terça-feira, abril 10, 2012

"Hermanos" americanos do norte - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 10/04/12


Em vez das chorumelas, Brasil deveria ter projeto para tirar vantagens de relação maior com os EUA



A visita de Dilma Rousseff a Barack Obama deu ensejo a uma enxurrada de análises sobre o estado das relações entre Brasil e EUA. As opiniões mais comuns da terapia desse casal davam conta de que:

1) As relações vivem um marasmo medíocre, pontuado por atritos e contenciosos não lá muito graves, mas não muito mais do que isso;

2) Brasil e EUA têm relações econômicas extensas, relativa simpatia político-cultural e, pois, relações boas e prontas para melhorar.

3) Isto posto, tanto para quem acha que o copo está cheio como vazio, as visitas recíprocas de presidentes não vão dar em grande coisa, como só acontece nessas ocasiões de fotos e salamaleques mesclados a alfinetadas.

De fato, essas visitas tendem a não render nada mesmo quando não há projeto diplomático maior. Mas as ditas relações bilaterais vão muito bem, se considerada a quantidade de guerras, rolos, conflitos e problemas com os quais os Estados Unidos têm de lidar pelo mundo afora. Os americanos têm problemas no norte da África, no Egito em especial, com Israel e cia., com Irã, Iraque, Paquistão, Afeganistão, China e Coreias, para ficar apenas nos mais difíceis e nem mencionar atritos ora adormecidos com a Rússia.

Os aliados dos americanos no comando da velha ordem mundial, os europeus, estão economicamente encrencados e agastados, de leve, com Obama desde que seu governo quis lhes dar conselhos de administração fiscal e monetária.

Logo, o Brasil é um paraíso tropical. Ainda mais relevante, os brasileiros adoram os Estados Unidos, com a exceção mais extremada de apenas umas dúzias de esquerdistas juvenis arcaicos (muitos deles no governo Dilma, aliás) e uma meia dúzia de críticos sérios do Império.

O comércio entre Brasil e EUA é de peso, os investimentos recíprocos são grandes, consumimos muita cultura americana, do lixo à alta ciência, deixamos muito dinheiro em lojas e hotéis de lá (e, agora, até em imobiliárias e universidades).

Mas os governos do Brasil gostam de criar encrencas contraproducentes com os EUA (e vice-versa).

Dizem, por exemplo, que a política americana de imprimir dinheiro para evitar uma depressão no pós-crise de 2008 é "protecionista" (não é. O efeito colateral disso nos prejudica, certo, mas essa é outra história). Mas não cria caso com a China, que manipula mesmo sua moeda -aliás, atrelada ao dólar desvalorizado de que nos queixamos.

Mas com quem o Brasil mais tem condições de negociar acordos maiores de intercâmbio? Não é com a China, ou com a esclerosada Europa. Nem com nossos "hermanos" ou com a ainda pequena África.

É com os Estados Unidos.

Sim, além do vício do unilateralismo (e a beligerância costumeira), a diplomacia americana é ruim, a dedicada ao Brasil em particular. O governo dos EUA é descentralizado, é difícil negociar com eles (têm agências e Congresso independentes). Além do mais, os EUA não vão criar um atrito com os europeus, por exemplo, por causa do Brasil.

Enfim, pode ser que ofereçamos um plano ambicioso de trocas cruzadas de acordos políticos e econômicos, entre outros, e os EUA nem se importem. Mas temos um plano para conseguir mais vantagens comerciais, tecnologia e parcerias políticas dos americanos? Não.

Agricultura brasileira, do bonde ao trem-bala - JOSÉ SIDNEI GONÇALVES


O Estado de S.Paulo - 10/04/12


A queda da importância das sementes selecionadas de materiais genéticos produzidos pelas instituições públicas de pesquisa avança na agropecuária brasileira. Nos anos 1970, exceto o milho híbrido - privado nos anos 60 -, as sementes selecionadas eram oriundas da genética pública. Hoje, nas lavouras de cana para indústria, soja, milho e algodão, quase todo o material vem da genética privada.

O tema não era tratado pela grande mídia até a publicação da coluna de Celso Ming A Embrapa perdeu o bonde (1.º/4, B2), para ser lida e refletida, pois toca na ferida ao abordar a redução da participação das variedades públicas de soja. Na linha desse texto, há que compreender como a grande mudança no padrão de financiamento do custeio da agropecuária brasileira condena à insignificância a participação das sementes de variedades públicas não só da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mas também de todas as estruturas públicas de pesquisa.

Pois bem, essa liderança da genética pública está sendo corroída e desapareceu em lavouras relevantes que não apenas a soja. O mesmo ocorreu na pesquisa estadual paulista, que criou a agricultura tropical brasileira com o café IAC Mundo Novo (1952), o qual libertou esse produto da terra roxa, permitindo seu cultivo nos solos arenosos e nos cerrados. Em 1972 a mesma pesquisa lançou a IAC 12 para baixa latitude (a soja tropical). O algodão, até 1989, vinha da genética pública paulista (IAC). Nos cerrados, no pós-1995, mais que a mecanização da colheita e a enorme escala, houve troca do material genético público (IAC) do algodão meridional (SP e PR) pelas variedades importadas. Lembre-se que a construção da cotonicultura brasileira em terras paulistas e, depois, paranaenses foi resultado da genética pública paulista, que ganhou reconhecimento mundial.

Essa mudança não ocorreu pela transgenia usando variedades da genética tradicional, o que mostra ser o caso da soja apenas uma etapa de um processo mais longo, basta não voltar as costas à História. Isso se acelerou com a lógica de tomada de decisão dos lavradores diante do novo padrão de financiamento do custeio agropecuário. Nos anos 70 o lavrador ia ao banco tomar crédito rural subsidiado e, com dinheiro na conta, escolhia o material genético assistido pela ampla rede de extensão rural estatal que disseminava a genética pública.

O crédito subsidiado foi desmontado com a crise da dívida pública no começo dos anos 80. E as empresas de insumos com plantas construídas no II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) criaram mecanismos privados para financiar o custeio das safras, cuja forma pioneira foi o contrato de soja verde. Em 1995 foi criada a Cédula de Produto Rural, tornada com liquidação financeira em 2000. E no mesmo quinquênio surgiram as novas legislações sobre sementes e direitos de propriedade intelectual.

Nos anos seguintes as empresas de agroquímicos compraram as de sementes privadas e a reforma do setor público reduziu a capacidade local da extensão rural estatal. Como exemplo, a antiga rede estadual paulista de Casas da Lavoura hoje praticamente inexiste. Quem agora fornece assistência técnica são as poderosas redes das empresas privadas de sementes, que multiplicam ensaios de demonstração em todo o espaço das principais lavouras.

As diferenças de produtividade e de qualidade entre as sementes disponíveis para as principais lavouras são pouco relevantes (em torno de 5% a 7%). Sem a assistência técnica e extensão rural pública irradiar seus resultados - material genético, para manter padrão de alta resposta nas culturas anuais, exige troca quase todo ano - e sem acesso ao novo padrão de financiamento, a genética pública ficou de mãos amarradas. E os instrumentos privados foram ampliados, em 2004, com os novos títulos financeiros dos agronegócios (CDCA, CRCA, LCA e WA). Os planos de safra das grandes lavouras, pelas suas regras, cobrem cerca de um terço do custeio da safra. E semente é custeio. Trata-se de um novo padrão de financiamento com base na venda antecipada. Os lavradores que plantavam para vender passaram a vender para plantar, numa inversão da lógica da tomada de decisão de produzir.

As empresas de sementes privadas (na maioria, de agroquímicos) utilizaram-se desses mecanismos para ocupar o mercado de sementes. E as estruturas públicas, mesmo a Embrapa, não têm mecanismos para emitir títulos financeiros. Daí as sementes públicas foram alijadas do mercado. Novos desdobramentos estão por vir em outras lavouras. Uma grande multinacional comprou empresa de ponta da genética canavieira e, recentemente, lançou novos materiais genéticos num mercado que há décadas já era totalmente dominado pela genética privada de capital nacional.

Em síntese, há que ser comemorado o artigo de Celso Ming, pela coragem de trazer a evidência da perda de espaço da genética pública para a agricultura. Os aspectos ideológicos são maléficos, mas constitui célere equivoco a afirmação de que a Embrapa perdeu o bonde. Na verdade, o trem-bala do capital financeiro não parou na estação da genética pública. Ela está condenada à insignificância no modelo institucional atual em face do padrão de financiamento do custeio da safra via venda antecipada lastreada em títulos financeiros emitidos pelo setor privado.

Para as grandes lavouras, o trem-bala do capital financeiro no custeio da safra fechou as portas na cara da pesquisa pública. E se assiste à internacionalização da base genética da agropecuária brasileira. Há, ainda, que discutir a enorme regressividade desse modelo de financiamento do custeio de safras via títulos financeiros. As próprias regras, além da falta de traquejo para operar nesse mercado, põem à margem do processo massas expressivas de lavradores. Em suma, há que reinventar a ação pública para a agricultura brasileira, que não mais viaja no bonde do crédito subsidiado, mas no trem-bala do capital financeiro.

Honrar o país - VLADIMIR SAFATLE

FOLHA DE SP - 10/04/12


Aqueles que hoje desafiam a mudez do esquecimento e dizem, em voz alta, onde moram os que entraram pelos escaninhos da ditadura brasileira para torturar, estuprar, assassinar, sequestrar e ocultar cadáveres honram o país.
Quando a ditadura extorquiu uma anistia votada em um Congressosubmisso e prenhe de senadores biônicos, ela logo afirmou que se tratava do resultado de um "amplo debate nacional". Tentava, com isto, esconder que o resultado da votação da Lei da Anistia fora só 206 votos favoráveis (todos da Arena) e 201 contrários (do MDB). Ou seja, os números demonstravam uma peculiar concepção de "debate" no qual o vencedor não negocia, mas simplesmente impõe.
Depois desse engodo, os torturadores acreditaram poder dormir em paz, sem o risco de acordar com os gritos indignados da execração pública e da vergonha. Eles criaram um "vocabulário da desmobilização", que sempre era pronunciado quando exigências de justiça voltavam a se fazer ouvir.
"Revanchismo", "luta contra a ameaça comunista", "guerra contra terroristas" foram palavras repetidas por 30 anos na esperança de que a geração pós-ditadura matasse mais uma vez aqueles que morreram lutando contra o totalitarismo. Matasse com as mãos pesadas do esquecimento.
Mas eis que estes que nasceram depois do fim da ditadura agora vão às ruas para nomear os que tentaram esconder seus crimes na sombra tranquila do anonimato.
Ao recusar o pacto de silêncio e dizer onde moram e trabalham os antigos agentes da ditadura, eles deixam um recado claro. Trata-se de dizer que tais indivíduos podem até escapar do Poder Judiciário, o que não é muito difícil em um país que mostrou, na semana passada, como até quem abusa sexualmente de crianças de 12 anos não é punido. No entanto eles não escaparão do desprezo público.
Esses jovens que apontam o dedo para os agentes da ditadura, dizendo seus nomes nas ruas, honram o país por mostrar de onde vem a verdadeira justiça. Ela não vem de um Executivo tíbio, de um Judiciário cínico e de um Legislativo com cheiro de mercado persa. Ela vem dos que dizem que nada nos fará perdoar aqueles que nem sequer tiveram a dignidade de pedir perdão.
Se o futuro que nos vendem é este em que torturadores andam tranquilamente nas ruas e generais cospem impunemente na história ao chamar seus crimes de "revolução", então tenhamos a coragem de dizer que esse futuro não é para nós.
Este país não é o nosso país, mas apenas uma monstruosidade que logo receberá o desprezo do resto do mundo. Neste momento, quem honra o verdadeiro Brasil é essa minoria que diz não ao esquecimento. Essa minoria numérica é nossa maioria moral.

Perdas e danos - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 10/04/12

A despeito da articulação política do prefeito Gilberto Kassab para conseguir convencer os ministros do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), uma ala do PSD apavorou-se com o parecer do procurador geral eleitoral, Roberto Gurgel, vetando a inclusão da sigla na partilha do fundo partidário -o que complica o pleito seguinte, sobre o tempo de TV.

A avaliação é que uma derrota deixaria o partido em segundo plano na formação de coligações e complicaria a arrecadação para campanhas. Dirigentes da legenda dizem que, sem o bolo oficial de recursos, o PSD dependeria prioritariamente de doações de empresários.

Anfitrião Em meio à disputa de tucanos e petistas pelo apoio do PSB na capital, foi o vereador socialista Juscelino Gadelha quem organizou evento sobre educação ontem, na Câmara Municipal, cuja estrela foi o pré-candidato do PT, Fernando Haddad.

Com que roupa? Haddad levou uma bronca da assessoria pela insistência em aparecer em eventos com o mesmo paletó de cor creme. Ontem mudou o figurino e trajava blazer azul marinho.

Aqui, não O pré-candidato do PSDB à Prefeitura de Guarulhos, Carlos Roberto, já avisou à direção estadual do partido que quer aparecer nas inserções de TV, que o QG de José Serra reivindica com exclusividade para a capital.

Curto... A bancada do PT na Assembleia elaborou parecer para tentar barrar dois indicados por Geraldo Alckmin para o Conselho Estadual de Política Energética: David Zylbersztajn, ex-dirigente da Agência Nacional do Petróleo no governo FHC, e José Sidnei Colombo Martini.

...circuito A tese é que ambos são ligados a empresas de energia que negociam com o governo. Zylbersztajn atua na DZ Negócios, que tem a Eletropaulo como cliente. Martini foi citado em investigação sobre os contratos entre a Alstom e o Estado.

Jornada dupla Mulher de Carlinhos Cachoeira, Andressa Morais contava com serviços domésticos de um contratado da Delta Construções, André Teixeira Jorge. Segundo a Polícia Federal, ele era subordinado ao ex-diretor da regional Centro-Oeste Claudio Abreu e "faz-tudo" do esquema do empresário.

Veja bem A Delta diz que Jorge era motorista do engenheiro Claudio Abreu, também investigado na Operação Monte Carlo, e deixou a empresa em março.

Laços 1 A ex-mulher de Cachoeira, Andrea Aprígio de Souza, obteve na Justiça desbloqueio das contas bancárias do laboratório Vitapan, que pertencia a ele até 2004.

Laços 2 O desembargador acatou argumento de que Cachoeira não é ligado à empresa e, com o bloqueio, a Vitapan não tinha como pagar R$ 350 mil devidos só de tributos. A PF sustenta que a empresa ainda é do bicheiro.

Valor Após nove anos no "Valor Econômico", o diretor-presidente Nicolino Spina deixou o jornal ontem. O executivo Alexandre Caldini Neto, ex-Grupo Abril, assume a função.

Bumbo O Ministério das Cidades comemora queda de 24% nos acidentes nas estradas na Semana Santa, em comparação com 2011, e credita o resultado à campanha de segurança no trânsito.

Visita à Folha Helena Bonciani Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, visitou ontem a Folha. Estava com Angela Trabbold, assessora de imprensa.

com SILVIO NAVARRO e ANDRÉIA SADI

tiroteio

"A posição do procurador representa mais uma dura derrota para esse grupo de políticos infiéis que tentaram comprometer toda estrutura partidária do país."

DO DEPUTADO ACM NETO (DEM-BA), sobre o parecer do procurador geral eleitoral, Roberto Gurgel, que refuta a tese da "portabilidade dos votos" e deixará o PSD sem sua fatia no fundo partidário nem tempo de TV.

Contraponto

Homônimos

A Câmara debatia a polêmica venda de bebidas nos estádios na Copa quando Chico Alencar (PSOL-RJ), contrário à liberação, cutucou colegas com a goleada, por 9 a 1, do Vasco no Barcelona do Equador.

-O torcedor embriagado poderia achar que era o Barcelona da Espanha...

-Não tem problema, o meu Grêmio ganhou do River Plate, mas o de Sergipe, brincou Marco Maia (PT-RS).

Chico Alencar emendou:

-Pois é, depois a ressaca seria terrível!

Teoria da gangorra - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 10/04/12


Boa parte das análises sobre o aumento da avaliação positiva da presidente da República na última pesquisa do Ibope (77% contra 72% na anterior) atribui o fato ao recente confronto entre a maneira de Dilma tratar seus aliados no Congresso e a forma como eles gostariam de ser tratados.

Na mesma pesquisa, porém, apenas 4% dos consultados disseram ter tomado conhecimento das escaramuças. Ora, se tão ínfima parcela prestou atenção à chamada "crise com a base aliada", pela lógica não se poderia dar tanto peso ao contraponto entre Executivo e Legislativo no cálculo da apreciação popular à presidente.

O mais provável é que não haja uma ligação tão direta assim entre uma coisa e outra, bem como os índices relacionados à pessoa da presidente não refletem a alta desaprovação (60% em média) ao modo de o governo lidar com a saúde, educação, segurança pública e cobrança de impostos.

Existe a insatisfação pontual que, no entanto, não prejudica a sensação de satisfação geral.

Muito embora o governo considere que o resultado da pesquisa esteja ligado à percepção de atuação ética rigorosa e por isso se sinta injustiçado quando se apontam equívocos no modo de Dilma se relacionar com o Congresso.

Os políticos, por sua vez, dizem que se sentem "usados" por ela para construir boa imagem junto ao público. De onde se conclui que concordam com a tese de que a presidente "cresce" na proporção direta ao "decréscimo" da confiança no Parlamento.

É uma visão parcial da cena, cuja consequência pode levar ambas as partes a conclusões deformadas sobre seus respectivos erros e acertos.

O governo a não arrumar o que precisa ser arrumado, fazendo da dinâmica do conflito permanente um modo de vida, e o Congresso a se encolher ainda mais na ilusão de que estará vacinado contra a indiferença indignada que lhe dedica a população caso se submeta aos ditames da popularidade.

O raciocínio, guardadas as circunstâncias diferentes, vale para os partidos aliados e vale também para a oposição.

Pela interpretação de que existe uma gangorra hipotética em que o Executivo vai ao alto porque o Legislativo vai abaixo, Dilma poderia dar um descanso à marca de espetacular administradora - um tanto desgastada pela realidade dos atrasos e fracassos na execução de obra e projetos - para surfar na onda da santa guerreira no combate à corrupção.

Uma miragem dos dois lados. O profundo poço em que se enfurnam os políticos vem sendo cavado há tempos e guarda muito mais relação com suas próprias fragilidades do que com a cenografia presidencial.

Dele só têm chance de sair com alteração profunda de procedimentos, começando por ter agenda própria referida no interesse público. Difícil? Pois é, mas não há outro modo de conquistar respeito.

Já o governo não tem condições de se escorar apenas na bandeira do rigor ético por dois motivos. Um deles a própria pesquisa do Ibope aponta: muito pouca gente anda dando valor a esses valores.

O outro diz respeito à realidade que emergirá quando, e se, muito mais gente começar a prestar atenção no assunto: a presidente Dilma mudou em relação à forma de seu antecessor, mas no conteúdo manteve tudo em seus devidos lugares errados.

De camarote. Em 2010 a candidata Dilma Rousseff mal participou da própria campanha. Nela, o papel principal coube ao então presidente Luiz Inácio da Silva.

Não será, portanto, das campanhas municipais que a presidente Dilma participará diretamente.

Por falta de vocação para líder de torcida, por carência de disposição de perder tempo em confrontações com a Justiça Eleitoral e porque as alianças partidárias serão tão heterodoxas que, ao frequentar um palanque para agradar a determinado aliado, Dilma corre o risco de desagradar a vários outros.

Note-se, porém, que a equidistância dirá respeito à figura da presidente, mas não necessariamente à estrutura de governo.

A outra primavera árabe - THOMAS L. FRIEDMAN


O GLOBO - 10/04/12


Não é interessante que o despertar árabe tenha começado na Tunísia com um vendedor de frutas reprimido pela polícia por não ter autorização para vender comida justamente num momento em que os preços globais dos alimentos atingiam níveis recordes? E que ele começou na Síria com fazendeiros da vila sulista de Dara´a que exigiam o direito de vender e comprar terrenos próximos à fronteira sem ter que pedir permissão a autoridades de segurança corruptas? E ganhou corpo no Iêmen - o primeiro país do mundo que se espera ficar sem água - com uma lista de reclamações contra um governo incompetente na qual uma das principais era de que as autoridades estavam cavando poços em seus quintais num momento em que o governo deveria prevenir tal "grilagem" de água? Como Abdelsalam Razzaz, ministro da Água do novo governo do Iêmen, disse à "Reuters" na semana passada: "Essas autoridades eram elas próprias as mais agressivas escavadoras de poços. Praticamente todos os ministros tinham um poço cavado em sua casa".

Todos esses conflitos envolvendo terra, água e comida estão nos dizendo uma coisa: o despertar árabe não foi guiado apenas por questões políticas ou econômicas, mas também por menos visíveis tensões ambientais, populacionais e climáticas. Se nos focarmos apenas nas primeiras e não nas últimas, nunca seremos capazes de ajudar a estabilizar estas sociedades.

Vejam o caso da Síria. "A atual rebelião social da Síria, em seu senso mais direto, é uma reação a um regime brutal e alienado", escrevem Francesco Femia e Caitlin Werrell em um relatório para seu Centro para o Clima e a Segurança em Washington. "Porém, esta não é toda a história. Nos últimos anos observamos um significativo número de mudanças sociais, econômicas, ambientais e climáticas na Síria que erodiram o contrato social entre os cidadãos e o governo... Se a comunidade internacional e futuras autoridades sírias quiserem abordar e solucionar as causas da rebelião no país, essas mudanças terão que ser melhor estudadas".

De 2006 a 2011, destacam os dois, até 60% das terras na Síria passaram por uma das piores secas e quebras de safra de sua História. "De acordo com um estudo especial de caso do Relatório de Avaliação Global sobre a Redução do Risco de Desastres do ano passado, os sírios mais vulneráveis dependiam da agricultura, particularmente na província Nordeste de Hassakeh (mas também no Sul), com quase 75% perdendo totalmente suas plantações. Pecuaristas no Nordeste perderam cerca de 85% de seus rebanhos, afetando 1,3 milhão de pessoas". As Nações Unidas relatam que mais de 800 mil sírios tiveram seus meios de subsistência arrasados por essas secas, e muitos foram obrigados a se mudar para as cidades para encontrar trabalho - piorando o fardo sobre um governo já incompetente.

"Se as projeções climáticas se mantiveram no atual curso, as situações de seca no Norte da África e no Oriente Médio vão gradualmente piorar, e terminaremos testemunhando ciclo após ciclo de instabilidade que podem servir de alimento para futuras respostas autoritárias", argumenta Femia. "Há algumas formas de os EUA ficarem do lado certo desta história do mundo árabe. Uma é apoiar de forma entusiástica e robusta os movimentos democráticos". A outra é investir numa infraestrutura adaptável ao clima e na melhora da gestão da água, para fazer estes países mais resistentes a uma era de mudanças climáticas perturbadoras.

Análise da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos EUA (NOAA) publicada em outubro último no "Journal of Climate", e citada no blog de Joe Romm, climateprogress.org, mostra que as secas no inverno do Oriente Médio - quando a região tradicionalmente obtém a maior parte da precipitação para reabastecer seus aquíferos - estão aumentando, e as mudanças climáticascausadas pelo homem são parcialmente responsáveis por isso.

"A magnitude e a frequência das secas que ocorreram são muito grandes para serem explicadas só pela variabilidade natural", destacou Martin Hoerling, do Laboratório de Pesquisas do Sistema Terrestre da NOAA e principal autor da análise. "Estas não são notícias encorajadoras para uma região que já experimenta estresses relacionados à água, pois implicam que só a variabilidade natural não deverá fazer com que o clima da região volte ao normal".

EMPRESA VENDE TUDO - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 10/04/12
Uma assembleia de credores da VarigLog, que suspendeu as operações em fevereiro, aprovou a realização de um leilão para, em um mês, vender seu complexo de bens. O lance mínimo estabelecido é de R$ 40 milhões.

SEGUNDO TURNO

No pacote que será levado à venda estão contratos de concessão aeroportuária e marca. Caso não haja interessados, será aberto segundo leilão para alienação de suas filiais nos aeroportos de Guarulhos (R$ 11,4 milhões), Galeão (R$ 11,5 milhões) e Viracopos (R$ 820 mil). A marca, sozinha, está estimada em R$ 8 milhões.

ABORTO EM PAUTA

Pautada para amanhã, a votação de autorização para realização de aborto em casos de anencefalia (má formação do cérebro que impede o bebê de sobreviver depois do parto) sai com vantagem de quatro votos no STF (Supremo Tribunal Federal): já avançaram na questão, em outras votações, os ministros Joaquim Barbosa, Carlos Ayres Britto, Celso de Mello e o relator, Marco Aurélio Mello.

REZA BRAVA

Celso de Mello, decano do STF, e Marco Aurélio Mello devem avançar, em seus votos, na questão de que o Estado brasileiro é laico (não se submete a regras de igrejas). A interlocutores, um deles já disse que "o Supremo não é tribunal eclesiástico, tem que julgar de acordo com a Constituição". A maior pressão contra a autorização do aborto vem das igrejas católica e evangélica.

FAROESTE CABOCLO

O ator Wagner Moura vai encarnar Renato Russo ao lado de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. Estrelará o "Tributo MTV Legião Urbana" cantando com os ex-integrantes do conjunto, em shows que acontecerão em 24 e 25 de maio no Espaço das Américas, em São Paulo.

BOLA NA REDE

José Maria Marin, presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), tem dito a interlocutores que sua maior preocupação em relação à Copa de 2014 não são aeroportos e estádios. E sim a seleção brasileira, que, a seguir no mesmo ritmo, não chegaria à final do mundial.

OLHO DO FURACÃO

Fundador da DPZ, o publicitário José Zaragoza mostra seu lado artista na exposição que inaugura a galeria Canvas. "Windows", que abre hoje com curadoria de Emanoel Araujo, traz pinturas feitas em NY, em 1985, dias antes da chegada do furacão Gloria. "A série foi inspirada no medo que tomou conta dos nova-iorquinos naquele verão. Ninguém conseguia dormir, nem eu. E, afinal, o furacão não deu as caras [passou com baixa intensidade], mas eu continuei trabalhando nas obras", conta.

NA BALADA

Joana Havelange Teixeira, diretora do COL (Comitê Organizador Local) da Copa 2014, foi ao festival Lollapalooza, anteontem, no Jockey, em SP. A filha de Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, usava minissaia com correntes que desciam pelas coxas, miniblusa preta, jaqueta de couro e botas até os joelhos. Animada, tirou do bolso um frasco de colírio e derramou o líquido no copo de uma amiga.

NA BALADA 2

Avessa a fotografias, não deixou a coluna fazer um registro seu. Afirmou que a saída de Teixeira da CBF "pra mim não mudou nada. Continuo trabalhando da mesma forma". E disse que ainda ontem viajaria à Bahia "para fazer inspeção de lugares para eventos".

LARGADA ALVIVERDE

O Palmeiras deve começar a vender em maio os camarotes de seu novo estádio, a Arena Palestra. Devem ter prioridade conselheiros, sócios e patrocinadores do clube, além dos proprietários de cadeiras cativas no antigo Parque Antarctica. Para o público em geral, a comercialização deve ser lançada no segundo semestre.

DANÇA DAS CADEIRAS

O preço de cada cadeira deve variar entre R$ 10 mil e R$ 22 mil por ano.

TURMA DA CABALA

Bia Antony, mulher de Ronaldo, participou do jantar de Pessach, a Páscoa judaica, do Kabbalah Centre de SP, na sexta, no clube A Hebraica. Em sua mesa estavam os estilistas Glória Coelho, Reinaldo e Pedro Lourenço. O convite custava R$ 300.

BARULHINHO BOM

O apresentador Cazé Pecini e a atriz Thaila Ayala circularam pelo festival Lollapalooza, no Jockey Club de São Paulo. Na foto à direita, de costas, Joana Havelange, diretora do COL (Comitê Organizador Local) da Copa 2014 e filha de Ricardo Teixeira.

BALADA DOS CIGANOS

A banda Gogol Bordello, do vocalista ucraniano Eugene Hütz e do acordeonista russo Yuri Lemeshev, radicados nos EUA, apresentou-se no Beco 203, antes do show no festival Lollapalooza. Entre os convidados estava Laurence Trille.

CURTO-CIRCUITO

João Donato e Moacyr Luz se apresentam nos dias 21 e 22, às 18h, no Sesc Vila Mariana. 12 anos.

A nova coleção de inverno da Trousseau, com colaboração dos irmãos Campana, será lançada hoje, às 17h, no shopping Iguatemi.

O livro "Aquela Água Toda", de João Carrascoza, será lançado hoje, às 19h, na Livraria Martins Fontes, na avenida Paulista.

A série "Planeta Gelado", do Discovery, tem pré-estreia hoje, no MuBE. 20h

A programação do festival Cine PE será apresentada amanhã, às 20h, na Cinemateca, em São Paulo.

O evento Travelweek começa hoje, na Bienal

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

São Paulo é uma calamidade pública - ARNALDO JABOR

O ESTADÃO - 10/04/12


Será que ninguém vai tomar uma providência? Imaginem um terremoto ignorado, sei lá, um tsunami despercebido: "Terremoto, onde? Não estou vendo..." Pois é o que está acontecendo na cidade de São Paulo. Ninguém vê o óbvio: a cidade vai parar com 680 carros entrando por dia nas ruas.

Ou melhor, vê sim, mas com olhos burocráticos, entreabertos, com tédio de trabalhar: "Sim, vamos formar comissões, estamos consultando os técnicos em urbanismo e tal".

É isso - estamos diante de uma calamidade pública e ninguém se toca. Em poucos meses, as cidades japonesas arrasadas já foram limpas.

E aqui? Aqui, "cidade" é considerada uma coisa inferior, "prefeitura", idem. Num país formado pela abstração lusitana, brotam ideologias e teorias que justificam a inação; "prefeitura" só cuida de "coisas menores", como água, esgotos, chuvas, enchentes, transporte, trânsito, ou seja, as coisas mais importante da vida, muito além de votos, de busca de hegemonia política como quer o PT, ou de discursos inflamados pelo poder.

No entanto, São Paulo é um país. São Paulo é o lugar mais importante do Brasil. "Ahhh..., mas vai melhorar", diz o vulgar desejo brasileiro de protelação e autoengano. Não vai melhorar não. Vai piorar; aliás, o pior já aconteceu... "Ah... o Rodoanel vai ficar pronto..." Quando? Por que não ficou antes? Porque, na época do Lula, não mandavam dinheiro federal para o metrô...

Claro que eu reclamo como um burguês; tenho carro, me incomoda levar duas horas para ir ao trabalho. Mas, e a população que sofre agarrada em ganchos de ônibus ou esmagada dentro dos trens? Os milionários compram helicópteros e a classe média muge, reclama com aquele tom de desesperança conformada, tipo: "Ah… isso não tem jeito mesmo… que se há de fazer?" A verdade é que ninguém sabe o que fazer e a cidade está virando um retrato trágico do País; é o inverso da miséria nordestina ou da seca, é a esclerose múltipla da riqueza, é o câncer da pujança econômica, a doença do crescimento desorganizado. Só que essa morte anunciada prejudica o País todo. Calcula-se que o prejuízo anual dos engarrafamentos eternos seja de R$ 30 bilhões/ano. Esses R$ 30 bilhões seriam uma solução. Mas, instalou-se aqui uma nova prática : já que quase nada tem solução, porque o patrimonialismo corrupto não deixa, já que nada se resolve, cuidaremos de "desnecessidades". "Ah... não pode fumar no bar, ah... temos de combater a obesidade, ahh... vamos construir um trem-bala", diz o governo federal. Trem-bala faz vista, causa boa impressão e tem no Japão.. "Ah... vamos gastar uns (exatamente) 30 bilhões para unir São Paulo ao Rio"...

Ninguém quer atacar os problemas principais do País. Aí, os técnicos aparecem na TV: "Temos de terminar o Rodoanel, temos de criar novas linhas de metrô, temos de criar pedágios para o centro da cidade, temos de fazer rodízio no par ou ímpar das chapas, o dia inteiro... temos de tirar os caminhões das ruas, temos de..."

São até boas sugestões, mas elas morrem depois da entrevista, elas somem no dia a dia da preguiça burocrática. Por quê? Porque o poder político no Brasil odeia administrar, porque a coisa mais chata do mundo é cuidar do bem público. O sujeito entra para a política para subir na vida, é eleito vereador e já pensa em ser presidente.

Mas fiquemos no engarrafamento transcendental que nos ronda. A situação de São Paulo precisa despertar um sentimento inexistente entre nós: a urgência. São Paulo não é apenas um problema urbano; é um fato gravíssimo até em termos ecológicos, tão grave como o desmatamento de florestas ou a violência do tráfico. Existem milhares de motoqueiros fazendo o serviço das empresas da cidade. Dizem que morre um por dia. Chego a desejar que esses pobres homens mal pagos, batalhando na "vida lôca", organizem um sindicato para fazer greves de "motoca". A cidade parava. Os escritórios fechavam e talvez aí nossa burguesia alienada percebesse o drama.

Aliás, a grande dificuldade seria desfazer a aura preciosa que atribuímos aos automóveis: poder fálico, quase sexual, como vemos nos anúncios de TV, em que carrões prateados pescam louras e morenas, carros que nos trazem a ilusão de superioridade com que contemplamos com vaga malignidade os passageiros apinhados em ônibus que passam. Vai ser muito difícil convencer as classes médias emergentes a utilizarem transportes coletivos.

Talvez só um engarrafamento definitivo possa conscientizar os cidadãos da bolha brasileira a participar da vida comunitária - temos horror ao coletivo, somos individualistas patéticos, sem causas. Outro dia, vi no filme sobre a Pina Bausch os trens elevados que circulam em Wuppertal, na Alemanha. Movem-se suavemente sobre armações de aço que atravessam a cidade toda e devem ser muito mais baratos que os túneis cavernosos dos metrôs. São soluções civilizadas de países inteligentes. Por que não se podem fazer coisas imaginosas como essa?

Os motoristas de táxi são excelentes projetistas de soluções. Um deles me falou no meio da Marginal do Pinheiros, imprensado entre uma escavadeira e um caminhão de lixo: "Por que não fazem barcas pelos rios da cidade? Acabava esse inferno aí..."

Por que não? Ferrry boats descendo os Rios Tietê e Pinheiros... Talvez seja uma bobagem, mas é um exemplo de imaginação que nos falta. E não é só criatividade, mas também a coragem de contrariar interesses: desapropriar casas e abrir novas ruas, prejudicar, sim, gente como eu mesmo que só anda de carro, criar regras coletivas que choquem os egoístas enfatuados que somos. "Ah... não podemos fazer isso porque a gente perde votos..." Ah... bom, então danemo-nos todos.

A crise de São Paulo não é problema do município apenas; é do governo do Estado e do Planalto. Nos anos 20, o presidente Washington Luis lançou a frase famosa: "Governar o Brasil é abrir estradas". O mesmo vale para São Paulo: governar a cidade é resolver a calamidade do trânsito. Para começar.

Ueba! Obama é brasileiro! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 10/04/12


E este provérbio no meu Twitter: "Demóstre-me com quem andas, e a Polícia Federal te dirá quem és!"

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Oba Oba Obama! Dilma nos States! E sabe o que a Michelle falou pro Obama quando a Dilma chegou? "Não, Obama, essa NÃO é a Mônica." E o que a Dilma foi fazer nos Estados Unidos? Chutar o pau do Barack! Rarará!
E o Obama é brasileiro. Bota uma bermuda e umas havaianas nele pra você ver. O Obama tem perfil de moeda, mas é a cara do primo do Romário. O Obama é filho do Bezerra da Silva!
E o Obama tem que puxar o saco dos brasileiros: "Brasileiros gastam R$ 3 bi no exterior em fevereiro": R$ 1 bi na Gap, R$ 1 bi na Disney e R$ 1 bi na Nike. Tem brasileiro que vai fazer supermercado em Miami. Rarará! E se, em Miami, você encontrar um monte de areia com uma sacola em cima, pode cavucar que é um brasileiro!
Ah, e os atores da Globo gastaram R$ 1 bi na Broadway. Pra assistir a "O Fantasma da Ópera". Pela enésima vez!
E manda a Dilma perguntar pro Obama quando vai diminuir a fila do visto. Isso é o que os brasileiros querem saber!
E adorei a charge do Pelicano com o Obama falando: "O Brasil é um país abençoado! Não tem ciclones nem tornados". E a Dilma: "É... mas tem Cachoeira". Rarará!
E atenção! Acaba de sair um novo apelido pro Desmóstenes: Debóchenes! Debóchenes Torres!
E olha o provérbio que um cara deixou no meu Twitter: "Demóstre-me com quem andas, e a Polícia Federal te dirá quem és!" Rarará!
E aqui na minha rua tem um buraco em homenagem ao Obama: Buraco Obama. Do tamanho dos Estados Unidos! Rarará!
É mole? É mole, mas sobe!
Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!
O Brasil é Lúdico! Esta é direto da Bahia: "Oba Oba Music Hall. NOITE DA APERTADINHA! Open Bar Para Elas. Até a primeira ir ao banheiro". Rarará!
E esta placa no portão: "Seu ladranzinho puga de bunda! Um dia eu te pego, seu cuzão". Rarará!
E este cartaz no estacionamento do supermercado: "Cuidado, Ladrão de Moto". O dono rouba no preço e o ladrão ainda te leva a moto!
E aqui em casa todo mundo canta, todo mundo dança, todo mundo Obama. Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza.
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

PSD a perigo - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 10/04/12


O PSD do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, acaba de receber duro golpe da Procuradoria Geral Eleitoral, cujo chefe, Roberto Gurgel, negou o tempo de televisão requerido pelo partido, acatando na integralidade os argumentos do DEM e de mais 20 outros partidos que entraram na Justiça contra a pretensão do novo partido de ficar com o tempo de televisão de seus filiados.

Tudo indica que a decisão do Tribunal Superior Eleitoral, se houver o julgamento, será na mesma direção, confirmando que o tempo de televisão pertence aos partidos que disputaram as últimas eleições, e não aos eleitos individualmente, não sendo possível, portanto, transferi-lo para a nova legenda ainda virgem eleitoralmente.

Se essa tendência for confirmada pelo TSE, ou mesmo se não houver um julgamento em prazo hábil, o PSD ficará sem a mercadoria mais valorizada que existe no mercado partidário brasileiro, o tempo de televisão.

Com isso, pode perder muitas adesões ou mesmo se inviabilizar, pois disputará as eleições municipais e, sobretudo, também as eleições congressuais de 2014 sem participar da propaganda eleitoral de rádio e televisão.

Muitos parlamentares que pretendem se candidatar a deputado - estadual ou federal - e senador em 2014 certamente procurarão uma nova legenda, pois não terão tempo de propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV.

De imediato, o lugar de vice na chapa tucana em São Paulo pode ser ameaçado, e a reivindicação do DEM fica fortalecida pelo tempo de televisão que o partido tem a oferecer, o terceiro maior depois do PT e do PSDB.

Como comenta o presidente do DEM, senador Agripino Maia, sem tempo de televisão um representante do PSD só entrará na chapa "com o desgaste da prefeitura".

Agripino Maia atribui a uma manobra de Kassab os boatos que surgiram nos últimos dias de que o DEM se dissolveria ou seria absorvido por outro partido, o PSDB ou o PMDB.

Com o direito ao tempo de televisão de propaganda intocado, o DEM considera que tem ainda um bom trunfo para negociar apoios.

Mas, por seu lado, o DEM também trará o desgaste do recente episódio do senador Demóstenes Torres, embora o tenha expelido da legenda com a rapidez que não se vê em seus adversários.

Também as alianças que o PSD vem firmando pelo país podem ficar prejudicadas diante desse fato novo.

O ex-presidente Lula parece ter saído do tratamento para a cura do câncer na laringe disposto a cuidar mais de si do que de seu partido.

Nada mais evidente de seu estado de espírito do que a foto que divulgou ontem, da visita que recebeu no Hospital Sírio-Libanês do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.

Como se sabe, partiu do pragmatismo de Lula a ideia de fazer uma aliança entre PT e PSD para dar ao candidato de 3% Fernando Haddad uma maior consistência política.

A irritação da senadora Marta Suplicy, que já fora escanteada na pretensão de se candidatar novamente à prefeitura, só fez aumentar, e ela anunciou que não subiria no palanque ao lado de Kassab.

Por essas trapaças da política, quem a salvou foi seu arqui adversário tucano José Serra, que, decidindo-se afinal a se candidatar à prefeitura, tirou Kassab dos braços do PT, que ficou a ver navios e passou a criticar aquele com quem namorara publicamente até pouco tempo antes.

Lula tem uma equipe de assessoria que o acompanha o dia inteiro, inclusive um fotógrafo oficial, e as fotos de encontros no Hospital Sírio-Libanês ou no Instituto Lula são divulgadas obedecendo a uma estratégia política.

Como então poderá o PT dirigir suas baterias contra a gestão da prefeitura de São Paulo se o prefeito Gilberto Kassab parece tão próximo de Lula?

Há também outro dado interessante: fora de São Paulo, o PSD de Haddad está apoiando o PT em vários estados, cena típica desse pandemônio em que se transformou a política partidária brasileira.

Os petistas e os tucanos mais radicais (é incrível, mas existem tucanos radicais) já não haviam gostado da foto recente em que o ex-presidente Fernando Henrique abraça Lula no Sírio-Libanês.

Os tucanos, porque consideraram que a confraternização emitia sinais desencontrados para os eleitores, e houve até mesmo quem visse na visita tentativa de desestabilizar a candidatura de Serra.

Já os petistas consideraram que Lula abraçado a Fernando Henrique retirava o peso das críticas à gestão dos tucanos em São Paulo.

Tudo bobagem. Aquela foto mostrava apenas dois velhos conhecidos, quase amigos, que já estiveram juntos em várias ocasiões das suas vidas políticas, e distanciados outras tantas, reencontrando-se na solidariedade da doença.

Um reencontro, aliás, facilitado pelo comportamento da presidente Dilma Rousseff, que soube quebrar o gelo das relações entre o ex-presidente tucano e o governo petista.

Já o encontro com o prefeito Gilberto Kassab pode ter uma conotação simplesmente formal, mas certamente a conversa teve conotações políticas.

Essa disposição de Lula de não se dedicar integralmente à atividade dos palanques, que já teria sido comunicada a seus correligionários, tem de imediato uma vítima principal, o ex-ministro da educação Fernando Haddad, que perde seu único apoio relevante.

É claro que Lula continuará orientando a campanha de seu escolhido para tentar tirar do PSDB a hegemonia da política paulista, mas vencer a eleição para a prefeitura paulistana já não parece ser sua prioridade, mais preocupado em preservar sua saúde e manter viva a imagem de líder popular que muitos consideram ter mudado a face social do país.

Desse ponto de vista, preservar a memória de sua carreira política pelo Instituto Lula parece mais importante do que se manter na atividade política frenética que vinha levando até ser atingido pela doença.

Arrastão - ELIANE CANTANHÊDE


FOLHA DE SP - 10/04/12

BRASÍLIA - Do governador Marconi Perillo à repórter Christiane Samarco: "Todos os políticos importantes de Goiás tiveram alguma relação com Cachoeira".

É, evidentemente, uma tentativa de "hedge": já que "todos" tiveram, por que o próprio Perillo não teria? Mas é também uma confirmação dos tentáculos de Cachoeira, o empresário suprassetorial, suprapartidário e de mil e uma utilidades.

Daí por que tem tudo a ver o pedido do senador Vital do Rego, corregedor e ex-quase presidente do Conselho de Ética do Senado, para o Supremo liberar informações sobre parlamentares envolvidos com o esquema do Cachoeira.

A resposta do ministro Ricardo Lewandowski foi correta: isso só pode ser feito via Comissão Parlamentar de Inquérito. E foi suficiente para o chute inicial numa CPI. O senador Walter Pinheiro (PT-BA) já está em campo coletando assinaturas.

Como dito aqui desde o início, esse Cachoeira é mesmo uma torrente de escândalos. É por isso que um senador pede a relação de envolvidos, outro começa a coletar assinaturas e todos se dizem indignados, mas, no fundo e no raso, ninguém quer, de fato, CPI. O risco é surgirem cobras e lagartos -além de tucanos, petistas, democratas, peemedebistas. Uma cachoeira de implicados.

Demóstenes caiu do pedestal, partiu-se em pedaços, virou pó. Ou renuncia ou será cassado, é questão só de timing. Ele precisa ganhar tempo enquanto tenta anular as provas no Supremo, sob alegação de que o suspeito era Cachoeira, e ele, um senador, não poderia ser gravado durante meses a fio.

Demóstenes, portanto, já era. A questão é que não apenas "todos os políticos importantes de Goiás" mas uma multidão de poderosos em sabe-se lá quantos Estados está enrolada, sob suspeição.

Quem sai na chuva -e vai à cachoeira- é para se molhar. O Congresso está encharcado, tremendo de frio.

Competitividade: contradições do governo - JOSÉ PASTORE

O ESTADÃO - 10/04/12


As últimas semanas foram marcadas por várias medidas em favor da melhoria da competitividade brasileira.

A que mais chamou a atenção foi a desoneração da folha de salários. Falou-se também sobretributos, energia,infraestrutura,burocracia e educação. Abordarei esses dois últimos temas.

No mesmo momento em que o governo jurou simplificar a infernal burocracia, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) implantou uma enorme complicação para controlar a jornada de trabalho.

Trata-se do Registrador Eletrônico do Ponto (REP) - aparelho modelo único que todas as empresas com mais de dez empregados estão obrigadas a adquirir.

Doravante, os empregados terão de marcar o ponto nesse aparelho e obter um papelzinho que deve ser guardado pelo resto da vida, para eventuais disputas trabalhistas. O ritual é demorado, formam-se filas e gasta-se um tempo precioso para a empresa e para o empregado, quando a tendência moderna é a eliminação do uso de ponto ou a sua efetivação por meio de sistemas disponíveis no mercado e que são invioláveis.

As empresas que dispõem de tais sistemas- que exigiram investimentos - terão de sucateá-los para adquirir o REP.

Estima-se que o setor produtivo nacional gastará cerca de R$ 5 bilhões na compra e instalação do novo equipamento.

Não dá para entender a razão dessa complicação, porque os dados do próprio MTE indicam que, das 18 mil multas lavradas no campo da jornada de trabalho em 2011, nenhuma foi por causa da violação de relógio de ponto.

Querem mais uma complicação? Com a entrada em vigor da lei que regula o teletrabalho (Lei n.º 12.551/11), pergunto: haverá um REP para cada local onde estão os que trabalham a distância? Essa medida é um absurdo numa hora em que se busca simplificar os processos para ganhar eficiência. Os nossos concorrentes estão morrendo de rir...

No campo da educação, o governo vem fazendo um louvável esforço para ampliar as oportunidades e melhorar a qualidade do ensino. Basta ver as arrojadas metas do Plano Nacional de Educação; o monumental investimento (planejado) de 10% do PIB; os R$ 24 bilhões destinados ao Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec); a abertura de 8milhões de vagasnasescolasprofissionaisaté2014; as 100 mil bolsas de estudo do Programa Ciência sem Fronteiras; a elevação do piso dos professores; e a implantação dos programas de inclusão digital.

Como um poderoso contravapor a tudo isso, a presidente Dilma aprovou uma medida que restringe drasticamente os estímulos que levavam o setor privado a investir em educação. Explico.A Lei n.º 12.513/11 passou a exigir dos empregados e empregadores o recolhimento da contribuição previdenciária sobre o valor destinado a inúmeros programas voltados à melhoria da qualificação dos brasileiros. É outro absurdo que vai na contramão do referido esforço.

Não consigo entender a razão dessas contradições dentro do mesmo governo.

Sinceramente, está difícil pensar que o Brasil seja um país sério.

O setor privado vinha prestando uma colaboração silenciosa e efetiva à melhoria da educação por meio das iniciativas das empresas, das escolas do Sistema S, do Programa Todos pela Educação e de várias outras ações que precisavam ser estimuladas, e não inibidas.

Neste contexto, vejo com muita simpatia um anteprojeto de iniciativa do respeitado ex-ministro Ozires Silva que busca desonerar as mensalidades dos alunos e isentar de encargos sociais os empregados durante o tempo que ficarem em programas educativos.

Sejamos realistas. Para ganharmos competitividade, precisamos que as ações sejam, no mínimo, convergentes, e não contraditórias.

Mas há esperança. Se a presidente Dilma quiser, as duas contradições apontadas podem ser corrigidas de modo firme e expedito. Se você concorda com isso, escreva a ela.

Inflação como solução - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 10/04/12


A baixa criação de empregos no mercado americano, de apenas 120 mil vagas em março, como o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos revelou sexta-feira, voltou a disparar sinais de alerta em todo o mundo.

O mercado de trabalho americano se recupera lentamente demais e, diante dessa séria fragilidade, os homens de negócios são os primeiros a pisar nos freios: se o emprego segue frágil, o consumo dificilmente terá condições de avançar satisfatoriamente, o que reduz também investimentos.

No final de semana que passou, o Prêmio Nobel de Economia de 2005, Paul Krugman, articulista do New York Times, sugeriu que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) esquecesse temporariamente suas determinação de combater a inflação e se pusesse mais aplicadamente a se concentrar na criação de empregos. Desse modo, afirma Krugman, a inflação tem tudo para intervir mais como solução do que como novo problema.

Até agora, a principal ameaça do Fed não era bem a inflação, mas, ao contrário, a deflação - ou seja, persistente queda de preços na economia. Esse fenômeno teria dois graves efeitos: o primeiro deles, a queda da arrecadação, que agravaria o rombo fiscal do Tesouro americano, à medida que os impostos são cobrados sobre os preços; e a segunda consequência seria aumentar o endividamento não só do Tesouro, mas também do consumidor americano médio, porque o devedor teria de obter mais dólares (com seu trabalho ou seus negócios) para pagar seu passivo.

São o baixo risco de inflação e o ritmo muito vagaroso da evolução dos negócios que levaram o Fed a avisar que, até o fim de 2014, ninguém deve esperar por aumento dos juros básicos (Fed funds), que hoje beiram o zero por cento ao ano.

A proposta de Krugman de produzir mais inflação (para ajudar a corroer as dívidas, elevar o consumo e prover mais empregos) exigiria ainda mais emissões de moeda, um dos turbinadores de tsunamis monetários de que vem se queixando a presidente Dilma.

O problema é que não é certo que o despejo de mais recursos na economia americana ajudaria a expandir o crédito e o consumo. O Fed já esticou seu passivo para US$ 2,9 trilhões, mas a criação de vagas nos Estados Unidos segue insatisfatória. Mais moeda na economia não está reestimulando o crédito. Talvez se limite a impedir que a recessão se aprofunde.

O desemprego é alto na Europa (média de 10,8% na área do euro, em fevereiro) e nos Estados Unidos (8,2%, em março). E provavelmente não se retrairá, como esperam as autoridades, por duas razões. Porque o empresário entendeu que precisa baixar custos para sobreviver e recorre a investimentos em tecnologia de informação, providência altamente poupadora de mão de obra. E, também, porque uma das principais razões da atual crise financeira é a rápida redistribuição do trabalho no mundo. O forte crescimento do emprego na China e em grande parte da Ásia tem como contrapartida o fechamento inexorável de vagas nos países avançados. E esse processo parece irreversível.

Discutir a relação - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 10/04/12


Do que exportamos para os Estados Unidos, 30% são petróleo. Mas importamos muito combustível. O total exportado para lá era 25% de tudo o que o Brasil vendia em 2002; de lá para cá, despencou para 10%. Os Estados Unidos são o maior déficit de nossa balança comercial. O comércio entre Brasil e EUA está mudando muito nos últimos tempos e a própria relação entre os dois países está em rápida evolução.

Para a revista "Economist", "o Brasil nunca foi tão importante para os Estados Unidos quanto agora, e os Estados Unidos nunca foram tão pouco importantes para o Brasil". O que a revista inglesa quer dizer é que os americanos já tiveram um peso relativo maior na nossa economia, política, comércio, e nós fomos ignorados por eles.

Atualmente, o Brasil, com seu mercado, seu peso econômico, ficou mais importante do que era para os Estados Unidos; por outro lado, eles deixaram de ser o nosso maior parceiro comercial, desde 2009. A China agora é o maior parceiro.

Nos anos 1980 e 1990 tivemos dificuldade com nossa dívida externa, em parte herdada do governo militar, e precisamos deles para renegociar nossas obrigações. Hoje, o Brasil é um país com sua dívida externa saneada e nossas contas fiscais são melhores do que as deles.

Mesmo com todas essas mudanças, as coisas são o que são: o Brasil tem um PIB de US$ 2,5 trilhões, e eles, de US$ 15 trilhões. Eles estão em crise mas são uma economia seis vezes maior do que a nossa. Continuam sendo, ainda que endividados, os maiores compradores do mundo, o mercado que mais movimenta a economia global, pela intensidade de consumo.

O melhor seria se a presidente Dilma Rousseff se concentrasse nos assuntos que realmente nos interessam e fizesse uma viagem pragmática. O Brasil tem que ter cada vez mais pretensões de ser consultado em questões estratégicas internacionais e dar sua contribuição na busca do equilíbrio global. Mas há uma intensa agenda bilateral para ser tratada que não deve ser deixada de lado, principalmente se for para o Brasil entrar em bolas divididas que não deveria entrar. Ir para Washington para defender o programa nuclear do Irã seria uma extraordinária perda de tempo.

Agenda não nos falta. Recentemente, eles suspenderam compras de aviões da Embraer e foram levantadas dúvidas sobre o suco de laranja. A relação comercial com os americanos tem dados supreendentes, temos um déficit crescente com os Estados Unidos. As importações brasileiras saíram de US$ 11,3 bilhões em 2004 para US$ 33,9 bilhões em 2011. Aumentaram 200%. Ao mesmo tempo, as exportações continuaram oscilando no mesmo patamar, entre US$ 20 bi e US$ 25 bilhões (vejam no gráfico). Isso fez o déficit em 2011 atingir o recorde de US$ 8,1 bi.

O setor de derivados de petróleo é um dos culpados por esse rombo comercial. Até 2007, o Brasil era superavitário com os americanos na compra e venda de etanol, gasolina e diesel. Fechou aquele ano no azul em US$ 124 milhões. Daí pra frente, o que se viu foi um aumento muito forte das importações. A compra de etanol saltou de US$ 13 milhões em 2007 para US$ 790 milhões em 2011. A de gasolina, de US$ 86 milhões para US$ 796 milhões, enquanto a de diesel foi de US$ 219 milhões para US$ 2,07 bilhões. Com isso, o que em 2007 era superávit no setor de derivados virou um enorme déficit de US$ 3,08 bi em 2011.

O Brasil lutou muito, e durante décadas, para derrubar as barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos ao etanol, mas quando as barreiras caíram, em vez de termos o produto e explorar a chance, passamos a importar. Os Estados Unidos passaram a comprar mais do nosso petróleo, não por um esforço de venda do Brasil e mais por decisão deles. Ainda bem, porque do contrário nosso déficit seria maior, dada a dimensão das nossas compras de combustíveis.

Os Estados Unidos são um país altamente deficitário no comércio, porque mesmo em crise são grandes importadores. Por isso é estranho o Brasil manter um déficit crescente no comércio com eles. A visita da presidente Dilma a Washington pode ser um bom momento para encontrar formas de aumentar a capacidade de fornecer para o mercado americano, o mais desejado do mundo.

Mais um 'custo Brasil' - JOSÉ PAULO KUPFER


O Estado de S.Paulo - 10/04/12


O lançamento de um novo pacote de medidas de estímulo fiscal e financeiro à indústria, na semana passada, provocou reação tão imediata quanto previsível dos críticos do que se convenciona chamar "política industrial". É assim desde que o mundo é mundo - ou, mais precisamente, a partir dos dois últimos terços do século passado, quando versões modernizadas da aplicação de políticas verticais de estímulos setoriais espalharam-se pelas economias do planeta. Mas, em outros lugares, faz tempo que a flexibilidade superou a rigidez de ideias, nessas questões.

Trata-se, no caso do Brasil, de uma guerra sem fim entre visões divergentes sobre os melhores caminhos do desenvolvimento econômico, em que o centro da disputa se concentra nas vantagens e desvantagens das intervenções de governo na dinâmica própria dos mercados. Claro que considerações mais pé no chão, sobre a distribuição de recursos recolhidos da sociedade pelo governo, estão por trás do calor que acaba incendiando o debate.

O fato é que, qualquer que seja a conjuntura, basta o governo clicar na tecla que dispara medidas verticais com abrangência setorial para que outra tecla, no sentido da preferência por ações horizontais, seja acionada. Nessas horas, reformas estruturais, sobretudo as de caráter tributário, e correção das fragilidades na infraestrutura econômica, principalmente no campo da logística e do capital humano, emergem como alternativa preferencial, em contraposição a intervenções localizadas.

Posições críticas a "políticas industriais" levam a vantagem de contrapor reformas estruturais a "soluções" pontuais e de emergência. É evidente que, se realizadas com o devido foco, a tempo e a hora, aquelas serão mais eficazes e duradouras que estas. Fica faltando, no entanto, apontar o caminho das pedras que a generalização em torno das reformas costuma deixar de lado.

Quando, por exemplo, se observa a composição da carga tributária, o caminho da reforma revela-se, sem dúvida, pedregoso. Por se diluir nas intricadas legislações dos 27 Estados que o cobram, o ICMS, de certa forma, fica nas sombras do problema. Só que o tributo responde sozinho por um quinto da arrecadação. Seu impacto nas distorções tributárias que afligem a produção brasileira é, sem dúvida, dos maiores.

O subsistema tributário do ICMS é uma kafkiana barreira à eficiência produtiva. Com legislações incoerentes em cada um dos 27 Estados, a desmoralização da autoridade do Conselho de Política Fazendária e a consequente deflagração, já de longa data, de guerras fiscais, sem falar nos mecanismos emperrados de crédito e devolução do imposto, o ICMS é um labirinto que enreda e enfraquece a produção como a teia em que a aranha prende sua vítima.

Se, por exemplo, os custos da energia e dos serviços de comunicação no Brasil são campeões mundiais, impactando negativamente a competitividade, a culpa, em boa parte, é do ICMS. O mesmo se repete em outros custos de produção relevantes, como os bens de capital.

Por isso mesmo, não há dúvida de que uma reforma tributária com vistas à promoção da competitividade passa pela reforma do ICMS. Ocorre que essa reforma é tão indispensável quanto politicamente complicada, por envolver quase três dezenas de governadores e suas respectivas bancadas parlamentares, na disputa por um pão escasso.

Um observador isento teria dificuldade em entender como a adoção de medidas verticais resultaria, necessariamente, na interdição de reformas horizontais - e vice-versa. Se tivesse conhecimento do que se passa lá fora, entenderia menos ainda. Há, de fato, fartura de exemplos, nas mais diversas economias e situações, demonstrando que essa dicotomia é falsa. No resto do mundo, não é de hoje que já se chegou à conclusão de que, isoladas, políticas horizontais podem ser insuficientes, assim como políticas verticais, sozinhas, tendem a se mostrar equivocadas.

Do liberalismo modelo, predominante nos Estados Unidos, ao maior intervencionismo dos emergentes asiáticos, passando pelos mesclados Japão e Alemanha, a evolução das economias repete uma história que narra combinações de políticas horizontais e verticais. Ainda que possam diferir na natureza e grau de ativismo, as políticas econômicas, em todas as partes, são sempre híbridas.

A quase interdição desse debate entre nós é caso raro, se não único. Pode, assim, configurar mais uma legítima jabuticaba e, merecidamente, ocupar uma posição na longa lista dos entraves ao desenvolvimento que formam o "custo Brasil".

Obesidade - BENJAMIN STEINBRUCH

FOLHA DE SP - 10/04/12


A carga tributária continua alta; tributo não engorda o consumidor, mas torna obeso o setor público


Tempos atrás, empresários e brasileiros em geral perdiam o sono quando começavam especulações sobre a iminência de um novo pacote do governo. Todos se preparavam para enfrentar maldades, principalmente aumentos de tributos.

Nesse aspecto, o país evoluiu. Nos últimos anos, houve vários pacotes de "bondades", ainda que no meio de medidas provisórias muitas vezes apareçam contrabandos com "maldades", incluídas no texto pelo Executivo ou por parlamentares.

Na semana passada, saiu mais um pacote de socorro à indústria. A desoneração da folha de pagamento beneficiou mais 11 setores industriais e de serviços -quatro que já haviam recebido esse benefício ganharam redução de alíquota. Dentro de 90 dias, as empresas desses setores deixarão de recolher a contribuição à Previdência Social, que era de 20% sobre a folha de pagamento, e passarão a pagar alíquotas de 1% ou 2% sobre o faturamento. Exportações serão isentas.

O pacote veio com medidas para reduzir o custo do crédito à indústria. O Tesouro vai repassar mais

R$ 45 bilhões ao BNDES, para fortalecer o PSI (Programa de Sustentação de Investimentos), cujo prazo de vigência, que terminaria no fim deste ano, foi prorrogado até 31 de dezembro de 2013. Os recursos do BNDES para o financiamento de exportações vão mais que dobrar.

O pacote também oficializou o novo regime automotivo, para vigorar de 2013 a 2017. As montadoras poderão obter redução do IPI de até 30 pontos percentuais, dependendo do volume de insumos nacionais comprados. Como medida de emergência, o governo postergou o recolhimento do PIS/Cofins de abril e maio para novembro e dezembro em quatro setores (têxtil, autopeças, calçados e móveis).

Seria até deselegante criticar essas medidas, que implicam renúncia fiscal de alguns bilhões por ano. Porque elas são positivas, caminham na direção correta e denotam uma sincera intenção política de atender às legítimas reivindicações de setores industriais enfraquecidos pela perda de competitividade em relação aos concorrentes externos.

O desempenho recente da indústria é decepcionante. A produção cresceu em fevereiro 1,3% sobre janeiro, mas está longe de entrar em recuperação. Basta dizer que o volume de produção do primeiro bimestre deste ano é 3,4% inferior ao do mesmo período de 2011 e 3% abaixo do de setembro de 2008, um mês antes do momento mais agudo da crise global. Isso significa que, passados 40 meses desde o ápice da turbulência mundial, a indústria ainda não conseguiu retomar o nível de produção pré-crise.

Cabem, por isso, algumas observações sobre o pacote. Essas medidas não são a solução para os problemas da indústria. Falta olhar para setores de base, como energia, petroquímica, transportes, siderurgia e comunicações, altamente taxados e muito importantes na hora em que se pretende baixar custos de insumos industriais.

Falta uma política agressiva para reduzir os "spreads" bancários -não há justificativa técnica, como disse a presidente Dilma, para que as taxas de juros de mercado estejam em alta enquanto o BC reduz fortemente a Selic. Falta enfrentar o complicado problema do câmbio. Falta um cuidado maior com a avaliação da competitividade e o estímulo à inovação -os conselhos setoriais criados podem ajudar.

Falta destravar investimentos em infraestrutura, muitos sob bloqueio burocrático ou ideológico. Por último, o ponto mais importante: será necessário persistir nas desonerações e caminhar para ampliá-las e torná-las estruturais na economia.

Apesar de todas as "bondades" recentes, as receitas totais da União continuam a representar mais de 21% do PIB, como em 2005. Além disso, cabe aos Estados dar a sua contribuição, com reduções no ICMS, como reivindicaram empresários, trabalhadores e estudantes durante marcha de alerta sobre a desindustrialização, na semana passada, em São Paulo.

A carga tributária continua muito alta no país. Um exemplo: quem saboreou seu ovo de Páscoa no domingo, pagando até R$ 180 o quilo, "engoliu" quase 40% de tributos e 60% de chocolate. Felizmente, tributos não engordam o consumidor. Mas tornam obeso o setor público.

CLAUDIO HUMBERTO

“Os EUA esperam ser um grande freguês do petróleo brasileiro”
PRESIDENTE BARACK OBAMA, QUE SE DIZ UM “SORTUDO” POR TER UMA PARCEIRA COMO DILMA

PARA SER EMBAIXADORA, MARTA TERÁ DE RENUNCIAR

Para virar embaixadora do Brasil em Washington, como pretende, a senadora Marta Suplicy (PT-SP) terá de renunciar aos seis anos que restam de mandato. Os artigos 52, 54 e 56 da Constituição obrigam a renunciar o parlamentar indicado para chefiar “missão diplomática de caráter permanente”, que é o caso de uma embaixada. Não precisa renunciar quando a missão diplomática é de “caráter temporário”, como integrar uma comissão que negocia acordo de paz, por exemplo.

RITO NECESSÁRIO

Missão diplomática permanente exige agrément, sabatina no Senado e apresentação de credenciais, como no caso de embaixadores.

PISOU NO TOMATE

Lula não gostou de saber que o princípio por ele adotado, de designar apenas diplomatas para chefiar embaixadas, foi descartado por Dilma.

EMBAIXADA APARELHADA

Condutor da política externa do governo, o aspone Marco Aurélio Top-Top Garcia aplaudiu a designação da petista Marta para Washington.

MACUMBA FOR EXPORT

Agora que a cachaça nos EUA é made in Brazil, falta regulamentar a galinha preta, farofa, sangue de bode e fita vermelha.

CPI PODE INVESTIGAR NEGÓCIOS SUSPEITOS NO BV

O deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) deve propor CPI para investigar as suspeita de desvios no Banco Votorantim. É escândalo para Cachoeira nenhum botar defeito. Em 2008, quando passou a dividir seu controle com a família Ermírio de Morais, o Banco do Brasil avaliou o BV em R$ 8 bilhões. Hoje, a avaliação feita pelo próprio BB está entre R$ 5 e R$ 6 bilhões, nestes tempos em que os bancos registram lucros siderais.

MAIS DO MESMO

Apesar das suspeitas que permeiam seu relacionamento com o BV, o BB ainda quer comprar as ações da família Ermírio de Morais.

NEGÓCIO DA CHINA

Os Ermírio de Morais acham que o Votorantim vale R$ 15 bilhões, mas, para o BB, o banco pode ser avaliado em R$ 6 bilhões, no máximo.

PMDB, 46

O PMDB comemora seus 46 anos nesta terça, durante jantar em Brasília, com parlamentares, governadores e o vice Michel Temer. 

QUEDA ANUNCIADA

O comandante da PM-DF, coronel Sebastião Gouveia, foi demitido pelo governador Agnelo Queiroz (PT), como esta coluna antecipou no dia 4. Era acusado de nada comandar, com a tropa (a mais bem paga do País) fazendo corpo mole. Em março houve 88 homicídios no DF. 

SUSPEITO Nº 1

O governo do DF acha que Cabo Patrício (PT), presidente da Câmara Legislativa, está por trás do motim na PM. É que Agnelo se negou a apoiar sua cobiça de alterar a lei para ele se reeleger à presidência.

A GOTA D’ÁGUA

Jovens tenentes da PM-DF tentavam convencer amotinados a voltarem ao trabalho. Os “líderes” se queixaram a Cabo Patrício e os tenentes acabaram punidos. Foi a gota d’água na demissão do comandante.

ÚLTIMO A SABER

Assim que foi informado da formação do bloco PTB-PR, o líder do governo, Eduardo Braga (PMDB), procurou a senadora Kátia Abreu (PSD). Ele tenta evitar a adesão do partido de Kassab ao bloco.

OS PROFETAS

Não é improvável que o escândalo Cachoeira acabe em “piada de salão”, como avaliou o ex-tesoureiro Delúbio Soares. Começando e terminando com Cachoeira, os dois casos têm tudo para virar “caixa 2, que todo mundo faz”, como disse Lula na célebre entrevista em Paris. 

FEZINHA NADA OFICIAL

Nada como começar a semana árdua fazendo aquela fezinha. Como fez ontem às 9h20 o ocupante do carro oficial da Fiocruz, branco, JIG 1112, na lotérica “Sonho Dourado”, na 404 Norte, em Brasília.

ÚLTIMA TESTEMUNHA

O ministro Arnaldo Versiani (TSE) vai hoje à Câmara ouvir o deputado Francisco Escórcio (PMDB-MA), testemunha de defesa da governadora Roseana Sarney em recurso contra sua diplomação. Ela é acusada de firmar R$ 800 milhões em convênios de março a junho de 2010.

PISANDO EM OVOS

Bem que esta coluna avisou, há 10 dias: a primeira visita da presidenta Dilma aos EUA foi um “não evento”, com a tradicional “caça ao ovo de Páscoa” na Casa Branca – o maior destaque no blog oficial do governo.

PENSANDO BEM...

...finalmente Obama vai descobrir que cachaça não é água, não. 

PODER SEM PUDOR

DIALÉTICA DO TRABUCO

Na campanha para presidente de 1960, Jânio Quadros foi a um comício em Aimorés (MG), onde o clima andava tenso entre facções da UDN e PSD. Assim que começou, José Aparecido de Oliveira foi com o deputado Padre Godinho à barbearia. Quando um fazia barba e outro cortava o cabelo, tiros foram ouvidos. Godinho decidiu sair da barbearia e Aparecido o ponderou:

- Não vá, eles continuam atirando!

Padre Godinho parecia saber o que ocorrera lá fora:

- Vou; é meu dever de sacerdote. Preciso dar extrema-unção ao Jânio.

TERÇA NOS JORNAIS


Globo: STF analisa desde 2005 jogo que beneficiaria Cachoeira
Folha: EUA criam mais dois consulados no Brasil
Estadão: Dilma cobra de Obama ação contra ‘tsunami monetário’
Correio: Apagão na segurança derruba a cúpula da PM
Valor: Lei da Flórida ameaça obras de US$ 2 bi da Odebrecht
Estado de Minas: Mineiros mais perto dos Estados Unidos
Zero Hora: Consulado no RS deve emitir mais de 500 vistos por dia

segunda-feira, abril 09, 2012

No fundo do poço - CARLOS ALBERTO SARDENBERG


O Estado de S. Paulo - 09/04/12


O programa foi o seguinte: quatro dias de treinamento, num hotel, para 300 funcionários da Administração dos Serviços Gerais - o equivalente, no governo americano, a um Ministério da Administração no Brasil. Custo: algo como R$ 1,5 milhão, o que dá R$ 1.250 por pessoa/dia, pensão completa.

Nem é tanto assim, considerando que se tratava de um hotel cinco-estrelas em Las Vegas, incluindo-se no programa aulas e cursos variados. Mas a chefe da Administração, Martha Johnson, renunciou a seu cargo, na semana passada, e seus dois principais assessores foram demitidos - tudo por causa dessa despesa.

Ocorre que uma auditoria interna encontrou alguns, digamos, exageros. Por exemplo: R$ 5.800 para um "mentalista", que leu as mentes do pessoal; e nada menos do que R$ 135 mil para técnicos que ensinaram como montar uma bicicleta.

Para um órgão que se dizia empenhado em programas de cortes de gastos e promoção de eficiência não caiu bem.

Ocorre que toda a coisa foi montada em escalões médios. A ministra-chefe não participou diretamente, não ordenou a despesa nem assinou os cheques. Aliás, os funcionários diretamente responsáveis foram suspensos e estão sendo processados. Não há suspeita de roubalheira. Trata-se apenas de desperdício de dinheiro público.

Foi o que bastou. A ministra demitiu seus assessores diretos e renunciou. Explicação: a direção é responsável pelos atos dos funcionários; a cúpula é responsável por toda a organização.

Já por aqui, no Brasil, o Ministério da Pesca foi apanhado recentemente, por reportagem deste Estadão, num gasto muito mais complicado do que a festança americana. Trata-se da compra de 28 lanchas, por R$ 31 milhões.

Tanto o Ministério não precisava daquele tipo de embarcação - para vigilância da costa - que está transferindo os barcos para a Marinha e para a Polícia Federal. E, até a semana passada, 23 lanchas estavam paradas, dois anos depois da compra. Mais: o dono da empresa que vendeu as lanchas para o governo é ligado ao Partido dos Trabalhadores (PT) e doou R$ 150 mil para a campanha eleitoral petista em Santa Catarina, em 2010.

O ministro da Pesca na ocasião da compra, Altemir Gregolin, é político petista, de Santa Catarina. Em 2011, foi substituído pela senadora Ideli Salvatti, também de Santa Catarina, candidata a governadora naquela eleição em que o vendedor das lanchas doou os R$ 150 mil. Durante a campanha, Ideli participou de solenidade de assinatura dos contratos de aquisição das embarcações.

Explicação dos envolvidos: não tem nada de mais.

Dizem: Ideli não pediu a doação; o dinheiro não foi para a campanha dela, mas do partido (por acaso, o partido dela); quando ela se tornou ministra da Pesca, a compra já estava feita, não havia mais o que fazer; não se pode dizer que a compra foi equivocada ou suspeita; não há nenhuma relação entre o negócio e a doação; o doador doou porque quis; e também não há nada contra os funcionários que administraram o negócio, embora a operação tenha sido condenada pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

Ou seja, a ministra americana foi uma idiota. Demitir-se por causa de uma despesinha de R$ 1,5 milhão? E o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que exigiu as providências, certamente aplicou um rigor exagerado. Quer mostrar o quê? Que a faxina lá é maior do que aqui?

Por um plágio

Pelos mesmos critérios de Brasília, o ex-presidente da Hungria Pal Schmitt também é um idiota.

Imaginem que o cara renunciou por ter sido acusado de plágio numa tese acadêmica apresentada 20 anos atrás, quando ele nem sonhava em entrar para a política.

Nenhuma denúncia de roubo, nenhuma doação eleitoral suspeita, nem sequer uma investigação sobre gastos exagerados. Apenas isto: a sua tese de doutorado, de 1992, se parece muito com o trabalho de um outro acadêmico.

Schmitt nega o plágio, diz que vai se defender, mas renunciou dizendo que o debate público sobre o caso impedia o exercício correto da Presidência.

Poucos meses atrás, aconteceu a mesmíssima situação com o então ministro da Defesa da Alemanha, Karl-Theodor Guttenberg. Renunciou, envergonhado, em meio a um debate nacional sobre a sua ética, ao ser apanhado numa suspeita de plágio acadêmico. Só isso.

Se fosse aqui, não lhes aconteceria nada. No Congresso Nacional e no Executivo, prevalece a ideia de que atos cometidos antes do exercício do mandato e do cargo não justificam punições e/ou demissões.

O ministro fez consultorias "estranhas"? Mas ele não era ministro. O deputado bateu uma carteira? Espera lá, ele nem era candidato por ocasião daquele roubo.

Por aí se vê, aliás, como é mais escandaloso o caso do senador Demóstenes Torres. Ele nem pode argumentar que tudo ocorreu antes do exercício do mandato. Foi tudo como parlamentar.

É verdade que, até aqui pelo menos, não há suspeita de roubo ou de malversação de dinheiro público. A denúncia é "apenas" de prática de lobby, que não é regulamentado, mas também não é crime, e de serviços de advocacia particular para um contraventor.

Se o senador não tivesse feito carreira como defensor da ética e da ordem, talvez o caso acabasse esquecido. Imagine se o personagem dessa história fosse o... (o leitor coloque aqui um nome de sua escolha), a reação seria: "Não se podia esperar outra coisa".

Mas logo o Demóstenes Torres, o senador da ficha limpa! Convenhamos: estamos no fundo do poço.

A formação do Brasil - LYA LUFT

REVISTA VEJA

Sempre me preocupam posições aleatórias ou radicais, com ou sem fundo ideológico, com respeito à formação étnica e cultural do Brasil (ainda existe realmente o ideológico, ou tudo é jogo do grande partido do PIP, o Partido do Interesse Próprio, que às vezes parece ser o preponderante neste país?). Temos oficialmente o Dia do Índio e o Dia do Negro. Divulgam-se e se promovem programas, disciplinas, mil atividades quase sempre relacionadas ao índio e ao negro. Mais do que justo. O primeiro, porque foi o morador desta terra, quando aqui chegamos e o destruímos. O segundo, porque com seu sangue, sofrimento e trabalho duro construiu parte disso que somos e provou que não somos nada santos, pois tínhamos escravos - como boa parte do mundo tinha, incluindo tribos africanas e povos dos mais variados que, vergonha, opróbrio, escravizavam grupos vencidos em guerras.

Esse triste capítulo passou. Deixou marcas, como todos os males deixam, mas estamos trabalhando, eu acho, num país com menos preconceito e mais respeito pelas diferenças, sejam quais forem. Diga-se de passagem, o preconceito pode ser de gênero, de etnia, de classe social, com mão dupla ou várias mãos. Cansei de ouvir dizer que "os brancos de olhos azuis" não querem o bem deste país. O que pode ser mais discriminatório?

Porém, eu gostaria que houvesse mais disciplinas, festejos, ensinamentos, referências aos outros povos e raças que nos fizeram. Os portugueses, italianos, alemães, japoneses, árabes, poloneses, judeus, e tantos mais, sobretudo aqueles que nos povoaram, fizeram crescer, que nos civilizaram e ainda sustentam com suor, trabalho - e às vezes lágrimas - até o dia de hoje. Que nos tornam esse país vasto e, contraditório, problemático, pré-adolescente, que ainda somos - com todos os encantos e disparates que essa fase da vida costuma oferecer.

E gostaria que não só pequenas comunidades em cidades grandes ou no interior comemorassem a cultura de determinados grupos, mas que isso fizesse parte da agenda oficial. Por que não o Dia do Alemão, do Judeu, do Árabe, do Italiano, por exemplo? Do Polonês ou do Português, por exemplo? Pois todos merecem todos contribuem igualmente, todos à sua maneira foram sacrificados, às vezes vilipendiados, não entendidos. Todos sofreram. Meus antepassados, já escrevi isso mais de uma vez, vieram da Alemanha há quase 100 anos, passaram privações inimagináveis em navios, embora não acorrentados. Foram convocados para povoar, no meu caso, uma região bem aqui no sul do Brasil, onde foram largados de mãos vazias de recursos e ouvidos cheios de promessas não cumpridas. Receberam umas poucas ferramentas, nada mais. Enfrentaram tribos hostis, animais ferozes, natureza e clima estranhos, doenças desconhecidas e isolamento devido ao idioma. As criancinhas morriam em quantidades assustadoras, os doentes eram tratados com chás e orações, pequenos cemitérios cresciam como cogumelos. Aos poucos mandaram buscar mais pessoas, médico, pastor, padre, professor, e foram-se construindo casas, povoados, vilas, hoje florescentes cidades de todos os tamanhos. Apesar das dificuldades da língua, foram-se aclimatando, e se consideram tão brasileiros quanto eu, de cinco ou mais gerações nesta terra amada. Isso deve merecer consideração especial.

Escrevo isso como poderia escrever se tivesse antepassados japoneses ou árabes, judeus ou italianos. A gente quer a sensação não apenas de ser brasileiro, amar este país complicado, e lutar por ele, mas de ter isso reconhecido de uma forma mais clara e melhor. Vamos aprender danças e rituais indígenas, comidas e cultos e palavras africanas, mais do que certo: pois somos resultado e mistura de tudo isso. Mas vamos, então, ter outras datas, referências, homenagens e aprendizados mais amplo e mais justos sobre as culturas e etnias que igualmente nos formaram como somos hoje, e vão continuar, cada uma do seu jeito e no seu ritmo, promovendo o país com que tanto sonhamos, onde todos têm hora, voz e vez garantidas e apreciadas.