segunda-feira, março 19, 2012

Fermento do PIB - GEORGE VIDOR


O Globo - 19/03/12 


A grosso modo, para cada ponto percentual de aumento da taxa de investimento a economia brasileira pode crescer 0,4 ponto de forma sustentável (sem atiçar a inflação, por exemplo). Por esse cálculo — apresentado por Regis Bonelli, pesquisador do Ibre da Fundação Getúlio Vargas — o Brasil precisa que a taxa de investimento evolua para 24% ou 25% do Produto Interno Bruto (PIB), diante dos 19,3% de 2011.

Somente assim a economia brasileira teria condições de crescer ao ritmo desejável de 6% ao ano. Por enquanto, teremos que nos contentar com um máximo de 4%. Não é pouco, pois com uma expansão de 2,7% o país conseguiu gerar muitos empregos formais, com carteira assinada, no ano passado São empregos de mais qualidade, com salários capazes de atrair um número crescente de pessoas para o trabalho.

A população brasileira agora aumenta menos de 1% ao ano. E a população economicamente ativa, disposta ao trabalho, ainda vem se expandindo em torno de 1,5% (em face do maior crescimento demográfico de quinze, vinte anos atrás). Portanto, a renda média por habitante continuará em ascensão razoável mesmo que a economia não consiga crescer além de 4% ao ano.

No entanto, se mantido um ritmo abaixo de 4%, os brasileiros podem ter a sensação que "estacionaram".

Para alguns especialistas, embora a renda média por habitante do país esteja na faixa de US$ 10 mil (em geral são consideradas ricas as economias com renda per capita acima de US$ 20 mil), os brasileiros, ajudados pelo crédito, já se comportam de maneira semelhante aos que estão no patamar de US$ 15 mil a 16 mil. É um fenômeno, evidenciado pela antecipação de consumo e/ ou contratação de dívidas de mais longo prazo (para a compra da casa própria e bens duráveis, como automóveis, geladeiras, aparelhos eletroeletrônicos, mobília).

Tal sensação tem como impulso inicial o aquecimento do mercado de trabalho, de norte a sul, de leste a oeste, com ganhos reais de salários, mas tende a perder força. Não é garantido que, quando o Brasil chegar a ter uma renda média de US$ 15 mil a sensação de riqueza será de US$ 20 mil. Pode ser até que os padrões de consumo não se alterem em relação aos percebidos atualmente.

Mas esse quadro pode se alterar se o ritmo de crescimento da economia avançar para mais de 5% ao ano. Expandir a taxa de investimento gradualmente para 24% a 25% ao ano deveria ser um dos principais desafios — se não o principal — da política econômica nesta década.

As exportações criam o anteparo para esse crescimento, mas a base da expansão continuará sendo o mercado doméstico. Ou seja, o retorno dos investimentos se dará essencialmente em reais. Se o financiamento dos investimentos não for feito com poupança doméstica (que só é acumulado se deixarmos de "comer sementes", tema abordado na coluna da semana passada), o Brasil ficará mais dependente de capitais estrangeiros, mais suscetíveis a mudanças de humores dos mercados financeiros internacionais, que andam propensos à histeria.

O exemplo deveria vir do setor público, o maior agente econômico, porém o que ainda menos poupa e menos investe, relativamente.

A "despoupança" vem diminuindo, mas como o país paga o alto preço de uma elevada carga tributária, o setor público deveria aproveitar essa situação para zerar o déficit. Até 2015, no mais tardar.

No dia 20 de maio começa a funcionar o primeiro BRT (Bus Rapid Transit) do Rio, um ônibus articulado que circulará por vias expressas exclusivas, com o propósito de reduzir pela metade o tempo do percurso.

Este primeiro BRT, chamado de TransOeste, com 59 quilômetros de extensão, atenderá a uma região mal servida de transportes públicos.

Deve contribuir para uma mudança de hábitos da população, pois foi planejado para que as pessoas façam baldeações nas mais de 60 estações do percurso entre Santa Cruz e a Barra da Tijuca. Não haverá linhas de ônibus convencionais — a não ser nos 15 dias iniciais, para que os passageiros se habituem com a mudança — fazendo o mesmo trajeto. Esse período de adaptação é necessário para quem quiser comprovar a diferença dos dois sistemas, constatando na prática que o BRT é mais confortável e economiza tempo. A partir de 20 de maio linhas convencionais vão "alimentar" o BRT, fazendo circuitos menores.

Como serão monitorados por uma central de controle (que ficará no Terminal Alvorada, na Barra) pelo GPS, cada passageiro saberá exatamente, num painel de informações instalado nas estações, quando chegará o próximo ônibus articulado.

Para que não haja diferença de qualidade no transporte, os ônibus convencionais "alimentadores" serão modernos, com ar condicionado, o que será uma novidade nessa região da cidade, que desconhece o conforto nos transportes públicos.

As estações terão caixas eletrônicos semelhantes aos dos bancos para que os passageiros comprem os cartões que dão direito ao uso do BRT e dos ônibus alimentadores.

Não será possível usar a integração pagando em dinheiro ao motorista, por exemplo. Os cartões poderão ser recarregados nas estações no valor desejado pelo passageiro nas estações ou locais vizinhos.

Cerca de 200 mil pessoas deverão usar este primeiro BRT por dia. Estão programados outros três. O maior de todos será o último, da Avenida Brasil, com duas linhas exclusivas (uma direta, e outra parando em todas as estações), projetado para transportar 48 mil pessoas por hora, mais do que o metrô. Um centro de treinamento especial teve de ser criado para o BRT.

Oficialmente, será inaugurado no dia 29 de abril, com capacidade para treinar 1.200 profissionais, de mecânicos a motoristas. Fica em Sepetiba.

O simplismo da presidente - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 19/03/12


A presidente Dilma Rousseff prometeu editar uma medida provisória por semana, se for preciso, para conter a depreciação do dólar, uma das dores de cabeça do empresariado brasileiro. Diante de um grupo de dirigentes sindicais em visita a seu gabinete, no Palácio do Planalto, ela voltou a esbravejar contra os bancos centrais do mundo rico. Ao emitir enorme volume de euros, dólares e libras, esses bancos centrais causam no mercado cambial o desastre por ela descrito como tsunami monetário, forçando a valorização do real e de outras moedas de países em desenvolvimento. A presidente e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, podem ter boas razões para se queixar dessa política. Mas ela simplifica perigosamente os fatos quando formula seu diagnóstico da situação brasileira: "Nosso problema é (sic) juros, câmbio e inflação".

Nem sequer no governo esse diagnóstico simplista é seguido de forma coerente. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reconhece outras dificuldades enfrentadas pela indústria brasileira. Por isso se dispõe a estender a mais quatro segmentos a desoneração da folha de salários. Além disso, admite, com mais de meio ano de atraso, um erro cometido nas primeiras desonerações, quando fixou em 1,5% o tributo sobre o faturamento das empresas incluídas naquela rodada. Foi logo advertido do erro: para algumas indústrias, aquele imposto pesaria mais que os encargos retirados da folha. Mas sobra um dado positivo: o reconhecimento de um problema independente da valorização cambial.

Também a presidente Dilma Rousseff acaba indo além do próprio diagnóstico, ao cobrar uma redução do preço da eletricidade na próxima renovação de concessões. O custo da energia elétrica é uma importante desvantagem das indústrias brasileiras. Esse problema é bem conhecido, mas o governo jamais se esforçou seriamente para resolvê-lo. Para a solução, a presidente e seus ministros terão de fazer alguma coisa em relação ao peso dos tributos e de outras taxas na formação das tarifas do setor elétrico. Esses encargos correspondem a cerca de 34% da fatura.

O item mais oneroso desse conjunto é o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), cobrado pelos governos estaduais. Estará o governo da União disposto a enfrentar uma negociação com os governadores? Desde 2003, as autoridades federais evitam todo esforço desse tipo. Isso explica o fracasso de suas tentativas de reforma tributária. Mas também há taxas da União embutidas naquele custo. Dessas, pelo menos, o governo central poderá cuidar, se quiser mesmo fazer sua parte.

De alguma forma, o governo federal reconhece a existência de questões muito mais complexas que aquelas apontadas pela presidente aos dirigentes sindicais. Mas falta equacionar de modo mais completo e consequente esses problemas, para desobstruir o caminho do crescimento.

Alguns desses problemas limitam a redução dos juros, embora os dirigentes do Banco Central (BC) se esforcem para atender a presidente. Sem um controle sério do gasto público, o Comitê de Política Monetária do BC não poderá ir muito mais longe no corte da taxa básica de juros. Isso não é segredo, mas, até agora, os dirigentes do BC proclamam sua fé nos bons propósitos fiscais do Executivo. Em algum momento, terão de reconhecer a realidade. Sem uma política de gastos mais contida e mais eficiente, será também difícil mexer mais amplamente nos impostos.

A presidente deve saber disso, mas fala, quase sempre, como se ignorasse ou menosprezasse essas questões. Ela também prometeu cobrar mais investimentos dos empresários. Mas eles investem mais regularmente que o governo, e investiriam mais, se as condições, a começar pela tributação, fossem mais propícias.

Em 2011, a economia brasileira cresceu bem menos que a de muitos outros países emergentes - menos, até, que a alemã, que sofre as consequências da crise do euro. Seu potencial de crescimento sem graves desequilíbrios - cerca de 4,2% no segundo mandato do presidente Lula - hoje deve estar na faixa de 3,5% a 4% ao ano, segundo a Fundação Getúlio Vargas. A redução é explicável por fatores bem mais complexos que os indicados pela presidente. Falta o governo extrair as consequências desse fato.

SOL E MAR - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 19/03/12
Lula planeja passar temporada em uma praia para se recuperar do tratamento contra o câncer de laringe a que se submeteu até o começo do mês. Se os exames indicarem que o ex-presidente está curado, ele deve tirar dez dias em abril para descansar antes de se engajar em campanhas eleitorais.

BANHO

Segundo amigos próximos, Lula está "louco" para tomar um banho de mar.

RITMO

Outra decisão já tomada, com amplo apoio da família, é diminuir o ritmo alucinado de participação em eventos e palestras pelo mundo. A agenda de Lula, antes da doença, estava lotada, praticamente sem intervalos para descanso.

DINHEIRO VOANDO

O Detran-SP descobriu que estava sem receber os recursos do seguro obrigatório DPVAT havia três anos. O departamento tem direito a 1% do total arrecadado com a taxa, que é paga por todos os motoristas, mas a verba não estava sendo repassada por problemas burocráticos.

Depois de solucionada a pendência, foram recuperados mais de R$ 80 milhões.

MINICIDADE

O dinheiro deve ser investido na criação de um Observatório de Trânsito, que gerará estatísticas permanentes e atualizadas sobre o tema. Vai financiar também a reativação da Cidade Mirim, espaço em que crianças usam bicicletas e carrinhos para aprender sobre as regras do tráfego. A primeira deve ser instalada em um shopping paulistano.

MEIO CAMPO

Quem acompanha o andamento das obras dos estádios para a Copa do Mundo de 2014 garante que só três deles ficarão prontos a tempo para a Copa das Confederações, evento-teste que acontece em junho de 2013: os de Fortaleza, Belo Horizonte e Brasília.

O Maracanã, anunciado como palco da final do torneio, só deve ficar 100% pronto no segundo semestre do ano que vem.

ENCONTRO DA PIPOCA

Os cineastas Evaldo Mocarzel, Ugo Giorgetti e André Ristum foram à reinauguração do Espaço Itaú de Cinema, no shopping Frei Caneca. As atrizes Paula Franco, Gabriela Portieri e Carolina Tilkian também circularam pelo evento.

PELA LENTE DO AMOR
Roberto de Carvalho

A cantora Rita Lee lança o CD "Reza" pela gravadora Biscoito Fino no fim de abril. Seu marido, o músico Roberto de Carvalho, é quem assina as fotos de capa e do encarte do álbum e algumas de divulgação. Muitas delas, ele fez com o celular iPhone. Sobre clicar a mulher, Carvalho fala: "É uma tremenda responsa! A câmera é uma espécie de arma, mal usada pode causar transtornos. Com o tempo, acho que a fotografada sentiu que o olho do fotógrafo não era o crítico, mas sim o do amor".

PERPÉTUA DE VOLTA

A atriz Joana Fomm, 71, que passou por um tratamento contra câncer de mama em 2007, retorna à TV no segundo semestre. Ela foi convidada para fazer a próxima novela das seis da Globo, de João Ximenes Braga.

VAZOU O GÁS

O fotógrafo Cristiano Mascaro ganhou uma ação contra a Comgás. Há nove anos, ele vendeu uma imagem da Estação da Luz para um livro patrocinado pela empresa. Meses depois, se deparou com a foto ilustrando uma publicidade. A companhia terá que indenizá-lo por danos morais, entre outras coisas, em R$ 52 mil. A Comgás diz que vai recorrer.

CHARLES ENTREVISTA

Charles Cosac, da editora Cosac Naify, está conversando com o Canal Brasil para fazer uma série de 12 programas de entrevistas com artistas plásticos.

CARDÁPIO

O restaurante Chez Bernard, em Salvador, vai começar a servir pratos com carne de paca criada por Emílio Odebrecht em Camaçari (BA). O empresário, que é acionista do estabelecimento, tem uma criação de 500 roedores. O preço médio do prato será de R$ 140.

NEYMAR NO REHAB

Neymar ganhou uma homenagem da banda de samba-rock Blackzuka, da zona oeste de São Paulo. Fizeram uma adaptação de "Rehab", de Amy Winehouse, com letra exaltando o jogador. O refrão "No, no, no" virou "Tem gol, gol, gol".

VADINHO

O ator Marcelo Faria voltou às novelas em 'Amor Eterno Amor' (Globo); ele está em cartaz em São Paulo com a peça 'Dona Flor e Seus Dois Maridos'

CURTO-CIRCUITO

O livro "Alberto Giacometti: Coleção da Fondation Alberto et Annette Giacometti, Paris" será lançado hoje, às 19h30, na Livraria da Vila do shopping Pátio Higienópolis.

O Creedence Clearwater Revival toca no domingo no Credicard Hall. 14 anos.

A banda Saco de Gatos lança o CD "Era pra Ser Vinil" no dia 30, às 22h, no café Paon. 18 anos.

Os médicos Mauro André Arguello e Fabiana Corio dão aula de especialização hoje, às 8h, no instituto Ibeco, na Vila Mariana.

A grife de relógios Jaeger-LeCoultre terá loja no shopping JK Iguatemi.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY 

O debate sobre a crise na indústria - LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

VALOR ECONÔMICO - 19/03/12

Volto hoje ao tema da crise na indústria brasileira. O retorno a um assunto de que já tratei neste espaço não se faz por falta de alternativa, mas pela relevância desta questão no debate atual. Nos últimos dias vários analistas também refletiram sobre as causas estruturais da incrível perda de energia que assistimos nos últimos tempos na indústria manufatureira do Brasil.

A divulgação de um desastroso índice de produção industrial no ultimo mês de janeiro - queda de mais de 2% em relação ao mês de dezembro - provocou um choque na opinião pública. O governo entrou em pânico e reagiu com medidas pontuais de grande intensidade, como a aceleração dos cortes de juros por parte do Banco Central (BC) e novas ações para tentar brecar a entrada de capitais financeiros. A presidente ameaçou o mercado com uma medida provisória a cada dia para estancar a especulação cambial que ainda é vista em Brasília como a causa última e mais importante da paralisia que parece tomar contas das fábricas brasileiras.

Felizmente este choque negativo de expectativas também provocou um aprofundamento das reflexões de analistas fora do governo. A excitação da mídia em relação a este tema fez com que questões centrais, que vinham sendo deixadas de lado, passassem à primeira linha de preocupações, dando outra dimensão ao debate. Dou um exemplo que me parece exemplar: vários órgãos da imprensa trouxeram à luz do dia a questão da absurda carga de tributos - federais e estaduais - que onera o custo da energia elétrica para a indústria. Isto em um país que tem a felicidade de ter na barata e limpa energia de origem hidráulica a parte mais importante de sua matriz energética.

Mais uma vez insisto na minha tese de que são causas estruturais que estão por trás da crise atual. Com o fortalecimento do real e a abertura de nossa economia às importações, uma série de aleijões, que se escondiam por trás de uma economia fechada por um longo período, começaram a atingir a competitividade da indústria brasileira. Costumo dizer que o fortalecimento de nossas contas externas representou a queda do Muro de Berlim que limitava a entrada das importações na matriz de oferta de produtos industriais nos mercados brasileiros. Da mesma forma como aconteceu na Alemanha, sem este divisor artificial entre mercado interno e externo, uma verdadeira revolução ocorreu em vários mercados nos últimos anos no Brasil.

Para enfrentar este choque de competição o governo - e algumas das lideranças empresariais - preferiram o caminho mais fácil de eleger inimigos externos como responsáveis pelas dificuldades criadas para as empresas nacionais. Sem entender - e aceitar - o caráter racional destas mudanças preferiram buscar medidas pontuais que restrinjam a competição das importações. Afinal reformas estruturais sempre atingem padrões de comportamento firmemente estabelecidos na sociedade e implicam em perdas para alguns setores.

O governo não entende que em uma economia de mercado organizada - e este é o caso do Brasil hoje - existe uma integração racional entre seus vários setores. Em outras palavras, a economia responde naturalmente a mudanças estruturais causadas por novas condições externas e internas. E qualquer tentativa artificial - principalmente por parte de intervenções pontuais do governo - de impedir que esta acomodação ocorra vai gerar tensões e, no longo prazo, distorções perigosas em vários mercados.

Vivemos nestes últimos tempos um destes momentos em que, para tentar proteger o setor industrial de reflexos negativos criados pela nova situação externa da economia brasileira, o governo prejudica setores que se beneficiam de condições extraordinárias de eficiência e de produtividade, como é o caso da agricultura e do setor mineral.

Dou um exemplo dramático e que ainda não foi devidamente percebido. Durante décadas a agricultura brasileira viveu à míngua por conta da escassez de recursos para financiar suas atividades de custeio e investimento. Os empresários do setor dependiam quase integralmente do crédito do Banco do Brasil que, como os cometas, aparecia e desaparecia em função das crises fiscais do governo federal. Pois, mais recentemente, em função da confiança externa no setor e em nossa moeda, uma modalidade de crédito criada pelo mercado passou a irrigar o campo: antecipação de pagamentos por conta de exportações futuras de seus produtos. Como as commodities têm seus preços denominados em dólares, há um casamento perfeito entre o endividamento dos produtores e suas receitas de exportação.

Nesta situação os juros baixos dos mercados internacionais de crédito passaram a beneficiar diretamente os produtores brasileiros. Pois uma das medidas mais recentes tomadas pelo governo na sua cruzada contra a valorização especulativa do real - a imposição de um IOF de 6% na entrada destes recursos - tornou muito mais caro e difícil a obtenção destes recursos por parte dos exportadores brasileiros e entre eles, nossos agricultores. Será que o governo avaliou corretamente esta medida? Parece-me que não.

Foram-se os idos de março - VINICIUS MOTA

FOLHA DE SP - 19/03/12

SÃO PAULO - A presidente Dilma Rousseff sobreviveu na semana passada ao 15 de março, dia universal da conspiração. Nessa data, há 2.056 anos, uma emboscada terminou na morte de Júlio César, esfaqueado em pleno Senado de Roma.

Um adivinho, diz a tradição, havia prevenido César, em marcha para concentrar o poder na República, sobre os idos de março -o décimo quinto dia do mês, no calendário romano. A data chegou, César hesitou, mas resolveu tocar sua vida normalmente e ir ao Senado.

Encontrando o vidente no caminho, segundo a célebre dramatização de Shakespeare, tentou esnobá-lo: "Os idos de março chegaram". "Ah, César, mas não passaram", devolveu, cínico, o adivinho. Deu-se a seguir a conhecida desgraça.

Melhor para Dilma que os idos de março de 2012 tenham passado. Mas o episódio romano nos lembra que rebeliões na base governista podem acabar mal.

Não falta gente investida nas lides premonitórias a antever problemas sérios para a presidente. Contrariar um Calheiros, um Jucá e um Eduardo Alves agora, avisam, é plantar a tempestade de amanhã.

O trio, vá lá, não está à altura de um Brutus, de um Cássio ou de um Casca. Tampouco os dotes oratórios e literários de seu mentor e presidente do Senado se comparam aos de um Cícero.

Nem sequer a vingança tramada pelos conspiradores parece assustadora. Um sopapo no código florestal, uma rasteira no fundo de pensão dos servidores, uma cotovelada na Lei da Copa. Nada que vá alterar o valor do sestércio.

Se souber conduzir o processo com um mínimo de destreza, Dilma poderá tanger velhos oligarcas brasileiros até a rocha Tarpeia, na beira do precipício onde os romanos lançavam os condenados. Não corre nenhum risco de terminar, metaforicamente, como César, exangue aos pés da estátua de Pompeu.

Harém partidário - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO


O Estado de S.Paulo - 19/03/12


Por que o governo Dilma carrega uma base parlamentar tão extensa, conflituosa e perdulária quanto uma amante argentina? Só PSOL, PSDB, DEM e PPS praticam oposição de fato e votam contra as proposições governistas com assiduidade. O PV fica a meio termo. Juntos, os oposicionistas mal chegam a uma centena de deputados, menos de 20% da Câmara.

Os demais 80% votam tão frequentemente sob a orientação dos prepostos de Dilma que quando não o fazem, mesmo que em algo de menor importância, é notícia. Não faz diferença ganhar por 50 ou 250 votos de margem. Mas custa mais caro. Carregar uma maioria tão inchada requer um guindaste que só se mantém em pé graças a um contrapeso de verbas e cargos.

Em tese, uma maioria de 257 votos seria suficiente para o governo aprovar praticamente tudo o que quer na Câmara, já que não há nenhuma reforma constitucional fundamental à vista. As bancadas do PT (85 deputados), PMDB (76) e do bloco PSB-PTB-PCdoB (63) somam 224 votos. Os 33 restantes para a maioria absoluta viriam de partidos quânticos como PSD (47) ou PP (39).

Outras siglas que condicionaram o apoio a Dilma no Congresso a ministérios, como PR (36 deputados) e PDT (26), poderiam ser usadas conforme a necessidade - e sem cadeira cativa na Esplanada. Mas todo esse raciocínio cai por terra quando confrontado com um dado da realidade: PT e PMDB estão em rota de colisão eleitoral.

O crescimento petista nas eleições deste ano, se ocorrer, tende a desfalcar a bancada peemedebista. Não só porque o PMDB é o partido com maior número de prefeituras (1.181) e, assim, com mais a perder. A história tem sido assim. Embora parceiros na chapa presidencial, as duas siglas têm um passado muito mais de conflito do que de aliança, principalmente nos municípios.

Os partidos esparramam sua base municipal enquanto estão no poder. O auge do PMDB foi no governo Sarney, quando o partido mandava e desmandava. Em 1988, os peemedebistas elegeram 1.606 prefeitos, ou 38% das vagas em disputa. Na época, PT e PSDB tinham menos de 1% das prefeituras. Mas a história estava prestes a mudar, à medida que as duas siglas passassem a polarizar a disputa pelo governo federal.

Em cada uma das quatro eleições municipais seguintes o poder relativo do PMDB diminuiu, enquanto o do PSDB e, depois, o do PT cresceu. Em 2004, dois anos após perderem a eleição presidencial coligados aos tucanos, os peemedebistas bateram no ponto mais baixo de sua base municipal: 19% das prefeituras. Era preciso mudar a estratégia.

Começou a guinada rumo ao PT. O PMDB não se coligou a Lula em 2006, mas tampouco se aliou aos seus rivais do PSDB. Em 2008, petistas e peemedebistas já eram aliados no Congresso e no governo. Resultado: o PMDB voltou a aumentar sua base municipal, que chegou a 22% das prefeituras.

Em meio a rusgas e aproximações, as duas siglas formalizaram sua união em 2010, com Michel Temer (PMDB) se tornando vice de Dilma Rousseff. Mas o casamento não ajudou os peemedebistas a expandirem sua base municipal. Ao contrário, nos últimos quatro anos, entre cassações e traições, a tropa peemedebista minguou para 21% dos prefeitos.

Toda vez que isso acontece, os cardeais do partido ficam nervosos. É a colcha de retalhos municipalista que cobre as oligarquias estaduais do PMDB e lhes serve de manto protetor em Brasília. Sem a base, a cúpula desaba. Enquanto isso, a base municipal petista segue crescendo. Dobrou em 2004, cresceu 50% em 2008 e passou de 10% das prefeituras.

No longo prazo, a aliança PT-PMDB é insustentável. Os conflitos ficarão cada vez mais óbvios com a aproximação das eleições. Resta a Dilma mimar o resto do harém partidário para quando o divórcio chegar.

Japão mostrou que energia nuclear é segura - LEONAM DOS SANTOS GUIMARÃES

FOLHA DE SP - 19/03/12


As consequências do acidente em Fukushima foram limitadas, sem vítimas fatais da radiação; não há razão para não expandir o nosso parque nuclear nacional

O acidente ocorrido em quatro das 14 usinas nucleares afetadas pelo terremoto e pelo tsunami no Japão teve reais consequências ao público em termos de fatalidades e de prejuízos à saúde -e ao meio ambiente, em termos de comprometimento do uso do solo.

Essas consequências foram bastante limitadas quando comparadas às dimensões da terrível tragédia humana, social, econômica e ambiental causada por esse fenômeno natural excepcionalmente severo. O fato desse acidente não ter causado vítimas fatais pela radiação confirma que a energia nuclear é essencialmente segura.

Essa ocorrência, entretanto, levou os governos, dentre eles o brasileiro, a uma reavaliação da segurança de suas usinas e do cronograma de novas construções. O que está em jogo nessa reavaliação?

Primeiramente, necessidades energéticas crescentes. A eficiência energética e as energias renováveis são um imperativo, mas não serão suficientes para atender à dinâmica da demanda.

Em seguida, segurança de abastecimento: hidrelétricas com reservatórios e usinas nucleares são as formas mais econômicas para garantir, na base, a geração em grande escala de energia.

Enfim, o clima: limitar o reaquecimento do planeta a 2°C significa construir, no mundo, cada ano, durante vinte anos, 100 GW de usinas sem emissões.

Na França, onde o parque elétrico é mais de 90% hidráulico e nuclear, são emitidas menos de sete toneladas de CO2 por habitante, contra mais de 11 na Dinamarca ou na Alemanha, onde cerca de 50% de energia surge do carvão.

A reavaliação que está sendo feita no Brasil está focada nas lições aprendidas. Elas mostram a importância de serem revisitadas as bases de projeto das usinas, de forma a assegurar a disponibilidade dos sistemas de segurança, mesmo diante de fenômenos naturais extremos.

Também importante é a definição de medidas adicionais para mitigação das consequências desses fenômenos, dotando as usinas de recursos complementares para controlar acidentes que excedam essas bases.

A reavaliação está aperfeiçoando ainda mais a segurança das nossas usinas e não aponta razões técnicas para mudanças nos planos de expansão do parque nuclear nacional, que já desempenha um importante papel na matriz energética.

Hoje, Angra 1 e Angra 2 contribuem de forma eficaz para a gestão segura do Sistema Interligado Nacional (SIN), cuja geração é, e ainda será nesta e na próxima década, baseada na hidroeletricidade, limpa, barata e renovável -caso único e exemplar para o mundo.

De 2006 a 2011, a geração térmica mínima no SIN foi de 2.000 MW médios, tendo a máxima chegado a 10 mil MW. Logo, o Brasil já vem necessitando de uma pequena geração térmica de base, na qual a nuclear é a mais competitiva.

No horizonte de 2020, a expansão da oferta por novos aproveitamentos hidrelétricos a fio d"água e pela crescente geração eólica e biomassa sujeitarão o sistema a sazonalidades maiores que as atuais, ampliando a necessidade dessa geração térmica.

No horizonte de 2035, a contribuição térmica crescerá em importância, pois se somará ao contexto um potencial hidrelétrico aproveitável em vias de esgotamento.

Baseado nos princípios do desenvolvimento sustentável, é praticamente impossível elaborar qualquer cenário mundial para os próximos 50 anos no qual, juntamente com as energias renováveis e com a eficiência energética, não exista uma participação da geração nuclear.

A alternativa seria exaurir os combustíveis fósseis, aumentando brutalmente as emissões, ou negar as aspirações de melhoria de qualidade de vida para bilhões de seres humanos que almejam sua inclusão social. Fukushima não mudou essa realidade.


CLAUDIO HUMBERTO


"Tenho mais que otimismo, tenho confiança"
Presidente da Fifa, Joseph Blatter, sobre aprovação da polêmica Lei Geral da Copa


Síria é teste no encontro de Dilma com Obama

A visita oficial da presidente Dilma a Washington, mês que vem, poderá ser um teste para a diplomacia "responsável e protetora" do Brasil em relação à Síria, protelando sanções já impostas pela União Europeia, Japão, EUA e até pela Liga Árabe. Barack Obama está determinado a convencer Dilma da importância de "estrangular" o regime do ditador Bashar al-Assad, até que o fascínora renuncie e convoque eleições.


Vai e vem

O Brasil condenou na ONU a ditadura síria, mas insiste no "diálogo" para proteger civis - passam de 9 mil os mortos pelo carniceiro Assad.


Dança

Diplomatas estrangeiros creditam a política acanhada do Brasil à campanha por uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU.


O dono

Obama ignorou a abstenção do Brasil na ONU e mandou atacar a Líbia durante a visita ao Rio, há um ano e após discurso moderado de Dilma.


Imexível

Dilma não quis mais Romero Jucá (PMDB-RR) como Líder governo no Senado, mas não mexe no vice-líder: seu amigo Gim Argelo (PTB-DF).


CPI

Depois de Carlinhos Cachoeira, o araponga Idalberto Matias de Araújo, o Dadá, sargento reformado da Aeronáutica, é quem ameaça. Ele está preso na Papuda e indiciado pela PF no esquema da jogatina de Goiás. Dadá disse a policiais do DF, no cárcere, que contará os segredos da operação Satiagraha caso o delegado federal e deputado Potrógenes Queiroz (PCdoB-SP), de quem foi braço direito, insistir em CPI.


Ding-dong!

A Avon está vendendo menos no Brasil. Sinal de que "o espetáculo do crescimento", tão festejado no passado por Lula, está sem maquiagem.


Sanções

Decreto de Dilma tornou obrigatória a obediência do governo do Brasil à decisão da ONU de prolongar as sanções contra a Libéria.


Massacre

Pressionando por paz e democracia na Libéria, a ONU embargou a venda de armas ao seu governo e a compra de "diamantes de sangue".


Em linha reta

O ex-líder do governo na Câmara e deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) não poupa de criticas a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais): "Ela é um trem no trilho, só segue uma direção, não tem capacidade de tentar outro caminho", desabafou a lideres aliados.


Isolada

Ideli Salvatti ainda mantém alguma conversação no Senado graças à intervenção de José Sarney e Renan Calheiros, contra quem agora ela atua. Na Câmara, nem isso: não tem interlocutores na base aliada.


Alvo é Renan

O novo líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), não esconde que seu projeto é detonar o líder do seu partido, Renan Calheiros. Num ato falho, durante aparte a Romero Jucá, ele chamou o senador de Roraima de "ex-líder Renan Calheiros". Nem se apercebeu.


Jogo de cena

Eduardo Braga finge querer conversar com o PR, mas está adorando o tal "rompimento" do partido. Isso mantém longe do governo Dilma o seu maior inimigo, o senador Alfredo Nascimento (AM), presidente do PR.


Irregularidade

Empresa geradora de energia elétrica, a Brasil PCH - da qual a Petrobras é sócia majoritária - foi autuada em multas milionárias no Espírito Santo e Goiás por falhas em seus livros fiscais. José Alcides, diretor de Gás e Energia da Petrobras, preside o conselho da empresa.


Doce vida

Por conta do contribuinte, até açúcar na veia: até março de 2013 os servidores da gráfica do Senado poderão consumir R$ 18,8 mil em açúcar cristalizado no cafezinho. Eles não temem engordar.


Escudo ilegal

Relator da Reforma Política, Henrique Fontana (PT) promete colocar a boca no trombone contra o financiamento público de campanha assim que votar o relatório: "Chega de obras superfaturadas financiando campanhas e de políticos com escudo, igual piloto de Formula 1".

PODER SEM PUDOR

Desafio de araque
Coronel Chico Heráclito, ACM do seu tempo, também sabia jogar pesado naquele Pernambuco dos anos 60. Certa vez, reza a lenda, ele foi desafiado para um duelo pelo valente líder das Ligas Camponesas, Francisco Julião. Chico Heráclito resolveu enveredar pela baixaria para se livrar do confronto, embora tenha dito que o aceitava:
- Topo, mas impondo condições. O local será em Limoeiro e as armas serão estas: eu entro com as patas, e o Julião com os chifres.

SEGUNDA NOS JORNAIS


Globo: Governo prevê vazamentos em série na Bacia de Campos
Folha: Gasto com servidores põe Estados em alerta
Estadão: Brasileiras são libertadas após sequestro no Egito
Correio: MPF vai cobrar da UnB ações contra trotes
Valor: Importação alivia pressão de custos na indústria
Estado de Minas: As ruas do barulho
Jornal do Commercio: 45% dos eleitores esquecem escolha
Zero Hora: Rodoviárias terão nova gestão em 282 cidades

domingo, março 18, 2012

A guerra com que nos enrolam - JOÃO UBALDO RIBEIRO


O Estado de S.Paulo - 18/03/12


Com um certo embaraço para quem é tido, generosa e erroneamente, como conhecedor do que agora ouço chamarem de "Brasil profundo", não entendo praticamente nada de jogo do bicho. É uma ignorância vergonhosa e até mesmo, em algumas ocasiões, fator de exclusão social, porque fico inteiramente por fora de várias conversas. Sei que 24 é veado, porque sou do tempo em que os estudantes cujos primeiros nomes começavam com letras do meio do alfabeto corriam o risco, a depender do tamanho das turmas, de pegar o número 24 e passar o ano inteiro ouvindo piadinhas na hora da chamada. Em Sergipe, saía porrada. E também sei que 34, aliás número de minha cadeira na Academia, é duas cobras, porque sonhei com duas colegas de faculdade, contei a elas e elas, para quem eu de vez em quando fazia um joguinho, pois que eram tempos em que as moças não podiam expor-se a certos ambientes, me aconselharam entre risos que eu jogasse em duas cobras. Dito e feito, ganhei na dezena, comemoramos na cantina, com três coca-colas e três pastéis.

Depois disso, nunca mais joguei. Aliás, minto. Quando eu morava na Bahia, passava temporadas no Rio. Durante uma dessas, no restaurante em que me enturmei, éramos visitados desde as 11 da manhã, pela tarde adentro, por um simpático e sorridente cambista - ou pelo menos acho que era o nome que se dava - que levava as apostas à casa de jogo do bicho (de novo, não sei se é este o nome usado para a porta do estabelecimento onde se fazia a fezinha diretamente; na Bahia era "tenda do bicho"). De vez em quando eu jogava e uma vez, assessorado por um companheiro de mesa, cerquei milhar, dezena e centena, do primeiro ao quinto, numa rodada que chamavam de Paratodos e em outra, baseada num sorteio diferente. Não cravei nada, minha história de acertos ficou naquela dezeninha.

Acabo de confessar que já fui contraventor, não me regenerei para o bom convívio social e, com revoltante cinismo, não manifesto arrependimento algum. Na verdade, vocês devem ter percebido, pelo meu jeito de abordar o assunto, que sou um desses elementos capazes de reincidir a qualquer momento e admito que, se sonhar com o Ronaldinho do Flamengo, sou homem de, levado pelo permanente sorriso do craque, procurar o apontador aqui da esquina e descarregar uma graninha (coisa modesta, de escritor mesmo) no jacaré. Mas atirem a primeira pedra os que me reprovam. Um estrangeiro não entenderia nada do que falei acima, mas vocês todos, inclusive muitos dos que nunca jogaram, entenderam tudo. Ainda outros, também em grande número, estão capacitados a me ensinar muita coisa, ou tudo, sobre o jogo do bicho.

Não se trata de ser a favor de jogos de azar, trata-se de tentar acabar com essa hipocrisia em torno de um jogo tão arraigado em nossa cultura e até mesmo nossa língua. Estou convencido de que, se fosse feita uma pesquisa séria, o povo brasileiro, que joga no bicho de norte a sul, revelaria muito maior confiança no bicho que nos seus governantes, os quais se acostumou a ver como ladrões, privilegiados, mentirosos ou incompetentes. Tudo bem, é para proteger o cidadão, impedindo-o, por exemplo, de gastar o dinheiro do supermercado no jogo. Então vamos também protegê-lo de senas, megassenas, raspadinhas e não sei quantos mais jogos de azar legalizados, onde ele pode perfeitamente fazer a mesma coisa. Claro que é hipócrita quem torce um nariz santimonial para o jogo do bicho, mas joga na megassena, entra no bolo do futebol, curte um pôquer no fim de semana ou dá sua raspadinha.

Agora acaba de ser realizada uma brava operação no Rio de Janeiro, em que grandes bicheiros foram presos. Mais do mesmo filme, uma enorme farsa, uma encenação em que todos fingem acreditar que aquilo vai resolver alguma coisa. Não me manifesto nem contra a decisão judicial que deflagrou a operação, nem contra a polícia que a realizou. Tanto uma quanto outra obedeceram a lei, o que, embora longe de ser a regra entre nós, é pelo menos o cumprimento da lei. Mas essa lei, em toda a nossa história, tem sido ignorada, até agora é ignorada em muitos Estados e sempre dependeu da vontade de quem está no poder. Nunca houve nenhum problema público grave, causado pela tolerância ao jogo do bicho, ao contrário da intolerância.

A intolerância e a guerra ao bicho não se devem a nenhuma proteção do cidadão, que aparece aí somente para enfeitar e dar um aspecto cívico ao besteirol farisaico em que ela se fundamenta. O bicho, variando com as circunstâncias de tempo e lugar, precisa continuar ilegal. Desta forma, nas mãos de um governante sagaz, é até um instrumento político de grande serventia. Seria mais fácil, mais coerente, mais econômico, mais gerador de empregos, mais racional e mais pragmático que ele fosse legalizado. Isso, contudo, poderia ser o golpe de morte num setor não tão desprezível de nossa economia, e não estou sendo irônico. Sem a ilegalidade, para onde iriam as propinas e peitas variadas que, como se diz hoje, "fazem a diferença" para milhares e milhares de chefes de família em todo o Brasil, de policiais civis e militares a autoridades dos mais diversos níveis, além de vereadores e deputados? Pode-se desmontar toda essa complexa rede socioeconômica e suas ramificações, sem um sério impacto? E que dizer dos equipamentos usados nesse combate, seus fabricantes, distribuidores, vendedores e compradores comissionados? Precisamos lembrar que o Rio, assim como Cabul ou Bagdá, é um dos centros urbanos onde se usa rotineiramente equipamento de combate pesado e o mercado brasileiro nessa área fica cada vez mais suculento. O que dá pra rir dá pra chorar, a morte e a violência são um bom negócio para muitos. Assim como a guerra ao jogo ilegal - e nós, os otários de costume, acreditamos e pagamos.

Convite em causa própria - JOÃO BOSCO RABELLO


O Estado de S.Paulo - 18/03/12


Pelo menos um terço (nove) dos 27 senadores titulares da Comissão de Educação e Cultura, que aprovou convite para ouvir a ministra Ana de Holanda amanhã, é dono de emissoras de rádio e televisão ou tem laços estreitos com as empresas. Boa parte tem débitos altos com o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), alvo da inquirição à ministra.

Esse vínculo elimina o indispensável quesito da imparcialidade dos interrogadores no cumprimento do objetivo do convite - o de teoricamente esclarecer supostos delitos do órgão arrecadador. Trocando em miúdos, não recolhedores de direitos autorais usam os mandatos para transferir da órbita privada para a do Estado a discussão de dívidas empresariais, cujo foro adequado para o questionamento é o Judiciário.

O autor do requerimento preside a fracassada CPI do Ecad, que não consegue quórum para funcionar. Recorreu à Comissão de Educação, gentilmente cedida pelo senador Roberto Requião (PMDB-PR), condenado pela Justiça Federal a ressarcir a TV Educativa do Paraná por uso político da emissora.

O relator da CPI, Lindbergh Farias (PT-RJ), defensor da estatização do Ecad, tem como primeiro suplente o sociólogo Emir Sader, desafeto declarado da ministra que o demitiu da presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa, após rejeitar publicamente sua nomeação para o cargo.

Ao interesse dos devedores de direitos autorais, somam-se os do núcleo digital do PT, empenhado em vilanizar os autores pelos ônus do acesso às suas obras através dos grandes provedores de Internet, e que sonham com a volta de Juca Ferreira à pasta.

Débitos vão

além de R$ 1 bi

Levantamento feito na legislatura passada registrou que um terço do Congresso Nacional (cerca de 200 parlamentares) é proprietário de emissoras de rádio ou TV, em nome próprio, de parentes ou de "laranjas". O débito cobrado pelo Ecad às emissoras de rádio e TV (aberta e por assinatura) no País é superior a R$ 1 bilhão. Não havendo base para que a ministra responda pelo Ecad, um órgão privado contratado por associações de autores, o pretexto de sua convocação é o de que uma nota técnica solicitada ao Minc pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que investiga denúncia de cartelização dos preços dos direitos autorais, é uma "peça de defesa" do Ecad.

Tudo a seu tempo

Interlocutores de Serra defendem que a aliança com o PP de Maluf fique para o final da pré-campanha, para evitar o aumento do índice de rejeição. Dono de cobiçado tempo eleitoral na TV, o PP já ocupa a Companhia Habitacional de Desenvolvimento Urbano de Geraldo Alckmin Bandeira branca

Preocupada com a destinação das verbas federais, Dilma Rousseff chamou o ex-líder do governo Romero Jucá (PMDB-RR) para uma conversa no Planalto amanhã. Apeado do cargo sem aviso prévio, ele ganhou a relatoria do Orçamento de 2013, alarmando o governo. Dilma não falava com Jucá há meses e, no início do governo, levou semanas até confirmá-lo no cargo.

Fidelidade à prova

O governo tem seis votações secretas no Senado nos próximos meses, em que a fidelidade da base será testada, sob nova direção. São nomeações para diretorias de agências reguladoras: três da ANTT (Transportes Terrestres), duas da Anvisa (Saúde) e uma da Antaq (Transportes Aquaviários). Neste caso, o Planalto hesita em aprovar Fernando Fialho, apadrinhado de José Sarney.

Tabelinha entre a glória e a corrupção - HANS ULRICH GUMBRECHT

O ESTADÃO - 18/03/12

Brasileiros agem como se o cartola fosse o câncer, não apenas um sintoma, e o Brasil continuasse a ser o melhor do mundo no futebol



Tornei-me um fã dos esportes na Copa do Mundo de 1954; tornei-me cidadão americano 12 anos atrás; tenho vivido e ganhado a vida na Califórnia desde 1989; faço visitas de trabalho ao Brasil pelo menos uma vez por ano, desde 1977 - e não posso deixar de amar o País e enxergá-lo tanto de dentro como de fora. Por todos esses motivos, senti uma felicidade e um alívio natural quando li, no começo da semana, que Ricardo Teixeira tinha renunciado à presidência da Confederação Brasileira de Futebol e do comitê organizador da Copa do Mundo de 2014. Mas, de onde exatamente veio minha alegria e quais são as esperanças para o futuro contidas nesse sentimento?

Houve uma época, desde meados do século passado, em que o talento futebolístico acumulado no Brasil era tão avassalador que o sucesso, num nível internacional, parecia inevitável. Depois que o País ganhou seu primeiro título, em 1958, ninguém questionava se seria capaz de repetir o feito - a pergunta era, caso isso não acontecesse, o que teria dado tão errado. Poder-se-ia culpar técnicos incompetentes, tensões entre diferentes grupos de jogadores, falta de sorte ou problemas na arbitragem. Nunca, porém, se questionava que o Brasil fosse o número um no futebol, porque sempre houve uma maioria de brasileiros entre os dez melhores jogadores do mundo. Ao longo de todas essas décadas, o Brasil pareceu ser um gigante adormecido do ponto de vista político e econômico. Tratava-se de um país com recursos naturais inesgotáveis e dono de um potencial profissional e cultural igualmente ilimitado, mas também - e acima de tudo - um país que nunca foi capaz de corresponder às expectativas por ter se acostumado tanto à corrupção nos níveis mais elevados de sua sociedade. Pelos melhores e piores motivos, a glória no futebol e a corrupção na política estiveram visivelmente, intimamente e estranhamente associadas uma à outra.

A partir dos anos 90, as coisas começaram a mudar em ambas as dimensões. Sob o governo de Lula, e provavelmente ao menos em parte graças ao seu talento político específico, o Brasil se tornou uma potência econômica mundial e seu potencial de exercer influência internacional cresceu constantemente. Os brasileiros têm desfrutado dessa história de sucesso (cuja verdadeira origem são eles mesmos, é claro) como se estivessem num conto de fadas - e seu comportamento, digno de conto de fadas, consiste em diversas camadas de cegueira. Como fazia seu ex-presidente, a maioria dos brasileiros age como se a corrupção não existisse (queixa-se apenas quando ela os prejudica pessoalmente). Como seu ex-presidente, eles seguem cultivando a inocência moral de um país de terceiro mundo (inocência que nunca existiu e, nos dias de hoje, tornou-se bastante irresponsável); e parece que uma grande maioria de brasileiros também partilha da cegueira de seu ex-presidente em relação à realidade contemporânea do futebol no País. Essa maioria não gosta de admitir que o Brasil deixou de ser o grande celeiro natural dos maiores talentos futebolísticos mundiais; nem de reconhecer que, na Copa de 2010, sua seleção simplesmente conquistou a posição merecida, num ponto entre a quinta e a oitava colocação.

Os brasileiros de Lula querem tudo: a riqueza e a influência internacional em perpétuo crescimento, a inocência e a glória futebolística. Precisam de tempo para se acostumar à ideia de que riqueza e influência trazem consigo novas responsabilidades e, talvez, sua situação atual tenha alterado o status cultural do futebol para o País. Hoje, o futebol brasileiro não é mais a única dimensão na qual o País consegue brilhar no palco internacional e, por outro lado, passou a ser a única na qual os brasileiros não estão mais dispostos a tolerar corrupção. Ricardo Teixeira se tornou a encarnação do pior do Brasil de ontem e de hoje, a soma daquilo que restou de uma antiga tradição de corrupção e do que parece ser o início de uma mediocridade futebolística internacional. É por isso que todos no Brasil, e fora dele, gostavam tanto de odiá-lo - e é também por isso que esse ódio é tão redundante.

Mas Romário, cujos lampejos de cáustico brilhantismo político às vezes se comparam a seu talento com a bola, tem razão - nada vai mudar se os brasileiros perderem seu tempo com metáforas de cânceres extirpados com sucesso em vez de enfrentarem a realidade nacional. A corrupção persiste na Confederação Brasileira de Futebol (e poucos cidadãos a enxergam e denunciam com a clareza demonstrada pela presidente Dilma - provavelmente pelo vago medo de que assumir tal posição vá dificultar sua pequena corrupção pessoal no dia a dia). O estado dos preparativos para a Copa do Mundo de futebol dá motivos de sobra para temer que o País possa viver um momento de constrangimento nacional. Todos os brasileiros sabem que escolher Ronaldo como o "rosto da Copa do Mundo de 2014" é um sintoma da tendência nacional de tornar os problemas invisíveis: ele nunca foi um jogador de talento histórico, apesar do que dizem certas estatísticas superficiais, e sua personalidade não o qualifica como alguém realmente capaz de representar o potencial de um Brasil mudado.

Pode-se dizer que o que estou escrevendo é a opinião de um estrangeiro demasiadamente pessimista (talvez até invejoso). Mas os brasileiros agem como se o rechonchudo Ronaldo fosse um verdadeiro campeão, como se Teixeira fosse um tecido cancerígeno e não apenas um sintoma e como se o Brasil continuasse a ocupar a posição inquestionável de melhor do mundo no futebol - e como se uma Copa respeitável pudesse ocorrer a partir do nada. Há muito em jogo para o Brasil em 2014, não apenas nos campos de futebol, e o único sinal de esperança visto até agora foi o ato falho do sucessor de Teixeira, que disse quanto estava ansioso para trabalhar com - Romário. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
HANS ULRICH GUMBRECHT É PROFESSOR DE LITERATURA NA UNIVERSIDADE DE STANFORD E AUTOR DE ELOGIO DA BELEZA ATLÉTICA (CIA. DAS LETRAS)

GOSTOSA


Inimigos de Classe - MARTHA MEDEIROS

 ZERO HORA - 18/03/12

Quando vai chegando a data do aniversário de Porto Alegre (26 de março próximo), começam as enquetes: o que há de bom na nossa cidade, o que temos que as outras não têm? Respondo: Luciano Alabarse.

Afora seu mérito como organizador de um dos maiores festivais de teatro do país, o Em Cena, que traz anualmente grandes nomes internacionais para os palcos gaúchos, além de uma seleção caprichada do que de melhor se faz na dramaturgia nacional e local, Luciano é, em essência, um senhor diretor.

E mais uma vez prova isso com seu recente espetáculo, Inimigos de Classe, que esteve em cartaz no Theatro São Pedro e que merece longa temporada. A peça, escrita pelo dramaturgo inglês William Nigel, e que estreou em 1978, traz uma temática que, aparentemente, é rançosa (a delinquência nas escolas), mas que segue atual, basta lermos os jornais.

No caso da peça, Inimigos de classe seis alunos da periferia de uma grande cidade acabaram de expulsar uma professora da sala e aguardam um substituto que tenha peito para enfrentá-los. Enquanto esse professor não chega, resolvem eles próprios dar aula uns para os outros.

É nesses momentos performáticos, quando se transmutam em “mestres”, que revelam sua violência e fragilidade simultâneas, além de dar as pistas para que entendamos que eles não tiveram muitas opções, a não ser se refugiar na marginalidade. O que diferencia essa peça de filmes clássicos como Ao Mestre com Carinho e menos clássicos como Mentes Perigosas é que não há figura do herói, o professor que resgatará a garotada e os conduzirá a um final feliz.

Os seis alunos não possuem essa boia salva-vidas. Eles precisam buscar em si mesmos os recursos para escapar da desesperança. Ninguém vai me conhecer, mínguem vai me conhecer!”, grita em surto, o personagem principal, Ferro, o mais destemido de todos, dando bandeira da dor e do medo que sente em sua solidão existencial. Ele e os demais colegas são frutos de lares desestruturados e problemáticos.

Só atingem um simulacro de segurança quando exacerbam uma virilidade patética e ao mesmo tempo brutal. Claro, ninguém pode conhecer seus gostos, suas carências, seu desespero íntimo: seria a revelação de uma fraqueza e de uma humanidade que eles na permitem eu venha à tona.

Mas que cedo ou tarde virá. Luciano Alabarse é o maestro dessa orquestra. Em quase duas horas de encenação, rege uma coreografia fascinante no palco, que é valorizada pelo cenário, pelo figurino, pela luz e pela espetacular trilha sonora que resgata TomWaits em seu auge. E os seis atores em cena não devem nada a medalhões – entregam o prometido:almas inquietas vivendo nas frestas.

Peças de entretenimento possuem seu espaço e são bem-vindas, mas dramaturgia é outra coisa. É sangue, suor, estupor, desconforto. Dessa matéria, Inimigos de Classe entende tudo.

O mais importante - DANUZA LEÃO

FOLHA DE SP - 18/03/12
Uma boa informação tem de vir de quem está por dentro da intimidade dos negócios, da amizade com políticos

A informação é hoje um bem precioso, e milhares de pessoas se matam para obter uma, por pequena que seja, não importa sobre o quê.

É preciso ser bem informado, e para isso é preciso uma especial competência: um homem bem informado é um homem poderoso, pois com boas informações se consegue qualquer coisa.

Se for sobre o mercado de capitais, alguns podem ficar ricos ou, para usar uma expressão mais moderna, dar uma tacada que vai garantir toda a sua descendência.

Uma boa informação tem de vir de alguém que está "por dentro" da intimidade dos negócios, da amizade com políticos; pode também vir da amiga da mulher do governador ou da manicure da mulher do juiz, pois quem souber da novidade antes de ela se tornar pública vai poder ligar para dez amigos importantes e contar, para que eles saibam que você já sabia.

Para isso talvez seja preciso ser amigo também do segurança do Congresso, e com tantas e tão ecléticas amizades, não vai ter tempo, jamais, para ir a um cinema ou namorar. E daí?

Pense um pouco: algum poderoso vai contar a você, que não é ninguém, se a taxa de juros vai subir ou descer? Pois é exatamente aí que entram eles, os que têm a capacidade de captar os sinais da mensagem, como se fosse um código.

Para obter a informação, é preciso dar algo em troca, seja lá o que for. É um negócio -como quase tudo na vida.

Para um político tímido e solitário, pode ser companhia; para quem quer ascender socialmente, conhecer as pessoas certas; para certos homens, ser apresentado às gatas. Não, nada de prostituição: bem pior. É, por exemplo, apresentar jovens aspirantes a modelo e, num clima de muito charme, levantar a bola do amigo, levar para jantar, dar muita risada. Isso hoje em dia é profissão.

Cada vez se entende menos o mundo. Houve um tempo em que trabalho era trabalho. Havia hora para começar, para terminar, e todo mundo sabia o que estava fazendo. O carpinteiro tinha seu martelo, seu serrote, seus pregos, quando o serviço estava pronto, entregava e recebia seu dinheiro. Ou era sapateiro, ou costureira, ou médico, ou tinha uma loja.

Era fácil de entender. Hoje, é nos jantares e nas grandes festas que são feitos os negócios.

Mas às vezes é preciso tirar férias de tanta modernidade e ir para um lugar onde a informação não chegue ou, se chegar, não faça quase nenhum sentido.

Um lugar onde não haja carros, nem televisão, onde não existam cinemas, os jornais não cheguem nem existam celulares, nem internet.

Se quiser radicalizar, vá para uma casa no mato, sem conforto, eletricidade, ar-condicionado; um lugar onde as informações cheguem por um vizinho que apareça de manhã, sente na varanda, tome um café - talvez uma cachacinha-, olhe para o céu e diga que acha que vai chover; não soube pelo serviço de meteorologia, mas porque as galinhas acordaram alvoroçadas e o vento está abafado. Dizem que isso ainda existe.

Mas um dia pode dar vontade de voltar, e aí o problema vai ser se inserir de novo no mundo e ver o quanto é importante saber, em primeira mão, se a atriz da novela está ou não grávida.

Em primeira mão significa 30 minutos antes dos outros -e talvez não mais do que 15 depois dela.

O mundo anda mesmo estranho.

Crise do sistema? Até tu, PT? - JOSÉ ÁLVARO MOISÉS


O ESTADÃO - 18/03/12


Nem sempre fica claro quanto as dificuldades atuais da presidente derivam da modalidade de presidencialismo vigente, diz professor


A presidente Dilma Rousseff já enfrentava uma crise em sua base aliada antes de tomar a decisão de trocar os líderes do governo no Senado e na Câmara dos Deputados. Um manifesto de reclamações sobre o tratamento dado por ela aos aliados, elaborado por parlamentares do PMDB com o conhecimento de Michel Temer, tinha tido a adesão de políticos de outros partidos e, até mesmo, a simpatia de deputados do PT. Agora, com o anúncio da bancada do PR de que abandonou a coalizão no Senado, a crise parece apontar para riscos mais sérios.

O encolhimento da maioria que apoia o governo não é apenas uma ameaça retórica, ele já está acontecendo. Há quem diga que o choro da presidente na cerimônia de posse de Marcelo Crivella no Ministério da Pesca foi uma demonstração de que ela sentiu o golpe. Mas o cenário já tinha sido previsto há mais tempo por críticos da presidente, os quais, independentemente de pertencerem ou não à oposição, chamaram a atenção para características do seu desempenho que seriam fontes potenciais de desastres futuros.

Vista como pessoa de personalidade dura e extremamente exigente com seus colaboradores, Dilma tem sido considerada inapta para a negociação política. E, como sugeriu José Sarney, ela pode ter-se tornado amarga devido às suas experiências na luta contra a ditadura, tornando suas boas qualidades técnicas algo antagônico às virtudes políticas que se esperam de quem tem de administrar uma coalizão tão grande e complexa.

Assim, dadas as singularidades de sua condução política, Dilma estaria protagonizando um governo incapaz de proporcionar a si mesmo a articulação necessária para a aprovação de seus projetos. Descoordenado e lento para reagir às expectativas dos sócios do condomínio político que dirige, o governo foi derrotado no Senado na indicação de Bernardo Figueiredo para a Agência Nacional dos Transportes Terrestres (ANTT) e, para evitar novos reveses, adiou as votações da Lei Geral da Copa e do Código Florestal, cuja condução na Câmara pelo ex-líder Cândido Vaccarezza teria desagradado a presidente.

Mas, afora a hipótese de agravamentos mais sérios da situação, e considerando que a economia do País está apoiada no consumo de amplas camadas da população relativamente satisfeitas, o quadro não anuncia uma tragédia imediata, embora tampouco possa ser visto como normal. O fato de o governo ter perdido, em pouco mais de um ano, 12 ministros sugere que há algo de estrutural na natureza da crise, e não apenas circunstâncias conjunturais.

Uma das interpretações da crise nos jornais sugere que Dilma protagoniza o papel de Dama de Ferro fora do contexto. No lugar de jogo de cintura para negociar, ela opõe o pulso firme da sua vontade, menosprezando e desafiando as raposas que tem ao seu redor, mas, por isso mesmo, se arriscando a criar um cenário parecido ao que levou Margaret Thatcher a renunciar depois de 11 anos no poder. A advertência de Fernando Collor de Mello para que a presidente reabra o diálogo com as forças do Congresso sugere isso: "Digo com a experiência de quem desconheceu a importância fundamental do Senado e da Câmara para o processo democrático e a governabilidade. O resultado foi meu impeachment". É uma impressionante confissão de responsabilidade pelo próprio fracasso político - mas também é uma ameaça.

Enquanto a saída de tal cenário levaria a uma mudança radical de conduta da presidente, uma interpretação alternativa sugere, pelo contrário, que Dilma não está fazendo mais do que ampliar seu espaço de manobra em um governo que necessita aprofundar sua natureza republicana. Há uma contradição evidente na caracterização de um governante que, para ampliar o seu espaço de ação, precisa se insurgir contra sua própria composição. Mas as demissões de ministros e a substituição de líderes herdados do governo anterior indicariam que, a despeito dos riscos, Dilma está finalmente montando a própria equipe de governo, "coesa e forte", como ela disse no Dia Internacional da Mulher.

Nem sempre fica claro, contudo, quanto as dificuldades atuais da presidente derivam da modalidade de presidencialismo vigente no País. Dadas as características do sistema político, a formação de coalizões majoritárias se dá pela agregação de forças partidárias que indicam quem vai compor o ministério. O poder de nomear é da presidente, mas o jogo supõe que os partidos apontam quem consideram ter força política - a despeito de sua competência técnica - para ocupar a função, às vezes ao arrepio das dívidas que tenham com a Justiça ou a sociedade. Ministérios são vistos quase como partes inarredáveis do condomínio governamental, sem compromisso com o programa de governo.

Some-se a isso o apetite voraz de um partido como o PT que, abusando do conceito de hegemonia, quer manter sob seu controle praticamente todas as áreas estratégicas do governo federal. Nessas circunstâncias, uma coalizão formada por cerca de 80% dos membros do Congresso Nacional, em lugar de facilitar a tarefa governativa de uma líder relativamente neófita como a presidente Dilma, usa e abusa da chantagem política em troca de sua lealdade. A crise atual, então, pode estar revelando simplesmente a tentativa - algo ingênua - da presidente de impor novos padrões de conduta política em um meio ambiente que não quer e não foi desenhado para isso. Uma saída desse dilema envolveria reintroduzir na agenda política do país o tema das reformas institucionais destinadas a aperfeiçoar a democracia.

A devolução - LUIZ FERNANDO VERISSIMO

O ESTADÃO - 18/03/12
O padre diz que é inconcebível carregar o próprio cadáver durante toda a vida sabendo que terá que entregá-lo e esquecer

Você chega, ofegante, a um lugar cheio de gente. As pessoas são seus parentes e amigos, mas estão todas de cara feia. Você sorri para elas. Elas não sorriem para você. Estão impacientes. Algumas olham o relógio. Outras sacodem a cabeça, reprovando o seu atraso.

Você tenta se explicar. – Desculpem, eu...

Mas dizer o quê? Foi o trânsito? Você acordou tarde? – Eu, eu...

Ninguém quer ouvir sua explicação.

Alguém pega o seu braço, ao mesmo tempo em que faz um gesto pedindo para você não falar com ninguém. Não há tempo para isso. O importante é não atrasar mais a coisa.

Você é puxado para dentro de um recinto onde a aglomeração é maior. As pessoas abrem caminho para você passar. Você vê mais caras conhecidas, mas nenhuma amistosa. Todos estão cansados de esperar. Onde já se viu, chegar atrasado desse jeito?

Logo hoje?

A pessoa que puxa você pelo braço se vira, examina você e pergunta:

– Você vai assim mesmo?

Você se olha.

– Assim como?

– Sem gravata?

– Esqueci a gravata.

– Tome a minha.

– Obrigado. Depois eu...

Você se dá conta que, de onde vai, não poderá devolver a gravata.

Chegam ao caixão vazio, em volta do qual estão os seus parentes e amigos mais próximos. E o padre, que também olha o relógio acintosamente, antes de perguntar:

– O que foi, esqueceu? – Não, é que...

O padre também não quer ouvir desculpas. Diz que é inconcebível aquilo, alguém carregar seu próprio cadáver durante toda a vida, sabendo que terá que entregá-lo no fim, e simplesmente esquecer. Tão inconcebível quanto um entregador de pizza esquecer, no meio do caminho, o que está fazendo.

Ou pensar que a pizza é sua.

– O que foi? – pergunta o padre. – Pensou que pudesse ficar com o corpo?

– Não, eu... – Está bem, está bem. Coloque o seu corpo no caixão, rápido. Está em cima da hora.

Você deita no caixão, depois de botar a gravata. Pensa: os defuntos são bem vestidos pela mesma razão que a gente limpa qualquer coisa emprestada antes de devolver. Estranha ninguém ter pedido uma vistoria para saber o que você fez com o corpo, se está faltando alguma parte, se você foi um inquilino cuidadoso ou relaxou na manutenção. Pensa em perguntar se lhe darão algum tipo de recibo. Mas desiste porque já estão fechando a tampa.

Aí você acorda.

Só com pajelança - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 18/03/12
BRASÍLIA - Ao trocar Romero Jucá por Eduardo Braga na liderança do governo no Senado, Dilma pode ter se distanciado de Sarney e de Renan sem ganhar o que mais queria: os "independentes" Jarbas Vasconcelos, Pedro Simon e Roberto Requião -a turma de Braga. E, ao substituir Cândido Vaccarezza por Arlindo Chinaglia na liderança na Câmara, trouxe dos subterrâneos do Congresso para a luz do dia o racha da bancada do PT, praticamente meio a meio, uns 40 a 40.

A intenção pode ter sido boa, e o cálculo de que a opinião pública aplaude tem tudo para estar correto, mas o ônus ainda parece bem maior do que o bônus. Sem falar em um efeito colateral: deixar em evidência a ministra Ideli Salvatti, expondo suas fragilidades.

A pergunta que não quer calar no Congresso é: como mudar a coordenação política sem mudar a coordenadora? Derrubar os dois líderes e manter Ideli é como afastar os chefiados e manter o chefe.

A situação política, portanto, ainda não está sob controle. E, aliás, chegou em má hora para Dilma: em seguida ao anúncio oficial do "pibinho" de 2,7% em 2011, com a área militar sacudida por manifestações de rebeldia da reserva, em meio às (des)articulações das eleições municipais em todo o país e ao estresse particular da candidatura Fernando Haddad em São Paulo.

Todas esses dados parecem, mas não são desconexos. É evidente, por exemplo, que o racha petista na Câmara é também causa e efeito da campanha de Haddad em SP, que no início criou mágoas e agora dissemina ansiedade.

Dilma e os caciques da base aliada correm para o pajé Lula, que se recuperou da infecção pulmonar e encerrou a quimio e a radioterapia. Pode não estar ainda no ponto, mas já está sendo instado a desfazer as nuvens carregadas em São Paulo e a fazer chover em Brasília. Nesta semana Lula volta ao centro da taba.

MARTHA MEDEIROS - Felizes por nada


O GLOBO - 18/03/12


Consagrar o Brasil como campeão mundial de felicidade é passar atestado da nossa alienação e do nosso desinteresse pelo futuro 



Quando me perguntam a que atribuo o fato da minha última coletânea de crônicas estar há 32 semanas na lista dos mais vendidos, não me ocorre outra resposta: só pode ser por causa do título, já que o conteúdo é semelhante às coletâneas anteriores. No entanto, nenhuma teve uma receptividade tão calorosa quanto "Feliz por nada", um livro que traz textos sobre as triviais situações do cotidiano, e não sobre a Felicidade, aquela, com maiúscula e traje de gala. Como se explica?

Surgiu uma pista: foi divulgado, semana passada, o resultado de uma pesquisa que revela que o Brasil é o campeão mundial de felicidade. Mundial! As entrevistas devem ter sido feitas numa época do ano diferente da que estamos, pois quem consegue ser tão feliz prestes a entregar a declaração do imposto de renda? Pagamos os tubos para o governo, que gentilmente retribui nos dando uma banana. Os que buscam saúde de qualidade, educação de qualidade e segurança de qualidade têm que pagar por fora. Os pedágios seguem altos. Tudo é caro: roupa, alimento, remédio, transporte. Aeroportos não dão conta do movimento, criminosos são soltos por falta de espaço nas prisões, o trânsito nas grandes cidades está estrangulado, o tráfico de drogas acontece a céu aberto. Nem precisamos perguntar para onde vão os bilhões que o governo arrecada e que deveriam ser reinvestidos no país. Vão para o mesmo lugar aonde vai nosso voto: para o bolso dos sem-escrúpulos.

Logo, somos realmente felizes por nada. Se não temos a bravura de nos mobilizarmos, ao menos nos sobra capacidade de extrairmos alegria de todo o resto: desde os gols do Neymar até uma receita nova de panqueca. Não deixa de ser um estágio existencial avançado - em vez de um povo frustrado por não ter a casa própria, o vestido de grife ou o iPad recém-lançado, as pessoas curtem a floreira embaixo da sua janela, o café da manhã com o namorado, o último capítulo da novela, o primeiro desenho que o filho fez na escola. A notícia é boa, mas também é ruim: tudo indica que estamos valorizando as pequenas delicadezas que a rotina oferece com fartura, o que explica não nos importarmos tanto por sermos roubados e por vivermos sitiados dentro de edifícios gradeados.

Faço parte do time que acredita que ficar em casa lendo um livro ou se reunir com amigos para tomar um vinho equivale a uma festa a rigor (na verdade, considero melhor que uma festa a rigor). Individualmente, a simplicidade é uma forma saudável de levar a vida, é o que defendo. Mas quando uma nação inteira se revela satisfeita com merrecas, sem ter o básico garantido, alto lá. Consagrar o Brasil como campeão mundial de felicidade é passar atestado da nossa alienação e do nosso desinteresse pelo futuro. Seria mais decente nos emburrarmos um pouco.

Pré-diluviano - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 18/03/12
Soa fora do tempo e do espaço a proibição de manifestações de cunho eleitoral no Twitter, bem como parece pertencer a dimensão diversa da realidade a existência de prazos legais para tais abordagens nos demais meios de comunicação.

Qualquer coisa que possa ser vista como propaganda só é permitida a partir de 6 de julho do ano da eleição, conforme acabou de asseverar o Tribunal Superior Eleitoral ao aceitar ação contra uma "tuitada" do deputado Índio da Costa (vice de José Serra) em 5 de julho de 2010.

Tudo bem, sendo assim a lei (9.504, de 1997), a Justiça cumpre o seu papel. Não é essa a discussão, embora haja quem pretenda (o PPS) discutir a decisão por meio de um mandato de segurança. Tudo bem também.

O essencial não é o caso específico, mas o quadro geral indicativo do anacronismo que assola um país que se moderniza em quase tudo, mas continua atrasado nos meios e modos da representação política, tratando o eleitor como um petiz.

Apenas para não perder a chance nem o hábito: a começar pela tendência mais ou menos generalizada de se interditar o debate sobre o fim do voto obrigatório sob o argumento de que "o brasileiro não está preparado" para escolher se vai ou não às urnas. Fecha parêntese.

Há uma óbvia obsolescência nos instrumentos legais em vigor. O problema não é só o Twitter. Em relação ao microblog, assim como às demais ferramentas de internet, as restrições apenas chamam mais atenção pelo ridículo da tentativa de se controlar o impossível de ser controlado.

Anda mais que na hora de o Congresso pensar em adequar a legislação à realidade. No mínimo a fim de economizar tolices como referências a pré-campanhas e pré-candidatos que de "pré" só têm a letra morta da escrita superada.

Até o dia 5 de julho a propaganda eleitoral é feita do mesmo jeito, bastando que seja acompanhada daquele prefixo cuja única utilidade é ressaltar o caráter pré-diluviano da regra.

Cria-se um ambiente em que todos transitam mais ou menos à margem da lei num espetáculo que seria de pura hipocrisia não fosse primordialmente bobo.

Uma perda de tempo e energia mais bem empregados se dirigidos àquilo de que cuida seriamente a legalidade: o uso e o abuso dos poderes econômico, político e governamental para fins de favorecimento eleitoral. 

Espelho. Governistas acusam a ministra Ideli Salvatti de ser "truculenta" no exercício de suas funções.

Ideli é desagradável no trato, agressiva? Nunca escondeu os atributos e por eles colecionou antipatias. No Congresso não se falava de outra coisa quando a presidente surpreendeu a todos indicando a senadora para fazer a ponte com o Parlamento na pasta das Relações Institucionais.

Provavelmente o fez justamente por identificar qualidade onde os demais viam defeito. Culpar Ideli pelos desacertos na coalizão equivale a acreditar no milagre da transformação e/ou a imaginar que ela atue à revelia de Dilma.

Às cegas. A confusão envolvendo a Copa do Mundo de 2014 - dos atrasos nas obras aos percalços para aprovar a Lei Geral no Congresso -decorre do imediatismo marqueteiro crente do poder autorrealizador da fantasia. Valoriza o gesto, desdenha do planejamento e dispensa compromisso com o batente.

Note-se, como exemplo, a justificativa para a mudança de posição sobre a venda de bebidas alcoólicas nos estádios: a Casa Civil não "entendeu" que fazia parte do contrato com a Fifa.

Algo desmoralizante para um país que foi escolhido para sediar o Mundial há quase cinco anos.

Ao baile. Olha-se a alternância entre luas e mel e fel reinante na base de sustentação ao governo e vem à mente Sintonia, na voz de Moraes Moreira: "É nesse vai e vem que a gente se dá bem, que a gente se atrapalha". 

Plano de voo - REGINA ALVAREZ

O GLOBO - 18/03/12
Se com o Congresso a relação está tensa, com o empresariado e com o mercado o governo está conseguindo melhorar a comunicação. As medidas para proteger a indústria e segurar o câmbio agradaram o setor empresarial e a clareza com que o Banco Central informou seus próximos passos da trajetória que pretende para os juros foi bem recebida pelo mercado. O clima de queda de braço que vimos no ano passado não existe mais.

O envolvimento pessoal da presidente Dilma Rousseff na busca de uma saída para a crise aguda na indústria também conta pontos a favor do governo, embora a solução não esteja à vista. No discurso, o governo diz que fará de tudo para a economia crescer 4,5% em 2012, mas nos bastidores ninguém acredita que isso seja possível.

Conhecer o verdadeiro plano de voo do governo para a economia é o sonho de consumo de qualquer analista. Nos detalhes, esse plano é guardado a sete chaves, mas algumas conversas com integrantes da equipe econômica podem fornecer boas dicas do que o governo espera da economia no curto e médio prazos.

Em relação ao comportamento da inflação, a avaliação é que o dragão está controlado, pelo menos até onde a vista alcança. Na mesa de uma autoridade, planilhas com os IGPs e o IPC da Fipe apontando para baixo destacavam-se entre os papéis. A equipe econômica acompanha com lupa esses índices e mantém na ponta da língua a performance do dragão durante a vigência do regime de metas. Nota-se o empenho em mostrar que as taxas do governo Dilma — considerando o primei ro ano de mandato e as projeções do mercado para os próximos dois anos — na média, estão em linha com a taxa média do governo Lula. Seria uma evidência de que a inflação permanece sendo o alvo central da ação do BC, como a ata do Copom reforçou na semana passada.

O problema é como viabilizar o crescimento desejado pela presidente Dilma. A conjuntura internacional é adversa, embora a equipe econômica veja luz no fim do túnel com os sinais de recuperação da economia americana e o afastamento do risco financeiro na Zona do Euro. E a política fiscal mais austera não ajuda nesse objetivo, na medida em que restringe os investimentos, mas é fundamental para viabilizar a queda nos juros.

A aposta maior é em 2013, mas para viabilizar o crescimento sustentado o governo sabe que precisa resolver os gargalos da infraestrutura, ampliando fortemente os investimentos. Despertar o que uma autoridade chama de “espírito animal” do empresariado faz parte dessa estratégia, mas o setor privado só voltará a investir, se não pairarem dúvidas de que a economia está caminhando nos trilhos.

Receita indiana
O economista indiano Rakesh Vaidyanathan, do Jai Group, diz que um dos motivos para o spread bancário na Índia ser menor que no Brasil é a quantidade de empresas no país com capital aberto. A Índia tem cerca de cinco mil empresas listadas em bolsa, enquanto na BM&FBovespa são apenas 466.O mercado de capitais concorre com o crédito bancário e dificulta o aumento das margens dos bancos.

— Ter bolsas fortes ajudou para que se tenha crédito

Mau negócio
A avaliação da economista Teresa Fernandes, da MB Associados, que acompanha o setor automobilístico, é que o novo acordo automotivo com o México será um mau negócio para os consumidores brasileiros: “Para preservar o emprego industrial, são os consumidores que vão pagar a conta com carros mais caros e de menor tecnologia. É nisso que resultará a menor concorrência.”

mais barato na Índia. O sistema financeiro por lá também é mais pulverizado. No Brasil, cinco grandes bancos controlam a maior parte do mercado — explica.

O custo Brasil, segundo Rakesh, estimula a consolidação setorial no país. Como as pequenas e médias empresas enfrentam dificuldades com os impostos, a infraestrutura e os custos trabalhistas, a solução é a consolidação para que se tenha ganhos de escala.