sexta-feira, junho 01, 2012

A difícil arte de fazer amigos em Brasília - MARIA CRISTINA FERNANDES


VALOR ECONÔMICO - 01/06


No mesmo dia em que o Copom definia, por unanimidade, a mais baixa taxa da história da Selic, a presidente Dilma Rousseff prestou, pela primeira vez desde a posse, solidariedade política a seu antecessor. Até aqui, a situação sempre havia sido inversa. Era o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva quem sempre agia para apagar incêndios dos aliados e promover desagravos públicos em momentos de crise.

Parece uma coincidência que Dilma se invista da plena autoridade do cargo no momento em que consegue pôr a política monetária no rumo do modelo de desenvolvimento que sempre almejou. Mas não é.

Em setembro do ano passado, um mês antes do diagnóstico de seu câncer na laringe, o ex-presidente foi a grande estrela do 4º Congresso Nacional do PT. Cobrou paciência com os resultados do governo - "Oito meses de governo é muito pouco para quem vai governar este país por oito anos" e, dirigindo-se a Dilma, que vivia uma interminável derrubada em série de ministros, disse: "Não há mar revolto, furacão, vendaval, vulcão que você não possa vencer".

Mendes deveria se declarar impedido de julgar o mensalão

Esta semana foi a vez de Dilma agir como ombro amigo de Lula depois da publicidade desastrosa de seu encontro com o ministro do Supremo Gilmar Mendes. "As pessoas nos lugares certos e na hora certa mudam os processos e transformam a realidade", disse Dilma ao homenagear Lula, e, na mesma tacada, fazer uma referência velada ao farto noticiário sobre a conversa errada no local errado.

A notícia da Selic que viria do outro lado da Esplanada horas depois deixava claro - tanto para seu partido quanto para adversários - que o patrimônio político deste governo não se esgota na figura do ex-presidente.

Lula agiu pela obsessão com a biografia que acomete a quem se despe da faixa presidencial. Parece não ter-se dado conta que o Brasil nem as conquistas de seu governo não vão acabar se alguns de seus ex-companheiros forem condenados. É uma perspectiva muito diferente de sua sucessora que, justamente por ter esse capítulo de sua biografia ainda em aberto, tem outras causas pelas quais avalia valer a pena queimar caravelas.

O episódio ajuda a delimitar as diferenças entre Lula e Dilma. O ex-presidente pisou em falso nos bastidores da política, território em que sempre foi rei e por onde sua sucessora é constantemente cobrada a transitar com mais desenvoltura.

Lula não está agindo com a isenção prometida. Mas, ainda que se dê crédito às muitas versões de Gilmar Mendes sobre o encontro, e se julgue condenável que um ex-presidente faça injunções sobre um julgamento na mais alta Corte do país, Lula não exerce mais cargos. São questionamentos éticos e de sua decantada clarividência política que lhe são dirigidos.

Gilmar também é um ex-presidente de poder, mas, ao contrário de Lula, ainda tem mandato. E é pela condição de juiz supremo que as suspeitas sobre si, são mais graves.

Se a chantagem existiu - e é preocupante para sua reputação de juiz que nenhum dos participantes a confirmem integralmente -, Mendes tinha a obrigação de denunciá-la ao colegiado da Corte. Decidiu fazê-lo um mês depois à mesma publicação que, ao divulgar um grampo nunca comprovado em seu gabinete, provocou um dos momentos mais tensos do governo passado.

Não é de hoje que o ministro do Supremo priva seus pares das conversas as com partes do processo. Na campanha eleitoral de 2010, os repórteres Moacyr Lopes Jr. e Cátia Seabra, da "Folha de S.Paulo", estavam num evento com o então candidato à Presidência da República José Serra. Viram um assessor que havia sido incumbido de ligar para Mendes, à época presidente do STF, entregar o telefone ao candidato com o ministro na linha. Depois de cumprimentar o interlocutor como "meu presidente", Serra teria falado ao telefone andando pelo auditório.

Ambas as assessorias negaram a conversa mas, depois do telefonema, Mendes pediu vista da sessão que julgava a exigência de dois documentos ao eleitor. A votação estava 7 x 0 contra a exigência. O PT defendia que o eleitor pudesse votar apenas com a carteira de identidade, pra facilitar a vida do eleitor de baixa renda, que considerava seu.

Os parlamentares que votaram contra a indicação do ministro, em 2002, na mais contestada indicação do Supremo até aquela data, tinham dúvidas se o ex-advogado-geral da União agiria como magistrado. Hoje parecem premonitórios.

Desde que a CPI foi instalada especula-se sobre uma tal viagem a Berlim do ministro. O inquérito da Polícia Federal sobre as atividades de Carlos Cachoeira isenta Mendes de envolvimento com o bicheiro.

Na entrevista a Maíra Magro, do Valor, Mendes esclareceu ter todos os comprovantes de uma viagem pela Europa, que incluiu um feriado de Páscoa na companhia de Demóstenes e das respectivas mulheres em Praga. Informa ter pego carona em dois aviões colocados à disposição por Demóstenes - uma vez na companhia de Nelson Jobim e do seu colega de Corte, José Dias Toffoli, para participar de um evento, e uma segunda vez, na companhia de uma ministra do STJ, para participar da formatura da mulher do senador, a quem chama de "Flavinha", e de cuja turma eram paraninfos.

Talvez o ministro não tivesse como saber se esses voos eram pagos por Cachoeira. A despeito de todas as evidências, o próprio senador precisou apelar à sua conversão religiosa para tentar convencer o Conselho de Ética de que desconhecia as atividades do seu amigo contraventor.

Mendes nega amizade com Demóstenes na companhia de quem, para ficar apenas nos fatos por ele relatados, já passou a Páscoa e a cuja mulher refere-se no diminutivo. Demóstenes, com quem o ministro diz ter relação "funcional", também frequenta as festas de aniversário da família Mendes. E já empregou uma enteada do ministro no seu gabinete. Deve ser muito difícil fazer amigos em Brasília.

Foi graças a Cachoeira que vieram a lume as primeiras denúncias do mensalão. Pelo conjunto da obra, Mendes bem que poderia se declarar impedido de julgar o mensalão. José Dias Toffoli, ex-advogado do PT, ex-subchefe de assuntos juridicos da Casa Civil na gestão José Dirceu, e ex-advogado-geral da União no governo de Lula, que o indicou ao Supremo, também lustraria sua biografia se tomasse o mesmo rumo.

A grande chance do planeta - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO e GRO HARLEM BRUNDTLAND


O GLOBO - 01/06

Sendo mais velhos, estivemos envolvidos na vida pública por um longo período. Sabemos que mudanças levam tempo. Mas nosso otimismo está sendo testado pela falta de urgência na reta final para a Rio+20, este mês. O encontro é uma oportunidade histórica de traçar um futuro sustentável. Mas, neste momento, há uma real chance de esta oportunidade ser desperdiçada.

Os países estão divididos sobre meios e fins. A situação causa profunda preocupação. O sucesso, ou o fracasso, da Rio+20 terá profundas repercussões: definirá as aspirações de 3,5 milhões de jovens e dará forma ao mundo que deixaremos às futuras gerações.

Foi, é claro, na primeira Cúpula da Terra, há 20 anos, no Rio, que nossa geração de líderes admitiu que focar apenas no crescimento econômico não era mais possível. Num notável rompimento com o passado, reconheceu-se que, num mundo de recursos finitos, o desenvolvimento teria de ir junto com o progresso social e a proteção ao meio ambiente, respeitando o direito de cada país se desenvolver.

Nas últimas duas décadas, a ideia do desenvolvimento sustentável revolucionou o pensamento de milhões. O entendimento de nossa responsabilidade comum ajudou a levar 189 líderes mundiais a concordar, em 2000, com a Declaração do Milênio, que abriu caminho às Metas de Desenvolvimento do Milênio. Em muitos países, testemunhamos ação determinada para reduzir a poluição e investir em energia renovável.

Quanto mais aprendemos, mais entendemos a gravidade do desafio. E ainda não vimos a necessária coragem e vontade política para transformar boas intenções em ação coletiva efetiva. O resultado de nossa inação está por toda parte. Padrões insustentáveis de produção e consumo continuam a impor demanda excessiva sobre recursos naturais, como a água. A desigualdade entre os países, e dentro deles, aumenta. Crise financeira e preços elevados dos alimentos ampliam o desafio: uma em cada sete pessoas não tem o bastante para comer hoje.

A Rio+20 dá aos líderes internacionais a oportunidade de se reunirem para acelerar o progresso das duas últimas décadas. Em primeiro lugar, precisamos aprender com o sucesso das Metas de Desenvolvimento do Milênio. O esforço deve ser intensificado nos anos que restam até 2015. Em segundo, é necessário achar formas de manter o desenvolvimento sustentável no topo da agenda global. Acreditamos que a criação de um conselho, com posição proeminente na ONU, um mandato claro, capacidade e autoridade, poderia fazer a diferença. Em terceiro, a iniciativa energia Sustentável para Todos, do secretário-geral da ONU, requer apoio mais decisivo. A poluição continua sendo um dos maiores problemas mundiais de saúde pública. Precisamos de investimentos para reduzir o uso de combustíveis baseados no carbono e aumentar a eficiência energética.

Finalmente, o verdadeiro desenvolvimento sustentável se articula com progresso mais rápido em direção à igualdade de gêneros. Em todo o mundo, as mulheres ainda enfrentam barreiras que as impedem de exercer em plenitude seu papel em nossas economias, parlamentos e sociedades. Se desperdiçamos metade do talento e do potencial mundial, simplesmente não podemos ter sucesso.

É nossa responsabilidade - como empresas, membros da sociedade civil e indivíduos - ajudar o crescimento de nossas economias de uma forma que beneficie a todos e salvaguarde o planeta para as futuras gerações. Mas apenas os governos, juntos, podem criar condições para que os esforços sejam bem-sucedidos. Esta é a razão pela qual a Rio+20 é um momento para coragem e visão.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO é ex-presidente do Brasil.

GRO HARLEM BRUNDTLAND foi

primeira-ministra da Noruega.

Um pacote para o etanol - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 01/06



A mais importante conclusão que se pode tirar das informações de que se prepara, em Brasília, um pacote de incentivos para estimular o investimento na área de biocombustíveis - especialmente no segmento de açúcar e etanol - é a de que o governo deixou de ver o usineiro como mero aproveitador e oportunista. Passou a considerá-lo agente do crescimento econômico.

No ano passado, quando começou a faltar etanol no mercado, o governo Dilma o tratou como simples especulador com estoques. As duas principais decisões de então foram: reduzir a participação do etanol anidro na mistura com a gasolina (de 25% para 20%); e transferir a política do setor para a Agência Nacional do Petróleo, para que fosse enquadrado à política de combustíveis. Acompanharam as ameaças de confisco sobre exportações de açúcar, para que o usineiro aprendesse a ser responsável pelo suprimento de etanol.

Demorou para o governo ver que o setor não é o jogo de interesses de curto prazo que lhe parecia, mas que enfrenta disparada de custos sem contrapartida de retorno. Qualquer contratempo climático ou queda das cotações globais do açúcar - como as de hoje - pode bastar para derrubar a produção e inibir os investimentos.

No entanto, como já ocorre com o atendimento dado a todo o setor produtivo, o pacote em preparação leva todo o jeito de não passar de novo puxadinho, baseado na redução de alguns impostos, que não ataca os problemas de fundo.

A principal questão imediata, que atinge todo o setor de biocombustíveis e não só o do etanol, é a política de tabelamento dos preços dos derivados de petróleo, sobretudo da gasolina e do óleo diesel. Esse achatamento não debilita apenas a capacidade de investimento da Petrobrás. À medida que deprime também os preços do etanol, bloqueia investimentos tanto na cultura de cana-de-açúcar como na construção de usinas de destilação. E concorre para afundar um segmento altamente promissor da economia brasileira.

Isso significa que não basta distribuir alguma água benta para os usineiros para que seja garantida a recuperação do setor do etanol, hoje atolado em dívidas superiores a US$ 40 bilhões. É preciso que o governo reveja corajosamente a política de preços dos derivados de petróleo.

Mas só o restabelecimento da flutuação dos preços dos derivados do petróleo aos padrões internacionais não devolve competitividade estrutural ao setor sucroalcooleiro. Desdobramentos da crise global também poderiam baixar os preços do petróleo a níveis inferiores aos de hoje, a ponto de justificar o patamar atual dos preços dos combustíveis sem, no entanto, viabilizar o negócio do etanol.

E aí chegamos aos problemas dos altos custos estruturais, que derrubam a competitividade não só da área do açúcar e do álcool, mas também de todo o setor produtivo brasileiro: é a excessiva carga tributária, a precariedade e os custos elevados da infraestrutura, os onerosos encargos trabalhistas, a burocracia e tudo o mais.

Para resumir, ou o governo define claramente o que quer do setor de açúcar e do álcool e desenha uma política de longo alcance ou será responsabilizado pelo definhamento do setor de biocombustíveis - de que o governo Lula tanto se gabou.

Transtorno de ansiedade - MONICA BAUMGARTEN DE BOLLE


O ESTADÃO - 01/06

A ansiedade é inegável. Está estampada no rosto da presidente, na vibração das palavras do ministro Mantega, o nosso "levantador de PIB", e ressoa, incessantemente, nas manchetes dos jornais. "O modelo de crescimento se esgotou." "O governo busca medidas para destravar o investimento." "A equipe econômica prepara planos de contingência para uma eventual saída desordenada da Grécia do euro."

É novidade a premissa de que o País tenha tido um "modelo de crescimento" que se "esgotou". Um "modelo" pressupõe uma estratégia, um plano de médio prazo. Como tê-lo se o governo está, desde 2009, atiçando e apagando incêndios? Acende, apaga. Liga, desliga. Acelera, freia. Isso não é "modelo". Isso é tatear no escuro, conduzir a política econômica de olhos vendados. Afinal,o cenário externo não tem permitido enxergar além do próprio umbigo.

Se o umbigo é o limite de alcance da visão, como as firmas irão investir? É razoável acreditar no retorno do investimento privado em meio às incertezas europeias? Retorno, sim, pois se enganam aqueles que acreditam que a economia brasileira cresceu apenas impulsionada pelo consumo. Isso não foi verdade nem no conturbado período do pós crise, entre 2009 e 2011, quando o investimento se expandiu, em média, uns 7%, e o consumo, 5%. O investimento caiu em 2011. Porém a queda não adveio de "modelo"algum,e, sim, dos gargalos da economia brasileira, somados aos choques sucessivos que vitimaram a economia global: o desastre japonês, que desarticulou as redes de manufatura globais; o drama fiscal americano, que culminou na perda da classificação AAA; o agravamento da crise bancária/fiscal europeia, que forçou o Banco Central Europeu( BCE) aprover €1 trilhão em poucos meses para o sistema financeiro.

Após o breve alívio proporcionado pelas ações do BCE, o torvelinho europeu voltou revigorado. Não me refiro à Grécia. Salvo um surto ensandecido de inépcia dos líderes europeus e dos políticos gregos, a Grécia dificilmente sairá do euro agora. Não, o problema não é a Grécia. O verdadeiro terror, o cenário catastrófico que ninguém sabe mapear, é a derrocada da Espanha, com seus bancos arrebentados pelas dívidas imobiliárias, com a hemorragia econômica e fiscal que não será estancada com medidas paliativas. Para atenuar os problemas espanhóis, será preciso muito dinheiro do BCE e muita boa vontade dos alemães.

Para "salvar" o euro perante uma ameaça ibérica, será necessário convergir, na marra, para a tal união fiscal que, por enquanto, os alemães querem evitar. Não será possível "ganhar tempo" para a Espanha. O tempo se esgotou.

Mas o consumo brasileiro, não. Diante da gravidade do cenário internacional, é bastante razoável que o governo brasileiro trate de seus próprios interesses, que ajude as famílias a se desalavancarem mais rapidamente, facilitando o refinanciamento das dívidas contraídas, reduzindo os juros e estimulando o crédito.Adensa nebulosidade do cenário internacional não permite alternativas. Por ora, não há estômago empresarial que permita levantar os olhos do próprio umbigo - o ministro da Fazenda não conseguirá essa façanha.

Para os ansiosos, uma péssima notícia. Se o gerenciamento da crise europeia falhar, se ocorrer a temida ruptura por canais que ainda não conhecemos muito bem, o Brasil provavelmente não conseguirá alcançar o mesmo desempenho de 2009, isto é, não será possível atenuar o baque na atividade como halterofilismo do ministro. A razão é simples: não poderemos contar com os esteroides dos estímulos sincronizados dos outros países que, à época, fortaleceram a nossa musculatura.Os países avançados não têm mais espaço fiscal para impulsionar suas economias. E a China tem desequilíbrios em demasia para anunciar um pacote de medidas tãovultoso quanto o que fez em 2009.

Diante disso, é fácil compreender as razões da dificuldade de concentração do governo, a irritabilidade dos analistas, a agitação dos jornais. São sintomas do chamado transtorno de ansiedade generalizada. Um benzodiazepínico seria recomendável.

Trio esfria - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 01/06
Há uma nova frente fria do mundo: China, Índia e Brasil estão reduzindo o crescimento. Ontem saiu o dado da Índia, o menor em 9 anos. A China já não segura o crescimento de dois dígitos há tempos e agora está desacelerando mais. O Brasil não consegue sustentar 3%. O trio está assustando. Na Europa, a cada dia, uma nova agonia. Ontem foram divulgados dados mostrando que 100 bilhões fugiram do Espanha em três meses.

Os Estados Unidos ainda estão tentando se recuperar com idas e vindas nos indicadores. O crescimento no primeiro trimestre foi ontem revisado para baixo, para 1,9%, anualizado. O dado trimestral que sairá hoje do Brasil deve mostrar quase estagnação na comparação com o último trimestre do ano passado. O PIB em 12 meses ficará ainda menor que o tímido número de 2,7% com que se fechou o ano de 2011.

Que os países de industrialização antiga estão em crise e com baixo crescimento já se sabe há muito tempo. A esperança pousou exageradamente sobre o ritmo dos emergentes. E há uma ligação entre todos eles, o que significa que os países sobem e descem juntos. A China puxa vários países de diferentes níveis de desenvolvimento. A demanda chinesa sustenta as economias maduras, as emergentes e as em desenvolvimento na África. Ela encomenda produtos no mundo inteiro.

O Brasil é muito dependente do ritmo chinês. Para se ter uma ideia, o país saiu de um superávit de US$ 10 bilhões com os Estados Unidos, em 2006, para um déficit de US$ 8,2 bilhões, no ano passado. Saiu de um déficit com a China de US$ 3,5 bilhões, em 2008, para um superávit de US$ 11,5 bi. Quando faltou a força dos Estados Unidos, o Brasil foi puxado pela China.

A Índia teve uma queda no seu ritmo de crescimento neste começo do ano que supera o mergulho do auge da crise de 2008. A alta do PIB tinha sido de 9,2% no primeiro trimestre do ano passado e neste foi de 5,3%. É o pior número em quase uma década. A Índia teve ainda uma desvalorização cambial de 25% - 12% apenas este ano - e a inflação voltou a bater em 7%, o que tornará difícil reduzir os juros. Enfrenta uma paralisia política, que interrompe o programa de reformas, e tem um enorme déficit em transações correntes. A revista eletrônica Slate disse que a queda simultânea do ritmo de crescimento na China, Índia e Brasil é "uma notícia horrível" para o resto do mundo.

Na verdade, o Brasil só teve um ano de aceleração forte, em 2010, quando se recuperava da recessão de 2009. Daí para diante seu ritmo voltou a níveis baixos. Não há comparação com o passo da China e Índia, os dois países responsáveis pelo mundo ter mantido algum ritmo de crescimento mesmo durante o colapso financeiro de 2008-2009.

O Brasil cresce menos que os dois asiáticos. Isso há vários anos. O problema agora é que o encantamento dos investidores com o Brasil está perdendo intensidade. Os analistas começam a apontar cada vez mais os problemas do país - falta de reformas, impostos excessivos, logística ineficiente e corrupção - e falam menos das perspectivas criadas pela expansão do mercado interno.

A indústria brasileira teve a segunda queda seguida, em abril, e nos quatro primeiros meses do ano a redução foi de 2,8%, em relação ao mesmo período de 2011. Mas um dado que impressionou visto de fora não tem exatamente o motivo que os analistas imaginam. A redução forte da venda de caminhões e ônibus, que chegou a uma queda de 22% no começo de maio, foi apontada pela Slate como prova da desaceleração brasileira. Tem, no entanto, um fator bem específico: a mudança tecnológica dos motores para rodar com diesel mais limpo, o Euro 5, produziu um acúmulo de veículos no pátio. Os compradores ficaram em dúvida se valeria a pena pagar mais caro pelo veículo e pelo combustível, e ainda correr o risco de não encontrar o produto porque, inicialmente, a distribuição foi muito ineficiente.

O jornal inglês "Financial Times" também ressaltou a coincidência do trio em desaceleração - China, Índia e Brasil. De nós, o jornal diz que o Banco Central reduziu os juros a níveis históricos para tentar reverter a queda do crescimento de 7,5%, em 2010, para 1% anualizado nos últimos meses.

O que mais assusta é a China. Qualquer movimento que o país faça mexe com os preços dos ativos, as expectativas, as decisões de investimento. O país antes era visto como tendo encontrado uma fórmula infalível de crescimento. Hoje, os defeitos da economia chinesa começam a ser ressaltados. A "Economist" fez uma reportagem de capa empilhando os defeitos da China. Segundo a revista, o modelo econômico não é justo: os bancos exploram os poupadores sub-remunerando o capital, tanto que começa a haver saída de dinheiro para aplicar em outros países; as barreiras comerciais permitem que as empresas estatais cobrem demais pelos produtos que fornecem; o sistema nega aos trabalhadores rurais que vão trabalhar nas cidades os mesmos direitos dos trabalhadores que sempre moraram nos centros urbanos; leis arbitrárias permitem as autoridades locais explorarem os produtores rurais.

Dos Brics, só a Rússia está acelerando, mas é resultado da alta - já revertida - do preço do petróleo. Brasil, China e Índia reduzem o ritmo em patamares diferentes e por motivos diferentes. O que acontece com China, Índia e Brasil é que investidores têm falado mais dos defeitos que das virtudes das três economias.

CLAUDIO HUMBERTO

“O que é importante é que haja um julgamento”
Ex-presidente FHC, sobre o processo do mensalão do governo Lula

EMPREITEIRAS FIZERAM 63 DOAÇÕES AO PT EM 2011

Partido mais rico do País, o PT arrecadou R$ 50,7 milhões em 2011, ano em que não houve eleições, sendo metade de empreiteiras que têm contratos com o governo. Somente a Andrade Gutierrez doou R$ 4,6 milhões. Houve doações também de pessoas físicas, 33 no total, mas, curiosamente, apenas duas em cheques. Todas as demais foram em dinheiro. As doações estão registradas na Justiça Eleitoral.

DINHEIRO EM CAIXA

O PT obteve 89,5% das doações a partidos em 2011. Seu adversário PSDB, R$ 2,3 milhões (4,3% do total), e o PMDB, R$ 2,8 milhões.

SALDO POSITIVO

Pessoas físicas respondem por 33 doações ao PT, no ano de 2011, do total de 126. Empresas privadas doaram 93 vezes. 

SEM QUEIXAS

O consultor e ex-ministro Antônio Palocci está mesmo bem de vida. Em 18 de agosto de 2011, presenteou o PT com um cheque de R$ 11.800.

PERGUNTA NO BANHEIRO

Depois de dólares na cueca, chegou a era da grana na calcinha, encontrada há dias na Câmara dos Deputados?

PREFEITO PETISTA DO RECIFE IGNORA ORDEM DE LULA

Baixinho abusado, o prefeito do Recife, João da Costa (PT), resolveu enfrentar Lula e sua facção, que controlam a direção do PT, e reafirmou sua candidatura à reeleição. Ele venceu as prévias contra o lulista Mauricio Rands, secretário de Governo de Pernambuco, mas a direção do partido anulou a vitória. Na quarta (30), Rands desistiu, numa jogada para fazer do senador Humberto Costa (PT) o “tercius”.

OLHO NO SENADO

O governador Eduardo Campos (PSB) quer Humberto Costa candidato. O suplente, Joaquim Francisco (PSB), poderia ser senador por 6 anos.

LEXOTAN

A aparente tranquilidade do governador Sérgio Cabral, em relação à Delta na CPMI, contrasta com o nervosismo de auxiliares próximos. 

NAS NUVENS

Do deputado Luiz Pitiman (PMDB-DF) sobre a quebra de sigilo da Delta nacional: “Agora, o céu é o limite”. 

TENTANDO OUTRA VEZ

O secretário-geral da CUT-DF e ex-candidato a deputado Cícero Rôla já tentou antes, em 2008, o impeachment do ministro Gilmar Mendes, do STF, mas o processo foi arquivado no Senado.

CORRENDO POR FORA

O ex-prefeito do Rio Cesar Maia (DEM) descobriu “quase oculto no Diário Oficial” um termo aditivo no valor de R$ 16 milhões da Prefeitura do Rio de Janeiro para uma obra da Delta. 

RIO EM OBSTRUÇÃO

O relator do projeto que redistribui royalties do petróleo, Carlos Zarattini (PT-SP), fez acordo com Estados não produtores e com Espírito Santo e São Paulo. Já com o Rio de Janeiro, a negociação não sai do lugar.

TEMPO DE TV

Para o senador Sérgio Petecão (AC), a Justiça Eleitoral deve definir, em breve, o tempo do PSD na TV: 

“Agora que Lula brigou com homens da Suprema Corte, não sei se ele consegue adiar mais, não”.

OUTRAS ENCRENCAS

O deputado Silvio Costa (PTB-PE), que xingou o senador Pedro Taques (PDT-MT) na CPI, já comprou encrenca com o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) e o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP).

DESTRAMBELHADO

Após conversa desastrada entre o ex-presidente Lula e o ministro Gilmar Mendes, os deputados se divertem com uma piada: “Se, como metalúrgico, Lula perdeu o dedo, como advogado, perderia a cabeça”.

BOLSA-FERRARI

A fortuna dos ricos no chamado Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) cresceu 18,5% em 2011, aponta pesquisa do Boston Consulting Group no jornal Libération. Na Europa e nos EUA, a riqueza estancou em 6,9%. 

O DONO DO PEDAÇO

O presidente do PDT e ex-ministro Carlos Lupi mais uma vez rachou o partido: decidiu que o congresso da Juventude Socialista será no Ceará, terra do afilhado político, deputado André Figueiredo.

PENSANDO BEM...

...Com tanto mutismo dos depoentes, a CPMI do Cachoeira deveria ter um tradutor de sinais. 

PODER SEM PUDOR

O QUASE MINISTRO

Durante anos, o paulista Castilho Cabral acreditou que quase foi ministro de Jânio Quadros. Tudo por causa de um telefonema nos dias em que o presidente eleito se encontrava em Paris: “Monsieur Castilhô... Monsieur Quadrôs...”, anunciou o telefonista. A voz de Jânio apareceria em seguida:

– Castilho, meu bem! Preciso de você no ministério, mas quero uma resposta agora...

Subitamente, um ruído cortou a conversa, naqueles tempos sem DDD.

– Monsieur Castilhô, São Paulô... – insistia o tal telefonista, entre chiados.

Era tudo uma brincadeira de dois amigos, Otto Lara Rezende (o “telefonista” parisiense) e José Aparecido de Oliveira, imitando Jânio.

SEXTA NOS JORNAIS


Globo: Senadores planejam ausência para salvar colega Demóstenes
Folha: Tombo da indústria atrasa retomada da economia brasileira
Estadão: Assessor diz que recebeu de Cachoeira por serviço a Perillo
Correio: Brunelli: Sem a igreja e sob novas suspeitas
Valor: União pode atenuar regra de conteúdo local da Petrobras
Estado de Minas: O BRT como ele é
Zero Hora: Número de ações para suspender habilitação cresce 11 vezes no RS

quinta-feira, maio 31, 2012

Favela informal - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 31/05

O governo Cabral divulga hoje o relatório final de um estudo, apoiado pelo BID, com 700 jovens de 15 a 29 anos de favelas pacificadas. A principal fonte de renda de 54% são bicos feitos dentro da própria comunidade. Além disso, 45%, simplesmente, não trabalham.

Segue...

Veja que surpreendente: 42% dos jovens estudam ou estudaram em escolas da rede privada.

Bolsa Miami

A poderosa secretária de Segurança Interna dos EUA, Janet Napolitano, deve vir ao Brasil em julho assinar um acordo de facilitação de comércio e fluxo de viajantes entre os dois países. É mais um passo para o fim da exigência de visto.

Cuba libre

O cordão dos brasileiros solidários ao regime cubano já foi maior. Sei não. A 20+ Convenção Nacional de Solidariedade a Cuba, em Salvador, entre os dias 24 e 27 últimos, reuniu cerca de... 300 pessoas. No fim, o pessoal aprovou a Carta de Salvador, em que exalta a ditadura na ilha e pede liberdade para cinco cubanos presos por espionagem nos EUA.

No mais

Depois de tudo que ocorreu, com a palavra o ministro Ricardo Lewandowski.

Jesus salva

Depois de Anderson Silva, agora é Vítor Belfort quem lançará, em julho, um livro de memórias, pela Thomas Nelson Brasil. Nele, conta que superou dificuldades graças a seu mentor espiritual, o missionário evangélico americano Dan Duke.

O MÉIER, QUERIDO bairro do subúrbio do Rio, vai ganhar uma... parede da fama. Veja estas placas. São autógrafos, em cimento, de grandes artistas que se apresentaram na antiga casa de espetáculos Imperator. Nas obras para a reabertura (dia 12 agora) do velho espaço de shows, transformado pela prefeitura em Centro Cultural João Nogueira, as placas foram encontradas e recuperadas. Vão ficar numa parede do salão de entrada

Este papo voltou
Com a crise mundial batendo à porta do Brasil, cresce no governo, contra a opinião de Guido Mantega, a pressão para afrouxar a meta de superávit primário. Isto é: um naco da grana guardada para pagar os juros da dívida serviria para levantar o PIB.

Segue...

De janeiro a abril, este superávit somou R$ 45 bilhões, 46% da meta estipulada para 2012.

Saliência premiada

O romance “O senhor do lado esquerdo”, de Alberto Mussa (Record), que mistura crime e erotismo no Rio dos anos 1920, ganhou o prêmio da ABL de melhor livro de ficção de 2011. O júri foi formado por Ana Maria Machado, Nélida Piñon e João Ubaldo Ribeiro.

Culpa do cozinheiro
Quem tentou almoçar ontem no restaurante Cozinha de Anita, em Botafogo, no Rio, deu com este aviso na porta. O dono, invocado, avisou à freguesia que não ia servir almoço “pela falta irresponsável dos funcionários da cozinha”.

Mercado verde

Em tempo de Rio+20, a rede carioca de supermercados Zona Sul inicia agora em junho um sistema de sacolas retornáveis. O consumidor levará uma “ecobolsa” emprestada sem prazo para entrega. Mas um novo empréstimo só poderá ser feito se tiver devolvido a outra.

Filho de peixe

O presidente da Aktuell, agência que criou o slogan “Todos num só ritmo” para a Copa de 2014, Rodrigo Rivellino, é, como o sobrenome indica, filho do tricampeão mundial Roberto Rivellino.

Virou piada

Do bem-humorado desembargador Mário Santos Paulo, ontem, para os colegas da 4+ Câmara Cível do Rio:— Bem... Comunico a todos que o ministro Jobim me convidou para ir ao gabinete dele hoje à tarde, mas... eu não aceitei.

A onda da oposição - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE - 31/05

Com dificuldades de conquistar o eleitorado, a oposição por estes dias se agarra mais ao encontro do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes do que ao atraso na execução das obras públicas ou mesmo à CPI que investiga as relações do contraventor Carlos Cachoeira. Isso porque, na visão de muitos, Lula extrapolou ao pedir a reunião com um ministro do Supremo que irá julgar o caso do mensalão dentro em breve.

Não por acaso, senadores como Aécio Neves (PSDB-MG), Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) e até Cristovam Buarque (PDT-DF) se revezaram ontem em pronunciamentos cobrando explicações de Lula. Jarbas chegou a dizer que não cabe mais a Gilmar falar sobre o tema. Ou seja, o recado está claro: “Agora é conosco”, leia-se a oposição.

A guinada dos oposicionistas tem um objetivo claro: Gilmar Mendes, na avaliação deles, integrante da mais alta Corte do país, não iria mentir ao falar de uma conversa com um ex-presidente da República. E, se ficar o dito pelo não dito — é importante frisar que Lula nega que tenha sido esse o teor da conversa —, o eleitor vai acreditar em quem quiser.

Mas alguns fatores devem ser levados em conta na hora de escolher um lado dessa história. Primeiro, são frequentes declarações de Lula sobre a necessidade de o PT vender a sua versão a respeito do que ficou conhecido como “mensalão”. Mostrar que isso não ocorreu, que houve apenas um caixa dois. Portanto, é plausível que uma conversa com Gilmar tenha ocorrido nos termos em que foi colocada pelo ministro do STF. Pelo menos, é por aí que a oposição guia suas declarações sobre o caso.

Por falar em guia...

A estratégia pode funcionar no sentido de desgastar a imagem do ex-presidente, mas, em termos eleitorais, os reflexos serão praticamente nulos. Isso porque nada disso envolve a presidente Dilma Rousseff, que não sofreu sequer um arranhão na CPI, muito menos em relação a Lula e o episódio do mensalão. Aliás, vale lembrar que ela virou candidata à Presidência da República justamente por não estar vinculada ao escândalo.

No caso da CPI, o máximo que se chegou até agora foi à convocação do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, e de Goiás, Marconi Perillo. Ou seja, PT e PSDB têm aí a sua quota de desgaste. E nada disso afeta Dilma.

Vale aqui um parêntese a respeito do governador do Rio, Sérgio Cabral, um peemedebista que trafega entre tucanos e petistas e ficou fora das investigações. Além de fazer a valer a mensagem que Cândido Vaccarezza enviou ao governador por celular dizendo que ficasse tranquilo, é sempre bom lembrar que não há nada ainda sobre as obras da Delta no Rio de Janeiro. O que está pendente em relação a Cabral é ele demonstrar o pagamento de suas viagens ao exterior para que não restem dúvidas, mas até a CPI chegar a esse ponto — e se chegar — muita água vai rolar sob a ponte. E nem cheiro de Dilma nessa história.

Quanto ao caso de Gilmar-Lula, Dilma não tem sequer um fio de cabelo. Portanto, mantidas as condições de temperatura e pressão sobre Lula, é bom Dilma se preparar para uma campanha pela reeleição. Afinal, entre os petistas já existe quem diga nos bastidores que Lula errou ao procurar Gilmar Mendes para conversar sobre qualquer assunto. E se foi sobre o mensalão, pior ainda. Vale lembrar que não é papel de um ex-presidente da República advogar em favor daqueles que afastou do seu governo à época por conta do escândalo.

Por falar em lembrar...
Em duas semanas, o ex-deputado Carlos Murilo Felício dos Santos (PSD-MG) lança o livro Momentos decisivos — contra o golpismo no Brasil. Carlos Murilo, primo de Juscelino Kubitschek que hospedava o ex-presidente em suas visitas secretas a Brasília no período da ditadura militar, conta passagens inéditas dos bastidores da história política do Brasil. A festa de lançamento será no Memorial JK, em 13 de junho, a partir das 19h30. Para quem gosta dos bastidores da política, especialmente, da história de Brasília, a obra, com prefácio do jornalista Mauro Santayana, é leitura obrigatória.

Mantidas as condições de temperatura e pressão sobre Lula, é bom Dilma se preparar para uma campanha pela reeleição

Coisas de doido - TUTTY VASQUES

O ESTADÃO - 31/05

A rapaziada está confusa! Afinal de contas, o cara que no futuro cultivar maconha para consumo próprio valendo-se das mudanças no Código Penal poderá ser multado com base no novo Código Florestal quando cismar de queimar toda a plantação numa social com amigos? 
Por dúvida das vias, já tem maconheiro politicamente correto por aí - os da USP e do Posto 9 de Ipanema, em especial - reservando parte da gaveta onde pretende plantar sua ervinha particular para implementação das chamadas Áreas de Preservação Permanente (APPs) com pés de orégano, manjericão, alecrim e outras espécies nativas da horta. 
Não deve ser fácil para quem fuma esse troço - ô, raça! - acompanhar o debate legislativo frenético em curso no Congresso, com todas essas questões discutidas simultaneamente ao bate-boca político em destaque no noticiário. 
Se careta já é difícil entender, imagina chapado! 
O suposto conflito de códigos aqui relatado não faz, evidentemente, qualquer sentido, mas também não parece nada tão absurdo de se imaginar quanto o último encontro entre Lula e Gilmar Mendes em Brasília. Acho que estamos todos ficando doidos! 
Sorte de quem consegue esquecer, né não? 

Meio a meioO Brasil está dividido: metade acha que o silêncio de Lula diz tudo; a outra metade pensa que isso não quer dizer nada. Dá até graças a Deus por ele estar calado! 

Tem gente pra tudoO movimento "Mela Mensalão" denunciado pelo ministro Gilmar Mendes organiza na internet a primeira marcha de simpatizantes da ideia. Capaz de juntar mais gente do que a Marcha das Vadias da semana passada. 

Preconceito de bêbadoOs cachaceiros - ô, raça! - estão em polvorosa! Não sabem explicar muito bem por que, mas desconfiam que a compra da Ypióca pelo fabricante multinacional do Johnnie Walker vai fazer mal à pinga. Os mais exaltados já falam em CPI da Ypióca. 

Ah, tá! O Conselho de Direitos Humanos da ONU resolveu pedir o fim da Polícia Militar no Brasil. Depois reclama que ninguém lhe dá ouvidos! 

Assim não dá! Não sei se você reparou, mas Gilmar Mendes gritou "pega ladrão" em Brasília e ninguém correu! Desse jeito fica difícil pegar os caras! 

Nem é bom falarDemóstenes Torres lembrou bem no Conselho de Ética o verso de Ismael Silva "nem tudo que se diz se faz!" No caso do senador, inclusive, vice-versa! 

Ninguém é perfeito
"WAGNER MOURA, PEDE PRA SAIR!
Capitão Nascimento, ouvindo o tributo do ator a Renato Russo no bota-fora da Legião Urbana na MTV. 

Bob espelhoLinda a homenagem que Bob Dylan prestou a Zé Bonitinho ao receber de Barack Obama a Medalha da Liberdade caracterizado como o famoso personagem do comediante Jorge Loredo! 

Medo de cadeia - ROGÉRIO GENTILE


Folha de S. Paulo - 31/05



SÃO PAULO - O julgamento do mensalão assusta demais o PT e é isso que torna crível o relato de Gilmar Mendes sobre a tal pressão que Lula teria feito sobre o ministro do STF. É grande o risco de que algum figurão do partido saia algemado do Supremo Tribunal Federal.

José Dirceu, por exemplo, descrito na denúncia do procurador-geral "como integrante do núcleo central de uma complexa organização criminosa", é acusado por formação de quadrilha e corrupção passiva. Se for condenado, pode pegar vários anos de cadeia. Genoino, Delúbio e João Paulo podem ter o mesmo rumo.

Os próprios advogados dos réus já os alertaram sobre essa possibilidade. Qual o impacto de uma cena desse tipo na eleição de outubro, na imagem do PT e na do próprio Lula?

Preocupado, o ex-presidente mobilizou o partido em favor da CPI do caso Cachoeira. Imaginou que a investigação poderia desmoralizar os "autores da farsa do mensalão", como bem disse o presidente do PT, Rui Falcão, em vídeo do partido.

Até agora, no entanto, conseguiu apenas acirrar os ânimos e atrair mais holofotes para o julgamento. O mesmo efeito obteve com o tal encontro com Gilmar Mendes.

Pesa a favor de Lula a declaração de Nelson Jobim, que presenciou o encontro. O ex-ministro de Lula e ex-ministro do STF desmentiu Mendes, mas, dado o seu histórico, não é exatamente uma testemunha confiável.

Jobim, para quem não se lembra, fez parte de um dos episódios mais lamentáveis da história do Brasil quando, em 1988, participou de um acordo pelo qual foram incluídos no texto da Constituição artigos que não haviam sido votados.

De qualquer modo, tendo ou não havido pressão, o episódio esquentou ainda mais o clima. O julgamento do mensalão ganha cada vez mais ares de disputa política, com juízes pressionados e raivosos. E isso não é bom para ninguém. Mais do que o destino dos réus, está em jogo a credibilidade do Judiciário.

Parábolas italianas - CONTARDO CALLIGARIS

FOLHA DE SP - 31/05

Evasão fiscal e trabalho informal são as reações da sociedade contra um Estado parasita e corrupto



ENTRE 12 e 20 de maio, Veneza hospedou a America's Cup -a competição dos catamarãs que são, hoje, a Fórmula 1 da navegação a vela. Houve regatas em mar aberto e outras na bacia de São Marcos.
Milhares de iates e barcos mais ou menos luxuosos se reuniram para assistir às regatas de perto, no meio do mar.

Mas quem fez mesmo a festa foi a polícia financeira italiana, que, ao longo da semana, parou e controlou mais de 1.400 embarcações, constatando irregularidades fiscais em 135. Um exemplo que repercutiu na imprensa local foi o de um barco de 14 metros (valendo R$ 350 mil), cujo dono, em sua última declaração de renda, dissera ganhar menos de R$ 15 mil por ano.

Como o atual governo considera que um dos grandes vícios italianos é a evasão fiscal, só resta celebrar a ação da polícia financeira.

No entanto, na semana de regatas, alguns venezianos mais humildes, donos de barcos pequenos (que aqui são o equivalente de um carro popular 1.0), arredondaram seu fim do mês alugando assentos a quem quisesse passar o dia no mar, no meio das competições.

A polícia financeira fez que não viu. Mas alguns desses venezianos, na hora do almoço, serviram a seus clientes um refrigerante e um sanduíche. Nesse caso, a polícia os parou e multou, por servirem bebidas e comida sem a necessária licença (como se tivessem aberto restaurantes flutuantes).
Outra parábola. O senhor Mário, meu vizinho, é incomodado pela presença crescente de trabalhadores clandestinos, sobretudo chineses, nos restaurantes e cafés de nossa rua. Ele suspeita que até alguns pequenos empreendedores sejam imigrantes ilegais.

Na hora em que saio para comprar o jornal, Mário está lá, na esquina, para comentar: "Você viu? No bar lá mais adiante, é uma família inteira...". Há, na sua inquietude, uma parte de xenofobia e há também uma preocupação com as consequências fiscais do trabalho clandestino: se ninguém paga as contribuições obrigatórias, de onde virá o dinheiro para as aposentadorias? Sem contar que os clandestinos aceitam salários de fome e estragam o mercado...

Mário gostaria de denunciar os clandestinos do bar perto de nossa casa. Pelas declarações do governo atual, ele seria assim um cidadão consciente, e não um dedo-duro. Note-se, aliás, que a Comissão da União Europeia critica o governo italiano por não estar fazendo tudo o que deveria para sair da crise e, especialmente, para acabar com a evasão fiscal e com a economia informal e clandestina.

Em contrapartida, eis outro fato de crônica local. Na semana passada, um vilarejo do Vêneto foi etapa do "Giro d'Italia". O bar ao lado da chegada da famosa competição do ciclismo mundial conheceria assim um de seus "grandes" dias; para esse dia, o casal que possui e administra o pequeno estabelecimento pediu ajuda a dois parentes próximos.

Pois bem, a polícia financeira multou o casal por ter usado trabalho informal e o obrigou a empregar formalmente os dois parentes por, no mínimo, um mês. O casal declarou falência e colocou o ponto à venda.

A primeira moral dessas histórias se aplica (em parte) ao Brasil: a Itália está perseguindo evasão fiscal e trabalho informal como se fossem os grandes responsáveis pela crise atual. A história é outra: que a gente ache isso edificante ou não, a evasão fiscal e o trabalho informal foram ingredientes cruciais da receita do crescimento italiano depois da Segunda Guerra, porque também foram as reações que a sociedade inventou contra um Estado gigantesco e, muitas vezes, parasita e corrupto.

Tratar a evasão fiscal e a informalidade como uma praga é ingênuo; tratá-los como a ÚNICA praga italiana significa proteger um Estado arcaico contra todas críticas e reformas possíveis.

O outro sentido dessas histórias é mais geral e diz que talvez regras e normas nunca mereçam ser absolutas. Mais um exemplo. No dia da final da America's Cup, domingo retrasado, não muito longe da bacia de São Marcos, enquanto os catamarãs competiam, dois corpos de pescadores profissionais boiavam na água.

Proibidos de pescar a menos de três milhas da costa e tendo perdido seu barco de pesca por causa de uma multa, sobrou aos dois, para tentar ganhar o pão para suas famílias, encarar o largo numa casca de noz.

Proibir a pesca perto da costa é certo e ecologicamente necessário. Mas, como disse antes, talvez as regras nunca mereçam ser absolutas.

O crime do PGR - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 31/05

O PT ainda não tomou a decisão política. Mas já está pronta minuta de representação por crime de responsabilidade contra o procurador-geral da República, Roberto Gurgel. O documento, dirigido ao Senado, diz que Gurgel, ao não ter aberto inquérito para investigar o senador Demóstenes Torres (GO), foi enquadrado em dois incisos do artigo 40 da Lei n° 1.079, que dizem: "recusar-se a prática de ato que lhe incumba"; e, "ser patentemente desidioso no cumprimento de suas atribuições".

As razões do presidente Lula
Políticos experientes avaliam que o ex-presidente Lula gostou do vazamento de seu encontro com o ministro Gilmar Mendes (STF). Argumentam que Lula já sabia que não havia espaço para adiar o julgamento do mensalão. E que, diante disso, Lula precisava, como sustenta o próprio Gilmar, dessacralizar e fragilizar o STF. Ocorre que o julgamento do mensalão e as condenações serão transmitidas ao vivo pelas televisões. Isso tem potencial para provocar um grande prejuízo eleitoral para os candidatos petistas, especialmente junto aos setores médios, notadamente em São Paulo, onde Lula aposta tudo em Fernando Haddad.

"Vamos chamar o governador do Rio aqui porque ele colocou um guardanapo na cabeça e ficou dançando?” — Humberto
Costa, senador (PT-PE)

"NÓS É TEU!". Atendendo a apelo do governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ), o senador Aécio Neves (PSDB-MG) entrou em campo na CPI para que a convocação não fosse aprovada. Ele conversou com todos os tucanos e conseguiu os votos de Cássio Cunha Lima (PB), Carlos Sampaio (SP) e Domingos Sávio (MG). Aliás, o presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE), anda reclamando que não é chamado para as reuniões que definem a estratégia de atuação dos tucanos na CPI do Cachoeira.

No purgatório
Após a cerimônia de lançamento do slogan da Copa de 2014, terça-feira, no Rio de Janeiro, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, convidou o ministro Aldo Rebelo (Esporte) para que eles fossem jantar. O brasileiro recusou o convite.

A verdade
Intrigado com versão que circula no Planalto, de que participou do acordo do Código Florestal fechado no Senado, o líder do PMDB na Câmara, Henrique Alves (RN), diz que sua participação se restringiu ao tema apicuns e salgados.

Pimentel e o Ceará
Em viagem oficial à Coreia do Sul e ao Japão, o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) registra que está empenhado em encontrar uma solução que permita a instalação de duas fábricas (automóveis e caminhões) no Ceará. Mas explica que está procurando uma fórmula capaz de atender o governador Cid Gomes dentro dos parâmetros do novo regime automotivo do país, que incentiva as empresas via conteúdo nacional.

Diretas já
Para delegação de advogados, o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), garantiu que vai colocar em votação projeto que institui eleições diretas para a OAB. Ele recebeu pesquisa Ibope, na qual 84% dos advogados querem diretas.

Saca-rolha
O vice Michel Temer será recebido hoje pelo primeiro-ministro da Turquia, Recep Erdogan. Vai tratar da venda de aviões da Embraer para a Turkish Airlines. Na semana que vem, a Fiesp leva 60 empresários para negócios em Ancara.

O GRUPO Copa Sustentável, da Frente Parlamentar Ambientalista, começa por Brasília, no dia seis de junho, visitas a todos os estádios em obras.

COM O APOIO do Brasil, o sindicalista inglês Guy Rider foi eleito ontem diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT), órgão da ONU.

A SECRETARIA-GERAL da Presidência esclarece que o termo técnico adequado, no caso de funcionário suspeito de assédio sexual, é o de exoneração por quebra de confiança de seu superior. A demissão implicaria num processo administrativo formal.

Liberdades iradas - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 31/05


Na sua exaltação, o ministro Gilmar Mendes ainda não reparou que tem municiado quem queira atacá-lo


O excesso de raiva e a aparente perda de controle em Gilmar Mendes talvez expliquem, mas não tornam aceitável, que um ministro do Supremo Tribunal Federal faça, para a opinião pública, afirmações tão descabidas.

Nem o próprio Supremo é poupado no ataque atual de Gilmar Mendes, que assim o define em entrevista ao "Globo": "Já é um Poder em caráter descendente". Não há por que duvidar desse sentimento particular de Gilmar Mendes, mas também não há como atribuir a tal afirmação, feita de público e plena gratuidade, um qualquer propósito respeitável.

Ali demolidor, pelo método da implosão, é também deste ministro, no mesmo dia, porém à Folha, a atribuição deste motivo para o que diz ter ouvido de Lula: "Dizer que o Judiciário está envolvido numa rede de corrupção", para "melar o julgamento do mensalão".

A afirmação sobre o Supremo, com provável sinceridade; a outra, uma ficção sem sequer um indício em seu favor. Lula, o PT e os réus do mensalão nada ganhariam com uma investida contra o Judiciário. Sabem disso na mesma proporção em que a imaginação ficcionista não sabe.

Na sua exaltação, o ministro Gilmar Mendes ainda não reparou que tem municiado quem queira atacá-lo. Já deu, por exemplo, três versões para o custeio da viagem em que se encontrou, na Europa, com Demóstenes Torres. A tal viagem das suas sensibilidades tocadas pelo que "pareceram insinuações" de Lula.

Na primeira referência feita (estão todas impressas e gravadas), disse haver respondido a Lula que viajou "com recursos próprios". Na segunda, fez viagem oficial, custeada pelo Supremo, para um evento na Espanha, e dali à Alemanha pagou ele mesmo. Na terceira (ainda na entrevista ao "Globo"): "Fui a Berlim em viagem oficial. Por conta do STF".

Afinal, não se sabe como a viagem foi paga nem isso está em questão. Mas é compreensível que estivesse em boatos. Como amanhã pode estar a história de que Lula planejava denunciar o Judiciário como uma rede de corrupção. Por haver boato sobre a viagem, e indagar a respeito, é "gangsterismo, molecagem, banditismo, a gente está lidando com gângsteres", como disse Gilmar Mendes? Não, não disse: vociferou, iradíssimo.

Com base em que fatos um ministro do Supremo Tribunal Federal faz a acusação pública de que Lula -no caso, importa sobretudo serem um ex-presidente da República e um magistrado- é "a central de divulgação" dos boatos infamantes? Acusação de tal ordem não precisa nem indícios, é só emiti-la?

O Congresso foi poupado da reação de Gilmar Mendes graças à falta, na inquirição de Demóstenes Torres, de uma pergunta que, normalmente, não faltaria. Logo no primeiro lote de telefonemas gravados de Carlos Cachoeira, apareceu o pedido do senador de que o contraventor pagasse os R$ 3.000 de um táxi aéreo. Gilmar Mendes, negando ter usado avião de Carlos Cachoeira, disse que foi a Goiás convidado por Demóstenes Torres, para um jantar. Foi "de táxi aéreo".

Ninguém perguntou a Demóstenes que voo seria pago por Cachoeira. Ninguém perguntou se Gilmar Mendes e outros ministros estavam no voo dos R$ 3.000. Nada demais se estivessem, nem poderiam saber quem viria a pagar pelo voo. Apesar disso, a encrenca resultante já estaria engatilhada, com a imagem institucional do Supremo a aguentar suas manifestações.

Com muita constância, somos chamados a discutir o decoro parlamentar. Não são apenas os congressistas, no entanto, os obrigados a preservar o decoro da função.

De costas para o futuro - FERNANDO REINACH


O Estado de S.Paulo - 31/05


Preste atenção nestas três frases: 1) "Quando John Lennon morreu, 32 anos atrás, eu estava em Nova York." 2) "Quando John Lennon morreu, 32 anos na frente, eu estava em Nova York." 3) "Quando John Lennon morreu, 32 anos abaixo, eu estava em Nova York."

Essas frases são exemplos de como diferentes culturas relacionam a dimensão espacial e temporal da realidade. Na maioria das culturas ocidentais imaginamos o futuro como estando localizado à nossa frente e o passado, atrás ("A vida é longa, é preciso ir em frente."). Mas, para os mais de 2 milhões de habitantes da Bolívia, Peru e Chile que falam a língua aimará, o passado se encontra à nossa frente e o futuro, às nossas costas.

A palavra "nayra" é usada para descrever a posição de um objeto à nossa frente e também um acontecimento no passado. A palavra "qhipa" descreve algo no futuro e também algo que está atrás de nós. Nessa comunidade, quando alguém se refere ao futuro normalmente gesticula apontando para trás das costas e quando se refere ao passado aponta o espaço à sua frente.

Já os yupno, que habitam um vale isolado em Papua-Nova Guiné, quando se referem ao passado apontam para baixo e ao se referirem ao futuro, para cima.

Não há dúvida de que cada um de nós se localiza, a cada momento, em um local do espaço (estou sentado na frente de um computador) e em um determinado momento no tempo (são 10h15 do dia 30 de maio), mas não existe nenhuma relação física obrigatória entre essas duas dimensões de nossa existência. Por que associar o futuro à nossa frente ou às nossas costas ou a um plano mais baixo? Por que o Egito de Cleópatra estaria atrás de nós? Essa associação, em princípio, não seria necessária.

No caso da associação presente nas línguas ocidentais (futuro na frente e passado atrás), talvez a explicação esteja no ato de andar. Ao andar, olhamos para a frente, e o local onde estaremos no futuro próximo está na nossa frente. Já o local por onde passamos recentemente está nas nossas costas.

Mas os aimarás parecem ser mais sofisticados. Quando se pergunta a um deles por que o futuro está nas costas e o passado, na frente, ele tem uma boa explicação. O futuro é desconhecido, inacessível aos nossos sentidos, e ainda não presente na nossa memória. É lógico para eles que algo desconhecido e fora do campo de visão esteja atrás. Já o passado é conhecido, já foi vivido, está presente na nossa memória e disponível para exame. É natural que ele esteja no nosso campo de visão, na nossa frente.

No caso dos yupno, os antropólogos ainda estão tentando entender por que o passado está associado ao fundo do vale onde vivem e o futuro às partes mais altas das montanhas. Uma possibilidade é de que ao longo do tempo a tribo tenha habitando cada vez lugares mais altos.

O fato de nosso cérebro criar esse tipo de relação arbitrária entre duas dimensões físicas (tempo e espaço) nos leva a acreditar que essa relação é natural. A maneira como essa associação se cristalizou em diferentes culturas talvez tenha implicações importantes no desenvolvimento das sociedades e da estrutura de nossa memória. Será que a crença ocidental de que o futuro pode ser previsto (vislumbrado ainda que de maneira opaca na nossa frente) se originou da associação do tempo futuro ao espaço à nossa frente? Se imaginássemos que o futuro está atrás (como os aimarás) e indisponível para nossos sentidos, teríamos tanto interesse em desenvolver conhecimentos que permitem prever o futuro, como as leis da física e da química? E como seria nossa relação com a memória do passado se, para nosso cérebro, se ela estivesse colocada à nossa frente? Viveríamos mais ligados ao passado que ao futuro?

O mais interessante dessa descoberta é que ela demonstra, mais uma vez, que a realidade habitada pela nossa consciência é uma construção de nosso cérebro elaborada durante o processo evolutivo. É muito provável que essa associação tenha sido útil e vantajosa para nossos ancestrais que caçavam nas estepes africanas, se preocupavam com o alimento das próximas horas, mas não com a geometria euclidiana ou com a extinção dos dinossauros. Nossa percepção que o futuro está diante de nós é uma ilusão criada por um cérebro que durante milênios evoluiu dentro de um animal no qual o andar para frente era a atividade dominante. Nessas condições, frente e futuro ficaram associadas e por isso damos as costas para o passado e caminhamos para o futuro. Somos realmente um animal muito estranho, habitado por uma mente que, na melhor das hipóteses, recebe do cérebro uma visão distorcida da realidade.

Controle cambial na Argentina - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 31/05


Enredando-se ainda mais no cipoal de controles cambiais - que, por sua variedade e complexidade crescentes, mostram uma administração em dificuldades cada vez maiores para resolver os principais problemas econômicos do país -, o governo de Cristina Kirchner acaba de colocar em prática sua mais recente medida para tentar conter a desvalorização do peso e a disparada do dólar no mercado paralelo, de grande importância na Argentina. Todo argentino que comprar um pacote de viagens junto a uma agência de turismo agora precisa informar à Afip, a Receita Federal do país, a origem do dinheiro para o pagamento das despesas, o tempo e o objetivo da viagem, entre outros dados. Dificilmente, porém, a nova restrição cambial funcionará do modo desejado pelo governo.

Fruto, entre outros fatores, da crescente desconfiança de poupadores locais e de investidores nacionais e estrangeiros com relação aos rumos que a administração Kirchner - anteriormente chefiada pelo falecido marido da presidente - vem dando ao país, o problema cambial se tornou crítico. Na maioria dos casos, o governo é responsável pelas dificuldades do país na área cambial.

Desde novembro, pouco antes do início do segundo mandato de Cristina Kirchner, o governo argentino vem tomando medidas para restringir as compras de dólares. Os resultados não têm sido notáveis. No ano passado, saíram do mercado financeiro argentino US$ 23 bilhões. Estima-se que, em abril de 2012, os argentinos compraram US$ 1,2 bilhão, boa parte dos quais deve ter tomado o rumo do exterior.

O emprego nos postos da fronteira com o Uruguai - apontado como destino preferido das remessas ilegais para o exterior da moeda americana - de cães farejadores treinados para detectar a presença da tinta utilizada na impressão das notas de dólar é a caricatura perfeita da obstinação kirchneriana com a questão cambial e também da inutilidade de boa parte das medidas que vem tomando para evitar a fuga de divisas. Seriam necessárias muitas matilhas para conter a saída de dólares na proporção em que deve estar ocorrendo.

Mais do que cães ou obsessão governamental, a solução exige atitudes corretas das autoridades, mas estas têm sido muito raras. O que se vê com muito maior frequência são decisões temerárias que tornam ainda mais difícil a situação do país. Desde a selvagem moratória unilateral de sua dívida externa, em 2001, a Argentina é considerada um pária pelo sistema financeiro internacional, o que praticamente a impede de obter financiamentos externos para seus programas de crescimento econômico.

Outra fonte importante de recursos externos, os investimentos diretos na produção, tem sido constantemente desprezada pelas autoridades do país, com discursos, ações e medidas políticas de caráter nitidamente nacionalista e antiestrangeiro, como a recente expropriação da maior empresa petrolífera do país, até então controlada por um grupo espanhol.

A problemas deliberadamente criados pelo governo Kirchner somam-se outros, como a seca que prejudicou a safra de soja do país e que, neste ano, poderá resultar na quebra de até US$ 4,5 bilhões nas exportações do produto in natura ou derivados. As exportações estão caindo. Em abril, ficaram US$ 412 milhões abaixo das de abril de 2011 e US$ 475 milhões abaixo das de março passado.

Há um mês, o governo impôs aos exportadores a obrigatoriedade de negociar internamente os dólares das vendas externas no prazo máximo de 15 dias. Isso exigia mudanças de procedimentos e reprogramação financeira por parte dos exportadores, que, por cautela, reduziram seus negócios. As exportações, já em queda, diminuíram mais. Na segunda-feira, o governo ampliou o prazo para 30 dias.

Empresas importadoras têm sido pressionadas fortemente pelo governo Kirchner para comprar internamente o que antes importavam.

O intervencionismo excessivo no câmbio alimenta as desconfianças e torna o problema mais grave.

STF em seu labirinto - DORA KRAMER


O Estado de S.Paulo - 31/05

O dano é evidente: julgue quando julgar, decida como decidir no caso do mensalão, o Supremo Tribunal Federal por ora é a primeira vítima do processo.

Não faz bem à confiança nacional ver ministros da Corte Suprema transitando pelo terreno dos mexericos, das intrigas, sendo alvo de ilações melífluas ou de acusações explícitas.

O ambiente exige respeito, já dizia Billy Blanco referindo-se a gafieiras. No caso da representação da guarda do Estado de Direito exige-se, sobretudo, respeitabilidade.

Não é o que inspira a cena.

Do aviso inicial do ministro Ricardo Lewandowski sobre a hipótese de seu voto revisor ser apresentado só no ano que vem, atrasando o julgamento e tornando alguns crimes passíveis de prescrição, até a revelação do tenebroso encontro entre o ex-presidente Lula e o ministro Gilmar Mendes, o que se tem é o desgaste da imagem do Supremo.

Certo ou errado - provavelmente mais errado que certo - o cidadão olha para isso e fica no mínimo desconfiado de que os ministros do STF possam ser permeáveis a pressões.

Espera-se que não sejam como, aliás, vêm cuidando de esclarecer os magistrados. Por meio de negativas peremptórias sobre a possibilidade de sujeição a fatores outros que não os autos do processo, pela defesa da realização do julgamento o quanto antes ou por reações de repúdio à tentativa de pressão por parte do advogado "in pectore" dos réus.

Neste aspecto, a ofensiva do PT capitaneada por Lula tem obtido resultados, pois independentemente da data ou do resultado do julgamento, o Tribunal no momento está com sua confiabilidade posta em xeque.

Não quer dizer que não seja confiável, mas que se conseguiu incutir na sociedade uma dúvida quanto a isso, dando margem a questionamentos em relação ao preceito de que decisão da Justiça não se discute.

E a questão que surge na cabeça do "leigo" - ou seja, todos aqueles não familiarizados com o funcionamento do Tribunal e com o significado da função daqueles que ali estão para guardar a Constituição - é a seguinte: a coação influirá na decisão?

A interpretação de que a investida de Lula tenha tido efeito contrário ao pretendido, acabando por levar o Supremo a se apressar e os ministros a tender pela condenação como forma de reação, traz consigo a suposição da substituição do racional pelo emocional na conduta dos ministros.

Estaria aí quebrado o compromisso estrito com a legalidade. Da mesma forma se, por razões processuais, o julgamento atrasar mais que o desejado e/ou por ausência de provas suficientes houver absolvições, dar-se-á - e desde já assim se dá - como certo que houve êxito na pressão dos acusados.
O mais provável é que nenhuma dessas impressões correntes traduza com perfeição a realidade.
Mas, sendo assim o que parece, conviria ao Supremo enfrentar de uma vez o problema tratando de desanuviar o cenário e de se recompor com a majestade de suas funções.
Antes que se consolide a visão deformada de que em julgamento estão os juízes e não os 38 réus acusados de organizar um esquema de assalto - lato e estrito sensos - ao Estado.
Aos fatos. Não existe "guerra de versões" sobre a conversa de Lula com Gilmar Mendes no escritório de Nelson Jobim.
O ministro contou e reafirmou com detalhes o que foi dito. Lula e Jobim apenas o desmentiram, mas não apresentaram as respectivas versões a respeito do que foi dito naquele encontro.
Passo a passo. A decisão de chamar os governadores do Distrito Federal e de Goiás e deixar de fora Sérgio Cabral, do Rio, em princípio não pode ser atribuída a blindagens políticas.

Aloprados não justificam uma crise - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 31/05


No primeiro grande escândalo ocorrido depois do estouro do mensalão, o da tentativa de compra de um dossiê fajuto contra José Serra,em 2006, o presidente Lula repetiu o gesto da condenação pública que fez no ano anterior. Na descoberta dos mensaleiros, em 2005, ele foi a público pedir desculpas ao povo brasileiro. Já no final da campanha eleitoral do ano seguinte, quando a Polícia Federal desmantelou a trama do dossiê, e até apreendeu uma sacola repleta de dinheiro, Lula optou por desqualificar os militantes envolvidos na trapalhada. A ação rocambolesca, supõe-se, ajudaria o candidato petista Aloizio Mercadante.

Ali surgiram os “aloprados”, termo da lavra presidencial. Pois há muitas evidências de que eles reapareceram na barafunda em que se transformou esta investida supostamente para usar a CPI do Cachoeira a fim de atemorizar o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e, por meio de pressões sobre o ministro Gilmar Mendes, do Supremo, emparedar a própria Corte — ou, quem sabe?, ganhar um voto para a causa da postergação do julgamento do mensalão, tema que atormenta a ala radical do PT.

Pelo menos até ontem, a rápida e cortante reação de Gilmar Mendes aos desdobramentos da revelação da “Veja” de que Lula propusera ao ministro ajudar no adiamento da entrada do processo em julgamento, em troca de proteção na CPI, ofuscou os desmentidos da versão confirmada por ele.

Em entrevista coletiva na terça- feira, na qual não permitiu a entrada de fotógrafos e cinegrafistas, Mendes distribuiu acusações a “gângsteres” que teriam espalhado que haveria provas, no material recolhido pela PF nas investigações contra o esquema Cachoeira/Delta/Demóstenes, de que o ministro do STF e o senador viajaram a Berlim em avião do contraventor e/ ou com as despesas pagas por ele. Talvez por isso, deduz-se, precisaria de proteção na CPI.

Mas o ministro provou com documentos que fora à Alemanha às expensas do STF, num primeiro trecho da viagem, e, no segundo, pago com o próprio dinheiro. Também na terça, Demóstenes, ao depor no Conselho de Ética do Senado, confirmou a explicação de Mendes.

Uma evidência de que aloprados agiram, com a incompetência revelada em 2006, é que, ao “Jornal Nacional” daquela noite, ao ser ouvido nos corredores da CPI, o deputado Jilmar Tatto (PT-SP) reconheceu que a prova documental de Gilmar Mendes era definitiva e admitiu que se pensava levar o suposto caso do ministro do Supremo à comissão. Desenhou-se, então, de forma nítida um plano para constrangê-lo, como foi feito com Roberto Gurgel, pelo fato de o procurador não ter dado sequência a um primeiro inquérito em que Demóstenes aparecia, para, explicou, não prejudicar novas investigações. Deu certo. A ligação de Gurgel com o mensalão é que será ele a encaminhar, pelo Ministério Público, as acusações contra os mensaleiros no julgamento do caso.

Frustrada a manobra — inspirada em comédias do tempo do cinema mudo —, é preciso esvaziar qualquer possibilidade de crise política, tampouco institucional. Não faz sentido deixar o andamento do processo do mensalão no STF e os trabalhos — por mais arrastados que estejam — da CPI serem prejudicados por mais uma ação de aloprados digna de “Os Trapalhões”.

Medo de cadeia - ROGÉRIO GENTILE

FOLHA DE SP - 31/05


SÃO PAULO - O julgamento do mensalão assusta demais o PT e é isso que torna crível o relato de Gilmar Mendes sobre a tal pressão que Lula teria feito sobre o ministro do STF. É grande o risco de que algum figurão do partido saia algemado do Supremo Tribunal Federal.

José Dirceu, por exemplo, descrito na denúncia do procurador-geral "como integrante do núcleo central de uma complexa organização criminosa", é acusado por formação de quadrilha e corrupção passiva. Se for condenado, pode pegar vários anos de cadeia. Genoino, Delúbio e João Paulo podem ter o mesmo rumo.

Os próprios advogados dos réus já os alertaram sobre essa possibilidade. Qual o impacto de uma cena desse tipo na eleição de outubro, na imagem do PT e na do próprio Lula?

Preocupado, o ex-presidente mobilizou o partido em favor da CPI do caso Cachoeira. Imaginou que a investigação poderia desmoralizar os "autores da farsa do mensalão", como bem disse o presidente do PT, Rui Falcão, em vídeo do partido.

Até agora, no entanto, conseguiu apenas acirrar os ânimos e atrair mais holofotes para o julgamento. O mesmo efeito obteve com o tal encontro com Gilmar Mendes.

Pesa a favor de Lula a declaração de Nelson Jobim, que presenciou o encontro. O ex-ministro de Lula e ex-ministro do STF desmentiu Mendes, mas, dado o seu histórico, não é exatamente uma testemunha confiável.

Jobim, para quem não se lembra, fez parte de um dos episódios mais lamentáveis da história do Brasil quando, em 1988, participou de um acordo pelo qual foram incluídos no texto da Constituição artigos que não haviam sido votados.

De qualquer modo, tendo ou não havido pressão, o episódio esquentou ainda mais o clima. O julgamento do mensalão ganha cada vez mais ares de disputa política, com juízes pressionados e raivosos. E isso não é bom para ninguém. Mais do que o destino dos réus, está em jogo a credibilidade do Judiciário.

Abstinência de poder - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 31/05


BRASÍLIA - Como escrito nas estrelas desde o encontro nada institucional entre Lula e Gilmar Mendes, Gilmar destrambelhou e se jogou no centro de uma fogueira que não era dele, enquanto Lula faz o caminho inverso: assume a condição de vítima, com direito a homenagem de Dilma em palácio, vídeo do presidente do PT e guerrilha da "militância abnegada" na internet.

Antes que o grave erro de Lula passe a contar a favor e não contra ele, registre-se que o fim do poder lhe fez muito mal. Desde que desceu a rampa do Planalto, Lula vem pisando em falso e botando os pés pelas mãos.

Impôs unilateralmente Haddad ao PT-SP, assim como impusera Roseana Sarney para o PT-MA. São Paulo, porém, não é o Maranhão e Marta Suplicy não é Domingos Dutra.

Haddad é, de fato, um bom produto eleitoral e, se ganhar, será um fenômeno à la Dilma. Mas, por enquanto, patina e custa cada vez mais caro na negociação com os aliados.

Lula também atropelou Dilma, o Congresso e meia bancada do PT ao exigir a criação de uma CPI que só interessava à sua sanha contra a oposição e para embaçar o mensalão.

Do ponto de vista prático, Cachoeira e seus comparsas já estavam presos, Marconi Perillo já tinha caído nos grampos da PF e Demóstenes já estava na lona. Agora, com a quebra de sigilo da Delta, muitos aliados e muitas obras do governo federal podem entrar na dança.

E, enfim, nada pode ser mais "faca no pescoço" do Supremo (como temem os advogados dos réus do mensalão) do que a pressão, orientação ou insinuação de um ex-presidente tão popular e que indicou 8 dos 11 ministros da corte. O que mais Lula pretenderia ao procurar Toffoli e Lewandowski diretamente e outros ministros via seus padrinhos?

Se despreza as regras republicanas, ele deveria ao menos usar sua intuição brilhante e sua habilidade política invejável para imaginar o estrago que Gilmar faria. Como fez.

BRAZIU: JUNTOS NUM SÓ RITMO


Sobriedade - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 31/05


Só não há uma crise institucional no país porque a presidente Dilma está tratando a disputa entre o ex-presidente Lula e o ministro do Supremo Gilmar Mendes de maneira equilibrada, sem envolver o governo. Da mesma maneira, o presidente do Supremo, Ayres Britto, está cuidando de não dar ao fato a dimensão que ele realmente tem, na tentativa de esvaziar suas consequências.

O ministro Gilmar Mendes foi apenas o que denunciou a manobra de Lula para adiar o julgamento do mensalão, mas pelomenos outros dois ministros do Supremo estiveram com Lula nos últimos meses: o ministro revisor Ricardo Lewandowski e o ministro Dias Toffoli.

E Lula, no relato da conversa por Gilmar Mendes, revelou o que tratou com os dois. Considero a essência do relato do ministro verdadeira, pois só os ingênuos podem acreditar que Lula convidasse um ministro do Supremo para um encontro sem que o assunto principal fosse o julgamento do mensalão.

Outros, que fingem acreditar na versão edulcorada de que a reunião foi uma conversa de amigos sobre generalidades, são militantes petistas, empenhados no mesmo movimento de Lula: constranger o Supremo a adiar o julgamento do mensalão, ou pôr em dúvida o seu resultado.

Junto a Toffoli, Lula defendeu a tese de que ele deveria participar do julgamento, quando setores jurídicos consideram que deveria se declarar impedido, pois boa parte de sua carreira foi feita no PT.

De 1995 até 2000 foi assessor parlamentar da Liderança do PT na Câmara. Nas campanhas presidenciais de Lula em 1998, 2002 e 2006, foi o advogado do partido. Foi subchefe para Assuntos Jurídicos da Casa Civil de 2003 a 2005, durante a gestão de José Dirceu, acusado pela Procuradoria Geral da República de ser o chefe da quadrilha do mensalão. Em 2007 assumiu a Advocacia Geral da União a convite de Lula, de onde saiu para ser ministro do Supremo.

Além de todo esse currículo petista, a namorada de Toffoli foi advogada de mensaleiros.

Lula se referiu a Lewandowski, dizendo que ele somente entregaria seu voto de revisor, sem o qual o processo não pode entrar em julgamento, no segundo semestre, mas está sendo pressionado a entregá-lo este mês. Como esteve com Lewandowski recentemente, depreende-se que Lula soube dessa mudança de atitude do revisor do mensalão através do próprio, cuja família tem relação de amizade com a da ex-primeira-dama dona Marisa, em São Bernardo do Campo.

O estrago está feito pelo voluntarismo de Lula, que não sabe fazer outra coisa a não ser politizar todas as relações.

Um julgamento no Supremo tem, na visão de Lula, só um lado, o do prejuízo que pode causar aos seus projetos políticos.

Ele não está preocupado do ponto de vista institucional com as consequências do mensalão, e muito menos com a preservação
do Supremo, mas teme que o PT seja atingido nas urnas em caso de condenação de seus membros mais importantes envolvidos no processo, como Dirceu, Genoino ou João Paulo Cunha.

Assim como primeiro pediu desculpas ao país pelo que acontecera, em cadeia de TV, para depois afirmar que o mensalão sequer existiu, sendo tentativa de golpe contra seu governo, Lula agora desmente o que prometeu ao sair do Planato. Disse que “desencarnaria” do papel de presidente e não se meteria em política, em crítica à atuação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Pois Lula não apenas não “desencarnou” do papel de presidente como está encarnando outro personagem, o do soberano que tudo pode.

Nunca esteve tão ativo politicamente, apesar de seu estado físico evidentemente precário. Como a confirmar que tudo para ele é política, ontem a única referência que fez aos últimos acontecimentos foi oblíqua, dizendo que tem “muita gente” que não gosta dele e que precisa “tomar cuidado” com essa “minoria”. Isso para explicar que falaria em pé para que não dissessem que estava doente. Como se fosse possível, e até desejável, unanimidade em torno de sua figura política, ou que os que são contra ele lhe desejam mal.

Tanto Dilma quanto Ayres Britto tiveram a sensatez de não alimentar a disputa pública em que se envolveram Lula e um ministro do Supremo. Ambos presidem Poderes que estão em confronto devido a uma atitude desastrada do expresidente Lula, que mais uma vez demonstra que não tem os cuidados que deveria com a separação e o equilíbrio de poderes, tentando usar sua força política para constranger ministros do STF.

Em vários momentos de seu governo, ele agiu assim, notadamente durante as campanhas eleitorais. A presidente Dilma, descrita normalmente como uma pessoa de pavio curto, está se revelando uma hábil política no exercício da Presidência da República.

Ao reverenciar as políticas sociais do presidente Lula, ela ressaltou o aspecto positivo da sua liderança política, deixando de lado as questões polêmicas em que anda se envolvendo.

A homenagem teve a justa medida de demonstrar sua solidariedade em um momento em que a liderança de Lula está fragilizada, por seus gestos temerários, e a lucidez de não envolver o governo no episódio.

O governador do Rio, Sérgio Cabral, não tem razão para se indignar com a ilação de que a quebra de sigilo da empreiteira Delta pode justificar sua convocação para a CPI do Cachoeira.

Ele criou as condições para que essas ilações não sejam irresponsáveis, pois sua relação pessoal com Fernando Cavendish quando este era o presidente da Delta dá uma sensação de promiscuidade entre opúblico e o privado que seu
próprio governo critica no recentíssimo código de ética.

O Código da Alta Administração determina que funcionários do alto escalão devem guardar“distância social conveniente no trato com fornecedores de materiais ou contratantes de prestação de serviços ao Estado, abstendo-se, tanto quanto possível, de frequentar os mesmos lugares e de aparentar intimidade”.