domingo, novembro 13, 2011

JANIO DE FREITAS - O motivo dos festejos


O motivo dos festejos
JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 13/11/11

A prisão de maus policiais nas operações contra a criminalidade urbana merecia ser mais celebrada

Nas operações preparatórias para a invasão da Rocinha, hoje esperada, a polícia descobriu mais policiais associados à criminalidade do que criminosos caçados. As prisões dos bandidos declarados foram celebradas como de costume, com euforia especial no caso de Nem. O festejo, porém, do ponto de vista da segurança pública, foi em direção invertida.

Não se tem dado a importância apropriada ao papel dos policiais abandidados nas dificuldades para combater a criminalidade urbana. São muito além de apenas "maus policiais", eventualmente apanhado um ou caídos em flagrante uns poucos.

A primeira e grande ocupação policial, por exemplo, deixou a evidência da desproporção entre o número de bandidos dominadores do imenso complexo do Alemão e a insignificante quantidade de armamento apreendido. Outras evidências, de dias anteriores e da própria invasão, negavam a hipótese de fuga levando as armas pesadas. Foram enterradas, supuseram alguns, mas nenhum vestígio disso foi encontrado. A estranheza passou sem explicação.

Sabe-se agora como as armas de combate - fuzis, metralhadoras, granadas - evaporaram em pouco tempo. Só um dos policiais presos há três dias, surpreendido com outros quando proporcionava a retirada de criminosos e armas da Rocinha, em uma única viagem transportara 15 armas pesadas daquela favela na Zona Norte para a segurança do arsenal de Nem da Rocinha, na zona sul. Quantas viagens fez?

Quantas outros fizeram? Todos com o passe-livre de policiais. Não foi sem proteção, também, que muitos bandidos do Alemão, inclusive os chefões, saíram dali para lugares onde continuaram sua atividade. E de onde já muitos experimentam a volta.

Basta um só policial para passar informações decisivas às chefias do crime. E são muitos a fazê-lo. Neste ano, várias operações policiais foram suspensas ou frustradas com a constatação de que, apesar de todo o sigilo possível no seu planejamento, os traficantes foram delas avisados. Na Rocinha que volta à carta, as frustrações deram-se várias vezes nos últimos meses, e em outras favelas deu-se o mesmo.

As invasões foram adotadas, já com tantos anos reconhecida a ineficácia de repressões isoladas e ocasionais, quando afinal reconhecidas como último recurso para anular as quadrilhas concentradas nas favelas (São Paulo não tem quadrilhas nem bandos, seu academicismo batizou-os de facções, palavra sem conexão explícita com violência e criminalidade).

Mas, aceito que a pior dificuldade para combater os bandos está em sua farta presença dentro da polícia, sobrevém uma questão ácida: como "invadir e ocupar" esse braço da criminalidade cujos componentes são decisivos, de importância vital, para a sobrevivência das quadrilhas. Ainda que deslocadas em sua geografia, como tem decorrido das invasões já feitas.

Assim é o problema que, já bem fixadas as táticas para as favelas, atrai as elaborações do comando já bem-sucedido nas retomadas que são, no entanto, apenas o primeiro capítulo de uma nova e longa história social da criminalidade à brasileira. Nele, as prisões dos policiais abandidados mereciam ser razão dos festejos.

DORA KRAMER - Causa sem efeito


Causa sem efeito
DORA KRAMER 
O ESTADÃO - 13/11/11

É bonito o entusiasmo. Mais bonito ainda quando reúne multidões em prol de uma causa. Portanto, não se trata de desqualificar os anseios de quem saiu às ruas do centro do Rio na marcha em defesa de uma divisão dos royalties do petróleo menos injusta para o Estado que aquela proposta no projeto em tramitação na Câmara.

Ocorre que as coisas precisam ter consequência. Se não, corre-se o risco de enveredar pelo terreno da mistificação. Cabe a quem mobiliza uma massa de gente em torno de uma bandeira, fornecer todas as informações sobre as regras do jogo em que estão sendo jogadas, a fim de conferir maturidade à relação entre governante e governados.

O ato patrocinado pelo governador Sérgio Cabral Filho não atendeu a esse pré-requisito. Ainda que a maior parte dos presentes soubesse exatamente do que se tratava - hipótese improvável -, a maioria não sabia que o esforço seria em vão no tocante ao objetivo pretendido: sensibilizar a Câmara a não aprovar a proposta ou a presidente Dilma Rousseff a vetar a lei.

A festa pode ter sido boa para Cabral capitalizar politicamente uma luta perdida, mas não mudará as posições no Congresso nem levará a presidente a arrumar briga com parlamentares e governadores de 24 Estados não produtores de petróleo que pretendem ter acesso às receitas geradas pela extração de petróleo.

O assunto é mais complicado do que o desenho simplesinho mostrado pelo governador à população, instada por ele a "cobrar" de Dilma o veto em retribuição aos votos dados a ela por cariocas e fluminenses.

Cabral imprime caráter passional à questão, mal posta e pior ainda conduzida desde que o governo propôs a modificação do sistema de distribuição dos royalties. Houve demagogia, houve excesso de confiança na força do então presidente Lula, houve falta de capacidade (e de vontade, por que não dizer?) das partes de construir um acordo condizente com a realidade da Federação.

Agora, com passeata ou sem passeata o Rio vai arcar com o prejuízo. Evidentemente o governador sabe disso, mas faz um gesto político com o intuito de reduzir seu desgaste junto ao eleitorado, cujo conhecimento da missa não chega à metade.

O arrebatamento é bonito. Mas perde o brilho se posto a serviço de objetivo não explícito e cai no vazio quando é causa sem efeito.

DNA. O PT fechou a questão e definiu o nome de Fernando Haddad como candidato à Prefeitura de São Paulo. Eliminou as prévias e avisou aos navegantes do partido que a regra deve ser seguida nas principais capitais do País.

Como sempre, e ainda mais depois que chegou à Presidência da República, o PT não brinca quando o assunto é política e eleição. Não se acomoda, trabalha para consolidar sua hegemonia de maneira a melhorar as condições de enfrentamento na eleição presidencial.

Goste-se ou não dos métodos, sejam eles criticados por contrariarem os preceitos originais do partido, mas reconheça-se: o PT está no mundo a serviço.

Note-se, porém, o que fazem os tucanos na principal cidade do País. O PSDB tem quatro pré-candidatos à Prefeitura de São Paulo, uma prévia marcada para janeiro, já com previsão de adiamento para fevereiro, intenção de deixar para março e a esperança de que, no fim, se dispense a consulta ao partido.

Por esse roteiro, o PT já estará em campanha de fato há cinco meses quando o PSDB resolver, afinal, quem será o candidato em seu maior reduto.

Qualquer tempo. Corre uma interpretação sobre o julgamento da Lei da Ficha Limpa no Supremo Tribunal Federal, sobre a possibilidade de o adiamento da decisão para o ano que vem invalidar sua aplicação na eleição municipal.

Não por isso. Aprovada em maio 2010, a lei não pôde ser adotada para a eleição de outubro porque o STF entendeu que seria ferido o princípio segundo o qual toda regra referente a processo eleitoral deve ser aprovada um ano antes do pleito.

Agora, o tópico relativo à anualidade já está atendido. Se a lei for considerada constitucional será aplicada independentemente de prazos.

MARCELO GLEISER - O cérebro determina o que é real?


O cérebro determina o que é real?
MARCELO GLEISER
FOLHA DE SP - 13/11/11

Estamos cercados de radiação eletromagnética que não vemos. O essencial é invisível aos olhos

Para que eu esteja escrevendo estas palavras, uma coreografia desconhecida organiza a ação coletiva de milhões de neurônios no meu cérebro: ideias emergem e são expressas em palavras, que datilografo no meu laptop graças à coordenação detalhada dos meus olhos e músculos. Algo está no comando, uma entidade que chamamos de "mente".

Segundo a neurociência moderna, nossa percepção do mundo é sintetizada em regiões diferentes do cérebro. O que chamamos corriqueiramente de "realidade" resulta da soma integrada de incontáveis estímulos coletados pelos cinco sentidos, captados no mundo exterior e transportados para nossas cabeças pelo sistema nervoso.

A cognição, a experiência concreta de existirmos aqui e agora, é uma fabricação de incontáveis reações químicas fluindo por bilhões de conexões sinápticas entre neurônios.

Eu sou e você é uma rede eletroquímica autossustentável, que se define através de sua atuação na malha de células biológicas que constituem o nosso corpo. Mas somos muito mais do que isso.

Somos todos diferentes, mesmo se feitos da mesma matéria-prima. A ciência moderna destituiu o velho dualismo cartesiano de matéria e alma em favor de um materialismo estrito. Hoje, afirmamos que o teatro do ser ocorre no cérebro e que o cérebro é uma rede de neurônios que se acendem e apagam como luzes numa árvore de Natal.

Ainda não temos ideia de como essa coreografia neuronal engendra a nossa sensação de existirmos como indivíduos. Vivemos nossas vidas convencidos de que a separação entre nós e o mundo à nossa volta é clara. Precisamos dela para construir uma visão objetiva da realidade que nos cerca.

No entanto, nossa percepção dessa realidade, na qual baseamos nossa sensação de existir como indivíduos, está longe de ser completa. Nossos sentidos capturam apenas uma pequena fração do que realmente ocorre à nossa volta. Trilhões de neutrinos vindos do coração do Sol atravessam nossos corpos a cada segundo.

Estamos cercados por radiação eletromagnética de todos os tipos-ondas de rádio, infravermelha, micro-ondas-sem nos dar conta disso. Sons escapam da nossa audição, grãos microscópicos de poeira e bactérias são invisíveis aos nossos olhos. Como disse a raposa ao Pequeno Príncipe: "O essencial é invisível aos olhos".

Nossos instrumentos em muito ampliam nossa visão, permitindo-nos "ver" o que escapa aos nossos sentidos. Mas a tecnologia tem limites, mesmo que esteja sempre avançando. Portanto, uma grande fração do que ocorre escapa e escapará à nossa detecção. O que sabemos sobre o mundo depende do que podemos medir e detectar.

Quem, então, pode determinar que sua sensação do real é a verdadeira? O indivíduo que percebe a realidade apenas com os sentidos? Ou o que amplifica sua visão com instrumentos diversos?

Obviamente, essas pessoas verão coisas diferentes. Se compararem o que chamam de realidade material, o conjunto das coisas que existem à sua volta, irão discordar completamente. Qual dos dois está certo? Eu proponho que nenhum está. Mas vamos ter de continuar essa conversa na semana que vem.

JOÃO BOSCO RABELLO - O PSD e as duas sucessões


O PSD e as duas sucessões
JOÃO BOSCO RABELLO 
O Estado de S.Paulo - 13/11/11

A candidatura do ex-governador José Serra à Presidência da República, que parece reafirmada em suas últimas declarações e movimentos, abre espaço para a aliança entre PSD e PSDB nas eleições municipais em São Paulo, possível base para 2014.

Isto porque o único compromisso do prefeito Gilberto Kassab hoje é com o apoio a Serra para a prefeitura paulistana, o que dificultaria a costura de um acordo com o governador Geraldo Alckmin. Uma vez afastada essa hipótese, Kassab tem o caminho livre para negociar o apoio do governador ao candidato de sua preferência, Afif Domingues, garantir sua ida futura para o Senado e apoiar a reeleição de Alckmin.

Os pré-candidatos do PSDB à prefeitura hoje são avaliados como de baixíssimo potencial eleitoral e insuficientes para encorajar a cúpula do partido a uma disputa na qual o candidato do PT, Fernando Haddad, é a representação do ex-presidente Lula.

Tomada por verdadeira essa análise, que circula no PSD, o cenário da sucessão em 2014 abre três alternativas ao recém-criado partido - uma delas uma aliança com o PT, menos descartável do que com o próprio Serra.

As duas outras seriam o apoio ao PSDB, se o candidato for Aécio Neves (MG), ou candidatura própria, no caso a da senadora Kátia Abreu (TO). Esta última só ocorrerá se Aécio e Dilma não refletirem um favoritismo na disputa.

As duas incógnitas, que mantêm em suspense ações mais objetivas, estão exatamente em Serra - de quem não se espera, mas se admite um recuo - e no ex-presidente Lula, cuja possibilidade de se candidatar ainda é considerada apesar de seu problema de saúde.

Lula e Serra

são divisores

São, portanto, Lula e Serra, as personagens que dividem o PSD na sucessão em 2014. O apoio unânime ao primeiro seria inviável, assim como ao segundo, que já concorreu em 2010 com o DEM - embrião do PSD - dividido na campanha: uma parte, que desejava Aécio como candidato, dando apenas presença formal na disputa; outra, empenhada na vitória pela perspectiva de evitar a continuidade da era PT. Mesmo com origem na ala serrista do DEM, o PSD hoje abriga políticos de diversos matizes, bastando observar que a inédita velocidade com que se estruturou em todo o País se deve ao fato de nascer como sublegendas de quase todos os governos estaduais.

Balanço

O último balanço do PSD registra 2 governadores, 2 senadores, 56 deputados federais, 107 deputados estaduais, 5.957 vereadores; 559 prefeitos ( 330 concorrem à reeleição); 4.572 diretórios e 150 mil filiados. O partido pretende lançar ainda 1,2 mil candidatos a prefeitos e espera eleger algo em torno de 700 prefeitos.

Agnelo preocupa

O apoio público do PT, Zé Dirceu à frente, ao governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, não diminuiu um milímetro a preocupação do Planalto com a situação em Brasília. Com processo correndo no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que lhe bloqueou os bens, uma admissão pública de ter recebido R$ 5 mil de um lobista, e uma administração sob investigação permanente, o governador reúne problemas em três frentes: na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no Ministério dos Esportes e no governo da capital. Ou seja, por onde passou teve o nome envolvido em corrupção. O Planalto (e, de resto, a comunidade política) não vê a menor chance de a versão de empréstimo de Agnelo para justificar os R$ 5 mil se aproximar da verdade. A solidariedade pública promovida por Dirceu foi mais um recibo da fragilidade de Agnelo e tem mais a ver com o partido que com o governo.

ELIANE CANTANHÊDE - Dúvida que não quer calar



 Dúvida que não quer calar
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 13/11/11

BRASÍLIA - A Bovespa saltitou 2% para cima na sexta-feira, mas essa demonstração de tranquilidade foi pontual e curta. Na verdade, não há razão nenhuma para otimismo quando se miram tsunamis e marolinhas que vêm do outro lado do Atlântico.

A expectativa de crescimento econômico da União Europeia para 2012 desabou de 1,8% para míseros 0,5%, com horizontes desanimadores para emprego, consumo, investimentos e empréstimos. Este ano está ruim? O próximo não estará nada melhor.

Aqui no Brasil, pesquisa CNI-Ibope mostra que 31% dos empresários estão pessimistas. E logo agora, quando avaliam o ano que termina e planejam o que começa.

Esse clima, pesado fora do país e de incertezas internamente, tem servido de argumento para Dilma exigir do Congresso a prorrogação da DRU (Desvinculação das Receitas da União), que lhe dá margem de manobra para gerenciar livremente 20% da dinheirama federal.

A oposição, porém, desconfia que o efeito prático da DRU para o governo nem é tanto assim e que, no fundo, Dilma está preparando (e se preparando para) um novo imposto.

O deputado tucano Marcus Pestana, ex-secretário de Planejamento do governo Aécio Neves em Minas, faz uma conta aritmética: se recriada a CPMF com a mesma alíquota de quando foi extinta, ela geraria
R$ 40 bi por ano, teoricamente só para a Saúde. Com a DRU, 20% disso resultariam em R$ 8 bi liberados para Dilma manipular a seu bel-prazer.

A folgada maioria governista corre a favor de Dilma, e o tempo corre contra. Se não for votada neste ano, antes do recesso, a DRU não vale para o próximo. E ainda faltam um turno na Câmara e dois no Senado.

Mas, ao final, Dilma vai acabar vencendo mais essa, deixando uma dúvida que não é só da oposição, mas dos contribuintes: porque a DRU é essencial, uma arma decisiva contra a crise, ou porque um novo imposto ronda o Brasil e os brasileiros?

GOSTOSA


UGO GIORGETTI - Nada é para sempre. Nem o time?


Nada é para sempre. Nem o time?
UGO GIORGETTI 
 O Estado de S.Paulo - 13/11/11

Um homem muda de mulher, de posição política, de religião, mas não muda de time. Esta é uma daquelas verdades que são repetidas através dos anos e que, por ter certo impacto verbal e certa solenidade, passam por verdade absoluta. Está na hora de começar a refletir sobre isso, afinal atravessamos época de mudanças.

Conheço gente que mudou de religião mais de uma vez, gente que mudou de país, senhoras que conheço há anos com uma cara e que, subitamente, aparecem com outra. Sei de um pai de família exemplar, que recentemente chegou para jantar e à mesa anuncia para mulher e filhos que resolveu mudar de sexo, e que a partir da operação, já marcada, gostaria de ser chamado de Claudia.

Só no futebol ninguém muda. Ouço queixas, vejo troca de e-mails desesperados de torcedores inconsoláveis ameaçando céus e terra. Depois de uns dois ou três dias de fúria calam e tudo volta ao normal. Até a próxima derrota e humilhação, quando repetem o ritual. Mas não mudam de time. Por que não?

Entre todos os segmentos de uma sociedade injusta como a brasileira, o futebol é o mais injusto. Ocupa, de longe, o primeiro lugar na distância entre uma pequena classe que se apossa do poder e o resto, que é mantido longe, sem nada saber e sem nenhum meio de interferir no que ocorre no interior do clube. Ao torcedor compete sofrer calado e pagar sem protesto seu ingresso para ver aquilo que os dirigentes lhe oferecem. Não tem a mínima ideia de como esses dirigentes chegam ao cargo, não sabe como são eleitos, se são e por que são eleitos.

O torcedor se acostuma com essas figuras que até outro dia não sabia quem eram. Não tem meios de questionar quem os sustenta no poder, quem é seu grupo de apoio e como agem. Por isso compreendo o desabafo dos e-mails e a ira impotente. De vez em quando é noticiado que tal dirigente está tentando, geralmente com sucesso, mudar os estatutos do clube para ser reeleito. Estatutos, aliás, que ninguém leu. E é tudo.

Mesmo quando alguém dá certo, caso, por exemplo, do presidente do Santos, Luis Álvaro Ribeiro, o temor é sempre o que vai acontecer quando ele sair. Quem virá? Porque eleições num clube de futebol me parecem, a mim que sou um simples torcedor, mais misteriosas que a eleição de um Papa. É claro que um clube é diferente de outro e que há situações mais graves. Há clubes em que realmente só o que resta é mudar. A estrutura é impenetrável, os que lá estão agem como verdadeiros donos, portanto o que resta é cair fora. É difícil? Muito. A fidelidade ao time vem da infância, às vezes vem da família, acompanha o torcedor por toda a vida e é um traço biográfico e de identidade pessoal poderoso. Deve ser mais difícil do que parar de fumar. Mas hoje há até cursos para interromper vícios como cigarro. Por que não para o futebol? Manuais, apostilas, cursos noturnos, livros de autoajuda, talvez até clínicas especializadas, tudo é válido para curar a doença de torcer cegamente.

Esses instrumentos vão aparecer brevemente, tenho certeza: é só alguém sair na frente e começar a ganhar dinheiro. Enquanto isso, poderemos iniciar por ideias simples como, por exemplo, não mais exercer influência nos filhos, deixando-os escolher seu próprio calvário livremente. Outras medidas possíveis seriam jamais pôr o pé nos estádios e mesmo desligar a TV quando seu time joga.

Não se engane: vai ser impossível mudar para o inimigo, o rival odiado por anos. Isso não dá, claro. Mas que tal um time pequeno, ou melhor ainda, de outro Estado? (Um amigo paulista me diz que cansou de ser tratado como imbecil e tem simpatizado cada vez mais com o Botafogo). Enfim, está mais do que na hora de, usando essa palavra odiosa tão em voga, "repensar'' a noção de que não se pode mudar de time. Pergunte a si mesmo: por que não? É um bom começo.

GAUDÊNCIO TORQUATO - Retratos novos na velha moldura



Retratos novos na velha moldura
GAUDÊNCIO TORQUATO
O Estado de S.Paulo - 13/11/11

"A política não é uma ciência exata, mas uma arte." A frase é de Bismarck, o chanceler de ferro que fincou as bases da unificação da Alemanha no século 19. Como arte, a política amolda-se à forma plasmada por seus cultores, escapando das equações racionais que alguns formuladores usam para explicar seus desdobramentos. Na política, a menor distância entre dois pontos pode não ser uma reta, como na geometria euclidiana, mas uma curva. Ou, buscando por aqui a explicação, não é necessário que uma pessoa tenha passado pelo teste das urnas para ser presidente da República.

Dilma Rousseff nunca havia recebido um voto até se eleger comandante da Nação com a maior votação de nossa História. A escalada natural da política - vereador, deputado estadual, deputado federal, senador, governador, presidente - não é mais usada em nosso meio. Quem conhece bem essa rota cheia de desvios, que permite a alguém ingressar na política por cima, é Lula. Afinal, ele conduziu com sucesso uma auxiliar ao posto máximo do País. Tem, portanto, cacife para tirar do colete mais um membro do "esquadrão sem voto" e jogá-lo na disputa pela Prefeitura da maior metrópole nacional. Fernando Haddad é empacotado como cópia do "modelo Dilma". Não significa, claro, que terá o mesmo desempenho. O ex-presidente sabe disso.

A decisão de Lula de impor o ministro da Educação como candidato a prefeito de São Paulo e demover outros correligionários, a começar pela senadora Marta Suplicy, não deve ser interpretado como um ato de voluntarismo, decisão ancorada em amizade ou simpatia. Mais razoável é apostar na hipótese de que Luiz Inácio, de maneira intuitiva, apreende a lição de Maquiavel, para quem "feliz é o príncipe que ajusta seu modo de proceder aos tempos", sem deixar tudo por conta da sorte.

Exímio intérprete das circunstâncias, o ícone petista respira política. Aduz que uma cara nova é tudo o que o eleitor quer ver na paisagem borrada pela decrépita maneira de fazer política. Quem o conhece bem garante que "o homem é uma esponja", absorve o que ouve e sente para, a seguir, devolver aos interlocutores, ao seu feitio, os inputs consumidos. Viajado, Luiz Inácio coleciona precisa radiografia dos altos e baixos da política contemporânea. Tem exata noção, tanto quanto doutos cientistas, de que o menu de comida bolorenta causa engulhos. E que inserir numa batalha eleitoral um perfil jovem, asséptico, capaz de simbolizar renovação é tarefa arriscada, mas viável. Haddad ou concorrente assemelhado, puxados pela engrenagem que impulsiona os pleitos (tempo de exposição, recursos, máquina partidária) caem bem no sistema cognitivo social, que já formou uma linha divisória entre bons e maus, modernos e ultrapassados, "esse eu já conheço" e "aquele eu quero conhecer".

Olhemos o mapa-múndi da política. Nele se distingue monumental espaço habitado pela descrença. Há um mal-estar generalizado com os mandatários. Aqui e alhures se multiplicam sinais de profunda necessidade de transformação de métodos. Os movimentos de rebeldia que explodem nos quadrantes do planeta, a partir da principal referência do capitalismo - Wall Street, em Nova York -, afetam democracias antigas e novas, governos de direita ou de esquerda, sistemas presidencialistas e parlamentaristas. A crise econômica, que se projeta sobre a zona do euro, gera instabilidade, desestrutura governos, exigindo novo ordenamento para reconstruir a teia social. O traço comum aos movimentos é a repulsa à velha política. Esta é, infelizmente, confundida com ineficiência da gestão pública. O sentimento mais comum do cidadão é o de que a política o traiu. Por isso não quer mais fazer parte do conto do vigário. Gostaria de ver em seu representante a encarnação da verdade, a certeza de que as coisas boas aparecerão. Ou, como lembra o cientista social chileno Norbert Lechner, "as pessoas esperam que a política lhes garanta não só a integridade física e certa segurança econômica, como também um referencial de certeza". A imagem de Chico Buarque parece adequada: a política é a Geni de nossos tempos.

O pano de fundo que acolhe o distanciamento entre sociedade e esfera representativa é a subordinação da política à economia. Os efeitos fazem-se sentir na interpenetração de interesses do Estado e do mercado, com visível influência de grupos e castas na formulação das tarefas públicas. O poder financeiro age como elemento de cooptação de partidos e eleitores, propiciando acirrada concorrência entre eles e indisfarçável amálgama entre o público e o privado. Negócio rentável, a política tornou-se muito cara. Ainda mais ante a fosforescência do Estado-espetáculo, com seu arco-íris de cores e cenários sofisticados, onde os personagens se esforçam para gerar impacto. Mapas ideológicos fragmentados e dispersos aprofundam a crise dos entes partidários, dos quais os eleitores tomam distância, ensejando o predomínio da estética sobre a semântica e reforçando máxima de McLuhan: o meio é a mensagem. Partidos-ônibus continuam a acolher passageiros em algumas estações, podendo, mais adiante, fazer acordos para percorrerem o mesmo caminho.

Tal figurino dá realce aos indivíduos. Quanto mais charmosos, assépticos, joviais, sem cacoetes, brandindo a bandeira da esperança (chama que entorpece a alma e abre vontades), maior chance terão de conquistar o eleitorado. Ora, ninguém conhece mais que Lula os palcos da política brasileira, dos mais periféricos aos mais centrais. O da capital paulista é o mais simbólico por representar a clássica polarização entre PT e PSDB perante o maior conglomerado eleitoral brasileiro. O ícone do PT tem um ás na manga: carisma. E extraordinária autoconfiança, como se pode ler na mensagem gravada recentemente para agradecer a solidariedade: "Eu vim para a Terra para lutar e melhorar a vida de todo o mundo".

Tom messiânico que pode chegar às alturas.

PEDRO S. MALAN - Ritmos da política e da economia


Ritmos da política e da economia
PEDRO S. MALAN
O Estado de S.Paulo - 13/11/11

A presidente Dilma Rousseff tentará formar um Ministério que possa chamar de seu em 2012. O que não era o caso daquele com o qual começou a governar: quase 40 ministros, muitos herdados das composições de Lula; milhares de cargos de confiança já devidamente ocupados; 15 partidos na base aliada, todos com expectativas de "direitos" a serem conquistados ao assegurarem uma grande maioria no Congresso Nacional.

A presidente sabe, de sua experiência na Casa Civil de Lula e de seus primeiros dez meses na Presidência da República, quão difícil é o desafio que tem pela frente, à luz de compromissos assumidos em seu discurso de posse: "Estamos construindo um governo onde capacidade profissional, liderança e disposição de servir ao País serão os critérios fundamentais. (...) Serei rígida na defesa do interesse público. Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. A corrupção será combatida permanentemente, e os órgãos de controle e investigação terão todo o meu respaldo para atuarem com firmeza e autonomia".

Norberto Bobbio distingue, além do governo do poder visível, que em democracias como a nossa é exercido publicamente, à luz do sol e sob controle da opinião pública, de duas outras faixas de poder: o poder semissubmerso, esse vasto espaço ocupado pelos órgãos e entidades públicas por meio dos quais se exerce o dia a dia operacional das políticas governamentais; e a faixa de poder invisível, que pode ser dirigido a lutar contra o Estado - organizações criminosas e associações de delinquência de todo tipo -, e um poder invisível formado e organizado não para combater o poder público, mas para extrair benefícios ilícitos e buscar vantagens que uma ação feita à luz do sol não conseguiria.

O problema, com frequência, são as relações espúrias entre os poderes invisível e semissubmerso, aos quais se refere Bobbio, quando o poder visível não dá sinais muito claros sobre o que constituem comportamentos inaceitáveis na gestão da coisa pública.

A presidente Dilma, a esse respeito, tem dado sinais e tomado decisões que pelo menos a diferenciam da complacência talvez excessiva de seu antecessor. Embora sem nunca perder de vista as limitações que lhe impõe a necessidade de manter unida a sua vasta e heterogênea base aliada.

O tempo dirá como a presidente conseguirá estabelecer um delicado equilíbrio entre essa necessidade e o peso - que sabe potencialmente importante - da opinião pública que se expressa por intermédio da mídia livre e independente. A política tem seus próprios tempos, que podem ser longos, permitindo que certas práticas e determinados comportamentos deitem raízes - para o bem ou para o mal.

Permita-me o eventual leitor uma breve digressão sobre a crise europeia antes de voltar ao Brasil e aos ritmos da economia e da política.

Não é por acaso que os países que enfrentam hoje as maiores dificuldades sejam exatamente os que já tinham, antes da crise que se iniciou em 2007, déficits fiscais e de balanço de pagamento mais expressivos e/ou estoques da dívida pública mais elevados e/ou problemas de competitividade internacional e baixo crescimento.

O euro eliminou a possibilidade de políticas monetária e cambial independentes. Há apenas política fiscal e reformas estruturais. Que agora terão de ser feitas em condições muito mais difíceis. Os tempos da economia e da política convergiram. A lição para eles - e para nós - é que nos momentos de bonança é que se deve procurar diagnosticar e encaminhar soluções para problemas de longo prazo, por mais "irrealista" que isso pareça do ponto de vista político.

Em artigo recente neste Espaço Aberto, comentando a decisão do Banco Central de dar início no final de agosto à trajetória de redução das taxas de juros, mencionei as quatro razões do banco:

Agravamento maior que o esperado da crise internacional; redução maior que a esperada da taxa de crescimento da economia brasileira; confiança na convergência da inflação para mais próximo do centro da meta ao final de 2012; e confiança no "programa fiscal do governo". Notei à época que esse era o "calcanhar de Aquiles" da estratégia de redução sustentada dos juros reais. Continuo achando. E tomo a liberdade de relembrar uma experiência.

No dia 9 de setembro de 1998, exatas três semanas após a decretação da moratória russa e com a eclosão das graves preocupações com risco sistêmico associadas a problemas com alguns grandes fundos de hedge norte-americanos, o Diário Oficial da União publicou um decreto e uma medida provisória. O decreto criou uma Comissão de Controle Fiscal com amplos poderes para tomar decisões de contenção de gastos ainda nos últimos três meses e três semanas de 1998. A medida provisória, num de seus artigos, diz: "O Poder Executivo apresentará, até 15 de novembro de 1998, Programa de Ajuste Fiscal para o triênio 1999-2001".

Por que menciono isso?

Primeiro, porque foi esse programa - executado rigorosamente no triênio seguinte - que permitiu que o regime de flutuação cambial e o regime de metas de inflação se consolidassem no Brasil, a partir de 1999, o que beneficiou enormemente o governo Lula.

Segundo, porque creio que algo semelhante, e talvez mais ambicioso, é necessário agora. Um programa fiscal para pelo menos o triênio 2012-2014 que seja crível e executado de forma a prover as bases necessárias para uma estratégia sustentada de redução de taxas de juros nominais e reais, com inflação convergindo para a meta de forma crível. Um programa fiscal para o triênio que falta à atual presidente e que seja a operacionalização do compromisso que assumiu em seu discurso de posse: fazer mais, e melhor, com os recursos existentes, controlar a velocidade de crescimento dos gastos governamentais, mudando sua composição em favor do investimento público.

FOI MINISTRO DA FAZENDA NO GOVERNO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

MARTHA MEDEIROS - Adeus ao general



Adeus ao general
MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 13/11/11 

Agora posso engolir todos os “nunca viajarei em excursão” que já pronunciei na vida

Conforme comentei no texto da última quarta-feira, estive no Peru recentemente numa viagem em grupo, modalidade de turismo que adotei uma única vez, quando fui para o Marrocos, dois anos atrás. Com essa dupla experiência, acho que agora posso engolir todos os nunca viajarei de excursão que já pronunciei na vida. Claro que há excursões e excursões: encontrei minha turma. E descobri algo ainda mais importante: nada como tirar férias do nosso generalato.

Costumo estar no controle de tudo, é meu jeito. Não tenho agente, assessora, assistente, motorista, nenhum staff que faça as coisas por mim. Sou minha própria secretária executiva, gasto 80% do dia gerenciando minha vida profissional, pessoal e a da minha família. Nos 20% que sobram, quando sobram, escrevo um pouquinho.

Logo, quando viajo, sou aquela que reserva hotéis pela internet, planeja os voos, agenda serviços de translado, pesquisa restaurantes, se informa sobre a programação cultural da cidade, lê matérias de revistas, compra um guia se for um destino desconhecido, enfim, não saio de casa desprevenida – o tempo geralmente é curto, e não convém dar espaço para roubadas.

Então surgiu essa oportunidade de ir ao Peru numa viagem de sonhos onde tudo estava previamente organizado. Não precisei resolver nada. Decidir nada. Escolher nada. Preocupação zero. Tudo o que me coube foi preparar uma mala enxuta e levar alguns trocados para o caso de querer comprar algum pano colorido, um pratinho de cerâmica ou uma garrafa de pisco. O resto estava tudo acertado. E tudo era tudo mesmo.

Na chegada aos aeroportos, uma van esperando. Hotéis incríveis com o check-in já feito. Restaurantes escolhidos a dedo, os mais charmosos, e que cardápio. Passeios com entrada livre, tudo foi liberado antecipadamente. Eu não olhava para o relógio. Não entrava em filas. Não reservava mesas. Não dava telefonemas. Não esperava para ser atendida.

Não conferia a conta. Não deixava gorjetas. Não interpretava mapas. Não procurava os endereços dos museus. Descobri finalmente o significado da palavra mordomia. O mundo funcionando à perfeição sem minha ingerência. Tudo o que tinha que fazer era me permitir ser conduzida e curtir a paisagem. Obedeci.

Por uma semana, adeus, general. Aqui você não manda nada.

Porém, um general que se preze não abandona o posto, apenas descansa com um olho fechado e outro aberto. Cá estou, de volta ao quartel, executando as atividades em que me reconheço: decidindo, escolhendo, experimentando, duvidando, dizendo sim, dizendo não, errando e acertando por conta própria. E, com secreto prazer, me concedendo a liberdade de me perder pelas ruas desse labirinto chamado vida real.

LUIS FERNANDO VERISSIMO - Os bolsos do morto

Os bolsos do morto
 LUIS FERNANDO VERISSIMO
O ESTADÃO - 13/11/11

O morto não é exatamente um amigo. Mais um conhecido, mas daqueles que você não pode deixar de ir ao velório. E lá está ele, estendido dentro do caixão forrado de cetim, de terno azul-marinho e gravata grená, esperando para ser enterrado.

Se fosse um amigo você ficaria em silêncio, compungido, lembrando o morto em vida e lamentando sua perda. Como é apenas um conhecido, você comenta com o homem ao seu lado – que também não parece ser íntimo do morto:

– Poderiam ter escolhido outra gravata...

– É. Essa está brava.

– Já pensou ele chegando lá com essa gravata?

– “Lá” onde?

– Não sei. Onde a gente vai depois de morto. Onde vai a nossa alma.

– Eu acho que a alma não vai de gravata.

– Será que não? E de fatiota?

– Também não. – Bom. Pelo menos esse vexame ele não vai passar.

– Você é da família? – Não. Apenas um conhecido.

Você examina o morto. Engraçado: ele vai partir para a viagem mais importante, e mais distante, da sua vida, mas não precisa carregar nada. Identidade, passaporte, nada. Nem dinheiro, o que dirá cheques de viagem ou cartões de crédito. Nem carteira!

Você diz para o outro:

– A coisa mais triste de um defunto são os bolsos.

O outro estranha. – Como assim?

– Os bolsos existem para ele carregar coisas. Coisas importantes, que definem a sua vida. CPF, licença para dirigir, bloco de notas, caneta, talão de cheques, remédio pra pressão...

– Pepsamar.

– Pepsamar, cartão perfurado da sena, recortes de artigos sobre a situação econômica, fio dental... Isso sem falar em coisas com importância apenas sentimental. Por exemplo: um desenho rabiscado por uma possível neta que parece, vagamente, um gato, e que ele achou genial e guardou. Entende?

– Sei...

– E aí está ele. Com os bolsos vazios. Despido da vida e de tudo que levava nos seus bolsos, e que o definia. O homem é o homem e o que ele leva nos bolsos. Poderiam ter deixado, sei lá, pelo menos um chaveiro.

– Você acha?

– Claro. As chaves da casa. As chaves do carro. Qualquer coisa pessoal, que pelo menos fizesse barulho num bolso da fatiota, pô!

Você se dá conta de que está gritando. As pessoas se viram para reprová-lo. “Mais respeito”, dizem as caras viradas. Você faz um gesto, pedindo perdão. Sou apenas um conhecido, desculpem. Mas continua, falando mais baixo:

– A morte é um assaltante. Nos mata e nos esvazia os bolsos.

– Sem piedade. – Nenhuma.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Setor de telecomunicações deve investir mais de R$ 65 bi até 2016
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 13/11/11

O setor de telecomunicações receberá nova rodada de investimento nos próximos anos, segundo especialistas.

Até 2016, pelo menos R$ 65 bilhões serão destinados a redes de infraestrutura, com foco em fibra ótica e tecnologia de terceira geração, segundo levantamento da Tendências.

O crescimento do mercado de celulares e banda larga móvel é um dos motivos do avanço, de acordo com Eduardo Tude, da consultoria Teleco.

A lei que abre o mercado de TV a cabo a empresas de telecomunicação também estimula a concorrência, diz Camila Saito, da Tendências.

"Como o serviço de alta definição exige muita capacidade, começou uma corrida de investimento", afirma.

Em 2010, o setor viveu uma ressaca após os esforços anteriores na evolução da rede 3G. "Despesas de capital ou investimento em bens de capital caíram 8,2% em 2010 ante 2009. Mas o consolidado do primeiro semestre de 2011 das operadoras já mostra expansão de quase 50% no volume de investimento", diz.

O mercado de TV por assinatura deve crescer 31% em número de assinantes no quarto trimestre de 2011, projeta a Tendências.

O volume de recursos, porém, deveria ser melhor distribuído, segundo Erasmo Rojas, da 4G Americas, associação de provedores de serviços e fabricantes do setor. "Além da modernização da rede, é preciso investir na infraestrutura e em aparelhos que suportem maior velocidade", afirma Rojas.

LONGE DA CONCORRÊNCIA
A subsidiária brasileira da gestora de fundos de investimento Salamanca Capital investirá R$ 330 milhões até 2013 em negócios relacionados a imóveis e minério.

Com sede em Natal (RN) e formada por 80% de capital britânico e 20% brasileiro, a companhia atua no Nordeste com essa formação há quatro anos.

Os novos investimentos da empresa no setor imobiliário (cerca de R$ 100 milhões) continuarão concentrados nessa região do país.

Os recursos para mineração (em torno de R$ 230 milhões) deverão ser alocados em Mato Grosso, Goiás ou Piauí, onde a companhia analisa operações.

"Procuramos fugir do óbvio e encontrar oportunidades de investimento longe dos mercados mais concorridos, como Rio e São Paulo. Há outras regiões do país em crescimento", diz Renato Garcia, sócio da empresa.

Além do Brasil e da Inglaterra, a Salamanca está presente na Polônia, na Romênia e na Bulgária, além de investir também na China.

O QUE ESTOU LENDO
Rômulo Dias, presidente da Cielo

"O Coração de um Executivo", de Richard D. Phillips, é a atual leitura do presidente da Cielo, Rômulo Dias.

O livro narra a vida do bíblico Davi, humilde pastor que se tornou rei de Israel. O autor faz um paralelo entre a trajetória de Davi e a carreira executiva.

"Phillips enxerga reflexos das provações e dos triunfos que marcam nossa vida no mundo empresarial", segundo Dias.

"Tive vontade de aprender com quem foi um grande entregador de resultados, sem perder características como transparência, humildade e proximidade com todos a seu redor."

CRÉDITO NO LONGO PRAZO
A publicação, na última semana, do decreto 7.603, que regulamenta condições para aprovação de projetos de investimentos em infraestrutura, ajudará a viabilizar os R$ 922 bilhões previstos pelo setor até 2015, segundo a Abdib (associação de infraestrutura e indústria de base).

"Essa medida abre caminho para a criação de um mercado de crédito de longo prazo para financiar os investimentos na área e reduz a carga sobre o BNDES", afirma Paulo Godoy, presidente da entidade.

A lei isentou de imposto de renda debêntures e títulos mobiliários para financiar projetos em logística, mobilidade urbana, energia, telecomunicações, saneamento básico, irrigação e outros.

A Abdib estima que, no primeiro semestre de 2012, o mercado privado iniciará as operações de emissão de títulos para projetos de infraestrutura para aproveitar os benefícios do novo regime.

YAKISOBA NO SHOPPING
A rede de restaurantes China In Box, do grupo TrendFoods, começará a atuar em shopping centers.

A companhia vai inaugurar uma unidade neste ano, em São Paulo, e pretende abrir outras oito em 2012.

"Resolvemos repetir a estratégia que adotamos com outras marcas", diz Robinson Shiba, presidente do grupo que também controla as redes de restaurantes Gendai, Brevità e Owan.

Além da expansão em shopping centers, o China In Box continuará as reformas para oferecer espaço para alimentação em suas 152 unidades. "Começamos o processo há quatro anos, e 70% das lojas já têm esse serviço", diz Shiba.

INGLÊS FRANQUEADO
A rede de escolas UNS Idiomas abrirá 150 franquias nos próximos três anos.

O investimento da companhia será de R$ 27 milhões.

"O valor será usado para estruturação das novas unidades, publicidade, capacitação dos profissionais e pesquisas de mapeamento das cidades com maiores oportunidades", diz o presidente da rede, Marcel Magalhães.

São Paulo e Rio receberão mais de 50% dos investimentos, que também serão feitos nas regiões Sul, Nordeste e Centro-Oeste.

Outra rede de idiomas, a YES!, planeja abrir 40 franquias em 2012. Metade delas deve ficar em São Paulo.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

MIRIAM LEITÃO - Mundo de mudança



Mundo de mudança 
MIRIAM LEITÃO 
O GLOBO - 13/11/11

Entrei junto com três casais no elevador do hotel em que estava em Nova York. Curiosamente, eles eram russos, chineses e indianos e estavam carregando sacolas de grifes. Tinham ido gastar sua prosperidade na capital do capitalismo, enquanto o mundo debate a crise do capitalismo. Wall Street tem manifestantes, e a cicatriz do 11 de Setembro virou um grande negócio.
É preciso comprar pela internet com dias de antecedência o ingresso para entrar no memorial ainda incompleto da tragédia. Os estrangeiros ficam em filas para comprar lembranças ou ver o local onde se erguem novas torres. A dor americana é sincera, mas, como sempre, tudo foi organizado para o local ser mais uma caixa registradora.
Ali por perto são feitas as manifestações que têm contaminado os EUA e outros países: o movimento Ocupe Wall Street. De costa a costa há eventos. Em São Francisco, alguns manifestantes lembram os da década de 60. Pela maneira de vestir e pela idade parecem ser os mesmos que protestam há cinco décadas. A primeira página do "New York Times" trouxe fotos dos vários manifestantes com cartazes de propostas estranhas como "Acabe com o Fed".
Uma economia sem Banco Central não existe em país algum do mundo por mais que se possa fazer uma longa lista dos erros que o octogenário Fed cometeu. O maior deles foi socorrer os bancos em 2008 sem qualquer punição para os que criaram a crise. Foi insultuoso o anúncio de que os mesmos que tomaram decisões insensatas, e que foram apanhados em tantas irregularidades, voltaram a receber polpudos bônus. É ainda um movimento à procura de uma bandeira, mas como a insatisfação é profunda pode encontrá-la; até porque tem razão em vários pontos.
Um dos cartazes estampados no "NYT" dizia: "Jovem supereducado e desempregado". Isso torna o movimento americano irmão das eclosões africanas, nas quais uma das razões da fúria foi o fato de que há uma geração de jovens que estudou mais do que seus pais mas não consegue emprego. A economia americana continua com taxas altas de desemprego.
Nova York é uma ilha em todos os sentidos, mas mesmo lá é possível ver os sinais de empobrecimento de americanos. Por outro lado, lojas cheias, filas na porta das mais conhecidas, longas esperas nos restaurantes provam que continua como sempre ocupada e desfrutada por estrangeiros. Só que desta vez a hegemonia é dos turistas de países emergentes.
Nunca vi tanto brasileiro em Nova York, nem na época do câmbio fixo dos anos 1990. Lojas já têm funcionários que aprenderam português para atender os brasileiros. Eu os encontrei nas ruas, nas lojas, nas esperas dos restaurantes, nos teatros. São vorazes nas compras, mas não mais do que os chineses. O combalido capitalismo americano está, como sempre, capitalizando-se com a poupança alheia.
A manicure que me atendeu, num salão perto do Central Park, me conta sua história: é chinesa, foi para os Estados Unidos há dez anos, lá decidiu ter o segundo filho que não podia ter na China, levou os pais. Visita a terra natal, não quer voltar, e quando digo que seu país está ficando rico, responde: "Não é a China toda. Alguns chineses estão ficando ricos."
O mundo vive um momento desconcertante. Tudo parece estar mudando de lugar ou ficando prisioneiro de alguma incerteza estrutural. O que realmente a Europa pode fazer com o euro? Os líderes europeus se enganam diante dos olhos do mundo. Todos sabiam que o que eles chamavam de crise da periferia da Zona do Euro chegaria ao centro. Era uma questão de tempo. Os dados de déficit e dívida dos 17 países da Zona do Euro ou dos 27 da União Europeia - incluindo o Reino Unido - mostram que tudo é insustentável.
Era óbvio que o problema não era apenas grego, que aceitar um calote só dos títulos gregos e emprestar um dinheiro exorbitante ao país não resolveria coisa alguma. A crise levanta vários dilemas, como o que fazer com o projeto de moeda comum a países com diferenças tão explícitas.
A solução que começa a ser sussurrada entre Berlim e Paris de reformar o projeto indica que eles começam a pensar no impensável: tirar alguns da Zona do Euro. O problema é que a França tem também um déficit e uma dívida enormes. Não é modelo para ninguém. A Standard & Poor"s divulgou a notícia errada de que teria tirado deles a nota máxima. Parece ato falho. A França não merece o triplo A.
Nos próximos anos a Europa ficará no crescimento em torno de zero; os Estados Unidos crescerão pouco, mas têm mais capacidade de se refazer; a estrutura de governança do mundo permanecerá errada. Os países cadentes têm poder demais; o G-20 está ficando irrelevante antes de virar uma alternativa. O presidente do Banco Central Europeu é um italiano no momento em que a Itália entra no olho do furacão.
O capitalismo continuará procurando seu caminho, como sempre, mas o mundo mudará muito. O primeiro programa na Globonews, ao voltar das férias, foi sobre o fato de que o PIB do Brasil talvez passe o do Reino Unido. Pareceria delírio tempos atrás. Mesmo assim não sabemos o que fazer com a nossa prosperidade.

FERREIRA GULLAR - A política como farsa



 A política como farsa

FERREIRA GULLAR 
FOLHA DE SP - 13/11/11

Como esse é o espírito do governo petista, todos os seus integrantes dançam ao som da mesma música


Todos sabemos que a sinceridade não é uma qualidade muito comum nos políticos, mesmo porque, se o candidato disser francamente o que pensa, provocará mais desagrado que agrado. Pelo sim, pelo não, prefere dourar a pílula. Mas isso não significa que a política seja, como há quem afirme, a arte de enganar os ingênuos. Se até Deus, segundo dizem, se vê obrigado a escrever certo por linhas tortas, imaginem um pobre mortal.

Mas, sem dúvida, há os que exageram, e eu incluo entre estes -sem lhes dar exclusividade- o pessoal do Lula. Antes de chegar ao governo, era contra tudo o que qualquer outro partido propunha, chegando ao ponto de se negar a assinar a Constituição de 1989 -chamada por Ulysses Guimarães de "Constituição cidadã"-, que veio restaurar a democracia no Brasil.
E só para ser do contra, aliás, não só: também para fazer de conta que era o verdadeiro defensor dos direitos do povo.

Essa mesma postura, de quem joga para a arquibancada, levou os petistas a denunciar os programas Bolsa Escola e Bolsa Alimentação, do governo Fernando Henrique, como uma espécie de esmola que humilhava os trabalhadores e os pobres em geral. Quando chegaram ao poder, fundiram os dois programas num só -o Bolsa Família- e deles se apropriaram.

Podiam admitir que haviam errado, mas, pelo contrário, fingem que era uma criação original sua. Do mesmo modo agiram com relação ao Plano Real, à Lei de Responsabilidade Fiscal e a tudo o mais que combateram e passaram a usar, como se os tivessem criado. Claro que quem assim age tem que estar mal na roupa, sempre tendo que fazer de conta, já que tem o rabo preso.
Confesso que, até bem pouco tempo atrás, não tinha visto as coisas por esse ângulo, embora me chamasse a atenção o modo como se comportavam os membros do governo Lula.

Guido Mantega, por exemplo, jamais fala como deveria falar um ministro de Estado. Pelo contrário, todo pronunciamento seu é sempre um autoelogio, exaltação à política econômica do governo, às vezes até afirmando, cabotinamente, ser ela superior à de todo e qualquer país do mundo.

Nessa mesma linha foi o lamentável pronunciamento da presidente Dilma, em viagem recente pelo exterior. Sem o devido respeito que um chefe de governo deve ter com os de outros países, criticou-lhes a política econômica e os aconselhou a aprender conosco a governar... Na verdade, mais uma vez jogava para a plateia, visando levar a opinião pública brasileira a orgulhar-se do governo petista, incomparável e único no mundo.

É atitude própria aos "salvadores da pátria" que, em nossa época, após a queda do Muro de Berlim, empurrou parte da esquerda latino-americana -a menos democrática- a uma espécie de neopopulismo que, não por acaso, alcança os limites da enganação. E não poderia ser de outro modo, uma vez que está obrigada a representar uma farsa: fazer-se de anticapitalista quando, na verdade, o favorece; fazer-se de democrática, quando, de fato, não aceita a alternância no poder e abomina a liberdade de imprensa.

Como esse é o espírito do governo petista, todos os seus integrantes dançam ao som da mesma música, obedecendo à batuta do maestro. Exemplo disso foi a posse do novo ministro do Esporte, que substituiu Orlando Silva, demitido por suspeita de corrupção, como atesta o processo aberto contra ele pelo STF.

Para surpresa de todos, esse ato se transformou numa exaltação ao ministro demitido, que foi elogiado por Dilma e aplaudido de pé pelos presentes. Uma comédia.

Um fato muito grave atinge o cerne vital desse sistema de poder: a descoberta de um câncer na laringe de Lula. O país inteiro se assustou, é claro. É verdade que hoje muitos tipos de câncer são curáveis; apesar disso, constatar que alguém está com um tumor maligno não é propriamente uma boa notícia.

É o que todo mundo pensa. Não obstante, parece que, no caso de Lula, é diferente. Da equipe médica à presidente Dilma e ao ministro Mantega, todos afirmam sorridentes que Lula está ótimo, alegre, mais bem-disposto do que nunca.

Até hoje, não tinha visto um diagnóstico de câncer ser tão bem recebido. Parece até que Lula acaba de ganhar o grande prêmio da loteria.

GOSTOSA


JOSÉ SIMÃO - Ueba! Bieber ganhou o Bambi!


Ueba! Bieber ganhou o Bambi!
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 13/11/11 

Prenderam o traficante Nem porque ele se chamava Nem. Se fosse Enem, tinha vazado 

Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O esculhambador-geral da República!

O mundo é uma piada pronta lotada de predestinados. Primeiro ministro da Líbia: Abdel Al KIB! Primeiro ministro da Grécia: Lucas PapaDEMOS. Assessor do ministro do Trabalho: PANELLA! E o Al Kib é Al Kib frito ou Al Kib cru? Se fosse ministro da Dilma, Al Kib FRITO! E o recado ao povo líbio: "Ou vocês se comportam ou vão sentar no al kib".

E piada pronta direto de Cajazeiras, Paraíba: "Sexo oral na praça do Pirolito". Dois marmanjos estavam praticando sexo oral numa árvore na praça do Pirolito em frente ao bar do Pirolito. Pirolitos em Ação!
E outra piada pronta: "Justin Bieber ganha Prêmio Bambi 2011". E o traficante Nem? Prenderam o traficante porque ele se chamava Nem. Se fosse Enem, tinha vazado.

E o Berlusconi? Com aquela cara de vibrador usado? Vai renunciar. Agora não adianta mais, a zona já tá feita! E o FontedeHumor diz que o Berlusconi vem pro Brasil. Pra reabrir o Bahamas! Imagine o Berlusconi e o Maroni de roupão! Rarará! E antes da renúncia receberá uma comenda: a medalha de honra ao meretrício. Por ter transformado a Itália numa zona.

Mas ele foi o único que adotou de fato a zona do euro. Comeu todas as gostosas do euro. Berluscome. Berluscome Todas. O Maluf pornô! E sabe como se chama o pingolim do Berlusconi? Fofoca: corre de boca em boca. Rarará!

Outra figura da semana: o ministro do Trabalho, "só saio abatido à bala". Ai, ai, ai, a Dilma vai ter que usar garrucha? Ela já anda como o John Wayne! Rarará! Ou então ele anda no Caveirão do Bope, ministro à prova de bala.

E o PDT quer dizer Pode Dar Tiro? Rarará! E o Brasil agora tá assim: denúncia, defesa, denúncia, defesa. Eu também quero denunciar. Vou denunciar a minha sogra que usa sandália com o calcanhar rachado. Troco qualquer denúncia por uma viagem pra Bahia! E corre na internet um panorama internacional: "USA, Steve Jobs. Grécia, No Jobs. Itália, Blow Jobs". Rarará!

E o Vasco nem precisou chamar a PM pra bater o Universitário. Vasco cinco, Universitário dois! E a Portuguesa voltou pra série A! Depois de cem anos. Adorei ver os torcedores com as camisas cheirando a naftalina! Tirando o pó das bandeiras.

A Portuguesa usa a tática padaria: ataca em massa e retranca em bolo! E o Palmeiras contratou mais um craque. Pra segurar a lanterna. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

MARIO VARGAS LLOSA - Uma rosa para Rosa



Uma rosa para Rosa
MARIO VARGAS LLOSA 
O Estado de S.Paulo - 13/11/11

Ter quase 5 milhões de desempregados, como tem a Espanha, é uma tragédia para qualquer país, principalmente para uma sociedade que, oito anos atrás, era a história de sucesso da Europa: uma nação de economia pujante e muito invejada, exemplo flagrante - para a América Latina, em particular, e para o Terceiro Mundo, em geral - de que, com estabilidade, democracia e políticas acertadas, um país pode pular etapas e, em um período breve, alcançar altos níveis de trabalho e bem-estar.

Ninguém duvida que os assustadores números do desemprego espanhol sejam consequência da crise financeira que há mais de três anos afeta o mundo ocidental. Mas ninguém pode ser ingênuo a ponto de crer que essa é a única causa, nem a principal, de semelhantes níveis de desemprego. Afinal, se assim fosse, por que não observamos no restante da Europa um fenômeno parecido? Nem a Grécia, na sua interminável descida ao fundo do poço, apresenta um desemprego comparável.

Por outro lado, uma investigação recente comprova que a Espanha é o país da União Europeia onde as diferenças econômicas entre ricos e pobres são as maiores no bloco - e atesta que o altíssimo desemprego entre os jovens, cerca de 48%, dificilmente recuará nos próximos três anos.

A principal razão desse desastre é uma política econômica errática e imprudente e a obstinação do governo socialista em negar a existência da crise por mais de um ano, coisa que o impediu de adotar as medidas corretivas que teriam moderado o declínio e encurtado o período de recuperação. Os prognósticos quanto ao tempo que será necessário para tal recuperação variam, mas todos concordam que o próximo ano será mais difícil.

Nas eleições do dia 20, o governo espanhol será sancionado por esse fracasso. E é natural que assim seja. Vale a pena recordar que só nas democracias essas sanções são possíveis e, por sorte, apesar dos problemas econômicos, a democracia espanhola goza de ótima saúde. Pesquisas de opinião dizem que o principal partido de oposição, o Partido Popular (PP), liderado por Mariano Rajoy, voltará ao poder.

Alegro-me que seja assim, pois creio que o PP conta com a melhor equipe de economistas e as ideias mais claras para enfrentar os sacrifícios e dificuldades para levar adiante as reformas radicais necessárias. Esperemos que o partido conte também com a coragem para tirar a Espanha do marasmo econômico, devolvendo-lhe o dinamismo visto durante os oito anos de governo de José María Aznar. Apesar de tudo isso, nessas eleições não votarei no PP, mas na União Progresso e Democracia (UPD), partido liderado por Rosa Díez, por motivos que gostaria de explicar neste artigo.

Tenho uma desconfiança instintiva em relação às maiorias absolutas, que podem alentar iniciativas arbitrárias e até autoritárias nos governos que formam. No caso espanhol, preocupa-me que, caso o PP obtenha a maioria, sua ala mais conservadora, impelida por motivações religiosas, faça o governo de Rajoy voltar atrás nas reformas sociais mais avançadas aprovadas sob o governo de Zapatero, as quais, na minha opinião, fizeram progredir a cultura da liberdade na Espanha.

A UPD é um partido comprometido com reformas genuinamente liberais e tenho certeza que ele as defenderá com convicção no Parlamento. Por isso, se o PP não obtiver a maioria necessária para governar sozinho e tiver de recorrer a alianças, a UPD seria seu aliado ideal.

Desde que nasceu como organização política, a UPD combateu os nacionalismos de maneira resoluta. E sustentou que, mantido o funcionamento do regime das 17 regiões autônomas, o risco de desintegração se acentua progressivamente. Defendeu que, por esse motivo, tal sistema deveria ser reformado, sem colocar em risco a descentralização, mas permitindo que o Estado recupere competências relativas à educação, à saúde e à Justiça, sem as quais é difícil que haja uma política coerente e homogênea em nível nacional.

Por outro lado, a UPD é o único partido que nessas eleições incorporou a seu plano de governo uma cláusula comprometendo-se a apoiar a oposição democrática que luta para libertar Cuba de 52 anos de ditadura. Também nesse campo é imprescindível retificar a política do governo socialista que, no que concerne a tirania cubana, foi de uma tolerância que beirou a atuação como procurador da ilha caribenha.

Não estou dizendo que a UPD é um partido liberal, mas é aquilo que mais se parece com isso no âmbito espanhol. Tanto no que tange a economia como em suas convicções democráticas, em suas posições tolerantes e na diversidade que admite e fomenta entre seus afiliados. Um espectro ideológico que vai da social-democracia ao liberalismo, passando pelo centro cristão ou laico e até com pequenos lampejos anarquistas, algo que confere ao partido um ar fresco, renovador e idealista, desprovido dos apetites que o tempo costuma incutir nos partidos políticos.

A melhor credencial da UPD é Rosa Díez, sua porta-voz e fundadora, a quem os cidadãos espanhóis costumam descrever com os melhores adjetivos. Essa mulher baixinha e de olhos efervescentes é dona de convicções firmes e demonstrou ao longo da vida pública uma coragem à prova de terroristas e fanáticos.

Ela viu o risco que o nacionalismo identitário representa para a sobrevivência da Espanha e da democracia e sempre criticou as concessões feitas pelo governo nesse sentido, afastando-se da política que entregasse a liberdade de comunidades inteiras ao sequestro coletivista.

Rosa Díez é aquilo que Max Weber chamava de "político de convicções". Ela e seu partido merecem uma presença mais expressiva. Seu objetivo é devolver à política a solvência moral e a confiança que depositam nela os cidadãos de uma democracia que enxergam na ação política o instrumento mais eficaz e menos violento para obter melhorias na qualidade de vida da população, corrigir aquilo que vai mal, promover a igualdade e a justiça.

Essa confiança foi esfriando na Espanha com a feroz crise econômica. Nas novas gerações, começa a surgir um pessimismo que se traduz, às vezes, numa recusa às regras do jogo democrático. Isso explica o estado de deriva que tem se disseminado no movimento dos "indignados". Num primeiro momento, a simpatia da opinião pública foi grande em relação à mobilização de jovens que, após terem recebido educação e se preparado para entrar no mercado de trabalho, agora o encontram fechado.

Muitos viram no período inicial do movimento dos "indignados" uma injeção de energia na democracia espanhola. No entanto, logo o movimento ultrapassou suas causas originais e adotou palavras de ordem tão anacrônicas quanto a estatização e o dirigismo econômico - e a substituição da legalidade parlamentar pela legalidade das ruas.

As eleições de novembro são uma oportunidade para comprovar que a democracia funciona e consiste no único sistema que permite a renovação. Para tanto, é preciso não se enganar na hora de votar. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

MERVAL PEREIRA - O Brasil nos Brics



O Brasil nos Brics 

MERVAL PEREIRA 
O GLOBO - 13/11/11

Os Brics, sigla que reúne os cinco países emergentes mais influentes neste novo mundo multipolar em que vivemos, ganharam relevância ainda maior dentro do contexto da crise econômica mundial que consome a União Europeia e os Estados Unidos.
Segundo o professor de História Contemporânea da UFRJ Francisco Carlos Teixeira, transformaram-se em "um grupo de consultas mútuas" de países com um bom comércio - Brasil/China, China/África, China/Rússia/Rússia/Índia - e que, de certa forma, possuem interesses parecidos: desconcentração do poder mundial, novas normas de comércio, estabilização financeira e cambial.
Teixeira diz que os Estados Unidos de Obama acabou por aceitar o inevitável: o sonho de hegemonia mundial se desmilinguiu no ar.
Na sua avaliação, "na Líbia, nas retiradas no Afeganistão e no Iraque, patenteou-se a nova política: intervenções só com as parcerias políticas, morais e financeiras".
Que será uma atitude permanente, Francisco Carlos Teixeira não aposta: curada a crise econômica, ele acredita que os americanos voltarão ao velho estilo. "Mas aí o mundo já será outro", diz ele, "os custos ainda maiores e as condições talvez irreversíveis."
Não se trata, adverte, de decadência americana, "isso ainda precisa do fim do século XXI para ser História". Trata-se de desconcentração de poder e a virada para um mundo mais multicêntrico, "o que para o Brasil é muito bom", avalia.
Para o embaixador Marcos Azambuja, especialista no assunto, os Brics são um efeito colateral da impossibilidade de se redesenhar a ordem internacional, já que as resistências à redistribuição de poder pela via institucional continuam muito grandes.
"Antes, só as grandes guerras provocavam os traumatismos e ofereciam a oportunidade para o redesenho da ordem internacional. Como o fator nuclear impede (ainda bem) uma Terceira Guerra Mundial, não se apresentam aquelas condições para que se reveja, em profundidade, a ordem internacional", avalia.
Assim, como o sistema central não pode ser reformado, a saída tem sido a criação de grupos com um grau maior ou menor de informalidade que refletem novas realidades e as novas hierarquias do poder mundial, analisa Azambuja.
Assim vão aparecendo entidades como a Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático), a Apec (Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico), o G -20 e os Brics.
O embaixador Azambuja ressalta que as estruturas criadas em São Francisco ainda sobrevivem, com os importantes acréscimos do que se negociou em Bretton Woods, pela contribuição das chamadas Agências Especializadas e pela criação, mais tarde, dos instrumentos para a defesa dos direitos humanos e proteção ambiental.
"Nunca foram reformadas, e não vejo sinal de que possam ser redesenhadas no futuro previsível", afirma.
Para ele, os Brics continuam a enfrentar seus pecados de origem: a) é uma tribo sem índios e composta só de caciques; b) não tem uma agenda comum nem sequer um mínimo de institucionalidade; c) o passado das relações entre alguns deles é antes de conflito e rivalidade do que de cooperação; d) perseguem políticas divergentes e não é fácil imaginar uma conciliação de seus interesses nacionais.
Azambuja diz que o que une os Brics - além do convencimento de seu peso (geográfico, demográfico, econômico etc.) - "é o sentimento de seus membros de exclusão, em maior ou menor grau, do processo central de definição da nova ordem mundial, a convicção de que essa revisão deve dar a cada um uma maior fatia de poder e que, pelo menos no nível das ideias e dos objetivos gerais, pode ser encontrado um denominador comum que permita um discurso em boa medida afinado entre os cinco".
Mas, lembra Azambuja, há a consciência dos limites da concertação entre os cinco: "o Brasil, a Índia, a África do Sul não abdicam de sua adesão ao Ibas, que, em virtude mesmo de sua composição, permite que se aprofundem as afinidades entre as três democracias que integram os Brics".
Para o professor Clovis Brigagão, do Centro de Estudos das Américas da Ucam e professor-visitante do Programa de Mestrado em Relações Internacionais da Uerj, "nesse novo espaço internacional que está em crise, por um lado, e pelo ritmo e aceleração da globalização, por outro, vem, impressionantemente, crescendo o papel dos Estados emergentes, que têm o G-20 (substituto do plano regulatório do sistema financeiro do pouco democrático G-7), os Brics, bem como as plataformas do comércio inter e intrablocos regionais, além das redes sociais, da imagética criativa dos serviços digitais.
Ele destaca que temos, em comparação com os outros Brics, consolidada a democracia, como forma e regime político, uma cultura diversa, plural e com formas ativas, artística, musical.
"Isso é o que o Brasil leva ou tem que ter como estratégia política e diplomática, na sua inserção internacional, que garanta benefícios agora e para o futuro."
Brigagão lembra que o Brasil tem, com a Amazônia, o seu rico e complexo ecossistema - muito pouco explorado no seu essencial, que é o DNA dos recursos naturais para a produção de fármacos indispensáveis à saúde.
Ele destaca também o que chama de "a plataforma mais homogênea":
"Língua e pertencimento a essa ilha continental, ocidental no que se pode ser, comportamentos mais modernos e contemporâneos, muito atinados com o mundo, resultado de três fatores: a redemocratização, os projetos e realizações da integração regional (hoje ainda mais integrada fisicamente - transporte, energia e comunicação), e a globalização."

Na coluna de sexta-feira, cometi um equívoco que merece ser reparado: não foram os policiais federais que recusaram a proposta de suborno para liberar o traficante Nem, mas policiais militares do Batalhão de Choque da PM do Rio de Janeiro.

SÓ FALTA UMA!

SÓ FALTA UMA!


MÔNICA BERGAMO - Ocupe o Copan


Ocupe o Copan
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 13/11/11

Artistas de 20 e poucos anos e sem galeria se juntam para fazer exposição em espaço vazio de 3.500 m² em prédio de Niemeyer

Há dois meses, Alessandra Terpins, 26, tomou coragem. Pediu demissão da galeria Fortes Vilaça, onde era assistente de curadoria, e ligou para uma amiga. Disse a Fernanda Brenner: "Vamos fazer". Combinaram de juntar 30 artistas de 20 e poucos anos e sem representação em galeria. Selecionaram uma ou duas obras de cada um para expor num espaço desocupado de três andares, com 3.500 m² de área, dentro do edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer no centro de SP.

Alessandra acumulou experiência de oito anos trabalhando em galerias e um incômodo: "Saí do mercado desolada, querendo fazer algo mais transgressor. Nas galerias, todo mundo diz que quer ser agressivo, mas acaba seguindo as regras do mercado". Já Fernanda tinha o contato do dono do imóvel, um engenheiro que não quer se identificar. Ele cedeu o local, que possui há 20 anos e nunca conseguiu vender, relata a repórter Thais Bilenky.

Na segunda-feira passada, as duas convocaram os 30 artistas para uma reunião no futuro palco de exposição. "Vamos realizar um trabalho mais experimental que o das galerias, sem o estresse de ter que fazer a carreira do artista crescer", afirma Lelê, como Alessandra é chamada. "O que estamos fazendo aqui acontece muito no exterior. Cada vez mais, artistas em Berlim e em Nova York se apropriam de lugares caindo aos pedaços em regiões 'uprising' [em ascensão], para montar exposições."

"Daqui a pouco, vocês [artistas] entram para uma galeria e vão fazer dinheiro nesse mercado, que tá bombando. Os preços vão subindo e a gente não sabe onde isso vai parar. Enquanto isso, esse imóvel está sendo depreciado, mesmo sendo uma obra magistral." O proprietário pede R$ 10 milhões pelo conjunto.

No dia 24, haverá uma abertura para 250 "convidados VIPs" (leia-se: colecionadores). No dia seguinte, fazem uma festa de inauguração "para a galera". A partir daí, a mostra fica em cartaz por mais dez dias.

A idealizadora do projeto tirou do bolso R$ 20 mil para viabilizá-lo. Pretende reaver o dinheiro cobrando 30% de comissão das obras que forem vendidas (a taxa praticada pelo mercado é de 50%). "Não sei se vou sair no zero a zero ou com um lucro pequeno. O importante é fazer acontecer." Explica aos artistas que fará o orçamento para montagem e exibição dos trabalhos de cada um conforme as necessidades, mas pede que "sejam barateiros".

"A gente brinca que os preços das obras vão de R$ 10 a R$ 10 milhões, porque inclui a obra-prima do Niemeyer", diz a estudante de arquitetura Fernanda Resstom, da comissão organizadora da exposição, intitulada "Imóvel". Completam o grupo Isabel Villares e Thiago Gonçalves, também alunos de arquitetura, e André Guazzelli, formado em desenho industrial.

A reunião avança e as perguntas vão surgindo. "Vai ter bombeiro?", quer saber Silvio De Camillis Borges, 26. Sua ideia é fazer uma instalação com uma chapa de metal colocada em um fogão industrial -superaquecida, portanto. Sobre a placa, uma torneira jorra um filete contínuo de água, gerando, devido ao choque térmico, pequenas "explosões". Batizou-a de "Contrata-se Ferreiro". "É uma iniciação para esse espaço, que está há 20 anos 'desligado'. Sem calor, não existe vida", explica Borges.

As dúvidas prosseguem: "Vai ter segurança? 24 horas? Podemos vir [trabalhar] de madrugada?". É a deixa para Seu Oliveira aparecer. Zelador do espaço desde 1999, Oliveira Marques da Silva, 72, diz que "pode, desde que não façam barulho". É que ele mora no imóvel -improvisou uma cozinha e um quartinho em pleno saguão.

"Tem fantasma aqui?", perguntam. Seu Oliveira responde que sim. "Mas não tenho medo, não. Pior foi quando entraram uns trombadinhas querendo fumar alguma coisa", lembra.

Além de atuar na organização, Fernanda Brenner vai expor "Cenografia da Espera", duas telas sobre "o momento imediatamente anterior a um acontecimento". "Esse lugar aqui [o conjunto no Copan] tá esperando acontecer alguma coisa. É um espaço em branco." Em um dos quadros aparecem uma pessoa, uma janela, um banquinho, um gaveteiro e uma fonte de luz.

Antes de ser comprado pelo engenheiro, o local da exposição serviu como hospital dos funcionários do Bradesco. Sobraram resquícios da época, como placas apontando para o "gabinete dentário" e para o "ambulatório médico". Ficaram também restos de cenários montados para filmes e comerciais rodados ali, que garantem ao proprietário uma renda para pagar o condomínio.

"Eu vi muito entulho, vigas, escadas. Posso usar?", pergunta o artista Daniel de Paula, 24. É que ele pretende preencher com tijolos espaços vazados entre colunas em V, símbolo da arquitetura moderna, e degraus de escadas. "O que eu tinha imaginado é discutir a função que tem hoje o estilo de Niemeyer", diz.

Daniel de Paula acha "interessante" a proposta da exposição. "Não é todo dia que você tem a oportunidade de intervir diretamente numa obra do Niemeyer. É aqui ou na Bienal [cujo prédio, no Ibirapuera, também foi projetado pelo arquiteto]." O problema, diz, é o prazo: menos de 20 dias para a montagem.

"Realmente, se eu tivesse mais tempo, colocaria o projeto no Catarse [site de financiamento colaborativo]", diz Lelê. Mas não vai dar. Ela está "apaixonada" e, em dezembro, vai viajar para a Austrália por três meses com o namorado. Terá que esperar a próxima edição, que os organizadores pretendem fazer no primeiro semestre do ano que vem.

CELSO MING - Apertar ou desapertar?


Apertar ou desapertar?
 CELSO MING
O ESTADÃO - 13/11/11

Por todos os cantos da Europa repete-se uma pergunta intrigante: se os programas de austeridade e de sacrifícios afundam ainda mais as economias nacionais na recessão, no desemprego e na queda de arrecadação, por que, então, insistir nessa receita idiota que, além de piorar as coisas, tende a provocar graves distúrbios políticos?
Questão subsequente: por que, em vez desses insuportáveis programas de arrocho e de desestabilização, não aproveitar a velha e bem-sucedida recomendação do maior economista do século 20, John Maynard Keynes, e incentivar despesas públicas que criem renda e impulsionem o consumo, a produção e o emprego?
Essa última foi uma política anticíclica vitoriosa no New Deal acionado pelo então presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, que, a rigor, tirou a economia americana da Grande Depressão. E foi vitoriosa depois na Europa destruída pela 2.ª Guerra, quando os Estados Unidos providenciaram o Plano Marshall, que financiou a reconstrução e a retomada da atividade econômica no continente.
Ao contrário do que diz muita gente que assimilou mal os ensinamentos de Keynes, esses programas não consistiam em expandir permanentemente despesas correntes dos governos, mas, sim, em estimular grandes investimentos, geralmente em obras de infraestrutura, que se encarregassem de gerar encomendas e de mobilizar capacidades ociosas, ou seja, de empregar mão de obra parada para criar renda e ajudar a colocar em marcha uma economia estagnada pela crise. Quando terminavam, esses projetos não eram retomados. Eram investimentos tipo once for all, como dizem os ingleses.
O grande obstáculo para aplicar essa fórmula nos dias de hoje é que não há de onde tirar esses enormes volumes de recursos. Os países ricos – tanto os Estados Unidos como as principais potenciais da Europa – estão quebrados. Já detêm dívidas insuportáveis. Não poderiam nem financiar sistemas assim nem se endividar ainda mais se encontrassem financiadores.
Esse foi o principal motivo pelo qual os sócios do bloco do euro, de olho nas reservas trilionárias da China, tentaram passar o chapéu entre os países emergentes. Mas não levaram em conta que reservas externas são recursos dos bancos centrais. Se eles próprios não querem que o Banco Central Europeu (BCE) seja responsável por monetizar um pedaço de suas dívidas, por que, então, bancos centrais de economias emergentes teriam de despejar as quantias necessárias?
A conclusão é de que não há como aproveitar a proposta keynesiana tal como foi concebida no passado. As condições são outras. Como disseram os economistas Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, também nesse ponto, "desta vez é diferente". E diferente tem de ser também a política anticíclica que se incumbirá, em primeiro lugar, de desarmar corações e mentes. E, em seguida, de reconstruir a economia dos países avançados. Tudo indica que as coisas têm mesmo de começar com emissões de moeda pelo BCE para recomprar títulos públicos hoje rejeitados.

CONFIRA
A aprovação do plano de austeridade da Itália no Senado, somada à indicação do economista Mario Monti para ocupar o cargo de primeiro-ministro interino após a renúncia de Silvio Berlusconi, melhorou o astral dos mercados na sexta-feira. Sugeriu que a Itália começa a caminhar na direção correta. É o que mostra a queda do rendimento (yield) cobrado pelos detentores de títulos da dívida italiana.
Ainda tem muito chão. Mas ainda é cedo para identificar mudanças expressivas no quadro geral de crise no bloco do euro.