domingo, junho 24, 2012

20+20 = zero - SÉRGIO AUGUSTO

O ESTADÃO - 24/06


O número nas duas cimeiras, Rio+20 e G20, é coincidência. Já a falta de resultados não é



Os líderes do planeta passaram a semana na praia. Em Los Cabos (México) discutiram a crise econômico-financeiro-social global; no Rio de Janeiro, a crise socioambiental global. Para aquele marciano da piada, teria sido mais negócio descer no primeiro balneário. Se viesse direto para o segundo, não encontraria Barack Obama. Nem Angela Merkel e David Cameron, que tampouco emendaram a reunião de cúpula do G20 com a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. Os três grandes ausentes da Rio+20 deixaram bem claro que o caos na economia os preocupa bem mais que o caos ambiental. Como se não houvesse uma correlação entre os dois e apenas um deles exigisse atenção máxima e decisões firmes e imediatas.

O número 20 é coincidência. O impasse nas duas cimeiras, não. Só em oftalmologia 20/20 é uma boa combinação.

O G20 ainda era G7 quando se reuniu pela primeira vez, por causa da crise do petróleo e da recessão de 1974. Os sete grandes ficaram de repensar o capitalismo, mas, a rigor, apenas relaxaram as regras e a vigilância que, ao menos teoricamente, poderiam mantê-lo funcionando em benefício do maior número de pessoas. As consequências do laxismo culminaram no apagão financeiro de 2008. Só o setor bancário e de câmbio enfrentaram 332 crises, algumas sistêmicas, entre 1970 e 2008.

Criado em 2003, o G20 foi um canto de sereia para atrair o excedente asiático e, em seguida, o surplus dos Brics, da Arábia Saudita e da Turquia. As promessas feitas pelos próceres do G7-uma infraestrutura regulatória mais robusta para as finanças e um papel maior do G20 nas instituições financeiras internacionais- não saíram do ovo.

"Para injetar recursos, precisamos ter um certo controle", argumentou, com lógica meridiana, Li Dakoui, do comitê de políticas econômicas do Banco Central da China. "Não podemos emprestar dinheiro para que o gastem irresponsavelmente", prosseguiu o representante de uma economia que escapou do veneno dos derivativos, do consumo conspícuo subsidiado e dos empréstimos fáceis dos bancos de um certo Ocidente. "Não é justo que vocês, ricos, continuem levando uma vida luxuosa, pegando empréstimo com os pobres", arrematou Li. Na moleira.

Incentivos ao crescimento, garantia de estabilidade, apoio a uma união fiscal europeia mais forte - tudo isso se falou em Los Cabos, e continuará sendo falado na próxima semana, quando o G20 voltará a reunir-se, longe da praia, para reiterar promessas de novos recursos para o FMI, ampliação do poder dos países emergentes no Fundo, e, como gostava de dizer o rei do Sião, etc, etc, etc. Ações efetivas? A ver. Em dois anos de crise do euro, a única solução posta na mesa foi a austeridade contraproducente, proposta e defendida com pétrea caturrice por frau Merkel. Nem o aliado Obama acredita em sua eficácia.

Há dias, Raymond Torres, diretor do Institute for International Labour Studies, pôs na mesa um dado bem mais que curioso: países que optaram por medidas macroeconômicas voltadas para o emprego tiveram melhores resultados econômicos e sociais, muitos deles tornaram-se mais competitivos e contornaram a crise com mais facilidade que os que seguiram o caminho da austeridade.

O marco histórico da Rio92 não teve continuidade em Johannesburgo, em 2002; nem em Durban, seis meses atrás, com dados ainda mais alarmantes sobre o meio ambiente à sua disposição, as autoridades ditas competentes esboçaram um planejamento urgente para reverter a destruição do nosso ecossistema. Sobrou para a Rio+20. Agradecemos a honra, a primazia, mas, apesar dos esforços da presidente Dilma e do Itamaraty, a impressão que ficou é de que não avançamos nada, que perdemos mais uma oportunidade de alterar o curso da história, de virar o jogo do desenvolvimento sustentável (ou o ambientalismo dos pobres) contra o capitalismo verde (ou o ambientalismo dos ricos).

Dos 90 objetivos importantes agendados para a Rio+20, apenas 4, se tanto, emplacaram satisfatoriamente. O resto ficou na promessa. A preservação e a capacidade de recuperação socioambiental do planeta continuaram comprometidos.

Não há o que comemorar. A menos que se considere meritória - e ecologicamente produtiva - a prensa que a anfitriã da Rio+20 deu em Ban Ki-moon após sua crítica à falta de ambição do texto a duras penas coordenado pelo ministro Patriota, recolha-se o champanhe. Nem depois que o representante máximo da ONU foi a Canossa e qualificou o documento de "ambicioso, amplo e prático" o sentimento geral de frustração diminuiu. Ao contrário, cresceu.

Como Washington Novaes aqui previu, semanas atrás, a declaração final da Rio+20 resultou genérica e sem compromissos obrigatórios, com prazos certos e cobráveis. "Ganhou a burocracia, perdeu a Terra", resumiu à perfeição o correspondente do El País no Brasil, Juan Arias.

A exemplo do modelo de gestão da economia mundial, o modelo de discussões sobre o meio ambiente, privilegiando acima de tudo a eliminação de pontos polêmicos, o acochambramento prévio, já deu o que tinha que dar, esgotou-se.

Como buscar consenso entre partes aparentemente irreconciliáveis, com interesses antagônico? As grandes corporações veem a natureza como simples commodity e, com honrosas exceções, não se interessam em aumentar o custo de sua produção para implementar as reformas necessárias à superação da crise global de sustentabilidade, preferindo investir milhões de dólares no boicote a políticas que, na sua visão estreita, cerceiam a livre iniciativa e comprometem o progresso.

A pindaíba global em curso deu novo alento à desconversa. Que ninguém se surpreenda se, na próxima cimeira climática, um ambientalista dos ricos invocar a palavra mágica "austeridade", sugerindo que economizemos até o nosso consumo de água e oxigênio.

Passarinho quer voar - MÔNICA BERGAMO



FOLHA DE SP - 24/06

Jogo para celular baixado 1 bilhão de vezes, "Angry Birds" abre parque, estreia no Facebook e planeja filme; especialistas dizem que fenômeno pode ser passageiro

Mais vale um pássaro bravo na mão do que... US$ 6 bilhões. É o que o mercado estima valer a Rovio, empresa finlandesa que em 2009 tinha 12 funcionários e hoje emprega cerca de 200 pessoas.

O alçar de vôo veio com "Angry Birds", jogo para celular e aplicativo pago mais bem-sucedido da história. Nele, pássaros redondos estão de pena em pé porque porcos verdes roubaram seus ovos. Para resgatar a cria, as aves raivosas se lançam, de estilingue, contra os suínos.

Com essa lógica simples, o aplicativo foi baixado mais de um bilhão de vezes, cada uma delas por US$ 0,99. "E é o começo de algo maior", diz o vice-presidente de franquias da firma, Ville Heijari, no seu escritório em Espoo, cidade na zona metropolitana de Helsinque, Finlândia.

Roupas como as que ele usa e outros produtos licenciados representaram 30% dos U$S 67,6 milhões (R$ 135 milhões) que a empresa lucrou no ano passado. Só na última semana de maio, foram lançados na Europa o refrigerante dos pássaros, a bala dos pássaros e a gaiola para pássaros dos pássaros.

A primeira semana de junho marcou o nascimento do filhote mais vistoso do ninho: o primeiro parque de diversões da grife no mundo, em Tampere, também na Finlândia. Nele, há um estilingue gigante, como o dos personagens, e um carrossel.

"Eu adoro o jogo, mas achei que os brinquedos são infantis", diz o designer Toivo Laukka, 28, à coluna. "Não faço ideia de quem sejam esses bichos", afirma a aposentada Aata Toroteija, 72. "Mas minha neta me obrigou a trazê-la. E gostou."

"Queremos ser a próxima geração em franquia de entretenimento", diz Peter Vesterbacka, chefe de marketing da empresa (ou Águia Chefe, como seu cargo aparece no cartão de visitas).

Para isso, outros parques virão. O segundo, na Inglaterra, já começou a ser projetado. Na semana passada, foram anunciados planos para abrir espaços semelhantes na China, em 2014, junto com cem lojas de suvenir. Ainda não há previsão de pouso dos pássaros na América Latina.

Mas por aqui eles podem ser alcançados no plano virtual. "'Angry Birds' poderá ser jogado dentro do Facebook a partir de julho", diz Heijari, sem revelar se o jogo será pago e quanto a Rovio desembolsou para estar na maior rede social do mundo.

Outra investida da companhia é lançar joguinhos parecidos com o primeiro. Em duas semanas deve chegar ao mercado "Amazing Alex", em que o usuário monta engenhocas feitas com objetos como balões, molas, luvas de boxe e sapatos.

O novo jogo não é invenção da empresa. Tinha sido criado por dois jovens americanos e chegado à Apple Store, que comercializa os aplicativos de iPhone, mas não vendeu bem.
"Compramos os direitos do aplicativo, o aprimoramos e agora vamos usar o nome da empresa para dar a ela a atenção que merece", diz Heijari. "Não será um 'Angry Birds', é claro, mas não é o que esperamos."

Enquanto tentam emplacar outro jogo, eles seguem ordenhando o primeiro: há quatro meses, a Rovio comprou o estúdio de animação Kombo por US$ 42 milhões (cerca de R$ 85 milhões) para produzir desenhos animados da passarada.

Em um mês, haverá desenhos animados de até dois minutos e meio, para ver no celular. "É difícil manter a atenção das pessoas por mais de cinco segundos", diz Heijari. Perguntado se nos filmes os passarinhos viram personagens mais complexos, com nome e habilidade de falar, ele responde "isso não importa". Mas sacode a cabeça para cima e para baixo, como quem diz sim.

Outro plano é chegar ao cinema. Para isso, vão abrir em dois meses um escritório em Santa Mônica, a 20 km de Hollywood. "Isso vai levar muitos anos ainda", diz o vice-presidente. Há quem diga que a empresa não tem tanto tempo de vida como imagina - ou propaga.

"É uma moda passageira. Em anos, ainda falaremos de Mickey, mas não de 'Angry Birds'", diz o analista de entretenimento digital James McQuivey. "Eles ganharam muito dinheiro muito rápido. A queda é provável e será estrondosa."

No momento em que outra companhia finlandesa, a Nokia, está em declínio e demite 10 mil funcionários de uma vez, "o país espera bastante" da empresa, diz seu executivo.

"As pessoas se perguntam se o desenvolvimento de jogos pode ser a próxima grande indústria do país", diz Vesa Vihriälä, diretor do Instituto de Pesquisas Econômicas da Finlândia. Ele mesmo responde: "Não pode. É um mercado restrito".

Restrito e fechado. Depois de anunciar, em 2011, que as finanças da companhia estavam "adequadas para uma abertura de capital em meses", a Rovio voltou atrás. Não realizou oferta pública oficial de ações (IPO, em inglês). "Isso são planos para o futuro", diz o vice-presidente. Assunto encerrado.

"A empresa é ainda um ovo. E é mais provável que ele vire omelete do que fique chocando e se transforme num pássaro que cresça e depois saia voando", diz Sun Mengzi, consultora de tecnologia da informação. "Mas eles podem também surpreender o mundo todo, de novo, e estender por décadas os cinco minutos de atenção que receberam", ressalva ela. "É um mercado sem história, portanto sem manual."

"Não sou a pessoa certa para falar disso", diz à coluna o presidente da Finlândia, Sauli Niinistö. "Não jogo. Mas quem sabe um dia?"
"Angry Birds" em números:
- Há mais de 400 produtos licenciados, de refrigerante a cartão de débito
- US$ 136 mil foram gastos para fazer o jogo, lançado em dezembro de 2009
- US$ 68 milhões foi o lucro da empresa em 2011
- 200 milhões de minutos são jogados por dia, somando todos os usuários
- Mais de 1 bilhão de cópias do jogo foram baixadas. Entre os fãs declarados estão David
- Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido, e o cantor pop Justin Bieber

A solidão que derrubou Lugo - CLÓVIS ROSSI


FOLHA DE SP-  24/06

A América Latina está evoluindo, mas precisa construir instituições acima de líderes ocasionais



CIDADE DO MÉXICO - Enquanto via, pela CNN em espanhol, a deposição do presidente paraguaio Fernando Lugo, não conseguia evitar que a memória viajasse 38 anos ao passado, para a queda de Isabelita Perón, na Argentina, em 1976.
Eu estava, na madrugada do golpe, na histórica Plaza de Mayo e não conseguia entender como a então chefe do movimento de massas mais forte da história latino-americana, o peronismo, era apeada na mais completa solidão.
Contei os militantes peronistas que davam vivas a Isabelita. Eram 24. Nenhum mais.
Claro que há insalváveis distâncias entre a Plaza de Mayo de 1976 e a Plaza de Armas de Assunção em 2012. Eram bem mais de 24 os militantes pró-Lugo ali reunidos. Mas a solidão política era parecida e foi ela, bem feitas as contas, a responsável pela queda de Lugo.
Uma segunda diferença é ainda mais relevante: na Argentina, foram os tanques que depuseram a presidente. No Paraguai, foi o Congresso, seguindo regras constitucionais, respeitadas na forma, mas não no espírito, posto que o direito de defesa foi violentado.
Nem se espera, agora, que o novo governo inicie um genocídio, ao contrário do que ocorreu na Argentina. A América Latina evoluiu, pois.
Falta, no entanto, evoluir na institucionalização de sua política, para não depender de homens supostamente providenciais.
Não que Lugo fosse um líder com a aura que, por exemplo, Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez construíram, com diferentes métodos. Sua vitória foi um triunfo isolado, não de um movimento (como, por exemplo, o PT).
Teve que recorrer a um partido tradicional, o Liberal Radical Autêntico, para poder governar. Quando o PLRA o abandonou, caiu sem pena nem glória.
"Quando não se tem uma força política com certa raiz no país, é muito difícil governar", constata Eduardo Gamarra, boliviano que leciona na Universidade Internacional da Flórida.
Segundo problema que a América Latina não consegue resolver: a obscena distribuição da renda. No caso do Paraguai, dá-se que 1% dos proprietários rurais detêm 77% das terras, ficando apenas 1% para os 40% de camponeses donos de menos de cinco hectares.
Enquanto 350 mil famílias sem terra se tornaram "carperas" (vivem em "carpas", barracas de lona em espanhol), 351 proprietários são donos de 9,7 milhões de hectares.
Alguma surpresa que haja conflitos pela terra, um deles exatamente o que acabou sendo o pretexto para a deposição de Lugo, com a morte de 17 pessoas, policiais e sem-terra, na semana passada?
Se Lugo alguma culpa tem nessa história, não é a de ter ordenado ou provocado o incidente, mas o de não ter conseguido fazer a reforma agrária que prometeu ao assumir em 2008. Pretendia retomar para o Estado um total de 8 milhões de hectares, para depois dividi-los entre as famílias (300 mil então) que pediam a democratização do acesso à terra.
Se a tivesse executado, talvez caísse até antes, que os "terratenientes" são impiedosos, mas talvez não estivesse tão solitári

Crise versus apocalipse - JOÃO BOSCO RABELLO


O Estado de S.Paulo - 24/06


O lamentado resultado da Rio+20 pelo ativismo ambientalista tem merecido nos dias que seguiram o encerramento do fórum diversas abordagens críticas - que vão da falta de vontade política dos países desenvolvidos de avançar em ações efetivas pelo desenvolvimento sustentável até à desidratação da chamada economia verde.

No primeiro caso, ficou patente a relação de causa e efeito entre o banho-maria imposto ao processo pela crise econômica mundial e a necessidade de financiamentos.

À falta de ambição política corresponde a falta de ambição de financiamento pelos países ricos, conforme a síntese do embaixador Luis Alberto Figueiredo (foto), secretário-executivo da Rio+20, ao registrar a rejeição da proposta dos emergentes de um fundo anual de 30 bilhões de dólares para ações de proteção ambiental.

Senão no todo, pelo menos em parte, talvez esteja aí a tradução da crítica da presidente Dilma Rousseff ao que chamou de "fantasia" de setores ambientalistas empenhados em impor um ritmo além do possível aos atores do processo - feita antes do encontro por quem já previa seu desfecho.

Sai derrotado mesmo da Rio +20, para bem geral, o marketing do apocalipse como pano de fundo da causa ambiental, capaz de mobilizar o mundo jovem, mas que soa criacionista demais ao mundo político, às voltas com uma economia cuja crise se move em tempo real.

Governo tenta demover Renan

O líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), tem mantido encontros reservados com a presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. Para quem quiser acreditar, Renan diz que a pauta é a violência em Alagoas. Na vida real, Dilma promete apoio a Renan ao governo de Alagoas em troca de sua renúncia à sucessão de Sarney na presidência da Casa. Ela argumenta (com razão), que a candidatura ressuscitará o escândalo que tirou Renan do cargo.

Fogo amigo

O presidente do PMDB, senador Valdir Raupp, abriu sindicância interna para apurar vazamento de doações da Delta a peemedebistas. Ele acredita que o senador Waldemir Moka (PMDB-MS) é alvo do fogo amigo por se dizer cotado para substituir Eduardo Braga (PMDB-AM) na liderança do governo, que sai para disputar a Prefeitura de Manaus.

Almoço grátis

O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), perdeu tempo com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que rejeitou seu indicado, Eduardo Martins, para a presidência do Banco do Nordeste, durante almoço na residência da Câmara. O PT ceraense quer a vaga para Jurandir Santiago, investigado pelo Ministério Público. E o PT da Bahia tenta emplacar Paulo Ferraro, ex- diretor de Negócios do banco. Contrariando máxima da política, o almoço de Maia saiu de graça para Mantega.

Diferenças - MERVAL PEREIRA


O GLOBO - 24/06
A diferença entre o que aconteceu no Paraguai e um golpe parlamentar está em que a Constituição do país não foi alterada em uma vírgula para que o processo de impeachment fosse votado.O fato é que o agora ex-presidente Fernando Lugo já não contava com apoio político, pois o pedido de impeachment, liderado pelo oposicionista Partido Colorado, foi aprovado por 76 votos a favor e um contra, com três abstenções.
Em seguida, o Senado aprovou a deposição de Lugo, "por mau desempenho do cargo", com 39 votos contra 4. Essas votações demonstram que não houve um partido majoritário que impusesse uma manobra política contra o governo. O que havia era um consenso da classe política de que a ingovernabilidade chegara a seu limite.

Ao mesmo tempo, a crise econômica que o país vive ajudou a engrossar o caldo de crise política que vinha se desenhando há muito tempo.

Depois de ter um crescimento espetacular em 2010, de 15% do PIB, a previsão para este ano é de um crescimento negativo de 1,5%.

Teria havido um "golpe parlamentar" caso alguma alteração constitucional feita sob medida proporcionasse à maioria depor o presidente.

A crítica cabível é quanto à celeridade do processo, que leva à suspeita de que etapas foram suprimidas ou encurtadas para que a decisão final fosse alcançada no menor prazo possível.

Processos políticos, no entanto, têm essa característica, e aqui mesmo no Brasil tivemos o exemplo na deposição de Collor. Mesmo depois de ter renunciado, o Senado continuou seu julgamento político e ele foi cassado.

Se o presidente deposto recorrer contra o "rito sumário" à Justiça, caberá a ela a decisão final, dentro dos ritos democráticos. Se a Justiça paraguaia entender, como muitos estão entendendo, que houve atropelo ao direito de defesa e o devido processo legal não foi obedecido, caberá ao Congresso aceitar a decisão e reiniciar o processo de impeachment.

A pífia participação dos Estados Unidos na Rio+20, coroada com a presença-relâmpago da secretária de Estado Hillary Clinton, por cerca de 15 horas na cidade, é demonstração evidente de como a mistura de campanha eleitoral com crise econômica interferiu nos resultados finais da reunião.

Nos mínimos detalhes, a ausência dos americanos prejudicou os resultados, como na reunião do Rio Climate Challenge (Rio-Clima), que previa uma "negociação simulada" entre os principais países emissores e alguns dos mais vulneráveis, com a participação de atores supranacionais: agências multilaterais, ONGs, multinacionais, capital financeiro, movimento sindical.

O objetivo seria chegar a um shelf agreement (acordo simbólico preparatório) em torno do limite de 450 partes por milhão (ppm) para manter o aquecimento médio do planeta neste século em dois graus, seguindo o IPCC.

Pois faltou "massa crítica" para a realização de tal evento, na definição do deputado federal Alfredo Sirkis, do PV, sobretudo em relação aos americanos.

Vários senadores e deputados, entre eles o democrata John Kerry, ex-candidato à Presidência dos EUA, e a republicana Susan Collins, "declinaram gentilmente, alegando importantes afazeres em Washington, ou não responderam".

Sirkis chegou à conclusão de que "viajar para discutir temas ambientais não é eleitoralmente bom para nenhum deles neste período pré-campanha".

Também na parte de governança não houve avanço na Rio+20 por causa da crise na zona do euro e da campanha eleitoral americana, mas a reunião do Rio-Clima recomendou que as negociações se estendam ao G-20, e que se institua um totem, um tipo de "termômetro global" nas praças e ruas das principais cidades de todo o mundo, assinalando mensalmente a progressão da concentração de gases de efeito estufa rumo à marca crítica das 450 ppm.

Sirkis explica que o Rio-Clima pretende instituir-se como um think tank permanente sobre clima, baseado no Rio, onde foi assinada a Convenção do Clima, em 1992.

Mesmo sem a negociação simulada, a iniciativa do Rio-Clima pode ser considerada com saldo positivo, diz Sirkis, pois "veio gente de alto nível de 14 países com destaque para a atual secretária e os ex-secretários-executivos da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, (UN FCCC) Christiana Figueres e Ivo de Boer".

Ficaram prontas as "recomendações" para a Rio+20 e a COP 18, que se realizará em novembro, no Qatar. O Rio-Clima trabalhou as simulações e o processo de decisão com um software do MIT, para simular influência de medidas concretas no aumento da temperatura média do planeta, e um programa desenvolvido pelo professor Carlos Bana e Costa, um dos "facilitadores" do debate, na London School of Economics.

Cinco grandes propostas foram formuladas para qualificar os passos iniciais rumo a uma "economia verde":

1 - Rever o PIB como indicador-mor e fetiche do desenvolvimento.

2 - Reformar sistemas de tributos/subsídios ambiental e socialmente regressivos, substituindo-os pela taxação da intensidade de carbono. Acabar com os subsídios aos derivados de petróleo, e alocar boa parte desta verba para compensação social para enfrentar aumentos de preços que isto provocaria.

3 - Um New Deal verde planetário: um grande investimento público de governos e bancos multilaterais em inovação tecnológica, energias limpas, megarreflorestamentos, reconversão de sistemas de transporte e saneamento básico, gerando milhões de empregos.

4 - Reconhecer o valor econômico dos serviços ambientais prestados pelos ecossistemas.

5 - Uma "Bretton Woods do baixo carbono" para uma nova ordem financeira global, com produtos financeiros e conversibilidade de moedas lastreados na redução de carbono, tentando trazer parte destes trilhões de dólares da bolha financeira internacional para uma economia produtiva de baixo carbono.

Além da vida - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 24/06


SÃO PAULO - Filhas travam disputa na Justiça para definir se corpo do pai vai ser enterrado ou enviado para os EUA, onde seria mantido congelado para futura possível ressuscitação. O caso é interessante porque nos faz refletir sobre a morte.
Embora a lei trate o óbito como um evento, ele é mais bem descrito como um processo. Quando as células deixam de receber oxigênio e nutrientes, nem todos os tecidos "morrem" ao mesmo tempo. Até três horas depois da parada cardíaca, as pupilas e os músculos ainda reagirão a determinados estímulos. Já as células ósseas mantêm-se transplantáveis por até 48 horas.
É justamente nessa noção de processo que se inscreve a lógica da preservação criônica: embora a medicina atual não seja capaz de curar um dado paciente, seus parâmetros essenciais -isto é, suas memórias e personalidade, que quase certamente correspondem a marcas físicas no cérebro-, mesmo depois da morte oficial, poderiam ser mantidos congelados até que existam tecnologias capazes de tratá-lo. Se a coisa funcionasse, a imortalidade estaria ao alcance pelo menos dos mais ricos.
E a questão social nem é a maior das encrencas propostas pela criônica. Em termos legais, o congelamento é uma forma de enterro. Mas isso só faz sentido se partimos do pressuposto de que a ressuscitação é impossível -o que ninguém pode afirmar com certeza. De outra forma, o sujeito deveria ser tratado como um paciente em coma, o que criaria uma série de dúvidas jurídicas.
Se admitimos que ele tem ainda chance de recuperação, então o que chamamos de declaração de óbito seria uma forma de eutanásia, o que traria complicadas implicações éticas. A morte definitiva só ocorreria em caso de perda irreparável de toda informação contida no cérebro.
A verdade é que, apesar de todos os grandes avanços da biologia e da medicina, ainda não dispomos de um conceito muito bom de morte.

Mais realistas do que o rei? - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 24/06


BRASÍLIA - Fernando Lugo não foi sacado de casa de pijamas e jogado num avião, como em Honduras. Não se viu nenhum daqueles quepes paraguaios enormes que fazem a alegria de cartunistas. E a Constituição foi cumprida, como é na Venezuela sempre que Chavez quer dar um golpe sem parecer golpe.

O grave é, além da boa simbologia do personagem Lugo, o timing: a 9 meses das eleições? Em 30 horas? Sem condições reais de defesa e de recomposição política?

Distraída na Rio+20, a comunidade internacional nada sabia e levou um susto, algo particularmente constrangedor para o Brasil, que tinha de estar bem informado. É padrinho rico e sócio em Itaipu, além de aliado de coração de Lugo, ex-bispo católico de lindas intenções, que enterrou (ou parecia ter enterrado...) o poder do Partido Colorado e seus 61 anos de ditadura e/ou de corrupção.

Os números, porém, são eloquentes: só 1 dos 80 deputados e 6 dos 45 senadores não votaram pelo impeachment. Lugo está só. Perdeu as condições de governabilidade.

Se o processo foi uma surpresa, o ambiente em que a deposição se deu também foi: instituições unidas, militares fora, manifestações populares até agora discretas, uma curiosa passividade do próprio Lugo, enquanto o sucessor Federico Franco fazia juras pela democracia.

Argentina, Venezuela e Equador brandem a cláusula democrática e querem a expulsão já da Unasul, mas o Brasil observa e tenta ganhar tempo até o encontro Dilma-Franco e uma reunião conjunta da Unasul e do Mercosul no dia 29, em Mendoza, aos pés dos Andes.

O Brasil será certamente criticado -se é que já não está-, mas acerta ao não querer ser mais realista do que o rei. O "rei", no caso, são as instituições e o povo paraguaio, que parecem estar assimilando bem os fatos e seus desdobramentos, sem ingerência externa. Eles são os donos da casa. Os outros, só os vizinhos.

TOFFOLI VOTANDO NO MENSALÃO


Os tropeços na América Latina - SUELY CALDAS


O Estado de S.Paulo - 24/06


No Paraguai o presidente tem seu mandato cassado, na Argentina uma greve de caminhoneiros paralisa o país, na Venezuela o presidente some para tratar de um câncer e deixa a nação desgovernada, no Brasil a classe política não dá trégua - manipula uma CPI, aumenta sem limites seus próprios salários, um ex-presidente tenta interferir no Judiciário e ressuscita um político acusado de corrupção que os brasileiros querem é esquecer. Na América Latina morre-se de tudo menos de tédio. A instabilidade política e econômica interfere no presente, prejudica o futuro, domina a cena e atrasa o desenvolvimento.

A pesquisa Panorama Global dos Negócios, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), comprovou isso em consulta feita a 811 executivos de empresas na América Latina. A boa reação à crise global de 2008 e a recuperação econômica do continente entre 2009 e 2011 estão gravemente ameaçadas em 2012. Na pesquisa, 43% dos executivos financeiros mostraram pessimismo em relação ao futuro enquanto só 27% estão otimistas. Um pouco melhor do que nos EUA e Europa, centros nervosos da crise, onde o otimismo convence só 25,1% dos norte-americanos e 20,8% dos europeus. Mas por aqui a esperança já foi mais robusta.

A corrupção - sempre ela - é apontada na pesquisa como o problema maior a atrapalhar o desenvolvimento dos negócios. Para 71% dos executivos, as práticas corruptas têm poderoso efeito sobre a evolução das economias latino-americanas. "É um índice muito alto comparado com outras regiões. Aqui a corrupção é muito mais endêmica", analisa Antonio Carvalho, que comandou a pesquisa da FGV. Nos EUA, por exemplo, só 8% consideram que a corrupção prejudica os negócios.

No Brasil, de 7,5% de crescimento registrado em 2010, o PIB desabou para 2,7% em 2011, e em 2012 as previsões têm caído continuamente - hoje oscilam entre 2% e 2,5%. O banco Credit Suisse baixou a sua para o raquítico índice de 1,5%, o que deixou irritado o ministro Mantega. Se, em vez de fazer apostas irreais, que nunca se confirmam, o ministro trabalhasse para remover os entraves estruturais ao crescimento, com certeza colheria melhores resultados.

Mas vem da Argentina outro abalo tão rápido e surpreendente como a queda de Lugo. Em dezembro passado, na euforia da posse da presidente Cristina Kirchner, 38% dos argentinos consideravam a situação econômica do país boa e apenas 17% a viam como ruim, segundo o Índice Geral de Expectativas, da Universidade Católica Argentina. Em apenas cinco meses a euforia murchou, os pessimistas dobraram para 34% e os otimistas desabaram para 24%. No meio disso, a inflação cresceu e o governo continuou manipulando o índice, o ritmo dos investimentos caiu 21% entre março de 2011 e 2012, os investidores se retraíram diante da tentativa da presidente de usar a nacionalização da petrolífera espanhola Repsol para recuperar popularidade política, a economia desacelerou e estagnou desde abril e as projeções de crescimento do PIB (o FMI, por exemplo, estimava em 4,6%) são revistas para baixo. Para completar, na quarta-feira, uma greve de caminhoneiros paralisou os transportes e deixou o país sem combustível, enfraquecendo ainda mais a pálida popularidade de Cristina.

O que impressiona (e alimenta esperanças) é a manutenção do emprego em índices elevados em uma conjuntura de desaceleração econômica. E não é só no Brasil. Na pesquisa, simultaneamente ao crescente pessimismo, executivos das empresas latino-americanas apostam em expansão na contratação da mão de obra em 2012. No Brasil, economistas tentam explicar que a dispensa de trabalhadores é a última das medidas de prevenção contra conjunturas de desaquecimento da economia. Não foi bem assim na crise de 2008, quando, assustadas em relação ao futuro, grandes empresas logo trataram de demitir empregados. E assim caminha a América Latina, instável, em tropeços, altos e baixos. De repente acontece o inesperado, como esse impeachment de Lugo. Uma reforma política, a mãe de todas as outras, faria bem ao Continente.

As aparições de 'Inexorável da Silva' - ELIO GASPARI


FOLHA DE SP - 24/06

Lula acha que pode tudo, conversa pouco, ouve menos e, daqui a pouco, encrencará a doutora Dilma



Atribuem ao filósofo húngaro Giorgy Lukacs a seguinte afirmação: "O erro de Stálin não foi ter assinado um acordo com Hitler, foi ter acreditado nele". Em 1939, Stálin aliou-se ao Reich e comeu um pedaço da Polônia. Dois anos depois, Hitler invadiu a Rússia, e o Guia Genial dos Povos, incrédulo, entrou em estado de catatonia.
Pensando bem, Stálin não acreditou no pacto (tanto que acelerou a produção de armas), acreditou em si. Desprezou pelo menos 80 avisos de que Hitler atacaria, inclusive dois deles com a data.
Lula cavalga uma desastrosa autoconfiança. Longe dos mecanismos do poder, com os movimentos e a oratória limitados, investiu-se de um desembaraço autocrático que, em seis meses, produziu três desastres:
1) Sem discutir os prós e contras da ideia, participou de uma cenografia para abrilhantar a adesão de Paulo Maluf à candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo. Humilhou Luiza Erundina e detonou a chapa petista, levando os companheiros a catar vice até no falecido movimento "Cansei", teoricamente destinado a combater a corrupção. (A ex-prefeita aceitava o apoio de Maluf, desde que não houvesse espetáculos como o do jardim do palacete da rua Costa Rica. O mesmo se pode dizer do tucanato, que buscava intermediações para negociar com Maluf.)
2) Sem ouvir os interessados, meteu-se num périplo, catituando junto a ministros do Supremo a postergação do julgamento do mensalão. Foi detonado pela exposição da manobra.
3) Impôs ao PT uma aliança com o prefeito Gilberto Kassab, atropelando a senadora Marta Suplicy, que não queria "acordar de mãos dadas" com seu adversário. Dias depois, Lula acordou sozinho e viu Kassab abraçado ao PSDB.
Deixando-se de lado o conteúdo das decisões (o que não é pouca coisa), cometeu três erros. Chutou três vezes e três vezes marcou contra o próprio gol.
A doutora Dilma acha que a crise financeira mundial é influenciada pelo fator "Inexorável da Silveira". Seu governo terá que lidar com outro fator, o do "Inexorável da Silva". Por enquanto, ele restringiu-se à casa de louças petista, mas o perigo é que vá além, encrencando o governo.
Os "inexoráveis" acham que podem tudo.
José Dirceu
Um escorpião malvado diz que ainda não entendeu se teve um sonho ou um pesadelo:
"Em agosto, os ministros do Supremo Tribunal Federal estão reunidos para o julgamento do mensalão e o primeiro réu, José Dirceu de Oliveira e Silva, informa que fará sua própria defesa. Veste a beca e diz:
'Senhores magistrados, nunca um advogado teve que exercer seu ofício em condições tão difíceis, nunca contra um acusado cometeram-se tantas irregularidades. (...) Condenai-me, não importa. A história me absolverá.'
Essas foram palavras de Fidel Castro no tribunal de Moncada em outubro de 1953".
Eremildo, o Idiota
Eremildo é um idiota e ainda usa as camisetas velhas das campanhas de Paulo Maluf a presidente, governador, prefeito e deputado. Encantou-se com o artigo do presidente do PT paulista, o sociólogo Edinho Silva, publicado na Folha de sexta-feira.
É uma acrobática defesa da aliança do comissariado com o Partido Popular na disputa pela Prefeitura de São Paulo.
Menciona Luiza Erundina, Gramsci e cita Paulo Freire.
No artigo, o doutor referiu-se três vezes ao Partido Popular, mas não mencionou Paulo Maluf, objeto do desejo da aliança, dono do PP de São Paulo e do jardim onde Nosso Guia e Fernando Haddad foram fotografados selando o pacto lulo-malufista.
O idiota acha que foi distração.
Ao ler a citação de Paulo Freire, frequentemente repetida por Lula, "vamos juntar os diferentes para vencermos os antagônicos", acreditou que seria melhor reordená-la: "Vamos juntar os antagônicos para vencermos os diferentes".
Conta do Enem
Um curioso recebeu duas estatísticas dos inscritos para a nova prova do Enem.
A conta do Inep, que organiza o exame, informava que havia 6.497.466 inscritos.
A conta do MEC dava outro número: 6.495.454.
Não batia. Ele teve um palpite e subtraiu 2012.
Bingo. Haviam somado a data.
Aviso amigo
Os çabios de Brasília resolveram jogar bruto com o funcionalismo público.
Fabricaram uma greve no sistema de ensino público, mas isso é pouco. Estão fabricando uma greve de servidores. Depois, culparão os sindicatos.
Aos poucos, a greve da Justiça Federal vai se espalhando. Em todos os casos, os servidores querem um plano de carreira, e o governo responde com embromatina.
Se os comissários demarcassem o que podem conceder, levando as lideranças dos servidores a um debate público, o jogo seria sério.
Sem dinheiro
O comissário Gilberto Carvalho está sem sorte. Depois de dizer que o problema dos trabalhadores demitidos da Delta não devia ser levado para o "epicentro do governo", justificou a adesão de Paulo Maluf à chapa de Fernando Haddad informando que "não houve dinheiro".
Disse isso no dia em que o Judiciário aceitou a denúncia contra os "aloprados", a tropa do cheque da campanha de Aloizio Mercadante ao governo de São Paulo.
Dois deles foram presos com R$ 1,2 milhão e US$ 249 mil em mochilas e sacolas às vésperas da eleição de 2006.
Seria o caso de dizer que os aloprados mercadejavam dinheiro, mas não cargos.
O triste retrato do Colégio Pedro 2º
Os mestres do Colégio Pedro 2º, joia da coroa do ensino público desde o tempo do Imperador, aderiram à greve dos professores federais. Tornaram-se um exemplo do que o comissariado faz com sua rede de ensino.
Expandiram a estrutura do colégio, que hoje reúne 14 unidades. A de Realengo foi inaugurada por Lula em 2007 e reinaugurada em maio passado pelo comissário Aloizio Mercadante. O quadro docente da franquia Pedro 2º tem 1.179 professores. Deles, 251 são contratados temporários, boias-frias do magistério público.
Se um mestre avulso vai-se embora, uma turma pode ficar sem professor de matemática por meses. Faltam inspetores, técnicos e vigias. Depois da greve de 52 dias do ano passado, o governo prometeu um plano de carreira. Até hoje, nada.
A percentagem de temporários oscila entre 10% (Humaitá 1) e 37,5% (Realengo 1). Na unidade de educação infantil de Realengo 1, só 2 dos 14 professores são efetivos. De 17 contratados, 7 foram embora. Parte do mobiliário ainda não chegou. A sala de informática tem 18 laptops sem mouse, nem internet.
Governo marqueteiro faz política de educação inaugurando e reinaugurando escolas, contratando obras, encomendando equipamentos que não chegam e prometendo 600 mil tablets inúteis.
Professor, que é bom, nada.
Graças à internet, professores de Stanford e do MIT dão cursos sem escolas. O comissariado tenta inventar escolas sem professores.

O 'mensalão' e a dialética entre forma e conteúdo - LUIZ WERNECK VIANNA


O Estado de S.Paulo - 24/06


Ainda é cedo, mas marinheiros treinados em perscrutar o horizonte, instalados no cesto da gávea no maior mastro do navio, sondando as proximidades do mês de agosto, data marcada para o julgamento do processo do "mensalão" no Supremo Tribunal Federal (STF), já alardeiam mar tranquilo à frente. Há pouco, uma reunião pouco republicana entre um ex-presidente da República, um membro do STF e um ex-presidente dessa alta Corte, influente homem público, no escritório desse último, carregou os céus de nuvens sombrias, mas a sua rápida e surpreendente dissipação só veio confirmar o diagnóstico de tempo benigno para os navegantes.

A previsão não deixa de ser espantosa, vistas as coisas a partir do que temos experimentado ao longo da nossa história. Desde sempre, como um habitus entranhado na cultura nacional, estivemos obedientes a uma regra não explícita que se traduziria no primado que as questões de conteúdo deveriam exercer sobre as de forma. Tal habitus - para continuar flertando com muita liberdade com categorias do sociólogo Pierre Bourdieu - como que estaria inscrito em nosso próprio corpo, convertido, pelo uso continuado, numa espécie de ideologia natural nascida das próprias condições singulares em que se teria forjado o nosso Estado-nação, em que teria cabido ao primeiro termo a criação demiúrgica do segundo.

Essa particularíssima condição da nossa formação não escapou ao gênio de Euclides da Cunha, que a ela atribuiu, em texto de À margem da história, o caráter do excepcionalismo brasileiro, um país que teria nascido a partir de uma teoria política a ser, gradual e paulatinamente, internalizada pela sociedade em busca dos ideais civilizatórios do Ocidente.

Na tradição dessa leitura, a construção da ordem no Estado nascente seria uma criação dos juristas imperiais, magistrados que, encarnando os desígnios das elites à testa do Estado, imporiam vertebração e o sentimento de unidade a uma sociedade entregue às suas paixões e ao particularismo dos potentados locais, tal como na demonstração clássica de José Murilo de Carvalho. O conteúdo nos viria de cima e os procedimentos formais, declarados no estatuto liberal que nos regia, deveriam ser confrontados, de um lado, com o poder discricionário dos governantes - o Direito Administrativo claramente hegemônico diante dos demais ramos do Direito - e, de outro lado, com o poder de fato das elites senhoras de terras e do sistema produtivo da época.

Sob esse duplo contingenciamento, os procedimentos e as formas próprias ao estatuto político liberal deveriam ceder quando importassem ameaças de lesões ao plano da ordem que se queria impor ou mesmo se viessem a afetar interesses dos potentados locais em seus domínios patrimoniais. Sem um Poder Judiciário autônomo diante do Poder Executivo e na ausência de uma esfera pública, cuja formação efetiva somente vai germinar com as lutas abolicionistas, a modelagem discricionária do Direito Administrativo se vai comportar como o instrumento mais adequado para que o conteúdo ideado pelo vértice político procurasse suas vias de realização.

Essa dialética difícil entre forma e conteúdo se vai projetar no cenário republicano, o Estado Novo tendo significado um momento de exasperação da imposição do conteúdo sobre a forma, aí não mais orientado pelos ideais civilizatórios, e, sim, pelos da modernização do País. A Carta de 1937, em seu artigo 135, comanda sem subterfúgios que a precedência "do pensamento dos interesses da Nação" deveria se impor aos interesses individuais, cabendo ao Estado a leitura e vocalização desse pensamento. Na fórmula, pois, o pensamento da Nação se substantiva, enquanto os procedimentos para sua realização são meramente instrumentais.

O curso do processo de modernização subsequente, em boa parte cumprido em contexto mais amável às instituições do liberalismo político - salvo o hiato do regime militar -, preservou essas marcas congênitas à nossa formação, como no governo JK, em que se contornou o Poder Legislativo com a criação dos então chamados grupos executivos, a fim de viabilizar, pela ação discricionária da administração pública, seu programa de metas para a aceleração da industrialização do País.

A Carta de 1988, ao instituir os termos da democracia política no País, deu início a uma mutação em nossa vida republicana, ainda em andamento e não de todo percebida, qual seja a que se expressa na tendência de converter o constitucionalismo democrático em novo paradigma dominante no sistema jurídico-político, afetando as antigas primazias exercidas pelo Código Civil e o poder discricionário das esferas administrativas. A emergência dessa tendência - escorada por institutos próprios, entre outros, o Ministério Público, as ações civis públicas e as de controle da constitucionalidade das leis - modera, quando não inibe, o decisionismo de nossa tradição política.

Pode-se entender o assim chamado processo do "mensalão" como uma tentativa de reação anacrônica do conteúdo contra a forma, pois o que, na verdade, se intentava, embora por métodos nada republicanos, era insular a vontade política dos governantes, no suposto de que somente deles provinha a melhor interpretação dos interesses da Nação. A tentativa se frustrou, foi criminalizada e, agora, chega aos tribunais. Quanto à sorte do seu julgamento, a essa altura se trata de questão menor, confinada às artes dos especialistas em técnica jurídica, uma vez que, no que importa, a sociedade e suas instituições já demonstraram recusar aos governantes o monopólio para decidir sobre quais são os verdadeiros interesses da Nação. No mais, é como se dizia antes da invenção da ultrassonografia: nunca se sabe o que vai sair de barriga de mulher ou da cabeça de um juiz.

O mensalão no banco dos réus - JANIO DE FREITAS


FOLHA DE SP - 24/06

O que acontecer, não nos equivoquemos, será de importância extrema para o futuro da democracia

O ministro Ricardo Lewandowski confirma para esta semana a entrega do seu relatório-revisor do processo do mensalão. Este prazo que ele se deu custa-lhe trabalho dia e noite, e em todas as situações possíveis. Por seu desempenho no Supremo, Lewandowski é um nome que significa serenidade, equilíbrio e segurança. Três fatores essenciais nesse julgamento tão especial. O que nele aconteça, não nos equivoquemos, será de importância extrema para o futuro da democracia no Brasil.

Enquanto o caso do mensalão fervilhou, suas muitas verdades conviveram com muitas deformações, decorrentes do ambiente emocional que explodiu nos meios de comunicação. E que logo se estendeu à CPI, tanto pelo estímulo à oposição esperançosa de ferir Lula de morte, como pela desfaçatez com que muitos atingidos, e mais ainda seus aliados, repeliam as evidências e os indícios. Tudo isso, além da gravidade descomunal do caso em si.

Muitas CPIs têm sido perturbadas pela influência do fator emocional. É assim desde ao menos a esquecida "república do Galeão", em que oficiais da FAB puseram-se nos papéis de CPI, polícia e Judiciário a propósito, no clímax das emoções, do atentado ao seu ídolo Carlos Lacerda por guarda-costas de Getúlio, à revelia deste. A democracia não se reabilitou, apenas resistiu até 1964.

Mais para cá, como exemplo fácil da emocionalidade perniciosa, os jardins da "casa da Dinda" foram tratados pela imprensa como se fossem os próprios Jardins Suspensos da Babilônia, o que os elevou a mais uma prova exaltada do deslimite de Collor. Só muito depois se soube, com desinteresse, que era apenas um jardim como milhares de outros com o gosto duvidoso dos novos-ricos. Mas as emoções já estavam então pacificadas e desmemoriadas.

A fase incandescente do mensalão cumpriu em alto estilo a regra das emoções influentes. Não pelos deputados em lágrimas, nos discursos de desespero e apelo como o de Sandro Mabel. Ou na pressão sobre interrogados, como o constrangimento da senhora de ar respeitável, apenas secretária na agência de Marcos Valério, a quem perguntaram de sua relação "com uma cafetina de Brasília".

Essas eram as emoções pessoais. As outras, influentes, junto às verdades, imputaram culpas improváveis, transferiram responsabilidades, estenderam participações sem mais base e motivo do que a própria emocionalidade. Embora os fatos reais e frios não precisassem desse complemento perigoso, porque deformador.

São 39 réus. Considerados em cerca de 50 mil páginas desse bem chamado processo histórico. O anterior e o atual presidentes do Supremo, ministros Cezar Peluso e Ayres Britto, já disseram inúmeras vezes que o tribunal fará um julgamento técnico. É preciso que seja assim, mesmo. Já a partir da acusação a ser feita pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel.

Esse, contrariamente ao considerado, é um processo essencialmente político. Opõe o conservadorismo que se valeu e pode voltar a valer-se do grave erro de parte das forças reformistas e, no outro lado, o reformismo, mesmo o reformismo de baixo teor que se revelou.

As pressões estão ativadas. Cada ministro, no Supremo, tem que julgar o mensalão com a mais absoluta isenção política. Do contrário, não estaria julgando, mas fazendo política. E sabemos o que os tribunais estão fazendo de fato, quando fazem política.

Clima não justifica "crescimento zero" - EDITORIAL O GLOBO


O GLOBO - 24/06
Odesfecho da Rio+20 estava predefinido. O fato de a conferência das Nações Unidas ocorrer em meio a temores realistas de um ciclo de agravamento da crise mundial, a partir da deterioração do sistema financeiro europeu, cortou qualquer possibilidade de os países ricos, e até remediados, se comprometerem com desembolsos para financiar a conversão de economias mais frágeis a modelos "sustentáveis". Em decorrência deste obstáculo, surgiu outro: impossibilidade de se estabelecer metas. Se não há dinheiro para projetos de sustentabilidade, por suposto é impossível definir alvos a atingir. Daí, esta sensação de tempo perdido, de frustração e fracasso.
A conclusão é muito ácida - sem trocadilho. É preciso relembrar que a Rio+20 não era um encontro sobre clima, mas acerca de algo muito maior, incluindo as variações atmosféricas. A ONU, com o Brasil à frente, por ser anfitrião, lançou-se a uma tarefa impossível de cumprir no período de debates em Nova York e nos poucos dias de conversações e discursos - estes, sem importância - no Riocentro: encontrar consensos para patrocinar uma gigantesca guinada planetária em busca de modelos de produção mais limpos - ou menos sujos -, que preservem recursos naturais finitos.

A definição de "economia sustentável" pode preencher o espaço de um pequeno verbete de enciclopédia ou cartapácios e gigabites em memórias de computador. Se é possível resumir, a Rio+20 teria de lançar as bases de uma reciclagem no sistema produtivo do tamanho da revolução industrial ocorrida na Inglaterra no século XVIII. Impossível, por óbvio. O que não significa deixar de ser necessário repensar o nosso sistema produtivo e de geração de energia.

Mas alguns passos foram dados. Admitir que há o problema - esgotamento de matérias-primas, poluição, matriz energética problemática, por se basear muito em combustíveis fósseis etc - é um início. Outro aspecto: não se pode retardar ou renunciar ao combate à pobreza e à miséria em nome da "sustentabilidade" e do combate ao "aquecimento global".

É tranquilizador que o documento final da Rio+20 inclua a eliminação da miséria e da pobreza no processo de busca de um novo padrão de desenvolvimento. Não se trata de uma questão trivial, diante de apreensões em vários meios com a incorporação de centenas de milhões de eurasianos aos mercados de trabalho e consumo. A pergunta é instigante: o que acontecerá com o planeta se chineses, indianos e vizinhos buscarem um padrão de vida americano?

Evidente que não haverá recursos naturais suficientes para sustentar algumas centenas de milhões a mais na população mundial com aquele mesmo perfil de consumo. A constatação tem ressuscitado preocupações "malthusianas" , inspiradas no economista inglês Thomas Robert Malthus, dos séculos XVIII e XIX. Mas as previsões de graves crises de abastecimento devido à expansão demográfica não se confirmaram, pois o avanço da ciência e tecnologia superou gargalos na produção, seja na agricultura, na indústria ou em serviços.

Imaginar que, em algum momento, será preciso conter o crescimento econômico - com a perpetuação da pobreza e da miséria -, em nome da preservação do planeta, é incorrer no mesmo erro de Malthus.

É o fim da simbiose? - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 24/06


Nos últimos três meses aumentaram as indicações de forte desaceleração da atividade econômica da China, hoje a segunda maior economia do mundo. Há boas razões para entender que esse movimento não reflete apenas o ajuste da economia chinesa à crise global. Pode ser mais do que isso; pode ser o início do rompimento da relação simbiótica mantida entre China e Estados Unidos nos últimos 20 anos.

A simbiose consistiu numa troca recíproca de papéis que configurou uma dependência recíproca. Os Estados Unidos passaram a ser grande mercado consumidor de produtos industrializados chineses e a China, por sua vez, amontoou grandes sobras em receitas (superávits comerciais) que foram imediatamente transformadas em reservas externas e, em seguida, trocadas por títulos do Tesouro dos Estados Unidos (veja o Confira). Ou seja, nessa simbiose, a China atuou como financiadora dos rombos orçamentários (e do consumo) dos Estados Unidos.

Esta não foi apenas uma valsa dançada por um único casal. Outros protagonistas atuaram direta ou indiretamente neste salão. Outros emergentes, como Brasil, Rússia e Índia, também formaram grande volume de reservas depois aplicadas em títulos dos Estados Unidos.

Uma das consequências desse mega- arranjo foi o forte achatamento dos juros internacionais de longo prazo, pela simples razão pela qual se formou vasto mercado tomador de títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Juros rastejantes, por sua vez, concorreram decisivamente para a grande expansão do crédito, para a formação das bolhas imobiliárias e para o afundamento na crise.

Agora, a China não pode mais tirar proveito, como antes, do enorme dinamismo do mercado dos Estados Unidos e dos demais países ricos, que perderam capacidade de importar e de se endividar. Em contrapartida, estes países também não podem mais contar com a mesma capacidade que tinham os chineses (e demais emergentes) de seguir amontoando reservas.

Como não podem exportar como antes, os chineses já não conseguem crescer aos ritmos alucinantes de há alguns anos (veja o gráfico). Sua estratégia de política econômica não pode mais concentrar-se no crescimento econômico baseado na expansão do mercado externo (export led growth), mas terá de induzir o crescimento do consumo no mercado interno (domestic led growth).

O problema dessa mudança de modelo é que a China consome pouco. Não mais do que 49% da renda. (Apenas para comparar, o Brasil consome cerca de 73% e os Estados Unidos, quase 100%.) Achatar a poupança na China (de 51%) e transformá-la em consumo interno seria tarefa hercúlea que levaria anos, talvez dezenas.

Até agora, os analistas imaginavam que, uma vez superada a crise, tudo voltaria a ser como antes. Mas as evidências são de que esse retorno à valsa antiga já não seria mais possível. Se não por outras razões, pelo menos por duas: porque a economia dos Estados Unidos já esbarrou no teto de sua capacidade de endividamento (emissão de títulos do Tesouro); e porque parece muito próximo o limite de formação de reservas pela China.

Atenção para mais crise - ALBERTO TAMER


O Estado de S.Paulo - 24/06


A reunião dos quatro principais países da zona do euro - Alemanha, França, Itália e Espanha -, que buscavam uma saída para a crise financeira, deu praticamente em nada. Angela Merkel vetou novamente a criação dos eurobônus, uma solução indicada por todos os países do bloco e agora pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Vetou também empréstimos diretos aos bancos espanhóis ou italianos, apesar do agravamento da crise. Sou chanceler da Alemanha e não sou responsável pela aplicação desses recursos, estimados em 130 bilhões, por enquanto. Empréstimo só aos governos para que os repasse aos bancos.

Até pode fazer sentido, mas isso aumenta a enorme dívida soberana desses governos e, simplesmente, afasta ainda mais os investidores. Eles não só cobram taxas insustentáveis para rolar a dívida, mas ainda estão saindo dos bancos espanhóis, gregos e italianos.

Assim, ficou tudo como estava em Roma até a próxima reunião, agora de todos os governos da zona do euro, no próximo dia 28. Também não se espera nada desse encontro porque a chanceler alemã foi categórica: não vai mudar e muito menos em uma semana. Ela exige que ou se pode intervir na administração financeira dos países socorridos, ou não tem dinheiro.

FMI endurece. A diretora-gerente do Fundo, Christine Lagarde, endureceu sua posição, criticou a intransigência alemã e exigiu mais ação dos países da zona do euro. O FMI defende que o Banco Central Europeu (BCE) compre títulos da dívida soberana, reduza os juros e acima de tudo, injete liquidez no mercado. Ou seja, emita euros. Nada de se concentrar apenas em austeridade fiscal que sozinha não só não resolve, mas agrava a situação. Como nada foi decidido, resta apenas o BCE seguir a política do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) que já injetou US$ 2,6 trilhões no mercado americano, de acordo com dados divulgados na sexta-feira.

O BCE ainda hesita, afirma que isso tiraria o "sentido retardado de urgência(?!)" para uma ação dos governos.

Alguma ajuda. Mesmo assim, como tudo se agrava, o BCE anunciou sexta-feira mais facilidades para que os bancos espanhóis e italianos recebam novos empréstimos do banco, além do 1 trilhão da linha que ofereceu aos países endividados.

Ajuda inconsistente. Talvez para salvar a face, os quatro países aprovaram proposta do presidente francês, François Hollande, para abrir um linha de credito de 130 bilhões ( US$ 156 bilhões) para obras de infraestrutura. Mas é pouco, apenas 1% do Produto Interno Bruto (PIB) da zona do euro, e não é novidade porque proposta idêntica já havia sido aprovada solenemente na última reunião, há alguns meses. Além disso, metade dos recursos viria do Banco Europeu de Investimento que simplesmente não tem recursos.

Brasil, mais urgência. Após a reunião improdutiva do G-20, a presidente Dilma Rousseff disse que, diante da posição da zona do euro, como um bloco, não havia mais nada a fazer para mudar esse cenário externo. Deu a entender que ela vai ter de aprender. Cabe ao Brasil agir com mais intensidade para impedir que a forte desaceleração e as tensões financeiras, que só aumentam, o afete ainda mais.

E pode? Sim. Tem condições para isso e o recuo do PIB no primeiro semestre deve ter ativado o sentido de urgência do governo. Os dados do Banco Central divulgados na sexta-feira mostram um quadro favorável.

As contas externas vão bem, com o balanço de pagamentos registrando superávit de US$ 1,1 bilhão, em maio; conta financeira com superávit de US$ 3,99 bilhões; investimentos líquidos estrangeiros, US$ 3,7 bilhões; déficit em transações correntes nos cinco primeiros meses do ano está em apenas 2,1%do PIB. É de US$ 21 bilhões, menor que os US$ 22,6 bilhões em igual período do ano passado. Mais importante, o ingresso líquido de investimentos diretos ficou em US$ 63 bilhões nos últimos 12 meses.

As reservas tiveram ligeiro recuo em maio, US$ 1,9 bilhão, mas aumentaram em relação ao ano anterior. Estão em US$ 372,4 bilhões.

Há ainda os recursos do compulsório e do Tesouro Nacional, que elevam as disponibilidades líquidas do governo para cerca de R$ 800 bilhões. Esse valor passa de R$ 1 trilhão se contar parte das reservas cambiais que podem ser convertidas em reais, como se fez na crise de 2008.

Inflação encolhe. O indicador mais significativo é o recuo da inflação que aponta para 4,5% este ano. Isso abre espaço para mais redução dos juros, mais investimentos de curto e médio prazos, crédito e consumo.

Há espaço também para novas emissões do Tesouro para financiar o crescimento, porque a dívida interna, sob controle, está em torno de 43%. Nos Estados Unidos e na zona do euro, passam de 100%.

Eles estão sufocados, sem muita saída. O Brasil, não. O governo tem os recursos, instrumentos fiscais e monetários para agir e evitar que o PIB fique em apenas 2% este ano.

Faltam ainda seis meses para se afastar da recessão que ameaça de novo a economia mundial.

O intangível - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 24/06
Há valores que não podem ser medidos. Nesta categoria está o maior ganho da Rio+20. Famílias passaram horas nas filas diárias para a exposição Humanidades, no Forte de Copacabana. Quinhentos cientistas de vários países passaram dias trocando informações na PUC. Eventos ocuparam a cidade. Pessoas decidiram mudar de atitude. Empresários compararam práticas, e prefeitos se comprometeram a mudar a realidade local.
Isso não mudará o mundo, nem deterá a mudança climática, mas tornará cada vez mais penoso para os governos adiar a inadiável adoção de políticas públicas e decisões políticas que reduzam o risco que corremos.

A Rio+20 não tinha a ambição de uma COP. Não tinha como objetivo um acordo global de redução das emissões de gases de efeito estufa. Era mais modesta e focada. Tentaria definir economia verde, estabelecer objetivos de desenvolvimento sustentável e decidir como transformar um dos órgãos da ONU na autoridade ambiental.

Desentendeu-se sobre o que é economia verde, registrou que os países terão objetivos, mas não definiu metas nem prazos, e apenas fortaleceu o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Entre os que disseram que o documento final brasileiro era pouco ambicioso estavam o presidente da França, da União Europeia e até o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, antes de ter sofrido aquela brusca mudança de opinião.

A Rio+20 para mim começou bem antes, quando viajei para preparar matérias especiais. Na Amazônia, fui a Alta Floresta, que está tentando encontrar o equilíbrio entre produção e proteção. Não é a única cidade amazônica que está fazendo isso. Contei a história no domingo passado.

Reencontrei Lélia e Sebastião Salgado com a paixão de sempre pelo trabalho interminável de refazer a Mata Atlântica na parte que lhes coube. A fazenda Bulcão, em Aymorés, estava totalmente degradada, com erosões e sem água, quando eles começaram o trabalho de replantar tudo. Lélia sugeriu plantar uma floresta.

Foi o princípio. Hoje, eles já contam 1,7 milhão de mudas nativas da Mata Atlântica plantadas, produziram mais de cinco milhões de mudas e acalantam o sonho de reflorestar com espécies nativas o enorme vale do Rio Doce.

- É uma área maior do que Portugal, e onde os rios ficarão intermitentes até 2020. Ou seja, os rios que alimentam o Rio Doce serão secos numa parte do ano - disse Sebastião Salgado.

O caso de Sebastião e Lélia, que entrevistei para a Globonews, não é o único. Outros brasileiros devolvem à terra o que foi desmatado no mais ameaçado dos biomas brasileiros. Desmatada de forma inclemente desde o descobrimento, a mata atlântica perdeu nos últimos 26 anos 1.735.479 hectares de cobertura florestal. Os 700 hectares da Fazenda Bulcão foram recobertos nos últimos 13 anos, numa trabalheira sem fim, e hoje Sebastião diz que tem lá uma floresta criança.

A SOS Mata Atlântica calcula que 80% dos remanescentes da Mata Atlântica estão em propriedades particulares. Só de RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) existem 734, que juntas protegem mais de 136 mil hectares do bioma.

As histórias particulares e os dados agregados não deixam dúvida: a convicção de cada pessoa pode levá-la à ação, que, na soma, aumenta a chance da exuberante natureza do Brasil.

Entrevistei Russell Mittermeyer, presidente mundial da Conservação Internacional. O programa reprisará na Globonews hoje às 10h30m. Depois, estará no meu blog. Ouvi-lo é um alívio para quem anda aflito com a enorme perda da Biodiversidade brasileira.

Ele é uma lenda na luta pela preservação da Biodiversidade do planeta. Descobriu, ou viu pela primeira vez na natureza, 12 novas espécies, entre elas seis macacos amazônicos. Russell Mittermeyer vem ao Brasil há 41 anos, todos os anos. Até agora, já fez 120 viagens ao país. É com base nessa intimidade que ele se diz, apesar de tudo, um otimista com o Brasil:

- A Mata Atlântica faz parte dos 35 hotspots do planeta, os lugares prioritários para a conservação, por ter muita diversidade. Tem apenas 7% a 8% da mata original, mas há todo um grupo enorme de conservacionistas protegendo, há RPPNs e tem as políticas do governo.

Para se ter uma ideia do valor dos hotspots : esses pontos originalmente cobriam 16% de toda a área do planeta, mas nos últimos 100 anos perderam 90% da sua cobertura vegetal:

- Nestes 2,3% de área mundial, há 50% das espécies vegetais, 42% dos vertebrados, e de 80% a 92% das Espécies Ameaçadas. Criei o conceito de país megadiverso. Existem 18 países que concentram dois terços da Biodiversidade do planeta. Nesse grupo, Brasil e Indonésia são os que têm mais Biodiversidade. O Brasil é o país que nos últimos 35 anos mais criou áreas protegidas, desde o trabalho pioneiro de Paulo Nogueira Neto.

Mittermeyer é primatólogo e o que o atraiu ao Brasil foram os macacos. O Brasil é o país que tem mais primatas: 135. Entre os que estudou está o Muriqui, o maior macaco das Américas que vive nos raros fragmentos de Mata Atlântica, protegida por particulares.

Fatos assim confirmam minha impressão de que a ação individual tem impacto. O intangível legado da Rio+20 é este. Seus milhares de eventos paralelos podem ter tocado pessoas. Quem sabe quantas crianças verão o mundo com outros olhos? E isso pode ser decisivo.

Cidades saudáveis - JOSUÉ GOMES DA SILVA


FOLHA DE SP - 24/06

Em meio a algum desapontamento que marcou a Rio+20 e à incerteza quanto à capacidade das nações de aportarem recursos na sustentabilidade enquanto durar a crise econômica, destacou-se algo muito positivo: o compromisso do C40 (Climate Leadership Group), constituído pelos prefeitos das maiores cidades do mundo, de reduzir as emissões de carbono em 1 bilhão de toneladas até 2030.

Isso é importante, pois parcela decisiva do jogo da sustentabilidade acontecerá nas áreas urbanas, que abrigarão no Brasil, segundo estudo da ONU, 93,6% da população. Serão quase 240 milhões de brasileiros morando nas cidades.

A expansão demográfica segue, a despeito da redução do crescimento vegetativo em vários países. Quando se realizou a Rio 92, há 20 anos, a Terra tinha 5,3 bilhões de habitantes; em outubro de 2011, 7 bilhões; em 2050, estima-se que seremos 9 bilhões.

Para viabilizar a meta do C40, o prioritário, entre vários aspectos, é melhorar a infraestrutura de transportes públicos. À medida que mais pessoas deixarem o carro em casa, utilizando trens, metrô, ônibus e outros transportes de massa, serão menos motores poluindo o ambiente. Também é essencial que esses veículos coletivos utilizem combustíveis mais limpos e de fonte renovável, como energia elétrica, biodiesel e etanol.

Nesses aspectos, o Brasil tem situação privilegiada, pois a hidroeletricidade predomina em sua matriz energética e nosso país dispõe da maior área agricultável para a produção de bioenergia. Ou seja, podemos processar muito biocombustível sem afetar a segurança alimentar. Somos uma das poucas nações com capacidade de utilizar a terra para produzir, simultaneamente, comida e energia renovável em abundância.

Além disso, temos a oportunidade e o compromisso de realizar investimentos em transportes públicos para a realização da Copa do Mundo, em 2014, e da Olimpíada, em 2016.

É fundamental que o dinheiro a ser aplicado nas obras preparatórias para os maiores eventos esportivos mundiais nos deixe um legado substantivo em termos de infraestrutura: redes amplas e pouco poluentes de ônibus movidos preferencialmente a biodiesel ou a eletricidade, veículos rápidos sobre trilhos, corredores para o transporte público eficientes, ciclovias seguras e, onde for possível, mais linhas de metrô.

Porém é preocupante, também sob o ponto de vista da sustentabilidade, observar o atraso das obras de infraestrutura de transporte urbano relativas à Copa. Vamos recuperar o tempo perdido. Com certeza, se fizermos direito a lição de casa, daremos imensa contribuição à qualidade da vida urbana e à aceleração do crescimento do Brasil!

Está o planeta aquecendo? - FERREIRA GULLAR


FOLHA DE SP - 24/06

O crescimento sustentável tornou-se fundamental; porém, muitas das teses são destituídas de fundamentos

Escrevo esta crônica bem antes que a conferência Rio+20 tenha chegado a suas conclusões. Por isso mesmo, me limitarei a algumas considerações acerca de problemas que foram levantados e discutidos neste dias.

Confesso que há 40 anos ou mais, quando tomei conhecimentos da questão ecológica, achei que havia muito exagero em tudo aquilo, ainda que me faltassem maiores informações sobre o assunto.

Mas eu não estava de todo errado. Tanto que, com o passar dos anos, as teses ecológicas tornaram-se menos radicais, e eu, de minha parte, admiti que a defesa do meio ambiente é uma necessidade vital, para a qual todos devemos contribuir, de uma maneira ou de outra.

Quanto a isso, minha adesão é total. Como gosto de bichos, de gato a passarinho, onça, anta, macaco, jacaré, não poderia assistir indiferente à destruição das florestas, nem ao corte de árvores centenárias como as que têm sido postas abaixo por traficantes de madeira.

Tampouco podemos ser tolerantes com a queima de combustíveis altamente poluidores, que envenenam a atmosfera das cidades, especialmente de metrópoles como São Paulo e Rio. Não resta dúvida de que essa quantidade excessiva de carbono, lançada por milhares de veículos, altera as condições atmosféricas locais.

O caminho certo é, evidentemente, reduzir ao máximo a emissão desses gases poluentes, substituindo os motores movidos a petróleo por outros, movidos a eletricidade. Não acredito que alguém, em sã consciência, se oponha a isso. A dificuldade, portanto, não está aí e, sim, na concretização de tais objetivos.

São problemas complexos, que envolvem dificuldades efetivas e interesses de tudo quanto é ordem, a começar pelos econômicos, que, por sua vez, têm implicações sociais nacionais e internacionais.

Para mover os trens e os metrôs, é necessário dispor de energia elétrica, que por sua vez implica na queima de combustíveis poluentes ou na construção de usinas hidrelétricas, que levam à inundação de vastas áreas de florestas.

Outras energias não poluentes, como a eólica e a solar, não terão tão cedo condições de suprir essas necessidades. A solução não é desistir delas, mas tampouco será a pregação alarmista, que ignora as dificuldades reais.

O crescimento sustentável tornou-se um tema fundamental da atualidade, como o demonstra, por exemplo, a realização da Rio+20, com a participação de representantes de mais de cem países. Não obstante, muitas das teses defendidas pelos ambientalistas são classificadas por especialistas no assunto como destituídas de fundamentos científicos.

Agora mesmo, 18 cientistas brasileiros, entre os quais estão físicos, geólogos e climatologistas, dirigiram à presidente Dilma uma carta afirmando que "as mudanças climáticas têm sido pautadas por motivações ideológicas, políticas, acadêmicas e econômicas restritas".

Tal atitude contraria "os princípios basilares da prática científica como também os interesses maiores das sociedades de todo o mundo, inclusive a brasileira".

Diz ainda o documento que não há evidências físicas da influência humana no clima do planeta, sendo portanto destituída de fundamento a afirmação de que a atividade industrial tem provocado o seu aquecimento.

Segundo a carta, "o relatório de 2007 do Painel Intergovernamental de mudanças climáticas registra que, no período de 1850-2000, as temperaturas aumentaram 0,74º C, e que, entre 1870 e 2000, os níveis do mar subiram 0,2 m".

Acrescenta que, nos últimos 12 mil anos, houve diversos períodos com temperaturas mais altas do que as de hoje e que o nível do mar chegou a subir três metros acima do atual.

Não se verifica, afirma o documento, qualquer aceleração anormal desses indicadores nos últimos 20 mil anos, uma vez que as variações observadas no período da industrialização se enquadram na faixa de oscilações naturais do clima, não podendo ser atribuídas ao uso de combustíveis fósseis ou a qualquer outro tipo de atividade vinculada ao desenvolvimento humano.

Acrescenta que, embora milhares de estudos científicos sobre o assunto tenham sido feitos e publicados, nenhuma repercussão tiveram na mídia.

Essa carta, por sua vez, tampouco teve a repercussão esperada.

Hoje, parece coisa pouca - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 24/06


Desde que se convenceu de que paira acima do bem e do mal e por isso tudo pode, Luiz Inácio Lula da Silva impôs o vale-tudo como "desregra" única para o PT fazer política. No afã de prestar bons serviços ao chefão, frequentemente a companheirada acaba exagerando e atraindo a incômoda atenção da polícia. Nesses casos, o Lula presidente optou sempre por olhar para o outro lado, passar carinhosamente a mão na cabeça dos suspeitos ou simplesmente fazer blague. Foi assim que inventou a expressão "um bando de aloprados", para explicar, sobranceiro, a desastrada tentativa de uma quadrilha de petistas que tentou, na campanha eleitoral de 2006, comprar um dossiê falso que pretendia ligar o ex-ministro da Saúde José Serra, então candidato tucano ao governo do Estado de São Paulo, ao "escândalo dos sanguessugas", que estourara poucos meses antes, envolvendo parlamentares num esquema de desvio de dinheiro público destinado à compra de ambulâncias.

Na madrugada de 15 de setembro de 2006, a Polícia Federal (PF) prendeu num hotel próximo ao Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, dois filiados do PT que tinham em seu poder cerca de R$ 1,7 milhão com o qual pretendiam comprar o tal dossiê, que lhes fora oferecido pelos donos da empresa Planam, Darci e Luiz Antonio Vedoin, pai e filho, apontados como responsáveis pelo superfaturamento das ambulâncias do caso dos sanguessugas. Os dois petistas eram Valdebran Silva, ex-tesoureiro do PT em Mato Grosso, e Gedimar Passos, que trabalhava no comitê da campanha da reeleição de Lula. Ambos admitiram que o dinheiro se destinava à compra do falso dossiê contra Serra.

As investigações feitas pela PF acabaram envolvendo no caso dirigentes do PT, como o então presidente nacional Ricardo Berzoini, e duas pessoas muito próximas a Lula: Jorge Lorenzetti, o churrasqueiro do presidente e também membro de seu comitê de reeleição, apontado como mentor da operação, e Freud Godoy, assessor especial de Lula, indicado por Gedimar Passos como a pessoa que o teria contratado para negociar a compra do dossiê.

Imagens gravadas pelo esquema de segurança do hotel mostravam que Hamilton Lacerda, membro do comitê de campanha de Aloizio Mercadante - o adversário petista de Serra na disputa pelo governo paulista -, ali chegara portando duas malas que continham o dinheiro destinado à transação, entregue a Gedimar.

Menos de dois meses depois da prisão de Valdebran e Gedimar, todos os envolvidos estavam afastados de seus cargos e classificados pelo presidente Lula como "aloprados".

Demorou mais, como de hábito, mas quase seis anos depois, na semana passada, a denúncia contra nove dos indiciados foi preliminarmente aceita pelo juiz Paulo Cézar Alves Sodré, da 7.ª Vara Criminal de Mato Grosso, que fixou prazo de 10 dias para a apresentação das alegações da defesa, com base nas quais decidirá se abre processo criminal. A denúncia, assinada por três procuradores de Justiça, afirma: "O exame dos depoimentos dos envolvidos no episódio e demais provas evidenciam que os denunciados se associaram de forma estável e permanente e elaboraram uma série de atos preparatórios para a compra do dossiê, os quais configuram crimes. Isso permitiria a membros do Partido dos Trabalhadores a exploração político-eleitoral do dossiê nas eleições de 2006, o qual, supostamente, exporia o envolvimento de políticos do PSDB no esquema das ambulâncias".

Se a denúncia for acatada, seis dos denunciados, entre eles Valdebran, Gedimar, o churrasqueiro Lorenzetti e Hamilton, assessor de Mercadante, responderão por crimes de formação de quadrilha, contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro. Os outros denunciados responderão por atribuição de falsa identidade para realização de operação de câmbio.

Em comparação com o processo do mensalão, cujo julgamento finalmente a Nação se prepara para acompanhar, esse lamentável episódio empalidece, parece coisa pouca. É o que basta para dar a medida do mar de lama em que hoje, como nunca antes, a política brasileira se atola.

Em fuga - LEE SIEGEL


O Estado de S.Paulo - 24/06


"Um feroz bestiário que incluía lobos, macacos e 18 tigres de Bengala... tinha escapado das jaulas numa reserva particular de 30 hectares... No fim da quarta-feira, um dia após o início da caçada, as autoridades desta cidade de 25 mil habitantes na região central de Ohio disseram ter morto ou capturado todos os animais, com uma única exceção: um macaco. O símio não fora visto durante todo o dia, e representantes do governo acreditavam que ele poderia ter sido morto por um dos outros animais..." - The New York Times, 19 de outubro de 2011

"Durante uma coletiva de imprensa realizada à tarde, o xerife disse que o perigo tinha passado e que as pessoas poderiam voltar a se locomover livremente, mas que o macaco seria provavelmente abatido, pois acreditava-se que seria portador de herpes." - CBS News, mesma data

Eles nos tratam a vida toda como se não fôssemos nada, nos alimentam com carne velha e bananas podres, deixam turistas desmiolados fazerem "caras de macaco" para nós - se eu realmente tivesse um parente com uma cara daquelas, faria um favor a todos e me mataria - e, então, como insulto final, nos acusam de ter herpes. Tive um grande amor na vida, uma macaquinha dourada chamada Lily e podem acreditar quando digo que ela era uma primata limpíssima.

É isso que eles fazem quando não gostam da gente. Atacam nossa reputação. Na natureza, quando não gostamos de alguém, arrancamos logo as suas tripas. Simples. E, se formos analisar os fatos, é até civilizado. Nada de mentiras. Nada de falatório inócuo. Nada de confusão mental prolongada nem angústia. Zip. Tudo acaba num instante. Já os humanos precisam nos rebaixar antes de nos matar. Mesmo quando as pessoas fazem algo ruim, elas precisam se sentir bem a respeito de si mesmas.

Bom, saibam que não tenho herpes nem fui morto por um de meus colegas. Fizemos um acordo: depois de fugir é cada animal por si. Não é preciso ajudar ninguém, mas não é preciso devorar ninguém, certo? Há latas de lixo de sobra, todas transbordando de alimento. O bastante para a turma toda. Não posso dizer que não tenha ficado um pouco desconfiado quando um dos lobos se ofereceu para me dar uma carona em suas costas, mas respondi, "Não, obrigado", e fim de papo - embora eu tenha me mantido nas copas das árvores durante algum tempo depois desta conversa. O melhor de ser um animal é o fato de reconhecermos um lobo quando vemos um deles.

Escondi-me num beco em Cincinnati, rumei para o Sul, depois para Nova York, e então desci pela Costa Leste. Não dava para ficar muito tempo em Nova York. Os esquilos estavam cobrando 200 nozes por mês por um galho simples no Central Park. Não queriam aceitar nem mesmo os bons e velhos amendoins. Nozes ou nada. Paguei dez castanhas por noite para passar uma semana num simpático arbusto no Bronx, e depois me mandei de lá. Era tudo competitivo demais. Impossível arrumar um lugar no lixão do bairro sem fazer reservas.

No começo, fiquei aterrorizado por ser um fugitivo. Tremia tanto que mal conseguia me locomover. Certa tarde, estava correndo pela calçada de um subúrbio de St. Louis quando me deparei com um adolescente. Imagine a cena: um macaco-aranha de quase um metro de altura usando as roupas que pude encontrar (bermudas, uma imensa camiseta dos Detroit Lions, um boné com a frase "Amando Las Vegas" ocultando o rosto e sapatilhas de balé douradas). Dei de cara com o rapaz e pensei que estava tudo acabado para mim. Mas ele estava tão concentrado no retângulo luminoso que trazia nas mãos a ponto de olhar para mim, dizer "com licença" e continuar caminhando. A partir de então, sempre que via um adolescente americano, eu temia pelo futuro do país, mas não pelo meu destino.

Resolvi o problema do vestuário com relativa rapidez (por mais difícil que tenha sido me separar da camiseta dos Detroit Lions). Encontrei um mercado de pulgas em Jersey City e arrumei um terno bacana de três peças, modelito completo. Listras azuis. Depois disso, a vida de fugitivo se tornou muito diferente do que eu havia imaginado. Certa noite, enquanto me deliciava com uns canapés de abacaxi que repousavam sobre a mesa num quintal dos subúrbios de Nova York, algumas pessoas chegaram subitamente para começar uma festa. Não tive escolha a não ser me passar por um dos convidados. Não demorei para descobrir como deveria me comportar. Quando o tema da conversa era a política, eu rangia os dentes. Quando era a cultura, eu sorria, amistoso. Quando falávamos de outro convidado da festa, eu assentia com a cabeça. Ninguém pareceu reparar que um dos convidados da festa era um macaco até o momento em que alguém me perguntou onde eu morava e, desavisadamente, apontei na direção de uma parte menos rica da cidade. Alguém gritou "É um macaco!", e tive de correr para salvar minha pele.

Vou lhes dizer uma coisa: ser fugitivo nos Estados Unidos é uma verdadeira revelação. Fui convidado a me candidatar tanto pelos republicanos quanto pelos democratas; fui chamado a aparecer num anúncio da Nike ("Nike: a escolha do fugitivo"); e fui transformado brevemente no astro de um reality show produzido na região (Mãos e pés descalços). Atualmente, estou escrevendo um livro de memórias e preparando uma coluna semanal para o Washington Post. Tomo um remédio para a depressão, outro para a ansiedade, um para a histeria e dois para manter a raiva sob controle.

Sinto sua falta, Lily.

Outra carta de Dorinha - LUIS FERNANDO VERISSIMO

O GLOBO - 24/06


Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Segundo Dorinha, só Deus e o Pitanguy sabem a sua idade e ela confia  na discrição dos dois. Com o advento do botox, as reuniões do seu grupo de pressão política e carteado, as Socialaites Socialistas, que prega a implantação no Brasil do socialismo soviético no seu estágio mais avançado, a restauração do tzarismo, têm sido confusas. Ninguém aparece com a mesma cara duas vezes e fica difícil distinguir as companheiras legítimas – Tatiana (“Tati”) Bitati, Susana (“Su”) Adouro, Monica (“Mo”) Cassim, etc – de agentes da Polícia Federal infiltradas no grupo. Sim, as Socialaites Socialistas estão sendo investigadas! Elas... Mas deixemos que a própria Dorinha nos conte. Sua carta veio escrita com tinta púrpura em papel magenta e cheirando a “Ravage Moi”, um perfume proibido em vários países.


“Caríssimo! Chupões. Desconfiei que estavam gravando meus telefonemas porque cada vez que eu fazia ou recebia uma chamada ouvia uma voz dizendo ‘Silêncio no estúdio’. Pensei que estivessem investigando um dos meus ex-maridos, o barra 8. Nunca consegui guardar o nome dos meus maridos e os identificava pelo final das suas contas bancárias. O barra 8 era tão corrupto que recebia cartas de fã do Maluf. Mas não, as investigadas somos nós. Que ultraje! Conseguimos desmascarar três agentes da PF que participavam do nosso chá das terças com crachás falsos porque os bigodes que usavam como disfarce se desmancharam no bafo do chá. Chegamos a tal ponto de dissolução moral neste país que não se pode confiar mais nem em crachá. Você sabe que eu não tenho nada contra a dissolução moral desde que seja feita com bom gosto, mas francamente. Arrancamos confissões das agentes com a ameaça de anodizar os seus soutiens de ferro. Aparentemente, há a suspeita de que as Socialaites Socialistas são financiadas pelo Carlinhos Cachoeira, como todo o mundo. Calúnia! Está certo, uma vez usei o jatinho do Carlinhos para não perder a hora no dentista, mas sentei bem atrás e não aceitei os canapés! Estou disposta a depor na CPI para limpar o nome das Socialaites Socialistas, que vivem honradamente das pensões de ex-maridos e de aplicações em renda fixa. Da tua indignada Dorinha.”