quarta-feira, novembro 23, 2011
Dedos e anéis - RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 23/11/11
Apesar da maioria folgada à sua disposição no Senado, o Planalto começou a perceber que dispõe de pouquíssimo tempo para ver a DRU (Desvinculação de Receitas da União) prorrogada até o final do ano.
Horas depois de reunião a portas fechadas com a oposição, o líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), passou a defender abertamente um acordo: PSDB e DEM se comprometeriam a aprovar a DRU dentro do prazo, desde que antes se vote a emenda 29, regulamentadora dos gastos com saúde. "Estamos no limite. Qualquer acidente de percurso pode comprometer a votação da DRU", sustenta Jucá.
Onde pega Além do texto principal, senadores da oposição querem submeter a voto a emenda que prevê aplicar 10% das receitas da União em saúde, objeto maior de temor do Planalto. Jucá avalia que a base é grande o bastante para derrubar este item.
Vamos ver O Planalto, que na Câmara rejeitou acordo com a oposição, não gosta muito da ideia de Jucá, mas tudo vai depender do tamanho do risco de não ver a DRU prorrogada em tempo hábil.
Muralha Renan Calheiros (AL), líder do PMDB, será o relator da DRU na Comissão de Constituição e Justiça.
Cheio de amor O já célebre ªDilma eu te amoº não foi a primeira declaração político-apaixonada de Carlos Lupi. O hoje ministro disse o mesmo a Leonel Brizola numa reunião do PDT na qual, depois de uma briga feia, tentava reatar com o líder.
Bem na foto A atuação da engenheira Magda Chambriard em reunião no Planalto sobre o vazamento de petróleo no campo de Frade, na bacia de Campos, chamou a atenção do entorno da presidente. Magda, hoje em cargo de diretoria na ANP, é cotadíssima para assumir a cadeira de Haroldo Lima (PC do B), cujo mandato expira nas próximas semanas.
Ato de contrição Pesou na decisão da Canção Nova de retirar do ar programas de TV ancorados por políticos o fato de a comunidade cumprir espécie de ªperíodo probatórioº frente ao Vaticano para a obtenção do reconhecimento pontifício definitivo Ðcertificação que facilitará sua expansão internacional.
Tucanocídio 1 O PSDB-SP rachou até na nota "conjunta" divulgada ontem para reafirmar a candidatura própria à Prefeitura de SP. Embora sua assinatura apareça no documento, Julio Semeghini, presidente da sigla na capital, discorda do trecho que critica o PT pela escolha de Fernando Haddad sem prévias. E sustenta que a direção estadual ignorou seu pedido para modificação do texto.
Tucanocídio 2 A reação da cúpula tucana às articulações que visam protelar as prévias e ampliar o arco de alianças para 2012 contraria a lógica do Palácio dos Bandeirantes. Geraldo Alckmin gostaria que a consulta interna ocorresse em março -e não em janeiro, como querem os pré-candidatos. E expressa, em privado, simpatia pelas tratativas com o grupo de Gilberto Kassab (PSD).
Tucanocídio 3 O senador Aloysio Nunes prestou solidariedade ontem, por telefone, ao presidente da Juventude Tucana de São Paulo, Paulo Mathias, 20 anos, com quem José Serra discutiu publicamente no sábado.
Em todas Um observador anotou: o não-candidato Serra acompanhou Alckmin em três compromissos desde sábado. Foi à entrega de casas em Cubatão, à posse do núcleo sindical do PSDB paulista e à inauguração do Poupatempo de Sorocaba.
Visita à Folha Federico Carli, vice-presidente da Associazione Guido e Maria Carli, visitou ontem a Folha. Estava acompanhado de Giorgio Trebeschi, representante do Banco d'Italia no Brasil e adido financeiro da embaixada italiana.
com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI
tiroteio
"A Caixa pagou R$ 3 mi a empresas de consultoria que nada enxergaram de errado no PanAmericano. Surpreso está o cidadão diante de tamanha imprudência."
DO DEPUTADO PAUDERNEY AVELLINO (DEM-AM), sobre o fato de o vice-presidente de Finanças da CEF, Márcio Percival, ter declarado à PF que o rombo de R$ 4,3 bi foi uma "surpresa" para o banco estatal.
contraponto
Plano B
Garibaldi Alves (Previdência) foi a um restaurante em Natal (RN) no fim de semana passado e lá encontrou, ao piano, José Eduardo Cardozo (Justiça). Impactado pela queda serial de ministros, brincou com o colega:
-Que bom saber que o senhor desenvolve uma segunda atividade! Com a situação que estamos vivendo em Brasília, isso é sempre prudente...
Irã, encruzilhada Oriente-Ocidente - HUSSEIN ALI KALOUT
FOLHA DE SP - 23/11/11
Em termos geoestratégicos, o Irã representa ameaça mais direta aos sauditas do que a Israel; as ameaças belicistas contra o país não terão efeito
O governo de Teerã voltou com força ao temário internacional com a divulgação do relatório da Agência Internacional de Energia Atômica. O documento aponta a intenção do regime teocrático de desenvolver armamentos, o que alimentou as suspeitas daqueles que desconfiavam do caráter militarista do programa nuclear iraniano.
A questão do Irã insere-se no bojo de complexa geometria tridimensional na geopolítica do Oriente Médio, envolvendo difusos interesses de Arábia Saudita, EUA e Israel.
À sombra das pressões internacionais, a Arábia Saudita é o Estado mais interessado numa possível intervenção contra o país persa.
O poder militar, político e econômico do Irã ampliou-se substancialmente nas últimas décadas e já desafia a hegemonia saudita no golfo Pérsico. Em curso, encontram-se nesses Estados teocráticos duas concepções divergentes do islamismo e de suas proliferações políticas.
As fissuras diplomáticas entre Riad e Teerã foram expostas no âmbito da revolução bareinita, que se transformou no laboratório desse embate conceitual entre xiismo e sunismo. No Bahrein, o destino da monarquia de Al Khalifa, minoria sunita, está ligado a temas políticos cruciais, como a manutenção das bases militares dos EUA no país e a estabilidade política da monarquia de Al Saud na Arábia Saudita.
Em termos geoestratégicos, o Irã representa ameaça mais direta aos sauditas do que a Israel. Uma agressão iraniana ao Estado judeu seria recebida pela comunidade internacional como uma ação suicida.
Mas a confrontação retórica com Teerã é importante para o governo Netanyahu elevar seu prestígio político interno e para dissipar o isolamento internacional de Israel, ocasionado por sua caótica diplomacia. A hipótese de ataque preventivo israelense contra instalações nucleares do Irã tem caráter inócuo.
Tal conflito vai arrastar a região para uma escalada militar fora de controle. Reações desmedidas se estenderão desde o leste do Mediterrâneo até a península Arábica.
Já os EUA tendem a acentuar a pressão contra Teerã com a proximidade das eleições presidenciais de 2012. Direcionar o foco da campanha contra a figura de um Estado inimigo, que represente uma ameaça aos valores democráticos, é um discurso plausível e de forte aceitação dentro dos EUA.
O envolvimento de Rússia e China é outro elemento tangencial e que pode, inclusive, recriar uma bipolaridade entre Ocidente e Oriente. Essa hipótese calca-se no valor daquilo que o Estado persa estará disposto a oferecer a russos e chineses e no nível de disposição das duas potências em arriscar suas relações com os EUA e com a Europa em prol do regime de Teerã.
A invasão ao Iraque, as tensões com as potências ocidentais e a ação da Otan na Líbia reforçaram a convicção iraniana de que o domínio pleno do ciclo nuclear é a única via para resguardar sua segurança e defender sua integridade territorial. Por isso, o isolamento e as ameaças belicistas contra o Irã não terão efeito. Resta a opção do diálogo.
HUSSEIN ALI KALOUT, cientista político, especialista em Oriente Médio, é professor de relações internacionais e secretário de relações internacionais do Superior Tribunal de Justiça.
O governo de Teerã voltou com força ao temário internacional com a divulgação do relatório da Agência Internacional de Energia Atômica. O documento aponta a intenção do regime teocrático de desenvolver armamentos, o que alimentou as suspeitas daqueles que desconfiavam do caráter militarista do programa nuclear iraniano.
A questão do Irã insere-se no bojo de complexa geometria tridimensional na geopolítica do Oriente Médio, envolvendo difusos interesses de Arábia Saudita, EUA e Israel.
À sombra das pressões internacionais, a Arábia Saudita é o Estado mais interessado numa possível intervenção contra o país persa.
O poder militar, político e econômico do Irã ampliou-se substancialmente nas últimas décadas e já desafia a hegemonia saudita no golfo Pérsico. Em curso, encontram-se nesses Estados teocráticos duas concepções divergentes do islamismo e de suas proliferações políticas.
As fissuras diplomáticas entre Riad e Teerã foram expostas no âmbito da revolução bareinita, que se transformou no laboratório desse embate conceitual entre xiismo e sunismo. No Bahrein, o destino da monarquia de Al Khalifa, minoria sunita, está ligado a temas políticos cruciais, como a manutenção das bases militares dos EUA no país e a estabilidade política da monarquia de Al Saud na Arábia Saudita.
Em termos geoestratégicos, o Irã representa ameaça mais direta aos sauditas do que a Israel. Uma agressão iraniana ao Estado judeu seria recebida pela comunidade internacional como uma ação suicida.
Mas a confrontação retórica com Teerã é importante para o governo Netanyahu elevar seu prestígio político interno e para dissipar o isolamento internacional de Israel, ocasionado por sua caótica diplomacia. A hipótese de ataque preventivo israelense contra instalações nucleares do Irã tem caráter inócuo.
Tal conflito vai arrastar a região para uma escalada militar fora de controle. Reações desmedidas se estenderão desde o leste do Mediterrâneo até a península Arábica.
Já os EUA tendem a acentuar a pressão contra Teerã com a proximidade das eleições presidenciais de 2012. Direcionar o foco da campanha contra a figura de um Estado inimigo, que represente uma ameaça aos valores democráticos, é um discurso plausível e de forte aceitação dentro dos EUA.
O envolvimento de Rússia e China é outro elemento tangencial e que pode, inclusive, recriar uma bipolaridade entre Ocidente e Oriente. Essa hipótese calca-se no valor daquilo que o Estado persa estará disposto a oferecer a russos e chineses e no nível de disposição das duas potências em arriscar suas relações com os EUA e com a Europa em prol do regime de Teerã.
A invasão ao Iraque, as tensões com as potências ocidentais e a ação da Otan na Líbia reforçaram a convicção iraniana de que o domínio pleno do ciclo nuclear é a única via para resguardar sua segurança e defender sua integridade territorial. Por isso, o isolamento e as ameaças belicistas contra o Irã não terão efeito. Resta a opção do diálogo.
HUSSEIN ALI KALOUT, cientista político, especialista em Oriente Médio, é professor de relações internacionais e secretário de relações internacionais do Superior Tribunal de Justiça.
Proteção global - MARCIA PELTIER
JORNAL DO COMMÉRCIO - 23/11/11
A Central de Atendimento à Mulher, o número telefônico 180 que funciona 24h por dia para receber denúncias e orientar como devem proceder mulheres vítimas de violência, começa a ganhar o mundo. Sexta-feira, a Secretaria de Políticas para as Mulheres e os ministérios das Relações Exteriores e Justiça lançam sua versão experimental na Itália, Espanha e Portugal. Cada país terá um número com atendimento igualmente gratuito. Nos cinco anos de sua existência no Brasil, a Central recebeu quase 2 milhões de chamadas, segundo dados até junho.
Quem diria
Tem audiência marcada com a presidente Dilma na próxima quarta-feira, em Brasília, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde. Em tempos de crise europeia, é sempre bom estreitar os laços com quem está em situação estável – no caso, nosso país.
Agendado
Por falar na presidente, ela confirmou que virá sexta, ao Rio, para a entrega, às 11h, do navio gaseiro Celso Furtado, construído pelo Estaleiro Mauá, à Transpetro, dentro do Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef).
Sacada
A jogadora de vôlei Érika Coimbra — maior pontuadora da história da Superliga Feminina de Vôlei do Brasil — se prepara para estrear em sua nova casa, o clube Igtisadchi Baku, no Azerbaijão. O primeiro jogo, que vale pela Superliga de lá, será sábado. Há pouco mais de dois meses morando na cidade de Baku, a mineira não tem problemas de comunicação na equipe, mas, em casa, a situação é bem diferente. Ela se comunica com sua secretária por mímica. "Ela é ótima, mas a gente sempre acaba não se entendendo: peço para ela lavar a roupa, e ela lava a geladeira. E assim vai. Mas ela é caprichosa", diz Érika, que tem contrato até maio de 2012 naquele país.
Curadoria
Presidente da Funarte, Antonio Grassi é quem vai organizar as exposições e a programação cultural paralela à Feira de Frankfurt, em 2013. O convite foi feito por Galeno Amorim, presidente da Biblioteca Nacional, que está à frente do comitê que planeja a participação do Brasil como convidado de honra do evento.
Bagagem
O diretor- executivo da ONU-Habitat, Joan Clos, participa do 10º Congresso Mundial Metrópolis – Cidades em Transição, de hoje a sábado, em Porto Alegre. Será a primeira vez que uma cidade da América do Sul abrigará uma edição do encontro. Epidemiologista e especialista em saúde pública, Clos discutirá os desafios para transformar cidades em centros urbanos sustentáveis. Ex-prefeito de Barcelona, ele esteve envolvido na revitalização da Ciutat Vella, o centro histórico da capital catalã, e da Barcelona@ 22, remodelação dos distritos industrial e portuário. Mais de 120 cidades mundo afora integram a rede Metrópolis.
Tradição renovada
O Yoguttone é a novidade para o Natal da rede Yoguland, que investiu R$ 50 mil no desenvolvimento do panetone de frutas com iogurte. A empresa está de olho no gosto dos brasileiros que, no ano passado, consumiram cerca de 150 milhões de unidades do panetone comum. O sócio-diretor Rafael Soares destaca que a meta é elevar em até 5% as vendas da marca em novembro e dezembro.
Só feras
O violonista e compositor Yamandu Costa e o bandolinista Hamilton de Hollanda se apresentam no prestigiado Concert Hall, no Canadá, dia 3 de dezembro, com ingressos, que custavam US$ 50, já esgotados. Para alegria dos fãs, a dupla fará um novo concerto, no dia seguinte, no badalado Centini Restaurant & Lounge. Yamandu se prepara para lançar três novos CDs nos próximos meses pela gravadora Biscoito Fino. Contará com participação de músicos argentinos e franceses. Em abril de 2012, ele se junta ao virtuose cubano Manuel Barrueco para turnê nos Estados Unidos.
Livre Acesso
O casseta Reinaldo leva para o palco do restaurante Vizta nesta sexta-feira um dos mais renomados trompetistas do mundo, Claudio Roditi. Radicado nos EUA há mais de 40 anos, Roditi divide a cena com a Companhia Estadual de Jazz.
O cônsul-geral do Líbano Ali Daher, e sua mulher, Magda, abriram, ontem, o casarão consular da rua Dona Mariana para comemorar a independência do país, conquistada em 1943, após guerra contra a França. Para o coquetel foram convidados líderes da comunidade libanesa no Estado, e autoridades, como o articulador político especial da Prefeitura Sami Jorge Haddad Abdulmacih, autor do projeto que tornou Rio e Beirute cidades-irmãs.
O projeto Imagens em Movimento exibirá filmes inteiramente feitos por alunos de 10 escolas municipais na Cinemateca do MAM de hoje a sexta-feira, das 14h às 17 horas, com entrada franca. Estarão presentes Nathalie Burgeois, da Cinemateca Francesa, e Ana Dillon, idealizadora do projeto no Brasil.
No ar como a Adalgisa na novela Vidas em Jogo, da Record, a atriz Claudia Alencar irá lançar seu quarto livro de poesias, Refinamento e loucura, segunda, na livraria Cultura do Shopping Fashion Mall. A publicação conta com poemas, ilustrações e aquarelas assinadas pela autora.
Na próxima segunda haverá uma leitura dramatizada e com entrada franca da peça Só por dinheiro??!, de Maria Fernanda Gurgel, no Espaço Cultural Correia Lima, às 20h. A peça será montada no início do próximo ano, no Rio.
A Judice & Araujo, representante exclusiva da Christie’s no Rio, acaba de abrir a sua primeira loja na Barra da Tijuca, a quarta da empresa no Estado.
Ignacio Wistuba, do Anderson Cancer Center de Houston vai falar sobre a terapia personalizada, a grande novidade no tratamento do câncer de pulmão, durante o 1º Simpósio Anual do Núcleo de Oncologia Toráxica da COI, sexta e sábado, no Hotel Windsor Barra.
Com Marcia Bahia, Cristiane Rodrigues, Marcia Arbache e Gabriela Brito
A capivara e os juízes - FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 23/11/11
BRASÍLIA - Talvez a capivara perdida e depois capturada perto do Supremo Tribunal Federal tenha sido um sinal para as Excelências ali dentro, sede do Poder mais opaco da República.
Desde a volta do país à democracia, a transparência foi avançando. Hoje, quase tudo se sabe sobre deputados e senadores. De passagens aéreas a salários e vantagens obtidas no dia a dia. No Poder Executivo, o Portal da Transparência mostra uma vasta lista de despesas de cada órgão público.
O mesmo não se pode afirmar do Poder Judiciário. Nesta semana, as coisas pioraram. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Cezar Peluso, limitou o acesso -já pequeno- a processos disciplinares existentes contra seus pares.
Por um curto período foi possível conhecer as iniciais dos nomes de juízes processados. Agora, eliminou-se essa brecha. Houve uma justificativa legal, é claro. Um artigo da Lei Orgânica da Magistratura Nacional determina que "o processo e o julgamento das representações e reclamações [contra juízes] serão sigilosos, para resguardar a dignidade do magistrado".
Na categoria de iniquidade legal, esse artigo concorre como um dos mais indignos. A lei dos juízes está para ser reformada há anos, mas o Poder Judiciário não se move. O próprio Peluso, ao assumir, comprometeu-se a tratar do tema com vigor. Até agora, nada.
Qualquer cidadão em litígio na Justiça tem exposta a sua "capivara", jargão policial para folha corrida. Deputados, senadores e ministros são escrutinados todos os dias, com suas fotos e declarações publicadas na mídia.
A proteção indevida que os juízes se autoconcedem não serve só para proteger os incompetentes e os corruptos. Quando essa minoria fica escondida, todos têm a imagem prejudicada. Até a capivara que apareceu ontem no STF sabe disso.
Desde a volta do país à democracia, a transparência foi avançando. Hoje, quase tudo se sabe sobre deputados e senadores. De passagens aéreas a salários e vantagens obtidas no dia a dia. No Poder Executivo, o Portal da Transparência mostra uma vasta lista de despesas de cada órgão público.
O mesmo não se pode afirmar do Poder Judiciário. Nesta semana, as coisas pioraram. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Cezar Peluso, limitou o acesso -já pequeno- a processos disciplinares existentes contra seus pares.
Por um curto período foi possível conhecer as iniciais dos nomes de juízes processados. Agora, eliminou-se essa brecha. Houve uma justificativa legal, é claro. Um artigo da Lei Orgânica da Magistratura Nacional determina que "o processo e o julgamento das representações e reclamações [contra juízes] serão sigilosos, para resguardar a dignidade do magistrado".
Na categoria de iniquidade legal, esse artigo concorre como um dos mais indignos. A lei dos juízes está para ser reformada há anos, mas o Poder Judiciário não se move. O próprio Peluso, ao assumir, comprometeu-se a tratar do tema com vigor. Até agora, nada.
Qualquer cidadão em litígio na Justiça tem exposta a sua "capivara", jargão policial para folha corrida. Deputados, senadores e ministros são escrutinados todos os dias, com suas fotos e declarações publicadas na mídia.
A proteção indevida que os juízes se autoconcedem não serve só para proteger os incompetentes e os corruptos. Quando essa minoria fica escondida, todos têm a imagem prejudicada. Até a capivara que apareceu ontem no STF sabe disso.
A terceirização de má qualidade - SÉRGIO AMAD COSTA
Ninguém tem dúvida da necessidade de disciplinar juridicamente o processo de terceirização no Brasil.O regulamento atual sobre o assunto é precário.
Por um lado, ele não atende às proteções básicas nem às complementares dos profissionais terceirizados.
Por outro lado, gera para a empresa total insegurança no sentido de ela não saber se está terceirizando de maneira correta, em termos legais. Mas parece que agora, depois de tantos anos de um intolerável vácuo jurídico nessa matéria, se caminha para a definição de um ordenamento legal que disciplina as relações de terceirização no País.
Regulamentar juridicamente esse tipo de contratação da força de trabalho eliminará, com certeza, uma série de problemas trabalhistas. Porém, cumpre salientar que outro sério problema afeta as questões ligadas à terceirização.
Trata-se do elevado custo do emprego no Brasil, pressionando a empresa a substituir empregados efetivos por terceiros,muitas vezes em atividades em que não faz sentido tal troca.
A terceirização pode ser de boa ou de má qualidade. A de boa qualidade ocorre quando se busca a melhoria efetiva do processo produtivo, agregando valor ao produto ou ao serviço e melhorando a vantagem competitiva da organização. Já a de má qualidade é aquela que surge da necessidade exclusiva de reduzir custos com os encargos trabalhistas e previdenciários.
Nesse caso,não raro,empresas terceirizam algumas atividades que não deveriam, em termos de gestão,ser destinadas a terceiros.
Foco,aqui,principalmente,a terceirização de serviços que são realizados no local da empresa contratante. Esse tipo de contratação de força de trabalho, nos casos que visam apenas a atacar o custo do emprego, acaba gerando problemas de gestão para a empresa.
Entre eles, os que se verificam com muita frequência são a falta de qualidade na prestação do trabalho terceirizado; a baixa produtividade; e a ausência de motivação e comprometimento de terceiros responsáveis pelo serviço.
Esse quadro de má qualidade da terceirização decorre de vários fatores.
Um deles é o sentimento de exclusão dos terceirizados. Em muitos casos, observam que a política de remuneração (salários, benefícios e PLR) destinada aos empregados da empresa em que estão prestando serviços como terceiros é muito mais atraente do que a da empresa em que estão contratados.
O resultado é uma espécie de sentimento de discriminação.
Outro fator reside no fato de que os terceirizados,evidentemente,não são levados em conta na missão,na visão e nos valores da empresa em que estão alocados. Isso faz com que eles se vejam como colaboradores de segunda classe. Contribui, também, para esse cenário de má qualidade da terceirização o fato de que muitas das empresas contratantes não oferecem treinamentos para que os terceirizados consigam atender, com o esmero necessário, às demandas que elas próprias lhes fazem,prejudicando a si mesmas.
Finalmente, vale lembrar que os encargos trabalhistas e previdenciários e demais tributos não desaparecem no processo de terceirização. A empresa contratada também está sujeita à mesma tributação que a sua contratante, antes da terceirização. E, evidentemente, ela insere esses custos nos valores cobrados na fatura emitida para o tomador do serviço.Portanto,além de terceirizar atividade que muitas vezes não deveria ser entregue a terceiros, visando a obter "economia", a empresa contratante poderá, em alguns casos, gastar mais do que gastava antes da terceirização.
Tudo leva a crer que em breve será sanado um dos grandes problemas da terceirização no País:o do ordenamento jurídico sobre a matéria.Mas não se pode dizer o mesmo sobre a questão do elevado custo do emprego no Brasil.
Medidas do governo para desonerar a folha salarial, tão necessárias para que ocorram terceirizações de boa qualidade, parecem estar muito longe de ser alcançadas.
As consequências - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 23/11/11
O acidente na exploração do petróleo na costa do Estado do Rio provocado por uma das maiores companhias petrolíferas do mundo, a americana Chevron, reacende a discussão sobre a distribuiçãodos royalties e participações especiais da exploração do petróleo.
Oficialmente, a discussão do polêmico assunto ficou para o próximo ano, mas há uma desconfiança em setores políticos nos estados produtores de que, resolvida a questão crucial do governo com a aprovação da DRU - que aconteceu ontem -, o Palácio do Planalto faça vista grossa e permita uma votação do projeto que redistribui os royalties para os estados não produtores ainda este ano, ao apagar das luzes do Congresso, no que seria um golpe parlamentar de consequências políticas imprevisíveis.
O secretário estadual do Meio Ambiente, o petista Carlos Minc, chama a atenção para o fato de que nesse acidente, apenas por uma situação específica, os ventos e as marés levaram o óleo que vazou para longe das praias, mas esse mesmo acidente, com outras condições climáticas, iria poluir as praias de Macaé, Rio das Ostras, de Búzios, Arraial do Cabo, "e o óleo derramado não ia bater às portas do Piauí e muito menos em Rondônia ou Mato Grosso".
Além disso, uma parte substancial desse óleo não aflorou com o acidente, ficou no que se chama de "coluna d"água". Segundo técnicos do Ibama e do Inea, o óleo sofre um processo químico e vira aquelas pelotas que parecem piche. "Todo mundo um dia já pisou numa bola preta de piche em uma praia. Dependendo da corrente, podem ir para as praias do Rio, de Angra, de Ubatuba, do Espírito Santo, mas seguramente nesta região", adverte Minc.
O problema não é apenas o óleo chegar à praia, lembra o secretário: "Vamos pegar o caso do acidente da Baía de Guanabara em 2000 ou o caso de 1987 do terminal da Baía da Ilha Grande. Você tem afetados o turismo, a pesca, o transporte, o esporte náutico, uma série de atividades."
Esses transtornos podem ser minimizados, mas não evitados totalmente, lembra, destacando que "não existe risco zero, e o impacto obviamente é na localidade e afeta os empregos no turismo, na pesca, na navegação".
O acidente da Chevron aconteceu em uma área do pós-sal, isto é, a exploração ainda não é do pré-sal, as sondas da empresa petrolífera americana estavam a aproximadamente 1.500 metros abaixo do chão do mar, e o pré-sal, 6 a 7 mil metros.
"Esse acidente foi a 800 metros, onde tinha uma falha qualquer, que já existia, mas foi se aprofundando com a pressão do óleo. Imagina isso tudo em uma profundidade oito a dez vezes maior", argumenta Carlos Minc.
No pré-sal, tudo é mais complicado tecnologicamente. "Acontecendo um acidente, seguramente é mais complexo e mais custoso", completa Minc.
O Estado do Rio sempre apoiou sistemas de distribuição da renda dos impostos nacionais com base no critério inverso da renda per capita.
Por esses critérios, o retorno para o Estado do Rio dos impostos aqui arrecadados foi de apenas 2,4%, enquanto no conjunto dos estados do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste foi de 56%, e nos estados do Sul foi de 17%.
Na distribuição dos royalties ou das participações especiais, esse critério não pode ser adotado, pois quebraria financeiramente os estados produtores, além de desrespeitar o espírito da legislação, que trata os royalties como uma compensação aos estados produtores, não só pelos transtornos que têm na exploração do petróleo, mas também pelo fato de que o petróleo não tem ICMS cobrado na sua origem, e sim onde é consumido, prejudicando os estados produtores.
O fato é que, como comenta um estudo produzido pelo assessor econômico José Roberto Afonso, a pedido dos senadores Francisco Dornelles e Lindbergh Farias, as participações governamentais na extração de petróleo e gás natural, bem assim de recursos minerais e na geração de recursos hídricos, nunca geraram volumes importantes de receita e nem despertaram maiores atenções sobre sua divisão entre as três esferas de governo e entre as unidades de cada uma dessas esferas até há poucos anos.
mentadora qualificou os royalties como compensação financeira, e a participação especial como a mesma compensação, mas extraordinária.
A descoberta de enormes reservas de petróleo e gás em mar, nas camadas do pré-sal, mudou radicalmente esse cenário.
Para a exploração, o governo federal propôs mudar o regime de concessão para partilha de produção, e o Novo Marco Regulatório foi dado pela Lei nº 12.351 de 22/12/2010.
Já no campo da divisão federativa da receita, subitamente irrompeu e foi fomentado um enorme conflito federativo, porque aquela receita que era ignorada e, depois, pouco observada passou a ser vista como uma espécie de redenção para as finanças de todos os governos do país, sobretudo dos ditos não produtores.
A exploração do pré-sal em mar passou a ser vista como espécie de novo e futuro eldorado para as finanças públicas estaduais e municipais, capaz de gerar um enorme e inesgotável volume de receitas e, para tanto, disseminou-se a ideia de que as participações não devem caber originalmente aos estados e às prefeituras confrontantes dos campos em mar ou afetados pela citada produção, que será gerada fora do território em terra.
Neste contexto, o Novo Marco Regulatório em si passou para o segundo plano no Congresso Nacional na apreciação final do projeto que o regulamentou. Tanto na Câmara quanto no Senado, foram apresentadas e aprovadas propostas com objetivo de redistribuir para todos os estados e para todos os municípios, segundo os mesmos critérios de rateio aplicados aos respectivos fundos de participação (FPE e FPM), as parcelas que cabem a essas duas esferas de governo.
Nas simulações mais conservadoras, entre 2012 e 2020, os governos do Rio de Janeiro podem vir a perder ao menos cerca de R$49 bilhões em royalties e participações especiais em petróleo e gás, caso o projeto aprovado em outubro pelo Senado venha a ser aplicado.
No mesmo período, o governo estadual deve deixar de arrecadar perto de R$64 bilhões em ICMS sobre o petróleo destinado a outros estados e a não receber outros R$13 bilhões do FPE se for mantido o coeficiente que foi imposto por uma tabela no lugar do critério de rateio do código tributário.
Agregados os três montantes, chega-se a um prejuízo de R$125 bilhões.
Oficialmente, a discussão do polêmico assunto ficou para o próximo ano, mas há uma desconfiança em setores políticos nos estados produtores de que, resolvida a questão crucial do governo com a aprovação da DRU - que aconteceu ontem -, o Palácio do Planalto faça vista grossa e permita uma votação do projeto que redistribui os royalties para os estados não produtores ainda este ano, ao apagar das luzes do Congresso, no que seria um golpe parlamentar de consequências políticas imprevisíveis.
O secretário estadual do Meio Ambiente, o petista Carlos Minc, chama a atenção para o fato de que nesse acidente, apenas por uma situação específica, os ventos e as marés levaram o óleo que vazou para longe das praias, mas esse mesmo acidente, com outras condições climáticas, iria poluir as praias de Macaé, Rio das Ostras, de Búzios, Arraial do Cabo, "e o óleo derramado não ia bater às portas do Piauí e muito menos em Rondônia ou Mato Grosso".
Além disso, uma parte substancial desse óleo não aflorou com o acidente, ficou no que se chama de "coluna d"água". Segundo técnicos do Ibama e do Inea, o óleo sofre um processo químico e vira aquelas pelotas que parecem piche. "Todo mundo um dia já pisou numa bola preta de piche em uma praia. Dependendo da corrente, podem ir para as praias do Rio, de Angra, de Ubatuba, do Espírito Santo, mas seguramente nesta região", adverte Minc.
O problema não é apenas o óleo chegar à praia, lembra o secretário: "Vamos pegar o caso do acidente da Baía de Guanabara em 2000 ou o caso de 1987 do terminal da Baía da Ilha Grande. Você tem afetados o turismo, a pesca, o transporte, o esporte náutico, uma série de atividades."
Esses transtornos podem ser minimizados, mas não evitados totalmente, lembra, destacando que "não existe risco zero, e o impacto obviamente é na localidade e afeta os empregos no turismo, na pesca, na navegação".
O acidente da Chevron aconteceu em uma área do pós-sal, isto é, a exploração ainda não é do pré-sal, as sondas da empresa petrolífera americana estavam a aproximadamente 1.500 metros abaixo do chão do mar, e o pré-sal, 6 a 7 mil metros.
"Esse acidente foi a 800 metros, onde tinha uma falha qualquer, que já existia, mas foi se aprofundando com a pressão do óleo. Imagina isso tudo em uma profundidade oito a dez vezes maior", argumenta Carlos Minc.
No pré-sal, tudo é mais complicado tecnologicamente. "Acontecendo um acidente, seguramente é mais complexo e mais custoso", completa Minc.
O Estado do Rio sempre apoiou sistemas de distribuição da renda dos impostos nacionais com base no critério inverso da renda per capita.
Por esses critérios, o retorno para o Estado do Rio dos impostos aqui arrecadados foi de apenas 2,4%, enquanto no conjunto dos estados do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste foi de 56%, e nos estados do Sul foi de 17%.
Na distribuição dos royalties ou das participações especiais, esse critério não pode ser adotado, pois quebraria financeiramente os estados produtores, além de desrespeitar o espírito da legislação, que trata os royalties como uma compensação aos estados produtores, não só pelos transtornos que têm na exploração do petróleo, mas também pelo fato de que o petróleo não tem ICMS cobrado na sua origem, e sim onde é consumido, prejudicando os estados produtores.
O fato é que, como comenta um estudo produzido pelo assessor econômico José Roberto Afonso, a pedido dos senadores Francisco Dornelles e Lindbergh Farias, as participações governamentais na extração de petróleo e gás natural, bem assim de recursos minerais e na geração de recursos hídricos, nunca geraram volumes importantes de receita e nem despertaram maiores atenções sobre sua divisão entre as três esferas de governo e entre as unidades de cada uma dessas esferas até há poucos anos.
mentadora qualificou os royalties como compensação financeira, e a participação especial como a mesma compensação, mas extraordinária.
A descoberta de enormes reservas de petróleo e gás em mar, nas camadas do pré-sal, mudou radicalmente esse cenário.
Para a exploração, o governo federal propôs mudar o regime de concessão para partilha de produção, e o Novo Marco Regulatório foi dado pela Lei nº 12.351 de 22/12/2010.
Já no campo da divisão federativa da receita, subitamente irrompeu e foi fomentado um enorme conflito federativo, porque aquela receita que era ignorada e, depois, pouco observada passou a ser vista como uma espécie de redenção para as finanças de todos os governos do país, sobretudo dos ditos não produtores.
A exploração do pré-sal em mar passou a ser vista como espécie de novo e futuro eldorado para as finanças públicas estaduais e municipais, capaz de gerar um enorme e inesgotável volume de receitas e, para tanto, disseminou-se a ideia de que as participações não devem caber originalmente aos estados e às prefeituras confrontantes dos campos em mar ou afetados pela citada produção, que será gerada fora do território em terra.
Neste contexto, o Novo Marco Regulatório em si passou para o segundo plano no Congresso Nacional na apreciação final do projeto que o regulamentou. Tanto na Câmara quanto no Senado, foram apresentadas e aprovadas propostas com objetivo de redistribuir para todos os estados e para todos os municípios, segundo os mesmos critérios de rateio aplicados aos respectivos fundos de participação (FPE e FPM), as parcelas que cabem a essas duas esferas de governo.
Nas simulações mais conservadoras, entre 2012 e 2020, os governos do Rio de Janeiro podem vir a perder ao menos cerca de R$49 bilhões em royalties e participações especiais em petróleo e gás, caso o projeto aprovado em outubro pelo Senado venha a ser aplicado.
No mesmo período, o governo estadual deve deixar de arrecadar perto de R$64 bilhões em ICMS sobre o petróleo destinado a outros estados e a não receber outros R$13 bilhões do FPE se for mantido o coeficiente que foi imposto por uma tabela no lugar do critério de rateio do código tributário.
Agregados os três montantes, chega-se a um prejuízo de R$125 bilhões.
Amarração com a China - CELSO MING
O ESTADÃO - 23/11/11
Nesta terça-feira foi a vez de um dos mais importantes jornais de Economia e Finanças do mundo, o Financial Times, de Londres, de chamar a atenção para o enorme impulso do comércio entre a América Latina e a Ásia: entre 1999 e 2009, cresceu seis vezes, para US$ 230 bilhões anuais.
De lá para cá essa expansão não parou. Ao contrário, acentuou-se. Nessa terça, coincidentemente, o Clarín, de Buenos Aires, avisava que em 2010 o comércio entre os dois grupos de países cresceu 40% (sobre 2009), encabeçado pelos negócios entre Brasil e China, que aumentaram 56%.
O gráfico mostra o que se passou desde o ano de 2001 entre Brasil e China. Até outubro de 2011, as exportações brasileiras para chineses subiram nada menos que 1.852% e as importações, 1.936%.
Essas exportações do Brasil produziram amarração tão forte que, há algumas semanas, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, mostrou preocupação com indícios de que a economia da China poderia desacelerar. Teme que o esfriamento do forno chinês provoque um tranco nas exportações brasileiras.
O que interessa aí é que começa a se delinear na cabeça de autoridades brasileiras o que se poderia ver como nova dependência econômica, não mais do império americano, mas do antigo Império do Meio - como o dragão chinês era chamado nos tempos de Confúcio.
Laços com a China estão se estreitando não só na área comercial, mas também na política. A simples partilha da sigla Brics (Brasil, Rússia, Índia e China e, depois, África do Sul) já é especial. Embora seja invenção de um analista de banco (Jim O"Neill, do Goldman Sachs), dirigentes dos Brics se encontraram oficialmente como bloco em eventos internacionais de cúpula, para examinar propostas e atitudes ante a crise. A última reunião foi no âmbito do G-20, em Cannes, quando analisaram eventual contribuição para saneamento de finanças da área do euro.
De todo modo, para o bem e para o mal, negociações entre Brasil e China são cada vez mais intensas. Gigantes industriais como a Foxconn têm projetos de grande envergadura para o País. E, não é nada, o Brasil exporta mais de US$ 35 bilhões por ano para a China e já não ficou mais tão simples cutucar o dragão com vara curta - como pediam tantos empresários brasileiros contra a forte concorrência provocada pela entrada de produtos chineses a uma fração do preço pago por similar nacional.
O sentimento de neodependência é, principalmente, atitude equivocada. São os chineses que mais precisam do fornecimento de matérias-primas, alimentos e energia de outros emergentes, sobretudo do Brasil.
Esse equívoco carece de tratamento que, do ponto de vista das políticas públicas, exige reformas de base, mais educação e qualificação da mão de obra brasileira para o salto de produtividade sem o qual o futuro do Brasil não chegará nunca.
Em Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs) vai pintando, para todo o ano de 2011, entrada líquida de US$ 65 bilhões, volume excepcional para um ano de crise global como este. Não há indício de que o volume em torno de US$ 5 bilhões por mês deva cair nos próximos meses.
Retificação. O leitor Ricardo Gonçalves adverte que Papandreou, Berlusconi e Zapatero não foram chefes de Estado, como ficou dito na Coluna passada. Foram, sim, chefes de governo. O chefe de Estado da Espanha, por exemplo, é o rei Don Juan Carlos I.
A USP e a corrosão do caráter - ROBERTO ROMANO
O ESTADÃO - 23/11/11
Acadêmicos brasileiros pouco afeitos à cultura imaginam que noções éticas, morais, científicas surgem apenas em textos considerados relevantes nas seitas universitárias. A preguiça e a pressa na publicação,unidas,logo brotam juízos "definitivos" sobre algum campo do pensamento.
Assim ocorre com o tema antigo sobre a presença ou ausência de caráter nas pessoas.
Os supostos pesquisadores consideram que o conceito de uma corrupção do caráter aparece com o sociólogo norte americano Richard Sennett.
Esse teórico, é certo, muito ajuda a entender a vida moderna.Seu livro sobre o caráter corrompido integra uma série de textos que narram, com olhar clínico, as mudanças e o estilhaçamento de valores na sociedade urbana ocidental.Coma flexibilização do trabalho e a insegurança resultante, temos a massa dos que perderam a confiança nos governos e nos mercados. Outra obra de Sennett indica a crise da sociedade e do Estado.
Trata-se do monumental O Declínio do Homem Público. Ali, ele demonstra o quanto as formas do Estado foram enfraquecidas, após o século 18,em proveito das "intimidades tirânicas", os movimentos que prometem às minorias a defesa de seus direitos sem passar pelos mecanismos do poder público.
Baseando-se na "identidade" assumida pelos indivíduos, tais movimentos assumem formas repressivas das quais é quase impossível escapar. Antes de ser um cidadão, o sujeito pertenceria à sua "comunidade", cujas causas importam mais do que as coletivas. A primeira vítima da corrosão do caráter é a vida pública.
Movimentos como os descritos por Sennett conduzem milhões às ruas para exercer pressão sobre a sociedade e o Estado.
Mas pouco ou nada fazem diante de descalabros ocorridos na economia, no Judiciário, no Executivo, nos Parlamentos. A identidade maior deixa de ser a cidadania e se transfere para instâncias que defendem particularidades.
Sennett respeita os referidos modelos intimistas, mas também mostra o quanto sua pauta é unilateral e autoritária, tiranizando seus adeptos.A corrosão do caráter é potencializada quando os grupos e indivíduos assumem o perfil da militância.
O militante padrão, por mimetismo, sacrifica normas éticas,sociais e política sem proveito de seu movimento, visto por ele como a fonte última dos valores. Todos os demais âmbitos seriam movidos por interesses escusos. A maior parte do material histórico e sociológico usado por Sennett vem dos EUA e da Europa.
No Brasil, temos um campo mais complexo. Aqui, longe de permanecerem distantes e hostis aos poderes públicos, lutando contra eles na concorrência para dominar indivíduos e grupos, movimentos sociais mantêm excelentes tratos com os governos e Parlamentos. Eles sabem aplicar ventosas nos cofres estatais (as ONGs...) de modo a expandir suas forças, mas guardam a retórica contrária ao Estado.
Abusca de verbas põe a militância ao dispor de partidos políticos hegemônicos. O militante exerce seu fervor de tal modo que, em pouco tempo, pratica o que suas doutrinas condenavam ou condenam.O militante, cujo caráter foi corroído, julga que os interesses sociais alheios à sua pauta são "burgueses", "abstratos", "conservadores".
Eles e imagina autorizado a manter em lugares estratégicos oligarcas exímios na arte de roubar os cofres públicos. Na superfície, movimentos como a UNE (e suas subsidiárias) arvoram palavras de esquerda.
Mas dão suporte às mais retrógradas forças políticas.
Líderes estudantis que ontem lutavam contra a corrupção, ao subirem ao poder de Estado, guardam excelentes relações com oligarcas truculentos.
Entre as manifestações contra Fernando Collor e o realismo de hoje não existiria, para a esquerda oficial, nenhum elo.
Os valores antes repetidos qual ladainhas são ditos "bravatas" pelos que aderiram à razão de Estado corrompida. A militância é processo corrosivo a ser notado em todas as profissões.Em todos os setores da vida social e política ela dissolve valores efetivos em prol dos dirigentes demagógicos e de suas aliança sem proveito próprio.
A que assistimos na USP nos últimos dias? Lutas contra o arbítrio autoritário dos oligarcas? Denúncias de corrupção política (que lesa milhões de brasileiros em termos de educação, saúde, cultura, ciência e tecnologia)? Batalhas contra a falta de democracia nos grandes partidos, nos quais os dirigentes são donos das alianças, das candidaturas, dos cofres, sem ouvir as bases? Movimentos contra o privilégio de foro,algo que faz de nosso Estado um absolutismo contrário à República? A pauta dos militantes, professores e alunos é alienada em todos os sentidos, da marijuana ao populismo rasteiro.
Militantes fazem sua revolução em escala micrológica contra o reitor, mas os dirigentes nacionais do movimento estudantil negociam apoio aos donos do poder, os verdadeiros soberanos.
Aviso aos bajuladores do petismo: a noção de caráter é velha como o saber humano e foi estudada, sobretudo, por um pensador "burguês", Immanuel Kant.
Para ele, o caráter é "marca distintiva do ser humano como racional, dotado de liberdade". O caráter"indica o que o ser humano está preparado para fazer a si mesmo". Dentre as técnicas para a corrosão do caráter, as drogas são as piores.
É irresponsabilidade ética afirmar que elas não prejudicam os usuários ou "ajudam a melhorar a imaginação nas artes e nas ciências".A leitura de pesquisas como a de Alba Zaluar,sobre a indústria das drogas, traria prudência aos seus apolo getas nos câmpus.Militantes sempre ignoram e combatem a liberdade e a dignidade alheias, basta ver as multidões que apoiaram tiranias modernas, do fascismo ao stalinismo.
Hoje, na USP, a militância aposenta a busca de "mudar o mundo".
Sobramos coquetéis Molotov para a defesa do nada, da irrelevância absoluta, da morte.
FILÓSOFO, PROFESSOR DE ÉTICA E FILOSOFIA NA UNICAMP, É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE "O CALDEIRÃO DE MEDEIA" (PERSPECTIVA)
A seleção dos piores - ROLF KUNTZ
O Estado de S.Paulo - 23/11/11
Tirem do governo os malandros e haverá menos interesse em criar ONGs para sugar dinheiro público. Limitem os convênios ministeriais e proíbam as emendinhas ao Orçamento. Com isso, uma porção de brechas será fechada. Mas o governo tem outras prioridades, politicamente mais simples, e resolveu criar - adivinhem - um grupo de trabalho para estudar um marco regulatório para organizações não governamentais. É isso aí: um grupo de trabalho com 90 dias para apresentar uma proposta, segundo informou na segunda-feira o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho.
Regular o funcionamento de ONGs pode ser importante, mas um projeto com essa finalidade tramita no Congresso Nacional desde 2004. O último registro, de setembro de 2009, é de uma ordem da Mesa Diretora para se apensar ao texto o Projeto de Lei 5.950. Depois disso a tramitação parou, O governo petista nunca se empenhou pela aprovação desse projeto, mas agora decide formar um comitê para estudar o assunto.
Ao incluir em sua agenda a regulação das ONGs, o Executivo deixa em segundo plano, mais uma vez, as safadezas ministeriais. Esse tem sido o comportamento padrão, só abandonado quando a imprensa deixa as bandalheiras muito expostas. Malandros em ministérios só são problemas para o Palácio do Planalto quando se acumulam denúncias de patifarias. Isso mesmo: não quando surgem denúncias, mas quando as informações sobre os escândalos se amontoam. O incômodo não vem da irregularidade, do assalto continuado ao Tesouro Nacional, mas da insistência dos meios de comunicação em divulgar a cada dia uma nova indecência. Se não fosse assim, nenhum dos envolvidos em denúncias teria durado tanto, nem o ministro Carlos Lupi teria sobrevivido ao espetáculo grotesco de seu primeiro depoimento no Congresso.
Todas essas figuras ilustres foram demitidas somente quando a sua manutenção impôs à Presidência um custo insuportável. Mas é difícil, para a imprensa, interromper a sequência das histórias comprometedoras.
Escândalo no governo, como escreveu José Simão, parece lenço de papel em caixinha: puxa-se um e saem três, quatro ou mais. Isso não é acidente nem é um dado inevitável da vida política. É resultado de uma escolha consciente, de uma estratégia de poder implantada em Brasília em 2003.
"Houve incidência de problemas", disse na segunda-feira o ministro Gilberto Carvalho, mas esses problemas, segundo ele, são provavelmente exceções. Houve falhas, admitiu, na capacidade de fiscalizar "lá na ponta". Ele retomou o assunto no dia seguinte, para denunciar um "processo de criminalização das entidades da sociedade civil" - uma tentativa, acrescentou, rejeitada pelo governo. Em dois dias o ministro formulou duas teses claramente insustentáveis. Em primeiro lugar, nenhum analista sério tenta criminalizar todas as ONGs. Ao contrário: o bom serviço prestado por algumas organizações civis de interesse público (Oscips) tem sido amplamente reconhecido. Em segundo, os problemas não estão "lá nas pontas". Os escândalos nos Ministérios do Esporte, do Turismo, dos Transportes, da Agricultura e do Trabalho não surgiram por iniciativa das ONGs, mas porque a administração havia sido loteada e, além disso, entregue a gente selecionada por suas piores qualidades. Ou seria o presidente um ingênuo?
Os detalhes mais patéticos, como o repasse de dinheiro a organizações dirigidas por parentes de ministros ou de altos funcionários, são especialmente esclarecedores. Também não pode haver dúvida sobre a natureza da bandalheira quando se contam os benefícios concedidos com base em vínculos partidários.
Insistir no assunto não é moralismo. A interminável onda de bandalheiras é um fato político importante. Uns poucos casos de corrupção e de irregularidades podem ser coincidências. Mas os escândalos são indícios de algo mais sério, quando cinco ministros nomeados pelo mesmo presidente e por ele impostos à sua sucessora são envolvidos numa longa sucessão de safadezas. Mas por que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu tanta gente desse nível para a administração? A semelhança entre tantas escolhas não pode ser casual.
Que um político tenha de aceitar certas alianças malcheirosas não é novidade. Qualquer pessoa alfabetizada em política conhece a discussão sobre ética de princípios e ética de responsabilidade e sobre a distância entre pureza de intenções e resultados. A questão é outra. Há uma enorme distância entre o realismo político e a preferência constante pelo pior, traduzida, por exemplo, na insistente defesa dos mensaleiros e na generalização do peleguismo sindical e estudantil. Seria impossível, para Lula, governar de outra forma? Esta é uma pergunta política fundamental e não tem nenhuma relação com moralismo.
BC guarda munição para crise - CRISTIANO ROMERO
O Banco Central (BC) caminha, solenemente, para reduzir a taxa Selic na próxima semana em 0,5 ponto percentual, o que fará com que o governo Dilma Rousseff termine o primeiro ano de mandato com juros de 11% ao ano. Dadas as sinalizações feitas pelo BC até agora, o mercado trabalha com a expectativa de mais dois cortes de 0,5 ponto e 50% de probabilidade de uma terceira redução, também de 0,5 ponto, antes do encerramento do ciclo de alívio monetário. Com isso, a taxa Selic cairia a um dígito (9,5% ao ano) em abril de 2012.
Esse é, digamos, o Plano A, aquele em que o crescimento da economia mundial se reduz de forma acentuada, com provável recessão na Europa e estagnação nos Estados Unidos. Nesse cenário, o Comitê de Política Monetária (Copom) seguirá cortando os juros enquanto a inflação em 12 meses for cadente e o cenário externo apresentar riscos para a atividade econômica doméstica.
Na hipótese de um agravamento da crise financeira internacional a partir de um evento de crédito (a quebra de um banco ou a moratória de um país), a tendência do Copom será acelerar a queda dos juros. Mesmo assistindo a uma desaceleração mais forte da economia brasileira neste momento, o BC optou por estratégia gradualista, guardando munição para enfrentar adiante uma possível piora da situação externa.
Diante de uma ruptura na Europa ou nos EUA, o BC sabe que precisará dar uma resposta mais forte do que a vem dando até o momento. Por enquanto, a expectativa oficial é que a desaceleração mundial tenha impacto negativo equivalente a 1/4 do que teve na crise de 2008, uma perda, portanto, de 1,25 ponto percentual na taxa de crescimento do PIB.
Se acelerasse a queda dos juros agora, como desejam integrantes do governo, do setor empresarial e mesmo do mercado, o BC perderia parte do arsenal necessário ao enfrentamento da crise num momento de maior dificuldade. Além disso, a taxa de juro real já está próxima da mínima histórica - 4,58% ao ano, segundo estimativa do Valor Data.
"O plano de voo do governo é promover uma redução sustentada da taxa de juros, portanto, não pode sair queimando munição. Não pode fazer um negócio agora que depois leve os juros para um nível tão fora de esquadro que rapidamente o obrigue a subi-los novamente", diz um experiente participante do mercado.
Essa é a visão benigna. Muitos analistas acreditam que, se a situação internacional se deteriorar além do esperado e o PIB brasileiro embicar muito, haverá pânico em Brasília e o governo não hesitará em usar todos os instrumentos possíveis (monetário, fiscal, crédito de bancos públicos). Por enquanto, não é o que está colocado. Oficialmente, para reagir a um mundo em crise, o governo anunciou mudança no mix de política econômica, fortalecendo a situação fiscal e afrouxando a política monetária.
Aos trancos e barrancos, o governo ajustou o seu discurso. Depois de um início tumultuado, provocado por uma redução de juros inesperada, o BC aperfeiçoou a comunicação, ganhou credibilidade e voltou a coordenar expectativas. O presidente da instituição, Alexandre Tombini, vive, por isso mesmo, seu melhor momento no cargo.
O BC justificou o movimento inesperado de agosto com base no argumento de que a crise internacional era mais séria do que previa a maioria dos analistas brasileiros e teria um impacto relevante na economia doméstica. Esta, alegou o BC, começou a desacelerar mais fortemente no terceiro trimestre, ao contrário do que também diziam os analistas.
A partir desse cenário, o mercado passou a acreditar que os cortes de juros seriam superiores, em cada reunião do Copom, a 0,5 ponto percentual, acima, portanto, do que previa a estratégia formulada pelo BC. O recado do mercado chegou à diretoria da instituição que, a partir de um dado momento, passou a sinalizar, com clareza, que faria "ajustes moderados" na Selic.
O ajuste moderado está para o momento atual como os termos "tempestivo" e "parcimônia" estiveram para o passado. Na gestão de Henrique Meirelles no BC, "parcimônia" indicava queda de 0,5 ponto na Selic. "Mais parcimônia" significava redução de 0,25. Hoje, "tempestivo" quer dizer agora, enquanto na gestão anterior significava "no tempo adequado ou oportuno".
"Ajuste moderado tornou-se uma expressão-código e é lida como um corte de 50 pontos-base", confirma uma fonte. Se Tombini ou um outro dirigente do BC fala publicamente em piora do cenário internacional e não menciona o "ajuste moderado", o mercado entende que ele está sinalizando um corte maior da Selic na reunião seguinte do Copom.
Nos últimos dois meses, o mercado trabalhou, em mais de uma oportunidade, com a expectativa de um corte mais forte da Selic. Quando isso ocorreu, o BC foi lá e puxou as projeções para uma queda moderada. Os códigos facilitam a comunicação do BC e dão previsibilidade a seus movimentos, o que é positivo para o bom funcionamento do regime de metas para inflação.
A prova dos 9 e dos 4,5% - VINICIUS TORRES FREIRE
Apesar de dúvidas sobre o futuro da inflação, clima do debate é mais pró-governo, que se anima com PIB 2012
A PROVA dos 9 da política econômica do governo Dilma Rousseff ainda virá da precisão do seu diagnóstico sobre inflação e crescimento. Talvez seja a prova mais importante, não só devido a seu impacto político e socioeconômico mais imediato, mas porque os projetos maiores dos anos Dilma, que não são muitos e ainda precisam sair do papel, não devem ter efeito tão cedo.
O péssimo estado da economia dos países ricos e o pequeno declínio da inflação alteraram o clima político e midiático do debate a respeito de preços, juros e PIB.
Banco Central e governo acertaram ao estimar que a crise mundial seria mais grave do que o previsto por economistas do mercado (previsões incorporadas em suas projeções de inflação doméstica).
Quanto à taxa de inflação (IPCA) acumulada em 12 meses, o índice também começou a cair desde agosto de 2011. Porém, os melhores e mais ponderados economistas do setor privado também previam queda do IPCA neste final de ano.
O problema mesmo seria o rebote dos preços a partir de janeiro, fevereiro, assunto sobre o qual governo e povos do mercado ainda divergem amargamente.
Porém, a baixa do IPCA, provisória ou não, serviu para modificar o clima do debate. Não se trata apenas de meteorologia subjetiva. Devido a essa mudança de clima e informações, o governo animou-se a partir para uma ofensiva de imagem e, provavelmente, de ação.
Dados o início quase certo de recessão na Europa, a possibilidade de agonia longa no mercado financeiro mundial e seus impactos na economia brasileira, afora a inflação por ora algo menos alta, seria preciso tomar medidas para evitar um crescimento outra vez abaixo de 4%, um anátema para Dilma.
Hoje, por exemplo, outra vez o
governo afirmou em público que o PIB de 2012 andará ao ritmo de
4% ao ano, pelo menos. Mas a intenção mesmo é chegar a 5%.
As dúvidas maiores: 1) A inflação vai mesmo chegar a 4,5%, na meta oficial, como dizem Banco Central e governo? 2) Chegando ou não, o governo vai continuar comprometido com a meta de crescer pelo menos 4%? 3) Quais serão os instrumentos para vitaminar o PIB?
Quanto à questão número um, a resposta é mais imponderável que de costume. A inflação vai depender do tamanho da rateada da economia europeia e mundial, do câmbio, do preço dos produtos negociados no mercado mundial (como commodities). Mesmo que a Europa afunde, como a China vai reagir? Com mais estímulo, como começam a dizer os dirigentes chineses?
Mais: qual vai ser o impacto do aumento de gastos do governo (com salário mínimo e a prometida retomada de investimentos)? O IGP-M, índice de preços com muito peso de preços de atacado e de câmbio, está caindo desde janeiro (de 11,5% ao ano para 6,95%). Vai continuar a baixa? Isso vai se refletir no IPCA, nos preços ao consumidor?
Segunda e terceira questões: o governo vai tomar medidas de estímulo econômico qualquer que seja o índice de inflação lá por, digamos, fevereiro, março (quando em geral começa o "descongelamento" das despesas)? Tomará qualquer medida, como aumento de gastos? Ou vai deixar tudo a cargo do BC (com baixa de juros)? E se a inflação resistir e o BC mudar de ideia sobre juros?
CLAUDIO HUMBERTO
“Se Reguffe, Cristovam e Taques estão passando mal, eles que saiam”
Deputado Paulinho da Força (SP) desafiando os “éticos” do PDT a saírem do partido.
CPI mira sigilo fiscal de Orlando, não o bancário
A oposição continua trabalhando para instalar a CPI mista a fim de investigar as malfeitorias atribuídas ao ex-ministro dos Esportes Orlando Silva. Experiente delegado da Polícia Federal, o deputado Fernando Francischini (PSDB-PR) já sabe onde concentrar as investigações: “Sigilo bancário é mole, vamos querer é a quebra do sigilo fiscal para saber de onde vem o dinheiro que aumentou o patrimônio”, avisa.
Assinaturas
Até agora, já foram reunidas 108 das 171 assinaturas necessárias na Câmara dos Deputados e 18 das 27 no Senado.
Cabeça dura
Dilma mantém solene desprezo pelo ministro Carlos Lupi que mentiu para ela. Não o demite por hora para não “dar confiança” à imprensa.
Estabilidade
Até que aconteça a prometida reforma na equipe de Dilma Rousseff – segundo fonte do Palácio do Planalto – ministro só cai se pedir demissão. Ou se morrer.
Ministro de recados
Gilberto Carvalho, voz e olhos de Lula no Planalto, levou ao ex-presidente, no Hospital Sírio e Libanês (SP), recados de Dilma.
Banco Santos: credores perdem R$ 140 milhões
A assembleia de credores do Banco Santos, de Edemar Cid Ferreira, vai se reunir nesta quarta sob o impacto de uma má notícia para todos eles: do total que têm a receber, serão abatidos R$ 140 milhões, valor de multa da Receita Federal quando a massa falida já estava sob administração de Vanio Aguiar, o interventor. A autuação é pelo não pagamento de impostos de 2004, mais multa de 150% e juros de mora.
Vai dar confusão
Os chamados grandes credores do Banco Santos já andavam irritados com descontos especiais concedidos aos devedores pelo interventor.
Tirando da reta
O interventor quis jogar os impostos para a antiga diretoria do Banco Santos, mas a 7ª Turma de Julgamento da Receita Federal rejeitou.
Sobrou para eles
A conta da multa ao Banco Santos vai para os grandes credores, liderados pelo Fundo Real Grandeza, dos funcionários de Furnas.
Página virada
O apartamento onde vive Cesare Battisti no Rio, revelado ontem (22) nesta coluna, é do dono da Martins Fontes, editora dos livros do terrorista. Evandro Martins Fontes deu um “refúgio criativo” ao amigo.
Tiros no pé
Em greve, policiais civis do Distrito Federal resolveram protestar atrapalhando a vida dos contribuintes que lhes pagam os maiores salários do País: ontem, pelas 17h30, travaram o trânsito na Esplanada dos Ministérios. Essa greve carece de tudo: legitimidade, legalidade e até urbanidade.
Dia explosivo
A 21ª Conferência, que reúne mais de sete mil advogados em Curitiba, vai esquentar hoje: a ministra Eliana Calmon, corregedora nacional de Justiça, pode colocar a nu os “bandidos de toga” que denunciou.
Investigar é preciso
Apartamento do ex-governador de Alagoas Ronaldo Lessa, que vai a leilão, deixou curioso o Ministério Público com a evolução patrimonial do pedetista que foi secretário-executivo de Carlos Lupi. O imóvel terá lance mínimo de R$ 806 mil, mas seria avaliado em R$ 2,5 milhões.
Coração de mãe
A brasileira Jabiner Vieira, 51, ficará três meses presa na Flórida por ajudar o filho, o ex-policial Davi Britto, 28, acusado de tráfico de drogas, a fugir. Ele estaria em São Paulo, onde se encontraria com a mãe.
Justiça, enfim
Diretor do ministério da Previdência, Remígio Todeschini levou R$ 35 mil de multa do Tribunal de Contas da União por irregularidades em convênio de R$ 1,9 milhão com a Fundação Estadual de Cidadania, no Paraná, quando era secretário do ministro mentiroso Carlos Lupi.
Neoescravos
Empresas da Coreia do Sul no Brasil enfrentam denúncias de assédio moral: em Campinas (SP), funcionários da Samsung relataram à France Press maus-tratos e doenças ocupacionais.
Ouro de tolo
Sérgio Cabral despista o mutismo no desastre ecológico da Chevron com inaugurações no interior do RJ. E se prepara para receber o título de cidadão honorário de Angra dos Reis.
Dedetizado
Livre de ratos e baratas, o porta-aviões São Paulo agora está no porto de Santos (SP), onde não recebe caças, mas eventos e solenidades.
PODER SEM PUDOR
Geisel avisou
De 1957, representando o Exército no Conselho Nacional do Petróleo, a 1979, quando deixou a presidência da República, o general Ernesto Geisel sempre foi contra a construção do gasoduto Bolívia-Brasil.
Ao sabotar a parceria brasileira, surrupiando a refinaria na qual investimos mais de R$ 2 bilhões, diante da passividade do governo Lula, o cocaleiro Evo Morales deu razão ao argumento de Ernesto Geisel:
– E quando os bolivianos fecharem a válvula do gás, o que é que eu faço? Posso mandar o Exército lá abrir?
QUARTA NOS JORNAIS
- Globo: Egito: 2ª revolução apressa plano de saída de militares
- Folha: Governo estuda distribuir parte dos lucros do FGTS
- Estadão: BC aprovou venda mesmo com Panamericano sob suspeita
- Correio: Policiais fora da lei
- Valor: Desaquecimento já reduz demanda e preço da energia
- Estado de Minas: PF estoura esquema de venda de vagas no SUS
- Zero Hora: Orçamento favorece saúde e ensino mas não garante verbas
terça-feira, novembro 22, 2011
Amor à favela - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 22/11/11
Durante quatro meses, a Secretaria de Assistência Social do Rio, com a ajuda da Uerj, pesquisou a vida dos jovens entre 15 e 29 anos de favelas com UPPs.
Acredite. Sete em cada dez reconhecem os problemas do lugar, mas não gostariam de sair.
Sonho juvenil...
Também chamaram a atenção do secretário Rodrigo Neves os sonhos que alimentam a esperança dessa mocidade: 39% querem entrar para a universidade, 29% preferem fazer curso profissionalizante e 22%, trabalhar por conta própria.
Café com açúcar
Dilma recebe hoje a empresária russa Margarita Louis-Dreyfus, principal acionista do clube francês Olympique de Marselha. Mas não vão falar de futebol.
Viúva do francês Robert Louis-Dreyfus, de quem herdou um império, a dona do grupo Louis-Dreyfus tem interesses no setor de açúcar e álcool no Brasil, onde já possui usinas.
Primavera árabe
De um gaiato de Brasília, atento ao que vai em São Paulo:
— Tem o Haddad, tem o Chalita apoiado pelo Temer, tem o Afif apoiado pelo Kassab... Essa eleição é em São Paulo, mas bem que poderia ser em Beirute.
Faz sentido.
CD de inéditas
A banda Biquíni Cavadão, depois de quatro anos, vai lançar o CD de inéditas “Roda gigante” mês que vem.
O clipe “É dia de comemorar”, candidato a se tornar hino da Copa de 14, faixa que puxa o CD, já está no YouTube.
Não fale nisso
O conselho é de quem sabe das coisas. Quem quiser irritar Dilma tente falar com ela sobre a reforma ministerial esperada para janeiro.
A presidente até fala no assunto — mas só quando quer e com quem quer.
Segunda saliente
A coluna estranhou, sábado, o fato de o pico de acesso do site Sexo com Café ser às segundas, por volta das 9h.
Mas isto se repete nos sites Par Perfeito, Almas Gêmeas, Amores Possíveis, Disponível e Amor proibido, segundo pesquisa de Luciene Setta, da Uerj.
Segundo ela...
A maioria dos usuários dos sites de saliência “não gosta de acessar de casa, mas do trabalho. Assim, segunda, lêem as mensagens e estreitam contatos para encontros.” Ah, bom!
Timão, meu
O Corinthians tem sorteado ingressos de seus jogos entre os operários de seu futuro estádio, a cargo da Odebrecht.
Domingo passado, foram 41 — dos quais 19 nunca tinham visto um jogo em estádio.
Alô, Ibama
A libertação da Rocinha, aos poucos, revela coisas que o Rio não conhecia.
Há na favela, acredite, uma... rinha de passarinhos.
Subiu de posto
Por nomeação do Papa Bento XVI, Dom Filippo Santoro, bispo de Petrópolis, RJ, passa a arcebispo de Taranto, na Itália.
Caixinha de Natal
Eike Sempre Ele Batista foi domingo com quatro meninas à loja de doces Colher de Pau, no Leblon, no Rio.
A turma comeu brigadeiro. O empresário pagou e foi embora sem deixar a caixinha de Natal.
Caso João Roberto
Começa quinta, às 13h, na 2a- Vara Criminal do Rio, o julgamento de Elias Gonçalves da Costa Neto, ex-PM, um dos acusados de matar, em 2008, na Tijuca, no Rio, o menino João Roberto Amorim Soares, na época com 3 anos.
Elias e Willian de Paula, também ex-PM, teriam confundido o carro onde o menino estava com a mãe e atiraram.
Mãos ao alto!
Parceiro da coluna comprou ontem passagem para hoje de ida e volta da ponte aérea Rio-São Paulo. Pagou R$ 2.300.
Miaaaauuu
Sábado, na sessão de 21h de “A pele que habito”, no Sesc Botafogo, no Rio, havia... um gato solto na sala de exibição!
Uma senhorinha procurou um funcionário. O moço disse: “Minha senhora, gato pode. O que não pode é rato.” Ah, bom!
Baciada - SONIA RACY
O ESTADÃO - 22/11/11
Quatro contratos da Egypt Engenharia coma SPTrans, datados de 2006, 2007 e 2008, foram aprovados de uma só vez pelo Tribunal de Contas de SP. Treze dias depois de o Estado revelar que a empresa pertence a Cíntia Branco Farhat, prima de Marcelo Cardinale Branco, secretário municipal dos Transportes.
Em tempo: as aprovações já entraram na defesa da Egypt apresentada ao Ministério Público.
Próxima parada
Empresas que operam há quase três meses o sistema de recarga do Bilhete Único do Metrô de São Paulo desrespeitam regras previstas em edital.
Além de constantemente com sistema fora do ar, muitos postos não aceitam cartão de débito. Tampouco mantêm funcionário para explicar o auto atendimento.
Parada 2
O Metrô diz que, “no caso de descumprimento contratual, os fatos serão analisados e providências administrativas cabíveis serão tomadas”.
Por enquanto, julga que o serviço é satisfatório.
Pingos nos is
Walter Feldman avisa: Alckmin o convidou para discutir sua situação no PSDB, o que deve acontecer semana que vem.
Pingos 2
O tucano, que anunciou saída da legenda (mas ainda não entrou com pedido de desfiliação), está em Paris com Kassab. Defendendo a candidatura de SP a sede da Expo 2020.
Indicado
Maria do Rosário, com aval de Dilma, tem dito alto e bom som: Roberto de Figueiredo Caldas é o candidato do Brasil a juiz titular da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Além de conselheiro da OAB e membro do conselho de ética da Presidência, foi cotado várias vezes para o Supremo.
Fazendo arte
Atenção, classe artística: Andrea Matarazzo anunciará, amanhã, mudanças no Programa de Ação Cultural.
O artista terá direito de manter dois projetos em fase de captação – e não apenas um. E o calendário para pleitear o apoio cultural passa a ser fixo.
Mordida
Como antecipou o blog desta coluna, ontem, a Vinci Partners está fechando compra do BGK, franquia da Burger King em SP – pertencente ao polêmico Luiz Eduardo Batalha e seus sócios José Carlos Bumlai, Galvão Bueno e outros.
Valor? R$150 milhões.
No ar
A Sky West está de olho em 20% das ações da Gol. Se vai ou não conseguir são outros voos.
Quanto vale?
Carrapetas em brasa. Tudo porque ajuíza Cláudia Longo bardi Campana, da 16ª Vara Cível de SP, decidiu (em primeira instância) que uma casa noturna paulistana, onde só se apresentam DJs, não precisa pagar direitos autorais ao ECAD.
O sindicato dos DJs profissionais não gostou nem um pouco. Defende repasse a compositores, cantores e produtores. E cobra mais transparência na gestão dos recursos.
Convalescendo
Zé Celso não sabe se irá hoje à pré-estreia do documentário Evoé!, dedicado a sua carreira.
O diretor teatral acaba de chegar a SP após duas semanas de retiro – - aconselhado por seu médico.
Na faixa
Felipão mudou de tom. Pelo menos em conversa com amigos. Anda dizendo que tirar o campeonato do Corinthians na última rodada do Brasileirão seria “como um título para o Palmeiras”.
Não perde mais
Téo José, comentarista, está preparando livro sobre os bastidores do automobilismo.
Na frente
Patricia Semeoni e Carola Matarazzo comemoram 50 anos da Montecristo Joalheria, com coquetel pró-Liga Solidária. Hoje, no Iguatemi.
E Alcione de Albanesi pilota o Jantar dos Amigos do Bem. Hoje, no Buffet Torres.
Maílson da Nóbrega lança versão para tablet de sua autobiografia. Hoje, na Saraiva do Morumbi Shopping.
O evento Book Festas 2 estreia hoje. No The Society.
A exposição Dom Pedro II no Líbano abre quinta. No Sesc Vila Mariana.
Villa Mix, casa noturna sertaneja premium da dupla Jorge & Mateus, abre amanhã. Em São Paulo.
Fernando Pires lança Rainbow, primeira linha de joalheria GLSBT, junto com a Mirandouro. Quarta, em sua loja dos Jardins.
A Kiehl’s faz 160 anos, com inauguração de loja no Shopping Higienópolis. Hoje.
Com Zagallo na abertura da Soccerex, dia 26, no Rio, tem executivo estrangeiro achando as mil libras da entrada pouco. Todos querem ver de perto o “Velho Lobo”.
Velhice - ALON FEUERWERKER
CORREIO BRAZILIENSE - 22/11/11
A Europa, como os Estados Unidos, consome demais e produz de menos. Mas, diferente dos americanos, não tem um ambiente com liberdade econômica suficiente para relançar rapidamente a expansão capitalista
Uma crise econômica gravíssima que aumenta exponencialmente a taxa de desemprego deveria levar as pessoas a pedir mais proteção do Estado e, portanto, favorecer a esquerda.
Mas na Europa quem emerge na crise com poder político reforçado é a direita.
Mesmo na Itália, onde o tsunami econômico-financeiro derrubou o direitista Silvio Berlusconi, quem entrou no lugar foi um governo “técnico” comprometido com a austeridade.
Austeridade parece ser a palavra da moda na Europa. Da Grécia ao Reino Unido, da Itália à Espanha, os eleitores parecem inclinar-se agora para quem sempre defendeu menos Estado, não mais.
Há exceções, como a Dinamarca, mas são exceções.
Quando a primeira grande onda da crise engolfou o mundo desenvolvido, a linha imediata de defesa foi o Estado.
Que se endividou e emitiu o suficiente para evitar a quebra das empresas, financeiras ou não, grandes demais para irem à breca.
Na primeira fila, o premiê britânico, Gordon Brown, a quem devemos muitos agradecimentos por o planeta não ter quebrado.
Brown defendeu que os Estados oferecessem garantias ilimitadas para evitar que maus passivos causassem falências em cascata.
O premiê, ele próprio ex-ministro das Finanças do longevo governo trabalhista de Tony Blair, só por isso já mereceria uma estátua.
Além de não recebê-la, foi duplamente mandado para casa na primeira eleição: perdeu o cargo e também a liderança do partido.
Agora é o colega espanhol quem segue o mesmo caminho.
Qual é o problema da Europa? O mesmo do resto do mundo. O modelo funcionou razoavelmente para evitar o pior, mas não indica as portas de entrada para um mundo melhor.
Uns dizem que o remédio é ruim, outros dizem que a dose foi insuficiente, mas os povos não parecem querer pagar para conferir esta segunda hipótese.
Para sair da crise com vigor, a Europa precisaria reorganizar-se economicamente e buscar para si algum protagonismo.
Tirando a Alemanha e seu ainda vigor tecnológico, o que exatamente a Europa faz melhor que o resto do mundo?
Em inovação, os americanos lideram, seguidos pela Ásia. Em commodities agrícolas, quem manda é o mundo emergente. Igualmente em recursos minerais.
Energia? Não parece que a Europa tenha algo de realmente novo a oferecer.
Indústria, exportação? Aqui manda a China. Serviços? Muita gente competitiva, não parece haver grande vantagem para ninguém.
A Europa, como os Estados Unidos, consome demais e produz de menos. Mas, diferente dos americanos, não tem um ambiente com liberdade econômica suficiente para relançar rapidamente a expansão capitalista.
E o risco que corre é ser devorada de um lado pela superpotência e de outro pelos emergentes.
Um problema do Velho Mundo é exatamente este: a velhice.
ParalelismosAnalistas fazem paralelos entre o cenário espanhol e o brasileiro, duas economias de crescimento baseado não em poupança, mas apenas na expansão do crédito.
O Brasil tem diferenças óbvias em relação à Espanha. A primeira e mais importante é a alta taxa de emprego.
O problema é que o baixo desemprego brasileiro se deve bastante à expansão do consumo via crédito.
Mas tudo tem limite, e se hoje o brasileiro não chega a dever muito, na comparação com outros, arca com um serviço altíssimo das suas dívidas, alimentadas pelo nosso juro recorde.
Tanto a Europa como o Brasil precisariam absorver algo do modelo chinês. Dar mais peso relativo à poupança e às exportações.
E isso no exato momento em que a China percorre o caminho oposto. Pois os chineses perceberam lá atrás que não dá para sustentar um crescimento baseado só nas exportações num mundo cada vez mais protecionista.
VaticíniosBarack Obama foi ao Extremo Oriente para relembrar que os Estados Unidos estão ali para ficar. Vão até fixar tropas na Austrália.
O recado é para a China.
E os aliados dos Estados Unidos fecham a tenaz em torno do Irã.
A superpotência não parece muito convencida dos vaticínios a respeito do seu declínio inevitável.
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