quinta-feira, maio 17, 2012

Um terapeuta já cansado? - CONTARDO CALLIGARIS

FOLHA DE SP - 17/05

Há terapeutas que simplificam o pedido dos pacientes e os dispensam na primeira melhora



Na segunda dia 7, a Folha publicou uma entrevista com um jovem psicoterapeuta nova-iorquino, Jonathan Alpert, autor de um artigo polêmico nas páginas de opinião do "New York Times".
O artigo opunha a terapia "de resultados" (e milagrosamente rápida) de Alpert às terapias longas, praticadas por outros terapeutas de várias obediências. Muitos colegas (dele e meus) sentiram-se incomodados.
As respostas de Alpert têm um tom de autopromoção, que inspira uma certa vergonha (não nele, claro, mas em quem lê). No entanto, à primeira vista, elas são mais triviais do que chocantes.
Alpert apresenta a novidade de sua maneira de clinicar, que consiste, por exemplo, em colocar metas, definir o número de sessões para chegar até lá e avaliar o processo regularmente. Ora, qualquer um que clinique nos EUA faz isso com cada paciente -é o que pedem as seguradoras para aprovar um tratamento: diagnóstico, proposta de um número definido de sessões, meta terapêutica, reavaliação periódica.
Enfim, a "novidade" efetiva é que terapeutas e seguradoras sabem que as metas de um tratamento mudam ao longo da terapia, enquanto (descobri depois) os pacientes de Alpert, misteriosamente, parecem ter sempre pedidos iniciais claros e inalteráveis. Nunca vi coisa igual.
Outro tema: Alpert não gostou de "O Segredo", o best-seller de autoajuda de Rhonda Byrne. Ele acha que desejar intensamente não basta: para conseguir o que a gente quer é preciso agir e ter o acompanhamento de um terapeuta como Alpert, que nos diga o que fazer. Em suma, Alpert gostaria que seu livro fosse "O Segredo" que funciona -OK.
No mais, Alpert acha que os praticantes de terapias longas desperdiçam seu próprio tempo e o de seus pacientes, enquanto ele garante mudanças radicais em 28 dias. Eu adoraria poder curar quase tudo em 28 dias e decidi ler o livro de Alpert, "Be Fearless - Change Your Life in 28 Days" (no Brasil, no fim do ano, pela Sextante, como "Seja Destemido - Mude Sua Vida em 28 Dias" ou algo parecido).
Sinto em dizer: o livro é um desastre, inclusive do ponto de vista da terapia cognitivo-comportamental, que Alpert professa em tese, mas da qual ele parece ter esquecido algumas lições essenciais. Em geral, as terapias cognitivo-comportamentais são mesmo mais rápidas do que as terapias dinâmicas (como a psicanálise), pois elas são focadas em identificar e corrigir pensamentos disfuncionais, ou seja, pensamentos negativos, avaliações e crenças erradas, que são fonte de transtornos psicológicos.
Ora, Alpert se esquece de que um tratamento cognitivo-comportamental DEVE continuar por bastante tempo depois de seu eventual sucesso, porque medos e fobias, mesmo "curados", são reativados facilmente por novos gatilhos de estresse; ou seja, qualquer tratamento cognitivo inclui um (longo) treinamento para administrar o estresse futuro.
Além disso (e muito mais grave), na pressa de seduzir seus pacientes, presentes e futuros, com a promessa de um milagre, Alpert lhes retira qualquer complexidade: todas as dificuldades, amorosas, profissionais ou existenciais, são efeito de um medo (medo de mudar, medo de avançar na vida etc.) -ou seja, para Alpert, não há conflitos de desejos opostos, nem desejos nefastos, nem escolhas propositalmente sofridas: os pacientes só querem namorar com alguém legal e subir na vida. Eles apenas têm medo, e disso logo Alpert vai se ocupar.
Na semana depois da publicação da entrevista, quatro pacientes chegaram ao meu consultório angustiados pela ideia de que eu poderia desistir deles, mandá-los embora alegando que eles estão melhor e já passaram dos 28 dias.
A angústia de meus pacientes pode nos indicar qual é o problema de Alpert. Talvez ele não seja nem inexperiente, nem mal treinado, nem inculto; talvez, apesar de sua jovem idade, ele esteja, sobretudo, já cansado.
O exercício da psicoterapia não é gratificante: a persistência do sofrimento psíquico é grande, o próprio desejo de um paciente se curar é incerto, e os caminhos da cura são tortuosos (e misteriosos, mesmo quando a gente consegue se engajar neles). Não estranha que um terapeuta, no meio disso, prefira simplificar ao máximo o pedido de seus pacientes, dar-lhes alguns conselhos, fazê-los sorrir e logo mandá-los embora, depois de 28 dias -rápido, na primeira melhora, ilusória ou não.

A nova batalha - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 17/05


Militares já investigaram a esquerda, mas com métodos que não tiveram a coragem de reconhecer

A DIVERGÊNCIA em torno da Comissão Nacional da Verdade, sobre investigar os crimes e criminosos da ditadura ou também as mortes e outras violências cometidas por oposicionistas, é o primeiro ato da série de problemas e contestações que se deve esperar dos investigáveis e seus associados.
Militares do Exército e da Marinha, aparentemente todos da reserva, participantes da ditadura, organizam-se para acompanhamento dos trabalhos da Comissão. Os seus centros serão (ou já são), na tradição das agitações contra a estabilidade institucional do país, os respectivos clubes Militar e Naval.
A probabilidade é de que aos dois se junte o Clube da Aeronáutica, porque a FAB teve participação, intensa por certo período, na repressão mais brutal. A propósito é suficiente lembrar, inclusive à comissão, o brigadeiro João Paulo Burnier e seu plano de lançar oposicionistas (estudantes, jornalistas e políticos) no mar, conforme a denúncia do então capitão Sérgio Miranda de Carvalho, um bravo falecido precocemente.
Presença ativa na confrontação inaugural, Nelson Jobim cobra a investigação das ações da oposição armada, tema que "discutiu com o então ministro da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, Paulo Vannuchi, e que ficou acertado", com o duplo alvo da comissão (Folha de ontem).
O persistente Paulo Vanucchi foi o executivo da Presidência no processo que levou à Comissão da Verdade. Mas os "acertos" e decisões finais só poderiam firmar-se, é claro, com a autoridade presidencial. No caso, de Lula -que era quem estava dando a marretada na cortina de ferro da resistência militar.
E, cá para nós, se Paulo Vannuchi saiu ileso do governo, Nelson Jobim deixou pegadas desde antes, com a adulteração do texto da Constituinte e, para encurtar, com depoimentos à Câmara (governo Lula), sobre aparelhos e compras do Exército e da Abin, muito longe de verdadeiros.
Mas, enquanto se trata de investigar, para descobrir ou comprovar, as ações e autorias pessoais da ditadura, as ações da esquerda não exigem mais do que as recuperar. Hoje ainda é preciso investigar crimes da ditadura justamente porque seus militares e policiais investigaram as ações da esquerda desarmada e da esquerda armada.
Fizeram-no com os métodos que depois não tiveram a hombridade e a coragem de reconhecer, motivo real da Comissão da Verdade. Os processos, porém, com os atos oposicionistas descritos e suas autorias, são encontráveis nos arquivos da Justiça Militar. Nela mesma, aliás, não se perca a oportunidade de lembrar, houve atitudes de dignidade militar e pessoal de homens como o general Pery Bevilacqua e o almirante Júlio de Sá Bierrenbach.
É isso, sim: como pensam os coronéis Ustra, o do DOI-Codi, e Wilson Machado, o da bomba no Riocentro, a luta continua.

Exceção à velha regra - DORA KRAMER

 O ESTADÃO - 17/05


A citação do autor até desqualifica o tema, mas no marco da entrada em vigor da Lei de Acesso à Informação é simbólica a frase do notório Delúbio Soares – “transparência assim é burrice” – sobre uma proposta discutida no PT em 2004 sobre a abertura das contas de campanhas eleitorais na internet.

Com todos os percalços, resistências, lacunas, dúvidas, atrasos, despreparos, enfim, dificuldades oceânicas a serem enfrentadas, nada invalida o valor da nova legislação.

Por mais complicada que se configure sua execução e ainda que seja muito demorada a sua efetiva inclusão nos meios e modos de o Poder se relacionar com o direito do público à informação, a nova regra por si já terá o condão de iniciar um processo de mudança no País.

Ficará mais difícil alguém ousar tratar o conceito de transparência como sinônimo de falta de inteligência, inépcia ou tolice com aquela falta de cerimônia de anos atrás, quando a argumentação foi suficiente para um partido aceitá-la e rejeitar a exibição de suas contas no curso do processo eleitoral.

Haverá obstáculos a atos como o do governador Sérgio Cabral Filho no ano passado quando recorreu ao Supremo Tribunal Federal para restringir o uso de requerimentos de informações do Legislativo ao Executivo por considerá-los “abusivos” e causadores de “embaraços” à administração.

No primeiro momento, a nova lei pode até não ser eficaz. E provavelmente não terá mesmo a eficácia pretendida no texto. Ambicioso, saudado por especialistas nacionais e estrangeiros por sua modernidade e abrangência, está a léguas de distância da realidade atual.

Mas sem a indicação do ideal não se pavimenta o caminho do possível. Correndo o risco de incorrer em excesso de otimismo, diria que agora mais importante que o tamanho do trajeto é o passo inicial.

Em muitos, senão na maioria dos países onde já existem legislações semelhantes, a prática mostra-se distinta da teoria em variados graus; em muitos deles os avanços ainda não são significativos comparativamente ao tempo de vigência da regra.

A enormidade do caminho a ser percorrido, o desafio de fazer acontecer é enorme e fundamental, mas na essência menor que a magnitude da mudança de concepção proposta.

Inverte-se, por ela, a noção de que o Estado é dono soberano absoluto da informação e que a torna disponível ao cidadão quando e se achar conveniente. Como se fizesse um favor. Essa regra, pelo que está escrito na lei, torna-se a partir de agora a ser obrigatoriamente vista como exceção.

A sociedade passa a deter de fato o direito sobre as informações das quais o Estado, fica entendido, é mero guardião. Despido do monopólio do conhecimento e desprovido da prerrogativa da ocultação.

Assim é. No diálogo entre a presidente da República e os prefeitos que pediam uma posição dela sobre as novas normas para distribuição dos royalties do petróleo viu-se algo que transcende à vaia, manifestação algo mal-educada, mas aceitável como expressão de desagrado coletivo.

Merece destaque no episódio a recusa do recurso fácil da demagogia por parte de governante, artigo raro no Brasil.

Perguntada sobre uma questão, Dilma Rousseff não maquiou a resposta: avisou aos prefeitos que a norma ainda em exame no Congresso não será retroativa. Os interessados, portanto, que tratem de lidar com o cenário adiante deixando de lado o “pratrasmente” (expressão de Dias Gomes na voz de Odorico Paraguaçu, não de Dilma).

Quem costumava se apresentaras-sim à conversa madura com reivindicantes era Mário Covas. Inaugurou a prática quando prefeito de São Paulo, nos idos dos anos 80. Dizia sem rodeios o que podia ou não podia ser atendido.

A elogiável franqueza da presidente, no entanto, não a exime de enfrentar o tema da distribuição dos royalties sem mais adiamentos e com capacidade de composição de interesses tendo em vista o equilíbrio federativo.

Metrô para além do "apagão" - VERA MAGALHÂES

FOLHA DE SP - 17/05


SÃO PAULO - Colisão entre trens do metrô. Antes não tinha, agora tem. Com os episódios reiterados de problemas no sistema de transportes de São Paulo, o tema passou a ocupar lugar central no debate eleitoral na cidade. Como sempre, PT e PSDB trocam acusações, mas ambos têm uma parcela de responsabilidade pelo tal "apagão".

O termo, cunhado pelo petista Fernando Haddad -e que será martelado na propaganda televisiva pelas mãos de João Santana-, foi pensado para remeter ao racionamento de energia do governo do também tucano Fernando Henrique Cardoso. A ideia é mostrar que o PSDB não saberia prover infraestrutura quando a demanda (por energia, antes; por transporte público, agora) aumenta.

Em resposta, os tucanos lembram que Marta Suplicy (PT) não investiu "um centavo" em parcerias com o governo estadual para a ampliação da malha metroviária quando foi prefeita, e que o governo federal não contribui com recursos próprios para a expansão do metrô na cidade.

Os dois lados têm argumentos, mas, diante de panes, atrasos, aperto -e, agora, até risco de batida- nos trens metropolitanos, o prejuízo eleitoral mais imediato e a parcela maior de responsabilidade são do PSDB de José Serra e Geraldo Alckmin.

Não por acaso, o governador convocou auxiliares ontem para cobrar providências e dizer que não pode haver novos acidentes no setor de transportes nos próximos meses. O Palácio dos Bandeirantes acha que o desgaste das imagens de usuários saindo dos vagões de maca é inevitável, mas acredita que ele vá se dissipar se houver um longo período de funcionamento normal do sistema.

Para o usuário do meio de transporte teoricamente mais eficaz para uma metrópole como São Paulo, fica a dica do secretário Jurandir Fernandes: é melhor não viajar "distraído" no metrô, porque, para além da retórica, nenhum partido mostrou ainda qual é a solução técnica para ampliar a rede sem afetar a segurança.

Maratona e ruína dos bancos - VINICIUS TORRES FREIRE


FOLHA DE SP - 17/05


Temor de saída do euro acelera corrida para sacar dinheiro dos bancos gregos, o que ameaça bancos europeus



UMA CORRIDA BANCÁRIA quebra um banco. O corre-corre para sacar dinheiro de vários bancos, como na Grécia, pode quebrar o país inteiro. Pior, pode servir de exemplo para cidadãos de Portugal, Itália, Espanha.

O medo de ver seu dinheiro evaporar leva correntistas a sacar tudo de suas contas. Como a maior parte dos recursos depositados nos bancos "não está lá" (foi emprestada, usada em outros negócios), basta que fatia dos depósitos seja resgatada para que o banco quebre.

Ainda que não quebre -ou na tentativa de evitar a quebra-, o banco provoca mais danos ao resto da economia. Promove uma liquidação de seus ativos a fim de levantar dinheiro e atender aos pedidos de saques feitos pelos clientes. Na liquidação, o preço geral dos ativos financeiros (e de muito mais) cai. Forma-se uma bola de neve de baixa de preços e vendas de liquidação.

Esse cenário "clássico" da corrida bancária havia quase desaparecido na poeira da história das crises graves do mundo desenvolvido. Como agora há garantias legais para os depósitos, que na maioria não somem mesmo em caso de falência bancária, evitam-se corridas bancárias "clássicas".

Faz dois anos, mais ou menos, há uma corrida bancária "lenta" na Grécia e em vizinhos do sul da Europa. Tratava-se de uma maratona; pode ser que se torne uma corrida mais acelerada. Motivo: não há garantia de que um euro não venha a se transformar em desvalorizados dracmas ou escudos.

Na terça-feira, o banco central grego mandou avisar aos líderes políticos que os gregos mais e mais sacam euros de suas contas. Têm medo de que governo transforme euros em dracmas, o que ocorrerá caso o país deixe de fazer parte da zona monetária europeia.

O medo é compreensível, apesar de algo paradoxal. A maioria dos gregos votou pelo fim em partidos que propõem a rejeição dos acordos gregos com a União Europeia. Sem acordo, não haverá dinheiro europeu. Sem tais recursos, o governo grego terá de imprimir dracmas a fim de pagar suas contas e salvar o que puder dos bancos do país, além de confiscar euros para pagar contas externas.

A mera ameaça de saída do euro causa estragos. Os bancos gregos apenas sobrevivem com dinheiro europeu (para alguns mais quebrados nem esse dinheiro haverá, avisou ontem a União Europeia). Com o aumento de saques, pode haver quebras imediatas ou ainda menos crédito na economia.

Portugueses, espanhóis e italianos podem imaginar que em breve talvez estejam na situação dos gregos. Não há sinal de aceleração dos saques nesses países, por ora, mas um colapso grego incentivaria tal comportamento. Talvez por medo de que tais países deixem o euro ou de que seus bancos quebrem com o calote final da Grécia.

A agonia grega, portanto, vai provocar danos ao resto do mundo mesmo sem um final operístico, com a denúncia do acordo de arrocho.

Tal receita, enfiada pela goela grega, tendia a dar nisso. Ao final deste ano, a economia grega será 18% menor do que era em 2007. Na tentativa de empurrar a crise com a barriga, até que ela passasse, os líderes europeus empurraram a Grécia para o abismo.

E, ressalte-se, estão com a barriga colada à Grécia.

Dilma pode avançar - ALBANO FRANCO


O GLOBO - 17/05


A busca obstinada do crescimento tem sido o cerne da política econômica da presidente Dilma Rousseff, como única forma de manter e mesmo ampliar os níveis de emprego e renda, enfrentar o esfriamento da economia que vem ocorrendo desde 2011 e, também, contrapor-se à crise europeia como à lenta e claudicante recuperação da economia americana que, inevitavelmente, atingem o Brasil.

Em curto prazo, este objetivo só poderá ocorrer via expansão do consumo, o que, aliás, vem sendo o modelo de crescimento adotado nos últimos anos a partir das políticas redistributivistas e expansionistas do governo Lula, que teve seu auge em 2010, quando o PIB cresceu 7,5%. No entanto, o recrudescimento da inflação, que ultrapassou a meta de 6,5%, motivou a adoção de políticas restritivas que contribuíram para que o PIB crescesse apenas 2,7% em 2011.

Com a inflação declinante, a contínua retração da atividade econômica e o agravamento da crise na Europa, surge a oportunidade de se reduzirem as taxas de juros e, assim, aquecer o mercado interno com a expansão do crédito ao consumidor e às empresas. Daí a cruzada, digamos cívica, da presidente Dilma Rousseff em forçar a banca privada a baixar os juros (ora em 44,4% ao consumidor e 27,7% às empresas ao ano) depois das sucessivas reduções da Selic e dos juros cobrados pelos bancos públicos, que representam 21,4% do crédito em relação ao PIB contra 27,4% dos particulares. Recentemente, visando a dar continuidade ao rebaixamento da Selic, atualmente em 9% ao ano, o governo reduziu o rendimento da caderneta de poupança quando a Selic estiver em 8,5% ou abaixo desse percentual.

Ainda é cedo para que se possa mensurar se essas mexidas no setor financeiro serão realmente eficazes e implicarão a retomada do crescimento via consumo. Entretanto, caso haja espaço para mais endividamento das famílias, cuja inadimplência foi de 7,4% em março, sem dúvida, com as possibilidades de novos financiamentos a juros mais baixos, é de se esperar que o mercado de bens e serviços se aqueça e tonifique a taxa de crescimento cujas previsões para este ano giram em torno de 3,5%. Cabe enfatizar que a eficácia dessas medidas não será completa se não induzirem a novos investimentos na produção. Caso isto ocorra, então teremos um ciclo virtuoso com a ampliação da oferta de mercadorias e serviços. Se não, a inflação recrudescerá, a Selic voltará a subir e o crescimento se reduzirá ainda mais.

É, portanto, de decisiva importância a elevação dos investimentos para que o crescimento ocorra a taxas mais altas e de forma continuada. A redução dos juros é de grande significação, mas insuficiente para que o país avance no seu processo de desenvolvimento com inclusão social e elevação da produtividade. Assim, concomitantemente à redução do custo do dinheiro, a presidente, com sua enorme popularidade, poderia avançar mais ainda, realizando também cruzada em favor da redução da asfixiante carga tributária e da melhoria da qualidade do gasto governamental e de outras medidas capazes de ampliar os investimentos públicos e privados na infraestrutura, na produção e em inovação, no sentido de aumentar a competitividade da economia brasileira.

A propósito, recente estudo apresentado pelo Grupo de Líderes Empresariais (Lide) no 11 Fórum de Comandatuba, na Bahia, concluiu que com a redução do custo do crédito acompanhada de urgentes alterações fiscais e tributárias e uma radical reforma na qualidade do ensino o país teria capacidade de crescer 6% ao ano sem gerar pressões inflacionárias.

Cumpre por fim acrescentar que o governo da presidente Dilma Rousseff já deu passos decisivos em busca do crescimento sustentável, como a privatização dos aeroportos e a criação do Fundo de Previdência do Servidor Público (Funpresp) e agora com fragor da batalha pela redução dos juros. É só seguir adiante com outras reformas modernizantes. Ao contrário do que diz a velha sabedoria popular, o mar está pra peixe.

Bonde reacionário - LUIZ FERNANDO VERISSIMO

O GLOBO - 17/05/12

Participei, sim, da campanha que garantiu a posse do Jango depois da renúncia do Jânio. Como ouvinte. Fui para a frente do palácio do governo, como todo o mundo, em Porto Alegre. Mais por curiosidade do que por qualquer ímpeto legalista. Eu trabalhava na Editora Globo, só porque não tinha me formado em nada, não queria mais estudar e a família – por um preconceito inexplicável – não queria um vagabundo em casa. Naquele dia o expediente acabou mais cedo. Motivo: guerra civil iminente.

Fui para a Praça da Matriz. A indignação com o que estavam preparando contra a posse do Jango, a Constituição e o Rio Grande do Sul era geral, mas não sei como nos comportaríamos se os tanques do III Exército realmente surgissem na praça para acabar com a resistência do Brizola, como estavam anunciando. A disposição da maioria era a de formar uma barreira humana. Não passarão! Mas não era uma atitude apenas passional. Vários estrategistas militares espontâneos, com ideias sobre como agir, contribuíam com planos para a batalha possível.

Discutia-se como os tanques chegariam ao palácio. Alguém nos assegurou, com precisão científica, que nenhum tanque conhecido conseguiria subir uma ladeira com o grau de inclinação da rua General Câmara, que vinha dar na praça. Eles teriam que pegar a rua Duque por baixo, o que aumentaria as chances de uma ação de bloqueio em toda a extensão da rua estreita. Ou poderiam subir pela avenida Borges, dobrar na Riachuelo ou na Jerônimo Coelho... De qualquer jeito, não passariam. Mas havia a possibilidade de um ataque aéreo. Aviões estariam ou não estariam a caminho do estado, para reforçar o contingente da base aérea de Canoas e bombardear o Brizola. Os ataques não vieram mas a tensão permaneceu alta, aliviada por piadas nervosas. Naquele clima, qualquer bobagem virava um clássico. Ouvi que chegou alguém esbaforido – grande palavra, o clima era esbaforido – com a notícia:

– Voou bala na Praça da Alfândega!

– O quê?

– Parece que caiu um baleiro...

(Baleiro, crianças, era quem vendia balas na rua ou nos cinemas.Faziam parte do ritual de ir ao cinema na época as balas “café com leite” que colavam no dente. Mas acho que estou misturando as eras: as balas “café com leite” não foram contemporâneas da Legalidade. Ou foram?).

Havia mesas para a inscrição de voluntários na rua da Praia e dizem que, por um breve e alucinado instante, o Partido Comunista teve o maior quadro da sua história. Estudantes faziam comícios relâmpagos na rua e se revezavam, entrando em bondes para conscientizar seus ocupantes. O jornalista Marcão Faerman, que então era estudante, contava que se reuniam no fim do dia para comparar experiências e uma vez ouviu uma queixa: “Peguei um bonde Gasômetro reacionário...”.

O palácio não foi atacado, o III Exército aderiu à Legalidade, Jango tomou posse e três anos depois veio o golpe que o derrubou.O bonde reacionário tinha se atrasado um pouco na rua Duque, mas acabou chegando a Brasília. 

Energia mais barata - CELSO MING


O ESTADO DE S. PAULO - 17/05


Ao anunciar que vai atacar distorções do sistema tributário do Brasil, a presidente Dilma mostra que está fazendo o diagnóstico correto. O setor produtivo perdeu competitividade em consequência do alto custo Brasil. Isso precisa de imediata reversão.

Dilma aponta uma dessas distorções: o altíssimo custo da energia elétrica (o quarto mais caro do mundo), tão inaceitável quanto os juros escorchantes, que tem de ser drasticamente reduzidos para viabilizar a produção.

Esse caso é ainda mais incompreensível na medida em que nada menos que 75% da energia elétrica do Brasil é gerada por fonte hídrica e, nessas condições, obtida de graça. Nos países mais avançados, os preços da energia elétrica são uma fração da cobrada no País e, no entanto, a maior parte de suas fontes é de insumos obtidos a alto preço, como óleo combustível, gás, carvão ou urânio enriquecido.

O principal fator de encarecimento da energia no Brasil é o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), cobrado pelos governos estaduais. Em São Paulo, essa tributação encarece nada menos que 33,3% da energia. Mas há Estados que cobram ainda mais, como Minas Gerais (42,9%) e Rio de Janeiro (47,1%).

Falta saber como a presidente Dilma vai reverter esse jogo perverso. Na maioria dos Estados, as receitas com o ICMS sobre a energia elétrica correspondem a alguma coisa entre 7% e 9% da arrecadação total.

Até agora, todos os projetos de reforma tributária (e há algumas dezenas deles dormindo na gavetas das repartições públicas) só admitiram mexidas no sistema que não reduzam a arrecadação. Ou seja, no máximo querem mais racionalidade, especialmente na cobrança do ICMS - desde que a carga tributária (de cerca de 37% do PIB), que tira poder de competição da indústria, fique intocada. Se esse pressuposto for mantido, não haverá redução significativa nas tarifas de energia elétrica.


Aoncessões que vencem em 2015 e 2017. Até meados de julho, concessionárias terão de comunicar ao governo seu interesse pela renovação. Para isso, têm de saber as condições.

É provável que o governo imponha novas condições tarifárias. Pode se comprometer a baixar os chamados encargos setoriais, que elevam custos em cerca de 10%. E pode desistir de parte da arrecadação do PIS/Cofins que oneram custos em cerca de 3% ou 4%.

Mas esses abatimentos serão insuficientes para garantir uma energia elétrica a custos compatíveis com os vigentes internacionalmente caso não haja cortes firmes nas alíquotas do ICMS cobradas pelos Estados.

Uma das hipóteses é que o governo condicione a renegociação da dívida dos Estados com a União a cortes mais profundos da alíquota do ICMS sobre a energia elétrica. A ver.

A presidente Dilma avisa que vai parar de discutir as reformas, que nunca saem, e que vai agir. Ela está carregada de razão. O único risco é que, como outras tantas iniciativas do seu governo, essa ação não passe de mais um item da política de puxadinhos, feita com improvisos e meias soluções, apenas para dar a impressão de que o governo faz alguma coisa.

CONFIRA

Como assim? Não ficaram claras as razões pelas quais a Petrobrás perdeu a eficiência operacional das unidades de produção da Bacia de Campos, conforme o diretor Financeiro, Almir Barbassa, admitiu terça-feira, quando divulgou os resultados do primeiro trimestre.

Equívocos. Barbassa declarou, ainda, que "nem sempre a queda de produção decorre do esgotamento dos campos antigos (.), mas de ações equivocadas que precisam ser revistas".

Outras causas. O novo diretor de Produção da Petrobrás, José Formighi, que substituiu o anterior, Guilherme Estrella, também reconheceu na mesma ocasião que o declínio da produção não se deu "por causas naturais".

Perguntas a responder. Mas, afinal, quais foram esses equívocos? De que causas não naturais se trata? Quem é o responsável pelos erros? Como estão sendo corrigidos? Como a Petrobrás vai "retomar a eficiência que sempre teve"?

Poupança, juros, crédito e resultados - ROBERTO MACEDO


O ESTADO DE S. PAULO - 17/05


A presidente Dilma Rousseff fez bem ao tocar na taxa de juros da caderneta de poupança. A que prevalecerá para depósitos até o dia 3 deste mês, e se a taxa básica de juros, ou Selic, for superior a 8,5% ao ano,tem parcela fixa de 6,17% ao ano e a variável dada pela Taxa Referencial (TR); esta última integrará a nova taxa, junto com 70% da Selic, se esta for igual ou menor que 8,5% ao ano.

O motivo é que se a Selic, hoje de 9% ao ano, continuar caindo, a remuneração de mais fundos de renda fixa, descontado o Imposto de Renda (IR) e a taxa de administração, tenderá a ficar inferior à da poupança, que não tem essa taxa e é isenta do mesmo imposto, ainda que não em geral, como explicarei mais adiante. Com isso haveria o risco de uma fuga de recursos desses fundos para a poupança, cujo destino é principalmente financiar imóveis, e o governo teria dificuldades na rolagem e na ampliação de sua dívida, que serve como aplicação à maioria dos recursos dos mesmos fundos.

Vigente a reclamar que a presidente "mexeu" na poupança, comparando a alteração que fez com a do presidente Collor no início do seu mandato, quando grande parte da poupança foi temporariamente confiscada. Agora não houve confisco, a mexida foi nos juros, e o poupador pode fazer o que quiser com o dinheiro depositado. Os saldos existentes antes da nova regra não estarão sujeitos a ela, ou seja, não houve quebra de contrato quanto a eles.

A propósito, o brasileiro precisa entender que a liquidez e a inexistência de risco são universalmente ingredientes de remuneração baixa para recursos investidos. Rendimentos maiores envolvem riscos mais altos, como no mercado acionário ou em empreendimentos próprios. Liguei há pouco para uma pessoa nos EUA e ela medisse que lá o rendimento da poupança está em 0,5% ao ano.

Será interessante saber se a poupança antiga resistirá à mudança. Para muitas pessoas a poupança é como uma conta corrente, dada a sua simplicidade operacional. Não tem taxas de administração e há os rendimentos para o dinheiro que permanece nela por pelo menos um mês. Mas parcela significativa dos saldos entra e sai mensalmente. Dados de 2011 mostram que, em média, perto de um quarto do valor dos saldos fez esse movimento mensal. Em números redondos, para um saldo total próximo de R$400 bilhões,os saques e depósitos alcançaram em cada caso o valor mensal de R$ 100 bilhões. Dessa forma, se essa movimentação for sempre assim e dos mesmos depositantes, perto de um quarto do saldo total anterior à nova poupança sairá da antiga para a nova versão das contas, pois os novos depósitos só ocorrerão nesta. Mas se forem do mesmo valor e de depositantes diferentes a cada mês, a saída deverá ser maior.

Outro aspecto interessante é que toda a discussão do assunto, inclusive nas apresentações oficiais, foi realizada sob a hipótese de que não é cobrado IR dos rendimentos da caderneta. Mas essa isenção só vale para depósitos de pessoas físicas (PFs) e de jurídicas sem fins lucrativos. Os de pessoas jurídicas com fins lucrativos, que chamarei de empresas, têm rendimentos contados só trimestralmente e sujeitos a um IR de 22,5%.

Não sei qual proporção dos saldos de poupança é destas últimas. Deve ser pequena, pois com esse imposto sobre a poupança os fundos de renda fixa em geral sempre foram e continuariam mais atraentes. Mas a simplicidade de movimentação pode ter levado pequenas e micro empresas a utilizarem a poupança também como conta corrente e com rendimentos. Sei também de depósitos de empresas como garantia de cumprimento de contratos.

Assim, toda essa conversa da fuga de fundos de renda fixa para a poupança foi exagerada, pois grande parcela do valor nesses fundos deve pertencer a empresas. Ainda assim, o das PFs representava valor considerável, perto de R$ 350 bilhões em março e bem próximo, portanto, do referido saldo total das contas de poupança, justificando a preocupação do governo com a tal fuga.

Passando à redução dos juros em geral, também é louvável que o governo se empenhe nela, até mesmo mediante queda de braço com os bancos. Mas, ao oferecerem taxas menores, selecionarão ainda mais os seus clientes, como demonstrado pelo noticiário sobre o assunto.

Assim, se o governo imagina que vai incentivar muito o crédito com juros menores, esse efeito será limitado. Outro obstáculo é que, conforme mostrado pelo recente aumento da inadimplência, e pela queda da demanda de crédito, indicada pela dificuldade de alguns bancos em encontrar clientes de risco adequado às suas operações, como no financiamento de veículos, motocicletas incluídas, o recurso ao crédito parece ter alcançado o limite da capacidade de pagamento de muitos tomadores. A demais, no caso de bens duráveis em geral, sua renovação não é frequente e a aquisição acaba atingindo um ponto de saturação que desestimula novas compras.

Com isso volto a uma questão que já abordei neste espaço. A demanda pelas exportações brasileiras e a expansão do crédito interno foram os motores mais importantes da expansão da economia nacional de meados até quase o final da década passada. Lula como que surfou nessa onda, faturou os ganhos políticos correspondentes e elegeu Dilma. Esta, contudo, já terá a primeira metade de seu mandato marcada por um cenário de vacas magras. Para engordá-las não pode mais contar com o mesmo estímulo que vinha de fora, nem com o mesmo crescimento do crédito interno.

Em particular quanto ao crédito, estará correndo um alto risco se apostar muito na ideia de que juros mais baixos o ampliarão substancialmente. Em síntese, estes não serão tão baixos como alardeia a propaganda oficial e de alguns bancos. Nem o crédito se expandirá como anteriormente, pois os sinais indicam ser menor a disposição dos brasileiros de tomá-lo.

BEIJO BANDIDO - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 17/05

O cantor Ney Matogrosso criou a iluminação do novo show de Mart'nália, "Não Tente Compreender", que ela apresenta hoje, em São Paulo, no HSBC Brasil. No espetáculo, a cantora mostrará canções de seu mais recente disco, que foi produzido por Djavan, e que tem, além de samba, músicas estilo rock. "Queria brincar de outra coisa. Nunca cantei rock, queria desafiar", diz ela.

SALTO ALTO
Novidade na discussão das novas regras de financiamento à cultura: o percentual do imposto que pode ser destinado pelas empresas para investimentos em shows, teatro e literatura, por exemplo, pode saltar de 4% para 6%.

SALTO 2
A ideia foi introduzida no projeto que substituirá a Lei Rouanet (o ProCultura) pelo deputado Pedro Eugênio (PT-PE), que deve levar seu relatório à votação na Comissão de Finanças da Câmara nas próximas semanas. Ele já pediu ao Ministério da Fazenda que calcule o impacto da eventual mudança na arrecadação de impostos.

FELIZ
O ex-marido de Dilma Rousseff, Carlos Araújo, que militou com ela no grupo clandestino Var-Palmares contra a ditadura, elogia a Comissão da Verdade, que investigará violações de direitos humanos do período. "A Dilma foi muito feliz, escolheu pessoas sérias e não sectárias." Uma das integrantes, Rosa da Cunha, foi sua advogada no período. "Ela é brilhante e generosa. Não cobrava de ninguém."

DE NOVO
Preso por quatro anos na ditadura, Araújo acha que a comissão não tem o que investigar na esquerda. "Aqueles de nós que não foram mortos foram julgados e condenados. Todos sabem o que fizemos. Mas, se quiserem nos convocar para que contemos tudo de novo, ok. Não temos nada a esconder. Eu, pelo menos, vou lá quantas vezes forem necessárias."

ÁLBUM DE FAMÍLIA 1
A viúva de Nelson Rodrigues, Elza Bretanha, 94, conseguiu uma vitória na Justiça: o desembargador Nagib Slaibi, da 6ª Câmara Cível do Rio, suspendeu os efeitos da decisão que a impedia de receber 50% do dinheiro pago pela Nova Fronteira pela renovação do direito de publicação das obras de Nelson.

ÁLBUM DE FAMÍLIA 2
O processo que impedia Elza de receber o valor (estimado em R$ 200 mil) foi movido por Sônia e Maria Lucia Rodrigues, filhas de Nelson com outra mulher, que disputam na Justiça os direitos da viúva sobre o patrimônio intelectual do autor.

LEI É LEI
O ex-governador Claudio Lembo, secretário de Negócios Jurídicos de SP, diz que atenderá a qualquer emissário de Walter Torre, da W/Torre, para conversar sobre o shopping JK Iguatemi. Anteontem, o empreiteiro disse que pedirá ao ex-presidente Lula que o ajude a convencer o prefeito Gilberto Kassab a liberar o empreendimento. "Conversamos com o Lula e até com o papa. Mas duvido que qualquer um deles nos peça para descumprir a lei."

TRIBUNAL
Torre alega que já fez obras que mitigam o trânsito na região do JK (Vila Olímpia). E afirma que depositou garantias de que outras serão realizadas. Mas a prefeitura diz que ele tinha ciência da necessidade das intervenções desde maio de 2011 e não pretende autorizar o funcionamento do shopping, causando caos no tráfego. O caso está na Justiça.

PARADA DE SUCESSO
O grupo inglês Keane abrirá os show da banda californiana Maroon 5 nos dias 25 de agosto, no Rio, e 26, em SP. O Maroon 5, que veio ao Brasil em 2011 para o Rock in Rio, também se apresentará em Curitiba, Recife, Belo Horizonte e Fortaleza. Procurada, a produtora XYZ Live não confirma as informações.

CONCERTO PARTICULAR
O pianista chinês Lang Lang será homenageado com uma festa para 200 convidados no sábado, na casa de Fabio Brancatelli. Na ocasião, falará sobre seu trabalho como embaixador da Fundação Cultural Montblanc. Lang Lang vem ao Brasil para dois concertos em SP e um no Rio.

VÃO CHEIO
O Masp fechou 2011 com 775 mil visitantes, 15% a mais que em 2010. Em cinco anos, a média passou de 1.500 para 2.500 pessoas por dia.

ENCONTRO COM GISELE
A top Gisele Bündchen, que mora nos Estados Unidos, desembarcou em São Paulo anteontem para lançar sua linha de lingerie na loja Hope da rua Oscar Freire. A empresária Amalia Spinardi, o joalheiro Jack Vartanian e as consultoras de marketing Danielle e Vanessa Glaz participaram do coquetel nos Jardins. Gisele circulou pelo evento durante uma hora.

CURTO-CIRCUITO
O vice-presidente Michel Temer conversa hoje, às 19h, com empresários e estudantes na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). É convidado do Comitê de Jovens Empreendedores.

Bradesco e Grupo Bandeirantes lançam hoje rádio esportiva, às 19h30, no Leopolldo Faria Lima.

O projeto Caminhos da Leitura, da Infinito Cultural, começa hoje e percorrerá mais de 30 cidades.

Betty Gervitz promove no sábado um dia de atividades em seu Spa Dança Étnica, com o músico Gabriel Levy e o professor André Trindade, na rua Araçari, 218, no Itaim Bibi. Inscrições vão até hoje, no 0/XX/11 8244-7144, a R$ 350.

A feira infantil Baby Bum abre hoje, às 10h, com entrada franca, na avenida Mofarrej, 1.505.

Tania Bulhões apresenta coleção de lustres hoje, às 20h, na loja dos Jardins.

com ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER e LÍGIA MESQUITA; colaborou MARCO AURÉLIO CANÔNICO

A criminalização do enriquecimento ilícito - LEONARDO MACHADO


VALOR ECONÔMICO - 17/05/12

Com a proposta feita por um grupo seleto de renomados juristas que pretendem criminalizar o enriquecimento ilícito de servidores públicos dentro do contexto do novo Código Penal, estamos vivendo um momento sem precedentes.

Caso essa proposta seja aceita, pessoas que antes pretendiam ocupar cargos públicos com segundas intenções passarão a ter que pensar duas vezes. Atualmente não é crime enriquecer "sem fundamento", ou seja, sem que se tenha uma razão legal para tanto. Nos dias de hoje, pessoas mal intencionadas criam uma aparente razão para o seu estilo de vida incompatível com sua carreira profissional.

A carreira pública jamais deveria ser escolhida por aqueles que buscam riqueza. Deveriam se enveredar por esse caminho aqueles que o fazem por vocação, que buscam estabilidade profissional ou que não são afeitos às pressões e aos riscos da livre iniciativa.

O Brasil é um dos poucos países que não pune a empresa que corrompe as autoridades governamentais

É importante que se diga que todos os servidores públicos, sem exceção, estão sujeitos a princípios constitucionais que se traduzem, acima de tudo e de todos, em princípios éticos fundamentais que devem nortear o desempenho profissional dos mesmos, em estrita observância aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

No momento de sua posse, cabe ao servidor público fornecer cópia da sua declaração de bens por força da Lei nº 8.730/93. Significa dizer que se um servidor público vier a enriquecer por causa de atividades alheias à sua vida pública (direito este que não lhe está sendo tolhido), é justo e legal que o mesmo comprove a origem de seus recursos, observadas as formalidades existentes para garantir a confidencialidade destas informações. Ora, sendo lícita a atividade desempenhada por um cidadão, qual a dificuldade para provar sua renda? Aliás, não deveria ele fazer isso anualmente para o fisco nacional?

De acordo com o procurador da República Luiz Carlos Gonçalves, nosso ordenamento jurídico possui ferramentas capazes de punir indivíduos envolvidos em atos de corrupção e lavagem de dinheiro, faltando apenas criminalizar o enriquecimento ilícito na esfera pública. No entanto, especialistas no assunto afirmam que essa carência legislativa vai além.

Segundo a Controladoria Geral da União, não há corrupção sem que haja corruptor, e pelo que se vê das recentes leis anticorrupção adotadas por inúmeros países, inclusive por todas as outras nações que compõem o Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), é fundamental punir o corruptor que se beneficia desse tipo de "vantagem".
Jay Myrdal/Getty Images

O Brasil ainda é uma das poucas nações que se limita a responsabilizar - nas modalidades ativa e passiva - as pessoas físicas que praticam o crime de corrupção, deixando de punir a empresa corruptora. São essas empresas, e não simplesmente seus representantes, que buscam vantagens ilícitas para favorecer ou incrementar os seus negócios.

É disso que se trata o Projeto de Lei nº 6.826/2010, que agora está sendo chamado de Lei da Empresa Limpa (www.empresalimpa.org.br), em trâmite em Comissão Especial. Esse projeto responsabiliza, civil e administrativamente, a pessoa jurídica que - por meio de seus executivos, lobistas e representantes - corrompe autoridades governamentais de todos os escalões, de todos os poderes e em todas as esferas, tanto no Brasil quanto no exterior.

Em suma, é um dispositivo legal muito potente, similar à lei americana FCPA (do inglês, Foreign Corrupt Practices Act), que passou a existir em 1977 por causa do escândalo Watergate. Juntamente com a legislação UK Bribery Act, que passou a valer no Reino Unido em julho de 2011, essas leis anticorrupção são cada vez mais temidas no mundo corporativo pelas multas pesadíssimas impostas às empresas infratoras.

No próximo dia 23 de maio, está prevista uma importante votação na Comissão Especial formada pela Câmara Federal para dar prioridade e imprimir velocidade à tramitação do PL 6.826/2010. Especula-se, por outro lado, que aqueles que não desejam essa evolução social estejam tentando barrar a aprovação do texto final do projeto, postergando sua remessa para o Senado.

A Lei da Empresa Limpa é mais do que uma tendência global e, frise-se, foi um dos compromissos assumidos pelo Governo Federal quando da ratificação da Convenção da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2000. Dos 39 países que ratificaram a Convenção Anticorrupção da OCDE, apenas Brasil, Argentina e Irlanda ainda não possuem em seu ordenamento jurídico esse tipo de lei que pune a empresa corruptora.

Enquanto o Brasil continuar deixando de cumprir com seus compromissos internacionais em áreas tão importantes como é o combate à corrupção, provavelmente continuará enfrentando dificuldades para receber o reconhecimento que almeja e - de fato - merece.

PROGRAMAÇÃO ESPORTIVA NA TV


7h - Masters 1.000 de Roma, tênis, Sportv 2

7h - Mundial de hóquei no gelo, esportes de inverno, Sportv

15h30 - Caja Laboral x Bizkaia, Liga Espanhola de basquete, Bandsports

16h - Circuito mundial de surfe, etapa do Rio de Janeiro, Esporte Interativo

16h30 - Masters 1.000 de Roma, tênis, Sportv 2

19h45 - Boca Jrs. (ARG) x Fluminense, Taça Libertadores, Fox Sports

21h - Bahia x Grêmio, Copa do Brasil, ESPN Brasil e Sportv

22h - Vélez (ARG) x Santos, Taça Libertadores, Fox Sports

22h - Phoenix Coyotes x Los Angeles Kings, hóquei, ESPN e ESPN HD

CLAUDIO HUMBERTO

“É um passo estupendo para democracia”
Ex-presidente Lula, sobre a instalação da Comissão da Verdade

DILMA PROIBIU BRIZOLA NETO DE ‘APARELHAR’ MINISTÉRIO 

Quando convidou Brizola Neto para o cargo de ministro do Trabalho, a presidente Dilma, ex-PDT, foi gentil, mas direta: “Menino, você vai ter uma autonomia como nenhum outro ministro do meu governo”. De fato, autorizou-o a escolher a equipe, recomendou que honrasse a família (referindo-se a Leonel Brizola e a João Goulart) e ordenou que o ministro resista à pressão dos políticos para “aparelhar” o ministério. 

DONO DA BOLA

Dilma deixou claro ao jovem ministro do Trabalho: ele terá autonomia total, mas será o único responsável pelo próprio desempenho.

FALTAM EXPLICAÇÕES

O senador Pedro Taques (PDT-MT) quer ver na CPI do Cachoeira os governadores do DF, Goiás, Rio, Tocantins e Mato Grosso.

DEM É SERRA

O DEM oficializa hoje seu apoio à candidatura de José Serra (PSDB), como esta coluna antecipou. Às 12h, Clube Homs, na Av. Paulista.

NEM PENSAR

O líder do PMDB, Renan Calheiros, negou qualquer possibilidade de o senador Demóstenes Torres (GO) se filiar ao partido: “Não faz sentido”. 

PPS INTERVÉM NO DF, MAS POUPA DIRETÓRIO GOIANO

A direção nacional do PPS decretou intervenção em seu diretório do DF, por sua recusa de abandonar a base de apoio ao governo petista de Agnelo Queiroz. A direção nacional alegou que Agnelo é suspeito de envolvimento com o esquema do bicheiro Carlos Cachoeira. Mas não explicou por que não fez a mesma exigência do PPS de Goiás, que apoia o governador Marconi Perillo (PSDB), também está sob suspeita.

INSPIRAÇÃO

A intervenção no DF atende à expectativa do tucano José Serra, a quem é ligado o presidente nacional do PPS, deputado Roberto Freire.

MESMO CASO

O PPS goiano comanda a Secretaria de Cultura do governo Perillo. No DF, o partido ocupa a Secretaria de Justiça, chefiada por Alírio Neto. 

‘NÃO HÁ PROVAS’

O deputado Silvio Costa (PTB-PE) deixou claro que apoia o governo, admira Lula, mas não vê motivo para Marconi Perillo depor na CPI.

INCIDENTE DIPLOMÁTICO

O serpentário do Itamaraty registra a suspensão das relações bilaterais entre o chanceler Antonio Patriota e o antecessor Celso Amorim, atual ministro da Defesa, que andou tentando ensinar Pai Nosso a vigário. 

ATENTADO

O ex-delegado do Dops-ES Cláudio Guerra garante haver sofrido uma tentativa de assassinato sete horas antes da instalação da Comissão da Verdade. Ele é autor do livro Memórias de uma guerra suja.

TUDO OU NADA

Apesar da movimentação de Demóstenes Torres para evitar cassação e obter pena mais branda, como suspensão de mandato, senadores do Conselho de Ética garantem: “o clima é de tudo ou nada”. 

NÃO MERECE

O presidente da Câmara, Marco Maia (RS), recebeu o título de cidadão de Natal (RN), sabe-se lá por que, mas nem se dignou a aprender como se diz. Em discurso, declarou-se “cidadão natalino”. É natalense. 

LOTECA GEAP

Após encherem a Geap de diretores petistas inexperientes a R$ 42 mil ao mês e chefias e superintendentes faturando de R$ 15 a R$ 25 mil, os conselheiros desse fundo de seguridade do servidor federal querem todos dispensados. Os demitidos receberão um ano de vencimentos.

REMOVENDO O SOFÁ

Líderes partidários acusam assessora do presidente da Câmara do DF, deputado Patrício (PT), de vazar notícias sobre seus privilégios. Estes serão mantidos, mas Patrício prometeu-lhes demitir a assessora.

SEM RESISTÊNCIA

O ministro Paulo Bernardo (Comunicações) não vê resistência dos militares à Comissão da Verdade, que investigará violação dos direitos humanos na ditadura: “A maioria nem sequer participou desse período”.

PROIBIDO PROIBIR

Ex-ministro da Justiça (governo Sarney) Fernando Lyra defende a Comissão da Verdade contra o obscurantismo da ditadura: “Quando assumi, o ministério tinha mais de sessenta placas de proibir”.

CARA & CARAS

Com a Europa “derretendo”, o cara que chamou aquele outro de “o cara” mostra que na hora do aperto, os caras correm para aquela nota que tem a cara de Benjamin Fran-

klin. 

PODER SEM PUDOR

TORTURA E SACRIFÍCIO

Jânio Quadros era governador e vivia às turras com o jornal O Estado de S. Paulo, cuja independência não tolerava, nem as insinuações sobre seu apego aos copos. Após intensa negociação, da qual participaram políticos como José Sarney, Jânio fez uma visita ao dono do jornal, Júlio de Mesquita Neto, que logo ofereceu ótimas opções de uísque. Jânio soltou uma lorota:

– Doutor Júlio, eu não bebo! Só aprecio leite!

O anfitrião pediu licença, foi à cozinha, arranjou uma enorme caneca, usada para beber chope, e a encheu de leite. Enquanto durou a visita, Jânio não largou o canecão. Disciplinadamente, bebeu tudo. Um litro de leite.

QUINTA NOS JORNAIS


Folha: Acidente no metrô de SP fere 49
Estadão: Comissão da Verdade não será revanchista, diz Dilma
Correio: Partidos querem votar logo o fim do 14° e do 15°
Valor: Crise tende a retardar recuperação para 2013
Estado de Minas: Famílias com a corda no pescoço (e o PIB também)
Jornal do Commercio: Comissão da Verdade – “Nem ódio, nem perdão”
Zero Hora: MP pede intervenção do Judiciário na Fase

quarta-feira, maio 16, 2012

Tombo da PDG - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 16/05

Veja o tamanho do estrago causado nas ações da PDG no mercado financeiro. Há um ano, a empresa era a maior do setor imobiliário no país, com valor de mercado que beirava uns R$ 11 bilhões. De lá para cá, este valor caiu para R$ 4 bi.

Lobby do amianto

O governador Marconi Perillo, o senador Demóstenes Torres e o deputado Carlos Leréia têm algo em comum, além de relações promíscuas com o bicheiro Cachoeira. Integram o lobby do amianto, que é cancerígeno. A Eternit é dona da mina de Cana Brava, em Goiás.

A volta da capital

Dilma vai despachar do Rio entre os dias 20 e 22 de junho, durante a Rio+20. Será montado um gabinete presidencial no Riocentro.

ONU abelhuda...

Aliás, a ONU está fazendo uma bateria de perguntas a representantes da sociedade civil, de empresas (inclusive CEOs) e do governo interessados em se credenciar para a Rio+20. Entre as questões, acredite, estão cor dos olhos e dos cabelos, a altura e até... o peso, o que tem constrangido algumas mulheres.

Em tempo...

O ex-presidente russo Mikhail Gorbachev também deve vir para a Rio+20.

Os Cachoeiras de lá
A Editora Bertrand lança mês que vem no Brasil o livro “Catturandi”, sobre o trabalho da Divisão Catturandi na caça a grandes mafiosos na Itália. Por segurança, o autor, um policial do esquadrão, assina o livro como IMD.

A esperança é verde
EM TEMPO DE Rio+20, a Escola de Artes Visuais do Parque Lage replantou 20 palmeiras imperiais em seus domínios. Veja as imagens do antes e do depois. A ideia foi preservar o desenho paisagístico original dos jardins do parque. Uma semana após o massacre da serra elétrica de uma construtora que vitimou uma dessas palmeiras em Niterói, mostrado aqui, o gesto sugere que nem tudo está perdido

Além-mar
O juiz Ricardo Pinheiro Machado, de Saquarema, RJ, marcou para dia 30 a audiência de instrução e julgamento do processo em que o português Domingos Duarte Lima é acusado de matar, em 2009, a conterrânea Rosalina Ribeiro, 74 anos. Só não se sabe se o réu, que está em Portugal, vai comparecer.

Segue...

O caso frequenta as primeiras páginas dos jornais portugueses. Duarte Lima, advogado e ex-deputado, teria matado e embolsado uns 5,2 milhões de euros de sua cliente. Há pouco, foi preso em Lisboa, acusado de fraudar o BPN.

Boninho no ringue

Boninho, o diretor da TV Globo, tem feito aulas de muay thai, a luta tão popular na Tailândia quanto o futebol aqui.

Vovô da limpeza
Hoje, Dia do Gari, a Comlurb vai homenagear Jorge Seixas, 81anos, o mais antigo gari carioca. Segundo o secretário Carlos Osório, “o vovô da limpeza” nunca faltou e, em 2013, completará 50 anos no ofício. Viva ele!

É mentira, Terta?

Tony Mayrink Veiga, 83 anos, contou outro dia numa roda de bacanas no Country Club de Ipanema, no Rio, que, numa só caçada, matou, acredite, 30 javalis.

Ilha do Poetinha

“Vinicius no plural. Paixão, poesia e carnaval” é o nome do enredo da União da Ilha para 2013.

Custo do cenário

Liszt Vieira, presidente do Jardim Botânico do Rio, contesta Paula Lavigne, que reclamou do preço da locação de alguns pontos turísticos da cidade. Diz que o parque só cobra em caso de filmagem de comerciais, (“em torno de R$ 10 mil, podendo chegar a R$ 20 mil”).

Psicografado

Hoje, o médium paulista João Alberto Teodoro lança, no Teatro Vannucci, no Rio, o primeiro livro psicografado de Augusto César Vannucci. Ator, diretor e produtor de TV, Vannucci era espírita e amigo de Chico Xavier.

Doença argentina - MAÍLSON DA NÓBREGA

REVISTA VEJA


A revista The Economist criou o conceito de doença holandesa em 1977, em artigo sobre a má gestão das reservas de gás da Holanda. Seria o efeito de descobertas ou aumento de preços de recursos naturais, que acarretam valorização cambial, desindustrialização e realocação de fatores de produção. Diz-se, com exagero, que há doença holandesa e supostas consequências no Brasil, mas isso é assunto para futuras reflexões.

Agora, inspiro-me na semanal The Economist para examinar outra doença, a argentina: o populismo que flagela o país e o atrasa há anos. Foi assim na recente desapropriação das ações da Repsol na Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF). A presidente Cristina Kirchner a anunciou com estardalhaço e recebeu o apoio de políticos e da população (62% a favor). Prova de arraigado nacionalismo.

A Argentina viveu uma era de ouro entre 1880 e 1930. Em 1929, era uma das dez maiores economias do mundo. Caiu para a 23ª posição em 2008. No centenário da independência (1910), a renda per capita era a oitava. Despencou para a 57ª em 2008. Em 1929, o PIB brasileiro equivalia a 77% do argentino. Em 2011, o argentino representava 17% do nosso.

Em 1909, no otimismo da época, o escritor francês Anatole France (1844-1924) disse que, “ao iniciar-se o século XX, a Argentina ocupa no mundo uma posição quase igual à dos Estados Unidos no começo do século XIX”. O voto secreto foi aprovado em 1912. Em 1929, a classe média constituía a maioria. O país era o quinto em automóveis por habitante. Com 16% da população da América Latina, tinha 45% dos telefones e 58% dos carros. Depois da Inglaterra, era o maior consumidor de filmes americanos.

A Argentina se transformou em celeiro do mundo. Seu êxito decorreu de sete fatores: (1) a estabilidade política, iniciada com a Constituição de 1853, ainda em vigor; (2) a fertilidade natural dos pampas, de altíssima produtividade; (3) a crescente procura europeia por alimentos e matérias-primas: (4) a energia elétrica, que permitiu a frigorificação e a exportação de carne; (5) o navio a vapor, que diminuiu o custo de transporte; (6) a emigração do sul da Europa entre 1880 e 1910, cujo fluxo era proporcionalmente o triplo do observado nos Estados Unidos; (7) a atração do capital estrangeiro, que investiu em frigoríficos e estradas de ferro, fundamentais para a produção e a exportação de carne e trigo.

A Argentina enriqueceu sem instituições para lidar com crises e limitar os gastos dos governos. O sistema político falhou em seu primeiro teste, nos anos 1930, quando despencou o preço das commodities. A agricultura e o país empobreceram. A legitimidade do governo desmoronou. Um golpe militar contra o idoso presidente Hipólito Yrigoyen (1852-1933) foi o primeiro dos vários momentos de instabilidade e violência institucional dos anos seguintes.

A tragédia se acentuou a partir da ascensão de Juan Perón (1895-1974) à Presidência (1946). Perón ganhou popularidade com uma agressiva redistribuição da renda, inclusive mediante gastos sociais. Seu governo derrogou direitos de propriedade. Apropriou-se de parte da renda agrícola para financiar maiores gastos públicos, desapropriações e uma industrialização forçada. Adotou políticas industriais baseadas em subsídios e na substituição de importações. Tudo isso criou interesses e distorções que tiveram consequências adversas para o futuro do país. Depois de Perón, o populismo se tornou atávico.

A reestatização da YPF é mais um elo na cadeia de equívocos da gestão econômica argentina há quase sete décadas. Custa crer que um país tão rico em recursos naturais, dotado de uma população bem-educada e de trabalhadores qualificados, que já conheceu o sucesso, não consiga livrar-se da praga do populismo. Daí por que até a oposição apoiou a desapropriação da Repsol.

A Argentina está dando errado mais uma vez. A inflação, o maior sintoma, é manipulada pelo governo. A autonomia do Banco Central morreu com a nova lei que o vincula ao objetivo de crescimento, incompatível com a estabilidade monetária. É triste.

A ação do governo argentino tem apoio no Brasil. Houve vivas à desapropriação e propostas para adotarmos a mesma política econômica dos hermanos. Vade-retro!

Novos tempos - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 16/05


A lógica desta CPÌ do Cachoeira se inverteu em relação a outras, especialmente a do Orçamento, onde muitos dos parlamentares investigados eram os chefes. Hoje, Demóstenes, por exemplo, aparece mais como prestador de serviços

Houve uma época em que o sujeito preso e acusado de contravenção não via a hora de comparecer à Comissão Parlamentar de Inquérito e falar o que sabia. Foi assim, por exemplo, com José Carlos Alves dos Santos, o pivô da CPI do Orçamento há 19 anos. Mas José Carlos não foi o Cachoeira do seu tempo. Ele era apenas uma peça de um esquema com organograma difícil de desvendar.

Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, está mais para o poderoso chefão. Não por acaso, seu advogado é o mais ilustre da safra de profissionais dessa área trabalhando para personagens do esquema. Márcio Thomaz Bastos foi ministro da Justiça. Por isso, atende o chefe.

A forma como Carlinhos Cachoeira conversa com o senador Demóstenes indica que o senador apenas atendia aos interesses do amigo — se os dois eram sócios, ainda não temos elementos categóricos para afirmar. Mas está claro que a lógica desta CPI do Cachoeira se inverteu em relação a outras, especialmente a do Orçamento, onde muitos dos parlamentares investigados eram os chefes. Hoje, Demóstenes, por exemplo, aparece mais como prestador de serviços.

Por falar em funcionários...
Naquela CPI do Orçamento, a turma encarregada de analisar as cópias de cheques obtidas com a quebra de sigilo bancário se dedicava dia e noite à tarefa. Outros eram encarregados das emendas. Lá estavam Waldomiro Diniz, ex-secretário de Assuntos Parlamentares nos tempos em que José Dirceu era ministro da Casa Civil — a quem uma conversa com Cachoeira pedindo propina derrubou. Também ajudavam nas investigações Bernardo Appy, o ex-secretário de Política Econômica no Ministério da Fazenda, hoje na consultoria LCA. Appy era simplemente Beca. Vale lembrar o trabalho da atual ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, à época assessora dedicada, que vasculhava o Siafi (Sistema de Administração Financeira) como ninguém.

O time do PT, do PDT e do PSDB eram os melhores nessa tarefa, não só seus assessores, como parlamentares. Contaram ainda com o valoroso trabalho da Receita Federal e do Tribunal de Contas da União e do Banco Central. Atualmente, o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) parece ser o único da velha guarda que continua dentro de uma CPI, trabalhando com afinco na tentativa de desvendar o grande organograma de Cachoeira. Assessores, na verdade, são bem menos do que os daquela época. E, para completar, avaliam os documentos por palavra-chave nos computadores, e muitos não se dão ao trabalho de ler tudo o que passa pela tela.

Por falar em desvendar...
As duas CPIs têm em comum o fato de os parlamentares tentarem ali proteger governadores. Ocorre que Cachoeira quer continuar protelando seu depoimento — essa história de advogado não ter acesso aos autos logo vai se transformar em falta de tempo por conta do volume de informações a serem analisadas. (Isso nós saberemos logo, uma vez que a CPI convocou Cachoeira de novo). Portanto, será a hora de chamar outras figuras. Nesse caso, os governadores e a Delta Construções, que era de Fernando Cavendish, dificilmente escapam.

Nunca é demais lembrar que, ao abrir para investigar os negócios da Delta com Cachoeira, a Comissão tenderá a se transformar numa CPI das empreiteiras, aquela que o Congresso sempre tentou fazer, mas não conseguiu. Como bem recorda o senador Pedro Simon, que há muitos anos tenta criar essa CPI, as assinaturas para criar esse colegiado vêm e vão como vento ao longo dos anos. Quem sabe agora vai?

Nos próximos dias, a CPI ainda tentará ouvir Cachoeira. Vamos esperar. Mas, como o chefão não quer depor, resta à CPI buscar um outro foco para jogar luz. E se você pensar bem, talvez não seja má ideia. Afinal, Cachoeira já está preso. Faltam os outros.

Dilma x Câmara - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 16/05/12

A despeito da declaração da presidente Dilma, ontem, para os prefeitos, a proposta para os royalties do petróleo, em debate na Câmara, vai redistribuir as atuais receitas. "A Casa quer distribuir o que já está em produção", justifica o relator, deputado Carlos Zarattini (PT-SP). O texto pretende garantir a receita dos estados produtores obtida em 2011 até o ano de 2023, mesmo em caso de queda na produção, que pode atingir o Espírito Santo e municípios do Norte Fluminense.

União resiste a ceder mais
Zarattini esteve com o governador Sérgio Cabral (RJ), apresentando a nova proposta. "O Cabral me disse que este era o melhor projeto até agora (para os produtores), mas que iria à Justiça por uma questão de princípio, pois não concorda em dividir o já licitado", contou Zarattini. Ontem, o relator reuniu-se com a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais), Márcio Holland (secretário de Política Econômica) e Marco Antonio Almeida (secretário de Petróleo). Ele quer que a União ceda mais, além dos 10% de receita de que já abriu mão. O governo não aceita, mas ainda haverá uma reunião com o ministro Guido Mantega.

Delta
Assim como os contratos federais, senadores querem que os pagamentos pelos governos estaduais à Delta sejam feitos em juízo. A maioria tem contratos com a empreiteira nas áreas de construção, gás e petróleo, lixo e energia.

"Do jeito que está, daqui a pouco vão soltar o Cachoeira e prender o Gurgel!” — Pedro Taques, senador (PDT-MT), para o deputado Vieira da Cunha (PDT-RS)

DUCHA FRIA. Até os integrantes mais otimistas da CPI avaliam que a investigação vai cachoeira abaixo. A comissão virou palco de uma guerra institucional: CPI x STF e PF x MP. “A CPI colocou o pé no freio. Pelo andamento, não vai dar em nada. É desanimador”, resumiu o deputado Delegado Protógenes (PCdoB-SP). A CPI teme que a decisão do ministro Celso de Mello (STF), na foto, de suspender o depoimento de Cachoeira vire uma espécie de jurisprudência que venha a beneficiar todos os acusados pelos inquéritos Vegas e Monte Carlo.

A razão
O Ministério da Justiça atribui o descontentamento da Polícia Federal ao não cumprimento de uma promessa: a de pagar um adicional de fronteira. A verba extra já foi autorizada, mas ainda não há definição da forma jurídica para fazê-lo.

Ah! Ah! Uh! Uh! Eu sou maluco!
Desabafo do líder do PT no Senado, Walter Pinheiro (BA): "Os fatos virão à tona. O nosso pessoal precisa ter juízo. Estão transformando o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e a subprocuradora Cláudia Sampaio em vítimas". Mal sabe ele que integrantes da CPI estão querendo propor uma acareação entre a subprocuradora Cláudia Sampaio e o delegado da Polícia Federal Raul Marques de Souza (Operação Vegas).

Expectativa
O Conselho de Ética do Senado aguarda para saber qual a estratégia de Márcio Thomaz Bastos para tentar derrubar a convocação de Carlos Cachoeira. Seu depoimento, como testemunha de Demóstenes Torres, foi marcado para o dia 23.

Quanta diferença
A performance do delegado da PF Matheus Mella Rodrigues, ontem no Conselho de Ética, foi mais acanhada do que na CPI. Ele deixou o loquacidade de lado, falou menos, deu respostas breves e consultou a todo momento o inquérito.

UM GRUPO pluripartidário de integrantes da CPI tem se reunido buscando manter o foco da investigação. Para eles, a prioridade é a corrupção e a ligação da Delta com o contraventor Carlos Cachoeira.

O PRESIDENTE do PP, senador Francisco Dornelles (RJ), bate palmas para a presidente Dilma na questão dos royalties do petróleo: "Nunca na História do Brasil um presidente teve a coragem de dizer a três mil prefeitos o que eles não queriam ouvir".

PERICLITANTE. Há muito descontentamento no governo com a atuação do Itamaraty para garantir o êxito político da Conferência Rio+20.

Na prática: a Grécia sem o euro - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 16/05

País pode até melhorar daqui a alguns anos, mas saída do euro vai causar colapso social e econômico


OS BRASILEIROS de uns 45 anos de idade têm experiência com troca de moedas. Talvez se lembrem de avós chamando as notas de um cruzeiro de "mil-réis" ou as de um cruzeiro novo de "mil cruzeiros", para grande confusão nossa, crianças no início dos anos 1970.

Mas essas trocas de moeda eram brincadeira de banco imobiliário, mera mudança de papel pintado. Se e quando a Grécia sair do euro, haverá o caos no sentido original da expressão grega: o vazio ou um abismo da confusão.

Trocar notas e moedas será o mais ínfimo dos problemas.

A Grécia terá de se obrigar a sair do euro se não cumprir seus acordos com a União Europeia. Não terá então mais empréstimos europeus. A fim de pagar suas contas mais ínfimas, o governo grego terá, pois, também de "imprimir" dinheiro. Para tanto, terá de ter seu próprio dinheiro, a dracma, digamos.

O governo grego tem deficit (gasta mais do que arrecada) equivalente ao valor de 5% do PIB, afora juros (que deixará de pagar, a princípio). Sem dinheiro europeu, terá de imprimir dinheiro, como já se disse, aumentar impostos e/ou cortar gastos. Quanto menos equilibrado for seu orçamento, mais dinheiro terá de "imprimir" a fim de pagar suas contas. Quanto mais imprimir, maior será a inflação. Os mais pobres ficarão ainda mais pobres.

A Grécia tem deficit comercial (importa mais do que exporta) no valor de uns 12% do PIB. A fim de pagar suas importações, terá de impor controle de capitais: euros sairão do país apenas sob ordem do governo. De outro modo, pode faltar euro para pagar compras de combustíveis, comida, remédios e outras importações essenciais.

Sem crédito internacional, sem conseguir euros por meio do comércio internacional e dada a rejeição geral da dracma (quem as trocaria por euros?), haverá penúria. A Grécia terá de limitar importações.

Por que o controle de capitais? Quem tem euros vai guardá-los no colchão ou depositá-los em bancos seguros (fora do país, em países do norte da Europa provavelmente). A nova moeda grega, a nova dracma, será impressa aos borbotões. Vai se desvalorizar barbaramente em relação ao euro. Quem puder não vai aceitá-la ou vai se livrar das dracmas assim que possível.

Provavelmente isso já deve estar ocorrendo: sangria dos bancos e fuga de capitais (as pessoas sacam o dinheiro e o enviam para fora). Com a saída do euro, o governo tende a converter todos os depósitos bancários e contratos em dracmas: a converter moeda boa em ruim. Quem puder vai tentar evitar isso. O governo, por sua vez, vai tentar policiar remessas e até fronteiras (gente com mala cheia de dinheiro).

A conversão de dívidas e contratos vai causar quebras, de bancos e empresas: gente com dívidas em euros e captação ou renda em dracmas vai quebrar. As dívidas em euros explodirão. Haverá um tumulto de processos legais, pois os euros serão, na prática, confiscados.

A princípio, haverá inflação, desvalorização brutal da dracma, falências em série, penúria no governo. O valor real do salário vai desabar, tudo ficará mais caro.

Pode melhorar depois? Talvez. Mas, com ou sem Europa, a Grécia ficará mais pobre e terá de enfrentar um tumulto social que talvez tenha consequências políticas graves.

Dilma consolida autoridade presidencial - ROSÂNGELA BITTAR


Valor Econômico - 16/05/12


Dilma, a presidente, está mais à vontade no cargo este ano do que esteve em todo o ano passado, e seu avanço sobre o próprio governo foi possibilitado por dois fatos inesperados e circunstanciais que acabaram lhe dando maior autonomia: o afastamento temporário do ex-presidente Lula da cena política, por razões de doença, e o afastamento definitivo do ex-ministro Antonio Palocci, uma figura muito forte que acabava impondo seu ritmo e seu estilo no Palácio do Planalto.

Até pouco tempo antes de deixar a cena governamental, Lula já era ouvido mais nos assuntos da política e dos políticos do que de governo, e a sua volta, agora, depois de concluído o tratamento de saúde, já encontra uma outra dinâmica instalada. Não que deixará de ser o mais influente e importante dos mentores, mas inclusive pelo afastamento de vários ministros que havia imposto à sucessora, sua ascendência sobre o governo será naturalmente menor.

No que se pode definir como uma nova abordagem do comando, quase do tipo começar de novo, a presidente radicalizou: passou a fazer só o que quer, a desautorizar quem age em seu nome, a resistir a imposições e timings alheios. Por isso a frequência com que se ouve o dito pelo não dito, as esperas prolongadas no tempo para a tomada de decisões. Dilma vai fazendo ao seu modo, nomeando os seus próximos, restabelecendo a rede de confiança e mandando todo mundo se calar. Eles se calam.

Segundo comentários na aliança governista, onde também se vai desistindo de empurrar a ferro e fogo as demandas goela abaixo da presidente, do jeito que está montado o governo, agora, Dilma terá condições de chegar a julho de 2014, no início efetivo da campanha da reeleição ou da hipótese, menos provável, da eleição de um sucessor, "tendo o que dizer à população".

Além dos programas de promoção social e econômica, a agenda de governo da presidente Dilma está, com uma ou outra exceção - de que o exemplo mais citado é o programa Sem Fronteiras, de formação pós-graduada no exterior - voltada para a economia.

Nos discursos dos primeiros meses deste segundo ano Dilma tem reafirmado os problemas que se transformaram em objeto de sua obsessão, todos no trilátero da economia: juros, câmbio e impostos. O enfrentamento dos juros altos se dá às claras e, segundo um intérprete das intenções presidenciais, ela vai até o limite para não ver mais, no Brasil, lucros bancários de um bilhão por mês. Os bancos terão que trabalhar mais para ganhar a dinheirama com que estão acostumados, em resumo. Embora já se admita, depois do primeiro tranco, concessões para que resolvam os problemas que alegam na sua estrutura, não haverá abertura de guarda, será pressão integral. Quanto ao câmbio, o mundo se encarregou de sacudir, e os impostos, Dilma começa a tratar deles agora. A presidente quer não apenas reduzir a carga tributária, mas simplificá-la. Pretende começar negociando com Estados - por exemplo, a renegociação da dívida em troca de uma alíquota única de ICMS - é uma ideia.

O governo se vangloria de ter obtido, até agora, sucesso em 6 das 7 questões que discutiu com empresários em duas reuniões de grupo de representantes com a presidente. O único que não avançou, reconhece, foi o barateamento da energia, por isso escolhido para ser o seu próximo passo. A economia, para crescer, precisa de condições internas e externas, diz-se o axioma no Palácio do Planalto, e as internas serão construídas, como já estão.

Para realizar seu plano e poder chegar a julho de 2014 na situação ideal que deseja, a presidente acredita que não precisará de embates políticos radicais. Ao contrário, pretende evitá-los. Há dois conceitos muito lembrados nos gabinetes do governo. Um, é que "não somos a Argentina, trabalhamos em paz", e suas variações, como a que evita comparações entre Dilma e Cristina Kirchner.

Que ela irá brigar lá na frente com a oposição, não há dúvida, mas agora sua prioridade é governar. "Ninguém governa na guerra", é um dos preferidos lemas no Palácio do Planalto.

Nessa linha de raciocínio o governo gosta de exemplificar a partir da relação da presidente com os principais políticos da oposição, notadamente filiados ao PSDB. Recebeu os sábios do mundo, grupo de que faz parte o ex-presidente Fernando Henrique, para jantar no Palácio da Alvorada; trata o ex-presidente do partido adversário com educação, até com deferência; aprovou a entrega da relatoria da Comissão da Verdade no Senado, assunto delicado e seu grande interesse, ao senador do PSDB de São Paulo, Aloysio Nunes Ferreira; sua conversa com o governador Geraldo Alckmin, de São Paulo, flui. Enfim, um rosário de exemplos para provar que sua ação, toda, é intencional e formulada com esmero. Ou seja, Dilma também não é Lula.

Por isso, o desgosto com a CPI do Cachoeira, criada com o incentivo do ex-presidente para atender a demandas do PT e do PMDB (Renan Calheiros renasceu com o poder na comissão), além do ex-presidente Fernando Collor. Esse tipo de ocorrência, a CPI, pode levar, ao segundo ano de mandato, o risco que as demissões sucessivas de ministros levaram ao primeiro. Principalmente, o da paralisia do governo.

E o que cria mais tensão para Dilma, hoje, na CPI, é a já histórica ideia fixa, do PT e de Collor, de aproveitar a oportunidade para uma vingança e criminalizar o trabalho da imprensa. "A agenda do PT não é a agenda do governo", diz um interlocutor da presidente. O que se conta, em Brasília, é que a sanha tem dias contados: "Quem mandou começar já mandou parar com essa história da imprensa".

Mas embora não tenha levado adiante ainda o projeto de controle da mídia, deixado a este pelo governo anterior e atualmente revitalizado pelo PT no contexto da CPI, Dilma não o engavetou. Acredita que a lei em vigor é da era pré-Internet e é necessário uma atualização, mas não pode ser algo escrito com o fígado, logo depois da disputa eleitoral, eivada de idiossincrasias e de fissura por controle, como o texto em causa. O projeto será podado de tudo o que ferir a democracia para, um dia, ser lançado adiante. Não será no clima de desvios do foco da CPI do Cachoeira, muito menos num contexto de vinganças, que esse marco regulatório se realizará.