domingo, outubro 14, 2012

Últimos capítulos! Chifra Brasil! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 14/10


E a culpa do mensalão é do Gabeira! Que nos anos 1960, trocou o embaixador americano pelo Zé Dirceu!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Como essa Carminha fala palavrão. Eu acho que ela é a reencarnação da Dercy Gonçalves! E eu sei como termina "Avenida Brasil". Na Avenida Rebouças! E ninguém quer que "Avenida Brasil" acabe. Os órfãos da Carminha! A Globo devia fazer uma continuação: Linha Vermelha!
E a próxima novela não devia se chamar "Salve Jorge", mas Salve o Flamengo. Do verbo salvar! E como a Inglória Peres vai fazer a ponte aérea Istambul -Rio se a Turquia tá entrando em guerra com a Síria? Vai ser um TURCIRCUITO! Rarará! E o Maluf vai fazer parte do núcleo turco? Pra roubar a cena?! Rarará!
E um Oscar de melhor atriz pra Adriana Esteves. Estupenda! Melhor coadjuvante: a calça branca encardida da Carminha. Melhor figurino: a touca da Mãe Lucinda! E quem matou o Max? O Zé Dirceu, claro! E o neurônio do Adauto morreu de solidão!
E um amigo disse que se a Suellen viesse numa carroça, ele começava a chupar pelo burro! E a casa do Tufão? Amo a casa do Tufão! Parece a casa do Riquinho. E a família Tufão, os tufões, parece mesa redonda de futebol: todos gritam, falam e se agridem ao mesmo tempo. Parece o programa do Milton Neves! E a novela devia se chamar Chifra Brasil! Todo mundo chifra todo mundo. Novela pano de toureiro! Rarará!
E o Kibeloco revela lições de "Avenida Brasil": "Leandro levou chifre, Tufão levou chifre. Jogou no Flamengo? É CORNO!". E "Avenida Brasil" foi a melhor novela dos últimos anos. Todos trabalham bem. E todos interTREPARAM muito bem! Show de Intertrepação! E uma coisa rara e difícil em novela: diálogos incríveis. Os melhores diálogos desde "Roque Santeiro"! "Avenida Brasil" não devia acabar, devia virar uma sitcom. Um seriado!
E o mensalão? Supremo condena Dirceu a casar com a Ivana. Prisão perpétua. Já imaginou a Ivana, com aquela cara de Bozo e falando tatibitati: "Bebejão, amoje, vamo brincá de Xupremo?". E o Dirceu: "Então fecha a poooorrrta". Com aquele sotaque de Mãe Lucinda com Mazzaropi! Rarará!
E o PT tá sendo chamado de Arca de Noé: os sobreviventes do Delúbio! E eu já disse que o Marcos Valério é inocente. Já viu mineiro distribuir dinheiro? E a culpa do mensalão é do Gabeira! Que nos anos 1960, trocou o embaixador americano pelo Zé Dirceu! E o Joaquim Barbosa parece a minha sogra: ranzinza e condena todo mundo. Idêntico! E a ministra Cármen Lúcia é clone do Mr Bean.
Nóis sofre, mas nóis goza. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Desastre urbano - HENRIQUE MEIRELLES


FOLHA DE SP - 14/10


O trânsito de São Paulo lembra aquela experiência clássica com o sapo na água fervente. Quando o sapo cai dentro dela, salta rapidamente. Mas se ele está dentro da água enquanto a temperatura sobe gradualmente, o sapo morre passivamente.

Seriamos todos sapos vivendo a gradual imobilização de São Paulo?

De 1982 a 2003, o Brasil cresceu a taxas pouco acima de 2% ao ano. O país ajustou-se para crescer a taxas baixas. Já no período de 2004 a 2010, a economia brasileira cresceu a taxas médias perto de 5% ao ano. Os benefícios do crescimento transformaram o Brasil, mas temos também que enfrentar seus custos e nos ajustar.

O trânsito nas grandes cidades é uma das consequências do despreparo para crescer a taxas mais altas. Com a estabilidade econômica, mais renda e crédito, os brasileiros começaram a realizar o sonho de ter seu carro. Embora esse movimento histórico tenha elevado a arrecadação tributária, não gerou melhora da malha viária urbana capaz de absorver a nova frota e os novos motoristas, prova da incapacidade dos poderes públicos, até este momento, de prover infraestrutura que sustente um crescimento vigoroso.

São Paulo é outra história. Centro industrial, financeiro e comercial do país, a produtividade da cidade afeta a todos os brasileiros. Cada hora que um trabalhador perde no trânsito paulistano afeta a produção nacional.

Na maioria dos países, o centro econômico coincide com o político e o administrativo, facilitando a alocação prioritária de recursos na principal máquina produtiva do país. Londres, Paris, Buenos Aires, Santiago, Seul e muitas outras demonstram tal fato (os EUA são a exceção que confirma a regra, pois lá a atividade econômica é descentralizada).

Cedo ou tarde, o Brasil deverá enfrentar esse enorme problema, agudizado pela crise da infraestrutura, porém mais profundo e abrangente do que ela.

Temos de pensar estrategicamente um modelo de governança que viabilize o trabalho conjunto dos atores públicos e privados, para efetuar intervenção estrutural no transporte da metrópole paulistana.

São Paulo precisa não só triplicar a extensão do metrô, mas também criar linhas integradoras que conectem outras linhas, formando uma rede que atinja todos os pontos de alta densidade de tráfego de pessoas. E as linhas de trem devem ser modernizadas e transformadas em linhas de metrô de alta densidade.

A dimensão do desafio é enorme. Será possível vencê-lo se for tratado como necessidade nacional. Um sistema de transporte coletivo capaz de transportar a população com rapidez, segurança e conforto é o mínimo que uma metrópole da sétima maior economia do mundo deve oferecer.

Controlando a fragilidade quântica - MARCELO GLEISER


FOLHA DE SP - 14/10


O prêmio Nobel de Física de 2012, conferido nesta semana, foi para o francês Serge Haroche e o americano David Wineland. Ambos são pioneiros da manipulação de sistemas quânticos, o mundo dos átomos, elétrons e outras partículas.

As descobertas têm importância tanto para compreensão dos efeitos bizarros que ocorrem no mundo do muito pequeno quanto para aplicações práticas, como relógios ultraprecisos e computadores quânticos.

O mundo quântico é extremamente frágil. Um dos maiores problemas da física quântica é como medi-lo sem interferir nele. Na nossa realidade, isso é bem mais fácil: você vê uma mosca, sabe onde está e, em princípio, pode medir sua velocidade: basta dividir a distância que a mosca percorreu pelo tempo de voo.

Mas, se essa mosca fosse um elétron, a coisa ficaria bem mais difícil. Quanto mais precisa for a medida da posição do elétron, mais vago o valor da sua velocidade. Isso porque o ato de medir interfere com o que está sendo medido: no caso, partículas de luz, os fótons, têm de ser refletidas no elétron e viajar até um detector.

Para saber melhor onde está o elétron, o fóton precisa ter maior energia. Com isso, acaba "empurrando" o elétron, interferindo na sua posição. Com a mosca isso também ocorre, mas os fótons não têm energia suficiente para empurrá-la.

Essa é a diferença entre o mundo clássico, o nosso mundo, e o mundo quântico. O desafio é como medir sem interferir, ou ao menos interferir preservando a natureza quântica dos fenômenos observados.

Haroche conseguiu "prender" fótons entre dois espelhos, fazendo com que ricocheteassem inúmeras vezes, viajando um total de 40 mil quilômetros antes de serem perdidos. Isso acaba construindo uma onda estável entre os dois espelhos, uma superposição coerente dos fótons. Para tal, o experimento tem de ser extremamente preciso e estável: qualquer interferência externa destruiria a coerência dos fótons. Esses "espelhos" foram feitos de material supercondutor e mantidos a temperaturas baixíssimas.

A informação sobre os fótons foi obtida emitindo átomos de rubídio um a um para não destruir a coerência dos fótons, um feito incrível. Haroche tentava reproduzir no laboratório um efeito conhecido como gato de Schrödinger, explorando a transição entre o mundo quântico e o mundo clássico.

Schrödinger imaginou que, se um gato estivesse preso numa caixa com um gás venenoso cuja emissão é controlada por átomos radioativos, um observador externo não saberia se o gato está morto ou vivo: só abrindo a caixa, observando o gato, teria uma resposta.

Ou seja, no mundo quântico, o estado do gato seria uma combinação dos dois, morto e vivo ao mesmo tempo --um estado de coerência quântica. Os fótons entre os espelhos fazem algo semelhante, uma superposição de dois estados que sobrevive por um tempo, até ser destruída após a passagem de vários átomos de rubídio.

Com isso, Haroche pôde estudar a destruição gradativa de um estado quântico pela primeira vez. Isso poderá ajudar no desenho de novos computadores que exploram as propriedades do mundo quântico para fazer cálculos muito mais eficientemente do que os atuais.

O fim da virgindade - HÉLIO SCHWARTSMAN


FOLHA DE SP - 14/10


SÃO PAULO - Acaba hoje o prazo para fazer um lance pela virgindade da estudante brasileira Ingrid Migliorini. Já lhe ofereceram US$ 255 mil pelo direito à primeira noite.

Penso que a jovem está certíssima. Vai levantar um bom dinheiro para entregar uma simples abstração, que a maioria das meninas dá de graça a seus namorados. Se há algo chocante na história é o valor que nós, como espécie, atribuímos à virgindade.

A obsessão se materializa em todos os níveis, do mais sagrado ao mais profano. Segundo Paul Bloom em "How Pleasure Works", o termo aparece nada menos do que 700 vezes no Antigo Testamento e ocupa lugar ainda mais central no cristianismo, com o suposto nascimento virginal de Jesus. Mesmo no mundo materialista do capitalismo, mulheres gastam pequenas fortunas em cirurgias de reconstituição do hímen.

Tamanho interesse tem raízes evolutivas. Desde que a fêmea humana deixou de anunciar ostensivamente seu período fértil, como o faz a maioria dos primatas, ficou muito mais difícil para o macho ter certeza de que o filho que ele criaria era mesmo seu. E investir recursos no desenvolvimento de genes alheios é, em termos biológicos, um desastre. Um modo de aumentar as chances de o rebento ser legítimo era copular preferencialmente com virgens.

Se o raciocínio valia no Pleistoceno, não faz mais nenhum sentido no mundo moderno, em que a mulher pode controlar sua fertilidade e existem exames de DNA à disposição dos homens mais desconfiados. Hoje, o conceito de virgindade oscila entre uma relíquia mental da pré-história e, nas sociedades mais conservadoras, uma forma de tiranizar a mulher.

Antes, porém, de maldizer o processo que levou a fêmea humana a esconder até de si mesma a ovulação, gerando milênios de opressão, é bom lembrar que a ocultação do estro resultou também no sexo recreacional e na formação de relações duradouras entre homem e mulher.

Custas processuais ou imposto? - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 14/10


Sob fortes críticas de entidades de advogados, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) anunciou que está elaborando um projeto de lei para uniformizar as custas processuais cobradas pelos 27 Tribunais de Justiça (TJs) do País. Ao justificar sua iniciativa, o órgão alegou que as taxas processuais são muito altas em alguns Estados, principalmente nos da Região Nordeste, e muito baixas em outros, como é o caso de São Paulo e de Santa Catarina.

Além da padronização das taxas e emolumentos das Justiças estaduais, o CNJ quer fixar, para as instâncias superiores, porcentuais que inibam a apresentação de recursos considerados "protelatórios" e "temerários" pelos desembargadores. Essa medida preocupa os grandes litigantes, como bancos, empresas de telefonia, planos de saúde, lojas de departamentos, companhias seguradoras e órgãos públicos.

Segundo o conselheiro Jefferson Kravchychyn, que integra a Comissão de Eficiência Operacional e Gestão de Pessoas do órgão encarregado de promover o controle do Poder Judiciário, a iniciativa descongestionará os tribunais, aumentando a eficiência das Justiças estaduais. Para o desembargador Rui Stocco, do TJSP, que participou da elaboração do anteprojeto do CNJ, encarecer a apelação é uma forma de "valorizar" a sentença de primeira instância. "Quem entra na Justiça tem, literalmente, de pagar para ver", diz ele, depois de lembrar que uma ação judicial pode gerar mais de 20 recursos que, em São Paulo, custam de R$ 50 a R$ 60, cada um.

Já para os conselhos seccionais da OAB, aumentar as custas processuais para desestimular litigantes a não utilizar o direito de recorrer ao segundo grau dificulta o acesso à Justiça e compromete o devido processo legal assegurado pela Constituição. "O valor do recurso não pode, em hipótese alguma, inibir o direito de recorrer", afirma o advogado Caio Lúcio Brutton.

Pelo anteprojeto do CNJ, divulgado pelo jornal Valor, as custas processuais - da petição inicial à execução do julgamento - não poderão exceder a 6% do valor da causa. Esse porcentual deve ser distribuído entre as fases de distribuição, de apelação e de execução. A proposta também dá aos Tribunais de Justiça a prerrogativa de distribuir como bem entenderem esse ônus. Com isso, as Cortes poderão, por exemplo, adotar porcentuais próximos do limite de 6% para os recursos impetrados na segunda instância, reduzindo ao mínimo as custas nas fases de distribuição e execução. Os valores totais, contudo, não poderão ser inferiores a R$ 112 ou superiores a R$ 62 mil.

"Há uma verdadeira fúria arrecadatória no anteprojeto", afirma o advogado Antonio Carlos Rodrigues do Amaral, da Comissão de Direito Tributário da OAB. Como as custas processuais hoje variam conforme os tribunais, em alguns a uniformização das taxas processuais acarretará aumentos superiores a 200%. Em Minas Gerais, por exemplo, uma causa no valor de R$ 1 milhão paga R$ 7,3 mil de custas. Pelos critérios que o CNJ pretende adotar, elas subiriam para R$ 60,6 mil.

"O que a proposta poderia valorizar é a harmonização de parâmetros, de criação de obrigações acessórias e preenchimento de guias. Ou seja, normas que facilitem o acesso do cidadão aos tribunais", sugere. "O anteprojeto pode gerar acréscimos, mas não nos patamares apontados", refuta o diretor do departamento de arrecadação do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que também participou da elaboração do texto. As Cortes mais interessadas na proposta do CNJ são as mais movimentadas do País, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

O mais adequado, segundo alguns advogados, é que as Justiças estaduais cobrem, a título de taxas processuais, valores que remunerem, proporcionalmente, as despesas calculadas com base nos custos fixos dos tribunais.

Mas esse é apenas um dos lados do problema. O outro é de natureza constitucional e envolve a autonomia das unidades que compõem a Federação. Ao fixar o tabelamento das custas, o CNJ não estaria cerceando a autonomia dos Estados, invadindo área na qual não tem competência legal?

Na China ninguém se chama João - FERREIRA GULLAR


FOLHA DE SP - 14/10


Eu sempre soube que a China era um país "sui generis". Mas que, em pleno século 18, no final dele, ainda se considerava um Império Celestial, o ápice da civilização humana e que, fora de lá, tudo o que havia no mundo eram bárbaros, isso eu não sabia. Vim a saber, agora, ao ler o livro "Sobre a China", de Henry Kissinger, que me foi emprestado por Adriano Lemos, meu vizinho e meu amigo.

Kissinger, que foi assessor de segurança dos presidentes americanos Richard Nixon e Gerald Ford, esteve na China mais de 50 vezes --inicialmente para restabelecer as relações dos Estados Unidos com a República Popular da China e assim buscar um modo de reduzir as tensões da Guerra Fria e minar a aliança dos chineses com os soviéticos.

Mas essa é a parte da história que, bem ou mal, se conhece. A parte que pouca gente conhece é a outra, a da China milenar, cuja origem se perde no tempo e nas lendas, como os mitos. Há quem diga que a civilização chinesa não teve começo, sempre existiu.

A verdade, porém, é que a China sempre esteve ali, ao leste da Ásia, fazendo fronteira com a Rússia e a Índia, debruçada sobre o Pacífico. Pelo menos, isso era o que os ingleses sabiam quando, em 1793, enviaram para lá o lorde George Macartney, chefiando uma missão cujo propósito era estabelecer relações diplomáticas e comerciais. Não deu certo.

E não podia dar, uma vez que a China mantinha-se numa espécie de irrealidade ou autismo, que pouco tinha a ver com o mundo real, enquanto o Ocidente entrara na era industrial, da máquina a vapor e da economia de mercado.

Enquanto isso, a nobreza chinesa dedicava-se a refletir sobre os ensinamentos de Confúcio e a cultivar a poesia e a caligrafia. Estava certa de que a China era o centro do mundo, o Império do Meio, governado por um Imperador Celestial, a que todos os seres humanos deviam reverência.

Em face disso, questões comerciais e diplomáticas não tinham maior importância. Foi o que constataram, perplexos, Macartney e sua comitiva.

A primeira surpresa dos "bárbaros de cabelos vermelhos", como eles chamavam os ingleses, a caminho de Jehol, a capital de verão a noroeste de Pequim, foram os letreiros que proclamavam: "O embaixador inglês levando tributo ao Imperador da China".

Ou seja, os presentes que ele trazia para o imperador não eram uma gentileza, mas uma obrigação. Além disso, as maravilhas tecnológicas da Europa não causaram qualquer impressão aos anfitriões, que fingiam não ver nelas nenhuma novidade.

A coisa se complica ainda mais quando a comitiva inglesa se aproximava de Pequim. Os mandarins encarregados de administrar a missão deram início a uma negociação que surpreendeu os visitantes.

A questão era se Macartney iria fazer o "kowtow" diante do imperador. O "kowtow" implicava em que as pessoas, diante do imperador, tinham de fazer genuflexões e prostrações repetidamente, o que o embaixador inglês considerava humilhante para um súdito do rei da Inglaterra.

Queria limitar-se a abaixar-se apoiado em um dos joelhos, como impunha o costume da corte britânica. Os chineses, porém, não aceitavam, de modo que a discussão demorou várias semanas, chegando os mandarins a ameaçar Macartney de voltar para casa de mãos abanando. Depois de muito, admitiram que o embaixador apenas se ajoelhasse, como fazia diante de seu próprio rei.

Um mês e meio depois, Macartney continuava esperando pela audiência com o imperador. Enquanto isso, aconteciam banquetes, entretenimentos e discussões sobre
o protocolo apropriado para a audiência.

Finalmente, Macartney foi convocado às quatro da manhã --conforme conta Kissinger-- a ir a uma tenda muito grande e bela, a fim de ali aguardar sua majestade, que apareceu em cima de um palanquim. Depois de distribuir presentes aos visitantes, o próprio imperador lhes serviu taças de vinho morno. Tudo isso para que, algum tempo depois, Macartney fosse cientificado de que nada do que propusera seria atendido. E, assim, ele voltou para Londres, de mãos abanando.

A culpa não é da imprensa - JOÃO UBALDO RIBEIRO


O GLOBO - 14/10


Desde que o mundo é mundo, dar más notícias não é bom negócio. Não resolve nada cortar a cabeça do mensageiro, mas parece que os destinatários das más notícias têm opinião diversa, principalmente quando são poderosos e a mensagem anuncia algo que ameaça esse poder. E isso se estende às opiniões. Também desde que o mundo é mundo, os cortesãos aprendem a evitar dar palpites negativos sobre os atos dos poderosos de que dependem e é proverbial a recorrência, no folclore de muitas culturas, de histórias sobre como reis se disfarçavam e assim saíam às ruas, para tentar ouvir sem intermediários o que falavam seus súditos.

O portador de más notícias e opiniões desagradáveis, em nossos dias, é a imprensa, entendida esta como todos os meios de comunicação. Isso leva a fenômenos interessantes. Na internet é comum ler que a grande imprensa, por estar mancomunada com o governo ou com o rabo preso por interesses escusos, não denuncia isso ou aquilo e distorce os fatos para agradar o poder. Daí a alguns cliques de mouse, surge um artigo indignado, argumentando que a imprensa vendida e golpista é que está por trás, por exemplo, das condenações dos réus do mensalão. E protestos embravecidos choveram, logo depois das condenações da última terça-feira, culminando com o comentário de um dos advogados do réu, segundo o qual jornalista bom é jornalista morto.

O autor da frase explicou que se tratava de um pilhéria. Certamente foi, embora eu não creia que achassem muita graça nela os incontáveis jornalistas que, desde os primórdios de sua profissão, em todo o mundo, foram e são assassinados, torturados, encarcerados, banidos ou forçados ao silêncio. Toda ditadura, sem exceção, tem como prioridade básica o controle da imprensa, a vigilância rigorosa sobre os fatos e opiniões que podem ser conhecidos pelo público. Não há como aceitar o controle da imprensa pelo Estado e muito menos pelo governo. O resto é conversa e interesse contrariado, pois em lugar nenhum existe democracia sem liberdade de imprensa. É a imprensa, apesar de todos os defeitos comuns à condição humana, que serve de olho e boca da coletividade, não pode ser cerceada sem que as liberdades civis também sejam.

O espirituoso chiste do advogado, que perdeu a causa e -quem sabe se num ato falho - pode numa piada ter exposto o que lhe vai no coração, ainda compõe um panorama curioso. Os condenados e seus aliados parece que não se lembram das barbeiragens que cometeram desde que chegaram ao poder. Quem os meteu nessa camisa de onze varas não foi a imprensa, foram os atos deles mesmos. Não enxergaram que não estamos mais no país dos golpes, rumores de golpes, advertências à nação e outras práticas enterradas no passado, que as instituições vêm resistindo muito bem aos trancos por que têm passado, que houve muitas mudanças neste mundo.

Num aparente acesso de onipotência, decidiram que sórdidas práticas velhas, como a compra de apoio e de votos, nas mãos deles de alguma forma não apenas se justificavam, mas quase se legitimavam. Montaram um esquema cujos riscos não avaliaram e que talvez desmoronasse inevitavelmente, mesmo que não houvesse sido ruidosamente delatado - havia gente demais envolvida e buracos demais; o vazamento era sempre uma possibilidade. Não me refiro a deslizes éticos ou ações criminosas, mas a barbeiragens motivadas pelo excesso de confiança e pelo desdém pela inteligência alheia. Espertos demais, com as cabeças envoltas pelas nuvens do poder e da glória, erraram nas manobras e não por culpa da imprensa ou de ninguém, mas da própria inépcia, que redundou em ações incompetentes. O que previram, naturalmente, também se revelou errado. Em certo momento do desenrolar da história, pareceu até que o ex-presidente Lula achava que os ministros do Supremo por ele indicados eram ocupantes de cargos em comissão. Nomeados por ele deviam votar com ele, não foi para isso que os nomeou, onde já se viu uma aberração dessas? Por que não é possível demiti-los por quebra de confiança?

Em suma, alçados ao poder, ainda rodeados da aura ética e ideologicamente definida que publicamente os caracterizava, consagrados por uma votação expressiva e imersos numa onda de popularidade incontestável, os novos governantes e estrategistas avaliaram mal a situação, superestimaram a si mesmos e, paralelamente, subestimaram os obstáculos que enfrentariam. Viam-se talvez como praticantes sagazes e habilidosos de uma eficiente Realpolitik e seus planos para a obtenção da sempre lembrada governabilidade. Claro que, como disse Kennedy uma vez, a vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã. Ninguém entre os atingidos deve desejar ser o pai dessa grande derrota. Mas os pais são eles mesmos. Armaram um esquema cheio de si, acreditaram nos falsos indícios que às vezes entontecem os poderosos e quebraram a cara. Pois, afinal, as condenações são a demonstração de que o esquema armado para governar, em vez de sabido, era burro e que os novos generais engendraram e puseram em ação um plano gravemente equivocado e desastroso.

A culpa não é da imprensa, nem de ninguém, a não ser dos autores e agentes da estratégia. Supondo-se malandros, demonstraram-se otários. Isso certamente é duro de admitir e talvez nunca o seja de todo. Até porque vem aí, depois das sentenças, o processo em que os condenados serão considerados mártires por seus companheiros, serão objeto de apelos internacionais e, enfim, serão glorificados como heróis de sua causa, o que lá venha a ser definido como tal na ocasião. E a imprensa, com toda a certeza, vai ser necessária, para que isso tenha repercussão. A imprensa serve a todos, até mesmo a quem precisa muito de um culpado pelo próprio fiasco.

Nobel a uma espécie ameaçada - CLÓVIS ROSSI


FOLHA DE SP - 14/10


O Nobel da Paz foi para a União Europeia. Beleza. Trata-se do modelo menos ruim de integração e de sistema de bem-estar social jamais inventado pelo ser humano. "Uma conquista da civilização", definiu-a, certa vez, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Pena que seja hoje uma espécie ameaçada de extinção, o que foi implicitamente reconhecido pelo chefe do comitê que outorga o prêmio.

Thorbjorn Jagland declarou que o Nobel era "uma mensagem para a Europa manter o que havia sido conseguido (...) e não deixar que o continente entre em desintegração de novo porque esta significaria a emergência do extremismo e do nacionalismo".

Risco, de resto, apontado na véspera pelo premiê italiano, Mario Monti, para quem a crise econômica e as dificuldades para enfrentá-la provocaram suspeitas mútuas entre os sócios europeus, o que "mina os fundamentos da integração e a simpatia pela ideia europeia".

Vista da academia, a situação não parece diferente: "Uma Europa que não funciona dificilmente pode ser atraente", escreve para "El País" José Ignacio Torreblanca (Conselho Europeu para Relações Internacionais).

Que a Europa não está funcionando prova, por exemplo, o número atual de desempregados (18,1 milhões), em um mundo em que a crise deixou 30 milhões de desempregados adicionais, segundo balanço da Organização Internacional do Trabalho.

Daí surge a tendência centrífuga que se instala na Europa: a Escócia fará em 2014 um referendo para decidir se se separa do Reino Unido; a Catalunha vota no dia 23 de novembro numa espécie de plebiscito pela independência; o partido Nova Aliança Flamenga quer transformar a eleição para prefeito de Antuérpia em uma espécie de referendo sobre a independência da região de Flandres, cindindo a Bélgica (justamente a capital da Europa).

Bem antes do Nobel, a revista "Foreign Affairs" circulava com artigo de Timothy Garton Ash (Oxford University) que explicava o, digamos, desamor pela ideia de Europa.

Primeiro, acentuando exatamente os motivos que levaram a conceder o prêmio à União Europeia: "Tanto as memórias da 2ª Guerra Mundial como as exigências da Guerra Fria empurraram três gerações de europeus aos picos de unificação política sem precedentes na história europeia e inigualada em qualquer outro continente".

Mas, continua, "agora, com a presente crise ainda não resolvida, a Europa carece das forças motivadoras que antes a impulsionaram para a unidade".

Tomara que a "mensagem" que o comitê do Nobel quis dar, no sentido de preservação do projeto europeu, seja recebida e devidamente entendida.

Parece evidente que a desintegração, mesmo parcial, não beneficia ninguém, nem os países em crise que não se livrarão dela fugindo do projeto, nem os países credores, como é o caso da Alemanha, que lucraram enormemente com a União Europeia.

O grande problema é que solidariedade, o ingrediente mais necessário para que a "mensagem" seja bem aceita, está em falta, ante as desconfianças mútuas que o italiano Mario Monti apontou corretamente.

Precatórios e mensalão - OPHIR CAVALCANTE

FOLHA DE SP - 14/10


Podemos agora avançar muito no respeito à lei, à coisa julgada. O calote pode e deve ter um fim planejado. O governo não vai falir, o mundo não vai acabar


Precatórios e mensalão têm muitos pontos em comum: abuso de autoridade, desvio de dinheiro "carimbado" para pagamentos judiciais por agentes públicos em proveito próprio ou partidário de governadores e prefeitos caloteiros (convictos de impunidade histórica), lentidão e leniência crônicos da Justiça, manipulação contábil e falta de transparência nos números, governança cínica ("era apenas caixa 2", "ninguém paga precatórios, porque eu iria pagar?") e por aí vai.

O julgamento do mensalão está na pauta do Supremo Tribunal Federal e da mídia. Enquanto isso, a Ação Direta de Inconstitucionalidade 4357 contra a última moratória dos precatórios teve o seu início de julgamento com voto histórico favorável do presidente ministro Ayres Britto. Em seguida, teve pedido de vista do ministro Luiz Fux, devendo retornar a qualquer momento. Aguarda-se uma decisão a favor dos credores por larga maioria.

Será que o Brasil está chegando perto de uma virada histórica contra a insegurança jurídica, o descumprimento rotineiro da Constituição e suas cláusulas pétreas (respeito à coisa julgada, direitos humanos, duração razoável dos processos, igualdade de todos, moralidade e impessoalidade na administração pública etc.)?

Esperamos que sim.

A OAB tem exercido uma liderança indiscutível na saga dos precatórios, seja no STF e em todos os foros disponíveis dentro e fora do Brasil, inclusive perante instituições de direitos humanos, economia e finanças. Nessa trilha, temos chamado a atenção para a vida real e prática em um cenário de declaração de inconstitucionalidade dos calotes públicos.

O mundo certamente não acabará, nem as finanças públicas entrarão em colapso, mesmo com o reconhecimento de dívidas de mais de R$ 100 bilhões -e de muitos outros bilhões em gestação no Judiciário. Existem soluções realistas e razoáveis para acomodar os interesses e necessidades de credores e devedores.

Quanto ao passado, a reestruturação das dívidas de Estados e municípios, com garantia da União (esta protegida pelos repasses constitucionais), poderá acontecer com a emissão de títulos de dívida de longo prazo, que seriam ofertados no mercado privado. Ou seja, quem desembolsaria dinheiro vivo a curto prazo seria o mercado privado e não as instituições públicas.

Esse dinheiro vivo poderia ir para o bolso dos credores passo a passo (numa ordem crescente de crédito) ou capitalizado em fundos de infraestrutura, por exemplo.

Alternativamente, os precatórios poderiam ser reconhecidos como moeda para pagamento de impostos atrasados (dívida ativa), contribuição para pagamento de financiamento da casa própria e aposentadoria, aquisição de bens de tecnologia e educação (computadores, tablets), alienação de ações, cotas ou parcerias (PPPs) com empresas estatais, aquisição de imóveis públicos ociosos etc.

Já para o futuro, ou seja, para novas dívidas públicas que sejam consagradas na Justiça, um novo marco regulatório precisará surgir via Congresso Nacional, medidas provisórias ou uma conjugação de instrumentos legislativos.

A grave crise político-financeira internacional exige cautela, ousadia e criatividade para um país com tanto potencial e oportunidades como o Brasil. A volta da segurança jurídica estimulará investimentos de longo prazo e o bom senso recomenda o início imediato de um diálogo entre credores e devedores públicos, pois não estamos debatendo teses jurídicas na academia, mas um problema eminentemente prático.

O resultado de qualquer julgamento no STF não deverá produzir ganhadores e perdedores, exceto os incompetentes, caloteiros e sanguessugas do dinheiro do povo.

Além das fronteiras - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 14/10


Em meio à troca de farpas entre Geraldo Alckmin e o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) sobre a responsabilidade da crise na segurança, o governo federal oferecerá ao Bandeirantes mais vagas para detentos paulistas de alta periculosidade em presídios federais. A ideia é mover líderes de facções criminosas para unidades distantes de São Paulo, a exemplo do que ocorreu em Alagoas, que "exportou" 21 presos perigosos e reduziu em 15% a taxa de homicídios em 90 dias.

Flashback 
Tal operação envolve risco, segundo avaliação de integrantes do governo paulista. A remoção de chefes de células do PCC para estabelecimentos prisionais fora do Estado poderia levar a facção a represálias similares às adotadas na série de ataques de maio de 2006.

Galeria 
A estreia de José Serra no palanque eletrônico do segundo turno, amanhã, terá mensagem de agradecimento pelos votos obtidos e imagens dos eventos de apoio de PPS, PDT e PTB.

Terceirizado 
Há dúvida no QG tucano sobre o conteúdo do primeiro programa, mas a tendência é que o mensalão ganhe espaço de destaque. Se o tema não estiver na fala do candidato, pode ser lembrado por narrador na abertura ou no término.

Arsenal 
O marketing de Fernando Haddad tem peças já gravadas com pontos tidos pelo PT como vulneráveis da candidatura de Serra, como os casos Controlar e Aref, as privatizações e as relações com o ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza.

Stand by 
O uso ou não do material dependerá das pesquisas qualitativas e do tom adotado pelo tucano na TV.

Os azuis 
Recém-incorporado à campanha haddadista, Gabriel Chalita (PMDB) terá sua imagem explorada à exaustão na propaganda e nas agendas do candidato sobretudo pela inserção no eleitorado do centro da capital.

Sincretismo 
Acordo entre PT e PRB em Salvador inclui não apenas o apoio do candidato derrotado Bispo Marinho a Nelson Pelegrino. O governador Jaques Wagner trabalha pelo engajamento de toda a estrutura da Igreja Universal na ofensiva contra o democrata ACM Neto.

Técnico... 
Após consultar conselheiros e ministros, Dilma Rousseff baixou pacote de nomeações para dez tribunais regionais eleitorais e do trabalho. Manteve suspense, contudo, na indicação do substituto de Hamilton Carvalhido, aposentado no ano passado do STJ.

... ou político? 
Nos bastidores, o acreano Sammy Lopes, primeiro colocado na lista enviada ao Planalto, recebe o apoio dos irmãos Tião e Jorge Viana (PT-AC). A ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) tem simpatia pelo paranaense Sérgio Kukina, segundo na relação. O terceiro no páreo é Eduardo Sabo Paes.

Para depois 
Aconselhada a optar por técnicos nas escolhas, sobretudo pelo advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, a presidente adia a decisão há cinco meses. Ela recebeu os nomes indicados do Ministério Público para a vaga em 21 de maio.

Na rampa 
Em protesto contra as demissões na indústria automobilística, sindicalistas prometem instalar linha de produção improvisada para montar dois veículos em frente ao Palácio do Planalto na próxima semana.

Vizinhos 
O atual embaixador da Venezuela no Brasil, Maximilien Sánchez Arveláiz, é um dos favoritos para assumir a chancelaria do país no novo governo que Hugo Chávez compõe. Franco-venezuelano, o diplomata é um dos homens de confiança do presidente reeleito.

Tiroteio
Que moral tem Ciro? Ele disputou com Lula e só não enfrentou Dilma porque o PSB não deixou. Eles têm sede de poder desmedida.

DE LUIZIANNE LINS (PT), prefeita de Fortaleza, sobre pressão dos irmãos Ciro, Cid e Ivo Gomes para que Lula não suba no palanque do PT na capital cearense.

Contraponto


Fla-Flu

Dias após a mais acalorada discussão com Joaquim Barbosa, o ministro Marco Aurélio Mello aguardava no plenário do STF o início de mais uma sessão do mensalão. Aproveitou para cumprimentar uma roda de advogados. Começaram, então, a falar de futebol.

Flamenguista, Mello colocou o hino do seu clube no celular e não perdeu a chance de alfinetar Barbosa:

-Muito embora alguns não estejam acostumados com a divergência, eu estou. Minha mulher é Fluminense!

Os advogados, que não acompanham o relator do processo do mensalão, caíram na gargalhada.

A renovação - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 14/10


A vitória de Fernando Haddad, em São Paulo, é fundamental para que o ex-presidente Lula execute seu projeto de renovar o PT. O próximo passo será oferecer um nome novo para concorrer ao governo paulista em 2014. O ministro Alexandre Padilha (Saúde) aposta nessa estratégia. Mas ela se choca com as pretensões dos ministros Aloizio Mercadante (Educação) e Marta Suplicy (Cultura).

Os afrodescendentes no STF
O ministro Joaquim Barbosa é o primeiro negro a presidir o STF. Já o primeiro negro a integrar a Corte foi Pedro Lessa, ministro de 1907 a 1921, quando morreu. A historiadora Lêda Boechat conta que Lessa tinha temperamento forte. Seu rival na Corte, Epitácio Pessoa (1902 a 1912) chegou a dizer sobre ele que era “um pardavasco alto e corpanzudo, pernóstico e gabola, que fala grosso para disfarçar a ignorância com o mesmo desastrado ardil com que raspa a cabeça para dissimular a carapinha”. Eles sequer se cumprimentavam. Ela relata ainda que seus algozes tachavam sua atuação como “arrogante, soberba, azeda, passional e panfletária”.

“Sou contra (uma candidatura do PSB à presidência da Câmara). Defendo o respeito à proporcionalidade”
Roberto Amaral Vice-presidente do PSB

O que dá para rir dá para chorar
O PT não é o único satisfeito com a derrota do governador Beto Richa em Curitiba. O líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PSDB-PR), crítico do apoio ao prefeito Luciano Ducci (PSB), saiu fortalecido e dizendo que o PSDB foi castigado.

Voto nulo
O TSE falhou com os eleitores de Osasco ao não julgar, antes do pleito, o caso do tucano Celso
Giglio, barrado pela Lei da Ficha Limpa. Votaram num candidato inelegível 149 mil eleitores. Por isso, a presidente do TSE, Cármen Lúcia, está sendo criticada por não ter dado prioridade e julgado antes de 7 de outubro as pendências mais relevantes.

A porta da saída
Há três tendências no DEM. Uma parte do partido, por conveniência regional, quer se unir ao PMDB. Outra, onde os tucanos são fracos, quer assumir o PSDB. E há os que preferem ficar no DEM, mesmo tendo virado um partido médio.

Vem aí nova MP do Código Florestal
A presidente Dilma deu uma trégua durante o primeiro turno, mas vetará esta semana o artigo do Código Florestal que prevê o escalonamento das faixas de recuperação das matas nas margens dos rios. Uma nova MP deve ser enviada ao Congresso ainda este ano. Outra possibilidade é resolver a questão com um decreto do Executivo, contornando as dificuldades políticas na Câmara.

O órgão competente
No julgamento dos candidatos fichas-sujas, o TSE só aceita as condenações por rejeição de contas quando forem de órgão competente. A punição tem de ser aprovada na Câmara de Vereadores. Só do Tribunal de Contas, órgão auxiliar, não vale.

O poder dos Tribunais de Contas
O Ministério Público não se conforma com a posição do TSE no caso dos fichas-sujas. Por isso, recorreu ao STF, pois pretende que a rejeição de contas apenas pelos Tribunais de Contas gere a inelegibilidade. O STF ainda não decidiu.

OS PETISTAS estão decepcionados e perplexos com o voto do ministro Dias Toffoli pela condenação do ex-presidente do PT José Genoino.

Confusão dos diabos - ELIANE CANTANHÊDE


FOLHA DE SP - 14/10



BRASÍLIA - Um funcionário do Senado "roubou" o número de um CPF alheio, bisbilhotou os salários de oito colegas e foi pego pelo CPU do seu computador, gerando uma confusão dos diabos e a ameaça de processo de demissão.

Para que o servidor foi escarafunchar os salários de colegas? Para exercitar sentimentos da alma, como inveja, ciúme, competição?

Ou para repassar a agiotas, por exemplo? Vá se saber.

Abrir os salários dos diferentes cargos e funções, nos três Poderes e nas três esferas da administração, com a possibilidade de cortes específicos, como desvio de padrão, excessos ou acumulações malandras, tudo bem. Mas a exposição indiscriminada de salários, pessoa a pessoa, não apenas cria constrangimentos como atiça um emaranhado de interesses comerciais, não raro escusos.

A exposição sem critério de salários começa a gerar uma indústria paralela de dados para imobiliárias, agências de viagens, doleiros e serviços de mil e uma utilidades, deturpando uma intenção original correta: garantir o acesso da população a informações sobre desvios e excessos de salários que ela paga a servidores que -o termo já diz tudo- são públicos.

Em vez disso, todos, sem exceção, estão expostos à visitação pública e aos sentimentos e ações mais adversos. Imagine, na sua empresa e na sua família, o colega da mesa ao lado tendo acesso ao seu contracheque, o cunhado descobrindo que você ganha o dobro e o vizinho deleitando-se ao saber que seu salário é metade do dele.

O colega, de rabo de olho, ruminando no trabalho: "O que ele tem que eu não tenho? Ele ganha mais por que é alto e eu sou baixo, ou porque é magro e eu sou gordo?"

Transparência é fundamental, mas generalizações costumam ser perigosas e o direito à privacidade é um princípio universal. Pelo menos, deveria ser.

Mensalão, política e eleição - GAUDÊNCIO TORQUATO


O Estado de S.Paulo - 14/10


A dúvida continua na ordem do dia: o mensalão influenciou as campanhas do primeiro turno? E agora, com a condenação do núcleo político, do qual faz parte o ex-ministro José Dirceu, terá efeitos sobre os candidatos petistas que abrem trincheiras na batalha do segundo turno? Não tem sido fácil convencer integrantes das alas sobre as hipóteses que cercam a questão, seja a que enxerga danos, seja a que os nega. Cada partido defende a abordagem mais adequada aos seus interesses.

A ideia de que valores éticos e morais - que se pinçam do julgamento da Ação Penal 470 - balizarão, no calor eleitoral, o voto das massas parece levar em conta a teoria da agulha hipodérmica, bastante conhecida na área da comunicação, segundo a qual a injeção de medicamentos sob a pele implica melhora imediata da saúde da pessoa inoculada. Já o argumento que despreza consequências nefastas do julgamento no segundo turno, estribado na hipótese de que o eleitor associa o voto às suas necessidades imediatas, também deixa margem a questionamentos, podendo ser meia-verdade. Ora, para eleitores de segmentos médios, o mensalão corrobora posições previamente assumidas por eles. Tal fato, por si só, constitui grande conquista, na medida em que a semente ética se espalhará a partir dos canteiros localizados no meio da sociedade. Portanto, nem lá nem cá.

A conexão mensalão-voto sugere uma abordagem menos pontual e mais global. Ou, para usar o enfoque fenomênico que o sociólogo Joseph Klapper contrapôs à teoria da agulha hipodérmica, um conjunto de fatores contribui para influenciar o processo de persuasão das massas, como demandas comunitárias, cultura política dos segmentos, condições eleitorais, qualidades dos atores políticos e circunstâncias espaciais e temporais. Errado é imaginar que eleitores se influenciam por estímulos isolados. Não se trata de entes passivos, submissos exclusivamente ao império dos contendores. Massas passivas e obedientes ao toque de recolher dos pastores eleitorais, lembrando a imagem de Norberto Bobbio sobre as ovelhas que acorrem aos currais para comer (cidadãos passivos), dão vez a comunidades ativas, conscientes e desejosas de imprimir seu tom à orquestração eleitoral. Sob essa leitura, abre-se um vasto leque de alternativas, cada qual com arcabouço próprio.

Primeiro, é oportuno distinguir os níveis de percepção dos fenômenos políticos pelos estratos sociais. As classes médias, que detêm maior conhecimento sobre política, abrigam os formadores de opinião que agem na vanguarda da defesa dos bastiões morais. Eventos como o mensalão, que embutem uma pauta de valores cívicos, abrem a tuba de ressonância tocada pela orquestra do meio da sociedade.

O mensalão deflagra sobre esse ajuntamento dois fenômenos. Um, interno, se volta para a corroboração do ideário e confirmação das posições político-eleitorais assumidas por esses segmentos ao longo da trajetória. Ou seja, reforça a preferência no candidato escolhido. O outro, externo, se projeta na formação dos círculos concêntricos, cuja função é irradiar pensamentos que se espraiam até as margens da sociedade. Essas ondas se movimentam em processo contínuo e em fluxos mais fortes ou mais fracos, na esteira das características de cada campanha. Donde se puxa o cordão de mais uma hipótese: eventos de alta visibilidade e denso acervo litigioso exercem influência na política.

Atente-se, porém, para a observação de que isso não implica, necessariamente, impacto imediato na frente eleitoral. Uma coisa é semear a cultura ambiental com valores éticos e, dessa forma, elevar as aspirações da sociedade; outra é imaginar que da noite para o dia viceje a árvore moral. Os frutos valorativos do mensalão, pois, demorarão a brotar. O edifício da cidadania é uma obra que se constrói, tijolo por tijolo, ao longo de gerações. Vejamos, agora, mais uma abordagem. Contingentes que habitam os espaços das margens são muito sensíveis aos remédios (e soluções) que trazem melhoria às suas condições de vida. Bens e produtos materiais, de pronto uso, são mais bem-vindos que valores espirituais, por mais nobres que sejam. Não é o caso de desesperança. A planilha valorativa que se extrai do julgamento do mensalão baterá às portas da representação política, cutucando mentes e plasmando um conjunto de ações reformistas que acabarão moldando os vãos dos costumes e os desvãos da corrupção.

Quanto aos habitantes da base da pirâmide, vale lembrar que sua preferência pela micropolítica não significa desprezo a princípios doutrinários. Mais uma vez, não são entes inermes. Embalam-se também no cobertor cívico que sai da Corte Suprema e corre pela sociedade. Percebem que a lei é para todos, os grandes também vão para a cadeia. Quanto aos escândalos que batem em seus ouvidos, tendem a decodificá-los como práticas de todos os políticos. (Reforçando a percepção, o próximo capítulo deverá abrigar o chamado mensalão mineiro.) Igual por igual, sem distinção de perfis, o eleitor das margens acaba escolhendo o que lhe é mais próximo. O candidato que mais se encaixa na cachola.

Postas as coisas em seus devidos compartimentos, chega-se a uma resposta satisfatória para a indagação que abre este texto: o mensalão influencia a política ao compor a moldura de valores que inspiram a mudança de padrões políticos; reforça o ideário de setores médios, animando-os a entoar hinos cívicos; mas não induz as massas eleitorais a substituírem figurantes, situação que ocorre só esporadicamente ou dentro da massa de indecisos.

Ganhar o voto do eleitor, induzi-lo a mudar de posição, enfeitar os bolos eleitorais com confeitos coloridos, criar versões para as histórias e mistificar fazem parte da engenharia das campanhas. Muito cuidado, porém: quando a embalagem é exageradamente maior que o produto, o consumidor percebe.

A raiz do mensalão - MERVAL PEREIRA


O GLOBO - 14/10


Pode até ser que o mensalão não impeça o PT de vencer a eleição para a prefeitura de São Paulo, como indicam as primeiras pesquisas, mas me parece inegável que o partido sofrerá a médio prazo os efeitos de seu desprezo pelas regras éticas na política. O PT nasceu defendendo justamente um novo modo de fazer política e foi assim que chegou ao poder, mesmo que no período anterior à eleição de 2002 já estivesse envolvido em diversas situações nebulosas nas prefeituras que vinha governando.

Os assassinatos de Celso Daniel, prefeito de Santo André, e Toninho do PT, prefeito Campinas, são dois exemplos da gravidade dos problemas que envolviam o PT já antes de chegar ao poder central do país, com irregularidades em serviços como coleta de lixo e distribuição de propinas para financiamento de eleições. Quando o escândalo do mensalão eclodiu, em 2005, dois dos fundadores do PT, o cientista político César Benjamin e o economista Paulo de Tarso Venceslau, revelaram os bastidores da luta de poder dentro do partido nos anos 90 do século passado, ocasião que eles identificam como o "ovo da serpente" no qual teria sido gestado esse projeto de poder que acabou desaguando nas práticas de corrupção.

Coordenador da campanha de Lula a presidente em 1989, Benjamin garantiu que "o que está aparecendo agora é uma prática sistêmica que tem pelo menos 15 anos no âmbito do PT, da CUT e da esquerda em geral. Nesse ponto, a responsabilidade do presidente Lula e do ex-ministro José Dirceu é enorme". O episódio do mensalão seria o desdobramento de uma série de práticas que começaram na gestão do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) no fim dos anos 90, quando Delúbio Soares foi nomeado representante da CUT na gestão do fundo. Esse tipo de prática, segundo César Benjamin, deu "ao grupo do Lula" uma arma nova na luta interna da esquerda. O esquema de Marcos Valério foi apenas um upgrade na prática de desvio de verbas públicas para financiar campanhas eleitorais.

"Esse esquema pessoal do Lula começou a gerenciar quantidades crescentes de recursos, e isso foi um fator decisivo para que o grupo político do Lula pudesse obter a hegemonia dentro do PT e da CUT", disse Benjamin.

Paulo de Tarso Venceslau, companheiro de exílio do ex-ministro José Dirceu, foi expulso no começo de 1998 depois de denunciar um esquema de arrecadação de dinheiro junto a prefeituras do PT organizado pelo advogado Roberto Teixeira, compadre do presidente Lula, na casa de quem morou durante anos.

Um relatório de investigação interna do PT, assinado por Hélio Bicudo, José Eduardo Cardozo, hoje ministro da Justiça do governo Dilma, e Paul Singer, concluiu pela culpa de Teixeira, mas quem acabou expulso do partido foi Venceslau. Ele identifica esse episódio como o momento em que "Lula se consolida como caudilho, e o partido se ajoelha diante dele". Para ele, "um caudilho com esse poder, um partido de joelhos e um executor como o Zé Dirceu só podiam levar a isso que estamos vendo hoje", garantiu Venceslau.

Segundo ele, na entrevista daquela ocasião, "evidentemente que Lula não operava, assim como não está operando hoje, mas como ele sabia naquela época, ele sabe hoje, sempre soube".

A reação do PT ao julgamento do mensalão tem obedecido a uma oscilação que depende dos interesses políticos do partido. Da reação inicial de depressão e pedido de desculpas à afirmação de que o mensalão não passava de caixa dois eleitoral, o então presidente recuperou forças para se reeleger.

A partir daí, o mensalão passou a ser "uma farsa". Agora, que o esquema foi todo revelado à opinião pública, o PT diz que o julgamento é golpe dos setores reacionários contra um governo popular. O que importa é vencer a eleição em São Paulo, comandada por José Dirceu, como sempre comandou. O mensalão não terá a menor influência no eleitorado, diz o imediatista Lula, que pensa na próxima eleição sem pensar na próxima geração.

Os ensinamentos que o episódio poderia proporcionar ao partido, permitindo que recuperasse o rumo que, pelo menos em teoria, era o seu ao ser fundado, vai sendo engolido pelo pragmatismo que levou o PT aonde está hoje: no poder, mas em marcha batida para se transformar em mais uma legenda vulgarizada pela banalização da política.

Na cabeceira da pista - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 14/10


Candidato a presidente, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, ainda não é, mas está no páreo e deixa isso muito claro: avisa aos navegantes que não tem "temperamento para vice" enquanto pavimenta o terreno com base na arte de fazer amigos e influenciar pessoas.

Não cria conflitos, trabalha para dirimir os existentes e só coleciona os contenciosos absolutamente necessários. Um exemplo é a tênue, porém picante, tensão com o PT de cuja órbita procura distanciar o PSB.

No plano local, já entrou na eleição reconciliado com o senador Jarbas Vasconcelos, adversário durante 20 anos. Quando saiu dela vitorioso no primeiro turno em Recife, tratou logo de pedir desculpas aos que "eventualmente tenha ofendido" no calor da disputa.

Na cena nacional, desfila de braço dado com o ex-presidente Lula, reafirma os laços com a presidente Dilma Rousseff, confere substância ao PSD de Gilberto Kassab, já é visto como objeto de desejo no PMDB e cultiva as melhores relações com o PSDB.

Dividiu vitória com Aécio Neves em Belo Horizonte e recebe mensagens constantes de interlocutores de Fernando Henrique Cardoso a quem confere toda deferência.

O que isso tudo quer dizer?

Por ora significa que é tempo de semeadura.

Não se consegue obter de Eduardo Campos uma resposta precisa sobre prováveis alianças nem sobre nada que diga respeito ao seu futuro político.

Em parte porque ele mesmo não tem respostas precisas, em parte porque não lhe é conveniente revelar o conteúdo de certas tratativas.

O governador capta as mensagens e decodifica.

Para ele, no momento o PSDB joga - "com acerto, do ponto de vista da oposição" - na cizânia da base governista e atua para abrir espaço na tropa que em tese estaria unida para sustentar a reeleição de Dilma, em 2014.

Nesse caso, o PSB seria um ótimo parceiro por dois motivos: representaria a "renovação" com mais eficácia que o PSDB - desgastado depois de oito anos de Presidência e outros tantos de embate com o PT - e tem em Pernambuco um porto seguro no Nordeste.

Kassab, se José Serra perder em São Paulo, aposta que "vai trabalhar com Dilma". Em ministério, para ele ou correligionário próximo. Terminado o mandato na Prefeitura, vai precisar de uma referência de poder "para cuidar daquelas 50 crianças". Vale dizer, a bancada de deputados federais que filiou ao PSD.

Sobre sua permanência ao lado de Lula, Dilma e do PT, a posição de Eduardo Campos é mais complexa.

Não fecha nem deixa a porta completamente aberta. Simplesmente não põe (ainda) essa aliança em jogo. Fala dela como quem procura manter o distanciamento do analista.

Na visão do governador, primeiro de tudo há uma questão a ser resolvida - a agenda do governo - e o equívoco a ser corrigido - a maneira de tratar os aliados.

A pauta do Planalto, na opinião dele, não pode ser eleitoral. "A governo algum interessa a antecipação de disputas, pois dissemina a desagregação e resulta em perda antecipada de poder."

O melhor a fazer é se dedicar a uma "agenda de vida real": situação dos Estados e municípios, crescimento da economia, seca no Nordeste, royalties do petróleo, investimento em infraestrutura, fornecimento de energia e por aí vai uma gama enorme de problemas.

A arrogância no trato com os parceiros não tem sido boa conselheira para o PT que por ela levou uma surra memorável em Recife e deixou Aécio Neves levar adiante seu plano de reafirmar a liderança em Belo Horizonte. "Falta vocação e humildade para engolir sapos", aponta.

Se quiser chegar forte em 2014, Eduardo Campos acha que o governo precisa se apressar, sem perder de vista a data limite. Em outubro de 2013 vence o prazo de filiação partidária para os candidatos à eleição do ano seguinte quando, então, estará oficialmente aberta a temporada da sucessão.

Projeto de poder - CARLOS HEITOR CONY

FOLHA DE SÃO PAULO - 14/10


RIO DE JANEIRO - Depois do golpe de 1964, os generais eram candidatos compulsórios a ocupar a Presidência da República, que passou a ser o cargo máximo da carreira. Na hora da sucessão, a briga era decidida pelo maior número de tropas, tanques, canhões e demais apetrechos da caserna.

Um general tinha a 4ª Região a favor, mas a Escola Superior de Guerra tinha outro pretendente. A Vila Militar preferia outro nome. Da contabilidade bélica, surgia o escolhido.

A ditadura caiu -custou, mas caiu. Tanques e canhões foram recolhidos aos quartéis -e que lá fiquem. Em substituição, voltamos a buscar aquilo que santo Agostinho chamou de "excremento do demônio", aquele "metal" que costumam chamar de "vil": o dinheiro.

No atual julgamento do mensalão, gostei da intervenção do presidente do STF, ministro Ayres Britto, que não culpou o governo em si, mas referiu-se ao "projeto de poder" do PT. Projeto formulado, timidamente, a partir do primeiro governo de Lula e revitalizado pela atual cúpula partidária. O mensalão seria uma espécie de laboratório para a conquista do fim.

Contudo tenho de lembrar que o PT não é o primeiro a pretender um projeto de poder. Lá atrás, o finado ex-ministro Sergio Motta, no primeiro governo de FHC, falou também na necessidade desse laboratório, que garantiria 20 anos de poder ao PSDB. E fez por onde: obteve a emenda da reeleição - que garantiu novo mandato ao presidente de então. Por sinal, um presidente que a perspectiva histórica começa a fazer justiça, com méritos maiores do que inevitáveis defeitos.

A emenda que possibilitou a reeleição teve o preço em dólares. Alguns congressistas mais ligados com o esquema tucano chegaram a renunciar ao mandato para não passarem pelo vexame da cassação.

Etanol e carro flex: uma inovação que definha - JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS


O Estado de S.Paulo - 14/10


Em 2003 foi lançado o primeiro carro com motor flex, que permitiu a utilização de qualquer mistura etanol hidratado/gasolina entre 20% e 100%. O consumidor aceitou logo a ideia e até 2009 construiu-se no País um sistema inovador, que começava no setor automotivo. Entre 2003 e 2005, o motor flex foi bastante aprimorado.

O etanol hidratado tinha competitividade com a gasolina porque o custo de produção da cana-de-açúcar era, na ocasião, o menor do mundo. Além disso, o preço da gasolina subiu entre 2002 até meados de 2006, quando foi mantido praticamente constante desde então.

As vendas de carros flex (como mostra o gráfico abaixo) subiram de forma acentuada, atingindo rapidamente a faixa de 80% ou mais do total de carros produzidos no País. Estima-se que em 2009 a frota destes veículos era da ordem de 9,5 milhões de unidades. O consumo de etanol hidratado, em consequência, se elevou rapidamente de 5 bilhões para mais de 20 bilhões de litros.

Foi preciso muito trabalho de pesquisa no Brasil e de convencimento no exterior para que a Europa e os EUA aceitassem que o etanol de cana era um combustível avançado, isto é, um produto renovável e que, dada sua tecnologia e alta produtividade, contribuía positivamente para a redução do efeito estufa e da poluição.

Levou também algum tempo para que se aceitasse que a produção de cana não implicava elevação dos preços de alimentos, ao contrário do produto americano, feito de milho. Neste caso, a utilização de mais de 90 milhões de toneladas de milho para a produção de etanol certamente produziu, em 2008, uma forte pressão no custo de alimentação.

No corrente ano, a combinação de uma forte seca e o esmagamento de 125 milhões de toneladas de milho para a produção de biocombustível repetiu o impacto sobre os preços dos alimentos.

No caso da cana, a alta produtividade resulta num crescimento de área muito modesto, ante a dimensão do Brasil, de sorte que inexiste qualquer pressão sobre a produção de produtos da cesta básica. O gráfico 1, abaixo reproduzido, mostra como os preços de alimentos reduziram-se sistematicamente nos últimos anos.

Finalmente, também levou muito tempo para que os defensores do meio ambiente acabassem por perceber que a cana é uma gramínea que não convive bem com a região amazônica, não tendo, pois, nenhuma responsabilidade, inclusive indireta, na queima de florestas.

Outras inovações também aconteceram no período de 2003 a 2009: a expansão de projetos de cogeração de energia com a queima de bagaço e o início do desenvolvimento de combustíveis de segunda geração em escala pré-industrial. Da mesma forma, a alcoolquímica começa a ensaiar seus primeiros passos com a chegada de empresas como a Amyris. O sucesso do plástico verde da Braskem levou muitas empresas da área química a se dispor a investir em novos polos industriais ao lado das usinas.

Tudo indicava que se desenvolvia um grande projeto inovador e vencedor.

2009 - 2012. A perda

de competitividade

Com a crise financeira de 2008, a maior parte dos projetos de ampliação de capacidade foi cancelada.

Quatro anos de baixos investimentos e clima adverso reduziram a quantidade da cana. Também concorreu para isso a curva de aprendizado no plantio de novas áreas, onde ainda não existiam variedades mais bem adaptadas. Hoje, o País não é mais o produtor de menor custo, mas o quarto ou quinto da fila.

Com a escassez da cana houve o privilégio na produção de açúcar, que tem mais facilidade para gerar liquidez e rentabilidade, e de álcool anidro, que tem mercado garantido, dada a obrigatoriedade da mistura com a gasolina.

O virtual congelamento do preço da gasolina na bomba tirou a competitividade do hidratado. Dada a escassez de cana, que vai até 2017 na melhor das hipóteses, o que equilibra o mercado é a redução na produção do hidratado, cujos preços se elevam na entressafra, fazendo cair o consumo, como se vê no gráfico 2.

A ausência de investimentos na melhoria do motor a etanol manteve inalterada sua menor eficiência com relação ao motor a gasolina, algo em torno de 30%. Só agora, alguns novos projetos de pesquisa visando a melhora do desempenho dos motores flex estão começando (como os que se iniciam no Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol - CTBE). O novo regime automotivo, recém-divulgado, incorpora pela primeira vez exigências quanto à redução no consumo de combustíveis.

Segundo técnicos do setor, as melhorias de eficiência no motor flex poderiam ter sido de 15 a 20% em uma primeira fase, caso esses projetos tivessem sido iniciados a partir de 2007, de acordo com nota técnica elaborada por Alfred Swarc e Francisco Nigro. A história do etanol teria sido outra se isso tivesse ocorrido.

Finalmente, a politica de preços de combustíveis, aliada ao esgotamento da capacidade de refino, elevou as importações de diesel, gasolina e etanol, desequilibrando o fluxo de caixa da Petrobrás.

Como as novas refinarias só ficarão prontas daqui a três anos, o aumento do consumo terá de ser atendido por mais importações.

Um enorme problema logístico está sendo criado, pois o País não está preparado para distribuir grandes volumes de combustíveis vindos do exterior.

A Petrobrás precisa de uma relevante elevação no preço da gasolina para racionar um pouco a demanda e estimular a produção do etanol, reduzindo suas perdas financeiras.

A lição que fica é que o mundo não para e a competição sempre avança. A manutenção da competitividade depende mais do que tudo de uma dinâmica de avanços contínuos, técnicos e regulatórios, que permitam a manutenção da liderança.

Apenas um esforço mais organizado poderá permitir que uma experiência bem-sucedida não siga definhando e se perca por falta de competitividade.

A Justiça cobra Maluf - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 14/10


Em tempos pouco propícios a corruptos e corruptores, Paulo Maluf tem até o fim deste mês, agora por força de decisão judicial irrecorrível, para devolver aos cofres do Município mais de R$ 21 milhões desviados no chamado "escândalo dos precatórios", denunciado em 1996.

Por ironia do destino, Maluf está condenado, desde 1998, na ação movida pelo Ministério Público Estadual (MPE), com base em representação feita por iniciativa de líderes do PT, partido ao qual hoje está aliado. Essa aliança se materializou, em São Paulo, com o aperto de mãos entre Lula e Maluf, selando o apoio à candidatura a prefeito de Fernando Haddad.

Aquele que se tornou conhecido, em meados dos anos 90, como "escândalo dos precatórios" foi o resultado de golpes contra o erário concebidos originalmente por um funcionário da Secretaria da Fazenda de Pernambuco, com base numa emenda constitucional de 1993 que permitiu a Estados e municípios emitir e vender títulos públicos, desde que os recursos obtidos fossem destinados, exclusivamente, a pagar dívidas devidamente reconhecidas pela Justiça e anteriores à vigência da Constituição de 1988.

Foi o suficiente para que, no âmbito do Município de São Paulo, o malufismo urdisse a fraude: o valor dos títulos era superestimado e o valor excedente desviado com o concurso de operadores financeiros inescrupulosos. O golpe disseminou-se por várias administrações municipais e estaduais, a ponto de, em dezembro de 1996, ter sido instalada no Senado a CPI dos Precatórios - que começou a funcionar com muito foguetório e chegou a poucos resultados práticos.

Em São Paulo, o "escândalo" envolveu o desvio de recursos provenientes da emissão de títulos emitidos pelo Tesouro Municipal para pagamento de precatórios. A operação fraudulenta, segundo a denúncia do MPE, foi coordenada pelo então secretário de Finanças do prefeito Maluf, Celso Pitta, entre janeiro de 1994 e novembro de 1995. No ano seguinte, Pitta elegeu-se sucessor de seu padrinho.

Na operação financeira que viria a ser denunciada por improbidade administrativa, a Prefeitura emitiu, em 1994, Letras Financeiras do Tesouro Municipal (LFTM) que, de acordo com a denúncia, foram vendidas a corretoras e depois recompradas a preços maiores. A fraude foi denunciada em representação encaminhada ao MPE por um grupo de líderes petistas, entre os quais estavam o atual ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, os deputados Carlos Zarattini, Adriano Diogo, José Mentor e Devanir Ribeiro (os dois últimos integrantes da Executiva Nacional do partido) e ainda o vereador José Américo.

A denúncia do MPE foi apresentada em 1996 e, dois anos depois, em dezembro de 1998, Maluf e Pitta (que morreu em 2009) foram condenados em primeira instância por improbidade administrativa. Os condenados entraram com vários recursos na Justiça, sendo invariavelmente derrotados, tanto no Tribunal de Justiça paulista quanto no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e, em última instância, no Supremo Tribunal Federal (STF), em março de 2009, em ação relatada pelo ministro Ayres Britto. A partir de então, o Ministério Público paulista passou a reclamar na Justiça a restituição ao Tesouro Municipal dos valores desviados, à época calculados em cerca de R$ 40 milhões. No mês passado, a juíza Liliane Keyko Hioki, da 3.ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, estabeleceu um prazo até o fim deste mês para que Maluf proceda à restituição do que deve à população paulistana.

Com o mesmo desapreço pelas evidências com que sempre contestou as ações judiciais das quais tem sido réu regularmente há 40 anos, e da mesma forma que sempre jurou de pés juntos não ser titular de contas bancárias no exterior, Paulo Maluf instruiu sua assessoria a divulgar nota na qual afirma que "nunca assinou nenhum documento nos quais esse processo está baseado".

É a hoje desmoralizada tese de que a acusação de irregularidade praticada por detentor de cargo público precisa ser sustentada documentalmente por "ato de ofício" que a comprove. Por esse caminho, um dos mais famosos neoaliados de Maluf, José Dirceu, já deu com os burros n'água.

O desconforto da nação petista - ELIO GASPARI


FOLHA DE S. PAULO - 14/10



Se STF foi tribunal de exceção, com que roupa os comissários tratarão os mensaleiros de outros partidos?



Os argumentos do desconforto de comissários, intelectuais e políticos da nação petista diante das sentenças do Supremo Tribunal Federal colocam-nos na situação do sujeito que usa livre-arbítrio para acreditar que a rua Barata Ribeiro é uma transversal da avenida Atlântica. Pode acreditar nisso, mas nunca mais será capaz de achar um endereço em Copacabana.

Oito dos 11 ministros da corte foram nomeados por Lula e Dilma Rousseff. Ao sustentar que esses juízes formaram um tribunal de exceção, os companheiros deslustram o mérito das indicações dos governantes petistas.

Salvo os doutores Toffoli e Lewandowski, a corte teria cedido a uma pressão dos meios de comunicação. Se essa influência fosse infalível, como explicar que a mesma corte, por unanimidade, reconheceu a constitucionalidade das cotas para as vagas nas universidades públicas? Contra elas estava a unanimidade dos grandes meios de comunicação, ressalvada a autonomia assegurada a alguns articulistas.

Dois condenados (José Dirceu e José Genoino), ergueram em suas defesas passados de militância durante a ditadura. Tanto um como outro defenderam projetos políticos que transformariam o Brasil num Cubão (Dirceu) ou numa Albaniona (Genoino).

Felizmente, a luta de políticos como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Paulo Brossard trouxe esses militantes perseguidos para a convivência democrática, e não o contrário. Se tivessem prevalecido as plataformas do PC do B ou do Molipo, Ulysses, Tancredo e Brossard teriam vida difícil.

A teoria da conspiração contra guerrilheiros heroicos estimula construções antidemocráticas de denúncia da justiça e da imprensa a serviço de uma elite. Nos anos 60, muita gente achou que a luta contra a "democracia burguesa" passava pela radicalização e até pelos trabucos. Deu no que deu.

Ficaria tudo mais fácil se os companheiros entendessem que fizeram o que não deviam e foram condenados. Endossaram a teoria da impunidade do caixa dois eleitoral porque acharam que ela os protegeria. O melhor a fazer seria reerguer a bandeira abandonada da moralidade. Assim poderão batalhar pela condenação de mensaleiros de outros partidos e apresentar-se aos eleitores com um projeto livre de capilés.

OPOSIÇÃO NO GOVERNO

Lula conseguiu algo próximo do elixir da longa vida e do moto contínuo: produziu uma liderança oposicionista que integra a base de apoio do governo.

É o caso do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, com seu PSB.

HONORATA E JOAQUIM

No dia 11 de maio de 1883, o Tribunal da Relação de Pernambuco liberou o estuprador confesso de Honorata, uma jovem escrava que acabara de comprar. Um dos desembargadores sustentou que, reconhecido o direito da negra, surgiria um "perigo para a sociedade" com uma enxurrada de ações contra senhores para punir "estupros em seus escravos menores de 17 anos".

No dia 10 de outubro de 2012, um descendente de escravos, Joaquim Barbosa, foi eleito presidente do Supremo Tribunal Federal.

No mesmo dia, o Ministério Público de Goiás afastou o procurador Demóstenes Torres, que teve o mandato de senador cassado há três meses. Entre as proezas de Demóstenes esteve a afirmação de que, segundo Gilberto Freyre, a miscigenação dos senhores com as negras "se deu de forma muito mais consensual".

Gilberto Freyre nunca disse isso. Talvez tenha sido Carlinhos Cachoeira.

BOM COMPANHEIRO

Um veterano conhecedor de inquéritos policiais e processos judiciais suspeita que o Ministério Público teve a colaboração de algum comissário que se manteve ao largo da querela do mensalão.

É apenas uma suspeita, mas a qualidade da exposição da trama sugere que os procuradores receberam pelo menos algumas indicações do caminho das pedras.

A FGV sabe perguntar, mas não soube responder

Há parafusos soltos na máquina da Fundação Getulio Vargas. Em novembro de 2009, ela assinou com o Ministério das Comunicações um contrato para prestar serviços à Conferência Nacional de Imprensa, a Confecom, aquela que debateu a "criação de instrumentos de controle público e social" da imprensa. Coisa de R$ 2,7 milhões. Os 1.600 delegados do conclave se reuniram em Brasília em dezembro, foram saudados por Lula, aprovaram 633 sugestões e consumiram R$ 8 milhões da Viúva.

Mal a reunião terminou, o vice-presidente da Associação Brasileira de Radiodifusores, Walter Ceneviva, disse que o desempenho da FGV comprometera a conferência com "uma quantidade de erros descomunal".

Passaram-se quase três anos e veio a encrenca. A repórter Andreza Matais informou que a Controladoria-Geral da União quer saber o que a entidade fez com uma parte do dinheiro que recebeu. A saber:

- Cobrou R$ 438 mil para monitorar as conferências estaduais, mas 15 delas já haviam terminado quando o contrato foi assinado, duas estavam em curso e nove aconteceram no dia seguinte.

- Recebeu R$ 390 mil para entregar um caderno com as propostas que seriam discutidas na reunião e, segundo a CGU, ele só foi entregue quatro meses depois.

- Outros R$ 486 mil foram pagos para transmissões dos encontros em tempo real, o que não aconteceu.

Numa conferência inventada por Nosso Guia para discutir o comportamento da imprensa, nada melhor do que perguntar à FGV o que houve. Foi o que Matais fez. Recebeu a seguinte resposta, assinada pela assessoria de imprensa institucional da entidade, a Insight:

"A Fundação Getulio Vargas comunica que já prestou todos os esclarecimentos necessários ao Ministério das Comunicações em relação aos serviços prestados à Conferência Nacional de Comunicação, não cabendo, portanto, pronunciar-se sobre o assunto".

Para uma notável instituição acadêmica que vive de fazer perguntas, fica mal o estilo não-é-da-sua-conta. Duas tentativas posteriores resultaram em parolagens insuficientes. Numa terceira, a FGV informou que monitorou todas as conferências estaduais, mesmo antes da assinatura do contrato, e sistematizou as propostas no devido tempo. A transmissão nacional não teria ocorrido porque a Confecom mudou de ideia. Portanto, a bola volta para a CGU. Tomara que ela continue no jogo, de forma pública.

A FGV meteu-se com a Confecom porque quis. Sua maior contribuição à busca da "criação de instrumentos de controle público e social" da imprensa, foi a prática do mais primitivo dos mecanismos: a blindagem.

Há empresas que se blindam e há depoentes de CPIs que ficam em silêncio. É o jogo jogado, pois têm motivos para agir assim. A FGV vive do prestígio que acumulou em 68 anos de trabalho. Malbaratá-lo é maluquice sim.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 14/10


Distribuidora de gás expande seus negócios para Bahia e Maranhão
A distribuidora de gás Copagaz expandirá seus negócios no Nordeste com a entrada nos mercados da Bahia e do Maranhão. A empresa já atua em outros nove Estados.

O investimento para iniciar a operação baiana é de R$ 42 milhões e inclui um centro de distribuição, caminhões para entrega, 430 mil botijões e três centros administrativos -em Salvador, São Francisco do Conde e Jequié.

O grupo espera, em um ano, deter 5% do mercado da Bahia, que é o quarto maior consumidor de GLP (gás liquefeito de petróleo) do país, atrás de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

"Nossa perspectiva é vender 1.500 toneladas por mês [na Bahia]", diz Ueze Zahran, presidente da empresa. Hoje a Copagaz comercializa 50 mil toneladas mensalmente em todo o país e ocupa o quinto lugar entre as maiores companhias do segmento.

O aporte destinado à implantação da rede no Maranhão não foi divulgado, mas o valor deve ficar próximo ao investido na Bahia.

Com uma filial em São Luis, a empresa espera começar a distribuir na região no início de 2014.

Para atender os novos mercados, a produção de botijões na fábrica do grupo em Monte Mor (SP) foi intensificada.

A companhia deve fechar este ano com um faturamento de R$ 1,3 bilhão.

Concorrente da Copagaz, a Supergasbras se expande focando no segmento de GLP para empresas.

"Como o crescimento da malha de gás natural do país é lento e o produto, caro, o GLP torna-se mais competitivo", diz o diretor Rubem Mesquita.

A expectativa de Mesquita é que o GLP seja mais barato até 2016, quando a oferta de gás natural deve aumentar.

Meia a domicílio
Pares de meias entregues em casa trimestralmente são os produtos oferecidos pela recém-criada empresa gaúcha Os Meias Pretas.

Assinar o pacote anual garante quatro remessas com três pares cada uma.

A ideia surgiu durante o MBA que os quatro sócios fizeram juntos. No projeto de conclusão do curso, eles estudaram o trabalho de uma empresa suíça que vende assinatura de peças de roupa.

"É um serviço cujo princípio é garantir conveniência e comodidade para o executivo", diz Rodrigo Bandarra, um dos sócios.

O site da empresa está no ar há 30 dias e já atraiu clientes do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Santa Catarina e, a maioria, do Rio Grande do Sul.

A meta é vender entre 5.000 e 6.000 assinaturas por ano, segundo Rafael Mesquita, também sócio.

TV Brasileira
A Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, e a empresa de audiovisual Synapse fecharam acordo para distribuição exclusiva de 2.500 programas, selecionados do acervo da entidade, a canais de televisão por assinatura.

A empresa aproveitou o contexto da Lei 12.485, que obriga canais estrangeiros a veicularem conteúdo nacional em parte de sua programação.

"Fizemos um contrato que incluiu um estudo de adequação dos canais que vão ser obrigados a cumprir essa cota, além de um projeto de contextualização dos programas", explica Julio Worcman, sócio-fundador da Synapse.

O primeiro negócio realizado foi o licenciamento da série "Qual é, bicho?" para um ciclo de exibições no canal Animal Planet, do grupo Discovery.

O QUE ESTOU LENDO
André Zimmermann diretor da agência Z+

Interessado em obras de história, André Zimmermann, diretor-geral da agência de publicidade Z+ Comunicação, lê "A Guerra Particular de Lenin", de Lesley Chamberlain.

O livro conta a história de intelectuais russos que foram exilados por Lenin para cidades como Berlim, Paris e Praga logo após a revolução bolchevique.

"Sempre me interessei por livros de história, especialmente aqueles que contam o cotidiano de pessoas em outras épocas", diz.

Comunidade... 
A Alcoa entregará, no dia 18, o Hospital 9 de Abril à comunidade de Juruti, no Pará.

...no hospital 
A empresa investiu cerca de R$ 30 milhões na construção e em equipamentos do hospital, que gerará 200 empregos diretos para a comunidade.

Manequim... 
A rede C&A se prepara para inaugurar 16 lojas até o final do ano, segundo a empresa.

...empregado 
O número de vagas em todas as unidades supera 900 nos Estados de São Paulo, Santa Catarina, Espírito Santo, Goiás, Pernambuco, Rio de Janeiro e Paraná. A C&A possui atualmente 18 mil empregados.

A grande lição - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 14/10


Dois erros opostos estão sendo cometidos na reação ao julgamento do mensalão. Aproveitar-se politicamente do momento doloroso para um grupo político, dizendo que ele é a condenação de um único partido; acusar o Supremo Tribunal Federal de ser um tribunal de exceção. Setores da oposição cometem o primeiro; o PT é responsável pelo segundo, e pior, dos erros.

O segundo é mais perigoso porque enfraquece a confiança na democracia. Alguns dos que fazem a acusação ao STF já enfrentaram tribunais de exceção e sabem exatamente a diferença de ser julgado pela Justiça Militar, sem direito de defesa e com leis criadas pela ditadura. Agora, todos têm amplo direito de defesa, as leis que recaem sobre eles são legítimas, o devido processo legal tem sido seguido, todo o debate é aberto e transparente, a sentença é colegiada.

O primeiro é um equívoco de quem não entende, ou não quer entender, o sentido da travessia que o País está fazendo. A lei da ficha limpa e o julgamento do mensalão são etapas do processo de aperfeiçoamento da democracia representativa. O País quer representantes nos quais confiar, quer critérios de exercício de poder que separem o público do privado, quer transparência e prestação de contas no uso do dinheiro coletivo.

Há vários sinais de que a nova etapa da busca de maior qualidade da democracia é uma exigência do País como um todo. Os condenados têm feito acusações de que há uma suposta conspiração da “mídia conservadora” e que o Supremo se comporta como uma corte das ditaduras. O mais correto é que vissem o que cometeram de errado, para aprender com os erros. A acusação é lesiva, perigosa, injusta e falsa.

Provavelmente a imprensa cometeu erros na cobertura e tem que humildemente ver onde estão os equívocos e eventuais excessos para corrigi-los. Mas a acusação de conspiração é um delírio. A imprensa está acostumada com as críticas, algumas fundamentadas, outras resultado da natural tendência de culpar-se o mensageiro. Imprensa não é um conceito monolítico, há vários meios, opiniões diferentes e escolhas editoriais divergentes.

O mais perigoso para a democracia é que os réus e seus apoiadores acusem o órgão máximo do Poder Judiciário. As acusações são mentirosas e minam a confiança num pilar da democracia. A cúpula do PT quando faz isso reproduz a mesma atitude torta do início de sua vida como partido, quando costumava não reconhecer as derrotas e levantar aleivosias de fraude.

Até a imprensa internacional já entendeu a impossibilidade de ser tudo um golpe contra o governo. Primeiro, porque ele já concluiu seu mandato. Segundo, porque o Supremo tem a maioria de integrantes nomeados nos mandatos de Lula e Dilma e os procuradores-gerais foram escolhidos pelo ex-presidente e a atual mandatária. A tese não tem a mínima plausibilidade e é um atentado à confiança no Estado de Direito.

É um momento doloroso para o Partido dos Trabalhadores. Dois dos seus ex-presidentes e dirigentes estão sob a ameaça concreta de irem para a prisão. Alguns já estiveram presos por motivos que engrandecem suas biografias. Mas, como bem explicou a ministra Cármen Lúcia, não se está julgando biografias. E alguns dos réus têm muito do que se orgulhar em suas trajetórias de vida. Os acertos antigos não lhes deram imunidade. Os erros atuais não tiram o mérito dos velhos atos de bravura.

O que está sendo condenado é o uso do aparato de Estado como propriedade partidária para um projeto de perpetuação no poder. Isso é inaceitável em qualquer partido. Essa é a grande lição.

“O mais perigoso para a democracia é que os réus e seus apoiadores acusem o órgão máximo do Poder Judiciário.”

O preço da independência - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 14/10


O movimento separatista da Catalunha conta com enorme simpatia internacional e, aparentemente, recebe apoio maciço dos catalães. O último levantamento promovido pelas autoridades da região dá conta de que 76% da população é favorável à convocação de um plebiscito destinado a examinar a criação de um novo Estado soberano.

A Catalunha, administrada pelo presidente do governo regional Artur Mas (foto), é a mais rica província da Espanha. E a percepção de seus cidadãos é de que carrega a economia espanhola nas costas. Daí o enorme apelo da proposta separatista, pleito que vem lá de trás, desde meados do século 19. Os catalães creem que, livres do jugo espanhol, só teriam a ganhar e a progredir como nação autônoma.

Essa impressão é altamente questionável. Se obtiver a independência, a Catalunha não desfrutará automaticamente dos benefícios a que tem direito o povo espanhol. Não fará, por exemplo, parte da área do euro. O país signatário e amarrado aos tratados não é a Catalunha, mas a Espanha. E a Catalunha não integrará a União Europeia. Para entrar nesses dois blocos, teria de passar por longo processo de reconhecimento e de adesão e, acima de tudo, contar com a improvável anuência da Espanha.

A Catalunha precisaria criar seu banco central e sua moeda - potencialmente desvalorizada ante o euro. A atual dívida catalã, em euros, ficaria bem mais alta quando convertida na nova moeda. O mesmo ocorreria com os depósitos e as aplicações financeiras nos bancos.

Fora da União Europeia, a Catalunha já não desfrutaria dos benefícios de uma área de livre comércio. Logo, para exportar até para a Espanha, o produto catalão estaria sujeito a tarifas alfandegárias. A produção do resto da Europa ficaria mais barata do que a catalã para o consumidor espanhol. E o comércio da Catalunha com o mundo não seria o mesmo.

Também não é verdade que bastaria ser independente para que as finanças catalãs se fortalecessem só por não ter mais de transferir o resultado da arrecadação de impostos para o Tesouro de Madri. O país soberano precisaria ter forças armadas, ao menos umas cem embaixadas pelo mundo e serviços de coletoria de impostos e de fiscalização aduaneira - máquinas que custam uma enormidade em investimentos e manutenção.

O catalão perderia o guarda-chuva do governo central para o seguro-desemprego, para os serviços públicos de saúde, de educação e para outras vantagens proporcionadas pelo Estado do bem-estar social garantido pela Espanha.

De um mês para o outro, os velhinhos não receberiam aposentadoria da Espanha e o novo Estado teria de criar às pressas novo instituto de aposentadoria e pensão. Não caberia alegar que os associados pagaram suas contribuições e, portanto, teriam direito aos benefícios. O regime previdenciário espanhol é de repartição (não de capitalização). Aposentadorias e pensões são pagas com o que for arrecadado.

Nessa hora de forte manipulação política quase ninguém na Catalunha pensa bem nesses impactos e menos gente ainda faz corretamente as contas do que representaria levar o processo às suas últimas consequências.

A lógica interna do movimento não é chegar aonde seus líderes dizem pretender, mas apenas arrancar do governo central mais concessões e mais volumosas transferências de recursos.