quarta-feira, junho 27, 2012

Ueba! Timão invade Argentina! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 27/06

Se o Corinthians ganhar, a gente fica com as Malvinas? Se o Corinthians ganhar, eu vou morar nas Malvinas!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Manchete do dia: "Corinthians invade Buenos Aires". Vai dar merda! Rarará! E esta: "Corintiano fã de Riquelme batiza filho com nome do meia e agora faz mandinga". Isso que é zica! Rarará!
É hoje! Que os mano infarta! Bota helicóptero da Incor de plantão! A zona leste vai ter um piripaque. Boca x Meia Boca! E uma pergunta: se o Corinthians ganhar, a gente fica com as Malvinas? Aliás, se o Corinthians ganhar, eu vou morar nas Malvinas. É pra lá que eu vou me mudar. Rarará!
E se o Boca ganhar? Se ganhar, eles ficam com os corintianos? FICAM! Rarará! E olha um corintiano no meu Twitter: "Não tem boca nem perna nem olho nem pinto pra tirar esse título do Corinthians!". Ueba!
E a verdadeira seleção da Argentina. Hoje a Argentina entra em campo com: Maricones, Boludo, Quilmes e Chorizo. Alfajor, Tango, Perón e Verón. Palermo, Babaco e Panaco! Rarará!
O máximo da implicância de brasileiro com argentino é este e-mail de um leitor: "Meu filme predileto é 'Tropas Estelares'. Porque logo no início o cara fala: 'Buenos Aires foi totalmente destruída'". Rarará!
E eu já disse que um amigo meu não está nem pessimista nem otimista, está peronista: vai torcer pra Argentina! E o Paraguai? E o novo presidente do Paraguai: Franco. Franco-atirador! Rarará! E um cara no meu Twitter disse que já tem camelô vendendo constituição, diploma de deputado e faixa presidencial, tudo direto do Paraguai! Faixa presidencial na faixa! Diz que o Paraguai tá dando faixa presidencial na faixa! Rarará!
E essa manchete do Twitteiro: "China tenta comprar Paraguai pelo eBay, mas tem proposta recusada por falta de garantia!". Rarará! E esta: "Paraguai muda diretor de Itaipu e ameaça vender menos energia para o Brasil". Então muda de nome também: ItaiFU! Rarará! E a manchete do Piauí Herald: "Crise paraguaia! Sarney anuncia apoio a Franco e Lugo!". Rarará!
E como diz o chargista Frank: "tem jeito de golpe, tem cheiro de golpe, mas não é golpe". E esta: "Ministro das Finanças da Grécia, Vassili Rapanos, passa mal e renuncia". Você não faria o mesmo? Se me entregassem as finanças da Grécia, eu faria o mesmo! Vomitava e renunciava! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza! Hoje só amanhã!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Inadimplência subiu de elevador, mas vai descer de escada - LUIZ RABI


O ESTADO DE S. PAULO - 27/06

O patamar recorde da inadimplência bancária reside na escala da vertiginosa e, até agora, ininterrupta, da inadimplência dos consumidores, a qual atingiu 8% em maio. Não é a primeira vez que a inadimplência dos consumidores se eleva no Brasil. Desde a virada do século, este é o quarto ciclo de alta. Mas é o primeiro que ocorre em meio a reduções contínuas da taxa de desemprego. Por que tal paradoxo? Por causada"overdose" de endividamento de 2010.

Segundo levantamento da Serasa Experian, 45% das pessoas que buscaram crédito nas financeiras de veículos e empresas de leasing em 2010, tinham mais de 50% de chance de se tornarem inadimplentes. Nos bancos e financeiras com foco em varejo e também nos consórcios, o porcentual dessas pessoas na mesma situação de risco era de 39%. Não poderia dar em outra coisa! No fim de março deste ano, 64% das pessoas que estavam negativa das na Serasa Experian por dívidas no sistema financeiro e/ou crediários no varejo tinham um montante de compromissos vencidos e não pagos superior a 100% de sua renda mensal, a pior configuração dos últimos dois anos.

Entretanto, há algumas luzes no fim do túnel. Segundo o próprio BC, os atrasos (dívidas vencidas entre 15 e 90 dias) de maio/12 (6,7%) foram os menores dos últimos três meses;o volume de dívidas negativadas na Serasa Experian está desacelerando na comparação interanual; os bancos estão mais rigorosos na concessão de novos créditos; e o porcentual de cheques devolvidos, sazonalmente ajustado, foi menor em abril/ maio de 2012 do que os picos verificados em outubro/novembro de 2011.

Embora ainda incipientes, são sinais de que o cenário da inadimplência deverá ser mais favorável no segundo semestre do que o dos dias atuais, salvo agravamento "à lá 2008" do cenário internacional. Mas, como agora houve um desequilíbrio patrimonial dos consumidores mais intenso pelo excesso de endividamento, a normalização dos níveis de inadimplência será bem mais lenta quedas ocasiões anteriores. Desta vez, a inadimplência subiu de elevador, mas vai descer de escala.

A Petrobrás sem Lula - ROLF KUNTZ


O Estado de S.Paulo - 27/06


O toque de realismo, a melhor parte do novo plano de negócios da Petrobrás, pode ter mais que um significado econômico. Se for levado a sério pelo próprio governo, mostrará o caminho para uma gestão mais séria, mais comprometida com o longo prazo e menos propensa ao ilusionismo e à mistificação da Era Lula. Soou como promessa de novos tempos a insistência do diretor financeiro, Almir Barbassa, em relação à paridade dos preços internos com os internacionais. A presidente da estatal, Graça Foster, reforçou essa mensagem. A revisão dos cronogramas e metas, o reconhecimento dos problemas de produção e a avaliação crítica do projeto da Refinaria Abreu e Lima serão mais um marco importante na história da empresa, se os próximos passos forem compatíveis com esse discurso. A presidente Graça Foster ainda manifestou a esperança de ver realizada a associação com a PDVSA naquela refinaria, mas essa ressalva pode ter sido apenas diplomática. O custo do projeto foi revisto de US$ 13,4 bilhões para US$ 17 bilhões. Sua primeira unidade só deverá entrar em operação em 2014, com um ano de atraso em relação à última previsão. A participação venezuelana, até agora, foi nula.

O caso da Abreu e Lima é um claro exemplo de como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva misturou objetivos ideológicos, partidários, pessoais e econômicos em seus oito anos de exercício direto do poder. O adjetivo "direto" é justificável. Lula deixou o Palácio do Planalto, mas impôs vários ministros a sua sucessora e nunca renunciou de fato à interferência na administração federal. A maior parte daqueles ministros caiu de podre, no meio de escândalos indisfarçáveis, mas nem isso eliminou a influência do ex-presidente. Apesar disso, a presidente Dilma Rousseff demonstra, talvez contra a própria inclinação, crescente dificuldade para realizar sua tarefa sem abandonar a incômoda herança deixada por seu antecessor e mentor.

Parte desse legado é a aliança com o presidente Hugo Chávez para a construção de uma refinaria em Pernambuco. Esse compromisso resultou daquela mistura de objetivos. A associação deveria servir às ambições - jamais concretizadas - de influência regional do presidente brasileiro. Em pouco tempo ficou evidente o risco de só a Petrobrás custear o projeto, porque nem o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aceitou as garantias oferecidas pela PDVSA. Mas Brasília insistiu na aventura.

A mudança no plano de negócios da Petrobrás e os comentários da presidente Graça Foster evidenciam um limite: tornou-se impossível insistir, sem graves consequências, num estilo de gestão irrealista, moldado segundo as concepções e ambições do presidente Lula. A crítica, no entanto, só avançou até certo ponto. A presidente Graça Foster ainda se arriscou na defesa da política de conteúdo nacional mínimo.

Essa política, no entanto, é apenas uma das manifestações de um padrão desastroso de governo. Pesquisar, extrair, refinar petróleo e distribuir derivados já são tarefas imensamente complexas. Essas tarefas se tornam ainda mais difíceis quando se inclui na agenda a exploração de reservas profundas como as do pré-sal. Apesar disso, o presidente Lula decidiu converter a Petrobrás em instrumento de política industrial, impondo mais um peso à sua administração e mais custos aos projetos desenvolvidos pelo grupo - além, é claro, de continuar subordinando a gestão dos preços de combustíveis à política de controle da inflação. Ninguém deve surpreender-se quando a multiplicação de funções e de alvos prejudica o negócio central de uma empresa.

Ao impor seus objetivos à Petrobrás, o presidente Lula combinou sua vocação autoritária (revelada também nas tentativas de comandar a Vale e a Embraer) com a tendência à busca dos caminhos mais fáceis. É muito mais simples criar reservas de mercado, índices mínimos de nacionalização e barreiras comerciais do que imaginar e executar uma política de produtividade e competitividade. Além disso, uma política sadia é incompatível com uma administração aparelhada, com o desperdício de recursos públicos e com a irracionalidade tributária.

A presidente Dilma Rousseff continua fiel à maior parte dessa herança, como comprovam sua política protecionista e sua insistência em maquiar com o financiamento habitacional os balanços do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Mas a revisão da estratégia da Petrobrás pode ser um início de mudança. Há poucos dias, a presidente previu uma visita do Inexorável da Silveira à zona do euro e a consequente adoção de políticas mais eficientes de ajuste e de crescimento. Talvez o sr. Silveira tenha dado uma rápida passada por Brasília.

Luz amarela - MÍRIAM LEITÃO


O GLOBO - 27/06

Se forem somadas todas as diferenças e peculiaridades, ainda assim é preciso ter atenção ao crescimento do crédito e da inadimplência no Brasil. O país é sólido, o crédito imobiliário é pequeno, os imóveis sobem porque há demanda, e não por especulação. Ainda assim, sistematicamente o total de pessoas que atrasam seus pagamentos tem crescido e o governo ainda aposta na ampliação do crédito.

Pela primeira vez o total do crédito passou de 50% do PIB, pela nota divulgada ontem pelo Banco Central. Isso é muito para a nossa história, é pouco quando comparado com outros países. O que mais impressiona é a rapidez de crescimento. Em menos de dez anos saiu de 20% para 50,1% do PIB o total de dívida das empresas e das pessoas.

O Banco Internacional de Compensações (BIS) fez um alerta cuidadoso que o Brasil deveria ouvir. Mas há pouca esperança. As autoridades, inclusive as que deveriam zelar pela parcimônia do crédito, estão convencidas que assim é que turbinarão o PIB.

De abril a maio, a expansão foi puxada pelos bancos públicos, cujos empréstimos representavam 21,9% do PIB e agora são 22,3%. Do total do crédito brasileiro, 44,6% foi concedido por bancos estatais. Os bancos nacionais privados têm participação de 19,2%, e os internacionais, 8,5%, no crédito em relação ao PIB. Isso quer dizer 38,4% e 17% do total de crédito concedido, respectivamente.

O estoque de crédito inadimplente, com atraso acima de 90 dias, subiu para R$ 81 bi, com alta de 2,4% de abril a maio. Segundo a informação do Banco Central, a inadimplência da pessoa física chegou a 8% e cresce no cheque especial, no consignado e nos empréstimos para aquisição de bens. A inadimplência em veículos bateu novo recorde. O número parece pequeno, 6,1% do total, mas no começo do ano passado era de 2,6%.

A maioria dos dados de empréstimo e inadimplência mostraram crescimento em maio, em relação a abril. E a série recente é de crescimento contínuo. O crédito é cada vez maior, e as famílias estão cada vez mais endividadas.

Tudo parece o enredo que levou outros países para crises das quais ainda não saíram. Mas não é exatamente. O Brasil não cometeu os excessos cometidos em outras economias, não criou as exóticas criaturas que esconderam o grau de risco dos papéis vendidos ao mercado, e tem medidas prudenciais mais rígidas.

As previsões de crescimento estão minguando, mas ainda assim o mercado de trabalho está aquecido, a inflação está caindo, e os juros, dimi nuindo. Isso mantém a capacidade de pagamento do devedor. Com trabalho e mais renda disponível — pela queda da inflação e de custos financeiros — há menos risco de haver crise de crédito, como a de outros países.

Uma notável diferença é o mercado de crédito imobiliário para pessoas físicas, que é de apenas 5,3% do PIB, aqui. Mas o que espanta é o ritmo de crescimento: alta de 41,9% em 12 meses. O que os especialistas garantem é que, depois de tanto tempo sem crédito para compras de imóveis, esse aumento é natural, saudável, sustenta o crescimento. Garantem também que a valorização dos imóveis — que em algumas cidades afronta o senso comum e desafia comparações internacionais — é apenas resultado da demanda e não de manobras especulativas alimentadas por crédito baixo.

O Brasil tem mostrado uma capacidade grande de resistir a essa persistente deterioração externa. O PIB está com queda no ritmo de crescimento, mas ninguém acha que há o risco iminente de contágio pelas turbulências enfrentadas nos outros países.

Nem por isso o país deveria continuar apostando no aumento do crédito como elemento central da elevação do ritmo de crescimento. A inadimplência da pessoa física tem números que assustam. O atraso no cheque especial subiu para 11,3% e está em dois dígitos desde outubro de 2011. Ficar devendo nessa modalidade significa comprometer uma parte maior da renda com o pagamento de juros e correr riscos de ter que governar uma bola de neve. Mesmo com a queda do custo em alguns bancos, esse é o dinheiro mais caro do mercado. Na aquisição de outros bens que não veículos, o atraso de 90 dias é de 13,9%.

O percentual de atraso no crédito total é baixo, 3,8%, mas isso porque aí engloba-se o crédito direcionado, no qual a inadimplência é mesmo baixa. No crédito livre, o total inadimplente é de 6%.

O governo aposta nas diferenças entre o mercado de crédito do Brasil com o mundo para continuar com seu estímulo ao endividamento. Mas a avaliação externa é de que algumas semelhanças começam a se formar.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 27/06


Varejista faz estudo contra desindustrialização

A Abvtex (Associação Brasileira do Varejo Têxtil) começou a entregar a diversas autoridades do governo federal um estudo que questiona a existência de desindustrialização no setor.

A entidade é contra a elevação de impostos de importação às peças de roupas que vêm do exterior para serem vendidas nas grandes redes de varejo de moda.

Entre os argumentos levantados pelo estudo, a Abvtex afirma que, entre 2006 e 2010, a produção da indústria de confecções passou de US$ 29,3 milhões para US$ 56,7 milhões. Para a entidade, a maior parte da importação não é representada por peças confeccionadas, mas por tecidos, fios e fibras importados pela indústria têxtil e não pelo varejo.

"O grande volume da pauta de importação é insumo. O número de empresas de confeccionados cresce muito", diz Cleide Longo, da entidade.

O presidente da associação que reúne a indústria têxtil, a Abit, Aguinaldo Diniz Filho, discorda. O volume de empresas de confecções só é crescente no Brasil porque os empresários abrem novos CNPJs para manter suas operações no regime de tributação simplificada.

"As peças da China são muito mais baratas. Não dá para competir com o preço de mão de obra e impostos do que se produz lá. Eu gostaria de um dia poder ver uma empresa chinesa atuando aqui, ao nosso lado, sob as mesmas condições", afirma.

Bancos ainda enviam cartão sem pedido dos clientes

Apesar de menos frequente do que na década de 1990, bancos ainda enviam cartões de crédito sem o consentimento dos clientes.

"É uma ação abusiva. Os bancos foram muito agressivos para ganhar mercado. Com as multas, esse tipo de caso diminuiu, mas ainda acontece" diz Selma do Amaral, diretora do Procon-SP.

As multas podem variar de R$ 400 a R$ 6 milhões e o valor estabelecido é destinado à Fundação Procon.

"Se um gerente envia cartão sem pedido, ele é demitido. Os bancos pararam de fazer isso pelas multas e a imagem ruim que causava", diz Fernando Malta, diretor de operações do Itaú Unibanco.

Em 2011, o Procon-SP recebeu 13,7 mil reclamações de cobrança indevida em cartão de crédito, que inclui, além do recebimento de plásticos não solicitados, transações não identificadas pelos clientes.

O Itaú Unibanco foi responsável por 2.378 casos. A liderança está relacionada com o maior número de clientes, afirma o banco.

Em seguida aparece o Bradesco, que tem 93,8 milhões de cartões de crédito e recebeu 1.648 queixas. Em nota, o banco se disse "atento" para "corrigir eventuais falhas".

A Folha recebeu reclamação de ex-cliente do HSBC que diz ter sido vítima dessa prática por duas vezes. O banco afirma seguir as normas, mas que "fará uma completa verificação em seus processos de emissão de cartões, de modo a avaliar possíveis falhas".

OTIMISMO LATINO

Diretores do Bank of America Merrill Lynch e do Citi em Londres e em Miami afirmaram ontem no Rio que estão otimistas com a América Latina apesar da crise.

Para Juan Pablo Cuevas, responsável pela tesouraria de América Latina e Caribe no Bank of America Merrill Lynch, é surpreendente a "virada" de emergentes.

"Nos tornamos um mercado mais sofisticado e maduro [comparativamente]. A oportunidade está aqui. Temos de lembrar que investidores estão sempre procurando crescimento, e na América Latina ele vai continuar", afirmou Cuevas.

"A maior preocupação, porém, é quão rápido pode ser a desaceleração na China", acrescenta.

A capacidade para absorver choques está na região, disse Fernando Iraola, que exerce função correspondente à de Cuevas no Citi.

"Há um equilíbrio fiscal maior. Mesmo países com deficits são administráveis. Emergentes latinos estão agindo como os desenvolvidos anos atrás. Não é só

portfólio, a região tem tido investimento direto há anos."

A conferência foi realizada pela Swift (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), que reúne 10 mil instituições financeiras e empresas.

DERIVATIVO

A terceira turma do Superior Tribunal de Justiça rejeitou ontem, por unanimidade, o recurso da Sadia na ação movida pela companhia para responsabilizar seu ex-diretor financeiro Adriano Ferreira como responsável pelos prejuízos que teve em operações com derivativos durante a crise financeira internacional de 2008.

A empresa recorria de uma decisão anterior do Tribunal de Justiça de São Paulo favorável a Ferreira.

SÓCIO DO CÉU

Dez empreendedores apresentam hoje seus projetos a 22 "investidores anjos", representantes do BNP Paribas, Bovespa, Fundo Soberano de Cingapura, Gávea Angels, Coteminas, entre outros.

As três melhores iniciativas receberão aportes de até R$ 1 milhão. Os avaliadores são chamados de "investidores anjos" por estarem dispostos a serem sócios das empresas e não pedirem juros sobre o valor investido.

Os critérios de escolha são inovação, impacto econômico e plano de negócios realista, de acordo com a Fiesp, organizadora do evento.

Transição Mesmo após deixar, na última sexta, sua posição no conselho de administração do Grupo Pão de Açúcar, Ana Maria Diniz, filha de Abílio, esteve presente a reuniões de comitê da empresa ontem em São Paulo.

Hora da verdade na Petrobrás - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 27/06


Há duas grandes novidades no plano de negócios anunciado pela presidente da Petrobrás, Graça Foster, para o período de 2012 a 2016. Em primeiro lugar, as novas metas e os cronogramas são mais realistas que os apresentados nos planos anteriores. A produção nacional de petróleo, por exemplo, deverá chegar a 2,5 milhões de barris diários em 2015, meio milhão abaixo da previsão adotada até o ano passado. Em segundo lugar, o novo planejamento consagra uma visão crítica dos padrões da administração passada e implantados no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Desde o início da gestão petista, como indicou a presidente da empresa, a Petrobrás jamais conseguiu alcançar as metas fixadas. Mais de uma vez, durante sua exposição, ela mencionou o apoio do "controlador" - isto é, do governo Dilma Rousseff - aos novos critérios.

Uma das condições agora levadas em conta é a convergência dos preços cobrados internamente com os preços internacionais dos combustíveis. Esse ponto foi ressaltado tanto pelo diretor financeiro, Almir Barbassa, quanto pela presidente da estatal. O recém-anunciado aumento dos preços da gasolina (7,8%) e do óleo diesel (3,9%) ficou abaixo do considerado necessário por muitos analistas. A diferença foi mal recebida no mercado de capitais e segunda-feira as ações da empresa caíram mais de 8% na bolsa, queda maior que a de novembro de 2008, no pior momento da crise financeira. Prevaleceu entre os investidores, mais uma vez, a visão de curtíssimo prazo. Se a nova administração agir de acordo com os critérios indicados na apresentação do plano, o crescimento da Petrobrás será mais seguro do que seria com os padrões dos últimos nove anos.

Para realizar os investimentos de US$ 236,5 bilhões previstos no plano de negócios a empresa precisará de preços mais realistas e, portanto, novos aumentos serão necessários, como deixaram claro os diretores da estatal. O compromisso com resultados também foi reforçado. Isso explica a revisão de cronogramas, como o do complexo petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e de outras refinarias.

Pela nova previsão, a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, só começará a funcionar em 2014, com atraso de um ano am relação à data prevista no último planejamento. O custo passará de US$ 13,4 bilhões para US$ 17 bilhões. A associação negociada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o colega venezuelano, Hugo Chávez, até agora deu em nada. Nenhum centavo foi pingado pela PDVSA. A presidente Graça Foster mantém, segundo afirmou, a esperança de ver concretizada a participação venezuelana. No entanto, ela mesma descreveu esse projeto como um exemplo a ser analisado para nunca se repetir.

Erros desse tipo só serão evitados, no entanto, se o governo brasileiro abandonar os padrões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele usou a Petrobrás para seus objetivos políticos no Brasil e no exterior. A aliança com o presidente Chávez é parte dessa história, assim como sua reação mansa e cordata quando instalações da empresa foram ocupadas militarmente na Bolívia.

Curiosamente, a nova presidente da Petrobrás defende a política de conteúdo nacional para os equipamentos comprados pela empresa. Essa política, segundo ela, atende às necessidades da empresa. Os riscos, no entanto, são tão evidentes quanto o erro de fazer da Petrobrás, uma das maiores petroleiras do mundo, um instrumento de política industrial. Em março, a presidente Graça Foster declarou-se preocupada com os atrasos na entrega de navios encomendados ao Estaleiro Atlântico Sul e com problemas tecnológicos.

O primeiro navio encomendado a esse estaleiro, o petroleiro João Cândido, foi lançado pelo presidente Lula em maio de 2010. Quase afundou, passou por reformas e só foi entregue dois anos mais tarde. Política industrial baseada em favorecimento e voluntarismo dá nisso. Se reconhecerem esse fato, a presidente Dilma Rousseff e sua amiga Graça Foster talvez consigam se livrar - e livrar o País - de alguns dos piores costumes consagrados no governo anterior, como o aparelhamento da administração, o voluntarismo, o favorecimento a grupos econômicos e a mistificação populista.

Realismo na Petrobrás - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 27/06


Como a oposição - se é que ela existe - não vem sendo capaz de produzir um mínimo de crítica à política econômica do governo do PT, foi preciso que a própria diretoria da Petrobrás tomasse a iniciativa de apresentar a mais contundente denúncia das derrapadas administrativas registradas nos oito últimos anos da Petrobrás.

Foi o que fez segunda-feira a atual presidente, Graça Foster. Ela admitiu que a diretoria anterior, presidida pelo baiano José Sérgio Gabrielli, foi marcada pela falta de realismo na definição de metas de produção e pela leniência com que acompanhou os cronogramas dos investimentos. Além disso, apontou falta de cumprimento da sistemática de aprovação de projetos importantes e sugeriu a ocorrência de indisciplina na empresa, sabe-se lá em que proporção.

As obras da Refinaria Abreu e Lima, no Estado de Pernambuco, estão com atraso de três anos. Foram orçadas em US$ 2,3 bilhões em 2005 e não sairão por menos de US$ 20,1 bilhões, quase dez vezes mais. "É uma história a ser aprendida, escrita, lida pela companhia, de tal forma que não seja repetida", disparou Graça Foster. Ela não foi complacente com graves falhas de gestão do projeto do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Coperj), também atrasado e sem nova data para entrar em operação.

Em boa parte, esse desleixo administrativo é consequência da opção determinada ao longo do governo Lula que encarou a Petrobrás como território de aparelhamento partidário e loteou sua diretoria entre os próceres de sua base política. Nessas condições, é impossível evitar desvios de patrimônio público.

O governo Dilma pretende dar racionalidade administrativa ao setor do petróleo. Mas o faz pela metade e não desiste das ingerências. Como esta Coluna avançou na edição de ontem, este governo está sendo incapaz de definir uma política coerente para a Petrobrás e para os preços dos combustíveis. Até agora não se sabe se o objetivo é dar continuidade às práticas populistas de combater a inflação por meio da manipulação do caixa da Petrobrás; se é ajudar a política industrial por meio de imposições de quocientes de conteúdo local na encomenda de equipamentos; ou se é observar um mínimo de capacidade de investimento da empresa de modo a puxar o crescimento econômico e a criação de empregos.

Graça Foster insiste agora em que é preciso uma "administração realista", algo que nunca deveria ter sido deixado para trás. No entanto, não dá para acreditar que prevaleça uma "administração realista" enquanto não for restabelecido o realismo dos preços. A Petrobrás continua vendendo de 6% a 10% da gasolina consumida no mercado interno a preços mais baixos do que ela paga no mercado internacional. E a administração da empresa não consegue do governo Dilma a observância de critérios de paridade aos preços internacionais.

Convém observar que o critério de preços tem de valer tanto na alta como na baixa. E, se for verdade que as cotações internacionais de petróleo podem despencar de volta para o nível dos US$ 60 por barril, um grande número de investimentos da Petrobrás poderá ficar inviável. Isso significa que não basta uma administração realista de preços; tem de ser também uma administração austera.

Não é à toa que a Petrobrás vale hoje no mercado apenas 70% do valor patrimonial registrado em seus livros.

Calamidade - ANTONIO DELFIM NETTO


FOLHA DE SP - 27/06

Vamos tratar, nesta coluna, de um assunto triste e assustador. Triste porque reduz a fundamental e necessária respeitabilidade do Legislativo, do qual se espera: 1) a aprovação de Orçamentos apropriados para estimular o desenvolvimento social e econômico do país; 2) a fiscalização rigorosa de sua execução.

Assustador porque revela o descuido com que o Executivo acompanha o trânsito das medidas propostas no Congresso que podem comprometer o equilíbrio fiscal e que, de "mansinho", vão atravessando as comissões até se tornarem sérios problemas de plenário -cujo controle vai exigir um enorme esforço da maioria governamental e que sempre termina em onerosas concessões segundo o axioma moral do Legislativo: "Quem senta à mesa, tem que negociar".

A Comissão Especial da Câmara aprovou uma misteriosa proposta de emenda constitucional que, praticamente, destitui o Poder Executivo. Termina com os tetos salariais e os controles que limitam o aumento indiscriminado da remuneração do funcionalismo público. Completa, assim, a grande missão dos sindicatos do setor em Brasília: de servidores do público, pretendem ser servidos pelo público!

Um amigo que conhece como funciona o Congresso me afirmou que tal "barbeiragem" da assessoria legislativa do Executivo não coloca em risco, de fato, o equilíbrio fiscal. É apenas uma mensagem, provavelmente eivada de irregularidades regimentais. Foi aprovada enquanto todos estavam voltados para a Rio+20 e às vésperas das festividades de São João, que pretere todos os outros compromissos.

Nenhum membro da maioria esteve presente para pedir "verificação de votos". Um bom assunto para a imprensa seria divulgar a ata da reunião da Comissão Especial para que toda a nação tome conhecimento dos argumentos dos espertos fautores para si mesmos, por intermédio do funcionalismo, à custa dos bolsos dos seus próprios eleitores!

Tomado de surpresa, o Executivo vai agora se organizar para repelir a absurda proposição que, se aprovada, nos levaria à situação de completo desequilíbrio fiscal, com consequências imediatas: uma elevação do "risco Brasil", um aumento da taxa de juros real, um aumento do custo da dívida pública interna e externa, além de desestabilizar as "expectativas" inflacionárias. Tudo aquilo que tentamos corrigir nos últimos anos.

A proposta é lenha para a fogueira que está sendo armada pelo sindicalismo encastelado em Brasília: uma reivindicação generalizada de exagerados aumentos salariais. O funcionalismo e suas viúvas precisam ser adequadamente remunerados, mas é claro também que os recursos para atendê-los têm seus limites nos bolsos dos eleitores...


A leviana diplomacia do espetáculo - ELIO GASPARI

O GLOBO - 27/06

Poucas vezes a diplomacia brasileira meteu-se numa estudantada semelhante à truculenta intervenção nos assuntos internos do Paraguai. O presidente Fernando Lugo foi impedido por 39 votos a 4, num ato soberano do Senado. Nenhum soldado foi à rua, nenhuma linha de noticiário foi censurada, o ex-bispo promíscuo aceitou o resultado, continua vivendo na sua casa de Assunção e foi substituído pelo vice-presidente, seu companheiro de chapa. Nada a ver com o golpe hondurenho de 2009, durante o qual o presidente Zelaya foi embarcado para o exílio no meio da noite.

Quando começou a crise que levou ao impedimento de Lugo, a diplomacia de eventos da doutora Dilma estava ocupada com a cenografia da Rio+20. Pode-se supor que a embaixada brasileira em Assunção houvesse alertado Brasília para a gravidade da crise, mas foi a inquietação da presidente argentina Cristina Kirchner que mobilizou o Brasil. A doutora achou conveniente mobilizar os chanceleres do Unasul, uma entidade ectoplásmica, filha da fantasia do multilateralismo que encanta o chanceler Antonio Patriota.

As relações do Brasil com o Paraguai não podem ser regidas por critérios multilaterais. Foi no mano a mano que o presidente Fernando Henrique Cardoso impediu um golpe contra o presidente Juan Carlos Wasmosy em 1996. Fez isso sem espetacularização da crise. A decisão de excluir o Paraguai da reunião do Mercosul é prepotente e inútil. Quando se vê que o presidente Hugo Chavez, da Venezuela, cortou o fornecimento de petróleo ao Paraguai e que a Argentina foi além nas suas sanções, percebe-se quem está a reboque de quem. Multilateralismo no qual cada um faz o que quer é novidade. Existe uma coisa chamada Mercosul, banem o Paraguai mas querem incluir nele a Venezuela, que não está na região e muito menos é exemplo de democracia. Baniu-se o Paraguai porque Lugo foi submetido a um rito sumário. O impedimento seguiu o rito constitucional. Ao novo governo paraguaio não foi dada sequer a palavra na reunião que decidiu o banimento.

Lugo aceitou a decisão do Congresso e agora diz que liderará uma oposição baseada na mobilização dos movimentos sociais. Direito dele, mas, se o Brasil associa-se a esse tipo de política, transforma suas relações diplomáticas numa espécie de Cúpula dos Povos. Vai todo mundo para o Aterro do Flamengo, organiza-se um grande evento, não dá em nada, mas reconheça-se que se fez um bonito espetáculo.

O multilateralismo da diplomacia da doutora Dilma é uma perigosa parolagem. Quando ela se aborreceu, com razão, porque um burocrata da Organização dos Estados Americanos condenou as obras da hidrelétrica de Belo Monte, simplesmente retirou do fôro o embaixador brasileiro. A OEA é uma irrelevância, mas, para quem gosta de multilateralismo, merece respeito.

A diplomacia brasileira teve um ataque de nervos na Bacia do Prata. O multilateralismo que instrui a estudantada em defesa de Lugo é típica de uma política externa biruta. O chanceler Antonio Patriota poderia ter se reunido com o então vice-presidente paraguaio Federico Franco vinte vezes, mas, se a Argentina queria tomar medidas mais duras, ele não deveria ter ido para uma reunião conjunta, arriscando-se ao papel de adorno.

Mudanças de fachada - HELENA CELESTINO


O GLOBO - 27/06

Tudo muda para nada mudar. O balé diplomático para salvar a Europa recomeça amanhã, mas para os chefes de Estado e governo que na semana passada deram a volta ao mundo participando de reuniões nos mais variados formatos, nem a tradicional foto de família dos encontros ficou na memória. A História se acelerou e poucas vezes tantas eleições foram realizadas quase que simultaneamente e tantas crises espoucaram ao mesmo tempo. Egito? Grécia? G-20? Rio+20? Os resultados de eleições e reuniões de cúpula indicam que são poucas as chances de mudança e, à medida que a crise cresce, os políticos ficam menores.

No Egito, a explosão de gritos e fogos após o anúncio do vitorioso na primeira eleição presidencial pós-Mubarak foi acompanhada de perto por militares entrincheirados em tanques e um forte aparato policial. Metade dos eleitores, inconformada com a obrigação de escolher entre um ex-primeiro-ministro do velho ditador e um retrógrado muçulmano, preferiu a abstenção, especialmente os jovens que fizeram da Praça Tahrir o símbolo da Primavera Árabe. A eleição de um candidato da Irmandade Muçulmana tem, claro, um poder simbólico e político importante para todo o mundo árabe. Mas o partido, ao realizar a ambição perseguida desde sua criação nos anos 20, chega à Presidência com o cargo já moldado para preservar os interesses dos militares, os mesmos que garantiram as três décadas da ditadura Mubarak. A suspeita demora para anunciar o vencedor da eleição deixa a desconfiança de que os resultados foram decididos em negociações a portas fechadas e não só na apuração das urnas, dizem observadores. Na divisão de poderes, os aliados do faraó ainda deverão ficar com os ministérios mais poderosos, como segurança interna e política externa. A luta continua na Praça Tahrir, mas as mulheres já quase não são mais vistas por lá, e os homens têm aquela barbinha de inconfundível corte muçulmano.

Enquanto isso na Grécia, a velha Nova Democracia deu uma espanada na poeira de anos e anos de corrupção com ineficiência, e amanhã o novo governo do velho político Antonis Samaras tentará convencer os líderes europeus de que o país mudou. Conhecido por trocar de posição ao sabor de suas ambições, o novo primeiro-ministro tenta se equilibrar numa corda bamba ao ter de servir a dois senhores: para agradar a seus eleitores, precisa tirar o máximo de concessões de Bruxelas; mas, para ganhar a confiança dos credores externos, tem de botar na mesa um plano econômico consistente.

"A dificuldade maior para mudanças é a falta de ideias e líderes que parem de pensar na próxima eleição e assumam riscos políticos", diz um assessor que estará amanhã no Sommet Européen, a reunião dos 27 países da União Europeia, mais uma vez considerada decisiva para dar futuro à região que já foi a mais rica do planeta.

Desde que a França colocou a faca e seus muitos queijos nas mãos do socialista François Hollande, a correlação de forças no bloco ficou menos humilhante para os países superendividados e afundados na recessão. O coro dos descontentes com as políticas de austeridade a qualquer preço recebeu o apoio interesseiro de Obama - ele também olhando para a eleição de novembro - e até a Alemanha abrandou suas exigências diante da saraivada de reprimendas que recebeu: anunciou um timidíssimo plano para incentivar as economias deprimidas. Pouco, muito pouco, para fazer os cidadãos voltarem a acreditar nos políticos, imobilizados ou transformados em tecnocratas.

"A economia se converteu na única história da Europa. A visão unilateral dos especialistas está se convertendo num perigoso arraso moral", revolta-se o escritor espanhol Jordi Solar.

Até agora silenciosos, os intelectuais lançaram um manifesto - com cerca de 30 assinaturas de escritores e cineastas de nacionalidades diferentes - defendendo que a crise é uma oportunidade para impulsionar a emergência de uma verdadeira cidadania europeia, não limitada à ajuda econômica.

Freada de arrumação - EDITORIAL FOLHA DE SP


FOLHA DE SP - 27/06

Projeções sobre PIB brasileiro não param de cair; economia nacional sofre os efeitos de novas restrições externas e antigas deficiências internas

Caem as projeções para o crescimento do PIB. A última edição do relatório Focus, com a média das opiniões de economistas do mercado colhidas pelo Banco Central (BC), indicou alta de 2,18% no PIB de 2012, contra 3% há um mês.

Já são comuns projeções de 1,5%, ou menos (a depender do desenrolar da crise europeia). Classificadas como "piada" pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, tais projeções já parecem mais críveis que a ministerial, estacionada na vizinhança de irreais 3,5%.

Há muitas razões, externas e internas, para expectativas tão pífias: esgotamento, ainda que temporário, do ciclo de endividamento das famílias; baixo crescimento da produtividade; problemas para alavancar investimentos públicos e privados; infraestrutura pobre; asfixia tributária; e custos de produção muito acima da concorrência.

Nenhum desses problemas é novo, mas, no quadro atual, todos parecem ainda mais limitantes. O crédito, depois de incorporar dezenas de milhões de brasileiros ao mercado, não apenas deixou de ajudar como agora parece atrapalhar o consumo.

Pesquisa recente da Fundação Getulio Vargas mostra que 23,4% das famílias com renda mensal de até R$ 2.100 devem mais da metade do que ganham. A inadimplência superior a 30 dias nesse segmento atinge 19,1%. O BC indica que calotes de pessoas físicas e empresas atingiram 6% do total de empréstimos, novo recorde.

Do lado dos custos, o grande choque ocorreu a partir de 2008, quando o governo federal deu curso a uma política fiscal e salarial expansiva, sem cuidar de remover gargalos que emperram a produtividade. Não é surpresa, pois, que a estagnação da indústria já tenha há muito deixado de ser conjuntural -a produção do setor permanece próxima do nível do final de 2007.

Há também fatores externos. A década de 2000 trouxe grande salto na globalização da produção, com a acelerada incorporação da China no comércio mundial após sua adesão à OMC em 2001. Associada a esse fenômeno houve a explosão de crédito nos países ricos (e na própria China), que agora cobra o seu preço e abala a saúde financeira de bancos e governos.

Nos países emergentes, o impacto crucial se deu sobre os preços de commodities -eles mais que dobraram entre 2002 e 2010. No Brasil, a valorização das exportações trouxe um aumento de renda, que nos momentos mais favoráveis atingiu 2,5% do PIB ao ano. Tal movimento agora cessou.

O mundo todo sofre uma freada de arrumação, cujo efeito deve se prolongar. Para o Brasil fica a lição de que o estímulo ao consumo -como se prevê para algumas das medidas a serem anunciadas hoje- pouco alterará o panorama.

Neste mundo menos exuberante, a disputa pelo que resta de demanda será cada vez mais feroz. O país precisa urgentemente de uma agenda mais ousada, que contemple investimento, educação, inovação e produtividade -as verdadeiras fontes de crescimento perene.

A exaustão do "Estado dependente" de governo - FRANCISCO FERRAZ


O ESTADÃO - 27/06

Creio que estamos ingressando na fase de exaustão de um modelo político que foi implantado pelos governos do PT, a partir de 2003. Este modelo, na medida em que logrou a reeleição de Lula e a eleição de Dilma, conquistou uma permanência no poder que se constituiu num ciclo político.

Não é incomum que governantes, na fase ascensional da conquista do poder e na sua fase de estabilidade,se a ferrem a uma ilusória convicção da perenidade daquela condição.

Situação e oposição no Brasil estão contaminadas por esse sentimento, que determina grande parte de suas ações.Porém nada é permanente na política. Ciclos políticos têm começo, desenvolvimento e fim.

Os sinais que indicam o sucesso de um novo modelo são fáceis de perceber: crescente apoio político, capacidade decisória,popularidade de seus líderes.

Já os sinais da exaustão do modelo político são bem mais difíceis de perceber. É preciso garimpá-los entre os fugidios fatos da conjuntura.

Os sinais evidentes da exaustão de um modelo político não são muito diferentes daqueles que se manifestam num organismo vivo.

A exaustão de um sistema( social ou orgânico) se verifica quando ele passa a exigir quantidades adicionais de esforços e recursos para manter as mesmas condições de existência que antes podia sustentar com menos esforços e recursos. Exaustão de um regime político significa, pois,o esgotamento dos seus métodos, praxis e a prioris para enfrentar desafios que em grande medida se originaram de consequências não intencionadas de suas próprias escolhas. Esse argumento se fortalece quando considera- se que a crescente incapacidade para realizar os objetivos buscados resulta de um tipo de insucesso que se deve ao excesso de poder, e não à falta de poder, como é costumeiro acontecer.

Os governos Lula e Dilma navegaram e navegam índices muito altos de aprovação,folga da maioria no Congresso, sempre dispuseram de recursos orçamentários abundantes, grande simpatia internacional, beneficiaram se de confortável estabilidade econômica e de vultosos investimentos externos. À oposição, que não dispõe de nenhum desses recursos, não pode, pois, ser imputada a responsabilidade para impedir ou dificultar a ação do governo.É preciso, então,buscar dentro do aparato de governo as causas e razões para os impasses causados por suas próprias decisões.

É dessa contradição que decorre o uso crescente de mais recursos para produzir menos, o sinal mais evidente da exaustão.

O modelo vigente desde 2003 tem no Estado a sua âncora política e econômica diante do mercado; o seu recurso estratégico único para empregar a militância e compor maioria legislativa; para a cooptação de empresários fornecedores do setor público; para influir sobre os meios de comunicação; e para a reprodução e leitoral do seu poder político.O Estado, então,é a força e a fraqueza do modelo. A força dispensa demonstração.

A fraqueza escondida se revela quando é franqueado o limite a partir do qual o uso dos poderes do Estado perde sua funcionalidade e a razão para legitimar sua hegemonia diante da sociedade.Acredito que já estejamos dentro desse limite.

São indicadores dessa situação a reduzida capacidade resolutiva do governo para realizar os projetos que anuncia; a "perversa" dinâmica em que os maiores problemas de hoje resultam dos projetos de alta popularidade de ontem; o fato de que os segmentos sociais recém-beneficiados com novas pautas de consumo são frustrados pelas deficiências de infraestrutura, serviços básicos de saúde e educação; e a persistência da violência, criminalidade e impunida de em altos níveis.

São os novos motoristas prejudicados no uso do carro por engarrafamentos, estradas precárias e perigosas e falta de estacionamentos; os novos alunos para universidades sem condições físicas de recebê-los;o parque industrial modernos em a mão de obra qualificada de que depende; e o novo Estado crescentemente paralisado por critérios político-partidários de recrutamento e promoção e pelo desprezo por critérios de mérito e desempenho.

Nada mais emblemático dessa condição de corrida rumo à exaustão do que a própria incapacidade de gastar. Matéria recentemente publicada mostrou que três Ministérios principais responsáveis por obras de infraestrutura - Transportes, Integração e Cidades - só investiram 14,9% do Orçamento (R$ 33 bilhões) até maio de2012.O recurso existe, está no Orçamento, a decisão de usá-lo já foi tomada, a licitação já foi adjudicada, as obras já foram cronogramadas, mas os resultados não aparecem, as inaugurações não ocorrem.Para substituí-las, o governo anuncia novas decisões, novos programa se novos benefícios.

Intenções substituem realizações. A causa dessa situação de esgotamento é a forma de operação do modelo político vigente.

Tais distorções resultam de alguns pressupostos operacionais que,no curto prazo,produzem resultados, mas no médio prazo provocam contradições internas que o incapacitam. Esses pressupostos talvez sejam:

a convicção de que os poderes estatais são os instrumentos mais eficientes para organizar todos os setores da vida social;

o imperativo da centralização administrativa do planejamento, decisão e execução;

e o suposto da abundância de recursos para sustentar a política do sim e o critério partidário para funções administrativas.

O preço apagar por essas escolhas são uma crescente incapacidade administrativa; a escalada da incompetência e da corrupção; e a falta de resolutividade nas ações de governo.Tais limitações, a princípio,não são percebidas pela população, mas,quando provocarem "externalidades" na vida das pessoas comuns, abalarão a confiança e o apoio irrestrito ao governo, a solidez do modelo e, no limite, a continuidade do ciclo que inaugurara.

Essa não é uma situação que se escolha ou se evite. Ela é uma decorrência inafastável e incorrigível de um modelo político que tem na hegemonia do Estado sobre a sociedade seu objetivo, sua fonte de recursos,seu método de ação e sua instrumentalidade.

CLAUDIO HUMBERTO

“Aqui em São Paulo Lula não é pitbull. Não passa de uma Lassie”
Deputado Orlando Morando (PSDB), sobre Lula “morder a canela” dos adversários

DILMA RECUSA PROMOÇÃO A DIPLOMATA DA RIO+20

Laudemar Gonçalves de Aguiar ganhou um mau presente ao completar 52 anos ontem: foi excluído da lista de diplomatas promovidos por Dilma. Ele atendia a todos os requisitos, inclusive de mérito, e estava na fila, mas foi “caroneado” por dois colegas e ficou de fora da lista dos seis promovidos a ministro de primeira classe (embaixador). Laudemar de Aguiar foi o rosto do Brasil na organização da Rio+20.

CASTIGO

O Itamaraty não comenta, mas entende que Dilma preteriu o diplomata em represália aos resultados que considerou pífios obtidos na Rio+20.

ORGANIZAÇÃO

Laudemar, o preterido, não atuou da negociação do documento aprovado pelas nações presentes à Rio+20, apenas na organização.

LA VIE EN ROSE

Laudemar suportará bem a tristeza de não ter sido promovido: ao abrir a porta de casa estará em Paris, onde serve na embaixada do Brasil.

PRÉ-DATADO

Colegas que admiram Laudemar acham que ele pode virar “pré-datado”, com presença certa na próxima promoção do fim do ano.

DF: SÓ 5 DAS 90 OBRAS DO PAC ESTÃO CONCLUÍDAS

As coisas andam tão lentamente no DF que foram concluídas apenas cinco das 90 obras previstas no Programa de Aceleração do Crescimento até 2014, ano da Copa. Estão em execução, mas não necessariamente em obras, apenas 34 pontos do PAC e, do total, 51 nem sequer saíram do papel. O levantamento mostra que o PAC prevê investimentos de R$ 10,08 bilhões no DF até 2014.

NÃO PÕE NA CONTA

Virou moda: empresas de telefonia celular também não estornam e deixam “crédito”, se o cliente se engana e paga a conta duas vezes.

SUSHI

O brasileiro Carlos Ghosn, presidente da Nissan, é o executivo mais bem pago do Japão: US$ 12,5 milhões anuais, em salários e bônus.

PT ISOLADO

O deputado João Paulo (PT-PE) resume a guerra interna para definir o nome petista a prefeito do Recife: “Agora, são 19 partidos contra nós”.

VERGONHA, IBAMA

O Ibama prejudicou o Estado de Alagoas, governado pelo PSDB, vetando estaleiro que investiria R$ 1,5 bilhão. Alegou que 120 hectares de mangue poderiam ser suprimidos, mas fechou os olhos a projeto em Pernambuco, governado pelo PSB, aliado do PT, que suprimiu 1.200.

ESTUPIDEZ CRIMINOSA

A arrogância faz o Ibama se aventurar em masturbações alheias à sua área. Em obtuso “parecer técnico”, o órgão ambiental condena Alagoas a não receber investimentos para evitar migração de gente em busca de empregos, com “favelização e sobrecarga nos serviços públicos”.

TURISTA ACIDENTAL

O ex-presidente bispo tarado Fernando Lugo, que nunca saiu do gabinete em Assunção durante o mandato, agora vai “viajar pelo país” para explicar sua destituição. Quem vai pagar as viagens do “turista”?

STJ APURA ESCÂNDALO

O Superior Tribunal de Justiça ouve 6 desembargadores, desde ontem, sobre o esquema de corrupção no governo do Amapá. A operação Mãos Limpas, da Polícia Federal, prendeu o então governador Pedro Paulo Dias e o ex Walter Góes (PDT). O relator é o ministro João Otávio de Noronha.

ANGU ATÔMICO

A comitiva do iraniano biruta Mahmoud Abadinejad quase voltou a Teerã, após a recepção fria no aeroporto, e Dilma cancelar encontro com ele, durante a Rio+20. Negaram “quebra de protocolo”.

FRITURA INJUSTA

Há crescente indignação no Itamaraty com a “fritura” do chanceler Antonio Patriota, estimulada pelos ataques de ira de Dilma. Ele é um diplomata admirado (foi primeiro de turma), sério, cultíssimo e não orienta sua atuação por preconceitos ideológicos.

CAVENDISH NA MIRA

Cresce o grupo que pretende a convocação do empresário Fernando Cavendish (Delta) para depor na CPI do Cachoeira. A oposição ganha apoio de governistas insatisfeitos e aliados da bancada independente.

DE GRAÇA

Do senador Cyro Miranda (PSDB-GO) sobre as perguntas minuciosas do relator da CPI do Cachoeira, Odair Cunha (PT-MG), ao arquiteto Alexandre Milhomem: “Parece que ele quer é uma consultoria grátis”.

PENSANDO BEM...

...parece habeas corpus o álbum de fotos que Maluf coleciona com políticos ilustres.

PODER SEM PUDOR

GREVE TEATRAL

O Ato Institucional nº 5, que revogou as liberdades democráticas no Brasil de 1968, levou muitos adversários do regime militar à cadeia. Entre eles Carlos Lacerda, que resolveu iniciar uma greve de fome no cárcere. O médico e amigo Antônio Rebello, que monitorava o pulso de Lacerda, começou a ficar preocupado e vivia implorando para que o líder carioca suspendesse a greve. Segundo relatou brilhantemente Sebastião Nery, um dia o médico fez uma comparação definitiva:

– Você está tentando fazer Shakespeare no País da Dercy Gonçalves!

Percebendo o ridículo da situação, Lacerda desistiu da greve na hora.

QUARTA NOS JORNAIS


Globo: Revisor libera processo e mensalão já tem data
Folha: Ministro dá aval, e STF tem data para julgar o mensalão
Estadão: STF julga mensalão em 2 de agosto, após 7 anos
Correio: O Mensalão na ordem do dia
Valor: Desoneração da folha atenua perda de fôlego do emprego
Estado de Minas: Até merenda e marmita são superfaturadas
Jornal do Commercio: Motoristas prometem 24 horas sem ônibus
Zero Hora: Dilma aposta em escolas e obras para o país destravar

terça-feira, junho 26, 2012

Jogo pesado - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 26/06

Insatisfeito com o salário, um grupo dentro da Polícia Federal ameça investigar pessoas próximas de Dilma.
Parece chantagem. E é.

Metralhadora giratória
Lobão, o irreverente artista, negocia com a Ediouro o lançamento do livro “Guia politicamente incorreto da MPB”.

Crime na rede

A 4+ Turma do STJ condenou a TV Juiz de Fora, o site O Click e um provedor de internet já extinto a indenizarem em R$ 30 mil, corrigidos desde 2003, um cidadão que teve o nome e o telefone do trabalho publicados num classificado erótico, provavelmente, por maldade de alguém.

Segue...
Em tese, a medida cria jurisprudência em casos do tipo.
A partir de agora, serão cor-responsáveis todos os integrantes da cadeia de divulgação das informações ou de oferta de serviços.

Sempre Vera

Vera Fischer, 60 anos, foi procurada por uma revista masculina para posar nua. Ficou de pensar.

No mais
Hoje, Gilberto Passos Gil Moreira completa 70 anos.
Ao grande artista popular, como ele próprio canta naquela música, “aquele abraço”.

Pop sustentável

O Jota Quest levará sábado ao palco da Fundição Progresso, no Rio, amplificadores movidos a energia solar, no lançamento de seu CD “Folia & caos”.
A banda fez com o Greenpea-ce, em 1999, o primeiro show “solar” da América Latina.

ESTA FLOR está em extinção. É uma Worsleya procera, lírio endêmico identificado pelo Centro Nacional de Conservação da Flora nas montanhas de Petrópolis. Sua frágil existência foi catalogada para consulta no portal http:// cncflora.net, que reúne informações sobre a flora ameaçada do Brasil. Que Deusa proteja, e a nós não desampare jamais

Basta um baiano
No livro sobre João Gilberto, da Cosac Naify, consta o relato do namorico de Nana Caymmi com o mestre da bossa nova.
Dona Stella Maris, mãe de Nana e mulher de Dorival, foi contra: “Basta um baiano em casa.”

‘Mamãe se metia’...
Nana lembra: “Como toda moça daquela época, caí de amores por ele. Eu era uma mocinha donzela, tenho certeza que as intenções dele eram as melhores, mas mamãe se metia em tudo... ”

Vai de táxi
O táxi que Luciano Huck, nosso apresentador, usou para levar Gisele Bündchen, a supermode-lo, para passear, num quadro de seu programa, sábado, acumula... dez multas desde 2011.
O dado é da Secretaria municipal de Transportes. O Dobló cometeu a última infração em abril, por estacionamento irregular.

O Rio melhorou
Dados que o xerife José Bel-trame divulga hoje mostram que a taxa de homicídios dolosos no Estado do Rio, em maio, foi a mais baixa desde 1991.
Aliás, não só no mês, mas no acumulado de janeiro a maio também.

Segue...
Foram 344 homicídios dolosos em maio de 2012, contra 368 no mesmo mês de 2011.
No acumulado desde janeiro, foram 1.784, contra 1.940 em 2011. A taxa de homicídios nos cinco meses do ano está em 10,9, perto do tolerado pela Organização Mundial de Saúde (10).

Sem galhardete
A exemplo do que ocorreu no Salão de Literatura Infantil, Eduardo Paes também não autorizou o uso de galhardetes do Arraial da Providência, que começa sexta no Jockey, na Gávea.

Pecado capital
A juíza Ana Luiza Mayon Nogueira, da 21+ Vara Criminal do Rio, realiza amanhã audiência da Operação Pecado Capital.
Entre os réus, está Gilson Cantarino, ex-secretário de Saúde de Rosinha.

Zeca+20
O show de Zeca Pagodinho deixou preocupada a produção do Humanidades 2012, no Forte de Copacabana, sexta.
A plateia se levantou para sambar, mas, diante da estrutura do piso, o sambista teve de pedir para o público sentar.

Desafios externos - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE - 26/06

A reunião do Mercosul na sexta-feira é a chance de Dilma se firmar como líder regional. A posição equilibrada que ela adotou até agora na crise do Paraguai foi o primeiro passo nesse sentido

Depois da acertada defesa do multilateralismo na Rio+20, a presidente Dilma Rousseff assume a Presidência do Mercosul na sexta-feira com a missão de se firmar como líder regional, diante das posições díspares do países da América do Sul sobre a crise do Paraguai. Embora praticamente todos tenham condenado o rito sumário do impeachment de Fernando Lugo — a Colômbia foi a única que até agora acolheu a decisão — as variações sobre como agir em relação ao novo governo jogam no colo do Brasil, o maior país do continente, a função de buscar o equilíbrio. 
Por enquanto, embora os serviços de inteligência tenham falhado ao ponto de não informar o governo brasileiro sobre os problemas do país vizinho e o perigo de impeachment do presidente que comandava a Unasul, a diplomacia brasileira parece estar se saindo bem depois do leite derramado: não foi radical, ao ponto de defender a expulsão do Paraguai do Mercosul, o que prejudicará o povo daquele país, e nem deixou de criticar de forma veemente o rito sumário, chamando o embaixador Eduardo Santos. 

Por falar em veemente...O comportamento brasileiro lhe deixa no momento em condições de mediador entre aqueles que só faltam mandar atacar o Paraguai e aqueles que respeitam a soberania do país em resolver seus problemas. E com uma vantagem: como a reunião do Mercosul só se dará na sexta-feira — na quinta à noite haverá apenas um jantar para os chefes de Estado do bloco — as autoridades têm ainda algum tempo para combinar o jogo antes do encontro de cúpula dos países em Mendonza, na Argentina. 
Nesse período, o Brasil tentará convencer os demais países da região a adotar sanções políticas ao Paraguai, como a já declarada suspensão das reuniões do Mercosul. Mas nada de queimar a Ponte da Amizade impondo aos paraguaios sanções econômicas. Não se deixará, por exemplo, de cumprir a parte brasileira no acordo de Itaipu, inclusive em seus aspectos financeiros. Quanto a tapetes vermelhos e recepções a Federico Franco, nem pensar. Afinal, um presidente com nove meses de governo e conquistado num processo tão rápido, não pode querer agora que o continente lhe estenda todas as honras. Por mais que haja problemas num país é controversa a aprovação de um impeachment em três dias e dá margens a suspeitas de descumprimento das regras democráticas. 

Por falar em regras democráticas...É esse ponto que o governo brasileiro deseja ser firme: deixar claro que processos desse tipo não combinam com países que prezam os rituais democráticos. E, nesse sentido, a diplomacia brasileira obteve vitórias importantes ontem: primeiro, os Estados Unidos condenaram o rito sumário e deixaram claro que cabe aos fóruns internacionais analisar a situação. A Espanha, que primeiramente havia reconhecido o novo governo, recuou. Agora, considera que cabe ao Mercosul e à Unasul avaliar a crise paraguaia.
Essas ações indicam que, até então, o Brasil está no caminho certo, o do equilíbrio. E que a região apresenta maturidade para resolver seus próprios problemas. O maior trunfo da Rio+20 foi justamente a preservação do multilaterismo para buscar um ponto de partida quanto ao futuro. Ninguém largou o encontro no meio e foi para casa dizendo que não assinaria nada. E, sob esse ponto de vista, a presidente Dilma conseguiu um tento. Agora, ela terá que trabalhar para obter essa vitória no campo regional, ou seja, garantir um consenso dentro do Mercosul sobre a crise no Paraguai. É sob esse aspecto que esta sexta-feira se torna crucial para Dilma enquanto líder regional. Vamos acompanhar. 

Por falar em acompanhar...Começa a surgir um movimento no Senado no sentido de deixar o caso Demóstenes Torres para agosto. E o “x” da questão está nos prazos regimentais. O texto fala em sessões ordinárias, sem especificar se são deliberativas ou de debates. Já tem gente tentando dizer que sessões ordinárias são apenas as deliberativas, de forma a esticar um pouco mais o prazo para julgar o senador. Assim, dizem alguns, chega o recesso e, quem sabe, o caso esfria tornando possível se criar um clima pela absolvição. Diante dessa perspectiva, é bom ficar de olho. 

Matemática é assim - SONIA RACY


O ESTADÃO - 26/06

Os que estão na expectativa da decisão final do STF sobre o tempo de TV do partido de Kassab– fato que impactaria diretamente na escolha do vice de Serra– não fizeram as contas.

O tempo do tucano na campanha pouco mudará. A maior parte dos integrantes do PSD é oriunda de partidos que fazem parte da coligação.

Então, o que muda? O equilíbrio das forças internas dos que apoiam Serra.

Matemática 2

Integrantes da equipe de Serra acreditam que o Supremo empurrará a decisão – provavelmente positiva – até agosto. Só para “sangrar” o prefeito.

Assim, a definição não valeria para este pleito, mas para o próximo, quando Kassab deverá se unir ao PT.

Máquina Kassab
O vice? Alexandre Schneider está na frente.

Na beca
Adepto da extravagância, o ex-BBB Serginho adotou figurino quase “clássico” no lançamento de Serra à Prefeitura: paletó de veludo preto, calça skinny, sapatos bicolores e maquiagem carregada. Mais camiseta com imagem da diva pop Lady Gaga. O colar dourado, com enorme coroa na ponta? “Ganhei do Bruno Chateaubriand”, contou.

Serginho tenta vaga de vereador pelo PSD. Bandeira? “Igualdade social e homoafetiva.”

Hora errada
A greve dos servidores do Itamaraty, iniciada dia 19, terá capítulo importante hoje. O sindicato da categoria fará protesto, esta tarde, em frente ao Palácio do Planalto.

Segundo fonte da coluna, a ida de Antonio Patriota ao Paraguai, sexta, em plena crise no ministério, “não melhorou em nada o ambiente”.

Neydroid
Se não conseguir abocanhar o hexa, o Brasil ainda terá mais uma chance de vitória logo depois da Copa de 2014. Poderá faturar, também em casa, o título mundial de futebol para… robôs.

Pela primeira vez, o evento acontecerá no País.

Colchão
E Alexandre Tombini, do Banco Central, levou assessor de imprensa do Brasil até a Basileia. Para informar que… não daria declarações.

Sem faca no pescoço
Solução puramente técnica evitaria toda a polêmica em torno da revisão do processo do mensalão no STF, a cargo de Ricardo Lewandowski.

Para cumprir cronograma acordado entre seus pares e colocar a ação em pauta em 1º de agosto, o ministro poderia simplesmente liberar o caso para julgamento – e, depois, apresentar a revisão junto com seu voto. “Ele não está com a faca no pescoço”, afirma um dos integrantes do Supremo.

Prestígio
Dilma Rousseff e Hillary Clinton concederam pouquíssimas audiências durante a Rio+20. Líderes do mundo inteiro pediram, mas foram embora sem vê-las.

Já a ex-embaixatriz Lúcia Flecha de Lima teve mais sorte. Conseguiu 15 minutos com Hillary e dez com Dilma.

No forno
E sai, pela L&M Pocket, ainda este ano, Los Hijos de los Días, de Eduardo Galeano.

O escritor uruguaio está em alta também entre os internautas, por causa de um vídeo em que fala sobre política – gravado ano passado na Praça do Sol, em Madri.

Na frente
Maria Lynch e Cabelo abrem exposição, hoje, na Galeria Marilia Razuk.

Saïd Farhat autografa Tempo de Gangorra. Hoje, na Livraria da Vila da Lorena.

Abre, hoje, a primeira flagship store na América Latina da grife alemã Dedon. Na Gabriel Monteiro da Silva.

Nicolas Shumway, da Rice University, ministra curso sobre eleições americanas. A partir de hoje, na Casa do Saber.

Joaquim Nabuco lança, amanhã, o livro The Art Brazilian Architecture. Na Fnac de Pinheiros.

Abre, hoje, nova loja conceito da Clinique. No Shopping Pátio Higienópolis.

Com apoio do consulado americano, três artistas afro-brasileiros e três afro-americanos expõem nos EUA, na galeria do Tamarind Institute, no Novo México. Próxima parada? Museu Afro Brasil, no semestre que vem.

Mau tempo em São Paulo transformou o aeroporto Santos Dumont, no Rio, em caos ontem. Prendeu em terra até Wagner Bittencourt, ministro-chefe da Secretaria de Aviação Civil.

Uma nova política - RODRIGO CONSTANTINO

O GLOBO - 26/06

Eu queria escrever sobre Rousseau. Nesta quinta completam-se três séculos de seu nascimento. Atacaria o coletivismo do filósofo, que jurava falar em nome da "vontade geral", na prática, a tirania de poucos. Condenaria ainda o seu romantismo ingênuo, com a visão idílica do "bom selvagem", que transforma em vítima a escória da humanidade. Mas os acontecimentos da política nacional atropelaram minha intenção. As novas peripécias de Lula, melhor dizendo. Aquela foto do ex-presidente sorrindo enquanto aperta a mão de Paulo Maluf é tão sintomática que não pode passar em branco. Rousseau pode esperar.
Ao contrário de alguns, eu não padeço de romantismo. Política é a "arte do possível". Concessões serão inevitáveis. Quem almeja pureza moral deve se ater ao campo das ideias. Meter as mãos no jogo sujo da política e sair totalmente limpo é utopia.
Concordo com tudo isso. Mas não posso conceber que exista somente esta forma de se fazer política! Se é ingenuidade cobrar pureza dos políticos, também é abjeto pensar que todos estarão sempre dispostos a tudo pelo poder. É fundamental separar o joio do trigo. Não podemos aceitar bovinamente que tudo isso é parte inevitável da política, e ponto final. O melhor argumento de defesa dos petistas é que seu partido é "apenas" tão ruim quanto os outros. Mesmo se isso fosse verdade, seria patético para quem já tentou monopolizar a bandeira da ética no passado. Mas é mentira: o PT é pior!
Nunca antes na história deste país vimos um partido com tanta sede pelo poder, disposto aos mais nefastos meios para tanto. Aloprados, "mensalão", dinheiro na cueca, amizade com os piores ditadores, isso é o PT. Quem acompanhou sua trajetória não pode ficar surpreso com a aliança entre Lula e Maluf. Este já tinha até apoiado Marta Suplicy em 2008.
O único "princípio" de Lula é o vale-tudo pelo poder. Todos os seus velhos desafetos da política, antes atacados com virulência, tornaram-se aliados. Jader Barbalho teve direito até a um beija-mão, uma "aula" de política, segundo o próprio Lula. Sarney, o eterno, virou um dos mais fiéis aliados. Collor foi outro que mereceu a aproximação de Lula.
Podemos não esperar a moralidade plena na política. Mas Lula vai muito além: ele representa o que há de mais imoral na vida pública brasileira. Para conseguir mais um minuto de TV na campanha pela prefeitura paulista, sua obsessão do momento, Lula seria capaz até de beijar Carlinhos Cachoeira. Ou alguém duvida disso?
Quando se trata de Lula, não há limites morais, não há um freio que diz "basta". Fosse ele somente mais um político na cena nacional, isso mereceria uma atenção menor. O problema é que Lula não é apenas mais um, e sim o ex-presidente da República, com grande popularidade. Sua conduta deplorável tem efeitos secundários em toda a política. O fato de ele ter sido reeleito mesmo com o "mensalão" representou um duro golpe nas frágeis instituições republicanas. Foi aberta a caixa de Pandora.
Uma das consequências disso é o desprezo cada vez maior pela política das pessoas decentes. O círculo vicioso vai tomando proporções assustadoras, e boa parte da população já aceita de forma negligente que as coisas são assim mesmo. Só que, como alertava Platão, a punição que os bons sofrem, quando se recusam a agir, é viver sob o governo dos maus.
Longe de mim responsabilizar um único indivíduo por toda a podridão em nossa política. O modelo é ruim, as instituições são capengas, a mentalidade predominante é autoritária e antiliberal, dezenas de partidos não passam de legendas de aluguel, e a enorme concentração de poder e recursos no governo federal cria incentivos para esta pouca vergonha. Mas é inegável que a postura de Lula serve para piorar o que já era ruim, para jogar mais lenha na fogueira da imoralidade de nossa política. Para agravar o quadro, temos uma oposição medíocre, acovardada, sem um programa alternativo de governo.
Luiz Felipe D"Ávila, em "Os virtuosos", mostra como o nascimento de nossa República dependeu de estadistas, indivíduos que entraram na vida pública "por uma questão de princípio, por um senso de missão e por um sentimento de dever". Será que ainda somos capazes de produzir estadistas como Prudente de Moraes? Ou estaria nossa política condenada a abrigar tipos como Lula e Maluf, este procurado pela Interpol?
Volto a Rousseau para fechar. Ele dizia amar a Humanidade, esta linda abstração, mas abandonou todos os cinco filhos no orfanato. Voltaire o considerava um "poço de vileza". O que ele diria sobre Lula?

Democracia representativa - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 26/06


O que está sendo colocado em xeque no episódio do impeachment do presidente do Paraguai é a democracia representativa. Quando se questiona a capacidade do Congresso paraguaio de promover a deposição de um presidente de acordo com as normas constitucionais alegando que houve "ruptura democrática", está-se na verdade colocando em questionamento o próprio sistema eleitoral.
Por que a Unasul não questiona as manobras que os governos de Venezuela, Bolívia, Equador, Argentina vêm fazendo permanentemente para, utilizando-se dos mecanismos democráticos, moldar um Congresso e um Judiciário à sua feição?
Assim como definir que não houve o cumprimento do devido processo legal na deposição de Lugo é uma questão de interpretação, da mesma maneira considerar que na Venezuela há "democracia demais" é uma questão de simpatia pessoal.
Até o momento a Venezuela não foi aceita no Mercosul justamente devido à cláusula democrática, e o processo vem demorando porque há muitas desconfianças de que o que existe naquele país não é exatamente uma democracia.
O Congresso paraguaio é o último bastião contra a aprovação da Venezuela e por isso é acusado de ser dominado por oligarquias direitistas que deram um "golpe parlamentar" em Lugo.
Mas e as oligarquias, direitistas, e os capitalistas selvagens que foram cooptados pelos governos "bolivarianos" em todos esses países, inclusive no Brasil, esses estão autorizados a continuar atuando como sempre atuaram, e com as bênçãos dos governos populares a que servem.
Para "desencorajar ações do gênero" no continente, os membros da Unasul sentem-se no direito de dar lições de democracia a um de seus membros.
O importante a avaliar é que o Congresso paraguaio obedeceu às regras constitucionais. O próprio advogado de Lugo admitiu que tudo correu dentro da lei, e a Suprema Corte recusou liminarmente a reclamação de que Lugo não tivera tempo para se defender. É muita pretensão de outros países quererem interpretar as circunstâncias históricas locais e decidir se houve ou não um rito democrático.
Ninguém tem informações seguras para compreender o que estava em curso no Paraguai para que o presidente ficasse tão isolado, a ponto de ter tão poucos votos de apoio e menos ainda apoio popular.
Não houve imposição de um grupo político, houve um consenso no Congresso. Daí a dizer que o Congresso está dominado pelas oligarquias e que Lugo foi derrubado porque estava trabalhando com os sem-terra de lá, aí já se discute a qualidade da democracia paraguaia, o que não é função de qualquer organismo internacional.
O fato é que não houve ruptura alguma da ordem democrática, razão alegada pelo Mercosul para suspender o Paraguai. O país está em ordem, não há tanques nas ruas, não há manifestações populares, os Poderes todos funcionam normalmente, não há censura à imprensa.
No Brasil, diferentemente de outros países da região, não houve fechamento do Congresso ou mudanças no Judiciário, nem recurso a novas eleições para que uma maioria se formasse, o que torna questionável o nível democrático em vigor.
A maioria no Congresso brasileiro, desde o mensalão de 2005, é formada à base de troca de favores, inclusive dinheiro público e cargos, não para aprovar algum programa de governo, mas uma "maioria defensiva" para evitar episódios como o ocorrido no Paraguai, que quase atingiu Lula no auge da crise do mensalão.
É uma maneira de neutralizar o Congresso. Nesse caso, não faz mal que as oligarquias façam parte da chamada base aliada e continuem governando desde que garantam a proteção necessária.
Nem que os "companheiros" estejam envolvidos em malfeitos diversos: os líderes populares que estão prontos a sair às ruas, mobilizando as massas para acusar uma "ruptura democrática", são os mesmos que se utilizam dos mesmos instrumentos para defender seus oligarcas de estimação.
Não é à toa que em todos esses países da órbita "bolivariana", inclusive o Brasil, mais e mais defensores da "democracia direta" surjam, justamente para desacreditar o Congresso como instrumento de representação popular.
O Brasil tem mais interesses no Paraguai do que todos os demais países da América do Sul e deveria, isto sim, estar liderando a Unasul, e não sendo liderado, para defender os nossos interesses na região.
Mas a diplomacia brasileira está se acostumando a seguir, não a liderar. Quando a Bolívia invadiu as instalações da Petrobras, o Brasil também não reagiu.
O Itamaraty tinha informações há muito tempo de que os brasiguaios estavam sendo maltratados pelo governo paraguaio, que os estava expondo à violência dos sem-terra paraguaios, e não usou os muitos interesses econômicos para pressionar o governo Lugo a defender o setor agropecuário brasileiro.
Há entre 350 e 400 mil brasileiros no Paraguai, que produzem na agricultura a ponto de terem tornado o Paraguai o 4 exportador de soja do mundo, cuja produção é exportada através de portos brasileiros.
Esses agricultores são também grandes consumidores de insumos brasileiros como sementes, defensivos agrícolas e maquinário.
Além da questão agrícola, o Brasil depende de Itaipu para o fornecimento de cerca de 20% da energia que consome, e qualquer problema nessa geração provocaria um desastre econômico.
Mas o país já havia se submetido a uma chantagem do governo paraguaio, que rasgou o contrato existente e conseguiu um aumento no pagamento da energia produzida por Itaipu.
O governo brasileiro está colocando os interesses políticos de um grupo da região à frente dos interesses econômicos do país.
A reação contrária da Unasul ao que aconteceu no Paraguai é, na verdade, mais um movimento político dos chamados países "bolivarianos" do que uma reação em defesa da democracia, que continua em pleno vigor no Paraguai.
O governo brasileiro, mais uma vez, está a reboque de uma ação política de Chávez, assim como no caso de Honduras no ano passado.

Inflação e erros do "mercado" - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 26/06


Apesar da histeria de 2011 sobre 'estouro de preços', inflação cai; mas ninguém teve razão nessa história


A INFLAÇÃO DEVE fechar o ano em menos de 5%, dizem agora os economistas "do mercado", os que trabalham para bancos e consultorias, ouvidos semanalmente pelo Banco Central para uma pesquisa publicada no boletim Focus.

Na metade final do ano passado, havia histeria na praça. Muito economista dizia que viria o "descontrole inflacionário", ainda mais depois que o BC baixou os juros "de surpresa", em agosto.

As médias e as medianas das estimativas desses economistas para indicadores macroeconômicos (inflação, PIB) são chamadas de "expectativas de mercado".

Mas se trata apenas de médias de estimativas feitas por economistas. Muitas vezes elas não são compatíveis mesmo com algumas das expectativas do "mercado real", que dá sua "opinião" por meio de suas operações financeiras.

No fim de agosto, a julgar por alguns tipos de contratos de juros, o "mercado real" acreditava que os juros cairiam muito. O pessoal das "expectativas de mercado", porém, na média ainda estava noutra, de estimar inflação e juros ascendentes ou no mínimo estáveis.

Isso quer dizer que o "BC acertou, o mercado (no Focus) errou"? Isso não quer dizer nada. Isso quer dizer apenas que a gente se pela e se pega por detalhes meio irrelevantes.

A meta oficial de inflação é 4,5% ao ano (a inflação para o consumidor, medida pelo IPCA, do IBGE). Talvez a inflação não chegue à meta, como ainda acredita o BC. Talvez vá a 4,8%. Ou a 4,74%. E daí? E daí, nada. Não faz diferença.

Muito economista ouvido pelo BC acha que esse indicador de inflação está meio "subfaturado". Não, pelo amor de Deus, não estão dizendo que houve fraude. Estão apenas dizendo que alguns fatores pontuais contribuíram para a baixa do IPCA além da conta deles.

A mudança do peso de alguns dos itens da cesta de compras que define o IPCA por sorte (para o governo) reduziu a inflação medida -se os pesos fossem os mesmos do ano passado, o IPCA seria algo maior. O IBGE fez a mudança por motivos técnicos (a cesta de compras média varia ao longo dos anos).

O governo de resto reduziu impostos para bens duráveis (linha branca, carros), entre o de outros itens. Mantém, na prática, congelado o preço da gasolina. Etc.

É tudo verdade. Mas, ainda assim, uns décimos para cá e outros para cá no IPCA continuam a não fazer diferença essencial.

Mais importante é lembrar que:

1) o Brasil vai crescer pouco durante dois anos, uns 2,3%, na média de 2011-12, e a inflação demora para cair a uns 4,5% ou 5%. Alta? Mais relevante é observar que ela é resistente;

2) houve grande terrorismo no "mercado" sobre o "descontrole inflacionário" que viria, assim como em 2011 o "mercado" errou ao dizer que as medidas do governo não "esfriariam" a economia. Erro demais para quem leva tão a sério as suas expectativas;

3) economistas sérios disseram que o BC "apostou" na baixa da inflação, quando deveria ter sido cauteloso, jogar na retranca, manter juros altos, evitar o risco. Risco de quê? De mais inflação. Pode ser. Mas, ao evitar tal risco, teria jogado provavelmente o país numa recessão desnecessária. Qual risco é pior?

Crise paraguaia requer sensatez - EDITORIAL O GLOBO -


O GLOBO - 26/06


O impeachment de Fernando Lugo, executado em alta velocidade e por ampla maioria no Congresso paraguaio, coloca o Brasil diante de uma situação intrincada, circunstância em que a melhor postura a assumir é de serenidade, longe de escaladas verbais e rompantes de bolivarianos e chavistas espalhados pelo continente, inclusive com representantes em Brasília.
Além de a teoria do "golpe parlamentar" ser discutível, o Brasil, ao contrário de outros vizinhos, tem enormes interesses objetivos no Paraguai, como a energia de Itaipu, o comércio propriamente dito, além de uma grande comunidade de "brasiguaios", responsáveis pelo crescimento agrícola do país e alvo de grupos radicais de sem-terra, fortalecidos com o pouco caso de Lugo diante do agravamento do conflito agrário, um dos argumentos a favor do seu impeachment. A tese do "golpe" já tinha contra si o fato de não haver notícia de mudanças de legislação encomendadas com o objetivo de afastar o ex-bispo.
O apoio político-parlamentar quase nulo de Lugo - perdeu na Câmara por 73 a 1, e, no Senado, 39 a 4 - não seria suficiente para atestar a legalidade do impeachment. Mas, além do cumprimento formal dos dispositivos legais, a decisão dos parlamentares foi referendada pela Corte Suprema paraguaia, ao mesmo tempo em que o Tribunal Superior de Justiça Eleitoral do país reconhecia o vice de Lugo, Frederico Franco, como o novo presidente do Paraguai.
O suposto "golpe parlamentar" paraguaio equivale a um outro, idêntico, desfechado pelo Congresso e Justiça de Honduras, em 2009, quando o então presidente hondurenho, Manuel Zelaya, com apoio de Hugo Chávez, tentou aplicar o conhecido "kit bolivariano" de convocar um plebiscito e aprovar mudanças constitucionais para se reeleger. Como há dispositivo na Constituição de Honduras que pune com o afastamento do cargo presidente que tentar manobras para se perpetuar no poder, Zelaya foi destituído legalmente.
Chavistas e bolivarianos protestaram, e o Brasil de Lula e Celso Amorim foi atrás. Chegou a abrigar Zelaya na embaixada brasileira em Tegucigalpa, convertida em comitê de resistência, contra a tradição de profissionalismo do Itamaraty. Foram feitas eleições, vencidas por Roberto Micheletti, mas o Brasil continuou sob a liderança chavista e se recusou a reconhecer o novo governo. A história se repete, de forma bem mais crítica para o Brasil, por ser o Paraguai um país estratégico para os interesses nacionais. Mesmo que o impeachment houvesse tramitado por semanas, Venezuela, Honduras, Equador e Bolívia o denunciariam como "golpe". Inclusive a Argentina, pois, diante do agravamento dos problemas internos, Cristina Kirchner não tem deixado passar oportunidade de manipular assuntos externos para tentar entreter a opinião pública argentina.
Tudo deve ser feito para evitar conflitos no Paraguai. Sintomático que Lugo tenha aceitado o impeachment sem resistir, e, ao perceber o coro de "golpe parlamentar", decidiu reunir seu gabinete em frente de casa. Semeou, com a ajuda do governo Dilma, de Cristina K. e demais o risco de um grande conflito, contra os interesses do Estado brasileiro.
Não que as evidências de um impeachment em rito sumário não devam chamar a atenção de Mercosul, Unasul e OEA. Mas decretar a priori a existência de um "golpe parlamentar" é um excesso. Mais ainda, num surto ideológico, suspender o país do Mercosul e Unasul, e admitir a presença de Lugo na próxima reunião de cúpula, em Mendoza, Argentina.
O ditador Alfredo Stroessner foi mantido em Assunção durante longo tempo por conveniência de Brasil e Argentina. Este é um tempo a ser sepultado, e a terra por cima devidamente salgada.
Os casos de Honduras e, agora, do Paraguai pelo menos justificam que as mesmas zelosas instituições, e o Itamaraty em particular, também não deixem passar sem análise manipulações que Venezuela, Equador e Bolívia - para citar os notórios - fazem do Congresso e Poder Judiciário a fim de destroçar o que resta de democracia em seus regimes, por meio de instrumentos apenas formalmente democráticos.