segunda-feira, junho 25, 2012

A voz de Getúlio Vargas - EDITORIAL FOLHA DE SP


FOLHA DE SP - 25/06


O Brasil carrega em seu DNA institucional várias pequenas heranças de origem fascista. Elas incluem a força despropositada das corporações profissionais, a estrutura sindical baseada em contratos coletivos de trabalho e contribuições compulsórias.

Nenhuma, porém, se iguala ao programa radiofônico "A Voz do Brasil", que todas as emissoras do país estão obrigadas a transmitir, de segunda a sexta-feira, sempre às 19h, ritual decrépito que se repete com poucas interrupções desde 22 de julho de 1935.

A iniciativa se inspira em ideologia das mais totalitárias. O indivíduo não existiria fora do Estado, única instituição capaz de oferecer-lhe os valores de que necessita. O núcleo do poder político se encarregaria de produzir diariamente noticiário de uma hora, com difusão obrigatória. O cidadão até poderia desligar o rádio, mas, se quisesse ouvir algo, não poderia fugir do oficialismo edificante.

A cartilha fascista se reproduz até na divisão do programa, que é meticulosamente repartido entre os Poderes da República: o Executivo tem 25 minutos; o Judiciário, cinco; senadores dispõem de dez minutos; deputados federais contam com 20.

Num detalhe que resume a essência do corporativismo mussoliniano -o Estado pode resolver todos os conflitos integrando diferentes grupos num modelo colaborativo-, às quartas-feiras o Tribunal de Contas da União ganha o seu minuto, cedido às vezes pelo Executivo, às vezes pela Câmara.

É incrível que um arcaísmo dessa magnitude sobreviva em pleno século 21. Além de negar a liberdade de escolha a milhões de cidadãos brasileiros, "A Voz do Brasil" presta um desserviço público, ao monopolizar as ondas de rádio no exato momento em que elas são uma valiosa fonte de informações para o cidadão -por exemplo, sobre o trânsito que assola tantas cidades do país.

É, portanto, uma boa notícia a de que a Câmara deverá colocar em votação um projeto de lei que flexibiliza os horários de exibição de "A Voz do Brasil". Melhor ainda seria se o Congresso acabasse de vez com a obrigatoriedade e, por que não, com o próprio programa, que custa caro aos cofres públicos.

Mas isso talvez seja pedir demais dos parlamentares, que se contam entre as pouquíssimas pessoas beneficiadas por esse resquício dos tempos de Getúlio Vargas.

Vergonha em dólar - LÚCIA GUIMARÃES


O Estado de S.Paulo - 25/06


NOVA YORK - A cena provocou choque e repulsa. Até sexta-feira passada, já havia sido assistida online por mais de 3 milhões de pessoas. Não, não se tratava de um massacre em curso na Síria. Era um vídeo capturado por celular que exibia, durante dez minutos intermináveis, o perfil de Karen Klein, de 68 anos, a bordo de um ônibus escolar, ouvindo passivamente os xingamentos à sua aparência e pessoa, despejados sobre ela por um grupo de estudantes de 12 e 13 anos. Não vou repetir aqui os ataques proferidos pelas criaturas aberrantes que temos de chamar de garotos. Quem tiver estômago pode clicar no vídeo. Alerto apenas que, depois de tentar se ausentar mentalmente daquele inferno, Karen caiu no choro quando seus algozes mirins disseram: "Você não tem família porque todos se suicidaram". O filho mais velho de Karen se suicidou, há dez anos.

Transformada instantaneamente em carniça de talk shows, a modesta viúva com oito netos, da cidade de Greece, ao Norte de Nova York, atraiu simpatia internacional. Um website desses que levantam fundos para causas ou projetos foi aberto com o objetivo de arrecadar o bastante para a monitora escolar tirar umas férias inesquecíveis. Enquanto escrevo, o site já arrecadou meio milhão de dólares. Uma companhia aérea, nenhuma surpresa, vai levar a família de Karen de graça para um parque da Disney.

Pelo menos duas das pestes identificadas no vídeo receberam ameaças de morte e a polícia está patrulhando seu endereço afluente. Os dois emitiram comunicados de desculpa que contêm a sinceridade de um vendedor de carro usado. Um psicólogo especialista em bullying, que já devia estar de plantão à espera das chamadas de repórteres, pontificou: a dinheirama doada reflete a vergonha que a nossa sociedade sentiu do incidente.

Como a enxurrada de doações online partiu do mesmo planeta que produz a enxurrada de ameaças de vingança online, tenho dificuldade para acreditar na teoria da contrição coletiva. Sou tentada a encontrar outra motivação para a generosidade viral e oportunista, dispensada por tantos que não se sentem mobilizados com tragédias fartamente documentadas, mas não capturadas por celular. É o fenômeno do Kony 2012, conhecido como slacktivism, a militância preguiçosa, a compaixão praticada sem levantar do sofá. Afinal, disse a própria monitora, atordoada com a atenção, "eu não fiz nada" para ganhar esta recompensa. É como se ela tivesse acertado a quina de uma loteria escatológica.

Há uma ironia cruel no fato de que, enquanto Karen Klein percorria o circuito de entrevistas, em algum lugar neste país, um jovem anônimo esperava o veredicto de um júri na Pensilvânia. O réu era Jerry Sandusky, o ex-técnico assistente do lendário time de futebol americano da Penn State University, o homem que estuprou esse jovem em 2001, quando ele não devia ter mais de 11 anos. Como sabemos disso? A testemunha que flagrou o estupro do garoto de 11 anos no chuveiro era ninguém menos do que o novo técnico assistente, Mike McQueary, um latagão que tinha então 27 anos, 1,93 m de altura e achou melhor correr para casa e contar para o pai. O menino, provavelmente recrutado na ONG de assistência a crianças pobres fundada pelo pedófilo Sandusky, nunca foi identificado. O ex-presidente e vice-presidente da Universidade decidiram que não seria "humano" delatar o estuprador aos serviços sociais. Sandusky continuou abusando sexualmente de meninos até ser preso no ano passado. Na sexta-feira à noite, Sandusky ouviu a palavra "culpado" 45 vezes no tribunal. Vai morrer na cadeia. A Penn State University agora se arma para comprar o silêncio das vítimas.

O mesmo especialista em bullying ouvido na reação ao caso da monitora Karen Klein lembrou que as crianças hoje são criadas num mundo de reality shows, em que xingar e humilhar é entretenimento. Mas a vergonha que ele detecta na generosidade financeira online não me parece a moeda corrente.

A vergonha e também o orgulho são emoções centrais da honra, escreve o filósofo Kwame Anthony Appiah, um dos mais interessantes intelectuais públicos destas paragens. Mas a honra, lembra ele, independe da moralidade. Há uma tensão entre as duas. Que o digam as mulheres ameaçadas de assassinatos por honra no Paquistão. A honra requer o respeito de um grupo e o controle da imagem. A exposição viral permitida pela tecnologia pode até provocar embaraço, como é o caso dos responsáveis pelo tormento de Karen Klein.

Mas não há número de cliques que preencha o vácuo moral.

Inimigos íntimos - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 25/06

Postergada para a undécima hora, a escolha do vice de José Serra conflagrou o embate entre Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab. O governador advoga a indicação de um tucano para o posto, mas o prefeito bate o pé: acha que só a presença de um ex-secretário do PSD na chapa garantiria a defesa plena de sua gestão na campanha. Alckmin joga com uma vantagem: a solução para o DEM, terceiro elemento no tabuleiro, passa pelo espaço reservado à sigla no governo paulista.

Psiu! O tema era tabu na convenção de ontem. Kassab pediu que seu candidato, Alexandre Schneider, submerja até a decisão. Andrea Matarazzo e Édson Aparecido, nomes do PSDB, tiveram participação discreta no evento. Rodrigo Garcia (DEM) nem sequer foi mencionado.

W.O. A ausência de FHC frustrou os tucanos, que homenagearam Ruth Cardoso.

Iluminado Kassab subiu ao tablado sob aplausos e vaias. O barulho partiu sobretudo dos pré-candidatos do PSDB a vereador que ficaram sem legenda após a coligação proporcional. No meio de sua fala, os holofotes apagaram. "Ele tem luz própria", brincou um convencional.

Não deu O prefeito tentou, sem sucesso, incluir o PV no chapão para a Câmara.

Ponta do lápis Hubert Alqueres, ex-secretário de Educação, chefiará a redação do plano de governo serrista.

Calculadora O PT só espera o aval do PSB para entregar ao PC do B o posto de vice. Hoje, Fernando Haddad discute com os socialistas o espaço da sigla na campanha e o enxugamento da chapa de candidatos a vereador, necessário após a adesão do PP.

Agora vai? O inflamado discurso de Paulo Skaf na convenção de ontem na Sé aliviou Gabriel Chalita. Havia dúvida quanto ao empenho do presidente da Fiesp, que mira a eleição de 2014, na campanha do peemedebista.

Institucional Relator do mensalão no STF, o ministro Ricardo Lewandowski tem demonstrado surpresa com o silêncio da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) em relação à forma como a corte trata o caso. O presidente da entidade, Ophir Cavalcante, sempre defendeu que o julgamento fosse agendado.

Sumário Advogados que atuam no caso fazem coro aos reparos de Lewandowski e apontam pressa inédita nos ritos que precedem o julgamento. Em média, o tempo utilizado pelos revisores em processos com apenas um réu -no mensalão são 38- é de seis meses.

Fla-Flu O departamento jurídico do PT decidiu pedir o impedimento de Gilmar Mendes e do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, caso haja manifestações do Ministério Público para que José Dias Toffoli deixe de votar por seus vínculos passados com o partido e com réus.

Deadline Os tribunais de todo o país terão 10 dias para informar ao Conselho Nacional de Justiça como vêm aplicando a Lei de Acesso à Informação. A determinação é do grupo de trabalho que regulamentará a legislação no âmbito do Poder Judiciário, presidido pelo ouvidor do CNJ, Wellington Saraiva.

Diplomacia O senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES) apresentará hoje requerimento à Comissão de Relações Exteriores do Senado convidando o ex-presidente Fernando Lugo a explicar as circunstâncias do impeachment que sofreu no Paraguai.

Companheiro Em solidariedade a Lugo, as centrais Força Sindical, UGT e CTB engrossarão manifestação contra seu afastamento prevista para hoje à tarde no consulado paraguaio em São Paulo.

Tiroteio

Se Serra lança slogan provisório em defesa de Kassab é porque sabe que no definitivo terá de abandonar o prefeito e sua rejeição.

DO PRESIDENTE DO PT PAULISTANO, ANTONIO DONATO, sobre o lema "Para São Paulo seguir avançando", adotado pelo tucano para o início da campanha.

Contraponto

Zona do agrião

O presidente da Embratur, Flávio Dino, participava de audiência pública na Câmara sobre turismo internacional. Na sua vez de falar, o deputado Otavio Leite (PSDB-RJ) fez longa exposição sobre as vantagens do Brasil em relação a outros países do mundo.

-A hora é do turismo do Brasil. A bola está na pequena área, só falta a Embratur chutar e fazer o gol.

Dino aproveitou a presença do deputado Romário (PSB-RJ), sentado à primeira fileira, e se antecipou:

-Resolvido! Vou pedir demissão e sugerir a nomeação do Romário. É o nosso maior craque na pequena área.

Querem ressuscitar o baraço e o cutelo - MANOEL ALBERTO REBÊLO DOS SANTOS


O Globo - 25/06


A declaração de independência dos Estados Unidos, redigida basicamente por Thomas Jefferson, afirmou o rompimento das 13 colônias com a Inglaterra porque:

"O rei da Grã-Bretanha tenta impor-nos sua tirania fazendo os juízes dependentes de sua vontade..."

Como se observa, já o registro de nascimento da nação americana se insurgia contra o absolutismo colonial diante de sua incompatibilidade com um sistema de direitos garantido pela independência judicial.

Os últimos episódios ligados ao processo do mensalão evidenciam uma canhestra tentativa de mudar o calendário do julgamento. Não seria conveniente, na ótica do ex-presidente Lula, realizá-lo antes das eleições municipais. A razão dessa apontada inconveniência não mereceu justificação mais clara, ficando no ar que eventual condenação de alguns réus poderia prejudicar seu projeto de poder.

Nem bem superado esse putsch da indecorosa tentativa de emparedamento do STF - mediante controle da pauta de um dos mais rumorosos julgamentos da história do tribunal - e a marcha da insensatez prossegue, agora com uma aparente troca de bastão.

De qualquer modo, o ex-presidente não apareceu bem na foto como autor da espantosa pressão sobre nossa mais alta Corte de Justiça, pois, como lembrou recentemente o jornalista Ricardo Noblat, quando explodiu o escândalo do mensalão, o então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, afirmou que Lula tinha conhecimento de tudo. Nesse momento, baixou também o pano sobre o anfitrião do encontro com Gilmar Mendes, o ex-ministro da Justiça e do STF Nelson Jobim, defenestrado do Ministério da presidente Dilma em flagrante de incontinência verbal. Ao ministro Gilmar, alvo direto e denunciante do estranho assédio, restou repelir a investida, recebendo o categórico endosso de seus pares que, ao agendarem o início do julgamento para agosto, tornaram visível o tiro no próprio pé desferido pelos autores do imbróglio.

Mas nem bem assentara a poeira, entra em cena José Dirceu, réu do processo, apontado como "chefe da quadrilha" pelo então procurador-geral da República Antônio Fernando de Souza, que assinou a denúncia encaminhada ao STF contra o grupo de mensaleiros. Dirceu defende a mobilização da sociedade civil, inclusive de estudantes, supostamente em nome da garantia de um julgamento isento para réus que já estariam previamente condenados pela pressão da mídia. Ou seja, na evolução do minueto e fracassada a tentativa de adiar o julgamento, as baterias são assestadas para produzir uma nova e mais séria pressão sobre o STF, demagogicamente convocado a absolver os réus para demonstrar sua independência diante da mídia impressa e eletrônica, das redes sociais e da opinião pública.

Afirmam alguns que o mensalão não existiu, representando apenas uma nova versão do conhecido caixa dois. A denúncia e as alegações finais do Ministério Público, muito ao contrário, sustentam o funcionamento de um articulado esquema de compra de votos no Congresso, por meio do qual o governo obteve maioria para diversas votações de seu interesse. Dirimir a dúvida é a questão fundamental desse importante julgamento, quando o tribunal situado no topo da hierarquia constitucional do Judiciário deverá apontar ao país se, ainda que por algum tempo, ele terá funcionado praticamente sem Poder Legislativo, diante da profundidade da corrupção que a acusação afirma semeada no Congresso Nacional, para favorecimento das propostas do Poder Executivo.

Não é porque nomearam oito ministros que os senhores da política podem ressuscitar o baraço e o cutelo. No Brasil de 2012 não cabem manobras absolutistas de agressão à separação de poderes, seja pela mesada seja pelo constrangimento. Rafael Correa há pouco destituiu a Corte Suprema equatoriana, porque a mesma não atendia aos seus espasmos de poder absoluto. Também Hugo Chávez não hesita em exigir a curvatura da espinha dorsal do Judiciário venezuelano. Por aqui, os sonhadores do poder absoluto - de qualquer coloração partidária - felizmente não têm passado de grotescos arroubos sem conseguir abalar as instituições democráticas.

Diante de tudo isso, a audaciosa tentativa de constrangimento do tribunal deve ser firmemente repudiada, com os juízes afastando a solércia de prejulgamento em qualquer sentido, atendendo à voz da consciência e ao criterioso exame da prova dos autos. Só assim se poderá concluir um julgamento verdadeiramente isento da suspeita de contaminação, fiel aos alicerces constitucionais de um processo penal liberto das amarras de qualquer chantagem, mesmo quando envolvendo detentores de poder político ou econômico.

A democracia e a República agradecem, afirmando-se com toda a energia que o cumprimento da Constituição pelo STF, seu intérprete e guardião final, não se curvará à arrogância dos que, embalados por seu delírio de grandeza, se imaginam acima da lei.

Que venha, então, o julgamento do mensalão pelo STF, certamente com a isenção própria do exercício da jurisdição em contextos democráticos, assim reafirmando, uma vez mais - como recentemente assinalado pela vigência da lei de acesso à informação e pela instalação da Comissão da Verdade -, a plenitude das franquias reveladoras do estado democrático de direito.

A desonestidade dos políticos - RENATO JANINE RIBEIRO

VALOR ECONÔMICO - 25/06
Tony Blair é alvo de três romances contra marqueteiros
No Brasil, quando falamos em desonestidade dos políticos, entendemos que eles são corruptos e roubam dinheiro público. No Reino Unido, entende-se que eles - ou ele, um modelo em especial, Tony Blair - mentem à sociedade. No Brasil, o descontentamento se expressa em postagens mal escritas e em artigos repetitivos nos jornais. Na Inglaterra, o protesto resultou em literatura - e da boa. Conheço três livros a respeito, dos quais dois foram transpostos para o cinema. São "O Fantasma", de Robert Harris, publicado em 2007 e depois filmado por Polanski (como "O Escritor Fantasma"), e "A Pesca do Salmão no Iêmen" (2006), de Paul Torday, que virou o filme que acaba de estrear em nosso país, com o impossível nome de "Amor impossível", dirigido por Lasse Hallström.
Falta ir para o cinema o melhor desses bons livros, "The Uncommon Reader", de Alan Bennett (2007). O autor imagina que a rainha Elizabeth começa a ler e isso muda sua vida, tornando-a mais crítica dos fatos e ao mesmo tempo, talvez, uma pessoa melhor. O título é um jogo de palavras. Na Inglaterra, "common" é o plebeu. Por isso, a Câmara dos Comuns é eleita pelos plebeus, os não nobres, a maioria esmagadora da sociedade. A rainha é a mais "uncommon" das pessoas, porque está no auge da nobreza - mas a rainha leitora também se torna uma pessoa incomum, porque começa a pensar por si mesma. Daí que, no final do livro, ela observe que seu décimo primeiro-ministro, o governante marqueteiro, tem auxiliares ignorantes e que se orgulham disso. Nenhum deles tem cultura. Todos somente se preocupam em marketing.

Esse é o ponto comum das críticas a um primeiro-ministro que aparece nos três livros com outros nomes ou mesmo sem nome, mas porta os traços de Tony Blair. Ele não dá importância à verdade dos fatos, mas à sua aparência. Tudo vale, se puder ser aproveitado politicamente. De certa forma, isso já aparecia num bom filme que exalta Blair, que é "A rainha" (2006). Elizabeth II era apresentada no seu pior momento, quando ela e o marido não compreenderam o amor popular pela princesa Diana e, em vez de se associarem à enorme dor popular, esconderam os príncipes recém-órfãos. Blair, chamando Diana de "princesa do povo", soube capitalizar o sentimento popular. Mas em "A rainha", Stephen Frears mostra Blair como o líder que usa sua habilidade política para, na última cena, canalizar o apoio do povo - e da monarca - para a mais que necessária reforma na educação.

Numa chave mais leve, "Simplesmente Amor" (2003) apresenta um premier, representado por Hugh Grant, que se apaixona pela empregada do palácio e, por esse amor, também enfrenta o presidente dos Estados Unidos, que quer possuir a moça e, metaforicamente, o Reino Unido. É um filme agradável, uma comédia romântica. Mas ainda é um filme da lua de mel com Blair - a quem sugere que, afastando-se da liderança norte-americana, ele seria uma pessoa decente.

Esse Blair - que também conseguiu o acordo de paz na Irlanda do Norte, um feito mais que elogiável - desapareceu. Em "O Fantasma", ele se esconde nos Estados Unidos, para fugir ao ódio de seu povo e talvez também à justiça de seu país. É até suspeito de ser agente norte-americano, traidor portanto de sua pátria. Em "Uncommon reader", ele oscila entre a falta completa de cultura e a manipulação mais desbragada das pessoas. Em "Amor impossível", só está interessado em imagens que rendam dividendos políticos. A história é a mais cômica das três: um rico xeique iemenita se dispõe a pagar a fortuna que for necessária para criar e pescar salmões no Iêmen - um país que não tem a água nem a temperatura adequadas para criar esses peixes típicos de lugares frios. O governo britânico, desejoso de mostrar uma cooperação bem sucedida com um país árabe, seja qual for, obriga um cientista a entrar nesse projeto absurdo. E a assessora de imprensa do premier não recua diante de nenhum expediente para conseguir notícias favoráveis à imagem do governo.

Agora, a questão que cabe é: por que os britânicos convertem seu descontentamento com um governo que acabou mal em boa literatura, e nós não? Nos Estados Unidos o ótimo Philip Roth faz algo parecido, com a crônica, bem em filigrana, dos anos neoconservadores em seu país. Isso aparece no fundo de seus livros, como quando ele menciona o processo movido contra Clinton devido a seu romance com uma estagiária. Mas ignoro uma produção literária ou mesmo artística em outros países que se compare ao modo como os britânicos transformam os anos de seu descontentamento em literatura.

Como ficamos nós? Do período de FHC, restaram as tiras poéticas de Luís Fernando Veríssimo, "As cobras", dizendo que o então presidente estava se descuidando do "social" (que despencava da árvore, caía num rio etc.). Da gestão Lula, nada. Um escritor notável, que é João Ubaldo Ribeiro, não perdeu ocasião de atacá-lo em sua coluna nos jornais, mas suas crônicas não se alçam ao nível de seus romances, não indo além do plano de algum comentador habitual. Por que não temos uma literatura que trate, com qualidade, da nossa política? Sei que não é fácil. Parece que nos acostumamos mais ao discurso semi-difamador, em vez de nos dispormos a um texto criativo. Curiosamente, os romances britânicos que mencionei são muito críticos. Condenam Blair sem piedade, mesmo que nunca mencionem seu nome. São ferozes com o marketing político que, aliás, hoje é uma prática quase unânime no mundo. Só que eles criticam bem. São sofisticados. Dá prazer lê-los. Ficarão, creio eu, nas estantes dos livros que vale a pena ter, mesmo daqui a décadas.

A ciência triste - LUIZ FELIPE PONDÉ


Folha de SP – 25/06

Os recursos naturais são limitados e as demandas humanas de bem-estar e conforto são infinitas

Proponho que a próxima conferência para economia sustentável seja em alguma reserva dos povos da floresta. Deixem que eles organizem o evento e paguem por ele, já que são sacerdotes da sustentabilidade.
Todos os chefes de Estado dormindo em tendas, comendo comida da floresta, logo, muito mais sagrada e saudável. Além do fato que esses povos são imaculados e não desejam em hipótese alguma ganhar dinheiro com sua condição de “vítima social”, por isso podemos confiar neles mais do que na Hillary Clinton.
Os que mais atrapalham são os gurus da ecologia profunda ou contracultura verde. Gente que afirma que o que precisamos é de uma “inovação social e psicológica” e não apenas de uma economia que assimile o fato de que os recursos naturais são limitados e que as demandas humanas de bem-estar e conforto são infinitas.
Não levar essa contradição estrutural a sério cria a insustentabilidade a médio e longo prazo.
Essa gente acha que o mundo inteiro pode ser a Dinamarca e seus mil habitantes. Eu concordo mais com os setores que buscam soluções tecnológicas e de mercado para enfrentar esta contradição entre demanda humana infinita e recursos naturais finitos.
Claro que isso implica educação e um trabalho gigantesco, mas nada disso virá de mudarmos nosso estilo de vida para o paradigma dos povos da floresta que viviam até ontem no neolítico. Ou reprimir o consumo via um estilo misto de “gestão” entre Stálin e hippies velhos.
Gente assim, os defensores de “inovações sociais”, crê em “soluções” como as elencadas no relatório da UNEP 2011 da ONU “Visions for Change – Recommandations for Effective Policies on Sustainable Lifestyles”.
Soluções no mínimo complicadas se pensarmos em sociedades complexas como as nossas com populações crescentes. Imagine nós vivermos num mundo em que cultivássemos nossa horta e criássemos nossas cabeças de gado (comer carne já é uma concessão ao “pecado da carne dos carnívoros”, gente que deve desaparecer ao longo do tempo)… Se você quiser uma geladeira ou um iPad, faça em casa…
É fácil pensar na Noruega assim (estou exagerando…), mas e a Somália? Claro, estes já vivem no neolítico mesmo…
Outra marca da ecologia profunda que atrapalha a discussão séria sobre a contradição de nossa condição insustentável é a mistura entre sustentabilidade e demanda por erradicação da pobreza e justiça social (seja lá o que isso queira dizer…) como parte de uma economia sustentável.
O problema é que a ideia da erradicação da pobreza é em si insustentável, se pensarmos para além do horizonte intelectual “teenager”. Isso pode ser triste, mas é por isso que a economia é conhecida por ser uma ciência triste (“dismal science”, como dizia o historiador britânico do século 19 Thomas Carlyle).
Vejamos. Para erradicar a pobreza numa população crescente e ansiosa por uma vida confortável deve-se produzir riqueza contínua. Para isso, deve-se explorar recursos continuamente (o que é chamado de economia não sustentável) e aumentar o consumo, porque se as pessoas param de comprar o dinheiro para de circular.
Mas os gurus da economia “teenager” falam de diminuir o consumo como quem fala “as pessoas deveriam ser mais generosas”, quando eles mesmos estão prontos a brigar com os irmãos por um apê minúsculo na Praia Grande.
A única solução para esses gurus (mas eles não confessam porque ficariam mal na fita) seria um regime totalitário global, o que chamo de fascismo verde, criar economias planejadas à la Lênin. O óbvio é que isso geraria pobreza em larga escala, como gerou antes.
Outra solução é erradicar o crescimento populacional matando 2/3 da população ou proibir a reprodução por alguns séculos. Ou matar idosos. Puro horror, não?
Enfim, problemas reais existem, mas as soluções não existem à mão de uma “cúpula dos povos”.
Por isso, a angústia ambiental resvala na espiritualidade verde, sempre infantil e autoritária, que acha que comendo comida orgânica os seres humanos deixarão de ser o que são: seres que buscam diminuir a dor e otimizar o bem-estar a qualquer custo.

Energia mais barata - GEORGE VIDOR


O GLOBO - 25/06
A página da Rio+20 nem mesmo foi virada e o governo tem agora pela frente uma importante questão interna para resolver, relacionada, de certa forma, à sustentabilidade: a tarifa de energia elétrica. Embora do lado da geração o custo da energia tenha declinado, o benefício não chegou ao consumidor residencial e nem para grandes indústrias que têm acesso ao mercado livre.
O preço que o consumidor paga hoje no Brasil equivale a cinco vezes o valor recebido pelas hidrelétricas ou o que será cobrado pelas novas usinas eólicas em futuro próximo. Tributos e encargos ficam com quase metade do que é cobrado do consumidor residencial, e o restante é repartido entre companhias geradoras, transmissoras e distribuidoras regionais. As indústrias que não têm fontes próprias de geração de energia também se queixam amargamente desse custo, especialmente as que dependem muito da eletricidade para produzir. É o caso das fábricas de alumínio primário e laminadoras do metal. O país é exportador de bauxita, a matéria-prima, e da alumina, o insumo básico, mas tende a se tornar forte importador de alumínio primário (lingotes), pois a produção por aqui estagnou ou poderá mesmo encolher, com o fechamento de fábricas existentes (a Valesul, em Santa Cruz, no município do Rio, há anos deixou de produzir alumínio primário; e a Novelis teve de fazer o mesmo no distrito industrial de Aratu, Bahia, temendo-se que a unidade Ouro Preto, Minas, venha a ter igual destino a médio prazo).

O segmento de alumínio poderia ser um caso isolado, que só se viabilizaria no Brasil com o uso de eletricidade subsidiada, e nessa hipótese o país precisaria avaliar a conveniência de mantê-la ou não. Mas o problema não se limita ao alumínio; a queixa vem se generalizando por toda a indústria.

A luz no fim do túnel estaria em uma combinação de corte de impostos, eliminação de encargos e redução do preço de energia na geração, sendo esta última a moeda de troca que o governo deseja adotar para a renovação das concessões de usinas hidrelétricas que vão caducar em 2015. São usinas que pertencem, em maioria, a companhias estatais federais e estaduais, o que facilita o entendimento com o próprio governo. No bojo dessa reforma, é esperada uma mudança nos mecanismos de indexação que corrigem a tarifa de energia elétrica dessas usinas ao longo do tempo. O IPCA, índice oficial de inflação, é considerado um indexador inadequado, pois não traduz a evolução do custo de manutenção e depreciação das usinas elétricas. A equipe econômica considera essa indexação um entrave à queda da inflação, o que pode levar o setor a criar um índice mais exclusivo. Na prática, o que se observa é um ganho considerável, proporcionado por essa indexação, garantida em contrato na venda da energia "velha", às companhias geradoras que possuem hidrelétricasamortizadas há vários anos.

Se o preço da energia "velha", como se diz no jargão do setor, cair de 15% a 20% (corte esperado pelos especialistas), o barateamento permitirá que as distribuidoras - principais compradoras - atraiam clientes industriais que hoje buscam oportunidades no mercado livre, extremamente volátil, pois é influenciado por fatores climáticos. A quantidade de água armazenada nos reservatórios é relevante no cálculo do preço. Então, quando chove menos, o preço dispara. Mesmo assim, grandes consumidores preferem se arriscar no mercado livre, pois o chamado mercado cativo tem preços bem salgados.

Toda essa mudança é aguardada para o mês de julho. A presidente Dilma, que foi Ministra das Minas e Energia e ainda dedica atenção especial a essas áreas, dará a palavra final sobre a renovação das concessões que vão caducar. Passada a Rio+20, talvez encontre tempo para avaliar a proposta governamental.

Tamanho é o sucesso da geração de eletricidade pela força dos ventos que os outros segmentos que compartilhavam a disputa nos leilões para a venda de energia nova ficaram sem vez. A geração por biomassa (queima da palha de cana-de-açúcar e cavacos de madeira, por exemplo) ou as pequenas centrais hidrelétricas não conseguem mais competir com a energia eólica, inicialmente muito subsidiada pelos consumidores.

Há cada vez mais interessados em investir em energia eólica, pois a tecnologia evoluiu e barateou o custo da geração. As torres que sustentam os geradores alcançaram a altura de 100 a 120 metros, o que aumenta o chamado fator de capacidade de cada usina. Já se produz pás de hélices com 45 metros de comprimento! Além de fabricantes americanos e europeus, vêm se destacando no mercado brasileiro a argentina Impsa, com fábrica em Suape (Pernambuco), e a indiana Suzlon, que tem sua base no porto de Pecém, Ceará.

Usinas de energia elétrica se mostram cada vez mais complementares às grandes e médias hidrelétricas. Desse modo, futuros leilões terão de ser redesenhados considerando-se essa questão. Os leilões teriam de definir regiões geográficas para a instalação de futuras usinas eólicas, o que tornaria as usinas de biomassa mais competitivas em São Paulo, Minas Gerais e Goiás, por exemplo. E as pequenas centrais hidrelétricas seriam economicamente viáveis em alguns lugares do interior.

Cerca de dois terços do potencial da geração de eletricidade pela força dos ventos estão situados no litoral do Nordeste. A associação que congrega os geradores de energia eólica até patrocinou um estudo sugerindo a construção de uma linha de transmissão de eletricidade percorrendo a costa do Rio Grande do Norte e da Paraíba para facilitar a conexão dessas usinas com os centros de consumo.

Superendividamento - JAIRO SADDI


Valor Econômico - 25/06



O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, no mês passado, que 14,1% das famílias estão superendividadas. Já o Ipea afirma que 92,9% dessas mesmas famílias não planejam tomar crédito e 31,6% das contas estão em atraso. Dados alarmantes como esses fizeram com que o economista Roberto Luis Troster afirmasse em artigo no Valor (30/5, p. A12) que o crédito no Brasil está "no banco dos réus" e que distorções no sistema de intermediação que coloquem em risco a oferta saudável de crédito podem gerar atraso ao crescimento nacional.

O tema do superendividamento é ainda mais relevante em razão da proposta de reforma do Código de Defesa do Consumidor (CDC) elaborada por uma comissão de juristas do Senado Federal e que, de forma minudente, trata do tema. Primeiro, é importante ressaltar que o CDC, ainda que, como afirmou o Supremo Tribunal Federal na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 2591, tenha seu "valor constitucionalmente fixado, como cláusula pétrea, garantido como direito fundamental pelo Art. 5º, XXXII da Constituição Federal de 1988", causou profundas mudanças no ordenamento jurídico (e econômico) brasileiro, ampliando direitos (e o contencioso) de consumidores e fornecedores.

Nessa mesma toada, é inegável que o CDC adotou o princípio da "vulnerabilidade do consumidor" (art. 4º), reforçando a ideia de assimetria informacional entre consumidor e bancos ofertantes de crédito, e protegeu os hipossuficientes, compreendidos como a parte fraca da relação de consumo, desinformados e alvos do poder econômico dos bancos.

É ainda imperioso que exista o fortalecimento do contrato e das obrigações que foram ali assumidas

O citado projeto da comissão de juristas estabelece algumas vertentes sobre o superendividamento que valem o debate. Destacam-se os seguintes temas ali estabelecidos: "1) Proibição de promover publicidade de crédito com referência a "crédito gratuito", "sem juros", "sem acréscimo", com taxa zero ou expressão de sentido ou entendimento semelhante; 2) Para a prevenção do superendividamento, impõe a concessão responsável de crédito, em que o fornecedor, além de informar, deve aconselhar o consumidor e avaliar de forma leal as condições deste repagar suas dívidas, sob pena de redução dos juros; 3) Criação da figura do assédio de consumo, definido como pressão ao consumidor, em especial se idoso, analfabeto, doente ou em estado de vulnerabilidade agravada, para contratar o fornecimento de produto, serviço ou crédito, em especial se a distância, por meio eletrônico ou por telefone, ou se envolver prêmios; 4) Criação de procedimento intitulado "da conciliação em caso de superendividamento", de forma a estimular a repactuação das dívidas em audiências conciliatórias com todos os credores, onde se elabora plano de pagamento de até cinco anos para quitar as dívidas, preservado o mínimo existencial".

Enquanto a teoria da responsabilidade do banqueiro pela concessão de empréstimo é antiga na Europa, só agora está se sedimentando no Brasil (vide, por exemplo, Clarissa Costa de Lima, "Empréstimo responsável: os deveres de informação nos contratos de crédito e a proteção do consumidor contra o superendividamento" (dissertação de mestrado em Direito, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2006) e constitui um tema espinhoso. Por exemplo, o que seria ideal como "aconselhamento" de forma "leal" ao consumidor, ou será que se pode definir "assédio" ao consumidor como o esforço mercadológico de vendas? Em outras palavras, até onde vai a liberdade de iniciativa e a livre concorrência, valores tão caros à democracia e ao desenvolvimento e à legítima proteção ao consumidor?

Além disso, o grande risco de proteção ao superendividamento é literalmente acabar com o acesso ao crédito a quem mais precisa dele. Bancos, como quaisquer agentes econômicos, operam com o objetivo de lucro. Se a expectativa de oferta de crédito acabar na inadimplência, o crédito seca. Por maior que seja a necessidade de ofertar informação e responsabilidade que se pretenda outorgar ao banqueiro, é ainda imperioso que exista o fortalecimento do contrato e das obrigações ali assumidas. Como afirma Enzo Roppo, deveria haver "responsabilidade pelos compromissos assumidos, configurados como um vínculo tão forte e inderrogável que poderia equiparar-se à lei: os contratos legalmente firmados têm força de lei para aqueles que os celebraram" (Enzo Roppo, O contrato (Trad. Ana Coimbra e M. Januário C. Gomes. Coimbra: Almedina, 1988, p. 34-35). O que se pode perceber pelo horizonte vislumbrado é que o debate sobre o assunto está apenas começando.

Jairo Saddi, pós-doutor pela Universidade de Oxford, professor de Direito do Insper

Nem lá, nem cá - EDITORIAL FOLHA DE SP


FOLHA DE SP - 25/06

Relatório do IBGE sobre desenvolvimento sustentável reitera avanços, mas também expõe as fragilidades socioambientais do país

O relatório "Indicadores de Desenvolvimento Sustentável" (IDS 2012), divulgado pelo IBGE na semana da Rio+20, oferece um ambíguo panorama ambiental do Brasil em conexão com aspectos sociais, econômicos e institucionais.

Como se poderia prever, os 62 indicadores reunidos pelo instituto refletem uma imagem equívoca: avanços e fragilidades em áreas relevantes permitem interpretações contraditórias, a depender do ponto de vista do observador.

Pode-se, por exemplo, comemorar a queda de cerca de 77% no desflorestamento bruto anual da Amazônia Legal, depois de um ciclo de aumento praticamente contínuo, de 1997 a 2004.

A tendência, desde então, inverteu-se. Estimativas referentes ao ano passado indicam que a área desflorestada equivale a menos de um quarto da que foi registrada ao fim daquele período.

O Brasil, segundo o relatório, mantém intacta 80% da área originalmente recoberta pela floresta amazônica. Um quadro semelhante ao que se verifica no Pantanal, bioma mais preservado, com 85% de sua cobertura primitiva.

Não é demais lembrar, contudo, que 20% de destruição de floresta amazônica equivale a 800 mil km² -mais de duas vezes o território da Alemanha. Para uma devastação que se concentrou no período após 1970, é um dado portentoso.

A justificada importância que se confere à Amazônia acaba com frequência por obscurecer outras realidades. Por exemplo, a brutal eliminação de cerca de 90% da mata atlântica -com danos irreversíveis à sua alta biodiversidade.

O quadro também é de degradação em biomas importantes, mas nem sempre valorizados, como o cerrado (49% de destruição), a caatinga (54%) e o pampa (54%). mata atlântica e cerrado, pela alta concentração de espécies e pelo elevado grau de ameaça, são dados como miomas de grande interesse para conservação ("hot spots").

Em outra frente, a do acesso da população às redes de esgoto e serviços de coleta de lixo, há decerto melhorias, mas a situação permanece muito aquém do desejável. A precariedade do saneamento básico continua a ser um dos maiores problemas brasileiros, com reflexos negativos na saúde da população, em especial de baixa renda, e na oferta de recursos hídricos para uso em áreas metropolitanas.

As deficiências no tratamento de esgotos coletados (pouco menos de 70% são tratados, segundo dados disponíveis) contribuem para a situação tenebrosa de rios em áreas urbanas, como o Tietê, em São Paulo, e o Iguaçu, em Curitiba.

Se é verdade que o Brasil não figura entre os maiores destruidores da natureza, são evidentes as agressões já consumadas e as fragilidades por sanar -situação que exige do governo mais realismo e menos ufanismo ambiental.

O afastamento de Lugo - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 25/06


A maneira como se deu o afastamento de Fernando Lugo da presidência do Paraguai decretado pelo Congresso na sexta-feira passada - ao final de um processo relâmpago de impeachment - deixou evidente o isolamento em que se encontrava o ex-presidente e que, na essência, foi sendo sistematicamente construído por ele mesmo. Além da quase completa ausência de apoio parlamentar - expressa na fragorosa derrota que sofreu nas duas Casas do Congresso (por 73 votos a 1, na Câmara, e por 39 a 4, no Senado) -, Lugo já não dispunha de prestígio popular.

Não tinha fundamento o temor de que as ruas de Assunção e, em particular, a praça diante do Congresso fossem ocupadas por manifestantes exigindo a manutenção de Lugo no cargo, o que poderia resultar em graves conflitos. O confronto entre alguns partidários de Lugo com a polícia, na sexta-feira, foi rápido e não voltou a se repetir. A "quase tediosa calma", como o Estado descreveu o clima nas ruas da capital paraguaia no dia seguinte ao afastamento de Lugo, era o sinal mais claro da aceitação popular da decisão dos congressistas. Não foi preciso colocar tropas nas ruas nem declarar estado de exceção para manter a tranquilidade no país.

Eleito em 2008 por uma coligação que conseguiu romper o domínio político que o Partido Colorado impôs sobre o país durante seis décadas ininterruptas, Lugo tinha grande apoio no início de seu governo. Durante o exercício do mandato, porém, suas atitudes contraditórias e equivocadas afastaram a maioria de seus aliados.

Sua principal base de apoio político-parlamentar, o Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), o abandonou há cerca de dez dias, depois da desastrada operação de forças policiais incumbidas de cumprir uma ordem de reintegração de posse no Departamento de Canindeyú, que resultou na morte de 17 pessoas.

Essa operação foi também o pretexto para que a oposição, que detinha a maioria nas duas Casas do Congresso e passava a contar com o apoio do PLRA, iniciasse o processo de impeachment de Lugo, por incompetência e "mau desempenho de suas funções". Era, de fato, um simples pretexto, mas o processo de afastamento de Lugo, embora não tivesse durado mais do que 36 horas entre seu início e a saída do ex-presidente, seguiu as normas estabelecidas pela legislação paraguaia. Foi formalmente correto.

Em nota oficial em que condenou "o rito sumário" que resultou na destituição de Lugo, o governo brasileiro afirmou que o direito à ampla defesa não foi assegurado ao ex-presidente, o que, no seu entender, implicou "a ruptura da ordem democrática", ato passível de sanções pelo Mercosul e pela Unasul. Ressalvando que "não tomará medidas que prejudiquem o povo irmão paraguaio", o governo brasileiro anunciou que eventuais sanções ao Paraguai estão sendo examinadas no âmbito daquelas organizações.

Além do compromisso dos membros das duas associações regionais com a democracia - que nunca foi observado nas muitas vezes em que os governos bolivarianos da região violentaram direitos e instituições -, outras preocupações devem balizar a posição do governo brasileiro. No campo econômico, o Brasil é o maior parceiro comercial do Paraguai e os dois países são sócios na Itaipu Binacional. É preciso assegurar condições para o trabalho de dezenas de milhares de brasileiros e seus descendentes que desenvolvem intensa atividade agrícola e pecuária na região próxima à fronteira com o Brasil e são conhecidos como "brasiguaios". O Itamaraty convocou o embaixador brasileiro em Assunção para consultas. É normal que assim proceda, mas é imperativo que o relacionamento bilateral seja restabelecido prontamente. Como lembrou o chanceler Antonio Patriota, "o Brasil mantém relações com países, não com governos".

São tranquilizadoras - e foram bem recebidas pela população - as primeiras declarações do novo presidente paraguaio, Federico Franco, vice-presidente eleito com Lugo, mas que, como antigos aliados do ex-presidente, estava rompido com ele. Franco, do PLRA - que governará até agosto de 2013 -, prometeu conduzir a transição de acordo com as normas constitucionais, manter intocadas as instituições democráticas e respeitar os direitos humanos e os compromissos assumidos pelo governo.

Tomara que cumpra.

Os pelados de Foucault - VINICIUS MOTA


FOLHA DE SP - 25/06

SÃO PAULO - Na antiga ágora ateniense, a regra era debater bem vestido. Num discurso famoso, Ésquines destruiu seu opositor Timarco por ter, entre outras lambanças, quebrado esse protocolo.

Sólon, disse Ésquines fazendo menção a um dos pais da democracia grega, era "modesto demais até para falar com seus braços para fora da túnica". Já Timarco "dia desses numa assembleia do povo arrancou sua túnica e saltou feito um ginasta, seminu". A gente de bem "cobriu os olhos de vergonha pela cidade, por deixarmos homens como esse posarem de nossos conselheiros".

A ginástica, esta sim, deveria ser praticada sem roupa ou em traje sumário, mesmo em público. O objetivo era mostrar as proezas do corpo moldado. O exercício era tão valorizado na educação ateniense que o termo "gymnos" (nu) deu séculos de piruetas e hoje nomeia as escolas para adolescentes, os ginásios.

Eis que, da Ucrânia ao Brasil, uma onda de nudismo invade a ágora moderna e subverte o modelo clássico. Vestidas na ginástica e peladas na rua, as ativistas do grupo Femen desafiam a pudicícia e a truculência das autoridades eslavas. Fora, Eurocopa; basta de mulheres exploradas pela prostituição; chega de cortar a aposentadoria do povo. As bandeiras são diversas, o método não.

A moda chegou à Rio+20. A organização Tambores de Safo desfilou com mulheres de topless sob críticas de feministas das antigas. Um homem e duas mulheres do grupo Ocupa Rio tiraram tudo. "Democracia

real não representa; a vida não está à venda", escreveram, entre a pelve e o pescoço. São influenciados, explica um dos líderes desta agremiação, pelas ideias do ensaísta francês Michel Foucault (1926-1984).

Filósofo da conspiração total o "poder", essa entidade sem forma, está em toda a parte e vai te pegar-, Foucault parece ele mesmo ter ocupado a cabeça das organizações de esquerda. Bem, não só a cabeça.

Mensalão e respeito ao Judiciário - CARLOS ALBERTO DI FRANCO


O ESTADÃO - 25/06


A partir de 1.º de agosto, o ex-presidente do PT, ex-ministro da Casa Civil e deputado cassado José Dirceu será julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por formação de quadrilha e corrupção ativa. Será um julgamento histórico, pois, talvez pela primeira vez, poderosos prestarão contas de seus atos à Justiça. Trata-se de uma mudança cultural da maior importância. O recado, independentemente do resultado do julgamento, é claro: ninguém está acima da lei.

José Dirceu, no entanto, manifesta surpreendente dificuldade de transitar nos espaços normais das sociedades democráticas. Alega inocência e se diz vítima da mídia. Falando, recentemente, aos cerca de mil estudantes presentes ao 16.º Congresso Nacional da União da Juventude Socialista, ligada ao PC do B, no Rio de Janeiro, Dirceu afirmou que o julgamento que o aguarda será a "batalha final". Posando de vítima de um sistema opressor, Dirceu convoca suas milícias. "Essa batalha deve ser travada nas ruas também", conclamou, "senão a gente só vai ouvir uma voz pedindo a condenação, mesmo sem provas." Refere-se à mídia. Daí a obsessão com o chamado "controle social" dos meios de comunicação. Imprensa livre e independente não serve.

A conclamação de Dirceu é também uma rebelião contra as normas vigentes na democracia. Esconde, no fundo, um grave questionamento ao próprio Poder Judiciário. Para Dirceu, o STF, não obstante a solidez da denúncia do procurador-geral da República, só tem um caminho: absolvê-lo. Na hipótese de uma condenação, possibilidade que o atormenta, o caminho não é o respeito ao Judiciário, mas o grito das ruas. O Brasil, no entanto, amadureceu muito. Collor conclamou a população contra a sua destituição. A resposta da sociedade foi pedir o seu impeachment. Agora, diante do mais clamoroso caso de corrupção da República, a reação da cidadania será um vigoroso respaldo à decisão do STF, seja qual for.

O Brasil, felizmente, tem uma imprensa de qualidade e um Judiciário que funciona. As tentativas de desqualificação do mensalão não previram a consistência das instituições do País. O então procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza, nomeado para o cargo pelo ex-presidente Lula, apontou Dirceu como "chefe da quadrilha" ou da "sofisticada organização criminosa" que produziu o mensalão, a compra sistemática de apoio de deputados federais ao governo Lula.

A denúncia ao STF foi aceita por unanimidade. No ano passado, o atual procurador-geral, Roberto Gurgel, reconduzido ao cargo pela presidente Dilma Rousseff, ratificou o pedido de condenação de Dirceu e de 35 outros réus. Fracassou, portanto, a tentativa de desqualificação do mensalão. O primeiro sinal do empenho de desmonte do mensalão foi dado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao deixar o governo, ele disse que sua principal missão, a partir de janeiro de 2011, seria mostrar que o mensalão "é uma farsa". A "farsa" a que se referia Lula derrubou ministros do seu governo, destituiu dezenas de diretores de estatais e mandou para o espaço a cúpula do seu partido. Recentemente, o ex-presidente cometeu um grave equívoco: a constrangedora e extemporânea reunião com o ministro Gilmar Mendes no escritório do ex-ministro Nelson Jobim. Não pegou nada bem.

Está nas mãos do Supremo assumir o papel histórico de defesa da democracia e dos valores republicanos. A sociedade tem o direito de confiar nos ministros do STF. Eles saberão honrar suas togas e suas biografias. Os brasileiros esperam que os ministros respondam à indignação da sociedade.

O esforço investigativo da imprensa está contribuindo para restabelecer o equilíbrio nas relações sociais. Para o jornalismo verdadeiramente ético e independente não há distinções e imunidades. Os holofotes da mídia têm projetado fachos de luz em zonas turvas do poder. Incomoda? É claro. E deve ser assim. Jornalismo chapa-branca não contribui com a democracia. "Jornalismo", disse George Orwell, "é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é relações públicas." É preciso que exista certa tensão entre imprensa e governos. No entanto, a memória do cidadão não é das mais fortes. E a vertiginosa sucessão de delitos acaba sendo importante aliada do esquecimento. Não basta denunciar. É preciso focar e perseverar num autêntico jornalismo de denúncia que, por óbvio, não se confunde com o denuncismo.

Não podemos mais tolerar que o Brasil seja um país que discrimina os seus cidadãos. Pobre vai para a cadeia. Poderoso não só não é punido, mas invoca presunção de inocência, submerge estrategicamente, cai no esquecimento e volta para roubar mais. A CPI do Cachoeira está aí para confirmar a radical separação entre os anseios de limpeza da sociedade e a resistência delinquente do mundo político. Ao rejeitar a convocação do empresário Fernando Cavendish, antigo dono da Delta, e do ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes Luiz Antonio Pagot, os parlamentares deixaram claro que a CPI é tudo, menos investigativa. Por isso, insisto, o julgamento do mensalão é tão importante e simbólico. Os ministros do STF, vitalícios e inamovíveis, não estão algemados por interesses obscuros e subalternos. Podem julgar com independência. É o que o Brasil espera. A ausência de punição é a mola da criminalidade.

Chegou a hora de a sociedade civil mostrar sua cara e sua força. O Brasil pode sair deste pântano para um patamar civilizado. Mas, para que isso aconteça, com a urgência que se impõe, é preciso que os culpados sejam punidos. O Supremo, com a independência que lhe compete, pode escrever uma bela página na história da nossa democracia.

De volta pra cela - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 25/06

O governo brasileiro pedirá ao Chile a extradição de Marco Rodolfo Rodriguez Ortega, um dos que, em 2001, sequestraram o publicitário Washington Olivetto. Detido em seu país, ele integra a "lista vermelha" da Interpol e pode ser preso em 188 nações do mundo.

BRINCADEIRA

Rodriguez Ortega foi condenado a 30 anos de prisão no Brasil e cumpria pena na Penitenciária de Itaí (287 km de SP). Em 2010, o chileno e outro sequestrador, o colombiano William Becerra, fugiram. Eles tinham sido beneficiados com o regime semiaberto. Deixaram a prisão no Dia das Crianças -e nunca mais voltaram.

MICROFONE NA MÃO

O escritor Fernando Morais está correndo a Europa como roteirista e repórter de um documentário sobre a crise. O filme abordará o período entre 2007 e os dias atuais para "mostrar como o Brasil escapou" até agora da turbulência. Na Grécia, embarca nos próximos dias para os EUA para entrevistar Joseph Stiglitz e Paul Krugman.

SEUS OLHOS

O título do filme, que terá direção de Carlos Manga, será "A Crise dos Olhos Azuis", expressão usada pelo ex-presidente Lula para definir os problemas na economia mundial.

A foto de Lula e do pré-candidato Fernando Haddad (PT-SP) com Paulo Maluf (PP-SP) vai disputar espaço no já recheado álbum do ex-prefeito de São Paulo. "Um homem de vida pública de dezenas de anos, como eu, tem foto com todo mundo", disse Maluf à coluna ao ser lembrado que já foi clicado até com o santo padre.

"O papa João Paulo 2°? Claro que tenho foto com o papa. Ele me recebeu em audiência especial em Roma. E eu o recebi quando visitou o Brasil, rezou missa [em 1980, ainda na ditadura militar]. Eu era governador de SP."

Maluf, que por muito tempo sonhou com a Presidência da República, foi recebido em palácio por quase todos os presidentes do país -e a quase todos deu o seu apoio. "Eu tenho foto até com o Getúlio Vargas, minha querida."

Maluf já subiu em palanques diversos. No segundo turno da eleição de governador de SP, em 1994, apoiou o tucano Mario Covas, com direito a foto e tudo [ver ao lado]. Em 1998, recebeu o então presidente Fernando Henrique Cardoso na convenção do PPB que apoiou a reeleição. Faltava Lula.

Em sua galeria estão também Hebe Camargo, José Dirceu e Pelé. Veja mais fotos no site da Folha, no endereço folha.com/no1109348.

TUDO BEM

Gabriel Braga Nunes afirma ter sido mal interpretado em uma entrevista para uma revista que divulgou que ele teria reclamado que o salário de um ator em sua posição na Globo seria pequeno. "Falei genericamente sobre a capacidade de faturamento de um ator no mercado nacional. Sou de família de teatro e conheço as dificuldades dessa profissão. Estou muito satisfeito na empresa onde trabalho", diz ele.

EXPANSÃO

O hospital AC Camargo, de referência no tratamento de câncer, inaugura hoje uma nova torre. Terá 120 leitos a mais, alcançando no total 441. A quantidade estimada de pacientes para este ano é de 18 mil, contra 14 mil em 2011. Foram investidos R$ 70 milhões no prédio.

Curto-circuito

Erika dos Marés Guia inaugura hoje a loja Mares M&Guia, às 18h.

O chef francês Pascal Valero celebra hoje dez anos de sua chegada ao Brasil com jantar para convidados, no restaurante Kaá, no Itaim Bibi, às 20h.

José Police Neto lança amanhã o livro "Plano de Bairro - Perus em Transformação", na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, a partir das 19h.

Guilherme Paulus contratou o chef Alain Burnel para realizar jantares, em julho, no hotel Saint Andrews, em Gramado.

Família Dó-Ré-Mi
O artista plástico e cantor Daniel Scandurra inaugurou sua exposição, "Vendo", na Galeria Concreta, de Ana Lisboa, na Vila Madalena, em São Paulo. Daniel é filho do guitarrista Edgard Scandurra.

Defesa mais do que razoável, ataque bisonho - MARCELO DE PAIVA ABREU


O ESTADÃO - 25/06


Os resultados da Conferência Rio+20 suscitam reflexões quanto ao real papel em escala global que pode ter a diplomacia brasileira, especialmente no terreno econômico.

Sucessivas manifestações presidenciais sugerem que a política externa em seus vários ângulos não é tema que desperte grande interesse da sucessora de Lula. Em grande medida isso era previsível, com base na comparação do perfil dos dois presidentes. Já antes de ter êxito na sua quarta eleição presidencial, Lula era bastante conhecido nos meios sindicais e de esquerda internacionais. Havia admiração quanto à sua espetacular transição do sertão nordestino para se tornar líder sindical inovador, opositor da ditadura e líder político influente.

A carreira essencialmente burocrática de Dilma Rousseff contribui para que haja pouco trânsito internacional quando comparada ao seu predecessor. A imagem de "gerentona" não é comerciável internacionalmente. Faltam ingredientes para caracterizar com sucesso uma "dama de ferro". Dilma pode arranhar o seu francês - embora não em declarações oficiais, mas Lula nem precisava ser monoglota para encantar o seu público. Não foi, portanto, surpreendente que a diplomacia brasileira, especialmente quanto a temas políticos, tenha se tornado bem mais recatada, ajustando-se ao novo perfil presidencial e abandonando os ardores principistas que prevaleceram na gestão anterior.

A maior parte dos controvertidos temas políticos que haviam exposto a diplomacia brasileira a posições que, com muito comedimento, podem ser descritas como desgastantes perdeu prioridade ou foi simplesmente abandonadas. A diplomacia hoteleira que marcou o melancólico episódio hondurenho foi abandonada. O bom senso prevaleceu quanto à avaliação do real papel que o Brasil poderá jogar na solução da crise iraniana. Isso sem abandonar a acertada postura de insistência na manutenção de opções de negociação. E mostrando atitude quanto ao apoio à posição palestina.

Na América do Sul, a incerteza quanto à situação política venezuelana, decorrente da doença de Hugo Chávez, tornou menos arriscado o passo atrás em relações excessivamente calorosas. Esses avanços devem ser comemorados, pois configuram indícios da volta da diplomacia brasileira à sua tradicional combinação de prudência e respeito à soberania das nações. São elementos importantes para fortalecer eventual postulação brasileira no quadro de reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Em termos gerais, não seria exagero dizer que a diplomacia defensiva do governo Dilma Rousseff tem sido pelo menos razoável.

Já o mesmo não pode ser dito quanto às iniciativas diplomáticas no terreno econômico. A insistência em jogos de cena baseados em metáforas como "tsunami" ou "guerra cambial" mostra clara fadiga. A política monetária dos EUA e a política cambial da China continuam a ser formuladas levando em consideração, com prioridade absoluta, os objetivos nacionais: é o velho "beggar your neighbour" - empobreça o seu vizinho - dos anos 1930, em formato um pouco menos truculento.

Será que o apoio do Brasil à posição de Obama de tentar catequizar Angela Merkel quanto aos benefícios de levar em conta o crescimento e flexibilizar sua ênfase no lado fiscal teve alguma relevância? A líder alemã deve ouvir tais conselhos com grande irritação, enquanto explica aos seus eleitores e contribuintes por que é mesmo que gregos, espanhóis, italianos e franceses se aposentam bem mais cedo que os alemães. A capacidade brasileira de influir na governança financeira mundial é bastante limitada. Nossos esforços devem se concentrar no aumento da influência nos foros internacionais relevantes, inclusive porque a crise europeia sublinha a iniquidade da distribuição atual de poder, especialmente no FMI.

Na recente reunião do G-20 em Los Cabos, México, Dilma fez a surpreendente proposta de suspender a atual trégua (standstill) do protecionismo global - muito desmoralizada, inclusive pelo Brasil - e lançar uma nova rodada de negociações comerciais em Genebra a partir de 2014. A proposta há de ter requerido grande sangue-frio da presidente, que a repetiu na Rio+20.

Em contraste com a postura construtiva em favor do desmantelamento do protecionismo adotada em julho de 2008, o Brasil optou recentemente por políticas claramente protecionistas. Adotou medidas fiscais que violam compromissos quanto ao equilíbrio tarifário implícito nas listas nacionais na Organização Mundial do Comércio (OMC), ao discriminar entre produtos importados e produzidos internamente. Em iniciativa encarada por alguns como manobra para desviar a atenção - "red herring" - quanto ao seu crescente protecionismo, insiste em propor que o tema das taxas de câmbio seja discutido conjuntamente com medidas comerciais pela OMC em um quadro em que a instituição especializada, o FMI, enfrenta enormes dificuldades para tratar do tema satisfatoriamente.

Em ambos os casos, e não surpreendentemente, as propostas brasileiras não prosperaram. Nossa diplomacia econômica propositiva, talvez refletindo de forma precisa ideias equivocadas que grassam na equipe econômica, é simplesmente bisonha.

Os aloprados - PAULO BROSSARD


ZERO HORA - 25/06


Se não estou em erro, nas eleições de 2006, ocorreu um fato inédito, a negociação de "dossiê" supostamente comprometedor de um candidato ao governo de São Paulo. Segundo informações da polícia divulgadas pela imprensa, a peça em referência fora elaborada por dois sedizentes empresários estabelecidos em Cuiabá e oferecida ao "então chefe do Grupo de Informações do PT, Jorge Lorenzetti", que, por sua vez, credenciou dois militantes para examinar os documentos oferecidos e encaminhar a negociação; parece que tudo se processou nesse sentido, uma vez que, já em São Paulo, no Hotel Ibis Aeroporto, reuniram-se vendedores e compradores, estes levando consigo o preço avençado de R$ 1.700.000 - um milhão e setecentos mil reais, quando, "na madrugada de 15 de setembro", no mencionado hotel, a presença da Polícia Federal causou a dispersão da reunião, restando no local a massa de dinheiro destinada ao pagamento do "dossiê". O fato, por sua evidente gravidade, chegou ao conhecimento do então presidente da República, Luiz Inácio da Silva, o qual minimizou o caso e como se fosse de somenos disse que era coisa de "aloprados". Recorrendo a esse vocábulo da gíria que tem, entre outros, o sentido de amalucado ou meio irresponsável... nisso ficou, e o vocábulo presidencial correu mundo. E, por incrível que possa parecer, não se falou mais no assunto e em branca nuvem se passaram seis anos! Os aloprados marcaram presença na cidade das letras.

Passados seis anos, o caso voltou à tona. Ainda, pela imprensa, se ficou a saber que o Ministério Público Federal oferecera denúncia contra nove aloprados compradores e não sei quantos vendedores do "dossiê", e o juiz competente da 7ª Vara Criminal da Justiça Federal do Estado de Mato Grosso recebeu a denúncia.

Este o resumo dos dados, aliás, já divulgados, que dão ideia da insigne gravidade registrada entre nós e só depois de seis anos ressuscita do túmulo em que jazia, podendo comprometer o processo partidário e parlamentar e, em consequência a representação popular, envenenando a higidez dos poderes Executivo e Legislativo. Esse o aspecto, sobre todos, que a mim mais impressiona. A demora, seis anos, a despeito da objetividade dos fatos, foi mais que exagerada e evidentemente nociva à decência institucional. De outro lado, quem recorre a esse expediente para ter uma vantagem eleitoral, uma vez eleito, terá escrúpulo em cometer uma ilicitude ainda que graúda? Vale lembrar que o então candidato, que seria o beneficiário deste expediente, é hoje o Ministro da Educação. Quer dizer, essa prática, tolerada por ser coisa de aloprados, vicia e contamina o exercício da política, que há de ser limpa e nobre ou não será política. Se os aloprados, na designação presidencial, possuem a habilidade de juntar R$ 1,7 milhão num repente, não devem ser tão aloprados como disse o passado chefe do governo. Com efeito, o fato de terem abandonado no hotel a dinheirama levada para pagamento do "dossiê", está a mostrar que só podem ser afeitos a dispor de somas fartas, ou os aloprados de aloprados não têm nada... O fato é lamentável sob todos os aspectos e tanto mais surpreendente quando o episódio teve como cenário o "Partido dos Trabalhadores", e o trabalhador sabe o que custa de trabalho, zelo, competência profissional e dedicação para embolsar o seu salário, honradamente havido.

Maluf venceu! - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 25/06

Que baita hipocrisia, essa, de criticar Lula só por ele ter selado com um aperto de mão o apoio do deputado Paulo Maluf (PP) a Fernando Haddad, o candidato do PT a prefeito de São Paulo. O que Lula fez de original? Como Maluf sobreviveria tanto tempo na política se não tivesse quem lhe estendesse a mão oferecendo ajuda ou pedindo socorro?

O senador Alfredo Nascimento (PR-AM) acabou faxinado por Dilma do Ministério dos Transportes sob a acusação de ter fechado os olhos a malfeitos. José Serra apertou a mão dele outro dia para celebrar a adesão do PR à sua candidatura a prefeito de São Paulo. Nascimento será muito diferente de Maluf? E o PR dele, do PP de Maluf? Pontifica na Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano de São Paulo um afilhado político de Maluf.

O cargo foi dado ao PP para recompensar seu apoio ao governo de Geraldo Alckmin. Por antecipação, Dilma cedeu a Maluf uma secretaria do Ministério das Cidades pelo serviço que ele prestará à candidatura Haddad.

Nas últimas décadas, Maluf foi tratado como a Geni da música de Chico Buarque de Hollanda: Joga pedra na Geni! Joga pedra na Geni! Ela é feita pra apanhar! Ela é boa de cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni! . O tratamento só mudava às vésperas de eleições. Vai com ele, vai Geni! (...) Você pode nos salvar! Bendita Geni! Maluf venceu. Talvez tenha faltado a Lula a exata dimensão do seu gesto de, contrariando ordens médicas para que permanecesse em casa, ir ao encontro de Maluf e trocar afagos com ele diante de fotógrafos. Para Maluf, que o exigiu, o gesto foi uma espécie de mea culpa dos políticos que sempre fingiram abominá-lo.

Em 1985, nos estertores da ditadura militar, Maluf encarnou o mal a ser esmagado.

De um lado havia Tancredo Neves pelo PMDB, exgovernador de Minas Gerais, o candidato a presidente da República de todas as forças que se opunham ao regime. Do outro, Maluf, o candidato do regime que imaginava ganhar uma sobrevida.

Os dois candidatos travaram a peleja do bem contra o mal usando as mesmas afiadas armas. A mais eficiente: dinheiro para a compra de votos de deputados e senadores que formariam o Colégio Eleitoral destinado a escolher o sucessor do general-presidente João Figueiredo.

A segunda mais eficiente: cargos para saciar o apetite dos eleitores.

Ficou registro do jogo pesado protagonizado por Tancredo e Maluf? Em termos.

Quer dizer: ficou registro dos instrumentos de corrupção utilizados por Maluf para tentar se eleger. O processo de santificação de Tancredo quase se completou com a sua morte sem ter tomado posse do cargo de presidente.

O cargo sobrou para o vice, José Sarney.

Aconteceu o que desde então? Quem mudou? Maluf? Dele se poderá dizer, com excesso de boa vontade, que supostamente mudou um tiquinho para melhor à parte a roubalheira, é claro. Poucos políticos concorreram a tantas eleições como ele. Ganhou muitas, perdeu muitas.

Ajustou-se à nossa democracia de fachada.

Quem mudou de verdade? Os políticos. Esses malufaram em grande estilo. Maluf segue na dele. Está onde sempre esteve. Pensa como pensava. Vale-se das mesmas práticas que lhe asseguraram mandatos. Em resumo: venceu o padrão de política que ninguém melhor do que ele representou tão bem nos anos 80.

O PT expulsou deputados que em 1985 votaram em Tancredo para presidente.

De tão puro, o partido se recusara a participar da eleição indireta. O PT expulsou Erundina em 1992 porque ela aceitou ser ministra do governo de união nacional do presidente Itamar Franco, o sucessor do deposto Fernando Collor.

O encontro carinhoso de Lula com Maluf começou a ser desenhado quando Lula bebeu Romanée Conti na companhia do marqueteiro Duda Mendonça e, depois, justificou o mensalão como algo que todo partido faz.

Nunca se ouviu Maluf dizer que seus companheiros de ofício seriam obrigados a engoli-lo um dia. Pois assim aconteceu.

Opções de Lula - RUBEM AZEVEDO LIMA

CORREIO BRAZILIENSE - 25/06


O ex-presidente Lula, com Fernando Haddad, ex-Ministro da Educação, candidato a governador de São Paulo, a tiracolo, pediu e obteve, terça-feira última, apoio de Paulo Maluf para eleger seu pupilo a esse pleito. Os três pareceram alegres, na primeira página dos jornais.

Ficha moralmente suja, Maluf, eleito deputado federal naquele estado, foi acusado e condenado nos EUA por lavar dinheiro. Assim, se ele viajar para fora do Brasil, será preso imediatamente. Lula não se importa com essa condenação. O que ele quer são os votos de Maluf, nos quais o ex-presidente ainda acredita, em S.Paulo.

No último pleito, o palhaço de circo Tiririca, em voto de protesto do povo paulistano contra os malfeitos do Poder Legislativo, foi o mais votado no país para deputado federal, com 1,3 milhão de votos, ou seja, mais do que o dobro do meio milhão de Maluf.

Segundo a Folha de S.Paulo, o prestígio eleitoral de Lula está em queda nesse estado. Além disso, contra esse projeto, somam-se a reação negativa da aliança com Maluf; a renúncia da ex-prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, à vice-governança de Haddad e a indiferença da senadora petista Marta Suplicy, vetada por Lula para esse pleito.

Para agravar ainda mais tal situação, a Cia. das Letras lançou, do jornalista e escritor Leonel Leonêncio, o livro Mata!, valendo-se dos arquivos secretos da ditadura, sobre os combates do major Sebastião Curió aos guerrilheiros do Araguaia. Pois Lula promoveu Curió a general de brigada do Exército, por atos de heroísmo. Tal episódio estava esquecido e volta agora à lembrança dos brasileiros.

Foram mortos, entre os guerrilheiros, segundo Vitória Grabois, seu pai, ex-deputado Maurício Grabois, líder do movimento; seu irmão André e seu marido, Gilberto Olímpio. O ato de Lula, uma leniência imperdoável para as maiores figuras do PT, foi aplaudido pelo Exército. Em inferno zodiacal, neste mês de junho, Lula, por desgraça, não tem vidente como Sana Khan, que leu, nas mãos de Vargas, derrotado nas urnas em 1930, a vitória num golpe de estado. Sua ditadura durou 15 anos. A opção de Lula é governar mais oito anos. Mas, como todos os sonhos, esse também, segundo o poeta, é só mais um sonho.

Cartões de dívida - MARIA INÊS DOLCI


FOLHA DE SP - 25/06

Sabe aquele retângulo de plástico que você usa para pagar suas compras, no vencimento ou em algumas parcelas? Pois bem, as operadoras de cartões de crédito não reduziram os juros cobrados no rotativo (pagamento do valor mínimo da fatura com financiamento do restante).
Um dos maiores fatores de endividamento dos brasileiros, pela facilidade de comprar e parcelar contas, o cartão de crédito representa 77,2% das dívidas das famílias paulistanas que estão endividadas, de acordo com pesquisa da Fecomercio-SP. Outro levantamento, da Anefac, mostra que os juros mensais são superiores a 10%.

Como o desempenho do PIBinho (Produtinho Interno Bruto) é pífio, inferior ao de países como Peru, México, Chile e Argentina --para comparar com latino-americanos--, a inflação também caiu. Logo, fica claro que as taxas dos cartões não caíram nem com a pressão do governo pela queda dos juros nem com o arrefecimento do custo de vida.

O pior é que o custo do crédito rotativo não diminui, pois os consumidores topam pagar as taxas que tangenciam a agiotagem.

Como não há reclamações nem suspensão do uso do dinheiro de plástico, as operadoras continuam esfolando os usuários.

É altamente recomendável, portanto, que o cartão não seja utilizado como financiador de aquisições de produtos e serviços. Só se justifica para pagamentos à vista ou em parcelas sem juros.

Outra sugestão é ter, no máximo, um cartão, para evitar a tentação de consumir além do razoável.

Os juros do cheque especial, por sua vez, já recuaram um pouco, mas continuam na estratosfera: 8,24% em maio. É outro empréstimo inviável, pois não há investimento nem atividade produtiva que renda tanto em igual período.

Cartões e cheques especiais são vias rápidas para o superendividamento. O crescimento do consumo, nos últimos anos, foi bancado pela maior oferta de crédito. Por exemplo, via consignado, com desconto mensal em folhas de pagamento ou das aposentadorias.

As consequências são visíveis. A inadimplência afetou as vendas do Dia dos Namorados e tem impactado o comércio de automóveis.

Para alguns especialistas, não há mais espaço para ativar a economia via crédito, devido ao comprometimento já elevado da renda das famílias brasileiras. A presidente Dilma Rousseff discorda e insiste na importância da redução dos juros e da ampliação dos prazos dos financiamentos para evitar queda mais expressiva dos negócios no Brasil.

Recentemente, estudo indicou que as despesas com automóveis representam 27% das compras a prazo da classe C. O estímulo ao consumo preocupa economistas como Fabio Giambiagi e sociólogos como Cláudia Sciré. Ela critica a financeirização da pobreza, que substitui a efetiva ascensão de uma nova classe média.

É lamentável que o populismo político se sobreponha ao bom-senso e à proteção da população com menor renda. Que se crie uma ilusão de mudança de classe social via crédito, que não é sinônimo de salário nem de renda.

Cabe aos cidadãos não cair nessa cilada financeira. Empréstimo significa quantia de dinheiro que se toma emprestado e que se supõe que será devolvida ao emprestador, com ou sem juros (no Brasil, com taxas escorchantes).

Diferentemente de ganhos com trabalho, aposentadorias, pensões ou investimentos. Ou de redução da carga tributária. A correção integral retroativa da tabela do Imposto de Renda seria um aumento indireto de renda. Assegurar que acompanhasse a inflação anual, idem.

Oferecer saúde e educação públicas de qualidade e transporte público que propiciasse rodar menos com o carro particular seria outra forma de melhorar o poder aquisitivo da população e o ambiente.

Nada disso, porém, parece estar no horizonte próximo. Continuaremos sob derrama de impostos sem a contrapartida de bons serviços públicos.

O anzol do crédito terá, em sua ponta, a minhoca do acesso mais fácil a bens e serviços. Mas continuará sendo uma pescaria indevida, de consumidores incautos, ávidos por mais conforto e lazer.

CLAUDIO HUMBERTO


Caças: EUA oferecem 'Air Force One' de brinde

A demora do governo para definir a compra de 36 aviões de combate e o suposto favoritismo dos franceses Rafale, fizeram os Estados Unidos melhorar substancialmente a proposta para vender ao Brasil seus caças F/A-18 Super Hornet, da Boeing. Segundo fonte da Aeronáutica, os americanos estão dispostos a incluir em sua proposta, sem acréscimos, um Boeing 747-800 novinho para uso da presidenta Dilma.
Samba Um
O avião oferecido pelos Estados Unidos, popularmente chamado de “Jumbo”, é igual ao "Air Force One" usado pelo presidente americano.

Autonomia
O Boeing 747-800 voa a 913km/h e tem autonomia de 14.815 km, mais que a distância Brasília-Sydney (Austrália), que é de 14.127km.

Quem deu ideia
A inclusão do 747-800 como brinde ocorreu após Lula criticar a limitada autonomia do “Aerolula”, defendendo a compra de outro para Dilma.

Os concorrentes
Para substituir a frota da FAB em 2016, por US$ 10 bilhões, concorrem também o Rafale da francesa Dassault e o Gripen NG, da sueca Saab.

Falsificação punida
Em pregão da Ceal, subsidiária da Eletrobrás, a Call Tecnologia foi desclassificada por falsificação de documentos. A empresa é de José Celso Gontijo, envolvido no escândalo do mensalão do DEM, no DF.

Walking dead
Líder do PSD, Guilherme Campos (SP) reza para que o STF não adie a decisão de quarta-feira sobre o tempo na TV: “Ou estaremos mortos”.
Eunício com Cid
O senador Eunício Oliveira (PMDB) será candidato ao governo do Ceará, em 2014, com apoio do atual ocupante do cargo, Cid Gomes (PSB). Sempre foram aliados e estão unidos na eleição de Fortaleza.

Cafofo
Atenção, terroristas: a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) terá uma sala secreta, com acesso ao Google, “para a defesa da soberania” no aeroporto internacional Augusto Severo em Parnamirim (RN).

Casa mal-assombrada
O Ministério Público paulista pediu intervenção judicial na Bancoop, a cooperativa habitacional suspeita de desviar fundos para o PT. O MP quer a condenação dos dirigentes e indenização moral e material às centenas de cooperados que nem sequer têm escritura dos imóveis.

PODER SEM PUDOR

Política é uma piada
O humorista Manoel da Nóbrega, criador do programa de tevê “A Praça é Nossa”, desfrutava de grande prestígio, por isso foi uma barbada a sua eleição para deputado estadual de São Paulo, em 1946. Era deputado assíduo, interessado, vivia lendo propostas, apresentando projetos, debatendo, trabalhando, tentando honrar o mandato. Até que desistiu e voltou ao humor. No final do mandato, recusou a reeleição:
- Política não resolve nada, e ainda me atrapalha o serviço.

SEGUNDA NOS JORNAIS


- Globo: Paraguai será suspenso do Mercosul até eleições
- Folha: Islamita moderado vence no Egito
- Estadão: Mercosul afasta Paraguai de reunião de cúpula e vê ruptura
- Correio: Paraguai é punido após “ruptura democrática”
- Valor: Casino recusa ideia de “fatiar” Pão de Açúcar
- Estado de Minas: Ministra também foi vítima de tortura
- Jornal do Commercio: Uma rodada para esquecer
- Zero Hora: Lugo cria governo paralelo e Mercosul afasta Paraguai

domingo, junho 24, 2012

A Alemanha vai destruir a Europa - JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS


O Estado de S.Paulo - 24/06


Escrevo este artigo com a economista Renata Machado. Todos acompanham a deterioração da situação europeia há mais de dois anos. Nada mais ilustra este fato do que a evolução da Grécia. O PIB grego não só vem caindo desde 2008, como a taxa de decréscimo tem acelerado rapidamente. Se a expectativa do FMI de redução de "apenas" 4,7% do PIB em 2012 se confirmar, este terá caído 17,3% no período de 2008 a 2012. A alta na taxa de desemprego do país também é impressionante, passando de 8,8% em 2006 para mais de 22% hoje. Não dá para dizer que os gregos não estão fazendo sacrifícios. O problema é que esses esforços são insuficientes.

A despeito do corte de mais de 50% no montante devido pelos gregos a seus credores privados, a redução do PIB não tem permitido um alívio na relação dívida/PIB do país, que deverá atingir 136,8% em 2017 (último ano das projeções) saindo de 110% em 2008, segundo estimativas do FMI. Com esses resultados, não tem como não concluir que, se permanecer na rota atual, a Grécia vai explodir.

Ao mesmo tempo, observou-se uma piora gradativa dos grandes países da Zona do Euro, especialmente de Espanha, Itália e, em menor magnitude, da própria França. A piora deve-se em grande medida à percepção de que esses países (em especial os dois primeiros) já entraram em uma situação de armadilha fiscal ("debt trap"). Isso ocorre quando a taxa de crescimento do PIB passa a ser inferior à taxa de juros de mercado cobrada para financiar sua dívida, o que faz com que a relação dívida/PIB do país entre em trajetória de aceleração, a menos que o governo seja capaz de gerar um superávit primário enorme, coisa que está longe de acontecer, apesar de todos os esforços. Não é de surpreender, portanto, que as taxas de juros dos papéis de 10 anos desses países não param de subir (no caso da Espanha, chegou a ultrapassar os 7% ao longo da semana passada e o da Itália está ao redor de 6%). Não existe coalização política e social que resista a tal desgaste.

Olhando esse cenário, fica a dúvida se uma ação mais firme dois anos atrás não poderia ter revertido esta tendência. Hoje, no entanto, nos parece que uma solução efetiva à crise teria um custo elevado demais até mesmo para a Alemanha.

Assim, à medida que o tempo passa, o resultado inequívoco da atual estratégia das autoridades europeias (em especial da alemã Angela Merkel) é uma deterioração rápida da situação econômica de seus países, em um círculo vicioso, no qual, a cada rodada, agravam-se ainda mais as consequências e, portanto, os custos, de uma ruptura. A estratégia de ajuste fracassou redondamente: a Alemanha não vai germanizar a Europa, dadas as gigantescas diferenças na história e na formação das diversas regiões.

Sem dúvida, os países devedores devem fazer ajustes fiscais. Entretanto, é evidente para 100% dos analistas que apenas ajuste fiscal é um caminho para o desastre e não uma solução sustentável para os problemas da região. Este ajuste deveria ser obtido em um prazo mais longo (com um peso maior, em um primeiro momento, de reformas) combinado a ações que minimizassem os efeitos negativos dos ajustes fiscais sobre o PIB e o emprego, de forma a manter a capacidade de pagamento do país.

A Alemanha, entretanto, segue dizendo não a qualquer solução que não seja sua visão de ajuste. Esta visão é doutrinária, quase religiosa. Se os países emprestaram, têm de pagar, independentemente dos custos. Só depois de expurgado o pecado é que algum tipo de solução pode ser pensada. Sem querer esgotar o número de vezes que a mesma disse não, lembremos alguns:

A Alemanha votou contra o programa do Banco Central Europeu (BCE) de compra de papel soberano (basta lembrar que dois de seus representantes no BCE, Axel Weber e Jürgen Stark, pediram demissão por discordar do plano). Hoje é evidente que se o BCE não tivesse feito as compras e os dois leilões de financiamento de três anos (LTRO) o sistema teria quebrado já no ano passado.

O mesmo vale para os projetos do bônus europeu e da união bancária (incluindo um regulador único e um sistema de seguro de depósitos).

A Alemanha se recusa até mesmo a considerar sugestões alemãs como a do Council of Economic Experts (A European Redemption Pact), que prevê a criação de um fundo que acolheria o excesso de dívida acima de 60% do PIB de todos os países da zona do euro e os refinanciaria conjuntamente. Este fundo teria a mesma estrutura do bem sucedido refinanciamento das dívidas estaduais que o governo brasileiro realizou em 1996/97.

Com isso, a Europa só se move à beira do abismo, sempre muito tarde e aquém do necessário. Soluções paralelas, porém limitadas, já começam aparecer. Chipre está negociando um empréstimo com a Rússia, visando a reforçar seu sistema bancário. A Inglaterra, numa revisão de seu ajuste à la Merkel adotado há algum tempo, já emprestou recursos para a Irlanda e anunciou que vai fornecer garantias do Tesouro para investimentos privados em projetos de infraestrutura e habitação no país. O Banco Central Inglês (BOE) anunciou há poucos dias a reativação de uma linha especial de empréstimo a custos baixos (ECTR) de forma a estimular empréstimos. Nesta semana foi liberada a primeira parcela da linha.

Não há dúvida de que uma situação limite ocorrerá em pouco tempo: o euro como se conhece hoje provavelmente não existirá até o fim do ano. Além da possível saída da Grécia, há outras sugestões, como a saída voluntária da Alemanha, seguida de uma valorização do marco e posterior re-atrelamento ao euro, ou até mesmo a "expulsão" da Alemanha, induzida pela aprovação no BCE de medidas de expansão monetária que o país é irrevogavelmente contra. A meu ver, todas as soluções são ruins e com efeitos negativos difíceis de estimar.

Se a Grécia sair, os custos no curto prazo para o país serão enormes. Sem falar no risco de contaminação e saída de outros países, cujos efeitos para a própria região e para a economia mundial seriam bastante negativos. Se a Alemanha sair, perdem os bancos e a economia alemã, que verá sua moeda valorizar fortemente ante o euro. Mesmo neste caso, em que os custos no curto prazo parecem ser menores, há incertezas enormes quanto à capacidade de sobrevivência de uma nova união, uma vez rompido o acordo inicial.

Enfim, o remédio alemão para curar a doença fiscal acaba por agravá-la. Já se disse que a Alemanha após duas guerras fracassadas conseguiu com o euro dominar a Europa sem dar um tiro. Entretanto, este domínio pode acabar mais uma vez mal. Joschka Fisher, ex-ministro do Exterior da Alemanha fez, em artigo recente, a mais aguda crítica que conheço à posição de seu país, que reproduzimos abaixo.

"A Alemanha destruiu-se - e à ordem europeia - duas vezes no século 20, e depois convenceu o Ocidente que tinha chegado às conclusões certas. Só desta maneira - refletida vivamente no seu apoio ao projeto europeu - conseguiu a Alemanha consentimento para sua reunificação. Seria simultaneamente trágico e irônico se uma Alemanha restaurada por meios pacíficos e com a melhor das intenções trouxesse a ruína da ordem europeia por uma terceira vez."

E tudo isto em apenas cem anos.