VALOR ECONÔMICO - 22/03/12
Neste momento, o Senado e a Câmara estão discutindo quatro questões que afetam diretamente os cofres dos Estados, dos municípios e da União. Está na mesa de negociação a mudança dos atuais critérios do Fundo de Participação dos Estados (FPE), uma nova rodada de renegociação das dívidas estaduais e municipais, alterações nas alíquotas interestaduais do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e a redistribuição dos royalties do petróleo. Embora sejam questões que alteram o pacto federativo, com grande potencial de conflitos, as discussões estão sendo feitas de forma isolada sem qualquer tipo de coordenação.
O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, ainda em 2010, que os atuais critérios de partilha do FPE são inconstitucionais. E deu um prazo até dezembro de 2012 para que o Congresso defina as novas regras de distribuição dos recursos do Fundo. A solução para esta questão está, portanto, atrasada. Um recente estudo sobre o FPE, coordenado pela Escola de Administração Fazendária (Esaf), concluiu que os maiores perdedores com as mudanças serão Bahia, Minas Gerais, Ceará, Tocantins, Paraná, Pernambuco e Pará. Os maiores ganhadores serão Alagoas, Piauí, São Paulo, Amazonas e Mato Grosso do Sul. Haverá, portanto, ganhadores e perdedores.
A guerra fiscal que há décadas coloca os Estados brasileiros uns contra os outros, na luta incessante para atrair indústrias para seus territórios, chegou a um exagero de tal ordem que está prejudicando o Brasil, pois alguns Estados estão subsidiando os produtos importados. É preciso, portanto, colocar um ponto final nessa guerra. Para conseguir isso, no entanto, é indispensável adotar o princípio do destino na apropriação do ICMS.
Falta um negociador do governo para coordenar o processo
Esta mudança do ICMS terá um custo para a União, que um recente estudo feito pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), divulgado pelo Valor, estimou entre R$ 45,6 bilhões e R$ 84,2 bilhões, dependendo do prazo de transição. Os Estados também serão afetados de forma diferente. Os maiores ganhadores com a reforma do ICMS, segundo o estudo do BID, serão o Maranhão, o Piauí, o Rio Grande do Norte e o Rio de Janeiro. Os maiores perdedores serão o Amazonas, o Espírito Santo e o Mato Grosso do Sul.
Com a descoberta de reservas gigantescas de petróleo na plataforma continental brasileira não faz mais sentido que apenas os Estados e municípios confrontantes com os campos recebam royalties pela produção. O projeto com a nova distribuição dos royalties, que beneficia todos os Estados e municípios do país, já foi aprovado no Senado e está em discussão na Câmara dos Deputados. Se for aprovado, os Estados perdedores serão Rio, Espírito Santo e São Paulo.
A nova realidade econômica brasileira, com a taxa de juros caminhando para níveis civilizados, tornou inexequíveis os contratos de refinanciamento das dívidas dos Estados e municípios feitos pela União. Os contratos, assinados pelos governadores e prefeitos no fim dos anos 90 e no início da década passada, preveem a correção monetária das dívidas pelo IGP-DI mais juros que variam de 6% a 9% ao ano - taxas maiores do que aquelas cobradas hoje pelo próprio mercado, que trabalha com taxa de juro real neutra de 5,5% ao ano. Os contratos estão, portanto, em desequilíbrio econômico-financeiro e precisam ser alterados.
Um grupo de trabalho foi criado na Câmara para discutir o assunto.Outros projetos, que mudam os contratos, tramitam na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. O objetivo de todos eles é reduzir o custo financeiro pago pelos Estados e municípios por suas dívidas renegociadas. Com custo financeiro menor, os governadores e prefeitos pagarão mensalmente menos para a União pelos débitos renegociados. Hoje, eles comprometem de 11% a 13% de suas receitas líquidas com o pagamento mensal das dívidas. Nessa questão, portanto, quem perderá será a União.
É fácil perceber que as perdas e os ganhos de Estados e municípios em cada uma dessas quatro questões federativas poderão ser compensados em um grande encontro de contas, de tal forma que a situação financeira de todos eles melhore.
Para fazer esse encontro de contas é necessário que as quatro questões federativas sejam tratadas de forma conjunta. Preocupado com o desenrolar dessas discussões, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), criou, na semana passada, uma comissão de notáveis para discutir um novo pacto federativo e a relação entre os Estados, os municípios e a União. A iniciativa de Sarney foi bombardeada pelos senadores, que temem o esvaziamento das comissões permanentes do Senado.
Depois de um encontro de Sarney com os líderes partidários, ficou decidido que as questões federativas continuarão sendo debatidas e votadas, mesmo antes da conclusão dos trabalhos da comissão de notáveis. Os senadores se ressentem, no entanto, da falta de uma coordenação do governo federal, pois o encontro de contas só poderá ser feito pela União. Falta, portanto, um negociador do governo que lidere esse processo e coordene as discussões e as propostas.
quinta-feira, março 22, 2012
O direito à morte digna - FLÁVIA PIOVESAN e ROBERTO DIAS
O Globo - 22/03/12
Neste mês, Tony Nicklinson instou a Justiça britânica a analisar se um médico pode ajudá-lo a pôr fim à sua vida. Após sofrer um derrame, em 2005, Nicklinson, hoje com 58 anos, ficou completamente paralisado e se comunica apenas com o movimento dos olhos. Consciente, mas incapaz de mover o corpo, ele quer morrer. Para isso, busca assegurar uma forma legalizada e, na sua visão, "dignamente humana" para decidir quando e como morrer.
No Brasil, em 9 de março, comissão de juristas nomeada pelo Senado para elaborar um anteprojeto de lei de um novo Código Penal aprovou a proposta de descriminalizar a conduta daquele que não fizer uso de meios artificiais para manter a vida do paciente, quando a doença for grave e irreversível, atestada por dois médicos, com consentimento do paciente ou da família.
Diante da certeza da finitude da vida, como compreender a morte? Qual é o alcance do direito à autodeterminação individual nesta experiência solitária? Qual é o espaço de autonomia e liberdade no exercício da morte? Como repensar a morte não como algo a ser evitado, mas, em determinadas circunstâncias, como um direito a ser perseguido?
Nas últimas décadas, o avanço da medicina tem trazido inúmeros benefícios à saúde das pessoas, reduzindo o sofrimento humano e pondo a salvo vidas. Todavia, o progresso da ciência tem suscitado relevantes questionamentos, especialmente em relação às obstinadas tentativas de prolongamento do ciclo vital e à postergação do processo de morte. Por vezes, isto afeta terrivelmente a dignidade da pessoa, bem como a autonomia do paciente e a concepção que tem acerca da própria vida.
Desde 1999, a lei paulista nº 10.241 dispõe sobre o direito de o paciente, depois de devidamente informado, poder consentir ou recusar procedimentos diagnósticos ou terapêuticos, bem como impedir tratamentos dolorosos ou extraordinários para tentar prolongar a vida, além de escolher o local de sua morte. O novo Código de Ética Médica impõe ao profissional de saúde o dever de prestar todas as informações ao enfermo para que este possa livremente consentir ou recusar os procedimentos propostos.
Como retratado no filme "Os descendentes" - vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado em 2012 -, não há motivo para impedir a uma pessoa capaz de indicar os procedimentos médicos que não aceitará, quando, por qualquer motivo, se tornar inábil para expressar os desejos sobre as intervenções médicas que impactem sua saúde, seu corpo, sua vida e sua morte. O living will ("testamento vital"), amplamente difundido nos EUA, tem especial utilidade para preservar a autonomia e a dignidade da pessoa no momento em que não puder expressar sua vontade acerca dos procedimentos médicos sugeridos ou sobre o prolongamento de sua vida. No Brasil, ainda que não exista qualquer referência legal expressa ao "testamento vital", não há razão para rejeitar sua validade.
A dignidade é princípio fundamental consagrado pela Constituição brasileira. Se ninguém pode ser privado de sua vida arbitrariamente, nada impede que cada pessoa escolha seus próprios caminhos no que diz respeito à vida e à morte, com autonomia e liberdade.
No Estado laico há que se admitir o direito de morrer com dignidade, impedindo que dogmas religiosos imponham, coercitivamente, por meio do Estado, uma conduta ou uma abstenção. No estado democrático todas as religiões devem merecer igual consideração e profundo respeito, não podendo a ordem jurídica converter-se na voz exclusiva da moral de qualquer religião. A laicidade estatal é condição para uma sociedade democrática, livre e pluralista.
O reconhecimento do direito à morte digna decorre dos direitos à liberdade, à autonomia, ao respeito e à vida, no marco de um Estado laico, no qual impera a razão pública e secular. Negá-lo é aceitar o paternalismo despótico ou, como atenta Dworkin, "levar alguém a morrer de uma maneira que outros aprovam, mas que para ele representa uma terrível contradição de sua própria vida, é uma devastadora e odiosa forma de tirania".
Que o Senado, rompendo com dogmas e tabus, possa avançar na proteção do direito à morte digna, conferindo prevalência aos valores constitucionais da liberdade, da autonomia, do respeito e da laicidade, sob o triunfo da dignidade humana.
TIRO PELA CULATRA - MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 22/03/12
A presidente Dilma Rousseff desprezou solenemente as cartas de intelectuais e artistas que pediam a substituição da ministra Ana de Hollanda ou sugeriam nomes na "hipótese" de sua queda. Jamais deu resposta nem permitiu que auxiliares diretos marcassem audiência com os insatisfeitos.
FÔLEGO
No governo, as manifestações foram consideradas desastradas. E ajudaram a dar sobrevida à ministra, cuja gestão não é bem avaliada pela presidente.
GELO
As últimas manifestações de Dilma, que deu beijos e abraços em Ana de Hollanda em solenidade, anteontem, e ainda mandou assessores dizerem que ela "não sai", foram recebidas como balde de gelo pela classe artística.
CEGA, SURDA E MUDA
Mas as críticas continuam. "O problema não é mais Ana de Hollanda, e sim a presidente Dilma", diz o ator Odilon Wagner, um dos articuladores de carta assinada por artistas como Fernanda Montenegro, Ivan Lins, Juca de Oliveira, Beatriz Segall, Chico César, Fábio Assunção e Lázaro Ramos. "Não é possível que ela trate a cultura com tanto descaso a ponto de ignorar o que está acontecendo no ministério."
ACELERADOR
O ministro Ricardo Lewandowski já afirmou a colegas do STF (Supremo Tribunal Federal) que deverá liberar o processo do mensalão para voto a tempo de o caso ser julgado ainda neste ano.
VAGA
Há grande expectativa em torno do tempo que Lewandowski ainda leva com o processo, do qual é relator revisor. É que até setembro Cezar Peluso, presidente do STF, se aposenta. E dificilmente o caso seria julgado antes de um novo ministro ser indicado para o seu lugar -o que só deve ocorrer em 2013.
VENTO FORTE
Réus do mensalão têm feito consultas intensas a interlocutores de ministros do STF. Concluíram que o tribunal acelerará o julgamento caso ministros se sintam cobrados por uma parcela da chamada opinião pública.
ERA UMA VEZ
A nova versão, ampliada, do filme de "Pelé Eterno", que terá mais de cinco horas de filmagem, lembrará o dia em que o craque quase abandonou o futebol, antes mesmo de jogar na seleção. Foi em 1956, numa decisão entre o Santos e o Jabaquara pela liga santista. Pelé bateu um pênalti -e perdeu, dando vitória ao rival. No dia seguinte, tentou fugir da concentração para nunca mais voltar.
BANQUETE
A nova versão do filme, de Aníbal Massaini, deve ser dividida em capítulos para ser exibida na TV Globo.
NOVO PONTO
A Justiça negou recurso da grife Maria Bonita contra ação de despejo movida pelos donos do imóvel da loja da marca em Ipanema. Os aluguéis deixaram de ser pagos em 2008. A grife diz que não concordou com reajuste de 120% nas prestações. Está renegociando os débitos e busca um novo ponto.
NOSSO JEITO
De Marina Silva em palestra no escritório de advocacia Mattos Filho, nesta semana: "Temos hoje a primeira mulher presidente em 500 anos. É motivo de celebração. Mas não podemos ocupar esses espaços como caricatura dos homens, bater na mesa, falar alto. Podemos ser respeitadas da nossa forma". Marina depois disse que não se referia especificamente a Dilma Rousseff.
NOITE DE TROFÉUS
Os atores Nelson Baskerville e Claudia Raia, com o namorado, o também ator Jarbas Homem de Mello, foram à entrega do Prêmio Shell de Teatro, anteontem, no Espaço Araguari, em São Paulo.
VIVA ELIS
O cantor Milton Nascimento e as atrizes Regiane Alves, Gabriela e Regina Duarte foram à estreia para convidados da turnê em que Maria Rita canta o repertório da mãe, Elis Regina. O produtor João Marcelo Bôscoli assistiu à performance da irmã no Vivo Rio.
RESPEITÁVEL PÚBLICO
Domingos Montagner estreou a peça "Mistero Buffo" no teatro do Sesi. A cineasta Laís Bodanzky, entre outras personalidades, estava na plateia.
CURTO-CIRCUITO
O seminário "Conhecimento científico do jornalismo no Brasil: a contribuição de Alberto Dines" acontece hoje, das 9h às 18h, na sede da Fapesp, no Alto da Lapa.
Cildo Meireles é o homenageado do Prêmio Casa Claudia, hoje, no Unique.
A mostra de decoração "Black" tem início hoje, no Alto de Pinheiros.
Ronaldo Esper fala sobre moda na Fundação Carlos e Diva Pinho, às 20h.
O carro Batmóvel está em exibição até o dia 5, no shopping Vila Olímpia.
com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY
FÔLEGO
No governo, as manifestações foram consideradas desastradas. E ajudaram a dar sobrevida à ministra, cuja gestão não é bem avaliada pela presidente.
GELO
As últimas manifestações de Dilma, que deu beijos e abraços em Ana de Hollanda em solenidade, anteontem, e ainda mandou assessores dizerem que ela "não sai", foram recebidas como balde de gelo pela classe artística.
CEGA, SURDA E MUDA
Mas as críticas continuam. "O problema não é mais Ana de Hollanda, e sim a presidente Dilma", diz o ator Odilon Wagner, um dos articuladores de carta assinada por artistas como Fernanda Montenegro, Ivan Lins, Juca de Oliveira, Beatriz Segall, Chico César, Fábio Assunção e Lázaro Ramos. "Não é possível que ela trate a cultura com tanto descaso a ponto de ignorar o que está acontecendo no ministério."
ACELERADOR
O ministro Ricardo Lewandowski já afirmou a colegas do STF (Supremo Tribunal Federal) que deverá liberar o processo do mensalão para voto a tempo de o caso ser julgado ainda neste ano.
VAGA
Há grande expectativa em torno do tempo que Lewandowski ainda leva com o processo, do qual é relator revisor. É que até setembro Cezar Peluso, presidente do STF, se aposenta. E dificilmente o caso seria julgado antes de um novo ministro ser indicado para o seu lugar -o que só deve ocorrer em 2013.
VENTO FORTE
Réus do mensalão têm feito consultas intensas a interlocutores de ministros do STF. Concluíram que o tribunal acelerará o julgamento caso ministros se sintam cobrados por uma parcela da chamada opinião pública.
ERA UMA VEZ
A nova versão, ampliada, do filme de "Pelé Eterno", que terá mais de cinco horas de filmagem, lembrará o dia em que o craque quase abandonou o futebol, antes mesmo de jogar na seleção. Foi em 1956, numa decisão entre o Santos e o Jabaquara pela liga santista. Pelé bateu um pênalti -e perdeu, dando vitória ao rival. No dia seguinte, tentou fugir da concentração para nunca mais voltar.
BANQUETE
A nova versão do filme, de Aníbal Massaini, deve ser dividida em capítulos para ser exibida na TV Globo.
NOVO PONTO
A Justiça negou recurso da grife Maria Bonita contra ação de despejo movida pelos donos do imóvel da loja da marca em Ipanema. Os aluguéis deixaram de ser pagos em 2008. A grife diz que não concordou com reajuste de 120% nas prestações. Está renegociando os débitos e busca um novo ponto.
NOSSO JEITO
De Marina Silva em palestra no escritório de advocacia Mattos Filho, nesta semana: "Temos hoje a primeira mulher presidente em 500 anos. É motivo de celebração. Mas não podemos ocupar esses espaços como caricatura dos homens, bater na mesa, falar alto. Podemos ser respeitadas da nossa forma". Marina depois disse que não se referia especificamente a Dilma Rousseff.
NOITE DE TROFÉUS
Os atores Nelson Baskerville e Claudia Raia, com o namorado, o também ator Jarbas Homem de Mello, foram à entrega do Prêmio Shell de Teatro, anteontem, no Espaço Araguari, em São Paulo.
VIVA ELIS
O cantor Milton Nascimento e as atrizes Regiane Alves, Gabriela e Regina Duarte foram à estreia para convidados da turnê em que Maria Rita canta o repertório da mãe, Elis Regina. O produtor João Marcelo Bôscoli assistiu à performance da irmã no Vivo Rio.
RESPEITÁVEL PÚBLICO
Domingos Montagner estreou a peça "Mistero Buffo" no teatro do Sesi. A cineasta Laís Bodanzky, entre outras personalidades, estava na plateia.
CURTO-CIRCUITO
O seminário "Conhecimento científico do jornalismo no Brasil: a contribuição de Alberto Dines" acontece hoje, das 9h às 18h, na sede da Fapesp, no Alto da Lapa.
Cildo Meireles é o homenageado do Prêmio Casa Claudia, hoje, no Unique.
A mostra de decoração "Black" tem início hoje, no Alto de Pinheiros.
Ronaldo Esper fala sobre moda na Fundação Carlos e Diva Pinho, às 20h.
O carro Batmóvel está em exibição até o dia 5, no shopping Vila Olímpia.
com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY
Os problemas da Embrapa - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 22/03/12
Respeitado como potência agrícola e como fornecedor de alimentos para o mundo, o Brasil não teria atingido esse status sem o trabalho da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), criada em 1973. Com enormes ganhos de produtividade a partir dos anos 80, o campo brasileiro tem sido capaz, juntamente com a indústria processadora de seus produtos, de proporcionar uma importante receita cambial para o País e ao mesmo tempo garantir alimentação farta e barata aos consumidores nacionais.
Desde o começo dos anos 90, quando já se manifestavam plenamente os efeitos da modernização rural, os institutos de pesquisa reduziram várias vezes o peso dos alimentos na composição dos índices de preços. Comida mais barata liberou recursos do orçamento familiar para a compra de bens de consumo duráveis e semiduráveis, contribuindo para a expansão do mercado interno e para o fortalecimento da indústria. Essencial para a estratégia de crescimento do Brasil, a Embrapa vem perdendo espaço, no entanto, no mercado de inovações, com sua atuação prejudicada pela insuficiência de recursos para empreendimentos à altura dos novos desafios.
Os problemas da Embrapa, hoje com dificuldades para competir com as grandes multinacionais do setor de biotecnologia, foram mostrados em reportagem do jornal Valor publicada ontem. Os mercados de sementes de algumas das culturas mais importantes, como soja, milho e algodão, vêm sendo há alguns anos dominados por empresas como DuPont, Syngenta, Monsanto, Bayer e outras multinacionais, segundo a reportagem. Desde a regulamentação dos transgênicos no Brasil, em 2005, somente 2 das 32 variedades liberadas para cultivo no País foram produzidas pelos pesquisadores da Embrapa.
Nas comemorações dos 30 anos da empresa, em 2003, técnicos da área, especialistas em economia agrícola e estudiosos de estratégias do desenvolvimento discutiram, em Brasília, agendas para adaptação da Embrapa à era da nova biotecnologia. Os festejos de três décadas de sucesso deveriam - este foi o mote de vários pronunciamentos - marcar uma renovação da pauta de trabalho. O ex-ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Velloso, um dos responsáveis pela criação da empresa e pela implantação da política de ocupação dos cerrados do Centro-Oeste, foi especialmente enfático ao apontar os novos desafios.
Os custos da pesquisa, porém, têm crescido muito mais que as possibilidades financeiras da Embrapa. Segundo uma organização americana citada na reportagem, são necessários, em média, US$ 135 milhões para todo o processo de pesquisa e licenciamento de um único transgênico. Isso equivale a R$ 230 milhões. O orçamento da estatal para este ano, de R$ 2,1 bilhões, é menor que os dos três anos anteriores, mesmo em valores correntes, isto é, sem se levar em conta a inflação. Esse orçamento deve servir para todas as despesas. A Monsanto, informa também o jornal, gasta mais de US$ 1 bilhão por ano em pesquisa e desenvolvimento. Em reais, isso corresponde quase à verba total da Embrapa.
Soluções financeiras novas são essenciais para o Estado brasileiro continuar mantendo uma empresa capaz de produzir inovação tecnológica na agropecuária. Ou o governo enfrenta essa questão ou assume, claramente, o risco de ver uma grande instituição de pesquisa definhar.
Não há resposta pronta, porque há dificuldades tanto para a abertura de capital quanto para a formação de parcerias com empresas privadas. Será preciso recorrer à imaginação para resolver o problema. A recusa de qualquer solução por motivos ideológicos será um erro de consequências muito graves.
A resposta pode ser complicada, mas será preciso jamais perder de vista um fato importante. O Brasil tornou-se um grande produtor de alimentos para os mercados interno e externo porque a pesquisa contribuiu para grandes ganhos de produtividade, adaptou culturas a novas áreas e facilitou o desenvolvimento da produção comercial de grandes, médios e pequenos agricultores. A ineficiência cultuada ideologicamente por alguns membros do governo produz apenas o atraso e a pobreza.
União impossível - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 22/03/12
O sociólogo Francisco de Oliveira, fundador do PT e já há algum tempo em dissidência depois de ter ido para o PSOL, definiu bem a crise política que o governo vive na gestão Dilma Rousseff em entrevista concedida ao portal on-line do Instituto Humanitas Unisinos: as supostas qualidades da presidente estariam sendo consumidas "no apagar o fogo amigo" de uma coalizão que não tem qualquer identidade programática.
União impossível Para ele, o governo Dilma "é a amostra da impossibilidade de manter-se, no longo prazo, o tipo de conciliação ampla dos dois mandatos do governo Lula".
Oliveira diz que "a sociedade brasileira é cada vez mais complexa para que seus interesses contraditórios sejam envelopados numa fórmula carismática".
Para ilustrar bem a situação, no mesmo dia em que o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, dizia que a crise estava superada, o governo sofreu duas derrotas interligadas entre si na Câmara.
Sintomaticamente, pela análise corrente no Planalto, os problemas do governo com a Câmara seriam menores do que com o Senado. O engano na avaliação custou ao governo derrotas emblemáticas que atrasaram a votação da Lei Geral da Copa e do código florestal, que os ruralistas querem votar antes.
Ao mesmo tempo, os ruralistas uniram-se à oposição para derrotar o governo na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara.
Por 38 a 2, foi aprovada a admissibilidade de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que determina que passe pelo Congresso Nacional a demarcação de terras indígenas, o reconhecimento de terras quilombolas, e a definição de áreas de preservação ambiental.
Esses desencontros da base aliada - o governo só contou com os votos dos chamados partidos de esquerda - acontecem numa área que, como todo o governo, está dividida entre dois setores.
Os ruralistas têm que ser contentados com a designação do ministro da agricultura, e os assim chamados movimentos sociais têm que dar o aval para o ministro do Desenvolvimento Agrário.
Foi por isso, aliás, que recentemente o ministro Afonso Florence foi demitido quase em segredo, para dar seu lugar ao deputado Pepe Vargas, também do PT. Tudo para agradar os setores sociais, especialmente os ligados ao MST e à reforma agrária.
Já Mendes Ribeiro, do PMDB, não é da bancada ruralista, mas teve seu apoio ao ser nomeado ministro da agricultura.
As mais recentes derrotas do governo podem custar a permanência no cargo da ministra Ideli Salvatti, cuja atuação à frente do Ministério das Relações Institucionais atribui- se boa parte dos erros que o governo vem cometendo desde que resolveu enfrentar a chantagem dos partidos aliados sem, no entanto, mudar nem a orientação governamental nem o conceito de coalizão a qualquer custo.
A situação está tão grave que até mesmo alguns analistas governistas começaram a acusar a oposição de não dar respaldo à presidente Dilma quando ela tenta fazer "a coisa certa".
Não há no horizonte nenhuma indicação de que a presidente Dilma pretenda alterar sua base de sustentação política, o que significa dizer que não há espaço político para que a oposição se ofereça para respaldar as ações do governo contra sua própria base aliada.
n n n n n n Cometi um erro ao escrever que a Constituição "(...) também considera "imprescritíveis" crimes como a tortura e o terrorismo", ressalvando que essa definição não existia quando foi promulgada a Lei de Anistia.
Na verdade, me adverte o advogado Marcelo Cerqueira, a Constituição Federal, no seu Artigo 5, XLIII diz que a lei considerará "crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática de tortura...
o terrorismo".
Não se trata de imprescritibilidade, portanto. Só o racismo é crime imprescritível.
"Fosse a tortura considerada imprescritível pela Constituição Federal, então teríamos a enfrentar o fenômeno da recepção (lei anterior à Constituição ser com ela incompatível)", ressalta Cerqueira, lembrando que nesse caso o Supremo Tribunal Federal entende, pelo voto do ex-ministro Paulo Brossard, que as leis anteriores à Constituição e com ela incompatíveis são declaradas "revogadas" e não "inconstitucionais".
Nessa hipótese, a lei de anistia poderia não ser recepcionada pela Constituição 1988, e o Supremo poderia decidir nesse sentido, punindo terroristas e torturadores, estes pelo uso abusivo e criminoso do aparelho de Estado.
O advogado Marcelo Cerqueira também acha que, por outro lado, "não há que confundir crime continuado com crime permanente. Este estabelece o termo da prescrição antes de transitar em julgado a sentença final, entendendose que enquanto não cessar a conduta criminosa não começa a correr a prescrição".
Do ponto de vista puramente técnico, Cerqueira acha que os procuradores que querem punir o Major Curió pelo desaparecimento dos corpos dos guerrilheiros do Araguaia "têm a razão que falta ao juiz".
O crime de sequestro é permanente, a ocultação de cadáver é crime instantâneo de efeito permanente, não importando o tempo transcorrido entre o sequestro e tal ou qual data, porque a lei não estabelece prazo.
Mas Marcelo Cerqueira insiste em um ponto: a questão da anistia "não é constitucional ou penal, mas política e ideológica". O STF entendeu que a decisão de lei de anistia, em que ele trabalhou, foi "expressão de um acordo político, e pronto".
Apertem os cintos - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 22/03/12
No momento em que a recém-renovada articulação política do governo ainda patina, preocupa o Planalto a viagem simultânea de Dilma Rousseff e do vice, Michel Temer, ao exterior no início da semana que vem. A Presidência será ocupada por Marco Maia (PT-RS), e a Câmara dos Deputados ficará sob os cuidados da vice Rose de Freitas (ES), da ala independente do PMDB.
Além dessa configuração improvisada, inspira cuidados a atuação de José Sarney (PMDB-AP), que ontem pautou de surpresa a discussão da reforma política. Para um senador petista, o recado de Sarney é: "Estou vivo e quem manda no Senado sou eu".
Prato frio Além de Guido Mantega, deputados da base rebelados aprovaram ontem na Comissão de Fiscalização e Controle convite para audiência com Sepúlveda Pertence, da Comissão de Ética da Presidência. O alvo é Fernando Pimentel (Desenvolvimento), investigado pelo órgão.
Deu zebra Na estreia, o líder Arlindo Chinaglia (PT-SP) liberou a votação para retirar da pauta a Lei Geral da Copa. A justificativa do PT foi a de que Ideli Salvatti queria "testar a base aliada''. Resultado: só não obstruíram a sessão PT, PSB e PRB.
Sujeito oculto Além de fritar a ministra, deputados acusam o assessor da Secretaria de Relações Institucionais Paulo Argenta de ter operado para derrubar o ex-líder Cândido Vaccarezza. Segundo eles, Argenta age com mais autoridade que Ideli.
Ação global Depois de Aloizio Mercadante (Educação), o próximo ministro a despachar na liderança do governo no Senado, a convite de Eduardo Braga (PMDB-AM), para atender demandas será Alexandre Padilha (Saúde), na semana que vem.
Aquarela Do ex-ministro Orlando Silva (PC do B) após reunião com Temer para reafirmar candidaturas opcionais a PT e PSDB em São Paulo: "Entre o preto e o branco tem um arco-íris enorme".
Corrosão Diante das pautas nacionais negativas para o Espírito Santo -redivisão de royalties e fim dos incentivos às importações-, 3 dos 4 prefeitos do PT no Estado desabaram em avaliação e intenção de votos, diz pesquisa do instituto Futura.
Atropelo O anúncio de que Gilberto Kassab lançará pacote de obras para os corredores de ônibus, uma das bandeiras do PT em São Paulo, tirou do sério o QG de Fernando Haddad. Petistas entendem que a iniciativa visa neutralizar críticas à prefeitura durante a campanha.
Pela culatra O núcleo político de Geraldo Alckmin chamou ontem os deputados petistas Edinho Silva e Donisete Braga ao Bandeirantes para cabalar apoio à indicação de Dimas Ramalho para o TCE. Horas depois, a bancada do PT aprovou moção de apoio a Jorge Caruso (PMDB).
Lançamento Ives Gandra Martins lança hoje, às 19h, no auditório da editora jurídica LexMagister, em São Paulo, o livro "Na Folha de S. Paulo", coletânea de artigos publicados no jornal pelo advogado e professor emérito da Universidade Mackenzie.
Visitas à Folha Antonio Quintella, presidente do Credit Suisse nas Américas, visitou ontem a Folha, a convite do jornal, onde foi recebido em almoço. Estava com Nilson Teixeira, economista-chefe, Luis Stuhlberger, diretor do Credit Suisse Hedging-Griffo, e Maristela Mafei, da Máquina Public Relations.
Cláudia Azevedo, diretora do jornal português "Público", visitou ontem a Folha.
com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
tiroteio
"Mais uma vez o PT vai dar W.O. quando é chamado a decidir sobre tema importante. Subir no muro, se o assunto é a Copa do Mundo, agora virou coisa de petista."
DO ASSESSOR ESPECIAL DO GOVERNO PAULISTA FÁBIO LEPIQUE, membro do Comitê do Mundial-2014, sobre a decisão do governo federal de transferir aos Estados e municípios a responsabilidade pela liberação de bebiba alcoólica.
contraponto
Haja coração!
O relator da Lei Geral da Copa, deputado federal Vicente Cândido (PT-SP), se encontrou com o ex-presidente Lula em sua casa, em São Bernardo, para discutir as polêmicas em torno do texto. Depois de debaterem o artigo que explicitava a liberação de consumo de bebida alcoólica nos estádios durante o evento, Lula atalhou:
-Na verdade, não estou preocupado com a lei.
Diante do espanto do deputado, prosseguiu:
-A lei vai ser votada. Estou mais tenso com esse timinho do Mano. Só tomando uma cerveja mesmo!
No momento em que a recém-renovada articulação política do governo ainda patina, preocupa o Planalto a viagem simultânea de Dilma Rousseff e do vice, Michel Temer, ao exterior no início da semana que vem. A Presidência será ocupada por Marco Maia (PT-RS), e a Câmara dos Deputados ficará sob os cuidados da vice Rose de Freitas (ES), da ala independente do PMDB.
Além dessa configuração improvisada, inspira cuidados a atuação de José Sarney (PMDB-AP), que ontem pautou de surpresa a discussão da reforma política. Para um senador petista, o recado de Sarney é: "Estou vivo e quem manda no Senado sou eu".
Prato frio Além de Guido Mantega, deputados da base rebelados aprovaram ontem na Comissão de Fiscalização e Controle convite para audiência com Sepúlveda Pertence, da Comissão de Ética da Presidência. O alvo é Fernando Pimentel (Desenvolvimento), investigado pelo órgão.
Deu zebra Na estreia, o líder Arlindo Chinaglia (PT-SP) liberou a votação para retirar da pauta a Lei Geral da Copa. A justificativa do PT foi a de que Ideli Salvatti queria "testar a base aliada''. Resultado: só não obstruíram a sessão PT, PSB e PRB.
Sujeito oculto Além de fritar a ministra, deputados acusam o assessor da Secretaria de Relações Institucionais Paulo Argenta de ter operado para derrubar o ex-líder Cândido Vaccarezza. Segundo eles, Argenta age com mais autoridade que Ideli.
Ação global Depois de Aloizio Mercadante (Educação), o próximo ministro a despachar na liderança do governo no Senado, a convite de Eduardo Braga (PMDB-AM), para atender demandas será Alexandre Padilha (Saúde), na semana que vem.
Aquarela Do ex-ministro Orlando Silva (PC do B) após reunião com Temer para reafirmar candidaturas opcionais a PT e PSDB em São Paulo: "Entre o preto e o branco tem um arco-íris enorme".
Corrosão Diante das pautas nacionais negativas para o Espírito Santo -redivisão de royalties e fim dos incentivos às importações-, 3 dos 4 prefeitos do PT no Estado desabaram em avaliação e intenção de votos, diz pesquisa do instituto Futura.
Atropelo O anúncio de que Gilberto Kassab lançará pacote de obras para os corredores de ônibus, uma das bandeiras do PT em São Paulo, tirou do sério o QG de Fernando Haddad. Petistas entendem que a iniciativa visa neutralizar críticas à prefeitura durante a campanha.
Pela culatra O núcleo político de Geraldo Alckmin chamou ontem os deputados petistas Edinho Silva e Donisete Braga ao Bandeirantes para cabalar apoio à indicação de Dimas Ramalho para o TCE. Horas depois, a bancada do PT aprovou moção de apoio a Jorge Caruso (PMDB).
Lançamento Ives Gandra Martins lança hoje, às 19h, no auditório da editora jurídica LexMagister, em São Paulo, o livro "Na Folha de S. Paulo", coletânea de artigos publicados no jornal pelo advogado e professor emérito da Universidade Mackenzie.
Visitas à Folha Antonio Quintella, presidente do Credit Suisse nas Américas, visitou ontem a Folha, a convite do jornal, onde foi recebido em almoço. Estava com Nilson Teixeira, economista-chefe, Luis Stuhlberger, diretor do Credit Suisse Hedging-Griffo, e Maristela Mafei, da Máquina Public Relations.
Cláudia Azevedo, diretora do jornal português "Público", visitou ontem a Folha.
com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
tiroteio
"Mais uma vez o PT vai dar W.O. quando é chamado a decidir sobre tema importante. Subir no muro, se o assunto é a Copa do Mundo, agora virou coisa de petista."
DO ASSESSOR ESPECIAL DO GOVERNO PAULISTA FÁBIO LEPIQUE, membro do Comitê do Mundial-2014, sobre a decisão do governo federal de transferir aos Estados e municípios a responsabilidade pela liberação de bebiba alcoólica.
contraponto
Haja coração!
O relator da Lei Geral da Copa, deputado federal Vicente Cândido (PT-SP), se encontrou com o ex-presidente Lula em sua casa, em São Bernardo, para discutir as polêmicas em torno do texto. Depois de debaterem o artigo que explicitava a liberação de consumo de bebida alcoólica nos estádios durante o evento, Lula atalhou:
-Na verdade, não estou preocupado com a lei.
Diante do espanto do deputado, prosseguiu:
-A lei vai ser votada. Estou mais tenso com esse timinho do Mano. Só tomando uma cerveja mesmo!
Estados e municípios sob extorsão - JOSÉ SERRA
O ESTADÃO - 22/03/12
A redução da taxa de juros básica, a Selic, prevista para 9% ao ano,evidencia a extorsão a que estão submetidos Estados e municípios em razão dos contratos firmados com o governo federal no final dos anos 1990.A não correção de distorções posteriores, causadas por mudanças na economia, levou a uma situação injusta e a um equívoco econômico, e sua retificação não aumentaria a dívida pública consolidada nem comprometeria a boa gestão fiscal, permitindo ainda a elevação da taxa de investimento público, cujo baixo nível traz danos imensos ao nosso desenvolvimento.
Esses contratos representaram uma corajosa inovação do governo FHC. A irresponsabilidade fiscal e os juros altos tinham levado Estados e alguns municípios a uma situação de pré-insolvência. Por isso mesmos e aprovou,em1997,um a lei de refinanciamento de dívidas estaduais, logo estendida a 180 municípios. Houve uma grande operação de troca de ativos e emissão de dívidas pelo Tesouro Nacional, que refinanciou as dívidas estaduais e municipais com encargos financeiros então subsidiados e prazo de pagamento em até 30 anos.
A fim de que a situação não se repetisse, aos Estados e municípios foram proibidas a emissão de títulos de dívida mobiliária e operações de crédito antecipando receitas orçamentárias.ALei de Responsabilidade Fiscal (LRF), de 2000, deu o contorno final ao novo estilo no manejo nas finanças públicas estaduais e municipais, que ao longo dos tempo foi mostrando mais qualidade do que o próprio manejo federal.O sucesso foi tal que governos estaduais e prefeituras passaram a ser os principais responsáveis pelo aumento do superávit primário do setor público consolidado. Recentemente, a imprensa internacional comentou que essa experiência brasileira é um modelo para a União Europeia em crise. Teria razão caso fosse a Europa uma República federativa...
É pouco sabido que LRF não se aplica em sua plenitude às finanças federais.
Isso depende de resolução do Senado,de iniciativa do Executivo, que nada fez.
Por que os arautos da boa política fiscal ou da transformação do Banco Central no quarto Poder da República nunca chamam a atenção para essa falha? Um mistério.
Além disso, desfrutando amplos graus de liberdade, o governo federal executa um orçamento paralelo( via vultosos restos a pagar de orçamentos anteriores e créditos subsidiados do BNDES ao setor privado) e para fechar números do déficit antecipa dividendos e tributos de bancos e empresas estatais (e não estatais) e até receitas, transformando barris de petróleo ainda no pré-sal em transferências da Petrobrás ao Tesouro.
Voltando à lei de 1997: o indexador dos contratos de refinanciamento a Estados e municípios foi o Índice Geral de Preços da Fundação Getúlio Vargas, o IGP-DI.A taxa de juros foi fixada entre 6% e 9% acima do índice, dependendo da amortização extraordinária do saldo devedor.
Na época, os juros reais chegavam a 15%, daí o subsídio. No Congresso foi introduzido um teto para o pagamento anualdos serviços da dívida,de 13% das receitas orçamentárias líquidas.
O IGP-DI acabou sendo um índice ruim, demasiado dependente de choques cambiais e preços de commodities. Apesar do advento do regime de câmbio flutuante, o governo manteve-o como super indexador das dívidas estaduais e municipais. E as taxas de juros, encavaladas nessa supercorreção, tornaram-se altas demais: até cinco ou seis pontos acima da Selic. Enquanto cobra 14% ou mais das prefeituras e 12,5% de alguns Estados, o governo empresta a grandes grupos privados, via BNDES, a juros de 4% a 5%.
Em 2010 o serviço da dívida dos Estados foi de R$29 bilhões, equivalentes a 62%do seu investimento total. Paga-se bastante, mas, mesmo assim, o principal vem aumentando,como é o caso da capital paulista, cuja dívida cresceu cerca de cinco vezes entre 2000-2011, apesar do pagamento de R$ 16 bilhões! Se, em vez do IGP mais 9%, a dívida da cidade acompanhasse a Selic, os encargos acumulados em 2011 seriam R$ 17 bilhões menores! Os diagnósticos sobre essa perversidade são numerosos e quase consensuais.Uma das propostas é óbvia: atrelar retroativamente as dívidas à Selic. Há, além disso,uma medida simples e fácil:permitir que a relação dívida/ receita corrente líquida dos municípios seja a mesma dos Estados, ou seja, 2, em vez de 1,2, como é hoje.
Mas, afinal, por que nada tem sido feito de prático para eliminar essa perversidade?Um fator é a possibilidade de decisões discricionárias, dando-se autorizações especiais para este ou aquele captar créditos ou até receber contribuições fiscais diretas.
Prática nada republicana, para usar termo em moda.
Há, porém, um erro mais importante em curso: a ideia de que todos os problemas federativos -dívida,royalties,Fundo de Participação dos Estados, guerra fiscal predatória - deveriam ser resolvidos simultaneamente num grande pacto! Bela fórmula para o imobilismo, lamentações, discursos triviais e comissões de alto nível. A estratégia correta é a oposta: resolver um problema de cada vez, sem excluir possíveis compensações localizadas transitórias, começando pelo mais fácil, que é o das dívidas - a ponta do barbante para desatar o novelo federativo.
Se isso for equacionado,os Estados e municípios teriam acesso amais recursos. Mas deveria exigir-se, formalmente, uma contrapartida, que tudo fosse destinado a investimentos. Ao contrário do folclore, as esferas estaduais e municipais, na média, são mais ágeis do que a federal para investir. Já dão conta, aliás, de uns dois terços do total dos investimentos governamentais no Brasil (excluindo empresas).
O efeito seria altamente positivo num país onde tais investimentos, como fração do produto interno bruto (PIB), são dos menores do mundo - uns cinco pontos porcentuais abaixo da média no restante da América Latina.
A redução da taxa de juros básica, a Selic, prevista para 9% ao ano,evidencia a extorsão a que estão submetidos Estados e municípios em razão dos contratos firmados com o governo federal no final dos anos 1990.A não correção de distorções posteriores, causadas por mudanças na economia, levou a uma situação injusta e a um equívoco econômico, e sua retificação não aumentaria a dívida pública consolidada nem comprometeria a boa gestão fiscal, permitindo ainda a elevação da taxa de investimento público, cujo baixo nível traz danos imensos ao nosso desenvolvimento.
Esses contratos representaram uma corajosa inovação do governo FHC. A irresponsabilidade fiscal e os juros altos tinham levado Estados e alguns municípios a uma situação de pré-insolvência. Por isso mesmos e aprovou,em1997,um a lei de refinanciamento de dívidas estaduais, logo estendida a 180 municípios. Houve uma grande operação de troca de ativos e emissão de dívidas pelo Tesouro Nacional, que refinanciou as dívidas estaduais e municipais com encargos financeiros então subsidiados e prazo de pagamento em até 30 anos.
A fim de que a situação não se repetisse, aos Estados e municípios foram proibidas a emissão de títulos de dívida mobiliária e operações de crédito antecipando receitas orçamentárias.ALei de Responsabilidade Fiscal (LRF), de 2000, deu o contorno final ao novo estilo no manejo nas finanças públicas estaduais e municipais, que ao longo dos tempo foi mostrando mais qualidade do que o próprio manejo federal.O sucesso foi tal que governos estaduais e prefeituras passaram a ser os principais responsáveis pelo aumento do superávit primário do setor público consolidado. Recentemente, a imprensa internacional comentou que essa experiência brasileira é um modelo para a União Europeia em crise. Teria razão caso fosse a Europa uma República federativa...
É pouco sabido que LRF não se aplica em sua plenitude às finanças federais.
Isso depende de resolução do Senado,de iniciativa do Executivo, que nada fez.
Por que os arautos da boa política fiscal ou da transformação do Banco Central no quarto Poder da República nunca chamam a atenção para essa falha? Um mistério.
Além disso, desfrutando amplos graus de liberdade, o governo federal executa um orçamento paralelo( via vultosos restos a pagar de orçamentos anteriores e créditos subsidiados do BNDES ao setor privado) e para fechar números do déficit antecipa dividendos e tributos de bancos e empresas estatais (e não estatais) e até receitas, transformando barris de petróleo ainda no pré-sal em transferências da Petrobrás ao Tesouro.
Voltando à lei de 1997: o indexador dos contratos de refinanciamento a Estados e municípios foi o Índice Geral de Preços da Fundação Getúlio Vargas, o IGP-DI.A taxa de juros foi fixada entre 6% e 9% acima do índice, dependendo da amortização extraordinária do saldo devedor.
Na época, os juros reais chegavam a 15%, daí o subsídio. No Congresso foi introduzido um teto para o pagamento anualdos serviços da dívida,de 13% das receitas orçamentárias líquidas.
O IGP-DI acabou sendo um índice ruim, demasiado dependente de choques cambiais e preços de commodities. Apesar do advento do regime de câmbio flutuante, o governo manteve-o como super indexador das dívidas estaduais e municipais. E as taxas de juros, encavaladas nessa supercorreção, tornaram-se altas demais: até cinco ou seis pontos acima da Selic. Enquanto cobra 14% ou mais das prefeituras e 12,5% de alguns Estados, o governo empresta a grandes grupos privados, via BNDES, a juros de 4% a 5%.
Em 2010 o serviço da dívida dos Estados foi de R$29 bilhões, equivalentes a 62%do seu investimento total. Paga-se bastante, mas, mesmo assim, o principal vem aumentando,como é o caso da capital paulista, cuja dívida cresceu cerca de cinco vezes entre 2000-2011, apesar do pagamento de R$ 16 bilhões! Se, em vez do IGP mais 9%, a dívida da cidade acompanhasse a Selic, os encargos acumulados em 2011 seriam R$ 17 bilhões menores! Os diagnósticos sobre essa perversidade são numerosos e quase consensuais.Uma das propostas é óbvia: atrelar retroativamente as dívidas à Selic. Há, além disso,uma medida simples e fácil:permitir que a relação dívida/ receita corrente líquida dos municípios seja a mesma dos Estados, ou seja, 2, em vez de 1,2, como é hoje.
Mas, afinal, por que nada tem sido feito de prático para eliminar essa perversidade?Um fator é a possibilidade de decisões discricionárias, dando-se autorizações especiais para este ou aquele captar créditos ou até receber contribuições fiscais diretas.
Prática nada republicana, para usar termo em moda.
Há, porém, um erro mais importante em curso: a ideia de que todos os problemas federativos -dívida,royalties,Fundo de Participação dos Estados, guerra fiscal predatória - deveriam ser resolvidos simultaneamente num grande pacto! Bela fórmula para o imobilismo, lamentações, discursos triviais e comissões de alto nível. A estratégia correta é a oposta: resolver um problema de cada vez, sem excluir possíveis compensações localizadas transitórias, começando pelo mais fácil, que é o das dívidas - a ponta do barbante para desatar o novelo federativo.
Se isso for equacionado,os Estados e municípios teriam acesso amais recursos. Mas deveria exigir-se, formalmente, uma contrapartida, que tudo fosse destinado a investimentos. Ao contrário do folclore, as esferas estaduais e municipais, na média, são mais ágeis do que a federal para investir. Já dão conta, aliás, de uns dois terços do total dos investimentos governamentais no Brasil (excluindo empresas).
O efeito seria altamente positivo num país onde tais investimentos, como fração do produto interno bruto (PIB), são dos menores do mundo - uns cinco pontos porcentuais abaixo da média no restante da América Latina.
Território livre - LUIZ FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 22/03/12
Imagine que você é o Galileu e está sendo processado pela Santa Inquisição por defender a ideia herética de que é a Terra que gira em torno do Sol, e não o contrário. Ao mesmo tempo, você está tendo problemas de família, filhos ilegítimos que infernizam a sua vida e dívidas que acabam levando você a outro tribunal, ao qual você comparece até com uma certa alegria. No tribunal civil, será você contra credores ou filhos ingratos, não você contra a Igreja e seus dogmas pétreos.
Você receberá uma multa ou uma reprimenda, ou talvez, com um bom advogado, até consiga derrotar seus acusadores, o que é impensável quando quem acusa é a Igreja.
Se tiver que ser preso, será por pouco tempo, e a ameaça de ir para a fogueira nem será cogitada. No tribunal laico, pelo menos por um tempo, você estará livre do poder da Igreja. É com esta sensação de alívio, de estar num espaço neutro onde sua defesa será ouvida, e talvez até prevaleça, que você entra no tribunal. E então você vê um enorme crucifixo na parede atrás do juiz. Não adianta, suspiraria você, desanimado, se fosse Galileu.
O poder dela está por toda parte. Por onde você andar, estará no território da Igreja. Por onde seu pensamento andar, estará sob escrutínio da Igreja. Não há espaços neutros. Um crucifixo na parede não é um objeto de decoração, é uma declaração. Na parede de espaços públicos de um país em que a separação de igreja e estado está explícita na Constituição, é uma desobediência, mitigada pelo hábito. Na parede dos espaços jurídicos deste País, onde a neutralidade, mesmo que não exista, deve ao menos ser presumida, é um contrassenso – como seria qualquer outro símbolo religioso pendurado. É inimaginável que um Galileu moderno se sinta acuado pela simples visão do símbolo cristão na parede atrás do juiz, mesmo porque a Igreja demorou, mas aceitou a teoria heliocêntrica de Copérnico e ninguém mais é queimado por heresia. Mas a questão não é esta, a questão é o nosso hipotético e escaldado Galileu poder encontrar, de preferência no Poder Judiciário, um território livre de qualquer religião, ou lembrança de religião.
Fala-se que a discussão sobre crucifixos em lugares públicos ameaça a liberdade de religião. É o contrário, o que no fundo se discute é como ser religioso sem impor sua religião aos outros, ou como preservar a liberdade de quem não acredita da prepotência religiosa. Com o crescimento político das igrejas neopentecostais, esta preocupação com a capacidade de discordar de valores atrasados impostos pelos religiosos a toda a sociedade, como nas questões do aborto e dos preservativos, tornou-se primordial. A retirada dos crucifixos das paredes também é uma declaração, no caso, de liberdade.
Imagine que você é o Galileu e está sendo processado pela Santa Inquisição por defender a ideia herética de que é a Terra que gira em torno do Sol, e não o contrário. Ao mesmo tempo, você está tendo problemas de família, filhos ilegítimos que infernizam a sua vida e dívidas que acabam levando você a outro tribunal, ao qual você comparece até com uma certa alegria. No tribunal civil, será você contra credores ou filhos ingratos, não você contra a Igreja e seus dogmas pétreos.
Você receberá uma multa ou uma reprimenda, ou talvez, com um bom advogado, até consiga derrotar seus acusadores, o que é impensável quando quem acusa é a Igreja.
Se tiver que ser preso, será por pouco tempo, e a ameaça de ir para a fogueira nem será cogitada. No tribunal laico, pelo menos por um tempo, você estará livre do poder da Igreja. É com esta sensação de alívio, de estar num espaço neutro onde sua defesa será ouvida, e talvez até prevaleça, que você entra no tribunal. E então você vê um enorme crucifixo na parede atrás do juiz. Não adianta, suspiraria você, desanimado, se fosse Galileu.
O poder dela está por toda parte. Por onde você andar, estará no território da Igreja. Por onde seu pensamento andar, estará sob escrutínio da Igreja. Não há espaços neutros. Um crucifixo na parede não é um objeto de decoração, é uma declaração. Na parede de espaços públicos de um país em que a separação de igreja e estado está explícita na Constituição, é uma desobediência, mitigada pelo hábito. Na parede dos espaços jurídicos deste País, onde a neutralidade, mesmo que não exista, deve ao menos ser presumida, é um contrassenso – como seria qualquer outro símbolo religioso pendurado. É inimaginável que um Galileu moderno se sinta acuado pela simples visão do símbolo cristão na parede atrás do juiz, mesmo porque a Igreja demorou, mas aceitou a teoria heliocêntrica de Copérnico e ninguém mais é queimado por heresia. Mas a questão não é esta, a questão é o nosso hipotético e escaldado Galileu poder encontrar, de preferência no Poder Judiciário, um território livre de qualquer religião, ou lembrança de religião.
Fala-se que a discussão sobre crucifixos em lugares públicos ameaça a liberdade de religião. É o contrário, o que no fundo se discute é como ser religioso sem impor sua religião aos outros, ou como preservar a liberdade de quem não acredita da prepotência religiosa. Com o crescimento político das igrejas neopentecostais, esta preocupação com a capacidade de discordar de valores atrasados impostos pelos religiosos a toda a sociedade, como nas questões do aborto e dos preservativos, tornou-se primordial. A retirada dos crucifixos das paredes também é uma declaração, no caso, de liberdade.
Dia de cão - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 22/03/12
BRASÍLIA - O mundo está caindo na cabeça de Dilma, que tenta inaugurar "novos métodos e práticas políticas", como teria dito Lula ao novo líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB), sem dimensionar bem a capacidade de retaliação da base aliada balofa montada por Lula -e sem plano B. Ela acelerou e bateu de frente com a realidade.
Ontem ficou claro que há, sim, uma crise. A Lei da Copa não pôde ser votada, o código florestal não tem nem prazo, o governo não consegue emplacar um nome para a ANTT, origem de tudo. E foram feitos três convites/convocações delicadas.
O presidente da Comissão de Ética Pública, Sepúlveda Pertence, foi chamado para falar sobre o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento), que tem histórias mal contadas e é um dos maiores amigos de Dilma no governo. E a área econômica poderá ficar na berlinda, com Mantega (Fazenda) exposto a perguntas constrangedoras sobre PanAmericano, Casa da Moeda e "pibinho" de 2,7% em 2011, e Miriam Belchior (Planejamento) se enrolando para explicar falhas do PAC.
Dilma finge que não é com ela, acha que a crise é só espuma e que tudo se resolve com uma tacada de marketing -ou "uma agenda positiva". Hoje, ela reúne 27 empresários e banqueiros pesos-pesados, como se nada estivesse acontecendo.
Pode ter surpresas: assim como o Congresso condena a falta de coordenação política e de diálogo, o PIB vai reclamar da falta de interlocução, do excesso de tributos e da precariedade da infraestrutura.
Os senadores Jarbas Vasconcelos (PMDB dissidente) e Aécio Neves (PSDB) comentavam que a troca do líder Romero Jucá por Eduardo Braga foi um enorme ganho para o governo e para o Congresso, mas a desarticulação é tanta e o Planalto está tão fora do ar que as mudanças "não têm chance de dar certo". Ah! Eles são de oposição? Pois você nem imagina o que falam os governistas...
BRASÍLIA - O mundo está caindo na cabeça de Dilma, que tenta inaugurar "novos métodos e práticas políticas", como teria dito Lula ao novo líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB), sem dimensionar bem a capacidade de retaliação da base aliada balofa montada por Lula -e sem plano B. Ela acelerou e bateu de frente com a realidade.
Ontem ficou claro que há, sim, uma crise. A Lei da Copa não pôde ser votada, o código florestal não tem nem prazo, o governo não consegue emplacar um nome para a ANTT, origem de tudo. E foram feitos três convites/convocações delicadas.
O presidente da Comissão de Ética Pública, Sepúlveda Pertence, foi chamado para falar sobre o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento), que tem histórias mal contadas e é um dos maiores amigos de Dilma no governo. E a área econômica poderá ficar na berlinda, com Mantega (Fazenda) exposto a perguntas constrangedoras sobre PanAmericano, Casa da Moeda e "pibinho" de 2,7% em 2011, e Miriam Belchior (Planejamento) se enrolando para explicar falhas do PAC.
Dilma finge que não é com ela, acha que a crise é só espuma e que tudo se resolve com uma tacada de marketing -ou "uma agenda positiva". Hoje, ela reúne 27 empresários e banqueiros pesos-pesados, como se nada estivesse acontecendo.
Pode ter surpresas: assim como o Congresso condena a falta de coordenação política e de diálogo, o PIB vai reclamar da falta de interlocução, do excesso de tributos e da precariedade da infraestrutura.
Os senadores Jarbas Vasconcelos (PMDB dissidente) e Aécio Neves (PSDB) comentavam que a troca do líder Romero Jucá por Eduardo Braga foi um enorme ganho para o governo e para o Congresso, mas a desarticulação é tanta e o Planalto está tão fora do ar que as mudanças "não têm chance de dar certo". Ah! Eles são de oposição? Pois você nem imagina o que falam os governistas...
Dura lex, obsoleta lex - EUGÊNIO BUCCI
O Estado de S.Paulo - 22/03/12
Há uma semana o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) adotou uma decisão, data venia, desconcertante: proibiu que candidatos a cargos eletivos digam no Twitter que são candidatos. A proibição estende-se aos partidos políticos. Assim, acabou valendo para a famosa rede social dos 140 caracteres a regra que já é aplicada ao rádio e à televisão: propaganda de candidatos, só depois do início oficial do período de campanha eleitoral. Os políticos e seus partidos só poderão falar de suas candidaturas no Twitter depois do dia 5 de julho. O veredicto gerou mal-estar.
A egrégia Corte registrou um escore deveras apertado: quatro ministros favoráveis ao veto derrotaram outros três que não viam razão para adotá-lo. Foi algo inesperado. Aqui, poderíamos dizer do Poder Judiciário o que frequentemente falam do futebol: de vez em quando ele se revela uma caixinha de surpresas. É verdade que ainda não nos encontramos diante daquele cenário irrecorrível a que dão o nome de trânsito em julgado. Ainda existe margem para que a decisão seja revista. Com base nisso, um partido político, o PPS, tenta obter uma reconsideração da matéria, recorrendo ao Supremo Tribunal Federal. Veremos no que vai dar.
Ninguém aqui, neste espaço, pretende ensinar a razoabilidade a jurisconsultos. Lembremos que, fora esse incidente, o TSE vem conquistando visibilidade mundial, claramente positiva, como um tribunal em que a justiça é ágil e avançada. Que fique bem claro: não é o caso de criticar nominalmente nenhum dos ministros da Corte. Não há dúvida de que o princípio que os move é a proteção do eleitor diante dos eventuais abusos do poder econômico, que tem condições de mobilizar suas máquinas de propaganda e, com isso, desequilibrar a disputa. O que cabe a um artigo de jornal, nesse caso, é apenas uma tentativa de compreender e debater o fundamento da posição que prevaleceu. Em que tipo de raciocínio essa decisão se apoia? Quais são suas bases lógicas?
Não há muita polêmica em relação aos parâmetros que regem a campanha política nas emissoras de rádio e de televisão. Essas regras se tornaram um consenso nacional. Na TV e no rádio a campanha só pode ir ao ar dentro de um período determinado - o período eleitoral, esse mesmo que será aberto agora, no dia 5 de julho, e que se estende até a data em que o eleitor vai às urnas. A Justiça Eleitoral também distribui a exposição dos candidatos nas emissoras de acordo com a representatividade das coligações partidárias. Nada mais justo. Se um único partido, ou um candidato, pudesse fazer mais propaganda que todos os demais só porque tem mais dinheiro, poderia viciar a eleição. Claro que em outros países, como nos Estados Unidos, onde o sistema se baseia no bipartidarismo, os efeitos da propaganda paga são menos perversos. No Brasil, porém, com essas dezenas de siglas cujas identidades se confundem, um único partideco endinheirado pode promover a maior confusão e melar o jogo.
Em nosso país, em suma, o equilíbrio da disputa depende de uma repartição racional do tempo de TV e de rádio entre os vários candidatos. Isso é a expressão da justiça. Para o bem do eleitor e da democracia, a exposição das diversas candidaturas nos meios de comunicação de massa - rádio e TV - precisa ser disciplinada por lei.
Se isso é válido para a TV, por que não seria válido para o Twitter? Aqui provavelmente repousa a armadilha em que caiu a decisão do TSE. A analogia, nesse caso, carece de fundamento lógico. Pior ainda: se artificialmente aplicada, produz injustiça. Não é tão difícil entender por quê.
As emissoras de rádio e televisão são feitas de espaços e tempos finitos, uma característica que as diferencia total e radicalmente das redes sociais da era digital. Numa cidade cabem apenas algumas estações de rádio e TV - e, dentro delas, o dia tem apenas 24 horas. Não mais. Daí que, no caso das eleições brasileiras, com as particularidades do nosso sistema partidário, assegurar por lei que os partidos tenham lugar proporcional dentro delas é indispensável para o equilíbrio da campanha. Sem isso os partidos mais ricos acabariam comprando os espaços que poderiam ir para os partidos mais pobres e teríamos assimetrias insanáveis.
Isto posto, muita atenção: com o Twitter, o espaço e o tempo não são finitos. Simples assim: não são finitos. Todo mundo pode postar o que quiser, por quantas horas quiser, quantas vezes quiser. É o cidadão que vai decidir, depois, o que quer ler e quando, mais ou menos como numa grande biblioteca virtual: os conteúdos estão todos lá, à espera de quem os queira, e o leitor é que vai escolher o que ler. Mais ainda: se ele quiser deixar para ler mais tarde, a mensagem continuará lá, não vai fugir pelos ares.
Quando um candidato diz alguma coisa no Twitter, ele não se está apropriando de um tempo ou de um espaço que poderiam ser de outro candidato. Não há distorção, não há iniquidades. Além disso, não é necessário dinheiro para que alguém coloque qualquer mensagem no Twitter. Trata-se de um canal aberto a todos os que nele se queiram manifestar. Portanto, as redes sociais não podem nem devem ser equiparadas ao rádio e à televisão para efeitos de campanha eleitoral. Nelas, franquear a todos o direito de voz é o melhor caminho para se alcançar o equilíbrio.
Fora o que, há o critério protojurídico do ridículo, que, se bem observado, previne a tentação das decisões ineficazes. Como se pode impedir alguém de se declarar candidato se esse alguém vive repetindo isso nos jornais, nas palestras, nos seus telefonemas, nos seus e-mails? O Twitter não é propaganda paga, mas um fato da vida, como as notícias, as salas de aula, as conversas entre amigos (ainda que entabuladas em público).
Proibir um sujeito de falar de si mesmo numa rede social é um pouco ridículo.
É bebida demais - JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 22/03/12
Congressistas e governo vão cambaleando sem parar no sim ou no não que defendem por breves períodos
JÁ É o caso de desconfiar que, nas disputas pela Lei da Copa, há mais bebida do que apenas na citação sobre a possibilidade, ou não, de consumi-la também nos estádios. Ora a favor, ora contra, tanto os congressistas como os representantes do governo vão cambaleando há meses, em volta do item alcoólico, sem conseguir parar no sim ou no não que defendem por breves períodos.
Os ruralistas, muitos deles cultivadores de cana, e de caninha, dão o que têm para manter, desde o ano passado, o código florestal como bloqueio e agitação do Congresso. Mas, se pode impedir a votação da Lei da Copa, o bloqueio não impediria o governo e seus aliados de fixar, há muito tempo, uma posição sobre a bebida. Digo, a bebida nos estádios. A balbúrdia é injustificável. E o fato é grotesco.
Se as dúvidas mais recentes decorrem da assinatura de Lula em documento que implica autorização à bebida (nem se esperaria dele outra posição a respeito), não parece necessário mais do que consultar o especialista José Serra. Indagado sobre sua assinatura no compromisso descumprido de cumprir todo o mandato quando prefeito, Serra definiu o documento: aquilo era só "um papelzinho". Tinha a mesma assinatura com que Serra prefeito e Serra governador assinaram atos e compromissos de governo, quer dizer, papeizinhos relegáveis.
Logo, o governo deve experimentar dizer à Fifa que o documento assinado por Lula é só um papelzinho. Ricardo Teixeira e João Havelange não estarão por lá, o que facilitaria muito a concordância. E a pior resposta possível, comprova-se, é um pontapé no traseiro -aliás, já providenciado com merecida antecipação.
GOELAS
São muito perigosas as emendas constitucionais admitidas ontem pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (aceitações na CCJ costumam ser apresentadas, no noticiário, sob títulos como "a Câmara aprovou", quando são apenas admissões de que a matéria pode tramitar por inexistir impedimento constitucional, na opinião majoritária da comissão).
Sob pretextos variados, a intenção desses projetos é incluir o Congresso, os seus ruralistas e os conservadores em geral no poder, que a Constituição dá só ao Executivo, de conceder ou negar, delimitar, diminuir e retirar áreas de reservas indígenas, quilombos e reservas ambientais.
Apesar de admitidos pela CCJ, os projetos de emendas permitem a interpretação de serem inconstitucionais. O que, se aprovados, os sujeitaria a uma iniciativa de recorrer ao Supremo Tribunal Federal para sustá-los. Mas os riscos são vários. Mesmo no STF, já um tanto incerto e ainda com substituições imprevisíveis a ocorrer.
SIM, MAS NÃO
A liberação de investigações, pelo Conselho Nacional de Justiça, dos rendimentos de desembargadores contém uma reserva e uma restrição. A primeira é que o Supremo liberou verificações pelo sistema de amostragem, o que as permite, mas as limita. A restrição é o impedimento de uso de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf.
Foi o Coaf que constatou movimentação financeira anômala de R$ 855 milhões por servidores do Judiciário. Só por acaso, um ou outro implicado nessa movimentação seria investigado pelo Conselho Nacional de Justiça.
CLAUDIO HUMBERTO
“A realização da Copa é muito importante para o País”
José Sarney, prometendo priorizar no Senado a votação da Lei Geral da Copa
ESTÁDIO DE BRASÍLIA CUSTARÁ MAIS QUE O MARACANÃ
O Estádio Nacional Mané Garrincha, a ser inaugurado em dezembro, terá custo superior à reforma (quase reconstrução) do Maracanã, considerado um dos maiores do mundo. A estimativa é do Tribunal de Contas da União. Inicialmente, o estádio de Brasília custaria R$ 700 milhões, mas vai aos R$ 870 milhões, e, segundo o TCU, passará de R$ 1 bilhão com a iluminação e a cobertura em aço e lona tensionada.
MARACA MAIS BARATO
Após ajustes, incluindo a isenção de impostos do Programa Recopa, o custo do Maracanã ficará em cerca de R$ 800 milhões.
CONTA-SURPRESA
O TCU está preocupado com o crescimento dos custos do Estádio Mané Garrincha. Ainda nem foi computado o gasto com sua cobertura.
SEM RESPOSTA
Responsável do DF pelas obras da Copa, Cláudio Monteiro ignorou as tentativas de ouvir suas razões sobre o aumento de custos.
CASA DE FERREIRO
Sequer metade da bancada do PCdoB assinou o requerimento do deputado Protógenes Queiroz (SP) para instalar a CPI do Cachoeira.
CARGOS UNEM O PDT
Na guerra para a indicação do ministro do Trabalho, a banda podre do PDT espalhou acusações contra nomes preferidos pela presidente Dilma, mas vetados pela direção do partido. Teve até candidato a ministro acusado de ser “viciado em cocaína”. Mas os mesmos deputados que tentavam bombardear a indicação de Brizola Neto, por exemplo, agora torcem por sua nomeação, ávidos por cargos.
NOMEAÇÃO IMINENTE
Após finalmente obter apoio da bancada do PDT, a pedido de Dilma, Brizola Neto pode ser nomeado antes da viagem dela à Índia, domingo.
DEPURAÇÃO
Ex-militante do partido, brizolista histórica, Dilma sabe que nomeando Brizola Neto ajudará o PDT a se livrar da corja que hoje o controla.
HOMENS DE PRETO
Os petistas estão indóceis no Ministério da Pesca com a perspectiva de “arrastão” de cargos: dois secretários nacionais já foram substituídos.
TROCO FOI PARA DILMA
Insatisfeitos com o autismo de Dilma, a base aliada na Câmara deu o troco, negando-se a votar, ontem, a Lei Geral da Copa, projeto prioritário para o governo. Não teve quórum: só havia 115 deputados presentes.
LÍDER DELE MESMO
No vácuo da pressão dos ruralistas para a votação do Código Florestal, os descontentes com o governo, incluindo petistas, aproveitaram para “desautorizar” o novo líder do governo, deputado Arlindo Chinaglia.
FALTOU DESCARREGO
O senador Jader Barbalho (PMDB-PA) fez cirurgia para tratar de uma “hiperplasia benigna da próstata”, segundo sua assessoria, e ele nem mesmo repousou. Agora, está com sinusite e pegou uma virose.
CRÉDITO NA PRAÇA
Quitado o empréstimo “lícito” de R$ 8,3 milhões com o Banco Rural, o ex-deputado José Genoino (PT-CE) e o ex-tesoureiro Delúbio Soares, teriam que suar a cueca se “contabilizada” a dívida também com o BMG: com juros e correção, deveriam R$ 177,4 milhões.
QUEM? EU?
Após notícias de que o Ministério do Desenvolvimento poderá ser entregue ao PR, Delcídio Amaral (PT-MS) chamou Blairo Maggi (PR-MT) de “ministro”, no Senado. Maggi fingiu não saber: “De quê?”.
CONSELHO FORTE
Ex-secretário do ministério do Transportes, José Augusto Valente agora integra o conselho consultivo da IG Fuel, que comercializa o Green Box, equipamento que reduz em até 30% o consumo de motores a diesel. O ex-ministro e empresário Ozires Silva preside o conselho.
OURO DE TOLO
Eike Batista defendendo o filho Thor: “Por se tratar da família Batista, você acha mesmo que não vai ser tudo apurado? Não conhece o seu País! O carro é meu! Ele só pediu emprestado, Santo Cristo! (sic).
MAL NA FITA
Com sua gestão muito mal avaliada, o prefeito de Salvador, João Henrique, enfrenta dificuldades para convencer algum deputado federal a assumir secretaria na prefeitura. O prefeito tenta a todo custo abrir vaga para seu irmão na Câmara, o suplente Sérgio Barradas Carneiro.
PENSANDO BEM...
...Com a indefinição legal, a Copa será realizada em 12 “Estados de embriaguez”.
PODER SEM PUDOR
GUIA PARA HIPOCONDRÍACOS
Certa vez o então senador Arthur Virgílio (PSDB) jantava no restaurante Alcaparra, no Rio, quando um cidadão, Dr. Tanus Tauk, foi à sua mesa para entregar um livreto de sua autoria, Passaporte da Saúde. É um guia útil para quem viaja ao exterior. Contém, em seis idiomas, os nomes dos principais remédios de que um viajante pode necessitar e pode comprar sem receita. E explica como pedi-los nos seis idiomas. Arthur Virgílio pediu mais dois exemplares, autografados, para oferecer, um ao ex-presidente José Sarney, outro para o governador de São Paulo, José Serra.
José Sarney, prometendo priorizar no Senado a votação da Lei Geral da Copa
ESTÁDIO DE BRASÍLIA CUSTARÁ MAIS QUE O MARACANÃ
O Estádio Nacional Mané Garrincha, a ser inaugurado em dezembro, terá custo superior à reforma (quase reconstrução) do Maracanã, considerado um dos maiores do mundo. A estimativa é do Tribunal de Contas da União. Inicialmente, o estádio de Brasília custaria R$ 700 milhões, mas vai aos R$ 870 milhões, e, segundo o TCU, passará de R$ 1 bilhão com a iluminação e a cobertura em aço e lona tensionada.
MARACA MAIS BARATO
Após ajustes, incluindo a isenção de impostos do Programa Recopa, o custo do Maracanã ficará em cerca de R$ 800 milhões.
CONTA-SURPRESA
O TCU está preocupado com o crescimento dos custos do Estádio Mané Garrincha. Ainda nem foi computado o gasto com sua cobertura.
SEM RESPOSTA
Responsável do DF pelas obras da Copa, Cláudio Monteiro ignorou as tentativas de ouvir suas razões sobre o aumento de custos.
CASA DE FERREIRO
Sequer metade da bancada do PCdoB assinou o requerimento do deputado Protógenes Queiroz (SP) para instalar a CPI do Cachoeira.
CARGOS UNEM O PDT
Na guerra para a indicação do ministro do Trabalho, a banda podre do PDT espalhou acusações contra nomes preferidos pela presidente Dilma, mas vetados pela direção do partido. Teve até candidato a ministro acusado de ser “viciado em cocaína”. Mas os mesmos deputados que tentavam bombardear a indicação de Brizola Neto, por exemplo, agora torcem por sua nomeação, ávidos por cargos.
NOMEAÇÃO IMINENTE
Após finalmente obter apoio da bancada do PDT, a pedido de Dilma, Brizola Neto pode ser nomeado antes da viagem dela à Índia, domingo.
DEPURAÇÃO
Ex-militante do partido, brizolista histórica, Dilma sabe que nomeando Brizola Neto ajudará o PDT a se livrar da corja que hoje o controla.
HOMENS DE PRETO
Os petistas estão indóceis no Ministério da Pesca com a perspectiva de “arrastão” de cargos: dois secretários nacionais já foram substituídos.
TROCO FOI PARA DILMA
Insatisfeitos com o autismo de Dilma, a base aliada na Câmara deu o troco, negando-se a votar, ontem, a Lei Geral da Copa, projeto prioritário para o governo. Não teve quórum: só havia 115 deputados presentes.
LÍDER DELE MESMO
No vácuo da pressão dos ruralistas para a votação do Código Florestal, os descontentes com o governo, incluindo petistas, aproveitaram para “desautorizar” o novo líder do governo, deputado Arlindo Chinaglia.
FALTOU DESCARREGO
O senador Jader Barbalho (PMDB-PA) fez cirurgia para tratar de uma “hiperplasia benigna da próstata”, segundo sua assessoria, e ele nem mesmo repousou. Agora, está com sinusite e pegou uma virose.
CRÉDITO NA PRAÇA
Quitado o empréstimo “lícito” de R$ 8,3 milhões com o Banco Rural, o ex-deputado José Genoino (PT-CE) e o ex-tesoureiro Delúbio Soares, teriam que suar a cueca se “contabilizada” a dívida também com o BMG: com juros e correção, deveriam R$ 177,4 milhões.
QUEM? EU?
Após notícias de que o Ministério do Desenvolvimento poderá ser entregue ao PR, Delcídio Amaral (PT-MS) chamou Blairo Maggi (PR-MT) de “ministro”, no Senado. Maggi fingiu não saber: “De quê?”.
CONSELHO FORTE
Ex-secretário do ministério do Transportes, José Augusto Valente agora integra o conselho consultivo da IG Fuel, que comercializa o Green Box, equipamento que reduz em até 30% o consumo de motores a diesel. O ex-ministro e empresário Ozires Silva preside o conselho.
OURO DE TOLO
Eike Batista defendendo o filho Thor: “Por se tratar da família Batista, você acha mesmo que não vai ser tudo apurado? Não conhece o seu País! O carro é meu! Ele só pediu emprestado, Santo Cristo! (sic).
MAL NA FITA
Com sua gestão muito mal avaliada, o prefeito de Salvador, João Henrique, enfrenta dificuldades para convencer algum deputado federal a assumir secretaria na prefeitura. O prefeito tenta a todo custo abrir vaga para seu irmão na Câmara, o suplente Sérgio Barradas Carneiro.
PENSANDO BEM...
...Com a indefinição legal, a Copa será realizada em 12 “Estados de embriaguez”.
PODER SEM PUDOR
GUIA PARA HIPOCONDRÍACOS
Certa vez o então senador Arthur Virgílio (PSDB) jantava no restaurante Alcaparra, no Rio, quando um cidadão, Dr. Tanus Tauk, foi à sua mesa para entregar um livreto de sua autoria, Passaporte da Saúde. É um guia útil para quem viaja ao exterior. Contém, em seis idiomas, os nomes dos principais remédios de que um viajante pode necessitar e pode comprar sem receita. E explica como pedi-los nos seis idiomas. Arthur Virgílio pediu mais dois exemplares, autografados, para oferecer, um ao ex-presidente José Sarney, outro para o governador de São Paulo, José Serra.
QUINTA NOS JORNAIS
- Globo: Chevron é denunciada por crimes que dão até 31 anos
- Folha: Base aliada retalia Dilma e impõe derrotas ao governo
- Estadão: Crise na base impõe série de derrotas a Dilma na Câmara
- Correio: Receita vai enquadrar senadores por calote
- Valor: Governo começa a sofrer derrotas no Congresso
- Estado de Minas: Pista livre para os infratores
- Zero Hora: Alternativa à concessão – Governo avalia assumir operação dos pedágios
quarta-feira, março 21, 2012
O botox de Mantega - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 21/03/12
Na reunião de segunda entregovernadores e parlamentares com os ministros Mantega e Ideli sobre o novo pacto federativo, o senador Ricardo Ferraço arrancou gargalhadas com uma revelação, ao reclamar que seu Espírito Santo pode perder R$ 1 bi com o fim do incentivo às importações: — Mantega, o botox endureceu seu coração...
Aliás...
Mantega não negou.
Nosso dinheiro voa
Essa Locanty, flagrada pelo “Fantástico”, da TV Globo, numa operação de assalto aos cofres públicos, tem um jatinho Gulfstream G-IV, brinquedo de uns US$ 30 milhões. A matrícula é PPWJB.
AeroDilma
Dilma parece que ouviu nosso Jorge Moreno, que andou reclamando que ela sempre levava o baiano Jaques Wagner nas viagens. A presidente convidou o sergipano Marcelo Déda e a capixaba Rosalba Ciarlini para acompanhá-la na visita à Índia.
Calma, gente
O engenheiro Glen Gary Edwards estava nos EUA quando soube que era um dos 17 executivos da Chevron e da Transocean impedidos de deixar o Brasil sem autorização judicial, por causa do vazamento de óleo na Bacia de Campos. Ao invés de ficar por lá, tratou de retornar ao Brasil. Na verdade, esta decisão de reter os passaportes dos executivos parece exagerada. E é.
Mengooooo!
O Flamengo, como se sabe, lançou versões de seu site em inglês e espanhol. Em três dias, a página em inglês teve 6 mil visitas de 85 países. Até do Irã. Na versão em espanhol, foram mais de 4 mil acessos de 36 países. Até da Líbia.
SÉRGIO CABRAL, o governador, que também é coleguinha, flagrou no Galeão-Tom Jobim estas peças de propaganda da candidatura do Rio aos Jogos de 2016. Estão aí, no mínimo, desde 2009, quando o COI anunciou a vitória carioca. A dois anos da Copa, a lerdeza para retirálas atenta contra a esperança de que as coisas melhorem nos nossos aeroportos. Com todo o respeito.
É muita pressão
De Dilma, ontem, depois de abraçar e beijar Ana de Hollanda no Palácio do Planalto: — Ana, seja forte. Eu estou com você.
É que...
Segunda, a ministra sofreu nova onda de ataques especulativos de que estaria demitida.
Nó na orelha
O rapper Criolo, que despertou a curiosidade do historiador inglês Eric Hobsbawm, 94 anos, foi autorizado a captar pela Lei Rouanet R$ 1.032.750 para a turnê de seu CD “Nó na orelha”.
Caso médico
Hermínio Bello de Carvalho, nosso grande poeta e compositor, passa por cirurgia na Casa de Saúde São José, no Rio, amanhã, por causa de um câncer de mama. Nada grave.
CBF continua no Rio
José Maria Marin, presidente da CBF, garantiu, no encontro com Eduardo Paes, que, em abril, começa, finalmente, a construção do centro de treinamentos e da nova sede da entidade, na Barra. O prefeito do Rio celebrou: — Ou seja, um paulista garantindo que a CBF fica aqui!
Língua traiçoeira...
Aliás, em ano de eleição, Eduardo Paes tem suplicado contra os “maldizentes”. Ontem, na sala do Palácio da Cidade onde recebeu Sebastian Coe, presidente do comitê organizador dos Jogos de Londres, um conviva flagrou uma Bíblia aberta no salmo 120. Um trechinho: “Livrame, Senhor, dos lábios mentirosos e da língua traiçoeira.”
‘Big Feet’...
Ainda neste almoço, Coe ficou impressionado ao saber que o vice Pezão calça sapatos 48. Em seu discurso, chamou Pezão de... “Big Feet”.
Economia criativa
Quem sai aos seus não degenera. Daniel de Souza, filho de Betinho,se vira nos 30 para conseguir transformar a sede da Ação da Cidadania, na Av. Barão de Tefé, no Rio, numa usina de capacitação em cultura e economia criativa para jovens pobres.
‘Down no soçaite’
Segunda, após jantar no elegante Gero, em Ipanema, uma vovó de uns 70 anos passou muito mal e foi levada à Clínica São Vicente, onde o médico constatou “intoxicação alimentar”. A família acionou advogado.
Na reunião de segunda entregovernadores e parlamentares com os ministros Mantega e Ideli sobre o novo pacto federativo, o senador Ricardo Ferraço arrancou gargalhadas com uma revelação, ao reclamar que seu Espírito Santo pode perder R$ 1 bi com o fim do incentivo às importações: — Mantega, o botox endureceu seu coração...
Aliás...
Mantega não negou.
Nosso dinheiro voa
Essa Locanty, flagrada pelo “Fantástico”, da TV Globo, numa operação de assalto aos cofres públicos, tem um jatinho Gulfstream G-IV, brinquedo de uns US$ 30 milhões. A matrícula é PPWJB.
AeroDilma
Dilma parece que ouviu nosso Jorge Moreno, que andou reclamando que ela sempre levava o baiano Jaques Wagner nas viagens. A presidente convidou o sergipano Marcelo Déda e a capixaba Rosalba Ciarlini para acompanhá-la na visita à Índia.
Calma, gente
O engenheiro Glen Gary Edwards estava nos EUA quando soube que era um dos 17 executivos da Chevron e da Transocean impedidos de deixar o Brasil sem autorização judicial, por causa do vazamento de óleo na Bacia de Campos. Ao invés de ficar por lá, tratou de retornar ao Brasil. Na verdade, esta decisão de reter os passaportes dos executivos parece exagerada. E é.
Mengooooo!
O Flamengo, como se sabe, lançou versões de seu site em inglês e espanhol. Em três dias, a página em inglês teve 6 mil visitas de 85 países. Até do Irã. Na versão em espanhol, foram mais de 4 mil acessos de 36 países. Até da Líbia.
SÉRGIO CABRAL, o governador, que também é coleguinha, flagrou no Galeão-Tom Jobim estas peças de propaganda da candidatura do Rio aos Jogos de 2016. Estão aí, no mínimo, desde 2009, quando o COI anunciou a vitória carioca. A dois anos da Copa, a lerdeza para retirálas atenta contra a esperança de que as coisas melhorem nos nossos aeroportos. Com todo o respeito.
É muita pressão
De Dilma, ontem, depois de abraçar e beijar Ana de Hollanda no Palácio do Planalto: — Ana, seja forte. Eu estou com você.
É que...
Segunda, a ministra sofreu nova onda de ataques especulativos de que estaria demitida.
Nó na orelha
O rapper Criolo, que despertou a curiosidade do historiador inglês Eric Hobsbawm, 94 anos, foi autorizado a captar pela Lei Rouanet R$ 1.032.750 para a turnê de seu CD “Nó na orelha”.
Caso médico
Hermínio Bello de Carvalho, nosso grande poeta e compositor, passa por cirurgia na Casa de Saúde São José, no Rio, amanhã, por causa de um câncer de mama. Nada grave.
CBF continua no Rio
José Maria Marin, presidente da CBF, garantiu, no encontro com Eduardo Paes, que, em abril, começa, finalmente, a construção do centro de treinamentos e da nova sede da entidade, na Barra. O prefeito do Rio celebrou: — Ou seja, um paulista garantindo que a CBF fica aqui!
Língua traiçoeira...
Aliás, em ano de eleição, Eduardo Paes tem suplicado contra os “maldizentes”. Ontem, na sala do Palácio da Cidade onde recebeu Sebastian Coe, presidente do comitê organizador dos Jogos de Londres, um conviva flagrou uma Bíblia aberta no salmo 120. Um trechinho: “Livrame, Senhor, dos lábios mentirosos e da língua traiçoeira.”
‘Big Feet’...
Ainda neste almoço, Coe ficou impressionado ao saber que o vice Pezão calça sapatos 48. Em seu discurso, chamou Pezão de... “Big Feet”.
Economia criativa
Quem sai aos seus não degenera. Daniel de Souza, filho de Betinho,se vira nos 30 para conseguir transformar a sede da Ação da Cidadania, na Av. Barão de Tefé, no Rio, numa usina de capacitação em cultura e economia criativa para jovens pobres.
‘Down no soçaite’
Segunda, após jantar no elegante Gero, em Ipanema, uma vovó de uns 70 anos passou muito mal e foi levada à Clínica São Vicente, onde o médico constatou “intoxicação alimentar”. A família acionou advogado.
Uma medida anticorrupção - FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 21/03/12
BRASÍLIA - A esta altura, só quem acaba de chegar de Marte não conhece o caso de corrupção num hospital universitário do Rio. Como parece não haver políticos envolvidos, alguns congressistas estão assanhados para criar uma CPI da Saúde. Outros querem novas leis para punir corruptos. O governo promete ser enérgico. Enfim, Brasília faz o que mais gosta nessas horas: tenta faturar com a desgraça alheia.
De todos os aspectos revelados pelo repórter Eduardo Faustini, um em especial é o procedimento quase surreal e nunca esclarecido da burocracia brasileira. Trata-se da exigência, em licitações públicas, para que os interessados retirem pessoalmente o edital e deixem registrados os nomes de suas empresas.
No escândalo do hospital do Rio, um corruptor explica a razão de tal sistemática esdrúxula existir. É que, quando há uma licitação, só é possível montar um conluio se todos os concorrentes são conhecidos com alguma antecedência. Essa identificação se dá na retirada dos editais. A partir daí, cada um é abordado para a montagem de um acordo de divisão prévia do butim.
Se o governo desejasse ir além da retórica em notas indignadas sobre o ocorrido, bastaria uma canetada da presidente Dilma Rousseff determinando o fim dessa prática indefensável. Há relevância e urgência. Uma medida provisória está plenamente justificada. A partir da alteração, os editais de todas as licitações federais poderiam muito bem passar a ser publicados na internet. Os interessados ficariam então anônimos até o momento em que entregassem suas propostas lacradas.
Essa providência sozinha, é evidente, não eliminaria a corrupção dentro do governo. Estados e cidades também teriam de seguir a mesma regra. Ainda assim, seria uma medida profilática, fácil e a custo zero no plano federal. As máfias levariam algum tempo até achar outra brecha e voltar a roubar.
Um golpe no golpe - ZUENIR VENTURA
O GLOBO - 21/03/12
Sempre que surgem descontentamentos nos meios militares, mesmo sem consequências graves como agora, espera-se, é bom olhar para três momentos dramáticos de nossa história política recente: suicídio de Vargas em 1954; renúncia de Jânio em 1961; queda de Jango em 1964. A segunda dessas crises está sendo contada no livro “1961 — o golpe derrotado”, em que Flávio Tavares relata o que chama de “Os treze dias que mudaram o Brasil”, quando um movimento liderado por Leonel Brizola, então governador do Rio Grande Sul, resistiu à pressão dos ministros militares que tentavam impedir a posse do vicepresidente João Goulart. Com estilo literário e rigor jornalístico, num ritmo de thriller policial, o livro é o relato de quem viu tudo como repórter e viveu como protagonista, já que o autor, armado de um 38, tinha como missão “grudar-se em Brizola”, para cobrir os acontecimentos e para o que desse e viesse.
O resultado é uma mistura de gestos heroicos, lances patéticos e números engraçados, como o do trote telefônico que Flávio passou no general José Machado e em Dom Vicente Scherer. Exímio imitador do sotaque alemão, ele ligou para o comandante do III Exército como se fosse o arcebispo, e para este como se fosse o general, um propondo ao outro resistir ao golpe. Sem esse acordo, é possível que o desfecho da crise fosse diferente, assim como o adiamento do Gre-Nal ajudou a manter a unidade dos resistentes, divididos entre gremistas e colorados.
O jogo punha em risco a coesão de que tanto precisavam naquele domingo.
Enquanto isso, em Paris, eu servia de intérprete de um Jango indeciso, sem saber se voltava para resistir ou se aguardava por lá. Foi quando um colega parisiense me entregou em uma nota: “O contato de Goulart com a imprensa é um empregado de Carlos Lacerda, seu maior inimigo.” Eu era correspondente da Tribuna da Imprensa. Não podia errar na tradução.
Quando, em vez dos tanques, apareceu no prédio o general Machado para conversar com o governador rebelado, houve apreensão. “Foi o momento mais difícil de minha vida”, confessaria Brizola a Flávio em 1979, em Lisboa. “Eu esperava tudo e qualquer coisa; que ele viesse me abraçar ou me prender”. Machado fora anunciar que o III Exército tinha decidido dar posse ao vice-presidente.
Em meio a tantas peripécias que não cabem neste espaço, chama a atenção o papel do rádio no movimento. Toda a mobilização e todas as proclamações foram feitas através da Cadeia da Legalidade, transmitida do porão do Palácio. “O radinho de pilha começava a popularizar-se, fazendo a palavra de Brizola chegar ao inalcançável”, conta o autor, e não há como não lembrar o fenômeno das redes sociais nas várias “Primaveras” no mundo de hoje. A imagem de alguém com o transistor colado ao ouvido era tão comum quanto a do celular agora.
O poder do consumidor - HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 21/03/12
SÃO PAULO - Esta coluna vem com uma semana de atraso, mas a importância do tema escusa a impontualidade. Vou falar do consumidor, cujo dia foi celebrado na quinta-feira passada, e do marketing. Trago em meu auxílio a psicologia evolutiva, mais especificamente o livro "Darwin Vai às Compras", de Geof-frey Miller, que acaba de ganhar uma edição brasileira.
A tese central da obra é que o ser humano consome não apenas para satisfazer suas necessidades básicas mas também para exibir suas qualidades para o grupo, em especial para possíveis parceiros sexuais. Se eu uso um Rolex estupidamente caro, é porque tenho dinheiro o bastante para desperdiçá-lo com supérfluos, donde se depreende que sou rico, um sinal de minhas aptidões físicas ou intelectuais.
Esse pendor humano pelo consumo conspícuo alimenta o marketing, que, de acordo com Miller, está promovendo uma das mais importantes revoluções na história. Até as primeiras décadas do século 20, empresas fabricavam seus produtos e procuravam vendê-los. Faziam uma propagandazinha, no máximo. Mas, desde que o marketing se tornou uma força, as firmas passaram a dedicar grande parte de suas energias a tentar descobrir quais são os desejos de seus clientes e satisfazê-los.
É claro que nem tudo são flores na vida do consumidor. O marketing também encerra perigos. Ele nos impinge ilusões e nos leva a tomar decisões que podem ir contra nossos interesses. É falsa, por exemplo, a ideia de que o Rolex sinaliza nossas qualidades de maneira mais eficiente do que alguns minutos de conversa.
Essa mudança de foco da produção para o marketing, sustenta Miller, deslocou de forma inédita o poder de instituições para indivíduos. O paralelo é com a democracia. Ela, sem dúvida, fortalece o cidadão. Isso não significa, como já apontava Platão, que ele fará as escolhas certas. O poder, de todo modo, é pulverizado.
Burrocracia - MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 21/03/12
Recebi convite para participar de um evento literário em João Pessoa. Já quase não viajo a trabalho, preciso ficar mais tempo no meu escritório, mas respondi que, dependendo da data, talvez conseguisse ir. Foi então que me chegou uma lista de documentos que eu deveria providenciar para viabilizar minha participação.
Não acreditei. Nem para um ex-presidiário acusado de desfalque do Banco Central exigiriam tamanha quantidade de certificados de idoneidade moral e financeira. Eu teria que passar uma semana percorrendo cartórios e contratar um ou dois advogados. Muito grata, mas fica pra próxima.
Nunca vi um país se entravar tanto. Nada avança em ritmo razoável. As incensadas obras prometidas para a Copa do Mundo são apenas um exemplo. Afora maledicências, pilantragens e disputas de poder, ainda temos a questão da papelada: é 1 milhão de pareceres, assinaturas, carimbos e rubricas que impedem o andar da carruagem. Pois é, ainda estamos nos tempos da carruagem, trotando.
Durante a enxurrada que desabou sobre Porto Alegre, semana passada, tivemos mais do mesmo: ruas alagadas nos pontos de sempre. Ok, o asfalto não absorve a água, o lixo é jogado em locais impróprios e choveu o esperado para o mês inteiro. Mas não há pessoas dentro das secretarias de governo sendo pagas para resolver os problemas da cidade?
Vai chover de novo, e forte. E os carros ficarão boiando, poucos conseguirão chegar ao trabalho, o comércio terá que fechar, moradores perderão seus móveis, grávidas terão que ser retiradas de barco de dentro de suas casas. É um déjà vu recorrente.
Como não imagino que haja almas satânicas por trás da nossa administração, só posso pensar que a burocracia tem algo a ver com isso. Quantos estudos, laudos, aprovações, orçamentos, prazos remarcados, projetos refeitos serão necessários para resolver nossas pendências? É o país da novela, de fato.
Fizemos progresso na emissão de documentos pessoais – hoje se pode tirar uma certidão de nascimento ou uma carteira de identidade sem trâmites e demoras, mas ainda falta, como falta, para a gente ser uma nação que flui. A expressão “é pra ontem”, que configura a pressa, passou a ser literal. Não conseguimos sair do ontem e entrar no amanhã.
Os reféns da burocracia se defendem dizendo que não é culpa deles, exige-se o cumprimento da lei, e estão certos, senão vira bagunça. Mas alguém lá em cima, com a caneta na mão, tem o dever de promover mais agilidade nesse Brasil que só é rápido na informalidade. Há que se encontrar um meio de trabalhar de forma legal e ao mesmo tempo atender as demandas em prazo de país desenvolvido, que é o que almejamos ser.
O que é preciso para promover a desburocratização? Claro, uns 3.479 estudos de viabilidade. Pocotó, pocotó.
Recebi convite para participar de um evento literário em João Pessoa. Já quase não viajo a trabalho, preciso ficar mais tempo no meu escritório, mas respondi que, dependendo da data, talvez conseguisse ir. Foi então que me chegou uma lista de documentos que eu deveria providenciar para viabilizar minha participação.
Não acreditei. Nem para um ex-presidiário acusado de desfalque do Banco Central exigiriam tamanha quantidade de certificados de idoneidade moral e financeira. Eu teria que passar uma semana percorrendo cartórios e contratar um ou dois advogados. Muito grata, mas fica pra próxima.
Nunca vi um país se entravar tanto. Nada avança em ritmo razoável. As incensadas obras prometidas para a Copa do Mundo são apenas um exemplo. Afora maledicências, pilantragens e disputas de poder, ainda temos a questão da papelada: é 1 milhão de pareceres, assinaturas, carimbos e rubricas que impedem o andar da carruagem. Pois é, ainda estamos nos tempos da carruagem, trotando.
Durante a enxurrada que desabou sobre Porto Alegre, semana passada, tivemos mais do mesmo: ruas alagadas nos pontos de sempre. Ok, o asfalto não absorve a água, o lixo é jogado em locais impróprios e choveu o esperado para o mês inteiro. Mas não há pessoas dentro das secretarias de governo sendo pagas para resolver os problemas da cidade?
Vai chover de novo, e forte. E os carros ficarão boiando, poucos conseguirão chegar ao trabalho, o comércio terá que fechar, moradores perderão seus móveis, grávidas terão que ser retiradas de barco de dentro de suas casas. É um déjà vu recorrente.
Como não imagino que haja almas satânicas por trás da nossa administração, só posso pensar que a burocracia tem algo a ver com isso. Quantos estudos, laudos, aprovações, orçamentos, prazos remarcados, projetos refeitos serão necessários para resolver nossas pendências? É o país da novela, de fato.
Fizemos progresso na emissão de documentos pessoais – hoje se pode tirar uma certidão de nascimento ou uma carteira de identidade sem trâmites e demoras, mas ainda falta, como falta, para a gente ser uma nação que flui. A expressão “é pra ontem”, que configura a pressa, passou a ser literal. Não conseguimos sair do ontem e entrar no amanhã.
Os reféns da burocracia se defendem dizendo que não é culpa deles, exige-se o cumprimento da lei, e estão certos, senão vira bagunça. Mas alguém lá em cima, com a caneta na mão, tem o dever de promover mais agilidade nesse Brasil que só é rápido na informalidade. Há que se encontrar um meio de trabalhar de forma legal e ao mesmo tempo atender as demandas em prazo de país desenvolvido, que é o que almejamos ser.
O que é preciso para promover a desburocratização? Claro, uns 3.479 estudos de viabilidade. Pocotó, pocotó.
Deu uma olhada na água? - ANTONIO PRATA
FOLHA DE SP - 21/03/12
Faz parte da condição masculina enfrentar os perigos de cabeça erguida e olhos fechados
EU E ela voltávamos de nossa primeira viagem juntos, um fim de semana em Ubatuba. Vínhamos saindo havia dois meses, mas o jogo nem de perto estava ganho: a moça era dura na queda e, apesar de dar alguns sinais de interesse, ainda não parecia convencida de que eu fosse um bom investimento a longo prazo.
Paramos para abastecer e resolvi calibrar pessoalmente os pneus -menos por necessidade do que pelo gesto, que a meu ver envolvia certo charme viril. Acho que não preciso dizer, mas um cara que vê na calibragem dos pneus uma atitude máscula está mais para um Woody Allen do que, digamos, para um John Wayne. Agachado ali, contudo, sentia-me um cowboy a ajustar as ferraduras de meu cavalo e quase mascava um fumo imaginário. Minha panca, infelizmente, foi pra cucuia assim que, temeroso, ouvi a garota perguntando: "Você não quer dar uma olhada na água?".
Veja: eu não poderia jamais "dar uma olhada na água", pois não tinha a menor ideia de onde ficava a água, para que servia a água e, mesmo que a encontrasse, seria incapaz de avaliar se o nível estava alto, baixo, certo ou errado. A pergunta, no entanto, trouxe-me a incômoda suspeita de que ela estivesse acostumada a sair com caras que sabiam "dar uma olhada na água". Marlon Brandons em "Um Bonde Chamado Desejo", de calça jeans e camiseta justa, que voltavam pro carro limpando as mãos num pedaço de estopa e acendendo fósforos na sola da bota. De modo que só me restou fazer uma cara de profissional e responder, resoluto, "claro!", já abrindo o capô.
Depois de angustiantes segundos perscrutando o labirinto do motor em busca de alguma pista, finalmente encontrei algo que parecia auspicioso: uma tampinha sobre um pequeno galão, com um desenho que se assemelhava a um regador de jardim. Do bico da figura, um líquido gotejava. Ora, o que seria aquilo senão água? Como ao lado da bomba de gasolina havia um regador, muito semelhante ao do desenho, fiz a óbvia conexão mental, enchi o troço até a boca, desrosqueei a tampinha e entornei uns cinco litros pelo orifício.
Só na estrada, já subindo a serra, é que a brotoeja da dúvida começou a coçar. E se aquele galão não fosse o lugar da água? Mal a questão surgiu e descobri aterrorizado a resposta, na forma de um pequeno luminoso no painel: o mesmo regadorzinho do motor, mas, dessa vez, com legenda: óleo.
E aí? Assumir o erro era impensável. Não queria, de forma alguma, que minhas últimas palavras para aquela bela moça fossem "Desculpa, reguei o motor. Acho melhor chamarmos um guincho". O jeito era seguir em frente. E foi o que eu fiz, até que, duas horas depois, graças a Deus -e aos engenheiros da Ford, a quem mando aqui meus sinceros cumprimentos-, chegamos a São Paulo.
Imagino que tenha corrido o risco de ficar pelo acostamento, quem sabe até de fundir meu carro, mas não me arrependo: faz parte da condição masculina enfrentar os perigos de cabeça erguida e olhos fechados. Mesmo aqueles perigos que nós mesmos, por conta de nossa obtusa hombridade, nos metemos. E, convenhamos, valeu a pena: hoje a moça mora comigo e somos felizes -ou pelo menos éramos, até a publicação desta crônica.
PROGRAMAÇÃO ESPORTIVA NA TV
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16h - Fenerbahce x Samsunspo, Copa da Turquia, Bandsports
16h40 - Napoli x Siena, Copa da Itália, ESPN Brasil
16h40 - Manchester City x Chelsea, Campeonato Inglês, ESPN
17h - Everton x Arsenal, Campeonato Inglês, ESPN HD
19h30 - Palmeiras x Coruripe-AL, Copa do Brasil, ESPN Brasil e Sportv
19h30 - Grêmio x River Plate-SE, Copa do Brasil, ESPN e Sportv 2
19h45 - The Strongest (BOL) x Internacional, Taça Libertadores, Fox Sports
21h50 - Botafogo x Treze-PB, Copa do Brasil, Band, ESPN Brasil e Sportv
22h - Corinthians x Cruz Azul (MEX), Taça Libertadores, Globo (para SP) e Fox Sports
22h - Vasco x Libertad (PAR), Taça Libertadores, Globo (menos SP) e FX
22h - Torneio Interligas de basquete, Sportv 2
22h30 - LA Lakers x Dallas Mavericks, NBA, ESPN e ESPN HD
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