quarta-feira, março 21, 2012

De mocinhos e de bandidos - ROSÂNGELA BITTAR

VALOR ECONÔMICO  21/03/12


O governo Dilma está sofrível, ainda. Desde sua inauguração, ano passado, essa condição tem sido registrada e, até o momento, não aprumou rumo a uma gestão que lhe permita colher resultados concretos. A presidente transformou o Palácio do Planalto em uma Casa Civil. Toma conta de tudo e de todos. Miriam Belchior não compra uma resma sem sua autorização. Ideli Salvatti e Gleisi Hoffmann não têm autonomia para negociar nada, estão sem instrumentos para fazer a coordenação política e administrativa. Interessa-se a presidente pelo detalhe técnico do pormenor jurídico da vírgula administrativa. Por medo, seus ministros se escondem, não avançam no projeto que ela parece querer para o país. Dilma não tem e não vem adquirindo gosto pela política partidária como era feita antes.

Mas tem a sua maneira. Quer governar com uma coalizão partidária e com apoio amplo do Congresso. Manteve a correlação de forças que recebeu do antecessor, mas é ousada, ainda bem, nas mudanças ao descartar material estragado por produto da mesma origem mas ainda em boas condições, até segunda avaliação.

Não foi por esse cenário que a presidente se viu, de repente, neste março, o alvo do tiro. Nem porque o governo funciona mal, ou porque não faz reformas ou quer governar sem o Congresso, ou abusa das medidas provisórias. Os aliados se rebelaram e a têm tratado, bem como aos demais integrantes do seu staff, com extrema grosseria e falta de compostura por que, mesmo? Não toda, mas há uma base aliada que está na linha de frente da força que tenta encostar a presidente na parede.

Fisiologismo de adjetivos: acintoso, ofensivo, insultuoso

Experiente político aconselha a não elucubrar muito. Esfregando o indicador no polegar, traduz o que no jargão da política explicaria o tal "carinho" de que os políticos tanto se queixam aos que sabem que levarão recados: o que falta, de imediato, é dinheiro para a campanha municipal. Para o futuro, um bom posto de observação e acesso à fonte.

Ganhar ministério também não significa o apoio ao governo. Os evangélicos ganharam um e não estão nem aí para os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil para realizar a Copa do Mundo.

Será que Renan Calheiros e Romero Jucá, no PMDB, Blairo Maggi e Alfredo Nascimento, no PR, ficariam de pé após uma campanha, de boa marquetagem, ao modelo Lula de chorar o preconceito, que os acusasse de machismo na tentativa de desestabilização da presidente?

A entrevista em que Maggi anunciou rompimento do PR com Dilma é um escárnio, uma desfaçatez. Discurso que não deixou outra saída a não ser manter a posição firme de apoio ao ministro que escolheu e que, embora do PR, é um funcionário de carreira. Não terá sido Paulo Passos rejeitado por descomprometimento excessivo com o malfeito?

Imaginemos que esses partidos, armados até os dentes, partam para o revide ao desprezo por um fisiologismo insultuoso, para a criação de CPIs contra a presidente, até para o impeachment, pois são os primeiros a saber que, em qualquer governo, principalmente de coalizão partidária, se deixarem procurar vão encontrar. A comissão de inquérito em melhor andamento para ser instituída no Senado é justamente a dos Transportes. Estariam mesmo dispostos a atear fogo às vestes?

Todos sabiam que Romero Jucá estava com os dias contados na representação do governo. Evidência vivida por todos da bancada do PT que viveram na pele a atuação do líder. Já na sua estreia como nova senadora do Paraná, Gleisi não compreendia como um líder do governo podia trabalhar contra, como ele trabalhava. Era a mesma impressão de Ideli Salvatti, agora na Relações Institucionais, por mais de uma vez líder do seu partido na Casa.

O deputado Cândido Vaccarezza, preterido para a coordenação política, também sabia que deixaria de ser o líder do governo na Câmara. Dilma tinha conseguido tirar da sua raia as pessoas denunciadas sem desfazer a correlação de força dos partidos na aliança. Por que não fazer o mesmo com seus líderes no Congresso? Mas não tirou o poder dos partidos, apenas o deu a quem atribui qualidades para representar o governo.

Trocas feitas, deu para ver: não é que Dilma não goste de política. Ela não gosta de alguns políticos e seu modelo de operação. Não se registre que os parlamentares se surpreenderam com o comportamento e as atitudes da Ideli, seus modos ríspidos e a incompetência para resolver os problemas da base. Até os novatos a conheciam. Não terá sido por afinidade de temperatura e pressão que foi guindada ao pódio? É óbvio que Ideli gostaria de sair pelos tapetes coloridos distribuindo emendas. Mas há alguém, acima dela, com mandato conferido por mais de 50 milhões de eleitores, tentando fazer do seu jeito, que não lhe passa o guichê.

As poderosas do Palácio são muito semelhantes, mas só uma manda: firmes, ríspidas, cobradoras, autoritárias, o que se pode chamar de mulheres fortes. Sabem o que querem, para onde vão. O ultimato do qual Maggi foi porta-voz e que boa parte do Senado aprova é inaceitável e contém, mesmo, uma elevada dose de machismo. A impaciente gritaria meio difusa, difícil de ter razão precisamente localizada, denota uma certa covardia, até na chantagem. Parece um lança chamas que suga e solta a labareda quando for conveniente.

Não é porque já aprovou as políticas do salário mínimo, a emenda da DRU e a correção do imposto de renda até o fim de seu mandato que Dilma não precisa mais do Congresso. Tanto precisa que manteve o governo de coalizão partidária. Apenas escolheu governar com pemedebistas que conhecia de outros carnavais e não dos bailes de Calheiros e Jucá. Aposta na melhor distribuição do poder na política e no arejamento dos partidos. Foi a ação concreta na política mais perceptível da presidente desde que assumiu. Quem esperar vê-la entregar-se de mãos ao alto, é melhor esperar sentado.

GOSTOSA


MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 21/03/12
Setor privado vai atuar em plano de trens em SP

A Secretaria dos Transportes Metropolitanos de São Paulo assinou ontem um acordo para que a entidade privada Adtrem (Agência de Desenvolvimento de Trens Rápidos entre Municípios) participe do desenvolvimento do plano diretor dos trens regionais do Estado.

Pelo contrato, a entidade, que reúne empresas do setor de passageiros, atuará com a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), segundo Guilherme Quintella, presidente da Adtrem.

A entidade vai colaborar tecnicamente com o projeto, por meio de estudos e pesquisas para a implantação de sistemas de trens de passageiros entre municípios e regiões metropolitanas.

"Será feita uma harmonização entre os projetos dos trens de alta velocidade com os regionais", diz o secretário dos Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes.

"Os trens não precisam concorrer, podem se complementar", diz Quintella.

A ideia é que os estudos de harmonização, além de evitar que haja conflitos entre as linhas de trens, ajudem a promover as ligações necessárias para conexões dos passageiros no Estado.

"Temos de fazer com que o passageiro de Sorocaba vá para o Rio sem trocar de estação. Ele quer chegar a São Paulo e pegar trem para o Rio no mesmo lugar", diz.

A UIC (International Union of Railways), organização internacional do setor, da qual Quintella também é membro, vai oferecer informações técnicas para o desenvolvimento das pesquisas.

O executivo afirma que a ANTT (Agência Nacional dos Transportes Terrestres) pode vir a fazer parte da cooperação nos próximos meses.

Em uma segunda etapa, os estudos poderão traçar trechos entre municípios menores, que não serão necessariamente ligados à capital. "Pode ser uma ferrovia entre Ribeirão Preto e Araraquara, por exemplo", diz Quintella.

Perfuração aprovada

A aprovação dos americanos à exploração e perfuração de petróleo voltou ao nível anterior ao do vazamento no Golfo do México, em 2010.

Levantamento do Pew Research Center, organização de pesquisas, mostra que 65% dos americanos ouvidos são favoráveis às perfurações.

Em 2010, logo após o acidente, o número era de 44%, enquanto os contrários à exploração somavam 52%.

A pesquisa também aponta que a maioria da população dos EUA (52%) continua achando que o desenvolvimento de fontes de energia alternativas deve ser prioridade.

Houve, porém, uma redução nessa parcela da população. Em 2011, 63% acreditavam que as fontes alternativas deveriam ser priorizadas.

O estudo credita a mudança de opinião dos americanos ao aumento do preço do gás.

Coração de mãe

A Serasa Experian lança neste mês uma campanha de Dia das Mães para que o varejo renegocie as dívidas com os clientes.

A empresa irá fornecer aos lojistas informações sobre a situação do devedor.

A expectativa é que 4 milhões de consumidores recebam propostas para pagar suas dívidas. No mesmo período do ano passado, 2 milhões de pessoas no Brasil foram beneficiadas com o projeto, de acordo com a Serasa.

A inadimplência no país cresceu 18,3% em fevereiro.

Gestão... A Fundação Botín, presidida por Emilio Botín, presidente do Santander, abriu inscrições para um programa de bolsas de estudo em gestão pública na América Latina, com 40 vagas para este ano.

...latina O Brasil é o país com o maior número de estudantes selecionados desde 2010, quando o programa de bolsas foi lançado.

Impacto... A rápida reação do mercado e do consumidor será o efeito mais positivo da tecnologia para as empresas nos próximos dez anos. Estudo da EIU (Economist Intelligence Unit) aponta que 41% de 567 executivos consideram esse o principal impacto.

...tecnológico... Em segundo lugar, aparecem a possibilidade de aumentar a base de clientes em qualquer lugar do mundo e a simplificação dos processos de negócios, ambos com 24%.

...nas empresas O levantamento também aponta que, para 38% dos executivos ouvidos, os departamentos de pesquisa e desenvolvimento são as principais fontes para ideias de novos produtos. Eles acreditam que, em 2020, serão os clientes (30%) e as comunidades on-line (19%).

Fusão O estudo da EIU ainda informa quais mercados devem se agregar a outros por causa da tecnologia. Mídia e entretenimento aparecem em primeiro lugar, com 50%, seguidos por serviços financeiros (45%) e telecomunicações (42%).

Saúde Depois de investir na compra de equipamentos para imagem e diagnóstico, o hospital San Paolo (zona norte de São Paulo) acaba de reabrir mais um andar, que abrigará 13 novos leitos.

Cadeira Osmar Roncolato Pinho foi reeleito presidente da Abel (Associação Brasileira das Empresas de Leasing). O executivo está em seu segundo mandato, que terminará em 2015.

MAIS CONTEÚDO

As promoções mais eficientes em "atacarejos" são as que oferecem maiores quantidades do produto desejado pelos consumidores, segundo estudo da Nielsen.

A ação mais importante para esse canal de venda, que era voltado para o atacado, mas que, devido à demanda, também passou a vender diretamente para o consumidor, é comercializar embalagens com maior conteúdo que as convencionais.

A estratégia costuma ser, em média, 10% mais atrativa do que quando é realizada em lojas ou supermercados.

"O comprador de 'atacarejo' não está interessado em ser fidelizado com concurso de viagem ou acumulação de cupons. Ele só quer quantidade", afirma Rafael Ikeda, analista da Nielsen.

CASA ALUGADA

Os contratos de aluguel residencial fechados em fevereiro deste ano na capital paulista ficaram estáveis em relação a janeiro, de acordo com o Secovi-SP (Sindicato da Habitação).

A variação dos contratos novos foi de 0,1%.

No acumulado de 12 meses encerrados em fevereiro, a alta dos alugueis novos é de 16,96%, valor que está acima dos 5,85% da inflação oficial do período, medida pelo IPCA, segundo a entidade.

A discrepância ocorre pois a demanda por imóveis para locação na cidade de São Paulo é superior à oferta, de acordo com o Secovi.

O que mais aumentou de preço em fevereiro foi o imóvel de dois dormitórios, que ficou em média 0,2% mais caro em relação a janeiro.

números

16,96% é a alta dos aluguéis novos em 12 meses

0,1% foi a variação dos preços entre janeiro e fevereiro 

Inovação em cadeia - SERGIO ADEODATO

VALOR ECONÔMICO - 21/03/12

Ao transformar substâncias vegetais que fazem a assepsia da natureza em produtos para limpeza pesada em fábricas, a empresa TerpenOil, de Jundiaí (SP), permitiu que indústrias de grande porte economizassem insumos e atingissem melhor padrão de sustentabilidade. O pulo do gato está no uso do terpeno, extraído como subproduto do esmagamento da laranja nas fábricas de suco. Empregada para retirar graxas de máquinas e chapas, a novidade proporcionou redução de 20% no consumo de energia e de 76% no de água, na unidade da Whirlpool que produz fogões e lavadoras de roupa em Rio Claro (SP). As perdas por contaminação de sujeira, antes de 38 mil peças por mês, foram praticamente zeradas.

A partir desta demanda inicial, a TerpenOil produz hoje 2 mil litros mensais de desengraxantes orgânicos, expandindo a solução por outras indústrias. "O diferencial do negócio é utilizar a química fina para imitar os processos da natureza", revela o empresário Marcelo Ebert Ribeiro. Ele trocou o mercado financeiro pelo novo filão, que abrange produtos para purificação de ar e para limpeza comercial e residencial, em substituição às alternativas tradicionais à base de cloro. O mercado brasileiro de limpeza natural é estimado em R$ 10 bilhões ao ano.

A iniciativa aponta a rota preferencial da inovação no meio corporativo, sob crescente pressão de metas e exigências ambientais. No rastro de regulações sobre mudanças climáticas, compartilhar esforços e responsabilidades torna-se chave nos negócios. "Para se reduzir custos e recursos materiais e ter acesso a mercados, é estratégico olhar todo o caminho desde a origem da matéria-prima", afirma Mario Monzoni, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

No projeto "Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor", lançado recentemente, a FGV estrutura um ambiente de networking para aproximar compradores de fornecedores e replicar experiências inovadoras em diferentes setores produtivos. Pretende-se articular políticas públicas e incentivos financeiros para remunerar benefícios ambientais gerados pelos negócios. "Sob o ponto de vista gerencial, o ambiente de menor porte é mais favorável à inovação", avalia Monzoni, para quem "a cultura organizacional mais pesada e arraigada, voltada para resultados de curto prazo, é muitas vezes resistente ao novo".

Da pegada de carbono ao uso de matéria-prima e consumo energético, as companhias, sobretudo as exportadoras, estão sujeitas a cobranças por parte de investidores e compradores. "Trabalhar com as pequenas e médias empresas é primordial para gerar escala em sustentabilidade, ser ágil e desenvolver a cadeia de valor", aponta Monzoni. O desafio, diz ele, não se limita a impor critérios aos fornecedores, mas desenvolver soluções conjuntas - modelo de relacionamento que, aliás, é um dos princípios da chamada "nova economia".

Entre os exemplos, a Pack Less, de Cotia (SP), recebeu apoio da Braskem para desenvolver um sistema para movimentação de carga. São pallets (estrados) de plástico, mais leves e resistentes, que substituem similares de madeira e reduzem em até 85% as emissões de carbono, dependendo da operação logística. A solução chega a outras partes do mundo, via joint ventures. "Estamos homologando o produto para maior uso nas unidades industriais, o que exigirá mudanças na operação de empilhadeiras e na armazenagem da carga", explica Patrich Teissonneyre, da Braskem.

A empresa tem agenda com 200 iniciativas de inovação planejadas até 2020. "Entre as prioridades está racionalizar o uso de recursos, aumentar o ganho energético e reduzir o peso do produto final, como já acontece com baldes industriais e embalagens de frango congelado.

No campo, a busca por inovação atinge pequenos produtores de cacau, no Pará, que mudaram o sistema de cultivo para fornecer à Natura. O insumo, contido em 20% da composição de sabonetes, substitui matérias-primas tradicionais, como óleo de palma ou sebo de boi. "A produção tornou-se orgânica, integrada à floresta", conta Alessandro Mendes, diretor de desenvolvimento de produtos.

De igual modo, o uso de álcool orgânico em perfumes só foi possível graças à parceria com a destilaria Cerba, de Piracicaba (SP), idealizadora de um processo para retirar odores do produto fornecido pelas usinas da Native, que por sua vez ganhou um nicho de mercado.

"A prioridade é a ecoeficiência para reduzir custo e aumentar competitividade dos pequenos negócios atrelados à cadeia dos grandes", ressalta Suenia Sousa, gestora do Centro Sebrae de Sustentabilidade, em Cuiabá. A instituição financia a adaptação dos empreendedores às demandas da inovação, aumentando o efeito multiplicador das parcerias.

A indústria de embalagens, materiais que correspondem a 30% do lixo urbano, incorpora novidades. "Nos últimos anos, desenvolveram-se tecnologias para abrir mercado e criar escala para a reciclagem", diz Fernando von Zuben, diretor de meio ambiente da Tetra Pak. Há dez anos, todas as caixas de suco e leite vendidas no Brasil iam para lixões e aterros após o consumo das bebidas. Hoje há 32 empresas recicladoras que transformam o material em produtos, de telhas para a construção civil aos insumos para a indústria química, movimentando R$ 85 milhões ao ano.

"A solução para o lixo representou um ótimo negócio", atesta Carlos Rettman, diretor da fábrica de cadernos Confetti, em São Paulo. A empresa patenteou um método que transforma embalagem longa vida em capas de alto padrão de acabamento, exportadas para os EUA para compor produtos com rótulo de sustentabilidade nas papelarias.

"O esforço é somar valor e desempenho ao produto reciclado", afirma Bruno Pereira, da Dow, que recentemente lançou tecnologia de resinas para embalagens flexíveis com 100% de polietileno, permitindo reduzir o desperdício de alimento. O material está em testes nas indústrias transformadoras, que buscam custo competitivo e economia de insumos de origem fóssil. "Novas necessidades surgirão a partir da nova lei brasileira de resíduos, aprovada em 2010", estima o executivo.

O assunto está na agenda do varejo. "Mais de 90% dos nossos impactos estão na cadeia de suprimento", justifica Camila Valverde, diretora de sustentabilidade do Walmart. O grupo planeja lançar neste ano a terceira edição de um programa que induz fabricantes ao fornecimento de produtos mais sustentáveis.

Socuerro! Sofro de preção alto! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 21/03/12

Antes de a bunda virar moda, a Gretchen já rebolava; bunda das cavernas, bunda-mãe!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta: "Presidente da Andrade Gutierrez confirma retomada das obras do Beira-Rio no dia 1º de Abril". Desse jeito o Beira-Rio vai ficar pronto prá Copa. De 2018, na Rússia! Rarará!
E com o aumento dos remédios, um amigo me disse: "Controlar a pressão é fácil, o duro é controlar o preção. Tô sofrendo de preção alto!".
E a manchete do Sensacionalista: "Aposentado passa mal e morre após ouvir o preço dos remédios". E um assaltante em Salvador roubou dez caixas de Viagra numa farmácia. E o juiz classificou como furto famélico: roubou pra comer. Rarará!
E o homem mais rico do Brasil não é o Eike. O homem mais rico do Brasil é o Pina. Tudo vai propina.
E atenção! Trash News: a Gretchen vai casar de novo! Ueba! Manchete de todo ano: "Gretchen anuncia casamento".
Manchetes de todo ano: "Serra sai candidato", "Neto de Sarney recebe verbas", "PMDB se rebela" e "Gretchen anuncia casamento". Pela 16ª vez! Vai "freakar" le bumbum pela 16ª vez! "Foi amor à primeira vista." Não, foi amor à 16ª vista! A Gretchen tem bunda pra cem talheres! Antes de a bunda virar moda, ela já rebolava. Bunda das cavernas, a bunda-mãe. A protobunda! Eu acho que a bunda da Gretchen já tá rachada! Melhor rachada que encalhada! Rarará!
E corre uma charge na internet com o Serra declarando: "Prometo terminar o meu mandato... em Brasília". Rarará!
E tem uma charge incrível do Cicero chamada Intolerância. Que é o que corre pelo mundo hoje. "Não tenho religião, não sou nordestino, não sou negro, não sou judeu, não sou árabe, não sou gay. Por que eu tô apanhando?" "Não gostei do seu sapato." E se não tivesse nordestino, negro, judeu e gay, não teria stand-up comedy no Brasil. Ou pelo menos em São Paulo! Rarará!
O brasileiro é Cordial! Olha o adesivo num carro em BH: "Quem tem Jesus tem tudo, quem não tem é pobre, cego, nu e desgraçado". O evangélico é cordial. Rarará! E uma leitora me mandou uma foto de Chapecó, Santa Catarina: Clinica Cirúrgica Rafael de Almeida Tirapelle! E uma outra mandou um livro: "A Arte de Viver Feliz", por Frei Anselmo FRACASSO! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza.
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Só as reformas salvam - CRISTIANO ROMERO

VALOR ECONÔMICO - 21/03/12
A crise da indústria brasileira está hoje no centro do debate nacional. Há razões conjunturais e estruturais por trás das dificuldades. As conjunturais, como o próprio nome diz, passam, mas são elas que animam o debate. As estruturais estão aí desde sempre, mas quase nada é feito para superá-las. O Brasil abandonou as reformas, perdeu a oportunidade de promover mudanças nos tempos de bonança e, agora, está pagando um preço alto.

O baixo crescimento das economias avançadas no pós-crise de 2008 derrubou os preços dos produtos industriais em escala global. Aliado às desvalorizações competitivas das principais moedas do planeta, esse fato motivou indústrias do mundo inteiro a despejar seus produtos, a preços baixos, nos mercados com maiores taxas de crescimento. O Brasil é um desses mercados.

O recente ciclo da economia brasileira pode ser dividido em dois momentos. No primeiro, de 2006 a 2008, o governo estimulou a demanda interna por meio de aumentos reais do salário mínimo e dos vencimentos dos funcionários públicos, da ampliação dos programas de transferência direta de renda e do incremento de investimentos públicos.

Nesse período, o Produto Interno Bruto (PIB), liderado pela taxa de investimento, acelerou ao ritmo de crescimento - de uma média anual de 3,34% entre 2003 e 2005 para 5,07%, entre 2006 e 2008. Em 2009, por causa da crise mundial, teve crescimento negativo de 0,33%. No período pós-crise, a média anual de expansão praticamente repetiu o desempenho anterior ao da turbulência - alta de 5,11%.

O problema é que, no período em que estimulou o aumento do consumo, o governo não preparou a indústria para atender à demanda crescente e competir com o produto estrangeiro. Na primeira metade do ciclo (2006-2008), a indústria cresceu a taxas elevadas. Como a demanda avançava no mundo inteiro, o foco dos produtores mundiais não era os emergentes. No pós-crise, a demanda interna, estimulada novamente pelo governo, continuou crescendo fortemente e a indústria local, pressionada pelos preços competitivos dos concorrentes estrangeiros, estagnou.

O descompasso entre demanda e oferta foi preenchido nos últimos dois anos pelas importações. Dados da Confederação Nacional da Indústria mostram que, em 2008, os produtos importados representaram 14,5% do consumo doméstico de bens industriais. No ano passado, saltaram para 18,5%.

Isso explica o fato de a indústria de transformação, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, ter reduzido a participação no PIB, no mesmo período, de 16,6% para 14,6%. Na primeira metade do ciclo, também esteve pressionada pela competição internacional, especialmente por produtos chineses, mas, a despeito de todo o zum-zum-zum sobre desindustrialização, manteve estável a fatia no produto (17%).

Em algum momento, as economias avançadas voltarão a crescer, o que certamente atenuará o problema da super oferta de bens importados no mercado brasileiro. Isso deve dar algum alento à indústria nacional, mas, se nada for feito, os problemas estruturais permanecerão e a produção local continuará à deriva em termos de competitividade.

A adoção de medidas tópicas tem efeito paliativo. As desonerações tributárias seletivas criam desequilíbrios que, no limite, podem provocar deslocamentos no setor industrial. Um empresário pode achar que, sendo mais barato produzir um determinado bem em vez daquele que já fabrica, é mais vantajoso mudar de negócio. A perspectiva de o Brasil se tornar um grande ator na produção mundial de petróleo, com possibilidade de desenvolver aqui uma indústria de equipamentos para o setor, já impõe desafios suficientes ao restante do setor industrial.

A agenda da competitividade da indústria, bem como de todos os setores da economia, é conhecida. Inclui medidas para aumentar a poupança doméstica; reduzir e simplificar a carga de impostos; ampliar a infraestrutura; diminuir os encargos trabalhistas e o custo de capital; investir em tecnologia e inovação; educar a população e qualificar a mão de obra; restringir a burocracia.

O que falta para tocar essa agenda é vontade política. Parte-se da ideia de que o brasileiro não quer reformas, o que é desmentido pela maioria dos eleitores, que elegeram o reformista Fernando Henrique Cardoso para dois mandatos e Luiz Inácio Lula da Silva para outros dois. No primeiro mandato, Lula promoveu reformas estruturais importantes (previdência do setor público, alienação fiduciária, lei de falências, etc). Infelizmente, no segundo ele não só abandonou o ímpeto reformista, como deixou pela metade o que começara a fazer.

Pouco se diz, mas a aceleração do crescimento nos últimos anos tem relação direta com as reformas concluídas por Lula entre 2003 e 2006. Entre 2007 e 2010, o ex-presidente optou pelo estímulo direto ao consumo, sem correspondente incentivo ao aumento da produtividade da economia. Mesmo o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), uma iniciativa para aumentar o investimento em infraestrutura, se mostrou acanhado. A razão é simples: o PAC implica participação do Estado em vários empreendimentos e há restrições fiscais para isso. Melhor seria ter criado regras para estimular o investimento privado.

A ideia de resolver o problema estrutural da indústria por meio da desvalorização da taxa de câmbio nominal pode resultar inútil porque há uma tendência, no longo prazo, de apreciação do real graças a boas razões (o Brasil é, depois da China, o emergente que mais recebe investimento direto). Ademais, desvalorizar o câmbio artificialmente significa impingir aos mais pobres (beneficiários de programas como o Bolsa Família), via inflação, e aos trabalhadores, por meio da redução do salário real, o custo da salvação da indústria.

O maior de todos os riscos que o país corre neste momento é o governo, exasperado por causa da difícil conjuntura internacional, adotar medidas que desfaçam as conquistas macroeconômicas obtidas com grande sacrifício nos últimos 18 anos.

Desonerar para quê? - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 21/03/12


Se o governo Dilma estivesse mesmo interessado na recuperação da competitividade do setor produtivo, daria outro tratamento à tal desoneração da folha de pagamentos. Como estão as coisas, há o risco de que esta república dos sindicalistas seja responsabilizada pelo definhamento definitivo da indústria.

A ideia é substituir a contribuição de 20% sobre a folha de pagamentos que o empregador paga ao INSS por uma porcentagem sobre o faturamento bruto, que varia de setor para setor. A presidente Dilma várias vezes declarou que esta mudança é prioridade do governo. Mas, mesmo com os defeitos abaixo apontados, o processo avança devagar. O ministro Guido Mantega garante que, "nos próximos dias", será anunciada a entrada no processo de mais setores. A conferir.

Até agora, só foram objeto de desoneração os setores de software (programas de computador), call centers, confecção, móveis e calçados. Software e call centers passaram a contribuir com 2,5% do faturamento; os demais, com 1,5%.

A proposta original de desoneração foi feita em 2006. Propunha a redução da contribuição de 20% para 14%, sem compensação. Mas o governo a rejeitou, trocando-a pela que está em curso.

Embora às vezes sugira que pretenda também aumentar a competitividade das empresas, o governo já definiu que essa troca teria bases neutras, sem perdas nem para a Previdência nem para a empresa. A busca desse empate técnico aponta para o primeiro grande problema.

Se está definida em termos neutros, a empresa já não terá nada a ganhar com isso e o governo não estará diretamente interessado na redução dos custos de produção e, portanto, a desoneração não vai em direção ao aumento de competitividade - grande problema atual da indústria.

O maior objetivo do governo é incentivar a contratação de pessoal. Hoje, uma das razões pelas quais a empresa brasileira reluta em criar postos de trabalho é sua alta carga com os chamados encargos sociais. Para enfrentá-la, uma saída é terceirizar ou reduzir pessoal. É esse obstáculo que tende a ser removido, caso esse processo de desoneração dê certo.

Mas há mais defeitos, como seu caráter temporário. O governo fala em projeto piloto e deve, em princípio, conclui-lo em dezembro. Mas uma empresa não é uma sanfona, não pode operar cada hora de um jeito. Se tudo pode mudar em meses, fica difícil calcular custos, planejar e investir.

Outro defeito é a própria calibragem da desoneração. Como é feita por setor, a porcentagem do faturamento obriga a todas as empresas do mesmo jeito, embora não sejam iguais. Há as mais bem administradas e as que incorporaram mais tecnologia. Se uma indústria fatura mais por ser mais eficiente, acaba punida em benefício da empresa de pior desempenho.

Afora isso, numa temporada boa, o faturamento sobe e, com ele, também a contribuição. E, nas vacas magras, o faturamento emagrece. A vantagem aí é que a indústria terá menos razões para demitir pessoal porque a contribuição também cairá. Mas, nessas condições, fica difícil manter o princípio da neutralidade da contribuição, a menos que o rombo eventual já esteja previsto na alíquota do tributo.

Enfim, é muita mudança para pouco efeito prático, especialmente em aumento da competitividade da indústria.

Balançando o cachorro pelo rabo - ANDRÉ MELONI NASSAR e SÉRGIO LAZZARINI


O ESTADÃO - 21/03/12

Um dos grandes desafios da economia brasileira num contexto de real forte ante outras moedas é a garantia da competitividade internacional dos setores industriais.

O debate sobre a competitividade, embora tardiamente, ganhou duas novas variáveis que, se levadas seriamente em conta pelos formuladores de política, podem mudar o rumo das opções de política industrial adotadas pelo Brasil: produtividade e incorporação de tecnologia.

A competitividade tem duas vertentes: o lado exportador, que afeta, sobretudo, as indústrias ligadas aos setores do agro e commodities em geral, nos quais o Brasil é naturalmente competitivo; e o lado importador, que afeta os setores que não conseguem competir com os produtos importados e hoje carregam a bandeira da desindustrialização.

Estes últimos tendem a ser setores de manufatura intensivos em mão de obra e sem vantagens comparativas naturais. Pressionados por tributos elevados, carência de pessoal qualificado e entraves burocráticos diversos, setores de manufatura acabam demandando medidas de proteção dos mais variados tipos. E têm sido prontamente atendidos pelo governo em exercício.

Várias razões explicam por que os governos tendem a ser sensíveis aos pleitos dos setores não competitivos. O primeiro é a natural sensibilidade aos movimentos da opinião pública. O segundo é que governos têm uma janela de ação definida por seus mandatos e por isso preferem executar a planejar e não se preocupam em avaliar os impactos futuros das políticas adotadas no presente. Terceiro, pressionados por grupos setoriais em busca de proteções, sem ferramentas adequadas, os governos não são capazes de qualificar se a ajuda setorial transborda para a sociedade como um todo.

Há vários indícios, entretanto, de que o governo brasileiro pode estar fazendo escolhas de política com benefício duvidoso para consumidores e contribuintes.

Enquanto a produtividade da mão de obra na indústria de manufatura caiu, na agricultura cresceu com vigor. Os números indicam que até o setor de serviços ganhou mais produtividade que o industrial. Segundo análise de Regis Bonelli, do Ibre/FGV, citada pelo Estado de 18 de março, a produtividade do trabalho do setor industrial caiu 0,8% ao ano de 2000 a 2009, ao passo que na agricultura e nos deserviços cresceu 4,3% e 0,5% ao ano, respectivamente.

Submetido a intensa competição externa no lado exportador, o agronegócio teve de buscar constante ganho de produtividade como uma das ferramentas para sobreviver e prosperar num regime de câmbio apreciado. A indústria de manufatura, por sua vez, não aproveitou os anos de câmbio desvalorizado e mercado protegido para investir em ganhos de produtividade e não conseguiu estabelecer competências diferenciadas no País que permitissem desenvolver produtos aptos a competir com mercadorias importadas de baixo custo.

Não se obtém aumento da produtividade da mão de obra por acaso. É consenso entre os economistas que seu crescimento é fruto de investimentos em tecnologia e inovação. Isso significa que foram também as indústrias do agro que investiram de forma mais intensa em conhecimento diferenciado, o que contradiz o senso comum de que os produtos do agro são primários e com baixa tecnologia. A Bug Agentes Biológicos, empresa brasileira que criou processos inovadores de controle de pragas em grandes plantações, foi recentemente reconhecida como uma das mais inovadoras do mundo.

Esses fatos mostram a importância de critérios mais informados para a alocação de recursos públicos, sobretudo num contexto de pleno emprego e mercado interno com demanda crescente, como vivemos no Brasil. Proteger setores que são estruturalmente incapazes de competir e deixar de aplicar esses mesmos recursos nos que são capazes de gerar ganhos sustentáveis de produtividade, emprego e renda não são decisões racionais. Só seriam se fosse demonstrado que os setores de manufatura atualmente protegidos usarão o suporte governamental para construir vantagens competitivas duráveis no longo prazo. Se não o fizeram no passado, quem garante que isso ocorrerá desta vez? Há também uma discussão recorrente dentro da própria indústria, alegando que setores industriais extrativos e de produtos básicos estão tomando o lugar de setores com maior "valor adicionado".

Não sabemos de estudos específicos a esse respeito, mas nossa hipótese é que talvez expressivos ganhos de produtividade tenham sido obtidos justamente em cadeias produtivas de produtos mais básicos, com o minério ou celulose.

Assim,pressionar as firmas para maior "valor adicionado" - como ocorreu recentemente com a Vale, incitada a investir em siderurgia - pode, paradoxalmente, destruir valor.

Criticar produtos básicos somente por que são" básicos" é ignorar um aspecto fundamental: para extrair minério ou produzir celulose é preciso muita tecnologia em etapas amontante da cadeia.

Pôr foco em produtos básicos, alguns dirão, reforçará a dependência do Brasil em commodities, cujos preços tendem a ser muito voláteis e dependentes do contexto internacional. Mas proteger setores industriais pouco produtivos não é remédio correto.

O Chile, por exemplo, extrai royalties da sua atividade de mineração e aplica em fundos nacionais para suportar gastos contracíclicos e financiar a atividade empreendedora de pequenas empresas. É preciso deixar que os setores industriais se renovem e que a mão de obra seja alocada para setores e empresas com real potencial de crescimento.

Mais que proteção e subsídios setoriais, a economia brasileira precisa de uma orientação estratégica que ajude a alavancar os setores competitivos, produtivos e capazes de investir. Não é pelo rabo que se balança o cachorro.

Economia - ANTONIO DELFIM NETTO

FOLHA DE SP - 21/03/12

O conjunto de conhecimentos que, nos últimos 300 anos, os observadores do funcionamento do sistema econômico organizaram sob o nome de "economia política" foi, no fim do século 19, chamado de "economia", talvez na busca dissimulada de sua promoção a ciência.

A despeito da crise em que vivemos, tal conjunto de conhecimentos passa bem e continua sendo útil às administrações pública e privada:

1º) Na conscientização da sociedade de que, apesar dos fatores de produção terem usos múltiplos, cada unidade de um deles não pode geralmente ser utilizada, ao mesmo tempo, para múltiplos fins. O carvão usado na produção do aço não pode, simultaneamente, produzir energia elétrica. Só podemos distribuir o que já foi produzido. A maior distribuição de renda e o consequente aumento do consumo no presente implicam menor investimento e podem levar a um menor aumento do consumo no futuro.

2º) Na busca do uso eficiente dos recursos sempre limitados da sociedade para a satisfação aceleradamente crescente das "necessidades" criadas pelo próprio processo civilizatório.

3º) No reconhecimento da existência de restrições físicas determinadas pelas identidades da contabilidade nacional e de que não há artifício, mágica ou "vontade política" que permitam violá-las. Quando, inadvertidamente, o poder incumbente tenta fazê-lo, paga um amargo custo sem consegui-lo.

4º) No reconhecimento de que instituições adequadas que proporcionem os incentivos corretos usando o sistema de preços estimulem os agentes econômicos a atender simultaneamente os seus interesses e os da sociedade, o que sugere um papel importante para as políticas econômicas e sociais.

A economia não é uma ciência "dura" como a física, por exemplo, mas também tem uma "lei universal". Da mesma forma que há nesta a "lei da conservação da energia", naquela existe a lei aparentemente simplória de que "não existe almoço grátis!".

A economia esconde uma verdade essencial às vezes não percebida, mas que comparece inexoravelmente na hora da prestação de contas.

É claro que a distinção da natureza, da qualidade e da precisão entre os dois conhecimentos é abissal.

Nas últimas semanas, corrigiu-se um erro de estimativa de 60 milionésimos de segundo na velocidade dos neutrinos, enquanto, no Brasil, discutíamos, sem conclusão, se a "taxa de juros neutra" (mais difícil de detectar do que o neutrino) é alguma coisa entre 4,5 % e 6 %!

Pois bem, para o bolso dos brasileiros, a eventual correção de Einstein seria infinitamente menos importante que um erro de 1% na estimativa da taxa de juro "neutra" pelo Banco Central...

GOSTOSA


PIB potencial e o fluxo imigratório - BRÁULIO BORGES

VALOR ECONÔMICO - 21/03/12
Em uma pesquisa feita junto a cerca de 60 analistas no final de 2010, o Banco Central (BC) constatou que a estimativa mediana do mercado para o Produto Interno Bruto (PIB) potencial brasileiro era de 4,5% na época. Não obstante, desde o fim de 2011, alguns analistas vêm questionando essa estimativa, sugerindo que o potencial brasileiro já estaria mais próximo de 3,5% - o BC perdeu a oportunidade de atualizar essa estimativa no começo de fevereiro de 2012, quando perguntou aos analistas as estimativas de juro neutro, da taxa de emprego que não acelera a inflação (Nairu) e impacto da nova Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) sobre o IPCA.

A aplicação de um filtro à série dessazonalizada do PIB brasileiro sugere que o potencial estaria em torno de 3,7% ao ano no fim de 2011. O problema dessas estimativas puramente econométricas é que elas são bastante instáveis na ponta, além de serem muito ateóricas.

Nesse sentido, outras metodologias são mais robustas. A primeira delas é a estimação de uma curva de Phillips, a partir do conceito teórico de que quando o crescimento do PIB efetivo é igual ao potencial, não há aceleração da inflação. Tomando por base dados anuais entre 2003 e 2011 e a evolução do IPCA livres, essa conta aponta um potencial de 4,3% ao ano (essa estimativa não muda caso se considere a série do IPCA retroativo construído pela LCA a partir dos pesos da nova POF que passaram a ser incorporados no cálculo do IPCA a partir de janeiro de 2012). Caso seja considerado apenas o período 2006-2011, o potencial estimado cai para 3,9% ao ano (variação que sobe a 4% quando se considera o IPCA retroativo).

A outra metodologia para estimação do PIB potencial é a de função de produção, que decompõe a evolução do crescimento da capacidade de oferta doméstica em três grandes condicionantes: estoque de capital, oferta de mão de obra e ganhos de produtividade.

O estoque de capital brasileiro, série estimada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) até 2008 e atualizada pela LCA com os fluxos trimestrais de investimento e considerando uma depreciação de 4,7% ao ano, avançou 4,4% em 2011, mantendo o mesmo ritmo de alta observado em 2010. Assim, caso a única restrição à expansão da oferta no Brasil fosse esse fator de produção, nosso potencial de crescimento estaria hoje em 4,4% ao ano.

Não obstante, esse fator de produção tem um peso de "apenas" 40% na função de produção brasileira, com os outros 60% dependendo da oferta de mão de obra. A oferta de mão-de-obra, sob um prisma de médio e longo prazos, está associada à evolução da População em Idade Ativa (PIA) e também da tendência da taxa de participação - razão entre a População Economicamente Ativa (PEA) e a PIA.

Como a taxa de participação brasileira hoje já se encontra em um nível historicamente elevado, o crescimento da oferta de mão de obra tem dependido basicamente do crescimento da PIA, que se elevou em 1,5% em 2011 (as estimativas oficiais do IBGE ainda não incorporam os resultados do Censo 2010).

Por fim, os ganhos de produtividade. A sua estimação é feita por resíduo, descontando-se do crescimento efetivo do PIB a variação do estoque de capital em uso (estoque de capital ajustado pelo Nível de Utilização da Capacidade Instalada, NUCI, da economia) e a variação da população ocupada (idealmente deveriam ser consideradas as horas trabalhadas, mas esses dados são difíceis de serem obtidos para o agregado da economia brasileira). Não obstante, a produtividade é uma variável sabidamente pró-cíclica, em função da rigidez do mercado de trabalho. Com efeito, para se calcular o PIB potencial, é preciso levar em conta a tendência de crescimento da produtividade e não a sua variação em determinado ano. Embora conjunturalmente os ganhos de produtividade tenham desacelerado de uma alta de 2,6% em 2010 para apenas 0,5% em 2011, a tendência da produtividade brasileira está crescendo cerca de 1,2% ao ano.

Compondo o crescimento desses condicionantes da oferta agregada doméstica, chega-se a um crescimento potencial de 3,9% em 2011 - valor que se aproxima das outras estimativas apresentadas acima. Com efeito, um "educated guess" para o crescimento potencial da economia brasileira hoje é algo em torno de 4% ao ano.

E olhando para frente? Caso a taxa de investimento (razão entre a Formação Bruta de Capital Fixo, FBCF, e o PIB) fique em cerca de 20% entre 2012 e 2014, acima dos 19,3% de 2011, o estoque de capital deverá seguir crescendo cerca de 4,5% ao ano. Uma taxa de investimento chegando a 24% em 2014 - cenário do governo - poderia elevar esse crescimento do estoque de capital para cerca de 5,5%, agregando 0,4 ponto percentual ao crescimento potencial brasileiro). Não há razões para esperar um grande salto dos ganhos de produtividade, uma vez que eles dependem de reformas microeconômicas e de investimentos em educação que dificilmente maturam nesse prazo mais curto.

Uma grande incógnita reside no que esperar da oferta de mão de obra. As projeções atuais do IBGE apontam um crescimento médio de 1,4% da PIA em 2012-2014 - quadro não muito diferente daquele verificado na média dos últimos anos.

Não obstante, essas projeções não consideram fluxos imigratórios. Aparentemente estamos passando por uma mudança estrutural, em função do grande diferencial de crescimento e de desemprego do Brasil em relação a muitas outras economias no mundo, que vem atraindo estrangeiros para trabalhar no Brasil e gerando a repatriação de brasileiros.

Segundo o Ministério da Justiça, somente em 2011 o número de estrangeiros legalizados no Brasil se elevou em 540 mil pessoas (0,3% da PIA estimada para o Brasil em 2011). Essa é uma questão que passa a ser pertinente para avaliar a capacidade de crescimento não inflacionária da economia brasileira no futuro próximo. Um fluxo imigratório de 1 milhão de pessoas em idade ativa por ano pode aumentar nosso potencial em 0,4 ponto percentual - ou mais, caso esses trabalhadores tenham um nível médio de qualificação superior à média atual dos brasileiros, o que também elevaria os ganhos de produtividade de nossa economia.

Doença brasileira - ROLF KUNTZ

O ESTADÃO - 21/03/12

Não há doença holandesa por aqui. A indústria do Brasil está sendo corroída por uma doença inequivocamente brasileira. Longe de ser uma praga, como em outros países dotados de recursos naturais, a exportação de produtos básicos tem sido uma bênção para um país assolado por uma combinação de paralisia política, fisiologismo, populismo e incompetência governamental.

Exemplo de entrave político: se tivesse o apoio de uma base decente e confiável, o governo federal conseguiria facilmente, por exemplo, encerrar a guerra dos portos, uma versão degenerada do conflito fiscal entre Estados. Essa guerra é movida por meio de incentivos à importação, um estúpido protecionismo às avessas. Resultado: concorrência predatória e exportação de empregos.

Para renunciar a essa aberração, governadores cobram, com apoio de suas bancadas, compensação do poder central, como se estivessem negociando um direito. Essa é uma boa ilustração dos problemas enfrentados pelo Executivo no lodaçal político de Brasília -ampliado e aprofundado pelo próprio governo federal com sua estratégia de alianças com os piores.

Mas o governo tropeça e escorrega mesmo sem a colaboração de seus aliados e de um Congresso pouco envolvido com as questões de interesse nacional. Peca, em primeiro lugar, pela demora em reconhecer os problemas importantes. Erra, em seguida, quando tenta contornar a agenda necessária para tornar o País mais eficiente. Pressionado pelos fatos, acaba agindo. Age na direção certa, mas de forma incompleta, como quando se dispõe a eliminar os encargos sobre a folha de salários. Age também na direção errada, quando amplia o protecionismo e quando negocia, por exemplo,cotas para a importação de veículos mexicanos. É grotesco impor ao México um acordo semelhante àqueles impostos pelo governo argentino ao Brasil. Isso nunca melhorou a indústria argentina, nem tornará mais eficiente a indústria brasileira. É apenas malandragem barata, uma forma de contemporizar e evitar um trabalho mais sério.

Enquanto o governo, sob pressão,tenta resolver com ações de pequeno varejo problemas do atacado, os sinais de alertas e acumulam, cada vez mais assustadores. Do começo do ano até 18 de março, o valor exportado, US$ 45,6 bilhões, foi apenas 6,4% maior que o de um ano antes, enquanto o gasto com a importação, US$ 44,4 bilhões, foi 9,7% superior ao de igual período de 2011. Embora os consumidores se mostrem mais cautelosos, a demanda interna continua avançando mais velozmente que a oferta de bens industriais.

A diferença, como no ano passado, continua sendo compensada pela importação. Sem isso- é sempre bom lembrar -, a pressão inflacionária seria muito mais forte. O Banco Central teria maior dificuldade para proporcionar a redução de juros desejada pela presidente da República e cobrada com insistência por dirigentes da indústria e seus aliados do neopeleguismo trabalhista.

Mas atribuir os males da produção brasileira principalmente à taxa Selic e ao câmbio é quase uma demonstração de fetichismo. O câmbio é relevante, sem dúvida, mas há informações mais que suficientes sobre o descompasso entre a produtividade brasileira e a de países tanto emergentes quanto desenvolvidos. No ano passado, a economia brasileira cresceu menos que a alemã, a indonésia, a coreana, a mexicana, a turca e, obviamente, a chinesa e a indiana. O Brasil também cresceu menos que todos os países da América do Sul e da América Central, com exceção de El Salvador, segundo estimativa preliminar da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal). Vários desses países também foram afetados pela valorização cambial.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) acaba de fornecer novos dados sobre o desempenho comercial do setor em 2011. Segundo o levantamento, as importações supriram 19,8% dos bens industriais comercializados no mercado interno. Esse coeficiente, um recorde, foi 2 pontos porcentuais superior ao de 2010. Também o coeficiente de exportação aumentou 2 pontos e chegou a 19,8%, mas esse avanço resultou principalmente do bom desempenho do setor extrativo. No caso da indústria de transformação, o peso das exportações ficou em apenas 15%,6, 6 pontos abaixo do nível atingido em 2004.

Atribuir o enfraquecimento da indústria ao bom desempenho do agronegócio e da mineração, como se isso explicasse o problema cambial e toda a perda de competitividade das manufaturas, é uma evidente fantasia. Não tem sentido falar de doença holandesa. A mineração e o agronegócio acumularam competitividade durante anos e são relevantes na cadeia produtiva da indústria. A doença econômica é brasileira, mesmo, e seu foco principal é Brasília.

2013 será o ano da novela Kennedy - ELIO GASPARI


O GLOBO - 21/03/12

Às 12h30m do dia 22 de novembro de 1963, uma bala estourou a cabeça do presidente dos Estados Unidos, e assim começou a maior novela policial de todos os tempos. Quem foi? Com quem? Por quê?

Quem acha o assunto chato terá um ano penoso. Quem acredita que o crime tem um só autor, o ex-fuzileiro Lee Oswald, terá o que fazer, porque surgirão novas dúvidas. Quem acredita em conspiração, como 95% dos autores das centenas de livros e de 100% filmes que trataram do tema, vai se divertir.

A última novidade vem de Brian Latell, um ex-analista da Central Intelligence Agency, que publicará no mês que vem "Castro´s Secrets". Ele já escreveu "Cuba sem Fidel", já editado no Brasil. Agora, Latell revela que, por volta das nove da manhã do 22 de novembro, o ditador cubano reorientou o sistema de escuta e varredura das emissoras de rádios dos Estados Unidos, mandando que os operadores prestassem atenção ao que vinha do Texas. Essa história foi contada à CIA por um funcionário que recebeu a ordem e, mais tarde, asilou-se nos Estado Unidos. Ele diz: "Castro sabia. Eles sabiam que Kennedy seria assassinado." (Para quem gosta de conspiração: a CIA guardou essa informação por muitos anos.)

Latell coloca a hipótese de um troco de Castro no contexto de uma história antiga (e provavelmente verdadeira) na qual um major cubano acionado pela CIA para matar Fidel era um agente duplo. Segundo o livro, em outubro de 1963, ao ter seu visto negado pelo consulado cubano no México, Oswald disse que "mataria Kennedy por isso": "Fidel sabia da intenção de Oswald e não fez nada para impedi-lo."

O assassinato de Kennedy foi investigado por uma comissão de alto nível, presidida pelo chefe da Corte Suprema, Earl Warren. Com 888 páginas e 26 volumes de anexos, ela concluiu que Oswald não teve cúmplices. Um lobo solitário. Tudo o que fez na vida deu errado. Exilou-se na União Soviética, retornou aos Estados Unidos e viveu de biscates. Só teve êxito num projeto improvável: matar o presidente dos Estados Unidos, que passou debaixo de sua janela num carro aberto. Deu três tiros e acertou dois. Ao longo dos últimos 50 anos, a percentagem de americanos que acredita nela oscilou entre 10% e 20%. Em 2003 a teoria da conspiração arrastava 75% dos entrevistados. As hipóteses são tantas que, numa delas, foram disparados 21 tiros contra Kennedy. Hoje, o maior defensor do Relatório Warren é o promotor Vincent Bugliosi. Ele atuou em 106 casos, só perdeu um e jamais deixou homicida solto. Com vinte anos de pesquisas, escreveu "Reclaiming History" ("Resgatando a História - O assassinato do presidente John Kennedy"). São 1.612 páginas, mais 954 de notas. O e-book custa 9,61. Bugliosi sustenta a teoria do lobo solitário rebatendo todas as dúvidas. No ano que vem, apresentará uma minissérie de TV com oito horas de duração .

Passarão mais 50 anos e as teorias conspiratórias continuarão dominando. E não é para menos. Lyndon Johnson, o vice que substituiu Kennedy, não acreditava no Relatório Warren e ia além: "Kennedy queria matar Castro, mas Castro pegou-o primeiro." Mais: a CIA nunca contou à Comissão Warren que tivera o projeto de matar Fidel. O ex-diretor da Companhia, Allen Dulles, era o mais influente membro da comissão.

O tempo escoa para Dilma - EDITORIAL O ESTADÃO


O ESTADÃO - 21/03/12


Uma base de apoio assim, melhor não ter. É o que talvez esteja imaginando a presidente Dilma Rousseff diante da enorme dificuldade que encontra a cada dia para manter sob controle e minimamente afinada com os propósitos de seu governo a enorme, heterogênea e, tem-se visto, pouco confiável aglomeração de partidos que compõem aquilo que se convencionou chamar de maioria governista no Parlamento. O episódio da troca dos líderes do governo no Senado e na Câmara foi bem emblemático do espetáculo quase surreal que tem sido oferecido ao distinto público toda vez que Executivo e Legislativo discutem a relação, muitas vezes com o Judiciário formando a terceira ponta do triângulo. Nas últimas semanas, todas as iniciativas do Palácio do Planalto nesse assunto só têm feito piorar o quadro.

Afinal, o que está acontecendo? O governo não tem, de fato, ampla maioria no Parlamento? Tem uma maioria mais ampla do que aquela com que qualquer outro governo jamais pode contar nesses quase trinta anos depois da redemocratização do País. A atual maioria não é tão heterogênea e pouco confiável quanto aquela que deu apoio ao presidente Lula, principalmente em seu segundo mandato? Certamente, sim.

A diferença não está no Congresso. Está no Palácio do Planalto. Lula administrou tranquilamente a maioria parlamentar que ele próprio construiu graças a especialíssimas habilidades políticas respaldadas por sólido apoio popular. Mas ele tem tudo o que Dilma não tem: carisma, poder de sedução, malícia, paciência, uma concepção um tanto ligeira dos fundamentos da democracia e uma enorme capacidade de engolir sapos e fingir que não está vendo tudo o que é melhor ignorar. Lula inventou Dilma, tornou-a sua sucessora, mas seus poderes não chegam a ponto de conseguir transformá-la naquilo que ela não é.

É natural, portanto, que, ao herdar o modelo lulopetista de governar - do qual fez parte desde sempre, como ministra -, Dilma esteja sentindo grande dificuldade para dar continuidade ao pacto de poder construído por seu patrono. Mas isso não a absolve dos erros que tem cometido e que se refletem negativamente no governo. A óbvia obrigação de fazer a máquina do Estado funcionar implica também estabelecer com o Congresso uma relação produtiva em benefício dos interesses nacionais. E para se desincumbir dessa responsabilidade a chefe do governo dispõe de muitos recursos, simbolizados por sua caneta.

É claro que a ausência de uma incontrastável autoridade política como a de Lula estimula as raposas aliadas a ousadias contra Dilma que jamais cogitaram de praticar contra o ex-presidente. Insatisfeita desde a queda de Alfredo Nascimento do Ministério dos Transportes, a bancada do PR no Senado mandou um recado desaforado para o Planalto e declarou-se matreiramente na oposição. Cada vez mais, a matilha de apetite voraz que controla o Senado aumenta a pressão sobre Dilma. Cada vez mais, elevam-se as vozes de rebeldia na bancada governista na Câmara. Não foi por outra razão que Dilma deu bilhete azul para seus líderes no Senado, Romero Jucá, e na Câmara, Cândido Vaccarezza. E tanto pelo que as duas substituições significam em termos de alteração na correlação de forças no Parlamento quanto pela maneira desastrada como foram operadas, o resultado foi o agravamento da crise.

Por causa do clima de revolta reinante no Congresso, adiaram-se votações urgentes e relevantes, como a do Código Florestal e a da Lei Geral da Copa. É um exemplo claro de como a baixaria política que Dilma não consegue controlar pode afetar gravemente os interesses do País.

Não levará muito tempo para Dilma descobrir que, na tentativa de impor sua autoridade com a substituição das lideranças no Congresso, trocou seis por meia dúzia. Mas, mesmo que tenha de assumir o risco de ver a situação piorar muito, antes de melhorar, está mais do que na hora de a presidente da República, há quase quinze meses no poder, decidir se vai começar a governar de fato ou tornar-se definitivamente refém do fisiologismo e do atraso.

Progresso e meio ambiente PEDRO CAVALCANTI FERREIRA e RENATO FRAGELLI CARDOSO


VALOR ECONÔMICO - 21/03/12

Até meados do século XVIII, o padrão de vida da humanidade passou por uma longa estagnação, sendo a ideia de crescimento econômico algo estranho às sociedades da época. Com o advento da Revolução Industrial, começou-se a observar crescimento contínuo e sustentável da produtividade e da renda em vários países. Esse processo foi sempre desigual, mas vive-se muito melhor hoje que no passado.

No último meio século, em particular, analisando-se um grupo de 112 países de que se possuem dados minimamente confiáveis, somente dez não cresceram entre 1960 e 2009, e isto porque estiveram envolvidos em guerras ou revoluções. Em 70 deles a renda per capita mais que dobrou, sendo que em metade ela mais que triplicou.

De forma contínua, parcelas significativas da humanidade vêm sendo resgatadas da pobreza. Os indicadores sociais constatam elevação da expectativa de vida, menor mortalidade infantil, maior escolaridade e melhores condições materiais em geral. Dado o crescimento acelerado de países até pouco tempo miseráveis, como China e Índia, não é difícil imaginar que o progresso, conforto e condições sociais favoráveis alcançarão, em pouco tempo, a maioria da população do planeta.

Mas a incorporação dessas populações a um padrão de consumo e conforto de que estavam alijadas não se dá sem custos ambientais. Essa triste constatação tem levado ambientalistas mais alarmados - sem entendimento dos instrumentos econômicos disponíveis para disciplinar o problema, como uma combinação de tributação e subsídios -, e até alguns economistas recém-convertidos à causa - que parecem ter esquecido como funcionam aqueles instrumentos -, a defenderem a tese de que o planeta teria chegado ao seu limite físico, o que implicaria na necessidade de deter o progresso. "Mantido o ritmo de crescimento atual, quando toda humanidade alcançar um padrão de consumo próximo ao dos ricos países ocidentais, o planeta entrará em colapso", vaticinam histericamente.

Em um vídeo que circula pela internet (www.youtube.com/watch?v=BZoKfap4g4w), o economista Hans Rosling defende apaixonadamente o uso das máquinas de lavar - e máquinas de uso doméstico em geral - que poupam trabalho de mulheres, liberando-as de tarefas, permitindo-lhes se dedicar mais a si mesmas e aos filhos, ou ainda que se insiram no mercado de trabalho. Aquelas máquinas melhoram o bem-estar, a educação, e a produtividade das economias. Tentar bloquear o progresso e impedir o acesso dos pobres a esses bens materiais seria moralmente injustificável - "vão fechar a porta agora que estou quase entrando na festa?" - e fútil, pois a maioria que começa a ter acesso ao progresso não vai votar pelo atraso.

Dentro de 40 anos, o consumo de energia do planeta deve dobrar, pois 1 bilhão de pessoas se juntarão aos muito ricos que hoje respondem por metade do consumo mundial de energia. Diante da alta probabilidade de mudanças climáticas seríssimas, alguma alternativa à inviável proposta de se frear o crescimento econômico precisa ser encontrada. Caberá aos governos lutar em dois flancos para direcionarem suas economias rumo à preservação ambiental.

O primeiro flanco será estimular, por meio de subsídios e financiamentos, o desenvolvimento e a adoção de tecnologias limpas, pois a atividade de pesquisa é custosa e arriscada. Além disso, será necessário um esforço coordenado para mudar toda uma estrutura de funcionamento das economias baseada em tecnologias poluidoras.

Alguém só usará nova tecnologia não poluidora se muitos também a estiverem usando. Estes dois pontos significam que os governos precisarão não só subsidiar, por exemplo, pesquisas em carros elétricos, mas também incentivar a criação de pontos de abastecimento de energia para esses carros.

O outro flanco será punir quem polui ou usa tecnologias poluidoras. A melhor punição é o velho e bom mecanismo de preço. Há excesso de consumo de bens poluentes simplesmente porque, do ponto de vista da sociedade, o preço desses bens está muito baixo. Os bens poluentes precisarão ser pesadamente tributados, de modo a forçar aqueles que mais poluem a custear os subsídios a serem concedidos àqueles que adotarem práticas não poluidoras.

Não há também como evitar a regulação de algumas práticas e atividades, dada as óbvias falhas e mesmo a inexistência de mercados para disciplinar os poluidores. Muitas dessas medidas são impopulares e de implementação complexa, mas são tecnicamente factíveis. Há também a dificuldade de coordenação internacional, pois os custos da redução de emissões são potencialmente maiores em alguns países que em outros. Isso tem exigido delicadas negociações internacionais. Entretanto, a alternativa histérica e radical - "o planeta não aguentará, pare o progresso" - é não só socialmente injusta e economicamente ineficiente, como também o caminho mais provável para a inação que levará o planeta na direção que todos querem evitar.

Pedro Cavalcanti Ferreira e Renato Fragelli Cardoso são professores da pós-graduação da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas

CLAUDIO HUMBERTO

“Ninguém pode ser acusado de ser amigo de bandido”
Protógenes Queiroz, para quem não é crime Demóstenes Torres ser amigo de Carlos Cachoeira

CAIXA LIBEROU APENAS 4% DAS VERBAS PARA A COPA

O Tribunal de Contas da União, que monitora os investimentos públicos para a realização da Copa do Mundo, anda preocupado com as obras de mobilidade urbana (vias, metrô, veículo leve sobre trilhos etc), que na verdade serão o grande legado do evento para a população. O problema é que, até agora, a trinta meses da Copa, a Caixa Econômica Federal liberou apenas 4% dos R$ 11 bilhões reservados às obras.

ÚLTIMA HORA

A preocupação do TCU é que os projetos fiquem para a última hora, tornando-os bem mais caros e qualitativamente menos confiáveis.

DESCONFIANÇA

No Congresso, a oposição desconfia que o atraso é proposital, para abrir espaço a contratos emergenciais, sem burocracia e alto custo.

TEM QUE TER PROJETO

A falta de projetos executivos, apresentados pelas cidades-sede, pode ser um dos motivos para a Caixa segurar a liberação do financiamento.

A FORÇA DO NORDESTE

O deputado Inocêncio Oliveira (PR-PE) é candidatíssimo à presidência da Câmara, que já ocupou várias vezes. Suas chances são fortes.

PR EXIGE CARGO

Apesar do anúncio formal de “rompimento”, o PR permanece no balcão negociando as pazes com o governo Dilma, mas exige como prêmio o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. O PR já avisou que seu candidato único ao cargo é o senador Blairo Maggi (PR-MT). Nessa hipótese, o ministro Fernando Pimentel, amigo e “curinga” de Dilma, seria deslocado para o Ministério das Comunicações.

PB ARTICULANDO

Paulo Bernardo (Comunicações) poderá substituir a abominada Ideli Salvatti na condição de ministro-chefe da articulação política.

EMPREGO ESTÁVEL

Nos papos nada republicanos com o PR, o governo avisou que a demissão do ministro Paulo Sergio Passos (Transporte) é inegociável.

LANÇAMENTO

Jorge Oliveira lança hoje às 19h, no Carpe Diem da 104 Sul, Brasília, o livro Curral da Morte, sobre o tiroteio na Assembleia de Alagoas.

VAI VOCÊ PRIMEIRO

O PSB do governador Eduardo Campos só considera apoiar Fernando Haddad para prefeito após o PT oficializar a candidatura do ex-ministro em São Paulo. Coisa que o PT ainda não teve coragem de fazer.

CAROCHINHA

De olho no julgamento do mensalão, o PT anunciou que quitou a dívida “lícita” com o Banco Rural. Mas esqueceu que na CPI dos Correios em 2005, o publicitário Duda Mendonça disse que recebeu através de conta da offshore Dulsseldorf.

AGORA VAI

O PT acha que o problema do governo do Distrito Federal não é de gestão, mas de imagem. E contratou uma grande empresa para tentar convencer a imprensa a publicar fatos positivos sobre o governador Agnelo Queiroz.

O AUTOR É OUTRO

Os comerciais do Ministério da Justiça e a busca do consenso com as emissoras, sobre Classificação Indicativa, e até a parceria da Unesco, tudo foi idealizada pelo ex-secretário nacional de Justiça Romeu Tuma Jr.. Nem sequer o convidaram para o lançamento.

SOCORRO, AMBULÂNCIA

Apreensão no governo do Rio de Janeiro: envolvido no escândalo de ambulâncias superfaturadas da Toesa, o então subsecretário de Saúde, Romero Vianna, é contraparente do secretário Sérgio Côrtes.

DE MULHER PARA MULHER

Acusada de grosserias, a presidente Dilma fez uma gentileza ontem, no lançamento do Programa Nacional de Educação no Campo. Ao ser anunciada, a senadora Kátia Abreu (PSD-TO) ouviu alguma vaia de militantes do MST, no evento. Ao discursar, Dilma citou-a três vezes.

SHOW DE HORRORES

Sobre o estrago no carro, Thor, filho do bilionário Eike Batista, diz no Twitter que a “a estrutura é de fibra de carbono, material muito resistente, a 80 km/h ele seria dilacerado da mesma maneira”.

VOLTA ÀS ORIGENS

Tentando fazer o PMDB apoiar a Lei da Copa, o ministro Aldo Rebelo (Esporte) lembrou que já foi filiado ao partido, quando seu PCdoB estava proscrito pela ditadura. Logo recebeu o convite para voltar.

OURO ENGARRAFADO

Com a bebida liberada e um tatu como mascote da Copa do Mundo, a cachaça Tatuzinho, produzida em São Paulo, antevê dinheiro caindo do céu. 


PODER SEM PUDOR

NARIZES PODEROSOS

O catarinense Esperidião Amin presidia o PPR, em 1993, e certo dia puxou papo com o senador Pedro Simon, dizendo que até mudaria de partido só para ajudar a eleger o colega gaúcho presidente nacional do PMDB.

– Depois a gente elege José Richa presidente do PSDB – brincou Simon.

– Assim nós vamos formar a República Árabe Unida – respondeu Amin, referindo-se à ascendência dos três – E será uma república tridimensional. As decisões serão tomadas de acordo com as dimensões do nariz: o Richa ganha pela largura, tu ganhas pela abertura e eu, pelo tamanho! 

QUARTA NOS JORNAIS


Globo: Nas nossas costas – Vazamentos: leis só preveem atuação após óleo derramado
Folha: Dilma chama empresários para cobrar investimentos
Estadão: Governo deixa para os Estados decisão sobre bebida na Copa
Correio: Jovens vão às compras e afundam em dívidas
Valor: Sob pressão, União negocia o fim da ‘guerra dos portos’
Jornal do Commercio: Golpe frustra sonhos
Zero Hora: Reajuste do magistério é aprovado sob vaias

terça-feira, março 20, 2012

"Eles não querem saber de nada" ENTREVISTA COM ROMÁRIO - REVISTA VEJA

REVISTA VEJA

Ele foi craque nos gramados, mas quando chegou à Câmara dos Deputados viu que o jogo ali era mais bruto que o dos zagueiros desleais que enfrentou. O "baixinho", porém, não desiste



RENATA BETTI

Eleito com 147.000 votos pelo Rio de Janeiro, Romário, 46 anos, chegou à Câmara dos Deputados em Brasília, no ano passado, com o afiado instinto de artilheiro que fez dele um dos maiores craques do futebol brasileiro em todos os tempos. Romário, porém, logo descobriu que seria difícil jogar naquele campo. "Aquilo ali é o palco que uma panelinha de políticos usa para dar show na TV", diz o deputado de primeira viagem do PSB, que, descrente da política partidária, concentrou sua ação parlamentar na defesa da causa dos deficientes brasileiros. São de sua autoria duas iniciativas que melhoram a renda e dão mais garantias a eles. Desde que Ivy, sua sexta filha, fruto do terceiro casamento, nasceu com a síndrome de Down, há sete anos, Romário se entregou a ela e à luta para tornar melhor a vida das pessoas portadoras de necessidades especiais. Disse Romário a VEJA: "Essa menina mudou minha vida".

Como é sua vida como deputado em Brasília? 

Evito frequentar os mesmos lugares que os políticos. Na verdade, fujo deles. Não é por nada, não, mas, com exceção de um ou outro, prefiro esbarrar com essa turma só mesmo nos corredores do Congresso.

Não são boas companhias? 
Fiz amizade com um pessoal, mas, vou lhe dizer uma coisa, ali só uma minoria de gente vale a pena conhecer. De mais de 500 deputados, uns 400 não querem saber de nada. Nada mesmo. Dão as caras, colocam a digital para marcar presença e se mandam. Vejo isso o tempo todo. Virou cena tão comum que ninguém demonstra um pingo de constrangimento em fazer o teatro. Muita gente ali ocupa cargo de líder, é tratada como autoridade, mas está no quarto, quinto mandato e nunca propôs nem uma emendazinha. Como pode? Passam anos no bem-bom do poder sem cumprir uma vírgula do que prometeram. Mas, quando vão à tribuna, os caras falam bonito que só vendo.

Qual é o estilo Romário na tribuna? 
Até hoje, consegui falar duas vezes porque fui sorteado. Tirando o sorteio, só dá para iniciantes como eu terem acesso à tribuna nos horários em que o plenário está às moscas. É a panelinha que manda. Os donos do microfone são os líderes e os deputados com mais tempo de casa. Eu mantenho o estilo Romário, sem muita firula nem enrolação. Às vezes, me embaralho com o nome das coisas. É muita sigla e título para decorar: "Vossa excelência" para cá, "líder" para lá. Se tenho dúvida, pergunto para alguém do meu lado ou procuro a resposta na internet. Até aí, tiro de letra. Mas a tribuna ainda é um lugar muito estranho para mim.

Estranho por quê? 

O debate não segue uma linha lógica de raciocínio porque a maior preocupação ali é dar show para a televisão. Outro dia, um deputado começou a falar de salário mínimo. Aí, um outro chegou e ficou discursando sobre a ponte que tombou na cidade dele. Ou seja, a conversa não chegou a lugar nenhum. Uma loucura. Quando pisei lá pela primeira vez, aquilo me deprimiu. Queria fugir. Pensava o tempo todo: "Cara, me meti numa roubada". Mas fui me acostumando e, mesmo com essas esquisitices, estou gostando. No Brasil, falou que é político, as portas se abrem na mesma hora.

Aconteceu com você?

 Mesmo sendo o Romário, antes eu ligava cinco, dez vezes para o Ministério do Esporte, em busca de parceria para alguns projetos, e ninguém me retornava. Agora, é completamente diferente. Às vezes, leva um pouco de tempo, mas as pessoas me recebem, me ouvem. O poder atrai. Para aprovar minhas propostas, falei com ministro, líder da oposição, todo mundo.

Recebeu tratamento de deputado ou de celebridade do futebol?

 No começo, não teve jeito. Entrei para o grupo das "celebridadezinhas" do Congresso. Fazer o quê? Mas acho que já me distanciei bastante daquele grupo. Tem cara famoso ali só esquentando cadeira. Nunca dá o ar da graça no plenário nem faz nada de útil. Até daria nome aos bois, e olha que não são poucos, mas, sabe como é, daqui a pouco preciso do apoio de um e outro e acabo pagando caro pela língua.

Você foi bem recebido pelo alto clero, os caciques da Câmara dos Deputados?

 Me dou mais com os novatos e com o pessoal da pelada (entre eles, o ex-boxeador Popó, do PRB-BA, e o ex-goleiro do Grêmio Danrlei, do PSD-RS). Agora, vamos combinar que essa coisa de alto e baixo clero não tem valor nenhum. De fora, todo mundo acha que lá no alto está a nata da nata, mas isso é balela. O que mais tem no andar de cima é gente que não se coça para nada, quando não sai por aí se metendo em pilantragem.

Pelo que você viu até agora, dá para fazer carreira na política? 

Talvez. Fizeram, no ano passado, uma pesquisa de intenção de voto para a prefeitura do Rio e eu apareci com 6% logo de saída. Fiquei animado, mas o meu partido decidiu apoiar o Eduardo Paes (PMDB) e eu desisti de concorrer desta vez. Posso também seguir carreira de comentarista de futebol. É uma das profissões mais fáceis do mundo. O que mais tem por aí é palpiteiro que não entende nada do negócio se dando bem. Gente que, quando teve a chance de botar toda essa sabedoria em prática, no campo, só deu vexame.

O que acha da atual seleção brasileira? 

Sempre gostei do trabalho do Mano Menezes, o atual técnico da seleção, mas se o time ficar nesse nível aí, jogando essa bolinha, talvez seja hora de pensar em mudar de treinador. Está duro ficar na frente da televisão vendo jogo do Brasil. Ser técnico de futebol é bem mais complicado do que ser comentarista. Eu treinei o Vasco por dois jogos e saí com a certeza de que não levo jeito para a coisa. É muito ego de jogador para administrar. Sinceramente, se aparecesse um Romário na minha frente, não conseguiria aturar o cara.

Por quê?

 Eu era muito chato. Para começar, me achava o máximo. Passava dos limites e não estava nem aí. Se era o melhor, queria os meus privilégios. Cada um que conquistasse os seus. Mulheres na concentração era o básico. Com 18 anos, virei milionário e fiquei completamente deslumbrado. Era um favelado e, de repente, podia escolher carro, casa, roupa de marca. Tinha a mulher que eu quisesse. Por isso, entendo o comportamento de um jogador como o Neymar. Ele sou eu uns vinte anos atrás. É um tipo diferente do Adriano, por exemplo.

Em que o Neymar e o Adriano são diferentes? 

O Adriano gosta de voltar para as raízes. Prefere viver na comunidade a morar no Leblon. Aliás, comunidade não. É favela mesmo. E ali, claro, tem mais risco de se envolver com problemas. Eu às vezes visito a favela onde nasci, o Jacarezinho, na Zona Norte do Rio de Janeiro, mas prefiro viver na Barra da Tijuca, com a rede de futevôlei a dez passos do meu apartamento e do lado do shopping onde compro meus ternos Armani.

Por que deixou de pagar a pensão de uma de suas ex-mulheres? 

Por uma questão matemática. Para mim, dez dividido por dois é cinco. Para a Mônica, é oito. Vai fazer o quê? Toda semana tenho de comparecer a alguma audiência porque ela me colocou na Justiça. Já virou rotina. Esse foi meu primeiro casamento. Eu tinha 20 e poucos anos. Pode ter gente que não bota fé nisso, mas mudei muito com o nascimento da minha filha caçula, a Ivy.

Qual foi sua reação quando soube que ela nasceu com síndrome de Down?

 Fiquei em choque nas primeiras horas depois do parto. A Isabella (mãe da menina) tinha feito dois exames no pré-natal. O primeiro indicava que o bebê tinha um risco razoável de nascer com Down. O segundo praticamente descartou a hipótese. Então, não estava preparado para aquilo. Quando o médico me avisou, eu me perguntava: "Por que isso foi acontecer logo comigo? O que eu fiz de errado?". Já tinha cinco filhos, todos eram normais. Eu mesmo quis dar a notícia à Isabella. Disse: "Nossa menininha nasceu diferente". Ela sorriu, emocionada, e respondeu: "Calma, vai ficar tudo bem". A reação dela me deu muita força.

Em algum momento você pensou em esconder a situação? 

Nunca. O médico ainda não tinha nem diagnosticado qual era a síndrome de Ivy quando deixei o hospital e fui treinar. Naquele tempo eu jogava no Vasco. Convoquei a imprensa e contei: "Minha filha nasceu. Ela não é perfeita, mas estou muito feliz". Desde o começo, tive o instinto de deixar tudo bem transparente. Se o próprio pai age com preconceito, escondendo a criança, ela vai ter pouca chance de ter uma vida legal. Sei de muitos pais que rejeitam o filho com Down, a ponto de não saírem de casa com ele. Pagam uma babá e deixam a criança de lado, como se não fosse sua. Depois que comecei a me envolver nesse mundo, descobri umas celebridades que têm filhos assim e jamais trouxeram o assunto à tona. Não dou os nomes por respeito, mas acho uma pouca-vergonha.

É angustiante perceber limitações em sua filha? 

As expectativas precisam se ajustar, claro. A Ivy tem o tipo mais brando de Down, a síndrome de mosaico, e se vira muito bem. Os primeiros quatro anos de vida foram os mais difíceis. Ela fez fisioterapia intensiva, porque tinha a musculatura mais fraca. Ainda vai à fonoaudióloga e à natação. Fiz e faço tudo o que posso pela Ivy. Hoje com 7 anos, conta até 100 em português, até 20 em inglês, identifica as cores e até as marcas de carro. Na escola, está só um ano atrasada.

O que sabia sobre a síndrome de Down antes de ela nascer?

 Nada. Quando o problema não é com você, ele não o sensibiliza. Depois que ela nasceu, comecei a conversar com outras famílias e a ler tudo sobre o assunto. Ainda bem que tive minha filha numa fase menos baladeira. Crianças assim precisam de muito carinho.

Ela sofre preconceito?

 Na minha frente, ninguém nunca teve coragem de manifestar. Mas as pessoas no Brasil ainda olham diferente para os deficientes. Felizmente, o assunto está aos poucos deixando de ser tabu. É uma de minhas bandeiras no Congresso e em casa. A Ivy é a primeira a falar sobre sua síndrome. Outro dia, a gente estava andando na rua quando cruzamos com uma menina que também tinha Down. Minha filha comentou na mesma hora: "Papai, olha, essa garota é igual à Ivy?". Perguntei como sabia disso, e ela apontou para o próprio rosto, orgulhosa, dizendo: "Porque ela é assim".

O que muda na CBF com a renúncia do presidente Ricardo Teixeira? 

Nada. Basta dizer que o novo presidente, o José Maria Marin, surrupiou uma medalha dos meninos do Corinthians na caradura. Botou no bolso e levou para casa. Não tenho nenhuma ilusão. Trocamos um ruim por outro pior. Que diferença faz? Eu nunca escondi minha aversão à figura do Ricardo Teixeira e não é agora que vou dar uma de elegante.

Por que você brigou com Ricardo Teixeira?

 É uma história antiga. Um dia, antes da Copa do Mundo de 2002, ele apertou minha mão bem firme, olhou nos meus olhos e disse, com aquela pose de mandachuva: "Romário, você está dentro do time". Ainda perguntei se o Felipão (o então Técnico da seleção Luiz Felipe Scolari) não ia se opor. Era direito dele não querer me escalar. Teixeira respondeu: "Eu mando nisto aqui. Pode fazer as malas". Três dias depois, meu nome estava fora da lista de convocados. Nunca mais me dirigi ao Ricardo Teixeira. O cara não tem palavra.

O secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, exagerou nas críticas que fez à organização da Copa no Brasil? 

Ele foi arrogante e mal-educado, o que não me surpreende, mas está certo no que diz. Nosso atraso é absurdo mesmo. A Copa até vai sair do papel, mas vão erguer uns puxadinhos aqui, fazer umas maquiagens ali. Tudo mais caro do que deveria por causa da pressa. Muita gente se beneficiará disso. Pode escrever. Vai chover obra emergencial sem licitação e a corrupção vai correr solta. Como deputado, pretendo acompanhar o processo de perto e escancarar a bandalha.