão de obra local para a tarefa.

O número de trabalhadores estrangeiros evidencia um dos muitos gargalos que o País terá de eliminar para crescer em ritmo adequado, evitando o atraso dos grandes projetos de investimentos anunciados pelo governo e pelo setor privado.

No momento, a importação de trabalhadores qualificados do exterior é a única maneira de suprir o déficit de recursos humanos em setores estratégicos, diz o economista André Sacconato, que integra um grupo de trabalho criado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República para discutir formas de facilitar e acelerar a contratação de profissionais estrangeiros de que o País necessita. Até o fim do ano, segundo o governo, será possível fazer o pedido de autorização de trabalho para estrangeiros pela internet.

Crise de inserção - RUBENS RICUPERO


FOLHA DE SP - 15/10

Mesmo no mercado brasileiro, a indústria não consegue concorrer com os produtos importados


Está em crise séria, talvez terminal, a inserção na economia mundial que o Brasil sempre desejou e planejou: a da exportação de manufaturas de crescente valor agregado. O que sustenta as contas externas é a outra inserção, não planejada e até indesejada por alguns: a das commodities.

Parecia no início que estava dando certo a estratégia de utilizar os ganhos de escala no Mercosul e na América Latina a fim de proporcionar à indústria nacional a competitividade nos mercados globais.

Mesmo nos melhores tempos, porém, a operação jamais ultrapassou a fase mais fácil: a do domínio do mercado nacional protegido e de alguns mercados latino-americanos, de forma parcial, em razão das preferências de acordos regionais.

Aumentou-se a exportação de manufaturados aos EUA devido à política das multinacionais americanas de produzir no Brasil e países de custo mais baixo. Mas isso foi antes que os acordos de livre-comércio tornassem o México o destino principal desses investimentos. Em relação à Europa e à Ásia, a penetração de manufaturas brasileiras foi sempre marginal.

Não tendo chegado a se completar, a estratégia sofre agora retrocessos. Primeiro, na América Latina, onde estudo da CNI (Confederação Nacional da Indústria) revela que em todos os nove países examinados, da Argentina à Venezuela, a parcela de mercado das vendas brasileiras encolheu ao longo do período de 2008 a 2011. A culpa não foi da crise mundial, pois nossos competidores tiveram desempenho superior, a China crescendo em todos os mercados.

Outro dado interessante é que, no primeiro trimestre de 2012, as exportações do Mercosul se expandiram em 7,5% para o resto do mundo, ao passo que diminuíam em 5,5% no interior do grupo. O resultado apenas confirma o que ocorre há anos: o comércio intrarregional está regredindo, já que o mercado para as commodities exportadas pelos membros se encontra basicamente na China e na Ásia.

O quadro não surpreende, uma vez que mesmo no mercado brasileiro a indústria não consegue concorrer com os importados. Em reação, o governo anuncia ofensiva para recuperar a competitividade interna atuando sobre juros, câmbio, crédito e o custo Brasil.

Falta à abordagem condição indispensável para funcionar: a estratégia que assegure um mínimo de concorrência externa.

A concorrência exterior não é luxo que possa esperar até sermos competitivos. Desde que não seja desleal, é essencial para conquistar a competitividade. Sem ela, o destino da indústria é o da lei de informática e da reserva de mercado automobilística.

Ao elevar alíquotas de cem produtos, o governo age como se pudesse descer do expresso do comércio mundial a fim de abordá-lo mais adiante. Quando? Mais 50 anos por causa dos automóveis? Quem nos garante até lá, as commodities e o pré-sal?

As primeiras dependem do setor ineficiente para seus insumos, caminhões, por exemplo, para transportar a safra e acabam perdendo a vantagem de custo.

Quanto ao pré-sal, parece que lhe rogaram praga, tantos os desastres que o comprometem. Se depois de tudo conseguirmos voltar ao vagão, será que nosso lugar não estará ocupado pelos concorrentes?

Reforma Política - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 15/10


Neste outubro respira-se política no Brasil. Correm as eleições municipais e avança o julgamento do mensalão no STF, um divisor de águas no país.

Se da corte vem o recado inequívoco de que não há mais espaço para se tolerar práticas ilícitas na política, o julgamento teve outro mérito: expor, às claras, as entranhas e as fragilidades do atual sistema partidário brasileiro.

Nenhum governo, na história recente do país, foi capaz de lidar com o vespeiro da reforma política, preferindo o caminho da acomodação dos interesses para acolher um quadro partidário sempre favorável ao governismo.

Assim a política nacional transformou-se em um varejão de partidos, muitos sem representatividade, ideologia, ou razão de existirem, a não ser apoiar grupos de poder ou por motivações ainda inconfessáveis. Registradas no TSE existem hoje 30 legendas, das quais 24 com representantes no Congresso, 9 delas ou 37% com bancadas de 1 a 5 parlamentares.

O resultado é uma pulverização que leva ao empobrecimento do debate e do exercício da política. E também aos balcões em que presidentes, governadores e prefeitos têm que negociar a composição de suas bases legislativas nem sempre sob a força das convicções e dos programas, como se vê caso do mensalão, ou nos exemplos da generosa repartição de fatias da administração em contrapartida ao apoio político, em nome da governabilidade.

Se o não enfrentamento da reforma neste campo é pecado comum a todos os que tivemos a responsabilidade de governar, acredito que é ainda mais grave na órbita dos últimos governos. Com a notória popularidade verificada no início de seus mandatos, poderiam ter usado parte desse capital político acumulado para fazer avançar as bases da política brasileira. Ao invés disto, preferiram um Congresso subserviente para tocar o dia a dia da administração.

Não há como passar pelo primeiro turno das eleições municipais sem chamar a atenção para o grande número de abstenções e de votos brancos e nulos. Acredito que eles carregam um claro recado quanto ao tamanho do desalento do eleitor e a um sempre perigoso distanciamento da sociedade da política.

Ao mesmo tempo devemos saudar o processo inverso, que aponta para uma aproximação entre essa mesma sociedade e o Poder Judiciário.

Ao agir com responsabilidade, o STF honra a confiança e a expectativa de uma população cansada de ver amortecido o seu desejo por justiça. E a identificação da população com suas instituições é patrimônio valioso de uma sociedade.

Quem sabe agora, rompendo a barreira da impunidade, haverá espaço para o encaminhamento, em um novo patamar ético, da tão necessária reforma política?

SEGUNDA NOS JORNAIS


Globo: Estado fará bairro em área de refinaria
Folha: Famílias de PMs mortos lutam por indenizações
Estadão: Na TV, Serra atacará Enem e Haddad vai explorar renúncia
Correio: Por que a classe D é o alvo da vez
Valor: Múltis controlam o ouro no país e têm produção recorde
Jornal do Commercio: Com Kieza, só dá Timbu

domingo, outubro 14, 2012

A FARSA DO NÃO SABIA - REVISTA VEJA

REVISTA VEJA 


O ex-ministro da Casa Civil é responsável pelo crescimento do PT, é tido como o ideólogo da eleição de Lula em 2002 e agora também o grande artífice do mensalão

DANIEL PEREIRA


José Dirceu confessou certa vez que não leu O Capital, a obra de Karl Marx que encantou o cora­ção ê a mente dos petistas acadê­micos. Político profissional por exce­lência, pragmático, ele nunca perdeu tempo com ideologias. O negócio de Dirceu sempre foi o poder. Conquistá- lo e preservá-lo independentemente das doutrinas e dos meios empregados. Foi esse pragmatismo — somado à ambi­ção para escalar o panteão dos podero­sos — que fez dele um protagonista da ascensão do PT ao comando do país. Dirceu profissionalizou a legenda na década de 90, transformando-a na mais azeitada engrenagem partidária brasi­leira. Depois, dedicou-se à reconstru­ção da imagem de Lula, do sindicalista radical de 1989 ao Lulinha paz e amor de 2002, que finalmente conquistou a Presidência da República depois de três tentativas frustradas. Os serviços pres­tados durante essa caminhada renderam prestígio a Dirceu. No PT, ele se tomou ídolo da militância e o líder con­sultado pela direção da sigla antes de cada decisão tomada. No governo Lula,assumiu o cargo de chefe da Casa Civil ou de capitão do time, de primeiro- ministro, como gostava de dizer para alimentar a própria fama.

A conquista do Palácio do Planalto, porém, não bastava a José Dirceu. A me­ta era perpetuar o PT no poder, e não apenas para Lula desfrutá-lo. Dirceu também queria ser presidente da Repú­blica. Ele sabia que trabalhar por Lula — de quem recebera carta branca para garantir a vitó­ria na eleição de 2002 — era trabalhar para ele pró­prio. Os projetos de poder dos dois, imaginava, cami­nhavam de mãos dadas. Por isso, Dirceu foi a cam­po com uma desenvoltura inaudita. Como coordena­dor do ministério do novo governo, escalou petistas de confiança para postos estratégicos da administração. Dirceu centralizava com mãos de ferro as nomeações para cargos públicos, usando-as para manter próceres petistas na sua ór­bita. Como coordenador político do no­vo governo, costurou os acordos com cada um dos partidos aliados. Foi o fia­dor da chamada governabilidade. O arquiteto de uma aliança que, se bem-su­cedida, poderia consolidá-lo como favo­rito à sucessão de Lula.

Essa aliança uniu antigos desafetos do PT, caso do ex-presidente José Sar- ney (PMDB), e partidos que até então eram considerados fisiológicos pelos petistas, como o PR e o PTB. Àquela altura, já estava claro que Lula e Dirceu não sentiam nenhum constrangimento em mudar de opinião como quem troca de roupa. Só não estava claro, no entan­to, que eles haviam abandonado os es­crúpulos de consciência e os princípios éticos dos tempos de oposição. Tudo em nome do projeto de poder. Projeto que, no caso específico de Dirceu, está definitivamente sepultado. Na semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou o petista por corrup­ção ativa, juntamente com o ex-presi­dente do PT José Genoino e o ex-tesou­reiro Delúbio Soares. Dirceu foi apontado como o “mandante” do esquema que subornou parlamentares, com di­nheiro desviado dos cofres públicos, em troca de apoio ao primeiro mandato do presidente Lula. Ele ainda será jul­gado por formação de quadrilha. Se for considerado culpado, receberá pelos dois crimes uma pena que pode chegar a 23 anos de prisão. Dirceu corre o ris­co de se tornar o político de maior en­vergadura da história nacional a expiar seus pecados na cadeia. Um caso raro de preso político na ditadura que aca­baria como político preso em pleno re­gime democrático.

Tão logo foi confirmada a sua con­denação por corrupção ativa, Dirceu se disse — como faz desde a descoberta do esquema do mensalão — vítima de uma conspiração entre setores da elite, da imprensa e do Judiciário, que não acei­tariam a ascensão de um projeto popular ao poder. Numa carta endereçada ao po­vo brasileiro, ele lembrou sua contribui­ção na luta pela democracia, queixou-se de ter sido transformado em inimigo pú­blico número 1 e, como o ex-presidente Lula, repetiu a cantilena petista que denuncia a existência de um golpe destina­do a desbancar o PT da Presidência. “Fui prejulgado e linchado. Não tive, em meu benefício, a presunção da ino­cência. O Estado de Direito Democráti­co e os princípios constitucionais não aceitam um julgamento político e de ex­ceção”, afirmou Dirceu no texto. “Lutei pela democracia e fiz dela minha razão de viver. Vou acatar a decisão, mas não me calarei.” A carta não comoveu anti­gos aliados — nem mesmo aqueles que, com os mandatos presidenciais petistas, passaram a ter o apoio devidamente re­munerado com verbas públicas. Ao con­trário. Os companheiros não saíram às ruas em sua defesa. Na quarta-feira, em São Paulo, as poucas manifestações de populares foram de censura ao ex-mi­nistro, que deixou um encontro em sua homenagem a bordo de carro blindado e debaixo de vaias.

A FARSA DO CAIXA DOIS - REVISTA VEJA

REVISTA VEJA

O ex-tesoureiro do PT assumiu a responsabilidade pelo esquema do mensalão imaginando que tudo ficaria reduzido a um simples caso de infração eleitoral

RODRIGO RANGEL


O ex-tesoureiro Delú­bio Soares tinha pla­nos auspiciosos para o futuro. Absolvido, pretendia se candidatar a de­putado federal por seu estado,Goiás. Eleito, teria um atesta­do inequívoco de que era quem dizia ser e fizera tudo da maneira mais correta pos­sível — a deturpada estratégia de purgação eleitoral petista.
Mas os fatos são teimosos.

Em plena festa para comemo­rar seu aniversário de 50 anos, quatro meses depois da entre­vista em que Roberto Jefferson expôs as vísceras do es­quema de compra de votos no Congresso Nacional, Delúbio disse que o mensalão viraria uma “pia­da de salão”. Ele apostava que, com o tempo, as denúncias seriam esclareci­das e esquecidas. Um tremendo erro de cálculo do professor de matemática que conheceu a fama como arrecadador da primeira campanha vitoriosa dé Lula ao Palácio do Planalto e ganhou de vez a ribalta como o chefâo do cofre do maior esquema de corrupção da histó­ria do país.

Condenado por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal, a única cer­teza do tesoureiro é a que agora se apre­senta no horizonte: a cadeia. De tanto conviver com Lula, seu amigo do peito há mais de trinta anos, Delúbio apren­deu a arte da autoconfiança. No caso do mensalão, ele reverberava o mantra pe­tista: até os ministros do Supremo marcarem o julgamento, o crime de “caixa dois” de campanha já estaria prescrito. Resumindo, Delúbio poderia assumir sozinho a responsabilidade pelos paga­mentos aos deputados e aos partidos, sem medo de ser feliz. Com seu jeitão de matuto, aceitou silente a sua expul­são do PT, constrangimentos e humilhações. “O PT é meu projeto de vida”, re­pete o ex-tesoureiro, cujas penas podem chegar a 23 anos de cadeia, somando os crimes de corrupção ativa, pelo qual já foi condenado, e formação dé quadrilha, a ser julgado nos próximos dias.

Delúbio Soares tinha papel de proa no mensa- lâo. Foi ele quem pôs a mão na massa para fazer funcionar a máquina de corrupção comandada do Palácio do Planalto. Para manter o duto financeiro azeitado, ele recorreu aos préstimos do empresário mineiro Marcos Valério, cujos interesses no gover­no federal eram atendidos em troca do dinheiro que permitia a compra de par­lamentares. Cabia a Delú­bio comunicar a Marcos Valério a quem e quanto pagar. A ascensão de Delúbio no partido coincidiu com uma repentina mudança de hábitos. O sim­plório professor assalaria­do passou a circular em carros de luxo, usar roupas de grife, fumar charutos e beber vinhos caros.

O ex-tesoureiro agia com o aval e o conhecimento de seus superiores na hie­rarquia petista. Era tão íntimo do ex-presidente Lula que entrava no Planalto sem ser anunciado. Uma intimidade que não fazia muita questão de esconder. Delú­bio chegou a ser fotografado segurando uma cigarrilha que o presidente tentava fumar sem ser percebido. Como se fosse a coisa mais normal do mundo, partici­pava de reuniões, para tratar de assuntos de interesse do governo, com José Dir- ceu e financiadores do mensalâo. Cuidar do caixa de campanha de Lula lhe abriu muitas portas. Mas nem tudo saiu como o combinado —- ou como o prometido. Nem a piada foi de salão.

A FARSA DA BIOGRAFIA - REVISTA VEJA

REVISTA VEJA 


ADRIANO CEOLIN

José Genoino foi alçado ao posto de líder máximo do PT, acumulando a operação do esquema de compra de partidos e a de suborno de parlamentares


Em 1972, Geraldo não tinha sobrenome. Era apenas mais um dos jo­vens que se embrenha­ram nas matas do sul do Pará, membro de um grupo guerri­lheiro que pretendia implan­tar uma ditadura comunista no Brasil. Preso, torturado e condenado pelos militares, o estudante José Genoino Neto se transformaria, a partir da­li, num ícone da esquerda, um símbolo da resistência, um herói sobrevivente. Afi­nal, poucos tiveram uma se­gunda chance. Dos seus 97 antigos companheiros que foram guerrear no Araguaia,

65 ainda são contabilizados como de­saparecidos. Quarenta anos depois, desta vez num ambiente plenamente democrático, Genoino enfrentou um novo julgamento — e foi condenado outra vez, agora por corrupção ativa. Como presidente do PT, ele participou diretamente da montagem do mensa­lão, o esquema que seu partido criou para subornar parlamentares no Con­gresso Nacional — o pior dos golpes contra a democracia desde que ela foi instalada no Brasil.

Quando explodiu o escândalo do mensalão, em 2005, José Genoino era o representante máximo do poder do partido. Sua primeira manifestação para a história veio por meio de nota: a denúncia não tinha o “mínimo fun­damento na realidade”. Um mês de­pois, revelou-se que Genoino, ao contrário do que dissera, estava direta­mente envolvido no escândalo. Como presidente do PT, sua assinatura apa­recia junto com a do tesoureiro Delúbio Soares e a do publicitário Marcos Valério como avalistas de um empréstimo tomado pelo partido no ban­co BMG. Indagado, Genoino negou de novo: “Nunca. Ele (Valério) nunca foi avalista do PT. Não tem isso, n3o”. A publicação do contrato no qual apareciam as assinaturas do trio desmentiu mais uma vez o deputado, que partiu para uma terceira guerri­lha contra os fatos, dessa vez admitindo o que an­tes havia negado: “Ele (Valério) foi avalista por­que nossos bens indivi­duais não eram suficientes (para o empréstimo)”. O elo entre os persona­gens principais do caso começava a se fechar. À medida que as investiga­ções avançavam, o mito Genoino começou a miti­gar. Ficou demonstrado que o deputado participava das negociações políticas com os “partidos g burgueses” e, ao mesmo tempo, buscava dinheiro para comprá-los. Em S 2006, um ano depois do escândalo, Genoino ainda tentou um novo mandato, o sexto. Seu capital político, porém, foi minguando. Em 2010, já denunciado pela Procuradoria-Geral da Repúbli­ca como um dos integrantes da qua­drilha do mensalão, o deputado não conseguiu a reeleição. Como conso­lação, ganhou um cargo de assessor especial no Ministério da Defesa, no qual permaneceu até a semana passa­da, quando foi anunciada sua conde­nação pelo STF. “Retiro-me do go­verno com a consciência dos inocen­tes. Não me envergonho de nada”, disse. Sua pena pode chegar a 23 anos de cadeia. A defesa ainda invo­cou o histórico de Genoino de luta pela democracia e sua falta de apego material. Mas não era toda a biografia dele que estava em julgamento. Era apenas a parte mais infame.

A “farsa” deu cadeia - CARTA AO LEITOR - REVISTA VEJA

REVISTA VEJA 


Os políticos, de modo geral, habitam um mundo onde as versões predominam sobre os fatos, as imagens virtuais sobre a realida­de e a linguagem é usada mais para escon­der do que para mostrar. Por essa razão, quando forçados a abandonar seu universo paralelo e enfrentar o escrutínio da impren­sa, o aguçado senso comum da opinião pú­blica ou a severidade da Justiça, eles par­tem para o ataque irracional. O escândalo do mensalão é o exemplo mais recente dis­so. O mensalão foi um esquema de corrup­ção, posto a funcionar no começo do pri­meiro mandato de Lula, que consistia em comprar com dinheiro desviado dos cofres públicos parlamentares da base de sustenta­ção do governo. Na semana passada, o Su­premo Tribunal Federal (STF) condenou à prisão o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, punindo-o por comandar o mensalâo, que ele insistia ser uma “farsa” monta­da por inimigos.

O veredicto da maioria dos ministros do STF pôs fim a sete anos de dissimulações em que os brasileiros foram bombardeados pelos réus do PT e seus apoiadores com a tese de que “o mensalão nunca existiu” e tudo não passou de uma “tentativa de gol­pe da imprensa e da oposição”. No proces­so de ludibriar a nação, os políticos petistas quebraram todas as regras da convivên­cia democrática, usando instâncias de go­verno para atacar e desacreditar aqueles identificados como “responsáveis” pelo es­cândalo. Ao condenar José Dirceu, Delúbio Soares e José Genoino, todo o primeiro escalão do governo petista de então, o STF mostrou inequivocamente quem foram os responsáveis pelo mensalão. A solidez da acusação e o acatamento de suas teses pe­los ministros pulverizaram a versão inven­tada pelos réus.

Os brasileiros comemoraram a decisão do STF como uma vitória dos valores repu­blicanos, do vigor das instituições e da importância de uma imprensa livre e indepen­dente. Responsável pela descoberta do es­quema de compra de parlamentares, a imprensa foi o alvo preferencial dos ataques dos mensaleiros. VEJA e os grandes jornais do Brasil não se intimidaram e continuaram a apurar e publicar notícias sobre o escân­dalo. A vigilância e a obstinação da im­prensa foram reconhecidas pelos ministros do STF. Se a imprensa tivesse renegado sua missão de ser os olhos da nação, certamen­te os responsáveis pelo mensalão nunca te­riam sido punidos, as versões teriam preva­lecido sobre os fatos e o universo paralelo de Dirceu e companhia teria sido imposto como a verdade oficial. A euforia se justifi­ca. O STF sinalizou o fim da impunidade de corruptos e corruptores e abriu as portas de uma nova e auspiciosa era para o Brasil.

Meu amigo Zé - FLÁVIO TAVARES*

  O Estado de S.Paulo - 14/10


*JORNALISTA, ESCRITOR E FOI UM DOS 15 PRESOS POLÍTICOS TROCADOS PELO EMBAIXADOR DOS EUA EM 1969


Entre cenas do exílio e capítulos decisivos no País, ex-companheiro de Dirceu o vê como bode expiatório de uma dregradação maior


Tempos atrás, na prisão da ditadura, o carcereiro o chamava de "Cabeleira" e, hoje, outra vez ele está de cabelos longos, como se voltasse ao passado. Conheço José Dirceu há 43 anos e, nele, admiro e valorizo a coragem pessoal. A amizade começou naquele 6 de setembro de 1969 em que, sob a mira de metralhadoras, nos algemaram na Base Aérea do Galeão. Saíamos da prisão (ele em São Paulo, eu no Rio) e nos levaram à pista para uma foto que percorreu o mundo: os presos políticos trocados pelo embaixador dos Estados Unidos junto ao avião, rumo ao exílio no México. Era proibido falar, mas nos segundos em que mandaram que eu me agachasse, sussurrei: "Vamos mostrar as algemas!"

E ali está ele na foto, altivo, mãos ao peito, com as algemas que a maioria escondia, mostrando que preso político não é um criminoso envergonhado do que fez, mas um dissidente que desafia quem oprime. Foi a primeira e única vez na vida que Zé Dirceu me obedeceu...

A intimidade do exílio nos aproximou. Um canal de TV convidou-me a dublar telenovelas mexicanas em português e levei junto Zé Dirceu. Eu dublava e coordenava o grupo e o designei "primeiro ator". Dias depois, porém, ele e os demais viajaram para Cuba. Só eu permaneci no México e, assim, nem sequer nossas vozes retornaram ao Brasil, para onde não podíamos voltar.

Ele, porém, desafiou a proibição. A morte era a pena imposta ao retorno dos desterrados, mas Zé voltou, clandestino, em 1972, na euforia e terror do general Medici. Treinado em guerrilha, queria aliar-se aos que combatiam a ditadura, mas na chegada a São Paulo viu que a repressão dizimava seu grupo e ele seria a próxima vítima. Homiziou-se no oeste do Paraná e mudou de nome. Passou a ser Carlos Henrique, pacato comerciante de secos e molhados num recôndito município. Lá, casou-se e foi pai sem revelar quem era nem sequer à mulher e ao filho. A verdade significaria a morte e ele passou a ser outro.

Já não era quem era. Sacrificava a identidade para não ser sacrificado. No exílio, dizia-se que morrera como outros do "grupo Primavera", nome do lugar de treinamento em Cuba. Com a anistia do final de 1979, voltou a ser o Zé. Laborioso e hábil, presidiu o PT e o tirou do atoleiro de seita fechada ou partido sindical. Mas, ao se abrir à sociedade, o PT assimilou os velhos vícios políticos, como vírus pelas veias.

Quando Lula presidente, eram de Zé Dirceu os planos e atos de governo. Lula presidia, Zé governava. Irmãos siameses, um era a extensão do outro. A simpatia ficava com Lula, as antipatias com Zé. Pródigo em metáforas esportivas, o presidente o chamava de "capitão do time". Mas Zé era dos poucos que não jogava bola com Lula em fins de semana na Granja do Torto. Trabalhava noutras jogadas com outras bolas. Assim, o governo obteve maioria no Congresso e, hoje, se sabe a que preço e como - subornando o PMDB, o PTB, o PP de Maluf e o PL, que hoje é PR.

Em 2005, no topo do escândalo, sabe-se que Lula pensou em renunciar para "não ser um novo Collor". Outra vez a coragem de Zé Dirceu brotou como água no deserto e ele é que renunciou. Com o gesto, assumiu as responsabilidades e blindou Lula em pleno tiroteio. "Eu não sabia de nada, fui traído", dizia Lula, admitindo o suborno quando ainda se desconheciam os detalhes. Preferia passar por tolo do que por chefe do governo.

Agora, as 40 mil folhas do processo no Supremo Tribunal mostram o "mensalão" como um elaborado esquema de corrupção e suborno montado a partir "da alta cúpula do governo". Mas, o mais alto da "alta cúpula" não é réu. A não ser que o presidente fosse alienado absoluto ou pateta total, como explicar que um simples diretor de marketing do Banco do Brasil desviasse R$ 28 milhões do fundo Visanet sem autorização superior? A diretoria do banco nada percebeu? E a inspeção do Banco Central?

Não há suborno sem subornáveis e a degradação dos partidos gerou tudo. A "partidocracia" se sobrepôs à democracia. Roberto Jefferson fez a denúncia por sentir-se "lesado" ao receber só uma das cinco parcelas de R$ 4 milhões prometidas ao PTB... Com partidos transformados em balcões de negócios, o astucioso "mensalão" quebrou a oposição criando uma "base alugada" como base aliada.

A degradação chegou ao próprio PT. Numa das vezes em que estive com Zé Dirceu, após a cassação, ele me mostrou como a Polícia Federal invadira seu escritório em busca de documentos. Tarso Genro era ministro da Justiça e na disputa interna todos queriam comprometer Dirceu para tornar-se "o favorito do rei".

E as provas da fraude? Na engrenagem clandestina, oculta-se tudo. Ou alguém pensa que os corrompidos assinam recibo? Ou que João Paulo Cunha e os demais de São Paulo emitiram "nota paulista" pelo que abocanharam?

Nos delitos de alto nível, os indícios constroem a prova. Os Bancos do Brasil, Rural e BMG geraram as milionárias movimentações do esquema e daí surge tudo. Não foi sequer como no tempo de Fernando Henrique, quando a tão comentada compra de votos que permitiu a reeleição de presidente, governador e prefeito, surgiu numa manobra rápida, até hoje sem autor plenamente identificado.

Na tragédia, o terrível é que a determinação de Zé Dirceu o tenha levado ao topo de tudo, como bode expiatório da degradação maior. Mas nem seu passado de coragem pode livrá-lo da parcela de culpa. O passado não está em julgamento nem serve de escudo ao presente.

O DOMINGO É... - ANCELMO GOIS


O GLOBO - 14/10


...de Alinne Moraes, 29 anos, a talentosa atriz paulista que excede em beleza. A formosa voltará à tela da TV Globo como Kátia, em “Como aproveitar o fim do mundo”, série de Alexandre Machado e Fernanda Young, que estreia dia 1 de novembro. A personagem, avoada e exuberante, acredita na profecia Maia e tem certeza de que o mundo vai acabar dia 21 de dezembro. Ao lado de Ernani (Danton Mello), Kátia vai viver uma linda e divertida história de amor, sem abandonar sua lista de pendências e desejos que tentará realizar até o “fim do mundo” 

Camarada Dolores
Dolores Duran (1930-1959), a grande cantora e compositora, foi, poucos sabem, comunista.
A ponto de descontar de seus cachês um percentual para o velho PCB. Em 1958, chegou a integrar uma turnê de artistas brasileiros pela finada URSS (1922-1991), num tempo em que o Brasil sequer tinha relações diplomáticas com o mundo socialista.

Mas...
A artista se decepcionou com o que viu na URSS: mulheres trabalhando na construção civil, muita pobreza e nenhuma liberdade. Na volta, ao ver seu amigo Sérgio Porto numa boate, mandou-lhe um bilhete em que dizia apenas: “Desertei legal.”
A história está na biografia de Dolores que Rodrigo Faour lançará em novembro pela Editora Record.

Tudo de Vinicius
A Nova Fronteira prepara um volume com a obra completa de Vinicius de Moraes (1913-1980).
Chegará às livrarias em 2013, quando o Poetinha faria 100 anos.

A classe C a bordo
O setor aéreo trabalha com a perspectiva de crescimento de 7% a 8% até o fim do ano.

‘Speak portuguese’
Deu na badalada revista americana “Monocle” que o idioma do momento é o... português.
A capa traz o título: “Geração lusofonia: por que o português é a nova língua do poder e dos negócios.”

Oi, oi, oi
O julgamento do mensalão pega fogo, mas, até no STF, só se fala em... “Avenida Brasil”, a novela-sensação da TV Globo.
Piadinha que circula entre alguns políticos: “A ministra Cármen Lúcia é a... Carminha do bem.”

Cueca do marido
Pesquisa do instituto Data Popular sobre a influência feminina no consumo, com 2.006 entrevistas, em 53 cidades brasileiras, em setembro, mostrou que 62% das mulheres compram as roupas dos maridos.
E mais: 78% dos homens preferem mudar de opinião para não brigar com elas, e 77% têm certeza de que a mulher tem dinheiro guardado sem ele saber.

Vinho caro
A escola de samba paulista Vai Vai, cujo enredo em 2013 é sobre vinho, foi autorizada a captar R$ 3.206.400.

Salve Jorge
“Salve Jorge”, a próxima novela das 21h da TV Globo, que vai falar do tráfico internacional de pessoas, já tem gravados 13 depoimentos de vítimas reais deste crime.
— Só na década de 1980, entre dois e três mil bebês foram sequestrados para serem adotados em Israel — conta Glória Perez, autora da trama.

O violoncelo do Villa
Este violoncelo, fabricado em 1779, pertenceu a Villa-Lobos (1887-1959) e será uma das atrações do festival que leva o nome do grande maestro brasileiro, a partir de 9 de novembro, no Rio.
O instrumento, restaurado pelo luthier Túlio Lima, vai ser usado no recital de Hugo Pilger com a pianista Lucia Barrenechea.

Forró in Rio
Vem aí, no Rio, o Festival Mundial de... Forró.
A carioca JMoreno Produções Artísticas foi autorizada a captar R$ 2.073.030 pela Lei Rouanet para o evento, que acontecerá na Feira de São Cristóvão.

Novo CD de Carlinhos
Carlinhos Vergueiro prepara um CD autoral, que incluirá duas parcerias inéditas com a filha Dora Vergueiro.
“Vida sonhada” chega às lojas no fim do mês pela Biscoito Fino e será lançado com show no Casarão Ameno Resedá, no Rio, dia 23 de novembro.

Novo CD de Zélia
Zélia Duncan vai lançar um CD em homenagem a Itamar Assumpção, produzido por Kassin.

Cufa models
A Central Única das Favelas criará uma agência especializada em descobrir nas favelas brasileiras meninas com talento para modelos.
Vai se chamar Cufa Models.

Cutuca e compartilha
Surgiu em Ricardo de Albuquerque, Zona Norte do Rio, a lanchonete Faceburger, cujo slogan é... “Quem curte, compartilha”.
Serve sanduíches com nomes como “hambúrger cutuca”, “x-búrguer compartilha”, “egg-bacon curti” etc.

DITADURA E CULTURA EM TRANSE
Vem de longe a relação de intelectuais e artistas com o poder. Ao longo da história da Humanidade, desde tempos imemoriais, representantes da chamada turma da cultura estiveram em todos os governos. Ou, vá lá, quase todos. Até nas... ditaduras — senão apoiando integralmente, mas cumprindo um duplo papel.

Ou um “pensar duplo”, como defende a professora Tatyana de Amaral Maia na tese de doutorado “Cardeais da Cultura Nacional: o Conselho Federal de Cultura na ditadura civil-militar (1967-1975)”, defendida na Uerj, em 2010, e premiada pelo

Instituto Itaú Cultural, que acaba de de lançá-la em livro.

Tatyana lembra que o CFC, sigla do conselho de que trata sua tese, foi criado em 1966 pelo general-presidente Castelo Branco, que o instalou no ano seguinte sob a presidência de Josué Montello (1917-2006), jornalista, professor, teatrólogo, escritor e renomado imortal da ABL.

Integraram o CFC baluartes da cultura e intelectualidade brasileiras como Ariano Suassuna, Cassiano Ricardo, Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre, Afonso Arinos de Mello Franco, Dom Marcos Barbosa, Pedro Calmon e outros. Nem todos eram considerados “de direita”, ou bem poucos, mas acabaram arregimentados pelo regime de exceção no ideal de formatar no país um “sentimento de brasilidade” que resguardasse a cultura nacional da “ameaça alienígena”.

“Tratava-se de uma dupla ameaça: somava-se à perda da memória a presença de padrões culturais estrangeiros na cultura. Era preciso resgatar do abandono as obras da literatura; os conjuntos arquitetônicos ( ... ); as personagens históricas ( ... ); a herança cultural das três raças que formavam a sociedade”, escreve Tatyana.

Neste sentido, cabia ao CFC, por exemplo, a distribuição de recursos para produção cultural. Tudo começou a dar errado com a censura à criação artística — filmes de Gláuber Rocha, como “Terra em transe”; de Júlio Bressane, como “Cara a cara”; peças do próprio Suassuna, como “O santo e a porca”, etc. Suassuna, aliás, foi quase voz isolada contra qualquer tipo de censura.

Alguns conselheiros, como o conservador Montello, ainda tentaram convencer os militares a entregar aos intelectuais o papel de censores. Mas foi em vão — e o CFC foi naufragando aos poucos, nos anos 1970, até ser extinto na democracia, já sem expressão, função e prestígio, em 1990, para ser substituído, um ano depois, pela Lei Rouanet, que estabeleceu no país o (às vezes polêmico) sistema de incentivos fiscais à cultura, que vigora até hoje. Mas aí é outra história.