quarta-feira, agosto 01, 2012

O Supremo e a Olimpíada - ELIO GASPARI


FOLHA DE SP - 01/08


Torcer faz bem à alma, mas o julgamento do mensalão será um estímulo para que se pense mais e melhor


QUIS A sorte que o julgamento do mensalão coincidisse com um pedaço dos Jogos de Londres. Quem viu o drama da eliminação de Rafaela Silva no judô deve reconhecer que o Supremo Tribunal Federal está investido da mesma prerrogativa exercida pelos árbitros que desclassificaram a atleta brasileira. Torcer é uma escolha pessoal, aceitar as regras é obrigação coletiva. Quando Rafaela perdeu a luta, a decisão parecia incompreensível, sobretudo para quem torcia por ela e para quem não conhece as regras da luta. Explicada a decisão, ela foi aceita pela própria atleta: "Eu senti que ela estava descendo e pus a mão na perna dela. Infelizmente, cometi um erro. Foi minha primeira Olimpíada e agora isso serve de exemplo".

Tanto para quem quer assar os réus do mensalão como para Lula, que já julgou o caso classificando-o como "farsa", o exemplo de Londres deveria orientar as reações aos votos dos ministros do Supremo. (Nosso Guia não esclareceu se os ministros serão atores ou juízes.)

Numa outra dimensão, o julgamento do Supremo e os votos de seus ministros merecem ser discutidos pelas suas argumentações e pela sua essência. Há poucos meses, duas cortes julgaram casos que dividiam as sociedades brasileira e americana. Aqui, por unanimidade, julgou-se constitucional a política de cotas nas universidades públicas. Lá, a constitucionalidade da reforma da saúde pública defendida pelo companheiro Obama e aprovada pelo Congresso prevaleceu por 5 x 4.

Infelizmente, em Pindorama quem era a favor das cotas continuou a favor, e quem era contra, contra continuou. Todos com os mesmos argumentos. Não se ouviu uma só voz analisando o voto do relator, ministro Ricardo Lewandowski. Descontados alguns floreios, foi uma peça estudada, bem argumentada. Fora da corte Lewandowski não teve audiência. Com a Corte Suprema americana deu-se o contrário, houve um sincero interesse na compreensão do voto do juiz John Roberts, que desempatou a votação. Ele evitou a divisão provocada pela discussão da liberdade de comércio e deu razão a Obama, entendendo que o Congresso tem direito de criar impostos. Houve quem concordasse e quem discordasse, mas seus argumentos foram levados em conta. O debate das cotas brasileiras continuou pobre pelo desinteresse da discussão do voto de Lewandowski. A controvérsia americana enriqueceu-se com o voto de Roberts.

Se os advogados e os ministros resolverem falar português compreensível, prestarão um inestimável serviço ao Judiciário, permitindo que a população entenda o que dizem. Lembrar que o parágrafo 8º do artigo 30 diz isso ou aquilo não quer dizer nada. É um pernosticismo que às vezes esconde um argumento central embaraçoso.

À plateia restará a oportunidade de acompanhar um julgamento procurando entender os argumentos apresentados. Quem já está com a cabeça feita não precisa perder seu tempo. Ficará alegre ou triste, como se saísse de uma competição esportiva, perdendo a oportunidade de enriquecer seu sentido de justiça. Além disso, contribuirá para uma blindagem estapafúrdia do Supremo. Como não se entende direito o que ele diz e como cada um já tomou sua decisão, todo mundo perde, inclusive a corte.

Queda d'água - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 01/08


Com a saída de Márcio Thomaz Bastos da defesa de Carlinhos Cachoeira, voltou a ganhar corpo a possibilidade de o empresário acusado de contravenção negociar delação premiada para deixar a prisão, já que as tentativas de libertá-lo fracassaram. O acordo com o Ministério Público é defendido por antigos advogados de Cachoeira, como Jeová Borges Júnior. A hipótese causa apreensão entre políticos de todos os partidos e promete tumultuar o reinício das atividades da CPI.

Santo de casa Dias antes de deixar a defesa de Cachoeira, causa que abraçou em meio às tratativas da delação, Thomaz Bastos argumentava que, diante das sucessivas derrotas na Justiça, ainda apareceria alguém propondo um "milagre" para tirar seu cliente da prisão.

Marco divisório Quando advogou para Cachoeira o ex-ministro teve 11 habeas corpus negados. E passou a acumular reveses em especial depois de divulgadas as denúncias de ameaças atribuídas ao grupo do empresário a juízes e procuradores.

Animação Ministros do STF decidirão hoje se acatam pedido dos advogados de Duda Mendonça e Zilmar Fernandes para exibições em PowerPoint. O quadro preparado pelos advogados diferencia o caso da sócia de Duda dos demais réus que sacaram dinheiro no Banco Rural.

Preleção À espera do julgamento, José Dirceu procurou preparar sua família para a possibilidade de condenação. Disse que qualquer resultado é esperado e pediu serenidade à mãe e aos filhos.

Multimídia O PSDB-SP coleta depoimentos em vídeo e áudio de deputados sobre o mensalão para exibição em seu site a partir de amanhã.

Tríplice coroa Com a anunciada aposentadoria do decano Celso de Mello logo após o mensalão, serão três as vagas a serem preenchidas por Dilma Rousseff no STF este ano. Uma delas é tida como certa para o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams.

Troca da guarda Para o lugar de Adams na AGU deve ir o atual subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, Beto Vasconcelos, 34 anos, que trabalhou com Dilma na pasta no governo Lula.

Apertem... Geraldo Alckmin será obrigado a promover corte de R$ 1,7 bilhão em gastos para fechar o ano no azul. Com a crise econômica, o Estado projeta perder receita de R$ 800 milhões até dezembro. O governo paulista detectou ainda deficit de R$ 900 milhões na saúde.

... os cintos O rombo é provocado por três motivos: despesas de custeio superiores ao teto do SUS, aumento na oferta de serviços e reajustes salariais de médicos e servidores. Com a arrecadação em baixa, o governador já discute com os secretários remanejamento de verbas.

Blindagem A única pasta poupada será a Segurança Pública. Pressionado pelas estatísticas de criminalidade, Alckmin assegura que recursos previstos no Orçamento estarão disponíveis integralmente para investimentos em aparelhamento da polícia.

Gogó Convidado para falar de seu Renda Básica de Cidadania em Curaçao, semana passada, Eduardo Suplicy (PT-SP) fez longo discurso e passou horas tirando dúvidas do público. Resultado: voltou ao Brasíl sem voz. Quando se recuperar, promete insistir para que candidatos em SP abracem sua tese.

Em cadeia Os ministros Alexandre Padilha (Saúde) e Tereza Campello (Desenvolvimento Social) inauguram hoje a versão em vídeo de "A Voz do Brasil". O polêmico programa oficial de rádio passa a ser veiculado com imagens no site da EBC.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio

"Já que o ministro do Trabalho, do governo do Partido dos Trabalhadores, não trabalha, o colega dos Transportes fala com os grevistas."

DO SENADOR ALOYSIO NUNES (PSDB-SP), sobre Paulo Passos (Transportes) assumir as negociações para por fim ao bloqueio dos caminhoneiros na Dutra.

contraponto

Overbooking

O presidente da Embraer, Frederico Curado, conversava ontem com jornalistas no Planalto após assinar acordo para a venda de seis jatos da empresa ao governo da Venezuela, com a presença de Hugo Chávez. Ante o iminente atraso no embarque de autoridades, o vice-presidente da companhia, Jackson Schneider, avisou:

-Presidente, o senhor vai perder o voo!

Repórteres brincaram com a inusitada hipótese de o executivo de empresa aérea perder o avião. Curado disse:

-Vejam só: costumo dizer que a aviação é a maneira mais rápida de você chegar atrasado!

O 'pas de deux' da economia - ROLF KUNTZ


O Estado de S.Paulo - 01/08



O setor automobilístico está cumprindo sua parte no acordo com o governo, disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, depois de uma reunião com o executivo Luiz Moan, diretor da General Motors e presidente interino da Anfavea, a associação nacional das montadoras de veículos. Se o governo está satisfeito, fica difícil entender a exibição de mau humor da presidente Dilma Rousseff, em Londres, quando circularam notícias de possíveis demissões de 1.500 empregados da GM em São José dos Campos. O ministro e o executivo apareceram juntos para a entrevista, mostraram-se igualmente otimistas e reafirmaram a disposição de cooperar, repetindo um velho e bem conhecido pas de deux: o governo concede incentivos e proteção ao setor, em troca de promessas de investimentos e de preservação de empregos; em contrapartida, os empresários agem como querem, garantem seus lucros e os custos são repassados para o resto da economia. Pactos desse tipo, com ou sem compromissos de manutenção de preços, ocorreram várias vezes nas últimas décadas, quase sempre acompanhados de uma alegre aliança entre empresas e sindicatos. Os sindicalistas de São José dos Campos têm criado mais problemas que os de outras regiões, mas nem por isso se deve esquecer o velho costume: nos setores industriais mais poderosos, empregados e empregadores acabam jogando no mesmo time, com as bênçãos de um governo sempre generoso com os grandes grupos.

O desempenho da indústria melhorou nos últimos dois meses, disse o ministro, e o mês de julho deve ter sido "o melhor da história". O programa de estímulo, acrescentou, está sendo muito bem-sucedido. Mantega mencionou também, com aparente otimismo, o novo regime automotivo, com entrada em vigor prevista para janeiro de 2013.

Políticas baseadas em favores fiscais para setores selecionados e muito protecionismo continuam sendo a regra. O governo classifica esse jogo como política industrial. De vez em quando as autoridades, como se cumprissem um ritual, mencionam a busca da competitividade como um de seus objetivos. Mas a prática mostra algo muito diferente. O enfoque setorial continua dominante e a lista dos beneficiados simplesmente se amplia de acordo com o poder de pressão dos vários grupos. As chamadas políticas horizontais - dirigidas para o conjunto da economia - continuam quase totalmente ignoradas. A prometida redução dos custos da eletricidade, a partir do corte de impostos e contribuições federais, pode ser uma exceção.

A presidente Dilma Rousseff tem prometido mais iniciativas desse tipo, mas o governo está despreparado para cumprir essas promessas. Ações para aumentar a eficiência geral da economia poderiam incluir, por exemplo, investimentos muito mais amplos e mais planejados na infraestrutura de transportes. Mas a administração federal continua sem condições de realizar essa tarefa. A mesma limitação é evidente na maior parte do governo central, como comprova, repetidamente, a baixa execução dos investimentos. Apenas R$ 18,6 bilhões foram aplicados no Programa de Aceleração do Crescimento, no primeiro semestre, cerca de 40% do total previsto para o ano, e a maior parte desse dinheiro saiu de "restos a pagar".

Apesar do baixo investimento, o gasto federal continua a crescer, como comprovam os números do primeiro semestre recém-divulgados pelo Tesouro Nacional. Crescerão ainda mais no próximo ano, e a folha de salários e benefícios será mais uma vez inflada por uma nova rodada de aumentos, sem a contrapartida, é claro, de mais eficiência e mais qualidade no serviço público. A presidente Dilma Rousseff prometeu mais de uma vez, pelo menos até o ano passado, cuidar da qualidade da gestão e do gasto do governo. Nada fez para cumprir também essa promessa.

Parcimônia no gasto e melhor uso do dinheiro público são essenciais, no entanto, para políticas de aumento de produtividade geral da economia. São condições fundamentais, também, para a indispensável e sempre adiada reestruturação do sistema tributário. Mas a presidente já renunciou explicitamente a esse objetivo, limitando-se a um compromisso, muito mais modesto, de mudanças parciais nos impostos e contribuições. Mudanças parciais, no entanto, acabam envolvendo benefícios para alguns setores e maiores encargos para outros, como tem ocorrido normalmente.

Tudo indica, portanto, a manutenção do velho e bem conhecido esquema: benefícios fiscais continuarão sendo distribuídos a alguns setores, em geral protegidos também por barreiras comerciais, a conta será paga por outros e a produtividade geral da economia continuará baixa. É esta, por enquanto, a perspectiva de médio prazo para o B do Brics. O pas de deux do governo com o setor automobilístico é mais uma boa indicação dessa tendência.

Pacto pelo investimento produtivo - BETO RICHA


FOLHA DE SP 01/08

Estados são só espectadores das frágeis ações fiscais setoriais, há falta de verba na infraestrutura. A cooperação com o PR mostra que Dilma busca acertar, porém

Não se questiona mais se o aprofundamento da crise europeia e o pouso chinês terão graves consequências para o Brasil. Elas já são visíveis e começam a se tornar dramaticamente mensuráveis. Trata-se agora de discutir que resposta o país vai dar a esses desafios.

Medidas pontuais começam a revelar seus limites. Depois de contribuir para manter a economia aquecida, evidenciam a fragilidade típica de estratégias contingenciais.

Os efeitos deletérios dos pacotes recentes, e seu potencial de desorganizar a economia em alguns casos, já superam os benefícios.

Bondades fiscais setoriais tendem a gerar insegurança nos agentes econômicos. Também produzem danos colaterais preocupantes, como a redução de receitas dos Estados e municípios, espectadores das decisões do poder central.

Complicam esse quadro os sinais da existência de um apagão gerencial no Brasil. Até junho, ministérios como Transportes, Cidades e Integração Nacional executaram apenas 2,3% dos investimentos previstos para o ano. A isso se somam gargalos de infraestrutura e a ausência da reforma tributária.

Qual é a saída? Um caminho seria a criação de um pacto pelo investimento produtivo que envolvesse todos os agentes públicos, contemplando o desafio de atacar os problemas que mantém o Brasil abaixo do seu potencial e nos ameaçam com os estragos da crise mundial.

Os desafios são urgentes. Em dez anos, o Brasil precisará de mais quatro Itaipus para atender a demanda energética. Os indicadores sugerem que essa meta, sem uma profunda correção de rota, não será atingida.

As demandas energéticas se somam a outras, igualmente graves e até mais urgentes, como um sistema de transporte à beira de um colapso.

O Estado não pode abrir mão de seu papel de indutor do desenvolvimento, mas é preciso avaliar os caminhos e as estratégias para isso.

No Paraná, recentemente assinamos um acordo com o governo federal que assegura ao Estado R$ 3,375 bilhões para a construção de 70 mil moradias. O estabelecimento dessa cooperação demonstra que o governo Dilma busca acertar e não se pauta por questões menores.

Com essa parceria, conseguimos antecipar a meta de construir 110 mil moradias em quatro anos. As consequências são inegavelmente importantes. Vamos produzir um aquecimento saudável da economia, além de evidentes benefícios sociais.

Vale citar ainda um programa estadual de R$ 840 milhões para recuperação de 12 mil quilômetros de estradas e a aplicação de R$ 2 bilhões em saneamento até 2014. Destaco a incorporação de R$ 17,6 bilhões da iniciativa privada em investimentos industriais. O capital produtivo, que era escorraçado do Paraná por ideologia, foi trazido de volta.

O resultado é que o Paraná vem apresentando indicadores sensivelmente melhores na questão do emprego, na produção industrial e na renda em relação ao país.

É evidente que nem todas as situações bem-sucedidas no Paraná podem ser reproduzidas no Brasil. Tampouco reivindicamos a irreal condição de ilha de desenvolvimento. Acreditamos, no entanto, que adotamos caminhos que poderiam balizar a discussão de uma nova estratégia para o Brasil enfrentar a crise.

O caminho adotado pelo país, até agora, dá sinais de esgotamento e é preciso coragem para iniciar um amplo debate nacional sobre os novos rumos que o Brasil deve seguir.


CLAUDIO HUMBERTO

“Para o nosso projeto de desenvolvi-mento, nada é mais oportuno”
Hugo Chávez, semi-ditador da Venezuela, na condição de “penetra” do Mercosul


BASTOS JÁ NÃO CONTROLAVA A LÍNGUA DE CACHOEIRA

Parlamentares da CPI do Cachoeira trabalham com a informação de que o ex-ministro Marcio Thomaz Bastos abandonou a defesa porque já não conseguia controlar o bicheiro. Carlos Cachoeira estaria sob grande pressão da mulher, Andressa Mendonça, para “contar tudo”. Se o contraventor falar, poderá sobrar para membros do governo Dilma, o que desgastaria o ex-ministro de Lula junto à “companheirada” do PT. 

FISCAL DE LÍNGUA

Sem apresentar fato que justifique a suspeita, a oposição acha que o papel de Thomaz Bastos era manter fechada a boca de Cachoeira.

O LIMITE

Márcio Thomaz Bastos concluiu que perdera o controle após a tentativa de chantagem de Andressa – à sua revelia – contra o juiz do caso. 

ARQUIVO VIVO

Andressa não se conforma com a prisão prolongada de Cachoeira e não entende por que ele silenciou sobre os próprios inimigos.

TORMENTO

O ex-advogado do bicheiro também ficou abalado após o procurador Manoel Pastana representar contra ele no Ministério Público de Goiás.

PARAGUAI: VENEZUELA NO MERCOSUL É ILEGALIDADE

A Venezuela de Hugo Chávez não poderia ingressar no Mercosul porque, além de violar princípios democráticos (censura à imprensa, perseguição a opositores etc), ainda não ratificou acordos como o Tratado de Assunção, que “costurou” o bloco, e o Protocolo de Ouro Preto, indispensáveis à sua adesão. A advertência é de um documento do governo do Paraguai, admitindo recurso a tribunais internacionais.

SÓ UM PRETEXTO

A suspensão do Paraguai do Mercosul, por destituir Fernando Lugo, foi só pretexto para retirar o obstáculo ao ingresso da Venezuela no bloco. 

OBSTÁCULO REMOVIDO

Para a Venezuela entrar no Mercosul era preciso que o Legislativo dos países membros o aprovassem. E o Paraguai se recusava a isso.

FALA QUE NÃO ESCUTO

O Paraguai só pode questionar a legalidade da Venezuela no Mercosul após as eleições, quando termina sua suspensão. Será tarde demais.

MAU PAGADOR

O semi-ditador Hugo Chávez comprou seis aviões à Embraer por US$ 270 milhões, mas as comemorações são prematuras. Afinal, ele já deu um cano de alguns bilhões na Petrobras, na refinaria de Abreu e Lima. 

CHÁVEZ SE ACHA

O fanfarrão da Venezuela, numa visita à Câmara, certa vez impôs a “segurança” de cães pastores durante o almoço. A segurança do bufão também já exigiu detalhes da cebola no tempero e almoço com pratos no centro da mesa, não “à americana”, coisa típica do “império”. 

REBELDE

Réu no mensalão, o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) desistiu de fazer parte de sua defesa no julgamento do STF. Ele está atento: horas após a cirurgia, há dias, pediu jornais e seu laptop na UTI. 

A ERA DO GELO

O julgamento do mensalão foi notícia na Noruega, onde o IR é público na internet: o influente jornal Aftenposten, explicou o “julgamento da década, sem Lula entre os réus”. Os noruegueses devem estar tontos.

CORPO FORA

Com o nome envolvido no caso “dólares na cueca”, o vice-líder do governo, deputado José Guimarães (PT-CE), não comenta o escândalo do mensalão para “proteger a família”. É irmão do réu José Genoino.

CNJ SANEADOR

Um dos nossos mais importantes juristas, Paulo Bonavides acha saneador o movimento da OAB em defesa do poder correcional do Conselho Nacional de Justiça. “O CNJ está no caminho certo”, diz ele, advertindo: “É urgente a regeneração dos costumes públicos do País”.

CRUZ OU ESPADA

Além da greve dos professores na Bahia, tira o sono do governador Jaques Wagner a possibilidade de ter de escolher entre o palanque de ACM Neto (DEM) e Mário Kertész, do PMDB de Geddel Vieira Lima. 

ESPINHOSAS

Para o líder do governo, Eduardo Braga (PMDB), mudanças no Fundo de Participação dos Estados e a Medida Provisória que complementa o Código Florestal serão as “mais espinhosas” do segundo semestre. 

PENSANDO BEM...

...Se o mundo vai acabar mesmo em 2012, a contagem regressiva poderá começar amanhã. 

PODER SEM PUDOR

ELE ERA DO CONTRA

Presidente do Corinthians, o folclórico e saudoso Vicente Matheus certa vez teve um problema com terrenos na praia do Guarujá, e um oficial da Marinha o ajudou. Ficou tão grato que lhe ofereceu uma festa e o apresentava como almirante. O oficial o corrigiu, discretamente:

- Eu não sou almirante, sou contra-almirante.

Amigos de Vicente contam que ele não titubeou:

- Você é contra almirante? Pois também sou. São todos uns vigaristas.

QUARTA NOS JORNAIS


Globo: Mensalão – STF deve começar julgamento por Dirceu
Folha: Só 0,05% vão para educação de trânsito em SP
Estadão: Após dia de caos, caminhoneiros fazem acordo e greve acaba
Correio: O mensalão e a hora da faxina
Valor: Indústria volta a liderar a atração de capital externo
Estado de Minas: Não ganhamos ouro, mas batemos recorde de…
Zero Hora: Multas por embriaguez crescem 47% e ajudam na redução das mortes

terça-feira, julho 31, 2012

A 48h do mensalão I - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 31/07

Relator do mensalão, o ministro Joaquim Barbosa caminhava tranqüilo pela Praia de Ipanema, domingo.

A 48h do mensalão II

Já Luiz Fux, outro ministro carioca, tirou uns dias de descanso em Buenos Aires com a família.

A 48h do mensalão III
Duda Mendonça, durante seu julgamento no STF, pretende ficar recolhido em sua fazenda, no Pará.

A Macy’s brasileira


A Mesbla, loja de departamentos fundada em 1912 por franceses e que faliu em 1999, faria cem anos dia 11 de agosto. Chegou a ter 180 pontos de venda e a empregar 28 mil pessoas no Brasil.
A Sami, associação de ex-funcionários e amigos da finada, mandará celebrar missa na data, às 10h, na Candelária, no Rio.

País dos jatinhos

Relatório da Honeywell, gigante americana que fabrica motores de aviação, diz que o mercado de jatinhos executivos deve crescer 6,3% este ano no Brasil, na Rússia, na Índia e na China, os chamados países Brics.
Mais do que nos EUA (2,2%), e um baile na Europa do euro, onde deve haver uma contração de 0,4%.

Voo que segue...
De olho neste mercado emergente, sobretudo o brasileiro, a Honeywell, diz o relatório, desenvolve um motor capaz de voar mais rápido e sem necessidade de paradas entre Rio-Nova York.

Os bolivarianos
Hugo Chávez, hoje, em Brasília, terá claque do MST em frente ao Itamaraty, às 14h.

PREGO NA ARVORE
As árvores centenárias da Avenida Visconde de Albuquerque, no Leblon, amanheceram ontem com estas pequenas placas de metal, fixadas com pregos, que traziam a ameaça: “reservada para corte”, “madeira para exportação”, junto a um número de lote e um código de barras. Uma brigada verde já se mobilizava na vizinhança. Mas nem a Comlurb, responsável pelos serviços de poda e corte, nem a Secretaria municipal de Meio Ambiente, que teria de autorizar uma maluquice dessas, sabiam do que se tratava. A ação seria obra de uma empresa já localizada pela prefeitura em Brasília. Hoje, a Comlurb e a Patrulha Ambiental do município vão retirar as placas ilegais e tentar chegar ao infrator (o site do tal Grupo Vecana, que aparece na placa, remete a um suposto comércio de árvores urbanas). Em 2011, caso igual levou a prefeitura de Belo Horizonte a processar uma empresa. Que Deus proteja as árvores e não nos desampare jamais •

Gois em Londres I

A TV que gravar imagens de Londres tendo ao fundo algum cartão postal é obrigada a pagar à London Media Centre, autorizada pela prefeitura.
A tabela da empresa, espécie de flanelinha de luxo, vai de 250 a 1.600 libras esterlinas (de R$ 795 a R$ 5.088).

Gois em Londres II
Todos os banheiros do centro de imprensa dos Jogos estavam trancados ontem porque... faltou água.
Deve ser terrível... você sabe.

Gois em Londres III

O ex-piloto de F-1 Alex Ribeiro é voluntário na Vila Olímpica.
Evangélico, leva palavra de Deus a atletas que buscam conforto espiritual.

Facebossa
Veja como o Facebook pode ser útil nas emergências. Roberto Menescal, 74 anos, teria um show quarta passada com Wanda Sá e grupo Bebossa na Fundação Eva Klabin, no Rio, mas uma tempestade na China o prendeu no Japão.
O mestre da bossa nova, sem tempo hábil para avisar do imprevisto, por causa do fuso, fez um vídeo e pôs no Facebook. Deu certo. Assista no site da coluna.

Chiquinho na rede

A Biblioteca Nacional digitalizou 1.831 edições da revista e almanaque "Tico-Tico" de Luís Bartolomeu de Souza e Silva, de 1905, que estarão disponíveis ainda esta semana.
Foi nossa primeira revista de história em quadrinhos, cujo protagonista era Chiquinho.

Segue...
Além disso, a Hemeroteca Digital da BN também está pondo na internet 5 milhões de páginas de jornais e revistas.
Entre as raridades, os dois primeiros jornais do país, "Correio Braziliense" e o “Gazeta do Rio de Janeiro" de 1808.

Banana no cartão
A barraca de frutas do Rubinho e do Paulinho na feira da Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, às sextas, agora aceita todos os cartões de crédito.

BBB do skate

A prefeitura do Rio vai instalar cinco câmeras de segurança no Parque de Madureira, com imagens transmitidas 24 horas para o Centro de Operações.
Segundo o chefe da Casa Civil, Guilherme Schleder, os equipamentos já começam a operar sexta agora.

Grande hotel
O inglês naturalizado brasileiro Philip Carruthers deixa em outubro o comando do Copacabana Palace.
Ocupava o cargo desde 1989, quando o grupo Orient-Express comprou o hotel da família Guinle. Ele continua no conselho.

Inflação da UPP

O economista Carlos Lessa notou que, após a pacificação da Favela Santo Amaro, na Glória, no Rio, disparou o preço do... misto-quente da Confeitaria Santo Amaro, aos pés do morro.
Passou de R$ 2,60 para R$ 4,20.

"The Supremes" - VERA MAGALHÃES

FOLHA DE SP - 31/07


SÃO PAULO - A partir de quinta-feira, a Olimpíada de Londres ganhará concorrência na TV e no noticiário de sites e jornais: a cobertura extensiva de um inédito julgamento de 38 réus de uma vez na mais alta corte de Justiça do país.

Mais de 500 jornalistas foram credenciados para relatar as sessões do mensalão, que vão se arrastar, como um reality show, por semanas a fio.

Transformados em estrelas de uma espécie de "Show de Truman" judiciário, os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal experimentarão uma overdose da exposição que passaram a ter desde o advento da TV Justiça, que transformou rostos desconhecidos em figuras públicas.

Vários membros do STF relatam casos em que já foram abordados na padaria ou em voos com perguntas do tipo: "E aí, quando vocês vão julgar o mensalão?''. Esse tipo de cobrança anônima, somada à pressão da opinião pública, contribuiu para que o julgamento fosse marcado para agora, em pleno período eleitoral.

A TV Justiça e uma preocupação em "arejar" o STF, a partir do governo Fernando Henrique Cardoso, fizeram com que a corte tenha, hoje, um perfil menos vetusto e mais sensível à chamada voz rouca da rua.

Não à toa, Ricardo Lewandowski, o revisor do mensalão, disse em 2007 que muitos ministros votaram "com a faca no pescoço'' pela abertura da ação penal que agora será julgada.

Essa atenção inédita sobre uma corte antes impermeável ainda será sentida em decisões como a do ministro José Antonio Dias Toffoli, que, até agora, não disse se vai se considerar suspeito de votar, dado o seu histórico de advogado do PT e ex-assessor de José Dirceu, réu no caso.

Houve quem sugerisse proibir imagens no plenário. Na semana passada, advogados tentaram impedir o uso dessas cenas na campanha eleitoral. O problema é que, uma vez exposto à luz do sol, o Supremo não pode mais fechar as persianas.

"The Supremes", o show, estreia quinta-feira, na TV aberta e fechada.

Zero de conduta - VLADIMIR SAFATLE

FOLHA DE SP - 31/07


Há mais de dois meses, os professores das universidades federais estão em greve. Após duas propostas consideradas insuficientes pela maioria do corpo docente, o governo parece disposto a endurecer as negociações. No entanto há de estranhar a maneira com que uma questão dessa natureza está sendo tratada.

Ao ganhar as eleições, o governo atual afirmou ser a educação sua prioridade. Mas, por mais que possa parecer uma tautologia, colocar a educação como prioridade significa, entre outros, assumir as demandas que vêm de seus profissionais como prioritárias. O que os professores querem é um salário digno e uma infraestrutura adequada para desenvolver atividades de docência, orientação e pesquisa.

Enquanto algumas pessoas que nada sabem da vida universitária usam espaços na imprensa para afirmar que os professores são a "elite do funcionalismo" e que, por isso, não deveriam reclamar, policiais rodoviários continuam ganhando mais do que docentes.

Os desafios brasileiros passam pelo fortalecimento da universidade pública, com sua capacidade de formação e pesquisa. A experiência de liberalização do ensino universitário por meio da proliferação de universidades privadas foi um retumbante fracasso.

Tudo o que se conseguiu foi produzir levas de profissionais semiformados, assim como instituições nas quais os professores acabam por ser repetidores, por estar afogados em cargas horárias que não permitem o desenvolvimento de pesquisas.

Vez por outra, quando o processo de financiamento das universidades públicas volta à tona, temos de ouvir duas opiniões no limite do caricato. A primeira consiste no argumento etapista tosco que afirma: primeiro, devemos investir na escola básica, depois, nas universidades. Claro.

E, enquanto o investimento da educação básica não chega a um nível adequado, deixemos as universidades serem sucateadas e destruídas. Tais pessoas têm um raciocínio binário incapaz de entender que o investimento em educação deve ser extensivo, caso não queiramos perder completamente o bonde do desenvolvimento social.

A segunda afirma que os professores universitários devem deixar de ser subvencionados pelo Estado e procurar financiamento para pesquisas na iniciativa privada.

Só um exemplo: se um pesquisador em psicologia procurar desenvolver uma pesquisa mostrando a ineficácia de antidepressivos, a quem ele deve pedir financiamento? À indústria farmacêutica?

Ou seja, ou o governo assume o custo de eleger a educação como prioridade ou é melhor não utilizar tal discurso em época de eleição.

O julgamento na imprensa - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 31/07


Se há contra os réus indução de animosidade, a resposta prevista só pode ser a expectativa de condenações


O julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal é desnecessário. Entre a insinuação mal disfarçada e a condenação explícita, a massa de reportagens e comentários lançados agora, sobre o mensalão, contém uma evidência condenatória que equivale à dispensa dos magistrados e das leis a que devem servir os seus saberes.

Os trabalhos jornalísticos com esforço de equilíbrio estão em minoria quase comovente.

Na hipótese mais complacente com a imprensa, aí considerados também o rádio e a TV, o sentido e a massa de reportagens e comentários resulta em pressão forte, com duas direções.

Uma, sobre o Supremo. Sobre a liberdade dos magistrados de exercerem sua concepção de justiça, sem influências, inconscientes mesmo, de fatores externos ao julgamento, qualquer que seja.

Essa é a condição que os regimes autoritários negam aos magistrados e a democracia lhes oferece.

Dicotomia que permite pesar e medir o quanto há de apego à democracia em determinados modos de tratar o julgamento do mensalão, seus réus e até o papel da defesa.

O outro rumo da pressão é, claro, a opinião pública que se forma sob as influências do que lhe ofereçam os meios de comunicação.

Se há indução de animosidade contra os réus e os advogados, na hora de um julgamento, a resposta prevista só pode ser a expectativa de condenações a granel e, no resultado alternativo, decepção exaltada. Com a consequência de louvação ou de repulsa à instituição judicial.

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, reforça o sentido das reportagens e dos comentários mais numerosos, ao achar que "o mensalão é o maior escândalo da história" -do Brasil, subentende-se.

O procurador-geral há de ter lido, ao menos isso, sobre o escândalo arquitetado pelo brilho agitador de Carlos Lacerda em 1954, que levou à República do Galeão, constituída por oficiais da FAB, e ao golpe iniciado contra Getúlio Vargas e interrompido à custa da vida do presidente.

Foi um escândalo de alegada corrupção que pôs multidões na rua contra Getúlio vivo e as fez retornar à rua, em lágrimas, por Getúlio morto.

Como desdobramento, uma série de tentativas de golpes militares e dois golpes consumados em 1955.

O procurador Roberto Gurgel não precisou ler sobre o escândalo de corrupção que levou multidões à rua contra Fernando Collor e, caso único na República, ao impeachment de um presidente. Nem esse episódio de corrupção foi escândalo maior?

E atenção, para não dizer, depois, que não recebemos a advertência de um certo e incerto historiador, em artigo publicado no Rio: "Vivemos um dos momentos mais difíceis da história republicana".

Dois inícios de guerra civil em 1930 e 1932, insurreição militar-comunista em 1935, golpe integralista abortado em 1937, levante gaúcho de defesa da legalidade em 1961, dezenas de tentativas e de golpes militares desde a década de 1920.

E agora, à espera do julgamento do mensalão, é que "vivemos um dos momentos mais difíceis da história republicana".

Venezuela e o problema Mercosul - CLÓVIS ROSSI

FOLHA DE SP - 31/07


Caracas agrega quatro Paraguais/Uruguais ao bloco, que precisa decidir o que quer ser


A Venezuela torna-se hoje membro pleno do Mercosul. Bom negócio? Sim, com ressalvas.

Antes das ressalvas, perdão por escrever uma obviedade, mas ela se torna necessária pelas paixões, contra e a favor, que produz o presidente Hugo Chávez: quem se incorpora ao Mercosul é a Venezuela, não Chávez, a menos que se considere que o líder bolivariano é imortal, o que ainda não está provado.

A Venezuela aporta ao bloco US$ 316 bilhões de PIB, o que corresponde a 4,3 vezes a soma das economias de Paraguai e Uruguai, os sócios menores. É um ativo, portanto.

Além disso, o Itamaraty comemora, em nota oficial, o fato de que "a incorporação da Venezuela altera o posicionamento estratégico do bloco, que passa a estender-se do Caribe ao extremo sul do continente. O Mercosul se afirma, também, como potência energética global tanto em recursos renováveis quanto em não renováveis".

Muito bem. Passemos agora às ressalvas. A primeira é institucional.

A Human Rights Watch, respeitada ONG da área de direitos humanos, soltou há pouco relatório crítico em relação ao governo Chávez. Nele, mostra que o presidente vem comendo a democracia pelas bordas, mas ainda não deglutiu o núcleo central.

No Mercosul, a Venezuela está obrigada a respeitar a chamada cláusula democrática, o que significa que Chávez, mesmo se reeleito no fim do ano, não poderá comer o que resta.

Cabe ao Brasil, a principal potência do grupo, exercer efetiva vigilância para evitar novas ações anti-democráticas e, se possível, pressionar Chávez para regurgitar algumas das partes que comeu.

Ou, como escreveu ontem para o "Valor Econômico" o repórter-colunista Sergio Leo, dos melhores analistas de política externa: "O Mercosul como elemento de democratização da Venezuela pode se mostrar um feito memorável. Desde que não se revele mera fantasia".

Segunda ressalva, de natureza comercial: a Venezuela de Chávez não pode se tornar obstáculo para negociações comerciais do Mercosul com outros países/regiões. Uma coisa, legítima, é defesa comercial. Outra, prejudicial, é protecionismo ideológico, em nome do tal "socialismo do século 21".

O Mercosul está estancado há tanto tempo que tudo o que ele não precisa é ficar mais embaçado por posições comerciais besuntadas de uma ideologia que não foi exatamente um grande sucesso de público e de crítica no fim do século 20.

A bem da verdade, a entrada da Venezuela é o menor dos problemas do bloco.

O maior, de longe, é decidir o que quer ser quando crescer: se uma mera zona de livre-comércio, na qual os membros zeram as tarifas de importação entre eles; se uma união aduaneira, em que, além do anterior, estabelecem uma tarifa comum para importações de países não membros; ou um verdadeiro mercado comum, com livre circulação de mercadorias e pessoas.

Por enquanto, o bloco está na fase de união aduaneira, mas com tantos furos que mais parece desunião. Não será o ingresso da Venezuela que permitirá tapar ou aumentar os buracos.

O que Chávez esconde - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 31/07


O presidente venezuelano, Hugo Chávez, chegou ontem ao Brasil para a cerimônia, hoje em Brasília, na qual seu país será calorosamente recebido como sócio pleno do Mercosul. O esforço do Brasil para incluir a Venezuela - numa manobra à revelia do Paraguai, que, como se sabe, foi colocado de castigo por ter afastado seu presidente conforme manda a Constituição - vai premiar um governo que, além de autocrático, tem uma sinistra relação com o negócio das drogas, como mostra reportagem do New York Times (27/7).

Chávez tem se jactado de ser um campeão na luta contra o narcotráfico. Ele diz que seus soldados destruíram pistas para transporte de drogas, que laboratórios clandestinos foram desmontados e que muita pasta de coca foi apreendida. Além disso, a seu pedido, foi aprovada uma lei que, em tese, facilita a interceptação de aviões dos narcotraficantes. O New York Times, porém, revela que o narcotráfico não só vai muito bem na Venezuela, como o país cedeu um pedaço de território para que as Farc, a narcoguerrilha colombiana, atuem sem serem incomodadas.

A Venezuela responde por nada menos que 24% do trânsito da cocaína sul-americana destinada aos EUA, segundo um relatório americano. Na região onde as Farc intermedeiam a passagem da droga que vem da Colômbia, o New York Times constatou que as pistas destruídas na alardeada ação do Exército foram todas recuperadas pelos narcoguerrilheiros, porque os soldados não tomaram nenhuma medida para evitar sua rápida reconstrução. Ou seja: a ação contra o tráfico serviu apenas para a foto que interessava a Chávez.

Mais da metade da cocaína que transita pela Venezuela passa pelo Estado de Apure, na fronteira com a Colômbia, desde que Chávez interrompeu oficialmente sua colaboração com o governo americano no combate às drogas, em 2005. Em boa parte dessa região, o controle das Farc é absoluto. Moradores contam que os narcoguerrilheiros praticam extorsão e ocupam propriedades. E os venezuelanos dizem ter medo de denunciar a atividade criminosa às autoridades porque sabem que há conluio entre elas e as Farc.

Esse receio tem fundamento, segundo a Casa Branca. Para Washington, a "permissividade corrupta" do governo venezuelano dá total liberdade de ação para o narcotráfico. Mas a promiscuidade é ainda mais profunda, porque altos funcionários chavistas estão envolvidos até o pescoço com as Farc.

Dois ex-magistrados venezuelanos, Eladio Ramón Aponte Aponte e Luis Velásquez Alvaray, vêm contando detalhes sobre essa relação. Aponte, que foi presidente da Suprema Corte e um dos homens fortes do regime chavista, acusou quase toda a cúpula do poder venezuelano, abaixo de Chávez, de fazer parte de uma grande rede sul-americana de narcotráfico.

Velásquez Alvaray, por sua vez, afirmou que a Venezuela recebe da China armas e equipamentos militares como forma de pagamento por petróleo e que uma parte desse arsenal vai para as Farc. A operação, segundo ele, é comandada por Hugo Carvajal - atual vice-ministro do Interior, recém-nomeado por Chávez justamente para o combate às drogas. O Departamento do Tesouro americano afirma que Carvajal é importante colaborador da operação de narcotráfico das Farc. Além dele, o ministro da Defesa venezuelano, Henry Rangel Silva, também é acusado por Washington de ajudar a guerrilha colombiana a traficar cocaína. Com gente desse naipe em funções tão estratégicas, não admira que as Farc controlem tranquilamente uma parte do território venezuelano e tenham total liberdade para fazer dali sua plataforma de negócios ilícitos.

Mas o chavismo não se envergonha disso. Ao contrário: um dos líderes das Farc, Iván Ríos, disse que o narcotráfico, principal fonte de financiamento da guerrilha, era uma forma de "resistência à opressão", uma maneira de confrontar o capitalismo do "império". É desse gangsterismo dialético que se alimenta o projeto "bolivariano".

A realidade é que o Mercosul, cujas normas demandam democracia e transparência, está se abrindo a um país cujo governo tem dado reiteradas mostras de que tem muito a esconder.

GALERIA SUPREMA - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 31/07


O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Carlos Ayres Britto, quer indicar advogados renomados para que fiquem de "plantão" no mensalão. O convite será feito a Nabor Bulhões, Pedro Gordilho e Roberto Rosas. Eles seriam colocados à disposição de réus caso o advogado de um deles falte ao julgamento.

ESCOLA

Os três já foram convidados para missão parecida pelo STF quando a denúncia do mensalão foi apreciada, em 2007. Britto ainda submeterá a ideia aos outros ministros do STF.

TRÊS VEZES

Com isso, o STF, que também já convidou a Defensoria Pública para o mesmo plantão, faria duas blindagens para o caso de algum advogado faltar só para adiar o julgamento. Se isso ocorrer, um defensor público assumirá a defesa do réu "órfão". Caso haja algum impedimento deste defensor, entra em cena um dos três criminalistas, como advogado dativo (que é dado ao réu).

ÍCONE

Pedro Gordilho, por sinal, é um dos melhores amigos do ministro Cezar Peluso. Quando tomou posse na presidência do STF, há dois anos, o ministro o convidou para falar em nome de todos os advogados do país.

HISTÓRIA

A ministra Cármen Lúcia, do STF, também gravou conversas com advogados dos réus do mensalão. A medida já havia sido tomada por outro ministro, Luiz Fux.

OLHAR

E a ministra Rosa Weber, a mais nova do Supremo, recebe os defensores em público, no cafezinho da corte.

TRADIÇÃO

José Carlos Dias, advogado de um dos diretores do Banco Rural no processo do mensalão, usará a mesma beca que veste há anos em julgamentos importantes.

"Por superstição", diz.

PAIXÃO

A designer brasileira Adriana Bittencourt fisgou um dos solteiros mais cobiçados do mundo: Christopher Getty, neto do bilionário Paul Getty. O casal está no hotel Cala di Volpe, na costa Esmeralda, na Sardenha.

TRISTONHA
Cleyde Yáconis, 88, cancelou de última hora a terceira apresentação que faria ao lado de Denise Fraga, anteontem, de textos de Nelson Rodrigues no Auditório Ibirapuera. A atriz, que está gripada, ficou também abalada com a morte da cachorrinha Morena, que vivia com ela havia 18 anos.

PÃO QUENTINHO

O chef Alex Atala finalmente conseguiu o alvará da Prefeitura de SP para a abertura de sua padaria, a Em Nome do Pão, ao lado do restaurante D.O.M, nos Jardins.

FRANGO DE TV

E Atala estava no fim de semana recepcionando clientes em sua nova empreitada, o Mercadinho Dalva e Dito, na entrada de seu restaurante com o mesmo nome. O misto de rotisseria com vendinha tem pães, bolos e biscoitos preparados pela equipe do chef, mais frango assado (R$ 30), bife à milanesa (R$ 20) e farofa baiana para viagem. "Não quis divulgar porque por enquanto estamos em fase de testes. Quero ir com calma", diz ele.

MAD MAX

Em reunião com artistas, o candidato a prefeito Gabriel Chalita (PMDB-SP) lembrou que já foi do grupo de teatro Macunaíma. Na juventude, participou de montagem de "Ópera do Malandro", de Chico Buarque. Encarnou o malandro Max, vivido por Edson Celulari no cinema.

OI, OI, OI

A cantora Tiê montou um show no jardim de sua casa, anteontem, em SP, tendo como repertório canções da novela "Avenida Brasil". Ela se vestiu como as personagens Nina e Carminha. Os cantores Adriano Cintra e Marina Vello, do Madrid, e a baterista Naná Rizzini fizeram participações especiais. O diretor Leandro HBL, marido de Tiê, participou da brincadeira como Max.

GALOPEIRA

O condomínio Quinta da Baroneza, em Bragança Paulista (SP), realizou no fim de semana seu concurso hípico. Conferiram a competição a paisagista Luciana Ermírio de Moraes, os empresário Álvaro Coelho da Fonseca e Bettina Quinteiro, o construtor Marcelo Picchi, a blogueira Ludmila Almeida Braga e a arquiteta Maria Paula Brasil.

CURTO-CIRCUITO

Riccy Souza Aranha apresenta hoje a nova coleção da Mixed, na loja da Vila Nova Conceição.

O psiquiatra Flávio Gikovate comemora cinco anos do programa "No Divã do Gikovate" com conversa na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, às 18h.

A coleção do estilista Lorenzo Merlino para a Riachuelo tem lançamento hoje, às 19h, nos Jardins.

O arquiteto Marcello Montore dá a palestra O Design da Bossa Nova, hoje, a partir da 19h30, na Atec Cultural.

com ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, LÍGIA MESQUITA e OLÍVIA FLORÊNCIA

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 31/07

Consumo das famílias deve subir apenas 3,5%, diz CNI

As estimativas para o crescimento do consumo das famílias brasileiras, que tem amortecido os efeitos da crise no país, estão em baixa.

O consumo deve subir apenas 3,5% neste ano em relação a 2011, segundo revisão realizada pela CNI (Confederação Nacional da Indústria).

O percentual será o menor desde 2003, de acordo com dados da entidade.

Cálculos do início do ano sinalizavam crescimento de 4% no consumo para 2012.

No entanto, a interpretação atual é a de que a população já está endividada demais para seguir comprometendo seu orçamento.

Mesmo em 2009, quando a economia sentia fortes reflexos da crise, os gastos das famílias brasileiras não subiram tão pouco, segundo a entidade.

A redução estimada no consumo pode representar cerca de R$ 14,4 bilhões que deixariam de ser injetados na economia, aponta a CNI.

"Como o PIB vai ser menor neste ano, haverá também desaceleração no consumo das famílias. Para a indústria, a dificuldade é o importado", diz Flávio Castelo Branco, economista-chefe da CNI.

A elevação inferior da demanda doméstica deve dificultar a reação da atividade industrial.

"O consumo das famílias está perdendo a capacidade de ser o alavancador do crescimento. Precisamos encontrar outro alavancador. Estamos com dificuldade de competir com os estrangeiros."

Cresce setor de migração em escritórios e consultorias

A entrada de profissionais estrangeiros no mercado brasileiro tem expandido a área de negócios de migração de escritórios de direito e de empresas de consultoria.

O Veirano Advogados realizou 500 processos de internalização de executivos no primeiro semestre deste ano, mesmo volume realizado em todo 2011.

"Vamos fechar 2012 com mais de mil processos" diz Gabriela Lessa, sócia da banca na área de imigração.

O Machado Meyer Advogados dobrou o volume de trabalho com expatriados em 2011. Neste ano, o aumento é de 20%, segundo o sócio Rodrigo Takano. A expectativa é que o crescimento se mantenha até 2016.

O faturamento do setor de acompanhamento de expatriação da Ernst & Young Terco cresceu 30% ao ano nos últimos três anos, afirma a sócia Tatiana da Ponte.

"Trabalhamos desde o momento em que a empresa decide trazer um profissional até a saída dele, fazendo também a gestão do período." Entre os serviços oferecidos estão auxílio para conseguir visto, cálculos de imposto de renda e procura por escola para os filhos do executivo.

Augusto Sales, sócio da KPMG, também observa aumento nesse mercado.

"Auxiliamos na escolha de onde investir, se é melhor fazer uma aquisição, uma aliança ou uma 'green field', que começa do zero, e ainda acompanhamos os executivos que vêm", diz Sales.

Expansão Suspensa

A Quantiq, distribuidora de produtos químicos controlada pela Braskem, decidiu adiar a construção de um centro de distribuição próprio na região Nordeste.

O projeto estava previsto para este ano, mas, devido à crise econômica, só sairá do papel em 2013.

O novo centro deverá ficar na Bahia ou em Pernambuco, Estados onde a companhia já aluga espaços que funcionam como suas bases logísticas na região.

O investimento na obra poderá chegar a R$ 10 milhões, segundo o presidente da companhia, Armando Bighetti.

A partir do próximo ano, a Quantiq também passará a avaliar a possibilidade de entrar no mercado de outros países do Mercosul.

"A estrutura desse bloco facilita a nossa operação fora do Brasil. Por isso, começaremos pelos vizinhos antes de atuarmos em outras regiões do mundo", diz Bighetti.

Essa operação deve começar em 2014, o que também representará o atraso de um ano em relação ao cronograma anterior da companhia.

TI no Sul O grupo Assa, especializado em consultoria com o uso de TI, negocia com a Prefeitura de Curitiba sua entrada no parque tecnológico da cidade. Em setembro, a empresa abrirá centro em São Paulo, com 200 novos técnicos.

NA MÍDIA

O número de menções ao Brasil na imprensa internacional cresceu 16,27% no segundo trimestre do ano, ante os três meses anteriores, segundo monitoramento da Imagem Corporativa feito com 15 jornais e revistas.

A realização da Rio+20 impulsionou a exposição do país no exterior. Nos jornais analisados, 66 reportagens sobre o assunto foram veiculadas. O teor de 74% delas era positivo.

O francês "Le Monde", por exemplo, foi cético em relação ao documento elaborado ao final do evento, mas afirmou que a conferência consagrou a emergência do Brasil.

Notícias sobre empresas e executivos brasileiros foram as que mais ganharam espaço na mídia estrangeira no período -alta de 118%.

O jornal "El Mercurio", do Chile, foi o que publicou mais reportagens sobre o Brasil. Em seguida, aparecem "Financial Times" e "The Wall Street Journal."

DUPLA REFEIÇÃO

O Spoleto e a Domino's Pizza lançam uma unidade que une as duas marcas no mesmo espaço e é a primeira de rua em São Paulo, no bairro Vila Olímpia.

As duas redes pertencem ao grupo Trigo.

A marca Spoleto também abre sua primeira unidade em Boa Vista, em Roraima.

Com a inauguração, a companhia, que tem 310 restaurantes, sendo 28 no exterior, só não estará presente no Brasil no Estado de Sergipe.

Neste ano, a rede pretende inaugurar mais duas unidades na região Norte, que hoje responde por cerca de 10% da rede de alimentação.

A Domino's Pizza tem unidades em São Paulo, Brasília, Curitiba, Fortaleza e outros.

O dia seguinte ao julgamento do PT - RAYMUNDO COSTA


Valor Econômico - 31/07


Governo e PT ficaram impressionados com o impacto do noticiário de fim de semana sobre o mensalão, especialmente na televisão. Em close, a reprise dos melhores momentos de 2005, nas CPIs e nas manifestações do presidente da República, recupera a dimensão exata daqueles dias. Uma coisa é ouvir Lula hoje dizer que o mensalão foi uma farsa, tendo-se apenas uma vaga referência do que ocorreu há sete anos. Outra é ver e ouvir o ex-presidente afirmar que o PT fez caixa 2 e devia um pedido de desculpas à sociedade.

"Eu não tenho vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos que pedir desculpas", disse Lula, num dos momentos mais críticos da crise, rodeado de ministros, entre os quais a presidente atual, Dilma Rousseff. É bem verdade que Lula também disse que determinara, desde o início, "que ninguém fosse poupado", pertencessem ou não ao PT, até que os culpados fossem "responsabilizados".

Foram dias tensos, durante os quais se chegou a falar em "refundação do PT", expressão criada pelo atual governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, transferido às pressas do Ministério da Justiça para a presidência de um partido em crise profunda.

Aliados de Dirceu falam em volta triunfante em 2014

Depois disso, Lula e o PT enfrentaram duas eleições presidenciais, obtendo sucesso em ambas. Inclusive na de 2006, ainda no calor da denúncia sobre o suposto esquema de compra de votos no Congresso, o mensalão. Lula e o PT ganharam nas urnas.

Chegou a hora do veredito da Justiça, como prometia Lula nos idos de 2005.

Seria um exagero dizer que o PT joga sua sorte no julgamento que começa depois de amanhã no Supremo Tribunal Federal (STF). Mas a decisão dos 11 ministros terá sim consequências diretas no futuro do partido que há dez anos comanda o país.

Até agora, o PT fez o jogo de 2014 nas eleições municipais deste ano. É provável que o partido nunca tenha cedido tanto na confecção de alianças, como fez em 2012 tendo em vista as parcerias que planeja fazer na eleição presidencial. É jogo jogado. Inclusive com a participação de José Dirceu, na prática, ainda hoje, um dos mais influentes líderes do PT.

A absolvição de Dirceu devolverá esse papel ao ex-ministro. À luz do dia. Dirceu e o PT disfarçam, mas, na prática, o ex-chefe da Casa Civil de Lula mantém influência no partido e no governo. O atual presidente da sigla, Rui Falcão, integrante de uma corrente minoritária do PT, somente assegurou sua confirmação no cargo depois de se entender com Dirceu (vice-presidente, Falcão assumiu no lugar de José Dutra, que se afastou por motivos médicos).

O ex-ministro emite sinais confusos sobre o que pensa fazer no futuro, na hipótese de ser absolvido de chefiar a "quadrilha" do mensalão. Há ocasiões em que parece determinado a recuperar o mandato na Câmara. Em outras, avalia que para voltar à política partidária terá de deixar de fazer consultorias, seu meio de vida desde que a Câmara decretou a perda de seu mandato.

A aposta no PT é que ele será candidato a deputado federal em 2014, tendo como meta um milhão de votos, e então tecer seu futuro político a partir de uma posição mais forte.

Além da eventual volta ou não de Dirceu, a novidade no PT é a movimentação da presidente Dilma Rousseff para ocupar o próprio espaço não só dentro do partido, mas dentro da coalizão governista. Já com vistas em 2014, a presidente se esforça para deixar o governo o mais distante possível do mensalão, empreitada na qual tem conseguido êxito sem causar contrariedade entre os petistas que são réus na Ação Penal 470 do STF. A avaliação nesse grupo é que Dilma atua, sem confrontos, dentro das regras não escritas do bom embate político.

Independentemente do resultado do julgamento, essa é a questão que terá de ser resolvida pelo PT. Dirceu tem influência, Lula é quem manda e Dilma avança e aos poucos consolida uma liderança própria. A volta de Dirceu repõe o PT de São Paulo no jogo de poder partidário. O que nada muda em relação à recandidatura de Dilma. Aos menos por enquanto.

Às vésperas do julgamento do mensalão, a Arko Advice, empresa de consultoria política de Brasília, fez uma pesquisa entre os deputados sobre foro privilegiado e o duplo grau de jurisdição, que é o direito de todo cidadão acusado da prática de delito de ser julgado em pelo menos duas instâncias. O resultado é contraditório. A maioria concorda com o foro privilegiado para as autoridades, mas 92% dos entrevistados consideram o duplo grau de jurisdição é um direito fundamental da cidadania.

A empresa entrevistou 52 deputados de 13 partidos. Todos são advogados. Foram ouvidos representantes de todas as regiões, do governo e da oposição. É nítida a divisão sobre fim do foro privilegiado para autoridades: 44,23% afirmaram ser a favor do fim do privilégio, contra 48% que acham que ele deve ser mantido. Mas mesmo entre os que concordam com o fim do foro especial, 68% acham que ele deve ser mantido para crimes decorrentes do exercício da atividade pública.

Do total de entrevistados, 92,30% dos entrevistados afirmaram concordar que o duplo grau de jurisdição é um direito fundamental do cidadão. "Apesar de considerar que o duplo grau de jurisdição é um direito fundamental do cidadão, 55,76% não consideram que o julgamento de autoridade em foro privilegiado possa ser considerado uma limitação ao direito de defesa", diz o cientista político Cristiano Noronha, da Arko Advice.

A questão do foro privilegiado e do duplo grau de jurisdição deve permear os primeiros embates do mensalão. O advogado Márcio Thomaz Bastos voltará a insistir na tese de que os réus sem foro privilegiado (todos, à exceção de três deputados no exercício do mandato) devem ser julgados na primeira instância e não pelo Supremo Tribunal Federal. Em caso de condenação, eles não teriam assegurado o direito fundamental de ser julgados em pelo menos duas instâncias.

Na incerteza essencial, a saída é o Estado - ANTONIO DELFIM NETTO


Valor Econômico - 31/07


A primeira coisa que um economista tem que aprender é que, a despeito do que dizem os mais sofisticados e artificialmente matematizados livros de microeconomia, o homem-indivíduo não existe.

Só existe a "rede" de relações em que está imerso no universo econômico, controlado pelas instituições que ele mesmo foi "descobrindo" ao longo de sua história para a sua subsistência material (alimento, vestimenta e abrigo): o Estado e o mercado. O primeiro garante as condições de um razoável funcionamento do segundo, impondo-lhe normas de comportamento em troca da garantia de sua existência.

Os dois polos dessa organização foram evoluindo lentamente para uma combinação que permita - agora sim - ao homem-indivíduo gozar crescentemente de valores que aprecia: 1) sua liberdade de escolha e a apropriação dos benefícios que dela eventualmente decorram; e 2) o uso relativamente eficiente de seu esforço para produzir os bens e serviços de que necessita para o seu bem-estar. Essa "necessidade" aumenta naturalmente por uma disposição psicológica. É a "eficiência" que lhe proporciona maior tempo livre para procurar sua humanidade.

Só o investimento público pode socorrer a economia

Não há leis naturais na economia e não existe equilíbrio de longo prazo que possa determinar a combinação ótima da relação Estado versus mercado. A história mostra que um Estado constitucionalmente controlado, suficientemente forte para impor regulação aos mercados (particularmente ao financeiro), parece ser uma combinação razoável, que permite um aumento da quantidade de bens e serviços com os recursos sempre escassos de que dispõem as sociedades.

A antinomia Estado versus mercado é disfuncional. Mas há mais. Há um terceiro valor que o homem-indivíduo inserido nas relações econômicas procura, além da liberdade e da eficiência: uma preferência pela relativa igualdade. Inserido na "rede", ele aparentemente tem maior alegria quando suas relações se realizam com membros em condições próximas às suas.

O problema é que essa maior igualdade não pode ser obtida pelo funcionamento dos mercados. Esses combinam liberdade individual com eficiência individual, mas, por serem altamente competitivos, estimulam a desigualdade. Estudos empíricos sugerem que a partir de certo ponto essa desigualdade é também disfuncional com relação à eficiência coletiva.

Há, por outro lado, um fato empiricamente bem comprovado. Os mercados, apesar de suas virtudes, têm um problema sério: são inerentemente instáveis. A ilusão criada pela teoria neoclássica, que os economistas tinham descoberto políticas econômicas que tornavam as crises "obsoletas" (como afirmou um prêmio Nobel em 2003!), foi enterrada "à la lumière des flambeaux" na crise de 2007...

Dois fatos: 1) a possibilidade que o mercado possa produzir um nível de desigualdade não funcional; e 2) o fracasso da ideia que tínhamos entrado num período de "grande moderação", por conta das políticas econômicas fiscal, monetária e cambial desenvolvidas nos últimos 30 anos, deixou claro que a economia é um tipo de conhecimento muito complexo. Ele está longe de poder ser dominado pelo cientificismo produzido pela inveja da física, que encantou alguns economistas.

O papel fundamental de um Estado constitucionalmente controlado transcende - e muito - o de ser o "garante" das instituições que permitem aos mercados serem instrumentos úteis (indispensáveis, mesmo) para o desenvolvimento social e econômico. Ele é o único instrumento capaz de, em condições especiais e com medidas corretas, eventualmente, corrigir as flutuações do emprego e da produção, quando os agentes sociais congelam diante da incerteza absoluta.

É importante entender que essa incerteza não é do tipo do risco atuarial, que tem uma história e ao qual pode aplicar-se o cálculo das probabilidades. É a incerteza essencial à qual se referia Keynes, do tipo: o que será a eurolândia daqui a cinco anos? É a incerteza produzida pelo fato que o passado não tem qualquer informação sobre o futuro. Alguém acha que o destino da União Monetária Latina no século XIX pode nos informar como terminará a União Econômica Europeia no século XXI?

Quando isso acontece, destrói-se a "rede" social, porque desaparece o seu elemento essencial: a confiança mútua. Termina instantaneamente o crédito interbancário e com ele destrói-se parte da demanda global do setor privado. Para sustentar o nível de emprego e de renda, só resta tentar substituí-la pela demanda pública. O consumo é a parte mais importante da demanda e mais resistente à flutuação do PIB principalmente pelas medidas anticíclicas da política fiscal. O investimento é menor, mas é mais volátil, porque depende da expectativa do futuro e da possível taxa de retorno (o lucro esperado) que são mortalmente atingidos pela incerteza.

Nessa circunstância, só o investimento público pode socorrer a economia, porque ele amplia a demanda e, ao mesmo tempo, a capacidade produtiva. Para não comprometer o equilíbrio fiscal, o melhor é realizá-lo através do setor privado, com concessões e parcerias com taxas de retorno adequadas e descentralizá-lo para obter um efeito mais rápido e generalizado, como parece ser a atual tentativa de cooptação dos Estados e dos municípios.

Pressões - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 31/07


Nos últimos dias têm sido feitas tantas tentativas de adiar o julgamento do mensalão que fica claro que o que querem os réus é mesmo não serem julgados, contando com a prescrição de seus crimes.

Eum sinal de que fez bem o Supremo Tribunal Federal em não desmembrar o processo, pois, sendo a última instância de nosso sistema judiciário, a decisão que sair de seu plenário é irrecorrível.

Se, com todos os cuidados tomados pelo relator Joaquim Barbosa para não atrasar o processo, ele levou cinco anos para chegar ao julgamento, imagine se a maioria dos processos estivesse tramitando a começar pela primeira instância do Judiciário.

Isso sem falar da tentativa rasteira de colocar sob suspeição o ministro Gilmar Mendes, incluindo-o em uma lista forjada de beneficiários do mensalão mineiro. Manobra tão primária que o suposto autor da lista, o empresário Marcos Valério, negou sua autenticidade em nota oficial.

A mais recente manobra da defesa é o pedido de vista do processo pelos advogados Márcio Thomaz Bastos e José Carlos Dias, sob a alegação de que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, enviou na última semana um documento aos 11 ministros do Supremo ao qual a defesa dos réus não teve acesso.

Os advogados usam a justificativa de que a defesa tem a última palavra e precisam tomar conhecimento do que diz Gurgel para apresentar o contraditório.

Vários advogados consultados, no entanto, consideraram a manobra meramente procrastinadora, com pouquíssimas chances de ser acolhida.

O memorial que o procurador-geral Roberto Gurgel enviou aos ministros não é anexado aos autos e, portanto, não é um “novo documento” que precise ser analisado.

É comum os advogados fazerem tais memoriais às vésperas dos julgamentos, para facilitar o trabalho dos juízes, razão também alegada por Gurgel.

Um advogado lembra que todos os réus do mensa-lão fizeram seus memoriais e os distribuíram não apenas aos juízes do Supremo, mas também a diversos advogados e formadores de opinião.

O do ex-tesoureiro Delúbio Soares foi feito pelo advogado Arnaldo Malheiros. Já o ex-ministro José Dirceu, acusado pela Procuradoria Geral da República de ser o “chefe da quadrilha” tem 16 páginas em papel cuchê.

Antes da tentativa dos advogados dos réus, outros cinco advogados de São Paulo, ligados ao PT, mas sem atuação direta no caso, haviam enviado à presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, um manifesto no qual defendem que é inoportuno julgar a ação do mensalão durante o período eleitoral, alegando “desequilíbrio, em desfavor dos partidos envolvidos’,’ pelo fato de que as sessões do Supremo serão televisionadas, e o assunto será tema dos meios de comunicação justamente durante a campanha eleitoral.

Como o assunto já foi, por óbvio, devidamente analisado pelo plenário do Supremo, que não viu impedimento para marcar o julgamento a começar nesta quinta-feira, dia 2, esse é outro movimento que se destina mais a pressionar o Tribunal do que a ter efeito prático.

Outra pressão externa sobre o Supremo veio nada menos que do Tribunal de Contas da União. Surpreendentemente, com base em uma lei aprovada em 2010 e às vésperas do início do julgamento do mensalão, a ministra do TCU Ana Arraes (ex-deputada federal e mãe do governador de Pernambuco, Eduardo Campos) reverteu uma decisão anterior do próprio TCU e considerou legais os contratos da agência de publicidade DNA, empresa de Marcos Valério, com o Banco do Brasil, mesmo não tendo o empresário mineiro devolvido os “bônus de volume” como previsto.

Para o advogado de Marcos Valério, Marcelo Leonardo, a nova decisão do TCU, atestando a legalidade da apropriação do bônus, deve ser analisada pelos ministros do STF.

O TCU havia constatado anteriormente que a agência de Marcos Valério não fazia o repasse dos “bônus” ao Banco do Brasil, embora essa obrigação estivesse estipulada em contrato, dando prejuízo aos cofres públicos de mais de R$ 106 milhões.

Esse dinheiro era uma das fontes do valerioduto que financiou o mensalão. O objetivo da lei aprovada cinco anos depois do fato acontecido é justamente legalizar a posse desse dinheiro pela agência de publicidade e tentar descaracterizar o uso do dinheiro público no esquema do mensalão.

A manobra é tão acintosa que o próprio procurador do TCU está recorrendo contra a decisão. Como o TCU é um órgão auxiliar do Congresso, e não um membro do Poder Judiciário, essa manobra caracteriza-se como uma jogada político-partidária e provavelmente não terá efeito direto na decisão dos juízes do Supremo.