terça-feira, outubro 18, 2011

MAIS PUTAS NO CABARÉ BRAZIU


MARCIA PELTIER - Troca-troca


Troca-troca
MARCIA PELTIER
JORNAL DO COMMÉRCIO - 18/10/11 

Pesquisa da KPMG aponta que os negócios em fusões e aquisições continuam aquecidos no país. Entre janeiro e setembro foram 606 operações, resultado 14% acima do registrado no mesmo período de 2010 (531). Destaque para as transações domésticas, empresas brasileiras comprando companhias brasileiras, que somaram 293 acordos, contra 244 nos nove primeiros meses de 2010. Entre os setores que mais se movimentaram estão tecnologia da informação (28), imobiliário (24), educação (22) e mídia e telecomunicação (20).

Apetite 

Cresceu também o número de negócios de empresas estrangeiras adquirindo companhias brasileiras no país. Foram 157 acordos frente aos 125 do ano passado, alta de 26%. Na dianteira novamente aparece o setor de TI, com 12 operações, seguido do de serviços, com 11.

Game Dior 

A Dior se rendeu ao mundo virtual. Após o lançamento da linha de maquiagem nas redes sociais, agora é a vez das joias da marca. Vai ao ar, hoje, o curta em 3D Mise en Dior, no qual uma pérola toma o lugar da bola dentro de um jogo de pinball. O jogo segue até a formação do colar inteiro. O nome do vídeo é uma homenagem ao primeiro colar criado por Camille Miceli, diretora criativa de acessórios para a grife.

Bola na rede 
O futebol, os jogadores e as suas torcidas fanáticas serão o enredo do próximo desenho de Carlos Saldanha na Fox, que lucrou muito nos últimos anos com as animações A Era do Gelo e Rio. A estreia está prevista para 2013, véspera da Copa do Mundo. O pano de fundo será o novo estádio do Maracanã e as escolinhas de futebol espalhadas em todo o país. Famosos como Pelé e os Ronaldo, Fenômeno e Gaúcho, serão homenageados com personagens especiais.

Poesia maior 

O ator Alexandre Borges apresenta pela primeira vez no Brasil seu projeto Poema Bar. Ao lado do pianista português João Vasco, ele organiza uma semana dedicada a Vinícius de Moraes, que completaria 98 anos este mês, e a Fernando Pessoa. A extensa e bela obra de ambos será declamada e cantada pelas vozes do ator e das cantoras Mariana de Moraes, neta de Vinícius, e Sofia Vitória, vinda diretamente de Portugal para o evento. A abertura é hoje, na Casa Villarino, no Centro. Poema Bar estreou na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, e, em seguida, foi apresentado no teatro alemão Bühne der Kulturen, em Colônia.

Amigas de NY 

Por falar em Vinicius, foi sua viúva Gilda Mattoso quem ciceroneou William Dafoe e a mulher dele, a cineasta Giada Colagrande, pela cidade. É que, numa viagem a Nova York, Gilda foi apresentada à italiana. Ela elaborou uma programação intensa: a noite de sexta começou com o show de Adriana Calcanhoto no Espaço Tom Jobim, local que Dafoe achou tão especial, com o verde do Jardim Botânico em torno, que disse que dava vontade de se apresentar numa peça por lá.

'Tour de force' 

O trio rumou em seguida para o jantar que Eduardo Paes oferecia no Palácio da Cidade e emendou com a Acadêmicos da Rocinha, onde o Grupo Santa Clara, liderado por Rodrigo Lampreia e Beto Landau, fervia a quadra com muito Jorge Benjor e sambalanço no repertório. No dia seguinte, degustaram a feijoada do Festival do Rio e terminaram a noite na Unidos de Vila Isabel.

Fã de Pixinguinha

No domingo, Gilda levou o casal a um sarau na casa de Elba Ramalho, em São Conrado, no qual também estavam Maria Gadu e Moska. O veterano pianista e arranjador Aécio Flávio tocou a pedido de Giada a música Rosa, de Pixinguinha. É aquela belíssima canção que começa com: “Tu és, divina e graciosa estátua majestosa do amor, por Deus esculturada”. Giada e Dafoe deixaram o Rio ontem.

Diva em pessoa 

Marlene finalmente foi assistir, domingo, na Maison de France, ao musical Emilinha e Marlene. Aos 87 anos e amparando-se em muletas, a cantora já havia assistido a uma parte do musical em ensaio, mas não se considerou emocionalmente pronta para estar presente à estreia, em agosto. No final, visivelmente tocada, ela comentava sobre o espetáculo: “É tudo verdade!”. Seu fã-clube, incansável, não deu trégua e tirou fotos e pediu autógrafos da artista.

Marcia Peltier entrevista o produtor cinematográfico Luiz Carlos Barreto, conhecido como Barretão, nesta terça-feira. No programa, ele revela que sua paixão pela fotografia nasceu quando foi morar na França, onde era correspondente: "Adorava fazer cobertura dos grandes desfiles de moda. Acho que sou um costureiro frustrado'', brinca. Acreditando que o cinema brasileiro tem uma vocação internacional, Barretão revela a origem de seu apelido dado por Nelson Rodrigues e declara seu amor à mulher Lucy. "Quando perguntam quem sou eu, respondo que sou a Lucy Barreto. Sem ela, não teria conseguido realizar tudo o que realizei", garante. Começa às 23h de hoje, na rede CNT.

Livre Acesso

A futuróloga americana Nancy Giordano, CEO da Play Big, está no Rio e fala, hoje, sobre a importância da opinião do turista comum nas decisões estratégicas do setor de viagens corporativas. A palestra será para convidados do Grupo Alatur, nos salões do Windsor Atlântica.

Falecido na última semana, Leon Cakoff, criador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, será homenageado na abertura do evento, sexta-feira. Será exibido um curta-metragem com material especial feito pela organização da mostra após a morte do diretor.

Hoje e amanhã tem bazar da Associação das Antigas Alunas do Sion, na rua Visconde de Caravelas 177, Botafogo.

Sônia Carneiro e João Bosco Rabello tiveram seus aniversários festejados, sábado, no almoço do Piantella, em Brasília.

O arquiteto Ruy Rezende, autor de inúmeros projetos sustentáveis na Cidade Nova, faz palestra dias 20 e 26, no IAB-Rio, e no evento Façades, em São Paulo, sobre projetos de prédios corporativos sustentáveis com fachadas em vidro, que economizam energia.

Claudio Crispi, Marco Aurélio Oliveira, Flávio Malcher, José Carlos Damian e Paulo Ayroza lançam o Tratado de Endoscopia Ginecológica, pela Editora Revinter, dia 26, no Clube dos Caiçaras.

O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro promoverá de hoje a sexta, em sua sede, o V Colóquio dos Institutos Históricos, reunindo as 23 entidades estaduais.

É hoje o lançamento do livro O vestido vermelho, prêmio Cruz e Souza de Literatura. A autora, Vera Moll, dará autógrafos na Livraria Cultura do Fashion Mall, a partir das 19h.

Com Marcia Bahia, Cristiane Rodrigues, Marcia Arbache e Gabriela Brito

ANTONIO DELFIM NETO - Homem e trabalho


Homem e trabalho 
ANTONIO DELFIM NETO
VALOR ECONÔMICO - 18/10/11

A organização social em que vivemos é produto de um processo histórico. O homem, ao construir o mundo com seu trabalho, exerce uma pressão seletiva no sentido de aumentar a sua liberdade de expressão, o que exige cada vez maior eficácia produtiva. Há uma evolução simultânea, civilizatória e quase biológica, que amplia o altruísmo e a solidariedade social, exatamente porque a cooperação é mais "produtiva" e libera mais tempo para a expressão criativa do homem.

Uma das construções mais impressionantes de Marx é a sua leitura do papel do trabalho nos "Manuscritos" de 1844, antes dele ter sido seduzido por Ricardo. O trabalho é o processo pelo qual o homem se produz e projeta fora dele as condições de sua existência e a sua capacidade de transformar o mundo.

No atual estágio evolutivo, a sociedade divide-se entre os que têm capital e "empregam" o trabalho em troca de salário, e os que detêm a força de trabalho e só podem utilizá-la "alugando-a" ao capital, em troca de salário. Com as políticas sociais, o Estado do Bem-Estar transformou (transitoriamente!) o sistema salarial alienante de Marx no símbolo da segurança do trabalho. Ele dá, por sua vez, a garantia para o funcionamento das instituições da nossa organização social, particularmente os mercados e a propriedade privada.

Os economistas precisam incorporar, como disse Mauss ("Sociologie et Anthropologie", 1950), que o trabalho é o "fato global". O desemprego involuntário é o impedimento insuperável do cidadão de incorporar-se à sociedade. Por motivos que independem de sua vontade, ele não pode sustentar honestamente a si e à sua família. O desemprego involuntário é o "mal social global"! Não importam as filosofias ou as ideologias. No presente estágio evolutivo da organização social que o homem continua procurando para fazer florescer plenamente a sua humanidade, é a natureza e a qualidade do seu trabalho que o coloca na sua posição social e econômica, que afeta sua situação física e emocional e que determina o nível do seu bem-estar.

É com esse sentido do papel do trabalho, com o qual o homem se constrói e produz um mundo onde tenta acomodar-se numa estrutura social conveniente, que devemos entender os protestos dos "indignados com Wall Street", que se espalham por todo os EUA. Não se trata de "excluídos" sociais (talvez alguns deles o sejam), mas de cidadãos honestos, educados e que até bem pouco tempo tinham a oportunidade de ganhar a sua vida, sustentar a sua família, educar seus filhos, comprar sua casa, realizar, enfim, o "sonho americano", com o qual os EUA venderam o lago azul ao mundo.

É verdade que alguns deles já estão na terceira geração vivendo à custa dos outros, graças à miopia e inércia de um Estado do Bem-Estar distraído, o que faz a força do "Tea Party". Mas é verdade, também, que a renda média do americano não cresce desde 1996 e que a distribuição de renda tem piorado. Nada disso, entretanto, acendeu o fogo. O agente eficiente foi o nível de desemprego de quase 10% por tempo longo e que parece não ter fim. O agente eficiente foi a proteção ao sistema financeiro a cujos responsáveis o governo protegeu de forma abusiva e entregou a execução das hipotecas, à custa de 25 milhões que perderam a âncora social do emprego organizado.

"Ocupar Wall Street" é menos um protesto contra a economia de mercado e seus problemas, do que o profundo sentimento de injustiça social derivado da incapacidade do governo e do Banco Central, que permitiram, sob seus olhos complacentes, a destruição do emprego e do patrimônio de incautos cidadãos, assaltados livremente por um sistema financeiro desinibido com suas "inovações".

O efeito final desse movimento será medido nas eleições de novembro de 2012. A resposta imediata de Washington deve ser pequena a não ser, talvez, acender o espírito de urgência do Executivo e estimular a resistência dos republicanos para continuar a expô-lo como "responsável" pela crise. Mas o desconforto é enorme. O presidente Obama referiu-se a ele ligeira e quase temerosamente. O secretário do Tesouro Geithner empurrou a culpa para o sistema financeiro, que "aumentou as tarifas bancárias em resposta aos novos controles de Wall Street e aumentou a já existente irritação popular contra ele". E o presidente do Fed, Bernanke, com aquela figura de Papai Noel arrependido, limitou-se a afirmar que "as pessoas estão descontentes com o estado da economia. Elas reprovam - e não sem razão - o setor financeiro pela situação em que nos encontramos e estão descontentes com a resposta das autoridades". Que autoridades? Obama, Geithner e Bernanke!

Quando se trata de entender o verdadeiro papel do trabalho, os economistas do "mainstream" saem mal na foto: tratam-no como um "fator de produção", sujeito às leis da oferta e da procura. Por definição não há desemprego "involuntário". Como disse um economista que viria a ser nobelista, o desemprego em massa é apenas manifestação de "vagabundagem da classe trabalhadora".

Na mais recente versão do "The Palgrave Dictionary on Economics" (2008), não há uma entrada para "trabalho". Ela é dissolvida e desidratada em "disciplina do trabalho" e "economia do trabalho", com ênfase no "capital humano". Trata-se do mesmo artigo da 1ª edição (1987), ao qual se acrescentou o apêndice "As Novas Perspectivas da Economia do Trabalho". Tudo muito pobre, técnico, abstrato e sem história, como se a economia de mercado - codinome do atual capitalismo - estivesse escrito no Big-Bang e destinada a nos acompanhar até o fim dos tempos...

VLADIMIR SAFATLE - Inflação de prestígio


Inflação de prestígio
VLADIMIR SAFATLE
FOLHA DE SP - 18/10/11

"Enquanto eu cobrava R$ 100 por sessão, tinha poucos pacientes. Quando comecei a cobrar R$ 200, por incrível que pareça, os pacientes afloraram." Esta afirmação de um amigo psicanalista talvez valha um capítulo na teoria geral da formação de preços, ao menos no Brasil.

A mudança no preço de sua sessão não foi o resultado de alguma nova conformação das dinâmicas de oferta e de procura. Ela foi, na verdade, a descoberta de que, em países com alta concentração de renda, certas pessoas estão dispostas a pagar mais simplesmente devido à crença de que as coisas caras foram feitas para ela.

Por mais que economistas gostem de dizer o contrário, a ação econômica é baseada em sistemas de crenças e expectativas cuja racionalidade é fundada em fortes disposições psicológicas "irracionais"-pois estão ligadas a fantasias.

Atualmente, alguns dos aluguéis mais caros do mundo podem ser encontrados em cidades improváveis como, São Paulo, Moscou e Luanda (capital angolana).

A razão é que tais sociedades emergentes crescem com alta desigualdade de renda, o que faz com que uma parcela mínima da população, com poder aquisitivo exorbitante, puxe para cima a cadeia de preços. Para o resto da população, melhor seria que essa parcela simplesmente não existisse.

Qualquer pessoa que frequenta restaurantes nessas cidades percebe que a disparada de preços pouco tem a ver com a flutuação do valor dos alimentos. Nossos agricultores continuam recebendo, em larga medida, valores irrisórios. Tal disparada vem da existência de pessoas que não sentem diferença entre pagar R$ 30 ou R$ 70 por um prato. Mobilizando a crença de que as coisas caras são exclusivas, elas geram, assim, um forte problema econômico.

Há de perguntar-se por que, sendo a inflação uma questão tão premente na vida nacional, nunca encontramos reflexões sobre a relação, aparentemente tão evidente, entre pressão inflacionária e desigualdade social.

Ao contrário, vê-se apenas pessoas dispostas a falar contra os "gastos públicos", isto em um país onde, vejam só vocês, escolas e saúde pública são subfinanciadas e grandes investimentos públicos em infraestrutura são urgentes.

Talvez um dia descobriremos que a economia brasileira só estará mais bem defendida contra a inflação quando a desigualdade e o consumo conspícuos que ela gera forem realmente combatidos.

O que é melhor do que reduzir os mecanismos de controle da pressão inflacionária à definição de taxas de juros, pois a disparidade de renda, além de gerar fratura social e conflito de classe, é fator de instabilidade econômica.

GOSTOSA


JANIO DE FREITAS - Jogo que segue


 Jogo que segue
JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 18/10/11

Dilma vive uma experiência talvez única -ainda no 1º ano de mandato, faz uma reforma ministerial forçada

ANTONIO PALOCCI, Nelson Jobim, Alfredo Nascimento, Orlando Silva -todos indicações de Lula para o ministério de Dilma Rousseff. Uma seleção, cada qual com seu estilo, como é próprio das seleções e, no caso, também do que o selecionador já mostrara preferir para a principal equipe do país.

Dilma Rousseff vive uma experiência talvez única por aqui. Ainda no decorrer do primeiro ano de mandato, faz uma reforma ministerial forçada e não por injunções políticas, razão comum a tais reformas, nem de eficiência governamental.

Orlando Silva (ainda) não está incluído na reforma. Está previsto que logo mais dê explicações à Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara. Sobre as acusações que lhe faz um PM metido em transações com o Ministério do Esporte, já se sabe o que dirá: o óbvio.

Nenhum ministro é culpado. O que ocorre com certa frequência, é ser um deles vítima de calúnia, injúria, difamação. Um deles, bem entendido, atrás do outro. E seguido por outro. Há muita gente de más intenções, mesmo.

Já que Orlando Silva é o nome da vez, vale a pena fazê-lo prestar o serviço, se não for demais, de proporcionar uma ocasião propícia.

Por exemplo, para lembrar que até hoje não se sabe o que é feito na área de esporte, pelo governo, a ponto de justificar um ministério.

Se vêm por aí uma Copa do Mundo e uma Olimpíada, não haveria melhor justificativa, a encontrar uma afinal, para ver-se o Ministério do Esporte em atividade.

Não. Cada um dos eventos foi entregue à cartolagem de incontáveis comitês, "Autoridade Olímpica", CBF, comissões, confederações e federações, governadores e prefeitos, dirigentes de clubes e respectivos estádios. E, em qualquer instância e circunstância, diretores de empreiteiras.

O esporte em geral tornou-se um mundo de grandes negócios. Movimenta transações incontáveis com valores petrolíferos, em um espaço subterrâneo, sem fiscalização, de bandidagem livre, falcatruas e extorsões e golpes à vontade.

É só querer. Tudo, absolutamente tudo, consentido pelo Ministério do Esporte, ou protegido, ou com sua participação, a depender do que se trate.

Não há surpresa alguma em que se criem ONGs para assaltar o Tesouro Nacional a pretexto do esporte, conforme o noticiário provocado por Orlando Silva, e que o próprio ministério seja um ponto de cruzamento das diferentes modalidades de corrupção.

No centro desse mundo encoberto, o Ministério do Esporte e seu ministro não providenciaram nenhuma medida de governo e não propuseram ao Congresso nenhuma lei de moralização, de impedimento de feudos, investigação de enriquecimentos injustificados, sonegações como alegados patrocínios a atletas e competições, prevenção de negócios com seleções nacionais, e muito mais ainda.

Você pergunta sobre o jornalismo esportivo nisso tudo? Como dizem nele, segue o jogo.

XICO GRAZIANO - Elogio ao óbvio


Elogio ao óbvio
XICO GRAZIANO
O Estado de S.Paulo - 18/10/11

Tenho lido, intrigado, algumas notícias insólitas abordando assuntos do campo. Aqui mesmo, no Estadão, deparei-me dias atrás com a seguinte manchete: Cidades geram apenas 2,5% do lixo do planeta. Vai sobrar para a agricultura, pensei.

Não deu outra. Segundo a matéria, a pecuária lidera a geração de resíduos sólidos no mundo, com 39% do volume total. Somando-se ao ramo vegetal, 58% do lixo do planeta estaria sendo gerado na zona rural. Será mesmo? Da atividade mineradora viriam outros 38% dos resíduos, compostos estes por pedras e escórias, naturalmente. Conclusão: cabe às cidades mínima parcela do lixo mundial. Dá para acreditar nisso?

Impossível. Obviamente algum equívoco permeia a notícia. E é fácil perceber. O estudo citado na matéria considerou "lixo" o esterco dos animais, colocando os excrementos que fertilizam o pasto na mesma caçamba da imundície coletada nas ruas. Francamente falando, equiparar a sujeira urbana com os dejetos animais configura crasso engano. Um lixo de informação.

É óbvio ululante que o drama dos resíduos sólidos pertence à moderna civilização industrializada, assentada no consumismo desenfreado estimulado pelo marketing. Montanhas de lixo se acumulam, ou se enterram e se queimam alhures, constituídas por recipientes e produtos variados, plásticos e latas, restos do desperdício alimentar e social. Um drama urbano.

Os detritos empesteiam, claro, algumas áreas rurais. Mas, para surpresa de muitos, o Brasil é campeão mundial na reciclagem das embalagens de produtos agrotóxicos. A ação de logística reversa, coordenada pelo Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV), envolve 84 empresas fabricantes, aliando cooperativas, revendedores e produtores rurais capazes de retirar 95% das invólucros venenosos distribuídos na roça. Atitude exemplar.

É bem verdade que nos modernos confinamentos de gado o acúmulo de animais em pequena área provoca impactos ambientais semelhantes aos dejetos domésticos do esgoto. Disposição correta e tratamento se exigem para evitar a poluição de mananciais. Definitivamente, porém, esterco animal e restos orgânicos das colheitas não pertencem à mesma balança do lixo citadino.

Dizia-se antigamente que a "mentira tem perna curta". Hoje em dia, com a facilidade da comunicação via internet, certas balelas espicham suas pernas, espraiando-se incontrolavelmente nos circuitos das redes sociais. Uma informação deformada, se curiosa, acaba sendo um perigo.

Peguem novo exemplo. Os vegetarianos sempre combateram o consumo de carne, associando-o, por motivos religiosos ou humanitários, à desumanidade da caça ou do abate dos animais. Mais recentemente, porém, seus radicais descobriram uma maneira inteligente de depreciar a carne, a bovina especialmente, associando-a ao aquecimento global. Comer carne virou, para eles, problema ecológico.

Acontece que os animais ruminantes liberam gases no processo da fermentação em seu estômago. Com poder de efeito estufa maior que o dióxido de carbono (CO2), o metano advindo da eructação bovina preocupa há tempos a zootecnia. Alteração nas dietas animais, entre pasto e rações, bem como aditivos configuram técnicas pesquisadas para interferir na digestão entérica, reduzindo o arroto dos bichos.

Por outro lado, cientistas do clima crescentemente desconfiam que o efeito estufa causado pelo metano seja bem menor do que se convencionou em laboratórios. Acontece que na realidade da atmosfera os raios infravermelhos provocam um fenômeno de "radiação de corpo negro", que reduz o potencial de aquecimento do metano, caindo de 23 para 4 a 5 vezes o equivalente em CO2. A queda é enorme.

Os agrônomos teimam em não aceitar que as emissões de carbono liberadas no processo orgânico sejam comparadas às oriundas do petróleo. Esta via é fóssil e a outra, renovável. Mais ainda, a ruminação faz parte do ciclo da vida planetária: a pastagem que alimenta o gado cresce realizando a fotossíntese, absorvendo gás carbônico, liberado posteriormente em forma de metano.

Quando se considera esse fluxo de carbono, a conta ambiental da pecuária quase zera. Por essa razão a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) reviu suas posições e lançou um programa - Mitigation of Climate Change in Agriculture (Micca) - defendendo novo enfoque no estudo das alterações climáticas na agricultura. A Embrapa segue esse caminho.

O assunto, como se percebe, é complexo. Nada disso, porém, interessa aos ativistas vegetarianos, como Pankaj Goswami, que publicou no site GreenDiary (2006) um cálculo simplista comparando a emissão de carbono oriunda dos rebanhos bovinos com a advinda dos veículos automotores. E concluiu algo como "as vacas do mundo poluem mais que os automóveis". Uma afronta ao óbvio.

O risco da falácia espalha-se na internet. Mecanismos de busca, juntamente com o famigerado copia-e-cola, permitem que as pessoas se manifestem sobre o que pouco entendem. Leigas, misturam argumentos, trocam o raciocínio, confundem laranja com banana, escrevem bobagens sem a menor noção. Repetem argumentos que, em muitos casos, são meros slogans, para não dizer boas asneiras. Gente séria entra na roubada.

Não tem lógica, em nome da ecologia, amaldiçoar a boiada e oferecer salvo-conduto aos automóveis. Também não faz sentido afirmar que no campo se gera mais lixo que na cidade, ou inventar que se gasta mais água para produzir um bife do que para fabricar um carro. Tais comparações são insensatas.

Na roça, quando o caboclo escuta uma coisa inusitada, ele fica sestroso, desconfiado. Seu primeiro impulso, algo sábio, é raciocinar com a simplicidade do óbvio, um bom conselheiro da verdade.

CARLOS HEITOR CONY - Corpo e alma


 Corpo e alma
CARLOS HEITOR CONY
FOLHA DE SP - 18/10/11

RIO DE JANEIRO - Quase dez meses de novo governo e a impressão que nos dá é a de um corpo gigantesco (o Estado em si), mas sem alma. Não chega a ser culpa exclusiva de dona Dilma, que faz o que pode, repetindo nos muitos pronunciamentos de agora os mesmos temas de sua campanha eleitoral.

Prisioneira do esquema político que a elegeu e a sustenta, ela continua a ser uma promessa, uma possibilidade de boa governante, invocando todos os dias as conquistas dos últimos governos e garantindo que fará mais e melhor.

Só para dar um exemplo: está gastando muito mais em programas sociais do que em investimentos. Neste particular, segue, a seu modo, o exemplo do seu antecessor, que criou programas assistenciais que lhe deram popularidade. Praticamente, nada fez para criar a infraestrutura de um Estado moderno.

Todos sabemos que para os eventos previstos, Copa do Mundo e Olimpíada, o Brasil terá de se construir quase a partir do zero. Precisa urgentemente de portos, aeroportos, estradas, segurança, comunicações e, sobretudo, mão de obra. Basta dizer que nas plataformas da Petrobras, a maior empresa nacional, grande parte da mão de obra é importada, falta-nos o elementar, que é o ensino técnico e funcional.

Bem, há a corrupção generalizada que parece ter atingido mais um ministro. Com o monstruoso corpo administrativo sob seu comando, dona Dilma deveria ser a alma que botaria os burros para frente. A maior parte de seu tempo é consumida em manter e contentar a base de sustentação que impõe seus principais auxiliares, alguns dos quais ela nem deve saber o nome.

Pedir a demissão em massa do ministério para tentar novo começo, sem os compromissos herdados da campanha, seria um exagero, além de uma inutilidade. Tudo falta num corpo sem alma.

SERGIO BARROSO - Abertura da Copa sem aventuras


Abertura da Copa sem aventuras
SERGIO BARROSO
FOLHA DE SP - 18/10/11

Por critérios técnicos e pela meritocracia, o Mineirão, sem correr riscos, está à frente dos outros estádios que disputam a abertura da Copa no Brasil


O dia em que a Fifa definirá o local da abertura da Copa de 2014 se aproxima. O Mineirão é um dos quatro concorrentes ao jogo inaugural.

Por critérios técnicos e pela meritocracia, estamos à frente, sem improvisação, sem aventuras e sem arrogância. As obras do estádio estão dentro do cronograma e serão concluídas em dezembro de 2012, 18 meses antes de a bola rolar.

O Mineirão estará pronto e receberá partidas da Copa das Confederações, em 2013. Portanto, tempo e oportunidades de sobra para os testes. Além disso, Belo Horizonte teve todos os seus oito projetos de mobilidade urbana aprovados pelo Ministério das Cidades, sendo que cinco dessas obras já começaram.

Vale destacar também a intensa preparação no setor hoteleiro da região metropolitana de Belo Horizonte e adjacências. Estão em construção 28 hotéis, e outros 17 empreendimentos se encontram na reta final do processo de licenciamento. Com isso, serão 51 mil leitos na Grande Belo Horizonte.

Do ponto de vista institucional, a reforma do Mineirão se dá em sintonia com a Fifa, com o Tribunal de Contas da União e com o Ministério Público -o que é fundamental para uma parceria público-privada, como no Mineirão, em que o consórcio Minas Arena conduz a obra, poupando o Estado de vultosos desembolsos.

A prefeitura da cidade prepara a concessão de 900 licenças de táxi; a sociedade civil capacita profissionais que atenderão os turistas-torcedores; micro e pequenas empresas se articulam em torno das 900 oportunidades de negócios detectadas por estudo do Sebrae-FGV -o maior número entre as sedes.

Minas Gerais trabalha pelo legado. Em setembro, Minas foi colocada na vitrine da Copa. O Estado sediou a cerimônia oficial da Fifa dos mil dias para o início da competição e a inauguração do cronômetro regressivo em Belo Horizonte.

Para marcar essa data tão simbólica, a presidente Dilma Rousseff e o eterno Pelé, embaixador honorário do Brasil para a Copa do Mundo, escolheram o Mineirão para a primeira visita a um dos estádios em obra para a Copa.

Eis o balanço da presidente na ocasião: "Eu estive no Mineirão, e lá eu vi a imensa e extraordinária obra feita pelo governo do Estado e pela prefeitura, no sentido de viabilizar, com a parceria de empresários privados, um estádio em um prazo excepcional, que vai atender não só a Copa do Mundo, mas a Copa das Confederações".

O ministro dos Esportes, Orlando Silva, fez coro e disse que Belo Horizonte devia inspirar as demais sedes. Com planejamento, responsabilidade, respeito ao interesse público e excelência na gestão, o Mineirão vem se consolidando como um bom exemplo.

Por isso, acredito sinceramente que o Brasil está maduro o suficiente para fugir dos riscos com projetos que ainda não demonstraram a necessária responsabilidade e o devido comprometimento.

É hora de dizer não às aventuras!



SERGIO BARROSO é secretário de Estado Extraordinário da Copa do Mundo do Governo de Minas.

O CHEFE E A "CHEFA" DA CORRUPÇÃO


EDITORIAL O GLOBO - País perde com guinada protecionista


País perde com guinada protecionista
 EDITORIAL 
O GLOBO - 18/10/11

O Brasil foi, e ainda é, vítima de movimentos protecionistas, especialmente em relação a produtos agropecuários nos quais tem indiscutível competitividade. Suco de laranja, carnes, etanol e outras mercadorias pagam sobretaxas ao entrar em alguns mercados, ou simplesmente são impedidos por barreiras fitossanitárias, usadas às vezes como mero pretexto para impedir importações oriundas do Brasil. Seja por atendimento a exigências, negociações bilaterais ou recursos à Organização Mundial do Comércio (OMC), o país tem se defendido para viabilizar essas exportações, obtendo êxito em muitos casos.

Embora vítima de protecionismo, e após ter colhido bons resultados com uma política de abertura gradual da sua economia, o Brasil parece agora ter entrado em uma trajetória de retrocesso, buscando fechar mercados para produtos de origem asiática, especialmente.

O país não deve adotar uma postura ingênua no comércio internacional, pois não se pode ignorar a concorrência desleal e os abusos de poder econômico que visam a destruir exatamente a competição, força motriz do desenvolvimento. Mas, especificamente no caso do mercado automobilístico, o governo brasileiro partiu para um aumento de taxação (30 pontos de IPI) sem que tenha se comprovado um quadro de concorrência desleal.

As fábricas aqui instaladas já alcançaram uma escala de produção que lhes permite desafiar a concorrência. Criaram vínculos com o consumidor brasileiro difíceis de serem rompidos facilmente por estreantes ainda desconhecidos no país.

No entanto, o governo reagiu como se o setor estivesse completamente vulnerável, sem condições de enfrentar a concorrência externa. É justificável que as empresas com programas de investimento no Brasil, empenhadas em fortalecer uma cadeia de fornecedores que absorva tecnologia e se engaje em processos de inovação, sejam mais bem tratadas por políticas públicas internas.

Porém, existe uma grande distância entre políticas que incentivam o investimento e as que levam ao protecionismo. O estímulo ao investimento não é objeto de sanções na OMC; já no segundo caso, o Brasil estará exposto a retaliações comerciais no plano internacional, ao mesmo tempo que cerceará o direito de escolha dos consumidores domésticos. Reclamações formais já começaram a chegar à organização do comércio.

O benefício da união aduaneira (percentual mínimo de conteúdo nacional para os veículos se beneficiarem da isenção de impostos de importação) é uma regra conhecida do Mercosul que foi reapresentada como uma novidade. Já estavam em andamento negociações para a ampliação de indústrias e instalação de novas fábricas no país antes do anúncio da sobretaxação de automóveis importados. Não é o protecionismo que as traz ao Brasil.

O que de fato ganharemos com essa guinada protecionista que compense o desgaste de imagem, a redução da competição e o risco de retaliações comerciais se a OMC considerar abusivas as recentes iniciativas do governo brasileiro na área automotiva?

VICENTE ANDREU - Energia e meio ambiente


Energia e meio ambiente
VICENTE ANDREU
O ESTADÃO - 18/10/11

Dois temas vêm ganhando atenção na atual agenda de desenvolvimento do País: o vencimento das concessões de importante parcela do setor elétrico e um novo Código Florestal brasileiro. Assuntos aparentemente sem relação entre si.

Recentemente, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) lançou a campanha Energia a Preço Justo, baseada em estudo em que afirma que o vencimento de concessões do setor elétrico põe em disputa o destino de cerca de R$ 900 bilhões ao longo de 30 anos. Iniciativa que merece apoio por buscar dar transparência a tema de enorme relevância. Defende a Fiesp a tese de que os recursos provenientes do vencimento de concessões, que, em números redondos, correspondem a 20% da geração hidrelétrica, 80% da transmissão e 40% da distribuição, devem ser destinados apenas à redução da tarifa paga pelo consumidor, a chamada modicidade tarifária, o que é desejável, sem dúvida.

A partir do estudo da Fiesp, constatamos que a redução de até 75% nas tarifas dos empreendimentos de geração que terão suas concessões vincendas em 2015, que representam cerca de 20% da produção atual de energia, provoca uma redução instantânea de, no máximo, 15% nas tarifas médias de geração. É um índice expressivo, porém ainda é preciso que o agente regulador ponha à disposição informações seguras a respeito do impacto real da amortização da geração sobre as tarifas finais dos usuários de energia elétrica. Deverão ser definidos, também, quais mecanismos poderão assegurar a perenidade dos benefícios da redução tarifária, pois podem ser comprometidos em poucos anos pela cadeia de geração, transmissão e distribuição, diminuindo os benefícios esperados nas tarifas efetivamente pagas.

É bom registrar que o custo de geração hidrelétrica no Brasil, de cerca de US$ 50 por MW/h, não é muito diferente do observado em outros países. As tarifas de energia acabam elevadas para os usuários finais em razão da cadeia de encargos, impostos e margens de lucro na transmissão, comercialização e distribuição. Portanto, é necessário conhecer com precisão o tamanho real do bolo sobre o qual se discute, principalmente porque será necessário fazer a contabilidade de usina por usina no cálculo da reversão, o que, sem dúvida, é complexo. Não há, porém, nenhuma justificativa clara sobre por que essas informações já não estão disponíveis.

Já com relação ao Código Florestal, recentemente o Fórum de Meio Ambiente do Setor Elétrico estimou em R$ 30 bilhões o passivo ambiental potencial que a reforma desse código poderia provocar para as geradoras hidrelétricas. Dado que chama a atenção, pois é semelhante às conclusões do diretor de Energia do Departamento de Infraestrutura da Fiesp, Decio Michellis Jr., publicadas na revista da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica de julho passado. Ele estima esse mesmo passivo em cerca de R$ 25 bilhões, dos quais R$ 13 bilhões se referem à aquisição e consolidação das áreas de preservação permanente (APPs). Para APPs de apenas 30 metros o diretor da Fiesp afirma que o passivo ambiental seria da ordem de R$ 6 bilhões, com custo adicional anual de cerca de R$ 150 milhões para financiar ações de conservação e fiscalização adequada nas áreas de preservação permanente de 130 reservatórios destinados à geração hidrelétrica.

Importante ressaltar que as obrigações relativas às desapropriações e aquisições de áreas para APPs foram introduzidas no atual Código Florestal pela Medida Provisória n.º 2.166-67, de 2001. Com as alterações incluídas na versão em discussão da proposta do novo código, essa obrigatoriedade para as concessionárias de energia passa a incidir também sobre os reservatórios de hidrelétricas construídas antes de 2001. Registramos, apenas como informação adicional, que o vencimento da licença de operação e da outorga de uso de recursos hídricos desses empreendimentos será simultâneo ao vencimento das concessões.

O País tem, pois, a extraordinária oportunidade debater a destinação de cerca de R$ 30 bilhões/ano, resultado da amortização de diversos empreendimentos hidrelétricos, e, no mesmo momento, avaliar o passivo ambiental decorrente desses mesmos empreendimentos.

Consideramos que os maiores benefícios para a sociedade - além de ser claramente a atitude mais justa e ética - serão obtidos incluindo a solução do passivo ambiental na solução que será dada às usinas amortizadas. O vencimento das concessões abre um conjunto de justas oportunidades que vai além da modicidade tarifária, mesmo sendo esta uma meta prioritária. Os argumentos em prol da modicidade tarifária não perdem legitimidade quando associados à solução dos passivos ambientais e de outros, de natureza social, que os ativos hidrelétricos acumularam no correr dos anos.

Como os impactos ambientais - e, portanto, seus passivos - são distintos na geração, na transmissão e na distribuição de energia elétrica, uma alternativa que parece razoável é direcionar as reduções nas tarifas de transmissão e distribuição para a modicidade tarifária e destinar parte da amortização da geração ao pagamento dos passivos ambientais identificados.

Ao mesmo tempo, em razão do volume e da regularidade dos recursos envolvidos, abrem-se oportunidades também para a universalização do acesso à energia elétrica, para formulação de políticas industriais que atendam ao setor produtivo e até mesmo para a constituição de um audacioso fundo destinado ao pagamento por serviços ambientais que possa estabelecer uma ponte virtuosa entre a justa renda derivada da propriedade e a necessária preservação ambiental, uma das principais polêmicas no debate sobre o novo Código Florestal.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Empresários debatem modo de desonerar encargo trabalhista de recém-formado
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 18/10/11

A Amcham (Câmara de Comércio Americana) terá hoje um encontro com empresários em São Paulo para reunir dados e propostas sobre carência de mão de obra, que serão levados ao governo.
A entidade apoia um projeto de lei em tramitação no Congresso para desonerar a contratação de jovens sem experiência. Pela proposta, o emprego de recém-formados teria encargos reduzidos por um período de 12 meses.
"O jovem ganha experiência. E facilita a obtenção do primeiro emprego", diz Rico.
O evento, onde estarão presentes membros do governo do Estado e de entidades como Centro Paula Souza, Senai e universidades, faz parte de projeto que coletou a impressão do empresariado em Belo Horizonte, Curitiba, Recife e outros. A próxima fase é levar a Brasília.
"A questão não atinge só grandes empresas. Chegou às pequenas e médias. Temos uma má distribuição geográfica da qualificação. O crescimento avançou para além do eixo Rio-SP", diz Gabriel Rico, presidente da Amcham.
A entidade aponta que as companhias tentam compensar a baixa qualificação.
Em 64% das empresas, mais de 5% do tempo de trabalho dos funcionários é dedicado treinamento, segundo Rico. "Em vez de as pessoas trabalharem em tempo integral em suas funções, elas têm que fazer treinamento."
Entre as propostas estão modelos alternativos à CLT e incentivos fiscais a quem investe em capacitação.

PERFUME ORGÂNICO

A marca francesa Biossentiel, de óleos essenciais orgânicos usados em aromaterapia, inicia operação no Brasil com a abertura de um ponto de venda em São Paulo e distribuição, a partir daqui, para Uruguai, Argentina, Bolívia e Colômbia.
"O produto vem a granel da França e montamos a estrutura em Porto Alegre. Do Brasil, serão usadas embalagens recicladas ou de fibra de bananeira feitas por comunidades locais", diz o químico Junior Diego Becker, 28, diretor-presidente da Biossentiel na América do Sul.
Há perspectiva de exportar as embalagens produzidas aqui. "China e Japão já estão interessados." A marca, que tem produtos como óleos, chás e sprays de ambiente, desenvolvidos pela perfumista Nelly Grosjean, é vendida no Marrocos, no Panamá, em países da Europa e outros.
O próximo passo é lançar uma linha de cosméticos, também orgânicos.

INAUGURAÇÃO BRITÂNICA

Apesar de estar aberto há três meses, o The British College of Brazil, quarto colégio britânico de São Paulo, será inaugurado oficialmente apenas nesta semana.
A escola é a única que faz parte do British Schools Group, ONG que tem outras oito unidades no mundo -na China, na Espanha, na Malásia, no Uzbequistão e na Rússia.
No Brasil, a escola tem turmas para alunos de dois a oito anos. Há, porém, a intenção de criar um ensino médio.
Hoje, dos 80 estudantes matriculados, cerca de 30% são brasileiros. "A maioria dos pais que nos procuram querem que seus filhos tenham chance de estudar em universidades estrangeiras", diz o diretor Stuart Young.
Todos os professores são britânicos e a mensalidade varia de R$ 2.400 a R$ 3.300.

Crise... Larry Summers, ex-assessor econômico de Barack Obama, abre o 6º Encontro Nacional da Indústria, no próximo dia 26, em SP, com palestra sobre a crise internacional.

...e gargalos No evento, organizado pela CNI e que reunirá cerca de 1.500 empresários, serão debatidos os gargalos à competitividade das empresas brasileiras e as mudanças na legislação tributária.

Treinamento A Thomas Brasil, empresa de origem inglesa especializada em gestão de pessoas, abriu divisão no Brasil para capacitar funcionários de seus 400 clientes.

Olhar... Cresceu o número de pedidos de companhias estrangeiras para a realização de estudos de mercado e concorrência para mapear a entrada no Brasil.

...estrangeiro A informação é da empresa de análise de mercado Lafis, que, em 2011, concentra 25% de seus projetos para essa finalidade.

Planejamento Quase metade das empresas (48%) tem políticas de sustentabilidade com metas e ações planejadas, segundo estudo do Ibope Ambiental, feito com 400 empresas. Outras 45% realizam ações pontuais.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

ELIANE CANTANHÊDE - Em nome das criancinhas


Em nome das criancinhas
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 18/10/11

BRASÍLIA - Por enquanto, é a palavra de um contra a do outro, mas essa história embola o meio de campo no Ministério do Esporte e ainda tem um terceiro tempo, com a Copa e a Olimpíada bem aí.

O policial militar João Dias Ferreira, que foi preso e tem um patrimônio invejável, confirma à revista "Veja" o que a Polícia Federal, o Ministério Público e a Controladoria-Geral da União vêm apurando há anos: o programa Segundo Tempo, criado para estimular criancinhas carentes a praticar esportes, estava engordando os bolsos dos crescidinhos do ministério com a inestimável ajuda de um punhado de ONGs amigas. A novidade é que o policial joga o ministro Orlando Silva e seu PC do B no gramado -ou na fogueira.

De outro lado, Orlando Silva se diz injustiçado e nega que tenha recebido caixas de papelão com notas de R$ 50 e de R$ 100 na garagem do ministério.

Pelo sim, pelo não, a escaldada Dilma ligou para Orlando Silva em Guadalajara, no México, e ele voltou correndo do Pan e tenta se explicar para o Planalto, o Congresso, a imprensa e os distintos contribuintes. Se é que ele tem explicações. Como nas vezes anteriores, o ministro passa a ser senhor do seu destino.

O governo parece caminhar para a sua sexta baixa já no primeiro ano, cinco delas por suspeitas de corrupção. No caso do Esporte, com uma peculiaridade: ele atrai constrangedoramente os holofotes -e as desconfianças- do mundo sobre a capacidade do Brasil para sediar, um atrás do outro, dois dos mais importantes, senão os mais importantes, eventos esportivos internacionais.

Não bastassem os escândalos, a queda do ministro e a prisão de dezenas de altos funcionários do Turismo, agora mais essa no Esporte. Fica difícil convencer que o Brasil é um país sério. A não ser que Orlando Silva convença que ele próprio é sério e o correligionário da PM, lunático.

EDITORIAL FOLHA DE SP - Mais um


Mais um
EDITORIAL 
FOLHA DE SP - 18/10/11

Escândalo no Ministério do Esporte revela, de novo, o descontrole de convênios com ONGs, que precisam diminuir e receber fiscalização de fato

Não vêm de ontem as suspeitas de desvio de dinheiro do programa Segundo Tempo, do Ministério do Esporte, voltado a incentivar alunos a praticar atividades esportivas fora do horário de aula.

Em 2008 surgiram acusações de que ONGs ligadas ao PC do B recebiam recursos mediante convênios com o ministério, comandado pelo partido desde 2003. O Tribunal de Contas da União havia detectado, em 2009, a falta de "capacidade operacional" do ministério para fiscalizar as parcerias com organizações não governamentais.

A nova acusação, feita à revista "Veja" por duas pessoas que circularam no universo dos convênios da pasta e das ONGs ligadas ao PC do B, implica diretamente o ministro. Elas acusam Orlando Silva de ter recebido dinheiro na garagem do ministério. O ministro nega, dizendo-se vítima de uma farsa.

Os argumentos de Orlando Silva serão postos à prova nos próximos dias. Mas a vulnerabilidade política do ministro, à frente de uma pasta carregada de convênios suspeitos, é evidente.

O fato é que os contratos do poder público com ONGs fugiram ao controle. Difíceis de fiscalizar, essas parcerias favorecem a canalização de recursos para o financiamento ilegal de partidos. Tal associação parasitária já havia derrubado o ministro do Turismo, Pedro Novais, depois que operação da Polícia Federal prendeu mais de 30.

Em viagem à África do Sul, a presidente Dilma Rousseff reconheceu certa "fragilidade" nos convênios. O secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, afirmou, ainda em agosto, que era preciso "manter a fiscalização para evitar a picaretagem que infelizmente também grassa e cresce nessa área".

Decreto da presidente, de um mês atrás, procurou endurecer algumas regras para selar parcerias com ONGs. Se não é o caso de acabar de vez com esse tipo de convênio, pois há entidades filantrópicas sérias que prestam serviço relevante e desinteressado, uma medida salutar seria sua redução drástica.

O princípio geral deveria ser o de afastar pessoas e entidades com vinculações ou interesses político-partidários desses convênios. O dinheiro, que hoje alimenta grupos paraestatais, precisa ser transferido apenas a organizações de fato não governamentais.

A esta altura, a eclosão de um novo escândalo ministerial -numa série que já derrubou quatro em menos de um ano- pode parecer um filme velho.

Mas este caso em especial vem lembrar que, se o Brasil faz jus a ser sede da Copa e da Olimpíada, não merece nem os cartolas nem as autoridades que, sob tal pretexto, estão tomando decisões bilionárias com o dinheiro do cidadão.

CLAUDIO HUMBERTO

“Um bandido fala e eu tenho que provar que não fiz, meu Deus?”
MINISTRO ORLANDO SILVA (ESPORTE), UM MATERIALISTA JURAMENTADO, APELANDO AOS CÉUS

BOLÍVIA PAGA COM DROGA CARROS FURTADOS NO BRASIL 
A Polícia Federal descobriu que há uma “tabela” praticada na Bolívia por carros furtados no Brasil, o que revela, inclusive, a conexão entre furto de veículos e o tráfico internacional de drogas. Um carro popular roubado dos brasileiros é trocado no país do cocaleiro Evo Morales por 1 kg de cocaína. Camionete do tipo Toyota Hilux, cabine dupla, vale até 5 kg. 
Um caminhão Mercedes-Benz é trocado por 18 kg de cocaína.

FRONTEIRA BANDIDA 
Um quilo de cocaína comprado facilmente na Bolívia por 2 mil dólares é vendido no outro lado da fronteira, em Cáceres (MT), por 6 mil dólares.

ROTA DO CRIME 
A tabela do escambo boliviano por veículos furtados será revelada na quinta, em audiência na Comissão de Relações Exteriores do Senado. 

BOTA FORA 
No Mato Grosso, políticos como o deputado estadual Emanuel Pinheiro (PR) pedem o fechamento do consulado da Bolívia em Cuiabá. 

SEM CONTROLE 
Brasileiros que vivem na fronteira com a Bolívia denunciam que o vaivém é livre e sem controle, inclusive de carros furtados e criminosos.

DILMA CRIA COMITÊ PARA MONITORAR ORLANDO SILVA 
A presidente Dilma ordenou à Casa Civil a criação de um comitê de monitoramento para o caso do ministro Orlando Silva (Esporte). Os ministros Gleisi Hoffmann, Ideli Salvatti (Relações Institucionais), Gilberto Carvalho (secretário-geral) e Luís Adams (Advogado-Geral da União) vão orientar a defesa de Orlando Silva. Mas deixaram o recado: tudo depende do seu desempenho. E se aparecer fato novo, cai fora.

PASSOU NO TESTE 
Foi positiva a avaliação que o Planalto fez da coletiva de Orlando Silva, desafiando o acusador ao chamá-lo de “bandido”, e foi “convincente”.

PRIMEIRO TEMPO 
Ao chegar do México, Orlando Silva foi à casa da ministra Gleisi Hoffmann. Jurou inocência e, juntos, fizeram um balanço do noticiário.

SEM NOÇÃO 
Só comunistas de boteco chamariam de “Pra frente, Brasil” uma ONG enrolada em denúncias no Esporte. Era slogan da ditadura militar.

TORCIDA MALUCA 
#SouOrlandoBrasil quase alçou o topo dos comentários no Twitter domingo (16). 
“Sigo com a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”, afirmou o ministro Orlando Silva, agradecendo o “apoio”. 

SEM SINAL 
O ex-ministro Franklin “Goebbels” Martins ganhou a parada: o embaixador Ronaldo Sardemberg, presidente da Anatel, perde o cargo nos próximos dias. Talvez o próprio Martins ocupe a vaga. 

FÉRIAS REMUNERADAS 
Enquanto o pobre paga a conta com juros, os bancários não terão os dias de greve descontados. Até 15 de dezembro, farão compensação voluntária de horas e todos serão perdoados após a data.

BBB DO GÊRA 
Correm o mundo fotos e vídeo do vereador Gêra Ornelas (PSB), de Belo Horizonte, flagrado de cueca no gabinete, em câmera instalada por ele mesmo. Um funcionário demitido levou a fita ao MP estadual.

DIRETO DA REDE 
Nova Marcha contra a corrupção marcada para dia 15 de novembro na Av. Paulista. Os organizadores pregam desde o fim de motoristas para autoridades à redução de vagas de deputados e vereadores.

CONFUSO HORÁRIO 
Para o governador Jaques Wagner (PT), a Bahia não é Nordeste: a baiana Juazeiro e a vizinha Petrolina (PE) têm horários distintos, enlouquecendo moradores que moram numa e trabalham noutra. 

ARTILHARIA ANTIAÉREA 
A oposição ficou irada com a revelada intenção do governo Lula de monitorar adversários com o avião não tripulado Vant. Os líderes do PPS e DEM, Rubens Bueno e ACM Neto, consideram “gravíssima”. 

MENINGITE CARIOCA 
Desespero no Recreio, bairro do Rio. Uma criança morreu vítima de meningite, quatro estão internadas e há 
outras acamadas em casa. O surto tomou também as favelas de Coroado e Bandeirantes.

PENSANDO BEM... 
...a corrupção entrou na “zona de conforto”. Saiu das cuecas para a caixa de sapatos. 

PODER SEM PUDOR
O VOTO DE CABRESTO 
Trinta anos antes do documentário Peões, sobre a trajetória de Lula, o documentarista Eduardo Coutinho imortalizou em Teodorico Bezerra – O Imperador do Sertão a história do major potiguar que pedia votos assim:
– Olhe, você não tem um boi, uma galinha, um terreno... Nada para me dar. Você só tem o voto. É só o que peço – dizia o major aos empregados.

TERÇA NOS JORNAIS


Globo: Futuro do ministro do Esporte depende de depoimento hoje

Folha: ONGs do esporte têm de devolver R$ 26,5 milhões

Estadão: Ministro propôs acordo por silêncio, diz pivô de escândalo

Correio: Fantasmas custavam R$ 37 milhões ao GDF

Valor: Arbitragem aumenta a fatia de Daniel Dantas na Valepar

Estado de Minas: Campeões de infração

Jornal do Commercio: Estado melhora ranking da violência

Zero Hora: Verbas para crianças no RS são desviadas, constata sindicância

segunda-feira, outubro 17, 2011

GUILHERME FIUZA - Passeatas de feriado acabam em pizza

Passeatas de feriado acabam em pizza
GUILHERME FIUZA
REVISTA ÉPOCA

O Movimento Brasil Contra a Corrupção saiu de novo às ruas. Depois das manifestações do 7 de setembro, foi a vez do 12 de outubro. De feriado em feriado, os novos ativistas da ética vão fazendo seu chamado pelas redes sociais, varrendo o país com uma nova onda: a rebeldia inofensiva. Em Brasília, os manifestantes levaram uma pizza cenográfica ao Congresso Nacional - simbolizando, segundo um dos organizadores do protesto, "as CPIs que não dão em nada". Os parlamentares poderiam ter devolvido a pizza aos manifestantes, simbolizando "os protestos que não dão em nada".
Poderiam, mas não se deram ao trabalho, até porque era feriado. Mais confortável assistir pela televisão a esse carnaval fora de época. Para os deputados do Conselho de Ética, por exemplo, que inocentaram Valdemar Costa Neto (PR-SP) do escândalo do Dnit e foram esquecidos pelos justiceiros, esses desfiles são diversão garantida. Não pode haver nada mais relaxante do que barrar as investigações do maior caso de corrupção do ano e depois assistir, numa boa, a um protesto genérico "contra os corruptos" (talvez os de Marte).
A esta altura, um dos maiores simpatizantes do Movimento Brasil Contra a Corrupção deve ser o presidente do Senado, JOSÉ SARNEY. Numa entrevista antológica ao jornal Zero Hora, Sarney explicou que seu passeio à Ilha de Curupu num helicóptero do Estado foi uma homenagem à democracia. Eis sua lógica:
- Quando a legislação diz que o presidente do Congresso tem direito a transporte de representação, estamos homenageando a democracia, cumprindo a liturgia das instituições. Por conta das prerrogativas do cargo, tenho direito a transporte de representação. Andei em um helicóptero do governo do Estado, não era particular.
É mesmo uma bela homenagem à democracia. Para presidir o Congresso (em Brasília), o senador precisa que um helicóptero da Polícia Militar (do Maranhão) o leve a sua casa de veraneio, que ninguém é de ferro. Certamente, a doce brisa de Curupu tem sua função no bom funcionamento do legislativo brasileiro. Sombra e água fresca são essenciais na liturgia das instituições. É bem verdade que um pedreiro ferido teve de esperar terminar o passeio de Sarney para ser socorrido pelo helicóptero da PM. Mas os pedreiros precisam aprender que não podem interromper uma homenagem à democracia.
A única imprecisão na explicação do senador está na ressalva de que a aeronave "não era particular". Pura modéstia. Sarney e o Estado brasileiro vivem em comunhão de bens, como todos viram no caso Agaciel Maia. O dublê de diretor do Senado e despachante do presidente zelava pelos interesses da família Sarney e de seus amigos na máquina do Legislativo. Tudo era feito por meio de atos secretos - ou seja, as vantagens e nomeações públicas eram tão particulares quanto o helicóptero do Estado.
Aí o esquema de Agaciel vazou e o Brasil se meteu no que não era de sua conta, invadindo a privacidade dos Sarneys em seu puxadinho estatal. Mas a Justiça, em mais uma homenagem particular à democracia, proibiu o jornal O Estado de S. Paulo de publicar sua série de reportagens sobre o caso. Naturalmente, nenhuma frente carnavalesca contra a corrupção foi às ruas para derrubar a censura. No palco do Rock in Rio, o cantor Dinho Ouro Preto, da banda Capital Inicial, reagiu dedicando a Sarney a música "Que país é esse?".
No final, ficou tudo bem. O Superior Tribunal de Justiça declarou nulas todas as provas contra Fernando Sarney (o filho e operador), e JOSÉ SARNEY respondeu placidamente ao cantor no Zero Hora: disse que Dinho foi injusto, porque seu governo (1985-1989) contribuiu para "a maior liberdade de expressão que já tivemos no país".
Com tantas homenagens à liberdade e à democracia, Sarney não consegue bons sócios apenas nos poderes Legislativo e Judiciário. Assim como o deputado Valdemar Costa Neto, é acionista majoritário do governo Dilma. Está entre os pilares do projeto de divisão do Estado brasileiro em "modernas" capitanias hereditárias, onde os companheiros donatários são cada vez mais criativos na arte de ordenhar os cofres públicos.
Sarney só tem um defeito: é invisível ao movimento das vassouras e pizzas cenográficas.
As redes sociais também devem estar respeitando a liturgia das instituições.

LÚCIA GUIMARÃES - Tamanho é documento


Tamanho é documento 
 LÚCIA GUIMARÃES
O ESTADÃO - 17/10/11

A polícia de Nova York já registra 20 casos de ataques sexuais a mulheres no Brooklyn; num deles o agressor conseguiu estuprar a vítima. A prisão de um homem latino de 26 anos não trouxe tranquilidade ao bairro porque os policiais suspeitam que pelo menos mais três homens possam estar envolvidos nos ataques, desde março.

Há um padrão nos crimes - o homem se aproxima por trás da mulher que sai de uma estação do metrô à noite e aperta sua garganta. Várias mulheres conseguiram evitar o estupro porque gritaram e correram. As delegacias do Brooklyn não registraram nenhum caso de vítima que se rendeu, agradecida porque era considerada feia. Nenhuma deu "graças a Deus" por concluir que não havia sido vítima de um crime e sim de "uma oportunidade", contrariando uma tentativa de fazer humor sobre o estupro, publicada pela revista Rolling Stone brasileira, que bateu num iceberg de crassidade e afundou como o Titanic.

Aqui da capital do humor no continente, onde a pena afiada de um exército incomparável de redatores faz justiça à linhagem que começou com Mark Twain, mal consigo ensaiar um sorriso amarelo diante do que se considera a emergência de um tipo de humor em português. E não consigo entender porque escrever bem, com inteligência, e não humilhar - tanto os humildes quanto os poderosos - é uma expectativa politicamente correta. Alhos com bugalhos, é o que me parece esta discussão que mistura a repressão boba ao comercial da Gisele Bündchen aos limites da civilidade no humor.

Em 1996, perguntei a Woody Allen, que estava na minha frente gripado e, portanto, de mau humor, se havia algum limite para o tema de uma piada. Ele disse que não. "Você pode fazer piada sobre tudo, até câncer." Não entendi tão bem na época quanto entendo hoje. E concordo plenamente com Woody Allen. Mas, além de ser um grande escritor de humor, Allen não tenta humilhar seu público.

Alguém se lembra da cena lamentável em que o alquebrado ator Charlton Heston sofre uma emboscada de Michael Moore em Tiros em Columbine? O diretor precisava recorrer à desonestidade para colocar na tela seu argumento contra as armas de fogo? Para os que discordam, sugiro alugar o DVD de Sob a Névoa da Guerra, de Errol Morris, uma denúncia magistral da guerra que não cede nenhum território à integridade do diretor.

Mas voltemos ao humor. O humor que denuncia hipocrisia ou a malfeitoria política pode ser muito mais do que hilariante. É uma arma poderosa nas mãos de quem conhece a própria língua e não tem a ilusão de que a condição de artista de performance suspende sua humanidade.

Na nossa cultura cartorial, onde o impulso é legislar sobre tudo, criticar vira sinônimo de reprimir. Mediocridade atrevida pode ser confundida com rebelião.

E, como sói acontecer entre nós, êta povo novidadeiro, somos levados de enxurrada por tudo o que está "trending". Não uso a igualmente significativa palavra tendência porque, assim como "moda", um substantivo mais do que eficaz, foi ridiculamente aposentado por "fashion", como se a nossa semântica estivesse bichada, falar em "trending" é o sinal de que você está se referindo ao Twitter ou alguma mídia social. E, desta diferença entre tendência e trending, surge a questão que, ao contrário do "vascularizado" membro cuja descrição não solicitada foi oferecida a uma jornalista brasileira, continua presa no zíper da braguilha: nosso pavor da exclusão. Perder patrocinadores, perder seguidores no Twitter, perder a berlinda disputada no topo do "trending" - são temores que parecem cancelar nosso senso de história, pessoal ou coletiva e, no fim das contas, nossa independência de opinião.

Um falecido humorista brasileiro, que faria a barba, o cabelo e o bigode de qualquer contemporâneo, cunhou um oxímoro delicioso para descrever sua desconfiança de celebridades da palavra. "Basta ler meia página do livro de certos escritores para perceber que eles estão despontando para o anonimato", dizia Stanislaw Ponte Preta, o Sérgio Porto. No neo-elitismo do Brasil, onde tendência virou trending, o anonimato é uma lepra e a celebridade viral uma nova forma de intimidação.

PAULO GUEDES - O Ocidente entre a Grande Pedalada e a Grande Freada

O Ocidente entre a Grande Pedalada e a Grande Freada
PAULO GUEDES
REVISTA ÉPOCA

Há uma nova ordem econômica mundial em formação. O colapso da ordem socialista deserdou 3 bilhões de eurasianos. O mergulho dessa mão de obra e de seus fluxos de poupança nos mercados globais criou simultaneamente uma oportunidade de enriquecimento acelerado e um formidável desafio de integração da economia mundial.
A ampliação dos mercados com a globalização criou um universo econômico em expansão, com a possibilidade de ganhos para todos, mas também trazendo a ilusão de que não haveria dramáticos impactos sobre a antiga ordem ocidental. Os benefícios de um crescimento econômico sincronizado em escala global foram desfrutados no período de 2003 a 2007. A partir da crise de 2008-2009, porém, as modernas democracias liberais passaram a enfrentar uma guerra mundial por empregos. Percebe-se agora, em 2010-2011, que o mundo mudou - e não voltará a ser o mesmo.
A crise contemporânea resulta, de um lado, do afoito mergulho eurasiano nos mercados globais e, de outro, das tentativas de escape dos ocidentais às exigências de adaptação à nova ordem global. Com o Ocidente em transe dos dois lados do Atlântico, prossegue o comovente espetáculo de uma Grande Sociedade Aberta esvaindo-se, numa sangria desatada por seus próprios excessos financeiros.
A quebradeira imobiliária, as crises bancárias, o mergulho das Bolsas, a contração do crédito, a falência de governos nacionais e o colapso das dívidas soberanas são sintomas desses excessos - que foram muitos e cometidos por longo tempo. Foram devastadores os atentados de financistas anglo-saxões e de políticos social-democratas europeus contra o moderno regime de moeda fiduciária e o financiamento sustentável das redes de solidariedade que alicerçam nossa civilização.
Os americanos insistem em pedalar sistemas financeiros como bicicleta. Tentam evitar com dinheiro barato o fim de um longo ciclo de crescimento. Como se os juros baixos de Ben Bernanke pudessem substituir as inovações de Steve Jobs. O Federal Reserve (Fed), banco central americano, tornou-se um soprador serial de bolhas. Abusa do poder de emitir a moeda reserva da economia mundial. Levanta pontes de papel para a riqueza, inflando e reinflando preços de ativos. As operações de salvamento de instituições financeiras excessivamente endividadas significam que os contribuintes americanos terão de garantir todo tipo de má aplicação de recursos, socializando perdas e transferindo riscos dos financistas para o governo. O excesso de poupança dos asiáticos financiou por décadas o extravagante consumo dos americanos, seus deficits fiscais e comerciais. Chegou a hora de pagar a conta.
Os europeus querem viver do Estado. Ou seja: à custa dos impostos pagos pelo trabalho alheio.
Abusaram de promessas feitas por governos demagógicos, que terão agora de ser bancadas por seus contribuintes. Empreguismo, corporativismo, inchaço burocrático, benefícios e aposentadorias irrealistas engordaram sem limites as despesas orçamentárias no paraíso perdido da social-democracia. E acordam agora trancados na jaula do euro. Os países da Europa descobrem, frustrados, que não dispõem sequer das alavancas keynesianas para a manutenção dos padrões de vida irrealistas prometidos pelos sociais-democratas. Diarreia monetária como os americanos? Nem pensar. Os alemães controlam a moeda e têm a memória das hiperinflações. Desvalorizações cambiais? Não há como. Não há sequer moedas nacionais. E também não há como expandir os gastos públicos, evangelho do brilhante Keynes em seu manual de combate às crises das sociedades em declínio em busca de paliativos de curto prazo. Pois, afinal, o longo prazo chegou... e estamos todos ainda vivos. Em tempos tão conturbados e extraordinários como os de hoje, diagnosticava Keynes, às portas da Grande Depressão: "O mundo enfrenta a maior catástrofe econômica já ocorrida, a maior ameaça à ordem social existente". Naquela época, "discutiu-se francamente a possibilidade de que a civilização ocidental tivesse sofrido colapso terminal", segundo o historiador Arnold Toynbee.
O pavor dos americanos é mergulhar de novo na Grande Depressão. Eles são ainda os mais empreendedores e inovadores representantes da Grande Sociedade Aberta ocidental. Mas são insensatas as doses cavalares de liquidez aplicadas pelo Fed ante a exaustão do mais longo ciclo de crescimento americano. Levaram ao estouro das bolhas, ao colapso das finanças públicas, à descrença nas autoridades pela socialização das perdas, à radicalização entre republicanos e democratas e a uma taxa de desemprego de quase dois dígitos.
Enquanto isso, o Banco Central Europeu (BCE) é criticado por não atuar de forma tão decisiva quanto o Fed para impedir o agravamento de crises de liquidez. A arquitetura de uma moeda supranacional como o euro dificulta operações de "salvamento" no curto prazo. Mas, ao mesmo tempo, impede uma rota de escape inflacionária que drible a disciplina fiscal de longo prazo. Com a austeridade, os alemães desfrutam a mais baixa taxa de desemprego dos últimos 20 anos. A moeda continental sob influência alemã funciona como um regime de metas de inflação e também como uma lei de responsabilidade fiscal entre os países europeus. Não será fácil tributar alemães para financiar gregos.
O sistema monetário americano é o da Grande Pedalada, que infla preços de ativos tentando escapar à insolvência. A inflação mundial perde suas âncoras, e em poucos anos viveremos o pesadelo do baixo crescimento econômico em meio a taxas de inflação crescentes. O sistema monetário europeu é o da Grande Freada, que exige desinflar as dívidas ante a perda de lastro causada pela queda de preço dos ativos. As expectativas inflacionárias permanecem ancoradas, mas as pressões deflacionárias mantêm a sombra das crises bancárias e a ameaça de uma grande recessão no futuro próximo. Os europeus sofrem mais no presente, os americanos sofrerão no futuro.

FELIPE PATURY - A Rio decola nos Correios


A Rio decola nos Correios
FELIPE PATURY
REVISTA ÉPOCA

A rede postal noturna tem novo dono. É a Rio Linhas Aéreas, do piloto de stock car William Starostik Filho e do empresário Leonardo Cordeiro. Os quatro contratos que a Rio já tem com os Correios somam R$ 185 milhões, ou 63% dos recursos destinados ao serviço aéreo noturno. Na semana passada, a Rio ganhou o quinto contrato. Quando ele começar a vigorar, suas vendas para a estatal serão acrescidas em R$ 79 milhões. Fundada há quatro anos no Paraná do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, a Rio já é a maior empresa do Brasil em aviões de carga. Tem sete Boeings 727-200 e dois 767-200. Procurada, a Rio informou que, por dever contratual, não pode dar informações a respeito de sua relação com os Correios.

Os impostos do PTO PT quer marcar posição no debate da reforma tributária e, atenção, à revelia do governo. A bancada do partido na Câmara apresentará um projeto que inclui a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a cesta básica e vestuário. As alíquotas das contribuições PIS, Pasep e Cofins também caem. Ressuscitando bandeiras petistas esquecidas na Esplanada, o projeto prevê a taxação de ganhos de capital, de investimentos estrangeiros em títulos públicos e a criação de um imposto sobre grandes fortunas.

Ele está dando a cara a tapaA candidatura a prefeito de São Paulo do pagodeiro comunista Netinho de Paula é para inglês ver. Ou melhor, para os outros partidos verem. Sem tempo de TV suficiente para bancar as pretensões de Netinho, o PCdoB o insufla para aumentar seu valor em uma aliança. E atenção: não é certo que fechará acordo com o PT, aliado tradicional. Os comunistas participam da prefeitura de Gilberto Kassab, do PSD, e avaliam a possibilidade de segui-lo em 2012.

De olho na butique deleNada como um inimigo comum poderoso - no caso, o PT do governador baiano, Jaques Wagner - para curar um rancor histórico: o democrata ACM Neto e o peemedebista Geddel Vieira Lima podem marchar juntos na eleição para prefeito de Salvador. Pelo acordo em negociação, Neto apoiaria o candidato do PMDB, o radialista Mario Kertész. Em troca, Geddel endossaria suas pretensões ao governo baiano em 2014.

De fazer inveja ao MSTUm terço da população do Distrito Federal, o equivalente a 800 mil pessoas, mora em áreas invadidas. As ocupações não distinguem classes sociais. Nas terras griladas, se aboletam favelas e condomínios de luxo. A situação é tão exorbitante que a Justiça resolveu criar uma vara própria para essas questões.

Bênção nas urnasO PMDB está seguro de que seu candidato à prefeitura de São Paulo, Gabriel Chalita, arrebanhou um cabo eleitoral dos céus: o padre Marcelo Rossi. O partido está tão convencido de que o sacerdote trabalhará para a vitória de seu amigo que reservou uma cota para indicados do padre em sua lista de candidatos a vereador.

São Paulo é DilmaA presidente Dilma Rousseff começa a invadir a mais forte cidadela tucana. Uma pesquisa quantitativa encomendada pela oposição mostra que a proporção de bom e ótimo da presidente na cidade de São Paulo ultrapassou em 2 pontos porcentuais a do governador Geraldo Alckmin.
O mesmo levantamento mostra que Alckmin precisa do interior paulista para ter uma avaliação melhor que a da presidente em seu Estado.

10 mil bois para entrar na brigaOs separatistas do Pará estão pedindo doações de bezerros para os fazendeiros da região de Carajás, onde pretendem constituir um novo Estado. Seu objetivo é recolher 10 mil novilhos, vendê-los e recolher R$ 10 milhões com um leilão marcado para o fim deste mês. O movimento, cuja face visível é o deputado Giovani Queiroz (PDT), é bancado pelo financista Daniel Dantas e pelo empreiteiro Luís Pires e conta com o marketing de Duda Mendonça. É, ele mesmo.

Tijolo aéreoA empreiteira Queiroz Galvão e o BTG Pactual formaram um consórcio para participar da privatização de aeroportos.

Milagre na Band A Band bateu o martelo: o contrato de aluguel de horário para o missionário RR Soares se encerra no fim do ano e não será renovado. Hoje, ele ocupa o espaço mais nobre da grade. Para reformar a programação, a emissora cogita reforçar sua área artística com a contratação do argentino Diego Guebel. Ele é dono da produtora que criou o CQC e A liga.

Falco voaO executivo Luís Eduardo Falco, que presidiu a Oi até abril passado, resolveu deixar o Brasil. Comunicou aos amigos que quer estudar no exterior.

Mais enxuto e rentávelO HSBC contratou o JP Morgan para vender 600 de suas 865 agências no Brasil. A matriz do banco inglês concluiu que está errando ao disputar o varejo com o Bradesco e o Itaú. Quer reforçar sua presença nas 50 cidades mais ricas do país e se concentrar no atendimento de empresas de pequeno e médio porte.

O preço do PSDA fundação do PSD onerou o orçamento da Câmara em R$ 500 mil mensais. O dinheiro será gasto com os 80 funcionários que a nova legenda tem direito de contratar por ter montado uma bancada com mais de 50 deputados. Estão previstos outros gastos com as reformas nos gabinetes destinados à liderança do partido.