domingo, novembro 27, 2011

"Os sustos fazem você pular da poltrona" - ETIENNE JACINTHO


O Estado de S.Paulo - 27/11/11


Bitsie Tulloch

O Universal Channel estreia amanhã, às 22 horas, Grimm, que mistura investigação criminal com fantasia - como se CSI encontrasse Supernatural. O diferencial é que os episódios são baseados em fábulas dos irmãos Grimm. O capítulo de estreia é inspirado em Chapeuzinho Vermelho. A história começa quando uma adolescente, vestida com um suéter vermelho de capuz, é morta. A investigação fica por conta de Nick Burkhardt (David Giuntoli), que possui uma peculiaridade: vê nas pessoas o que ninguém mais enxerga.

Enquanto investiga o crime, Nick descobre que é descendente dos Grimm e que tudo o que eles escreveram é real. Sua família tem o dom de ver seres incríveis e documenta essas criaturas. E o público passa, então, a acompanhar Nick nesta descoberta que o ajudará a desvendar crimes cometidos por seres míticos com a ajuda do parceiro Hank Griffin (Russell Hornsby) e do "lobo" Eddie Monroe (Silas Weir Mitchell).

O problema é que Nick não pode revelar a mais ninguém esse segredo, mas sua namorada Juliette Silverton (Bitsie Tulloch) começa a desconfiar de que algo está errado. "Não posso contar o que vai acontecer, mas haverá uma grande revelação por volta do episódio 13, que colocará em dúvida se sou ou não uma boa pessoa", contou Bitsie Tulloch, por telefone, ao Estado. A atriz fez outras revelações sobre esta série que deve assustar os fãs.

Na Comic Con, você disse que Juliette pode não ser quem aparenta... O que você pode nos dizer sobre ela?

Não posso te dizer o que vai acontecer, mas Juliette é veterinária, namorada de Nick. Ele começa a ver estranhas criaturas, mas esconde isso dela. O fato de ela ser veterinária não diz muito agora, mas acredito que, com o tempo, quando Juliette descobrir o que está acontecendo com Nick, poderá ajudá-lo com algumas criaturas... Um dos personagens interpreta um lobo. No começo, porém, meu papel é desconfiar de Nick por agir de forma estranha já que ele esconde de mim o fato de ser descendente dos Grimm. Estamos gravando o episódio 11 e já sei que, no capítulo 13, haverá uma grande revelação, mas se isso determinará se sou uma boa pessoa ou uma má pessoa, só assistindo para descobrir.

Tenho certeza de que, no primeiro episódio, todos se assustaram com a cena da garota atacada no parque. Todos os capítulos serão assim?

Esta é uma das coisas de que mais gosto na série: ela é assustadora, mas não tanto a ponto de virar o estômago. É dark, mas também é divertida. Os sustos são do tipo que as pessoas adoram: daqueles que fazem você pular da poltrona. Assisto à série em casa e, embora tenha lido o roteiro e gravado o episódio, quando vejo o jeito como eles juntaram tudo, a trilha sonora, sempre pulo do sofá. Não gosto de coisas assustadoras. Para mim, Grimm é perfeito, pois você se assusta e depois ri por ter se assustado.

Quais contos dos Irmãos Grimm estão presentes na série?

Na 1.ª temporada, você verá Chapeuzinho Vermelho, Hansel e Gretel, Rapunzel, O Flautista de Hamelin. Eles (produtores) estão trabalhando em algo sobre Cinderela. O 3.º episódio é baseado num conto obscuro, Abelha Rainha.

Um novo realismo - FERREIRA GULLAR


FOLHA DE SP - 27/11/11

É imprescindível que a obra inusitada transcenda a banalidade e a sacação cerebral ou extravagante


Quem, como eu, admite que a vida é inventada e que a arte é um dos instrumentos dessa invenção terá do fenômeno artístico, obrigatoriamente, uma visão especial.

Não é só através da arte que o homem se inventa e inventa o mundo em que vive: a ciência, a filosofia, a religião também participam dessa invenção, sendo que cada uma delas o faz de maneira diferente, razão por que, creio, foram inventadas.

Se a filosofia inventasse a vida do mesmo modo que a ciência ou a religião o faz, não haveria por que a filosofia existir.

A conclusão inevitável é que todas elas são necessárias, ainda que cada uma a seu modo e sem a mesma importância para as diferentes pessoas. E o curioso -para não dizer maravilhoso- é que, de uma maneira ou de outra, a maioria das pessoas, senão todas, usufrui, ainda que desigualmente, de cada uma delas.

A arte é exemplo disso. Não importa se esta ou aquela pessoa nunca viu a Capela Sistina, porque, no dia em que a vir, se renderá à sua beleza. Isso vale igualmente para a ciência, a religião ou a filosofia, que atuam sobre nossa vida, quer o percebamos ou não.

É que somos seres culturais, e não apenas porque nos apoiamos em valores éticos, estéticos, religiosos, filosóficos, científicos -mas porque eles são constitutivos dessa galáxia inventada que é o mundo humano.

Como numa galáxia cósmica, a diversidade da matéria e as relações de espaço e tempo, de presente, passado e futuro, fazem com que, de algum modo, tudo ali seja atual, já que qualquer um de nós pode encontrar numa frase de Sócrates, num verso de Fernando Pessoa, numa imagem pintada por Rembrandt, a verdade ou a inspiração que nos reconciliará com a vida.

Isso não significa que devamos pensar como Sócrates ou pintar como Rembrandt e, sim, que a invenção do novo não implica a negação do que já foi feito, mas a sua superação dialética.

Todo artista sabe que a arte não nasceu com ele e que um dos sentidos essenciais de sua obra é incorporar-se a essa galáxia cultural que constitui a nossa própria existência.

Não entenda isso como uma proposta de conformismo, que seria contrária à minha própria tese de que o homem se inventa e inventa o seu mundo, já que seria impossível inventá-lo se apenas repetissem o que já existe.

Por isso mesmo, é perfeitamente natural que alguns artistas de hoje busquem expressar-se sem se valer das linguagens artísticas e, sim, antes, repelindo-as, para inventar um modo jamais utilizado por artistas do passado.

Como já observei, entre esses há os que simplesmente negam a arte e outros que pretendem criar arte valendo-se de elementos antiartísticos ou não artísticos.

Em princípio, suas experiências não têm que ser negadas, uma vez que essa sua atitude radical pode suscitar expressões surpreendentes. E isso às vezes ocorre, embora não seja frequente.

Não resta dúvida de que quem opta por uma atitude tão radical merece atenção e crédito, por seu inconformismo e por sua coragem, mas isso, por si só, não basta.

É preciso que dessa opção radical e corajosa resulte alguma coisa que nos comova e se some a esse mundo imaginário de que já falamos. Honestamente, deve-se admitir que a audácia por si só não é valor artístico.

Nada me alegra mais do que me deparar com uma criação artística inovadora, mas, para isso, não basta fugir das normas, das soluções conhecidas e situar-se no polo oposto: é imprescindível que a obra inusitada efetivamente transcenda a banalidade e a sacação apenas cerebral ou extravagante.

O que todos nós queremos é a maravilha, venha de onde vier, surja de onde surgir.

E aqui cabe aquela afirmação minha -que tem sido repetida por mim e até por outras pessoas- de que a arte existe porque a vida não basta.

Nela está implícito que não é função da arte retratar a realidade, mas reinventá-la. É, portanto, o oposto do falecido realismo socialista que só faltou, em vez de pintar o operário, colocá-lo em carne e osso no lugar da obra.

E nisso não estaria muito distante de certos artistas de agora, ditos conceituais, como a que pôs casais nus em pelo nas salas do MoMA, de Nova York. Como essa arte visa gente de muita grana, bem que poderia chamar-se "realismo high society".

O lirismo político de Danielle - GILLES LAPOUGE


O Estado de S.Paulo - 27/11/11

Danielle Gouze não assumiu o título de primeira-dama da França, que tanto agrada a outras mulheres. Ela era a mulher de François Mitterrand, presidente de 1981 a 1995, e bastava. Se ela conheceu o luxo do Palácio do Eliseu, se sua vida esteve ligada à do presidente, ela continuou sendo uma "mulher livre". Uma "pedra no sapato" de Mitterrand, pois as ações que realizava raramente coincidiam com as maquinações do marido.

O encontro deles foi romântico. Fim da 2.ª Guerra. Mitterrand é um homem belo, culto, sedutor e complicado. Em 1940, ele está ao lado do marechal Philippe Pétain. Compreende seus equívocos. Mais tarde, alia-se à Resistência Francesa e assume riscos. Escapa por milagre da Gestapo.

Danielle pertence a uma família de "resistentes". Seu pai, diretor de escola, foi punido por se recusar a fornecer uma lista de alunos judeus, exigida por Pétain. François fica fascinado pelos "olhos felinos" da bela jovem, sua inteligência, sua audácia.

O casamento foi realizado em 28 de outubro de 1944. Durante a festa, Mitterrand recebe uma mensagem, é convocado para uma reunião da Resistência. Danielle escapa com o marido, ainda vestida de noiva. No dia seguinte, ela completa 20 anos.

E sua vida começa com uma "fera" da política. Mitterrand é um homem sensível às mulheres. Seria caso de divórcio. Ele recusa. Danielle é sua mulher diante de Deus. Ela, que não conhece muito o bom Deus, é fiel. Encontram uma solução. A partir de 1960, o casal permanece unido, mas cada um vive sua vida do seu lado. Mitterrand é um grande sedutor. Danielle tem algumas relações.

Mais tarde, François Mitterrand tem um caso com Anne Pingot e da relação nasce uma filha, Mazarine, em 1974. Sem escândalo. Em silêncio.

Segredo. Desgosto. No funeral de Mitterrand, em 1995, Danielle está ao lado dos dois filhos que teve com o marido. Entre os dois, uma jovem, Mazarine, filha de Mitterrand e Anne Pingot. A França, petrificada, observa. Danielle abraça Mazarine.

Na política, a mesma partilha. François é presidente. Danielle é sua mulher, mas ela faz o que lhe dá na cabeça. E sua cabeça é efervescente. Certamente, ambos são de esquerda, mas a esquerda de Danielle é mais vermelha do que a de François. É escarlate, púrpura, carmim, roxa, rubi. No caso dele, prevalece a "realpolitik". Para Danielle, é o coração, o lirismo político.

Danielle é uma "indignada". Salta de pés juntos e de olhos fechados em todos os combates. Um elefante numa loja de porcelana. Coloca em frangalhos as habilidades diplomáticas de François, que tem de reunir os pedaços. Jamais se opôs à mulher. De um lado, não conseguiria. De outro, tirou benefícios e conseguiu não ser censurado pela esquerda, a mesma que tantas vezes foi colocada em apuros pelas ações de Mitterrand no Eliseu.

Os choques foram inúmeros. Com China, Argélia, Chile, Marrocos. "Terceiro-mundista", adepta dos movimentos antiglobalização, Danielle abraça todas as causas que considera justas. Suas lutas marcam a história do século 20: apartheid, liberalismo, colonialismo, pena de morte, aids, alfabetização, Bangladesh. Ela luta a favor dos ameríndios, tibetanos, dos ilegais, defende Fidel Castro, o subcomandante Marcos.

Entre os oprimidos e os maltratados, tem alguns prediletos, como os curdos. E até o seu último dia de vida (ela morreu aos 87 anos), lutou pelo acesso dessas regiões à água potável.

Essa foi Danielle. Podemos detestar alguns de seus combates (Fidel Castro, por exemplo), mas ninguém, mesmo à direita, contesta sua coragem, sua pureza. Em um mundo político hipócrita, prudente, embusteiro, covarde e conformista, ela passou como uma chama.

Primeira-dama da França ela nunca foi. No entanto, entre todas as primeiras-damas, foi a menos esquecida. Nem a mulher de Charles de Gaulle deixou uma marca tão forte. Sem falar em Giscard D'Estaing, um diminutivo sem graça do marido aristocrata.

De todas essas mulheres, Carla Bruni também fascina. As razões, porém, não são as mesmas. Carla é a beleza absoluta. Danielle foi a generosidade sem fim. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Safanões pedagógicos - HÉLIO SCHWARTSMAN


FOLHA DE SP - 27/11/11

SÃO PAULO - Safanões pedagógicos são provavelmente inúteis. Na esmagadora maioria das situações, é possível educar uma criança sem recurso a reprimendas físicas. Mesmo assim, não vejo com bons olhos o projeto da lei da palmada.

Calma, não estou defendendo o massacre dos inocentes. Pais que espancam seus filhos devem ser tratados com rigor. Só que, para esses casos, não necessitamos de nenhuma lei nova. O Código Penal e o ECA já criaram os tipos penais necessários e estabeleceram punições.

Se ainda assim há parentes que abusam, isso se deve mais à nossa dificuldade de identificar crianças sob risco e processar os responsáveis do que à ausência de normas.

Pode-se, é claro, argumentar que leis não servem só para gerar crimes e castigos, mas também para dar sinais à sociedade. No caso, a aprovação da regra seria uma forma de dizer aos pais que eles não devem recorrer à força física.

Eu talvez comprasse esse tipo de raciocínio se o fenômeno da legiferância não tivesse custos, mas não é esse o caso. É sempre arriscado abrir espaços que possam tornar o cidadão refém do capricho de autoridades. Além disso, ao aprovar uma quantidade grande de lixo legislativo, isto é, normas inócuas ou criadas para não ser cumpridas, nós desvalorizamos a noção de lei.

Cada vez mais eu concordo com o jurista alemão Friedrich Karl von Savigny (1779-1861), para quem nem vale a pena tentar codificar em leis matérias relativas a costumes. Esse tipo de regulação se dá primeiramente pelos próprios hábitos da população, depois por decisões judiciais, em nenhum caso pela vontade arbitrária do legislador.

Num país conservador como o Brasil, parlamentares são os últimos a chegar. Quando decidem consagrar em lei um princípio como o de que crianças não devem levar palmadas, é porque a sociedade já chegou a essa conclusão muito antes.

GOSTOSA


Existe saída para a Europa? - JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS


O ESTADÃO - 27/11/11

A situação da Europa piora a cada dia. Grandes pressões sobre a Grécia e a Itália acabaram por resultar em novos governos, de caráter tecnocrata e com jeito de salvação nacional. A demora das autoridades da região em dar um encaminhamento mais efetivo e suas diferentes percepções estimularam a elevação da intensidade dos ataques, e o perigo agora está na França, país ameaçado pelas agências de classificação de risco com a perda do AAA o que, caso ocorresse, significaria realmente fim de jogo para a Europa. Até a Alemanha sofreu um primeiro aviso, com o fracasso do recente leilão de títulos do Tesouro, onde foi vendida pouco mais de 60% da oferta. Desse total, o Banco Central alemão comprou nada menos que 40%, ou seja, o mercado ficou com apenas 20%. Na verdade, para muitos analistas a situação já teria passado do ponto de não retorno.

Disso não tenho certeza e não partilho da ideia que o jogo já tem um final dado, embora os riscos estejam cada vez mais elevados, até porque o tempo da política é muito mais lento que o dos mercados e a região só tem se movido quando próxima do abismo (coisa que suspeito seja característica da maior parte dos sistemas políticos). A maior razão para isto é que acho que a elite europeia (política, econômica, intelectual) e mesmo boa parte da população, ainda vê que as vantagens do projeto europeu são muito mais elevadas do que o custo da dissolução, ainda que parcial, da zona do euro.

Por exemplo, uma saída da Grécia da zona do euro provocaria uma implosão da própria Grécia (fuga de capital, hiperinflação, quebra de bancos, moratória) e da própria Europa, via efeito dominó, como já foi colocado neste jornal pelo Prof. Eichengreen. Por outro lado, uma eventual saída da Alemanha resultaria numa brutal valorização do novo marco e a perda de toda sua vantagem comparativa e de seu motor de crescimento, que são as exportações. É só ver o que está acontecendo com a Suíça, onde a violenta valorização do franco está tornando impossível a produção de qualquer coisa naquele país. Muitas empresas já pensam em deslocar a produção para outros locais; a Novartis anunciou a dispensa de mais de 3.000 funcionários.

Existem quatro possíveis caminhos para a Europa (utilizo aqui um artigo recente do Prof. Roubini):

1)A Alemanha financia a Grécia para sempre. Evidentemente isso é infactível.

2) Todo o ajuste é feito pelos países devedores. Além de injusto (os países superavitários, especialmente a Alemanha, são beneficiários dos déficits de Grécia e outros), tal solução é evidentemente infactível politicamente e levaria a uma moratória geral e colapso financeiro. Por exemplo, as próprias previsões do FMI sugerem que o programa de ajuste levaria a quatro anos de queda no PIB (2010-2013) numa magnitude próxima de 20%, o que só acontece em situações de guerra, onde a força bruta impõe o desastre. Tudo isso para terminar devendo algo como 120% do PIB. A Alemanha deveria se lembrar das reparações a ela impostas pelos vencedores da Primeira Guerra Mundial, tendo a França à frente, que resultaram na hiperinflação de 1923. Na ocasião, Keynes criticou o tamanho da contração necessária por impossível, no que ficou conhecido na literatura como o 'problema da transferência' (para quem tiver interesse, sugiro a leitura do fascinante As consequências econômicas da paz). Os países deficitários tem de fazer um bravo ajuste; entretanto, apenas isso não vai resolver a questão; ao contrário.

3) Monetização da dívida soberana pelo BCE mais ajuste fiscal generalizado nos devedores. Não é uma compra ilimitada, mas ajuda a aliviar a situação. A Alemanha é contra, evidentemente, mas é o que evita a implosão. É certo que, se o euro tem algum futuro, o BCE tem de ser mais agressivo.

4) Emissão de eurobonds mais ajuste fiscal nos devedores. Seria o caminho de longo prazo, mas toma tempo chegar lá. Basta pensar no tamanho do desafio político de enfrentar a perda parcial de soberania e as dificuldades em realizar mudanças no Tratado e nas Constituições.

Minha impressão é que estamos no cenário 3 (mitigado) caminhando muito lentamente para o 4, o que é insuficiente para o quadro atual.

Entretanto, a teimosia alemã está elevando rapidamente a possibilidade de um colapso. Os alemães são contra tudo, de um papel mais ativo para o BCE até a possibilidade de emissão de eurobônus. Se a Alemanha não for mais construtiva, o pior pode acontecer. Neste caso a Sra. Merkel e o público alemão vão pagar uma conta muito mais elevada do que aquela que estão tentando evitar.

Investimentos. Depois do último artigo aqui publicado ('O investimento perde o vigor'), saíram os dados mais recentes do Investimento Direto Estrangeiro, tal como registrado no balanço de pagamentos. O IED deste ano é recorde e atingiu US$ 56 bilhões líquidos, de janeiro a outubro.

Esse número pode ter criado alguma dúvida nos nossos eventuais leitores, pois como colocou um deles, podemos ter um recorde e uma perda de vigor?

Vale antes de tudo observar que o IED é um dado financeiro e o outro é real (máquinas, equipamentos e construções). O primeiro antecede em geral o segundo, e dele pode ser diferente por muitas razões, a saber:

A)Compra de ativos já existentes: é esse o destino da maior parte das entradas de capital e isso não eleva em nada a capacidade produtiva, embora possa fazê-lo depois. Consideremos, por exemplo, o caso do IED chinês: em 2010, 67% do total investido foi de aquisições de ativos já existentes.

B)Entrada de todo o recurso do projeto e liberação de gastos ao longo da construção, com o aproveitamento do resultado da aplicação do saldo de caixa, tudo estimulado pelos elevados juros locais. Conheço o caso de um projeto cujo custo final ficou em apenas 84% do orçado, como resultado do ganho financeiro.

C)Entrada do IED e posterior reprogramação do projeto físico.

D)Finalmente é possível existir entradas do IED disfarçado, ou seja, a constituição de empresas cujo objetivo é de apenas arbitrar juros, sem pagar imposto.

Portanto, é preciso ser cauteloso ao usar os dados do IED ou da soma de anúncio de novos projetos. Embora eles sejam poderosos indicadores ao longo do tempo, em prazos menores podem não se materializar em investimentos na mesma proporção. Consideremos o exemplo da Petrobrás: o plano estratégico foi revisado para baixo e ainda assim a companhia anunciou que não irá conseguir realizar o que estava programado para este ano, por dificuldades no fornecimento dos equipamentos. A redução dos gastos da companhia reflete-se naturalmente em toda a cadeia de fornecedores, como atestam alguns casos recentes como o da Lupatech.

Questão de sobrevivência - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 27/11/11


Apesar dos renitentes nãos da Lady No (a chanceler da Alemanha, Angela Merkel), estão próximos os dias em que o Banco Central Europeu (BCE) não terá outra saída a não ser assumir sua até agora renegada função de emprestador de última instância para os Estados nacionais do euro.

Na última sexta-feira, recordes de rejeição a títulos de dívida de países do bloco foram batidos, rendimentos pagos por alguns dos principais deles ultrapassaram o limite do sustentável (veja mais no Confira) e agências de classificação de risco vêm emitindo repetidos avisos de que estão na iminência de rebaixar as notas de confiança de dívidas até recentemente não questionáveis. Afora isso, como muitos bancos estão sendo obrigados a ajustar seus ativos às novas exigências de capital, há forte desova de títulos nos mercados. E, como há cada vez mais razões para que até mesmo um banco não confie no outro, vai se esboçando uma situação de colapso do crédito na Europa.

O BCE se nega a desempenhar outra função que não seja a de combater a inflação e isso vai sendo repetido pelo seu novo presidente, Mario Draghi. Respalda-se na letra dos tratados e, mais do que nisso, na diamantina postura do governo da Alemanha, absolutamente contrário a quaisquer operações do BCE que configurem concessões de crédito a governos do bloco.

Não foi assim que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) trabalhou no auge da crise de 2008 e nos anos seguintes. A mesma relutância em operar como emprestador de última instância a tomadores fora de sua supervisão - como bancos de investimento, seguradoras e sociedades de crédito imobiliário - foi rapidamente vencida quando as circunstâncias exigiram "fazer o que fosse preciso" para salvar a economia do caos. Seu presidente, Ben Bernanke, se apegou a um dispositivo legal vago, que lhe permitia emitir moeda "sob circunstâncias incomuns e exigentes", e instalou uma ponte de safena que, na prática, injetou até US$ 1,7 trilhão no mercado e expandiu seu balanço nas mesmas proporções. Foi também o que justificou a recompra de títulos do Tesouro, operação que levou o nome de afrouxamento quantitativo.

Também apesar da forte oposição inicial da Alemanha, o BCE vem comprando títulos soberanos no mercado secundário. Alega que não são compras diretas. É difícil saber no que essas operações se diferenciam da injeção direta. Por acaso, os vendedores desses títulos ao BCE não ficam em condições de comprar novos títulos com juros mais altos no mercado primário?

A questão é mais profunda. A função mais importante de um piloto de navio não é mantê-lo limpo e abastecido, embora isso também seja importante. É garantir capacidade de navegação. Não se trata de garantir cenários de longo prazo de sustentação do euro, que implicam complicada costura de novos tratados. Trata-se, em primeiro lugar, de impedir seu naufrágio.

Se é que já não foi ultrapassado, o ponto de assegurar a sobrevivência do euro parece muito próximo.

ARQUIVO G - MÔNICA BERGAMO



FOLHA DE SP - 27/11/11



Às vésperas de completar 70 anos, o cantor Gilberto Gil lança site com fotos, vídeos, cartas, bilhetes e partituras que compõem o acervo de toda a sua vida

Gilberto Gil está gostando de envelhecer. "A memória não é tão aguda, a gente não lembra mais de tanta coisa como antes. Tem muitas modificações de energia, de disposição geral. Pode ser sentido como perda, mas também como iniciação para um outro modo do ser."

A sete meses de completar 70 anos, em junho de 2012, ele diz que já está "vivendo a idade". E vê "novos ganhos, novas aquisições, novas configurações". Compara a juventude e a maturidade ao ruído e ao silêncio.

"Quando o ruído desaparece, deixa um vácuo, que é seguido pelo silêncio. E este preenche tanto quanto o ruído preenchia. É algo de outra natureza, que se constitui também como plenitude", diz ele ao repórter Diógenes Campanha. "Certos aspectos da atividade cerebral ganham outra forma de se apresentar. Fisicamente, não me sinto debilitado. Resumindo, estou gostando da velhice."

Todos os anos vividos por ele, ou ao menos aqueles registrados em uma foto, um bilhete, um desenho, um vídeo, uma letra, uma partitura, serão apresentados ao público. Entra no ar amanhã o acervo digital do artista. Um site (www.jobim.org/gil/) vai disponibilizar mais de 30 mil documentos de sua vida.

"Isso vem sendo construído há 15, 20 anos, quando a Flora [mulher de Gil] mandou encadernar minhas anotações. Ela vinha arquivando sistematicamente todo o material, correspondências, comandas." O acervo foi organizado pelo Instituto Tom Jobim, que já fez o mesmo com a obra do maestro, além de Dorival Caymmi e Chiquinha Gonzaga. O patrocínio é do projeto Natura Musical.

"O acervo contém uma parte relativa à vida pública, mas também a parte pessoal, como é a própria vida de todo mundo", diz Gil. "É um acesso desejado por nós, uma invasão benigna. Com Twitter e Facebook, é tão comum mostrar sua vida às pessoas que esse arquivo estático não chega a ser novidade."

Uma foto de 1992 mostra Gil rodeado por Flora, com quem está casado há 31 anos, e as três ex-mulheres, Belina de Aguiar, Nana Caymmi e Sandra Gadelha. Era o seu aniversário de 50 anos. "Minha relação com elas se deve muito à gestão da Flora. Quando chegou, ela compreendeu que isso era uma grande família da qual passou a fazer parte." A filha Preta já disse que vê o pai como um rei africano, que tem as mulheres em volta e delega funções à prole -os príncipes.

"Não é de todo equivocada. Deve ser genético." Quando tinha "dois, três anos", a mãe lhe perguntou o que queria ser na vida. "Falei que seria 'musqueiro', minha corruptela infantil para músico, e pai de menino." Gerou oito filhos em três casamentos.

Gil tirou a primeira foto da qual tem lembrança aos quatro anos. Foi levado pelos pais para um estúdio em Salvador. "As máquinas não eram portáteis, ficavam em uma sala. Era uma coisa meio ameaçadora, como ir ao consultório do dentista." O estúdio era "muito esmerado. Tinha um doce, um suco, pra gente ficar relaxado".

Voltou outras vezes ao local para cliques ao lado da irmã, Gildina. "Éramos muito ligados. Lembro da gente amassando barro no fundo do quintal. Moldávamos tijolos com caixa de fósforos e fazíamos pequenas edificações. E eu participava com ela das brincadeiras de boneca. Fazia comida e roupas." Foi com ela que Gil formou a primeira dupla musical, aos 11 anos. Apresentavam-se em concursos de cantores, ganhando prêmios como pinguins de geladeira, arranjos de flores e, às vezes, dinheiro. "Seriam cinco, dez reais hoje em dia."

Letras de música e repertórios de shows dividem o site com política. Em uma anotação, Gil enumerou referências a Ciro Gomes, adversário de Lula na eleição de 2002: "A indisposição da imprensa com o 'Ciro aluno de ACM'", "Ciro Malvadeza que agride jornalistas"; "A difusão da ideia de que 'Ciro mente'" e "Ciro clone de Collor". "Fiz pro meu próprio governo, para minha análise. Não é uma crítica mais aguda ou particular. Era uma sensação mais ou menos geral que havia em relação à sua candidatura. Gosto muito dele."

O ex-senador Antonio Carlos Magalhães, morto em 2007, aparece numa "carta aberta a um velho triste como eu". Era resposta a uma "carta queixosa" de ACM. "Ele disse que, ao contrário de mim, meu pai sempre foi correligionário fiel a ele." Gil diz ter "a impressão" de que o desentendimento ocorreu porque discordou de uma crítica de ACM à nomeação de Pelé como ministro do Esporte no governo FHC. "Nossas divergências eram em questões técnicas, não afetivas."

Já ministro da Cultura, recebeu carta de ACM pedindo apoio a um livro sobre as igrejas da Bahia, "porque sei que os assuntos de nossa terra têm não só sua boa vontade como também a prioridade". "Um dia ele disse que eu precisava olhar mais a Bahia. Tinha uma série de projetos lá e fiz uma lista rápida. E ele: 'Precisa olhar ainda mais'."

Da Esplanada, Gil guardou memorandos, telegramas de aniversário de políticos da oposição, como Arthur Virgílio, do PSDB, e José Agripino, do DEM, e até um convite de Lula para um churrasco na Granja do Torto. Há uma carta de Condoleezza Rice, ex-secretária de Estado dos EUA, agradecendo por tê-la acompanhado ao Pelourinho, em 2008. Ela assinou como "Condi", riscou a saudação "Dear Mr. Minister [caro senhor ministro]" e substituiu à mão por "Gilberto".

"Tem modificações de energia, de disposição. Pode ser sentido como perda, mas também como iniciação para um outro modo do ser"

GIL, sobre a velhice

A ordem tecnodemocrática - GAUDÊNCIO TORQUATO


 O Estado de S.Paulo - 27/11


As quedas sucessivas de governos europeus - Islândia, Dinamarca, Grã-Bretanha, Grécia, Holanda, Irlanda, Eslováquia, Portugal, Itália e Espanha - abrem intensa polêmica sobre o fenômeno da regionalização, sinalizam a ascensão da tecnocracia ao centro do poder político e contribuem para mobilizar massas, até então amorfas, em países credores e devedores. Abrigados nas margens do espectro ideológico, grupos de todos os matizes passam a agir como exércitos destemidos, tomando as ruas, exigindo a saída de governantes açoitados pela crise financeira e a entrada na cena política de figurantes e de propostas inovadoras. O status quo é jogado no colo de "elites" identificadas com mandatários responsáveis pela adoção de modelos ultrapassados.

Espraia-se na Europa uma agitação que clama por mudanças drásticas, tendência que se enxerga na ação de partidos de extrema direita na Itália, França, Holanda, Áustria e Finlândia, e de setores populistas que pretendem sacudir o continente e inserir na agenda amplo debate sobre os parâmetros que regulam a União Europeia (UE). A par de explícitos interesses de grupos radicais, que esquentam a polêmica e partem para o embate, o que está em jogo neste momento, também nos EUA e em outras praças, é o próprio equilíbrio do sistema democrático, a ensejar a instigante questão: a crise financeira ameaça os valores da democracia?

Partamos da análise dos efeitos da regionalização na vida dos países. A crítica mais comum é quanto à sensível perda das identidades nacionais. E as nações passaram a ter governos manietados, ou, para usar termo mais leve, controlados pelo mandatário-mor do planeta, o capital internacional. Parcelas expressivas das populações europeias se queixam de que a erosão de suas fronteiras, a eliminação das moedas nacionais e a imposição de uma nova ordem pela troica UE-Banco Central Europeu-FMI interferem no seu modo de ser, pensar e agir. Não se conformam com o enxerto em suas culturas de sementes estranhas ao solo pátrio e apontam para o esgarçamento da teia de valores que formam o caráter de seus povos. A expressão das comunidades, agora mais acesa, resgata a tese de que as economias continentais diferem bastante para ficarem sob as rédeas de uma única política monetária. As assimetrias, como agora se mostram, eram previsíveis. O discurso é consistente.

O ordenamento do império financeiro - inspirado na proteção dos cofres e no fortalecimento dos PIBs nacionais - acaba tapando os olhos para o conforto social, ainda que as equações produzidas pelos formuladores de plantão tentem demonstrar relação de causa e efeito, ou seja, a estratégia de defender o bem da nação seria chave para abrir as portas do bem-estar geral. Não faltarão questionamentos à abordagem, basta lembrar a receita brasileira: para enfrentar a crise prescreveu o acesso da população ao crédito e consumo. Explicações à parte, o fato é que as democracias veem suas engrenagens navegarem nas ondas do império financeiro global, entidade que enquadra as esferas políticas e governamentais, centrais e periféricas, de potências ou territórios de pouca expressão. Não há como deixar de constatar a existência de parâmetros similares em todos os sistemas democráticos e a corrosão de cores nas bandeiras nacionais.

Dito isto, analisemos agora o segundo ator importante no quadro das democracias contemporâneas: o tecnocrata. De início, é oportuno lembrar que não há mais no planeta brilhantes estrelas da política. O painel político da humanidade locupleta-se de figurantes sem o glamour de líderes que marcaram presença na História. Os tempos são outros. Queixumes se ouvem nas praças do mundo: quem lembra a sabedoria e o tino de figuras portentosas como De Gaulle, Churchill e mesmo Margaret Thatcher ou Willy Brandt? As nações dispõem hoje de quadros funcionais de limitado ciclo de vida política. Os conflitos do passado, cujo foco era a geopolítica e a expansão de domínios, cedem lugar às lutas internas contra o dragão que devasta as finanças e corrói os Tesouros. É natural, pois, que o perfil do momento seja o treinado nos salões da tecnocracia. Aliás, o termo vem a calhar nestes tempos de insegurança, eis que agrega habilidade (tekné) ao poder (krátos). Isso é o que se espera dos "solucionadores de problemas", entre eles, Mario Monti, novo primeiro-ministro italiano, que herda o caos deixado por Berlusconi, e Lucas Papademos, que domina a planilha de contas, mas parece perdido diante dos cofres vazios da Grécia. Exímios tecnocratas, deverão pôr em prática as ordens de quem realmente dá o tom da Europa - Alemanha e França, cujos mandatários, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, são jocosamente chamados de Merkozy.

Afinal, o tecnocrata faz mal à democracia? A pergunta está no ar desde a queda do Muro de Berlim, no vácuo deixado pelo desvanecimento das ideologias e pela pasteurização partidária. De lá para cá, governos esvaziaram seus compartimentos doutrinários, preenchendo-os com quadros burocráticos e apetrechos técnicos para obter eficiência e eficácia. Inaugurava-se o ciclo que Maurice Duverger cognomina de "tecnodemocracia", que sucede à democracia liberal. Seus eixos se apoiam em organizações complexas e racionais e, hoje mais que nunca, levam em conta a gangorra dos capitais financeiros mundiais. A política deixou de ser uma unidade autônoma, porquanto passou a depender de mais duas hierarquias: a alta administração do Estado e os negócios. Esse é o feitio dos modernos sistemas democráticos. E é essa modelagem que explica manifestações radicais das massas em quadrantes diferentes do planeta. Busca-se um salvador da pátria, seja ele socialista, populista, liberal, conservador de direita, tecnocrata ou intelectual. Se ele não aparecer, um ditado conhecido dos ditadores poderá emergir: quando nada mais se apresenta, o trunfo é paus.

GOSTOSA


Corrida de obstáculos - RENATA LO PRETE



FOLHA DE SP - 27/11/11
Um bem-sucedido lobby do PMDB na votação da medida provisória 540 ameaça atrapalhar as já confusas tratativas para aprovar a DRU (Desvinculação de Receitas da União) no Senado até o fim do ano. Dilma Rousseff tem até 16 de dezembro para sancionar a MP, que, entre outros contrabandos, liberou o uso de recursos do Fundo de Investimento do FGTS em empreendimentos comerciais ligados à Copa e à Olimpíada. Parte do governo pressiona a presidente a vetar o artigo.

Se ela o fizer, arranjará encrenca com os peemedebistas em hora decisiva para a DRU -o Planalto trabalha para concluir a votação em 21 de dezembro.

Digitais Há quem debite diretamente na conta de Marco Maia (PT-RS) o enxerto, na MP 540, da liberação de publicidade de cigarros em eventos esportivos e culturais. O presidente da Câmara nega. Dilma deverá vetar.

Às cegas Deputados reclamam da demora de Maia em indicar relatores para as MPs. Os textos chegam ao plenário na undécima hora. Não raro, deputados votam sem ler as versões finais.

Surpresa! Quem acompanhou de perto o processo decisório que levou a Prefeitura de São Paulo a validar o resultado de licitação para inspeção veicular realizada na gestão de Paulo Maluf (PP) atesta: a pressão sobre Gilberto Kassab (PSD) não vinha da Controlar, vencedora do questionado certame, e sim da CCR -que veio a adquirir o controle da Controlar pouco depois da assinatura do contrato com o município.

Conexões 1 Carlos Suarez, ex-sócio da construtora OAS acusado de improbidade administrativa pelo Ministério Público paulista no caso Controlar, tem ligação antiga e estreita com João Faustino (PSDB-RN), suplente do senador José Agripino (DEM-RN) preso na quinta-feira passada em operação que apura fraudes na inspeção veicular (entre outros serviços sob o guarda-chuva Detran) no Rio Grande do Norte.

Conexões 2 Tucanos graúdos se mobilizam intensamente nos bastidores para avaliar a situação e projetar os danos da prisão de Faustino, que foi o número dois do hoje senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) na Casa Civil durante o governo de José Serra.

Anote aí Em conversa com os pré-candidatos tucanos à Prefeitura de SP prevista para hoje no Bandeirantes, Geraldo Alckmin pretende sugerir 4 de março como data das prévias do PSDB.

Noivas Embora continue a declarar que não será candidato, José Serra já coleciona pretendentes a vice. Depois do secretário estadual Rodrigo Garcia (DEM), o mais novo interessado é o deputado Paulinho da Força (PDT).

Linha azul Bruno Covas divulga em seu site resultado de enquete com usuários do metrô na qual estaria à frente de seus rivais nas prévias.

Dois tempos Petistas se empenharão até março para atrair PR, PSB, PDT e PC do B à coalizão de Fernando Haddad. Se fracassada a operação, recorrerão a Lula para sensibilizar o PMDB.

Deixa comigo Ex-secretária de Serra, Rita Passos (PSD) apresentou emenda ao Orçamento-2012 propondo R$ 68 milhões à Coordenadoria de Infância e Juventude do TJ-SP, hoje com rubrica de míseros R$ 10.

Sacolinha Com a suspensão geral e irrestrita dos pagamentos do governo a ONGs, o Dieese, que presta serviço ao Ministério do Trabalho, recorrerá a um rateio entre centrais sindicais para pagar o 13º dos funcionários.

Tiroteio

"Acostumado a exaltar Cuba, José Dirceu se sentiria realizado se algum jornal importante do Brasil fechasse os olhos à bandalheira que carimba os governos do PT."

DO EX-DEPUTADO E PRESIDENTE DO DEM-BA, JOSÉ CARLOS ALELUIA, sobre o ex-ministro da Casa Civil ter lamentado, em seminário petista sobre a regulação da mídia, a suposta inexistência de um jornal favorável ao governo.

Contra-ponto

Velhos hábitos


Na montagem do PSD, Gilberto Kassab buscou seguidamente os conselhos de Jorge Bornhausen, que foi do PDS, partido de sustentação da ditadura militar, depois do PFL e mais tarde o principal articulador da troca de nome para DEM. Na hora de definir como se chamaria a nova legenda, o prefeito perguntou ao ex-senador o que achava de traduzir PSD como "Partido Socialista Democrático".

Bem-humorado, Bornhausen vetou a ideia:

-Social-democrata ainda vá lá. Mas socialista?! A esta altura da vida, como é que eu vou virar socialista?

com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

O vazamento - MARCELO GLEISER



FOLHA DE SP - 27/11/11
Toda exploração nos limites do conhecimento envolve riscos enormes. A do pré-sal não será diferente
Aconteceu o primeiro desastre sério da história recente da exploração petrolífera da costa do Rio. Cheguei aqui nesta semana e fiquei horrorizado com as manchetes sobre o vazamento de óleo no campo de Frade, em poço explorado pela Chevron na bacia de Campos, a 370 quilômetros do continente.
O vazamento ocorre a uma profundidade de 1,2 km e, até quarta-feira, havia liberado, segundo a empresa, em torno de 2.500 barris após 15 dias. Existem disparidades entre o que a ANP (Agência Nacional de Petróleo), os observadores da ONG SkyTruth e os porta-vozes da Chevron andam dizendo.
Segundo a SkyTruth, o vazamento foi de cerca de 15 mil barris, muito superior ao declarado pela companhia. Enquanto a Chevron diz ter engajado 18 navios em rodízio para a limpeza da região, a Polícia Federal do Rio diz que havia apenas um. Para piorar, a empresa contratada para perfurar o poço, a Transocean, é a mesma que operava a plataforma Deepwater Horizon, responsável pelo maior vazamento da história americana, no golfo do México, no ano passado.
Consequentemente, a ANP suspendeu as atividades da Chevron no Brasil e negou à companhia a possibilidade de perfurar novo poço para explorar a camada do pré-sal. Com uma reserva estimada em 50 milhões de barris, o pré-sal é uma das maiores descobertas dos últimos 30 anos. Não é coincidência que, quando voo para o Rio hoje, noto que uma fração razoável dos passageiros trabalham para a indústria petrolífera e suas subsidiárias.
Com o aumento da população mundial e, consequentemente, do consumo de petróleo e seus derivados, fica cada vez mais difícil achar reservas de fácil exploração. Mas o pré-sal realmente bate todos os recordes. Com profundidade de 6 a 7 quilômetros da superfície e passando por uma camada de sal com espessura variando de 200 metros a 2 quilômetros, a extração será extremamente difícil, desafiando a tecnologia atual.
Desde que ouvi falar do pré-sal pela primeira vez, tenho tido pesadelos sobre a possibilidade concreta de desastres ecológicos de dimensões catastróficas, capazes de comprometer a costa do Brasil desde o Espirito Santo até Santa Catarina.
Ouvimos muito sobre a euforia da descoberta e sobre como é viável a extração do petróleo sob essas condições complicadas, mas muito pouco sobre medidas tomadas caso vazamentos ocorram, o que me parece inevitável. Toda exploração nos limites do conhecimento envolve riscos enormes. O pré-sal não será uma exceção para esse fato.
Enquanto outras economias debatem como ir além do uso de combustíveis fósseis, o Brasil, com sua vasta rede hidrelétrica e potencial solar e eólico, parece estar querendo ir para trás. Claro que todos querem os royalties que vêm da exploração do petróleo, sempre com a visão do lucro a curto prazo. Mas acidentes como esse, no campo de Frade, mostram os perigos da exploração desenfreada e sem medidas rígidas de controle.
O pré-sal pode vir a ser a galinha dos ovos de ouro do Brasil. Vale lembrar que, na fábula de Esopo, o dono da galinha, ganancioso e impaciente, acaba por matá-la para pegar os ovos que acreditava ter no ventre. E acaba sem nenhum.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita".

F-1! Hoje o Galvão bota um ovo! - JOSÉ SIMÃO


FOLHA DE SP - 27/11/11


Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O esculhambador-geral da República!

Festival da Piada Pronta. "Câmara Municipal de Belo Horizonte aprova o Dia da Feijoada." Autor do projeto: Edinho do Açougue.

"Comer rápido aumenta chance de ficar obeso", afirma Ian MacDonald.

E mais essa: "Doutor Paulo Gallo inaugura Centro de Fertilidade". O Gallo vai botar as colegas pra botar ovo. Rarará!

E adorei a charge do Aroeira: sabe o que a Dilma vai fazer com o Lupi? Vai apertar, mas não vai acender agora. Rarará! Só em janeiro de 2012.

E as meninas da Fina Estampa de Bueiro usam tanto botox que ficam parecendo égua de charrete.

A Christiane Torloni tá a cara de uma égua de charrete, a Renata Sorrah tá a cara do Serguei quando ele tinha 20 anos, e a Eva Wilma parece uma bola de Natal!

E hoje é dia do GP Brasil! Aquela zoada de pernilongo, zuum, zuuum, zuuum. Hoje o Galvão estrebucha. O Galvão vai transmitir a F-1?

Transmitir é modo de dizer, o Galvão vai GRITAR. Vai gritar mais que galinha com o ovo atravessado! Rarará!

E o Rubinho vai correr? Correr, não. Vai participar. Rarará!

E os dois pilotos brasileiros? São o Felipe Amassa e o Rubinho Barriquebra!

E eu não tô torcendo pro Rubinho ganhar, eu tô torcendo pro Rubinho fazer alguma coisa engraçada. Porque ele é o nosso anti-herói! Ele devia correr de táxi! Eu pago a corrida. Rarará!

E o Berlusconi, o nosso Maluf pornô! Acaba de lançar um CD com musicas eróticas, ops, euróticas.

E o Silvio Berlusconi cantando "Volare": "Trepare, ôôôô, cantare, ôôôô, meu pinto é pintado de azul". Rarará!

"Volare" na versão berluscônica: "Trepare"! E esst: "Berlusconi arrolou Cristiano Ronaldo e George Clooney como testemunhas de defesa" em seu processo.

O Berlusconi arrolou o Cristiano Ronaldo? Até o Cristiano Ronaldo? O Berluscome realmente não poupa ninguém. Rarará!

E eu queria convidar o Alckmin Picolé de Chuchu para uma festa que arrasta multidões: Carnametrô! De segunda a sexta. Das 18h às 20h30! Rarará!

Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

HITCHCOCKIANA - LUIS FERNANDO VERISSIMO



O GLOBO - 27/11/11


Ele gritou:

– Janela Indiscreta!

Ela:

– O quê?

– O filme que você está vendo. Posso ver a sua televisão daqui.

Os fundos dos dois apartamentos davam para o mesmo poço. Mesmo andar. Da área de serviço de um se via tudo do outro.

Ele:

– Adoro o Hitchcock.

Ela:

– Eu também.

Já tinham se visto no elevador. Ela morava com uma amiga que nunca aparecia.

– Qual é o seu Hitchcock favorito?

– Estou vendo Janela Indiscreta pela décima vez. Mas acho que meu favorito é Um Corpo que Cai. O seu?

– Os Pássaros.

Ela fez uma cara feia.

Dias depois se encontraram na loja de vídeos.

– Olha o que eu achei – disse ele.

Era Notorius. Aquele em que a Ingrid Bergman e o Cary Grant se encontram na Cinelândia e concordam que o Rio é muito chato. Ela mostrou o filme que tinha alugado. Os Pássaros. Ia rever para ver se desta vez gostava.

– Você não precisa gostar só porque eu gosto.

– É por boa vizinhança – disse ela, rindo.

Naquela noite conversaram, área de serviço a área de serviço. Ele disse que o Notorius tinha envelhecido um pouco. E ela, o que achara de Os Pássaros?

– Sei não... – disse ela.

– Vamos ter que vê-lo juntos.

Foi na noite seguinte. Apartamento dela. A amiga, diplomaticamente, no seu quarto. Os dois na sala. Os Pássaros, argumentou ele, é o filme metafísico do Hitchcock. O único filme de terror na história do cinema sem monstros e sem vilões. O vilão é o mundo, é a natureza reagindo ao homem, uma ordem pré-humana se...

Antes de ele terminar a frase já estavam se beijando. Nem chegaram a colocar o DVD.

Passaram a se encontrar quase todas as noites. Só viam Hitchcock. Às vezes discutiam, “Topázio é um Hitchcock menor!”. “O quê? O quê?!”. Passavam alguns dias sem se ver. Aí ele batia na porta dela com uma raridade (Sabotagem, por exemplo) e faziam as pazes. Até que um dia a amiga saiu do quarto e ele viu que se tratava de uma loira irresistivelmente hitchcockiana, e se apaixonou, apesar da loira dizer que seu filme favorito era Ghost. Ele tentou explicar sua traição (“Eu sou coerente! Eu sou coerente!”) mas não adiantou. Foi morto com uma tesourada, como em Disque M para Matar. 

GOSTOSA


A coisa ficou preta na sexta - VINICIUS TORRES FREIRE


FOLHA DE SP - 27/11/11

Parte do comércio brasileiro macaqueia jornada típica das lojas e das festas americanas

A coisa ficou preta na sexta-feira passada. Ou deu branco? Agora a gente tem "Black Friday" no Brasil, "Sexta-Feira Preta". Negra? Um pessoal do marketing do comércio é quem diz.

"Black Friday" é mais um dia indução pavloviana ao consumo nos Estados Unidos, um dos dois ou três em que o comércio mais vende.

Fazia tempo que não tínhamos uma novidade assim extravagante em termos de macaquice provinciana. A "Sexta-Feira Preta" parece vacuidade ainda mais tola que aqueles letreiros de "sales" (liquidação).

A "Black Friday" é a sexta em que a coisa fica preta no trânsito de cidades americanas, pois um dia feriado, mas também de promoções nas lojas, poucas semanas antes do Natal. Um tumulto.

Foi chamada de "black" como preta ou negra foi a "Black Tuesday", a terça-feira do crash da Bolsa de Nova York de 1929, por exemplo. Ruim.

A "Black Friday é o que é por se tratar da sexta após o feriado de Ação de Graças (sempre às quintas, nos EUA), um dos raros dias em que os americanos podem "emendar".

Por fim, Ação de Graças ("Thanksgiving") é uma data típica americana, também por relembrar uma espécie de mito de fundação do país. É um dia raro ainda porque as famílias, dispersas pelo país imenso, se reencontram. Todo mundo já viu essa festa do peru em algum filme.

Mas não é festa aqui. Não é feriado. Não é neres de nada.

Quem acusa o provincianismo alheio muita vez pretende passar por superior em assuntos de modos e maneiras, coisas que, no fundo, são apenas questões de gosto.

Lá no Brasil, onde este colunista nasceu (Rio de Janeiro), as crianças pediam doces no dia de São Cosme e Damião (who?). Por que seria condenável pedir "candies" fantasiado de bruxa do Halloween?

Porém a macaquice não raro revela vacuidade intelectual ou cultural, uma incapacidade de inovar, tal como ocorre com as ideias ou as empresas do Brasil.

Ou, então, um desejo de renegar, de modo nada criativo, sua identidade, por vezes desprezada no próprio país. Esse parece o caso de quem, enriquecido e desgostoso da imagem do caipira tradicional, vira dançarino de quadrilha texana.

Há decerto macaquice mais gratuita, como os letreiros em inglês do comércio rico paulistano, os "medical centers", os "offices". Até os anos 1990, havia em São Paulo um restaurante italiano famoso que apresentava, na entrada, em neon, seu nome "naturalmente" italiano, seguido logo abaixo da expressão "italian food" (comida italiana).

Mais recentemente, reapareceu uma versão simétrica da macaquice: nos definirmos pelos estereótipos estrangeiros do nosso exotismo.

Com a moda gastronômica, dos produtos "da terra" e a "globalização" do Brasil, recebemos mais cozinheiros ("chefs") do exterior. Então os chefs pedem ingredientes "brasileiros": frutas da Amazônia. Sim, os amazônicos são brasileiros, mas suas frutas são desconhecidas de 90% do Brasil.

Claro, não precisamos apelar e nos limitarmos a lembrar a farinha de mandioca. Fubá. Feijoada. Rapadura. Mas "macarrão a bolonhesa", churrasco, sushi e esfirra são alguns dos pratos mais brasileiros do centro-sul do Brasil.

Mas "Black Friday"? Indeed?

Niemeyer, o aríete para arrombar o Aterro - ELIO GASPARI



FOLHA DE SP - 27/11/11

A poeta americana Elisabeth Bishop disse que "o Rio não é uma cidade maravilhosa, é apenas um cenário maravilhoso para uma cidade". Quis o destino que sua namorada, Lota Macedo Soares, desse ao Rio uma de suas maravilhas: o Aterro do Flamengo. Sem Lota, ele poderia ter se transformado num relicário de feiúra semelhante às áreas contíguas às avenidas Marginais de São Paulo. Seu maior mérito foi blindar a obra paisagística, tombando-a.

De tempos em tempos, mãos invisíveis do mercado tentam tungar as terras do parque. Construíram um mafuá na Marina e, por pouco, não tomaram espaço para um centro de convenções. (Para essa área, o empresário Eike Batista tem um projeto.) Agora, apareceu a proposta de construção de uma casa de espetáculos com 3 mil lugares, anexa aos interesses da churrascaria Porcão existente no Aterro. Dourando a pílula, o projeto vem assinado por Oscar Niemeyer. A grife Niemeyer torna agradáveis até as caldeiras do inferno, mas o projeto da Porcão é apenas uma tentativa de avanço sobre o patrimônio da cidade.

O parque do Aterro, como o Central Park de Nova York, não comporta o movimento rotineiro de 3 mil pessoas em direção a um só ponto. (A menos que elas venham pelo mar, deixando seus carros dentro d''água.) Dona Lota blindou o Aterro da mesma forma que Niemeyer blindou suas construções de Brasília. Lá, não se pode trocar um sofá do Alvorada sem licença de seu escritório de arquitetura. Em 2009, o governador José Roberto Arruda atraiu a grife Niemeyer para a construção de uma "Praça da Soberania" numa ponta da Esplanada dos Ministérios. Nela, seria erguido um obelisco de 100 metros. Felizmente, o projeto foi ao arquivo.

Para que se construa uma casa de shows ao lado da churrascaria do Aterro, será necessária autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e seu superintendente já disse que isso é "impossível". A lei é clara, mas os interessados não entrariam no jogo se não contassem com alguns apoios estranhos à paisagem. No caso da Marina, por pouco não chegaram lá.

Ficará tudo muito bem se o projeto for transferido para outro lugar. Afinal, toda cidade precisa de mais uma casa de espetáculos. O Aterro é que não precisa.

Hospital de grife? Louis Vuitton

A elite do empresariado carioca está passando o chapéu para a construção, na cidade, de uma sucursal do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. Coisa de gente grande, como Armínio Fraga e Olavo Monteiro de Carvalho.

A ideia é boa porque um hospital é sempre melhor que nenhum hospital. Pretende-se abrir uma instituição que atenda ao andar de cima (com bons planos de saúde) e faça procedimentos de alta complexidade (que são lucrativos mesmo quando o paciente é do SUS). Falava-se num investimento de R$ 450 milhões e já se fala em R$ 600 milhões.

Mesmo sendo boa, a ideia estimula a tendência que degradou a medicina do Rio. Até os anos 60, a cidade tinha uma grande medicina privada, com os dois pés na Universidade do Brasil, atual UFRJ, e uma boa medicina pública. O melhor hospital do país era o dos servidores. Ortopedia? Miguel Couto. Cirurgia geral? Ipanema, Andaraí ou Lagoa. Havia também um grande projeto: o das Clínicas do Fundão. Sucatearam quase tudo. Enquanto isso, em São Paulo, a mesma medicina saída da universidade vitalizou as Clínicas e criou o Incor (versão 1.0). Esse ambiente gerou uma grande medicina privada e hospitais como o Einstein e o Sírio. A recíproca não é verdadeira: Einsteins e Sírios não geram universidades nem medicina pública, aquela que atende a turma do SUS.

Steve Jobs tinha horror a filantropia. Ele dizia que quitava sua dívida social trabalhando e pagando impostos. Mesmo assim, a Apple juntou-se a grandes empresas do Vale do Silício e todas entraram com US$ 150 milhões para que Stanford construa um centro médico na universidade (uma conta de US$ 2 bilhões). Os hospitais universitários americanos atendem a patuleia do Medicaid (os indigentes) e do Medicare (os cidadãos com mais de 65 anos têm direito a 80% do custo do atendimento hospitalar, e quem contribuiu com US$ 100 mensais para o programa por mais de dez anos recebe atendimento médico adicional). Em Pindorama, quem tem mais de 65 anos em geral fica sem plano de saúde.

Quase todos os grandes hospitais universitários americanos tiveram e têm apoio de endinheirados. É sabida a dificuldade para se associar ações de filantropia ao corporativismo catastrofista que debilita a medicina e as universidades públicas nacionais. Se um sujeito entra no hospital público segurando uma perna e outro, com uma maleta, oferecendo R$ 10 milhões, desde que lhe digam o que se fará com seu dinheiro, meses depois o da perna sairá andando e o da maleta continuará lá. Os grandes empresários do Rio dispõem da colaboração de bancas de advogados capazes de criar instituições protegidas contra essa praga.

Se isso não for possível, paciência, mas, se o negócio é grife, pode-se criar o Hospital Louis Vuitton, no qual só se entra com alguma peça do maleiro da mulher de Napoleão III.

Eremildo, o idiota

Eremildo é um idiota e teve mais uma ideia para resolver a crise da banca europeia. Quer colocar o empresário Silvio Santos na direção do Banco de Compensações Internacionais, com sede em Basileia.

O idiota ouviu o empresário dizer que "eu não sou obrigado a entender de perfumaria, de banco", e verificou o seguinte:

1) As fraudes no PanAmericano começaram em 2006.

2) Em dezembro de 2009, metade do banco foi vendida à Caixa por R$ 739,3 milhões.

3) No dia seguinte, a Viúva pagou uma primeira parcela de R$ 517 milhões.

4) Em julho de 2010, a empresa Silvio Santos Participações recebeu sua parte, que o cretino estima em R$ 200 milhões, numa negociação em que era representada por Wadico Bucchi, presidente do Banco Central de 1989 a 1990.

5) Em novembro de 2010, foi achado um rombo de R$ 2,5 bilhões, coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos. (O buraco viria a ser de R$ 4,3 bilhões.)

O idiota acredita que, nesse lance, Silvio Santos conseguiu receber da Caixa R$ 200 milhões, pela venda de um buraco que custou R$ 3,5 bilhões ao sistema bancário, que nada tinha a ver com a história.

Cara e coroa

O ministro Gilberto Carvalho, porta-voz político do atual governo (e do anterior), ensinou que, num regime presidencialista, quem demite ministro é o titular da Presidência da República. A tarefa não cabe aos partidos, muito menos à imprensa.

Isso já se sabia. O que o Planalto parece estar desprezando é o outro lado da moeda: quem mantém Carlos Lupi no Ministério do Trabalho, Mário Negromonte no das Cidades, e o próximo entulho na biboca em que for apanhado, é Dilma Rousseff. Só ela.

De herege a profeta - MERVAL PEREIRA



O GLOBO - 27/11/11
A Academia Brasileira de Letras prestou uma homenagem, na última quinta-feira, ao economista Roberto Campos pela passagem dos dez anos de sua morte, a 9 de outubro de 2001, e eu fui o escolhido para falar sobre ele. Suas ideias continuam provocando polêmicas, embora antes de morrer tenha podido constatar que elas ganharam espaço no mundo globalizado. Uma de suas muitas frases, ele que foi um formidável fazedor de frases, pode definir bem a situação: "Estive certo quando tive todos contra mim."
Quase sempre foi assim com o controvertido Roberto de Oliveira Campos, economista, administrador público, pensador, diplomata (foi embaixador em Washington e em Londres) e político que, na definição do amigo Delfim Netto, "tinha o gosto pelo desafio, de preferência quando as circunstâncias lhe eram mais desfavoráveis".
Com a marca do polemista, ele discordava: "Não sou controvertido. Controvertido é quem controverte comigo."
Eleito para a Academia Brasileira de Letras em setembro de 1999 na sucessão do dramaturgo de esquerda Dias Gomes, após o que classificou como "uma ridícula batalha ideológica que, magnificada pela mídia, me transformaria numa ameaça à paz e a elegância deste cenáculo", Roberto Campos foi um gênio, na opinião de um de seus companheiros de geração, o economista Ernane Galvêas.
Outro economista de outra geração, seu discípulo, Paulo Rabello de Castro o define com quatro atributos: sua busca pela sinceridade, a disponibilidade para o serviço, seu horror à servidão e a fuga da solidão.
Roberto Campos considerava-se um liberista, que vê no governo um mal necessário.
Para ele, o sistema de economia liberal é o mais capaz de atingir minimamente três objetivos fundamentais que dificilmente se conciliam: eficiência econômica, liberdade política e equidade social.
"Liberismo" é uma expressão criada por um grande amigo de Campos e também acadêmico, José Guilherme Merquior, que a preferia a "liberalismo", para demonstrar que não era liberal apenas na política, mas também na economia.
Paulo Rabello atribui à sua "disciplina escolástica do seminarista que nunca deixou de ser" a impossibilidade de aceitar um conceito político, econômico ou moral que não fosse produto da mais dedicada e prudente elaboração intelectual, do emprego da melhor pesquisa empírica, da prudente contestação aos perigosos dogmas, do amor pela dúvida como método e do suor cognitivo pelo enunciado perfeito.
Conforme descrição de outro economista, Luiz Carlos Bresser Pereira, um liberal de esquerda que classifica Campos como um liberal conservador, a adesão imediata ao regime militar, do qual se tornaria seu primeiro ministro do Planejamento, trouxe para Campos uma série de contradições, principalmente porque os militares não tinham nada de liberal no plano político e, no plano econômico, eram menos liberais do que ele.
Roberto Campos com o tempo foi aprofundando sua crença liberista, que já lhe valera o apelido de "Bob Fields" e a fama de entreguista, como se dizia na época.
Em julho de 1959, com o presidente Juscelino Kubitschek ameaçando "romper com o FMI", em plena exacerbação nacionalista, Roberto Campos pôs para fora de sua sala do antigo BNDE, que ele criara e presidia, no Rio de Janeiro, uma comissão de "estudantes nacionalistas" que lhe fora exigir explicações sobre a posição favorável à participação de capitais estrangeiros na exploração do petróleo na Bolívia.
Perdeu o emprego, mas nunca deixou de ser fiel a JK, a quem ajudara a criar o Plano de Metas de seu governo. Ministro do Planejamento de Castello Branco, recusou-se a assinar a cassação de Juscelino.
Marcou sua atuação no plano nacional em combates memoráveis em que defendia o fim da reserva de mercado na informática, na exploração dos recursos minerais, ou a extinção dos monopólios de petróleo e telecomunicações.
Para ele, as grandes estatais pertenciam à família dos dinossauros, e, para elas, criou apelidos mordazes, como "Petrossauro" para a Petrobras.
São atribuídas ao ajuste fiscal que ele e Octávio Bulhões realizaram então e a reformas estruturais, como a tributária, a administrativa do decreto-lei 200, as bases para o "milagre econômico" que aconteceu entre 1968 e 1974.
Friedrich von Hayek, para Campos, era "o homem de ideias" que mais bravamente lutou, ao longo de duas gerações atormentadas, pela liberdade do indivíduo contra todas as modas totalitárias, do comunismo soviético ao nazismo."
Na definição de Roberto Campos, baseado em Hayek, a explicação para a permanência do capitalismo reside em ser o único sistema compatível com a liberdade do indivíduo.
Isso não impediu, porém, que Campos apoiasse o golpe militar de 64, convencido de que "a real opção era entre um autoritarismo de esquerda e um autoritarismo de centro-direita, que se dizia transicional. (...) Melancólicas veramente eram nossas alternativas nos primeiros anos da década dos 60, quando a Guerra Fria atingia seu apogeu: ou anos de chumbo ou anos de aço".
Campos também se encantou com o capitalismo de Estado da China, que classificou como "o mais excitante experimento de engenharia social de nosso tempo".
Roberto Campos foi senador durante oito anos, representando seu estado natal, o Mato Grosso, e depois duas vezes deputado federal pelo Estado do Rio. Mas não teve como político a importância que teve como economista.
Considerava sua experiência no Congresso marcada pelo fracasso e, enquanto a maioria festejava a aprovação, em 1988, da "Constituição Cidadã", ele a chamava de "anacrônica", remando mais uma vez contra a maré.
Na sua monumental autobiografia, "Lanterna na popa", editada pela Topbooks, comemorou o fato de que, devido aos acontecimentos do fim do século, especialmente o colapso do socialismo, a vitória das economias de mercado e o surgimento de uma onda mundial de liberalização, globalização de mercados e privatizações, passou de "herege imprudente a profeta responsável".