quinta-feira, outubro 06, 2011

DORA KRAMER - Sacrossanto ambiente



Sacrossanto ambiente
DORA KRAMER
O ESTADÃO - 06/10/11

"Essa história de cobrar precisão científica do denunciante é a expressão do velho truque para ganhar tempo."


Um escândalo não é menos escandaloso por ser local, ainda mais quando se refere a procedimentos assemelhados a episódios federais. O uso criminoso de emendas parlamentares.

Um exemplo ocorre na Assembleia Legislativa de São Paulo, onde há um deputado (Roque Barbiere) afirmando e confirmando que "um bom grupo" de colegas vende as emendas a que têm direito para prefeituras e empreiteiras.

Se acontecesse no Congresso Nacional já estaria mobilizando indignações.

Além do deputado apareceu uma testemunha afirmando que em agosto de 2009 viu um homem entregar ao então deputado, hoje guitarrista, José Antônio Bruno, um maço de notas de R$ 100 dizendo ser "para a emenda".

Ele nega a acusação, mas suspeita que um assessor dele tenha feito parte do esquema. Só aí já são três a confirmar a existência de algo de podre.

O caso veio ao conhecimento geral no mês passado, quando o Estado publicou entrevista dada pelo deputado Barbiere a um canal de internet no dia 10 de agosto, denunciando que cerca de 30% dos deputados estaduais de São Paulo vendem emendas.

Um promotor de Justiça abriu inquérito, mas a Assembleia e o governo do Estado não se mexeram. Geraldo Alckmin exige, antes, os nomes dos vendidos.

Ou "camelôs", conforme Barbiere se referiu a eles em nova entrevista em que reafirmou as acusações, anunciou que mandará tudo por escrito ao Conselho de Ética da Assembleia e avisou que sobre casos concretos só fala à Justiça.

É um direito dele. Bem como seria um dever da Casa comparada a um "camelódromo", onde "cada um vende de um jeito, cada um tem o seu preço", e do governo estadual, de onde sai o dinheiro relativo às emendas ao Orçamento, procurar saber o que de fato se passa.

Se há um caluniador à solta ou se há mesmo deputados negociando emendas com prefeituras e empreiteiras.

Essa história de cobrar precisão científica do denunciante é a expressão do velho truque para ganhar tempo a fim de que o caso caia no vazio antes que seja preciso perturbar a paz reinante no sacrossanto ambiente legislativo de maioria tucano-governista.

Grave, a denúncia merece atenção. Para ser descartada ou levada adiante. Mas mais grave é a suspeita paralisia de suas excelências ante a possibilidade de a Assembleia de São Paulo estar servindo de valhacouto a vendilhões.

Na teoria

Não deixa de ser pertinente e necessária a proposta em preparo na Casa Civil para regulamentação do teto salarial dos servidores federais.

A ideia é definir em lei o que seriam exatamente "benefícios" que hoje permitem que em cada um dos Poderes existam salários que ultrapassem o valor legal máximo de R$ 26.700.

Com a existência de supersalários principalmente no Judiciário e no Legislativo, a questão central é o destino do projeto em face da situação de gente com poder de pressão hoje aquinhoada com o privilégio.

É de se observar se o governo tem um plano para vencer resistências e eficácia à proposta ou se pretende deixar as coisas no terreno das boas intenções e desfrutar dos dividendos políticos.

À moda da faxina que foi sem nunca ter sido.

Nos autos

Com o argumento de que não se deve alimentar a polêmica a fim de preservar a decisão, foi interditado o debate sobre as funções do Conselho Nacional de Justiça. Além de adiadas duas vezes as sessões do Supremo Tribunal Federal para julgar ação que cassa prerrogativas do CNJ, o presidente do STF e a corregedora Eliana Calmon recusaram convite para falar no Senado.

Quando a previsão era de vitória da ação, o Supremo queria votar. Depois que a sociedade rejeitou, baixou a lei do silêncio.

Depois o Judiciário reclama quando é apontado como um Poder fechado.

Recaída

Dilma teve um momento Lula ao dar lições à União Europeia sobre como vencer a crise por meio "do estímulo ao crescimento econômico".

O PUTEIRO É AQUI


MERVAL PEREIRA - Poderes empacados


Poderes empacados 
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 06/10/11

Os poderes da República encontram-se impossibilitados de decidir seus assuntos mais prementes, parecem empacados diante de seus problemas. O Supremo Tribunal Federal ainda não encontrou clima político para decidir sobre a abrangência dos poderes do Conselho Nacional de Justiça e ontem, mais uma vez, não abordou o tema complexo da fiscalização do Judiciário.

O Executivo tentou não entrar na discussão da Distribuição dos royalties do petróleo e deixou os estados se digladiarem pelos lucros presentes e futuros do pré-sal, mas está fadado a ter que assumir posição antes que o impasse entre estados produtores e não produtores vá parar no Supremo, provocando prejuízos para todos os envolvidos na disputa.

E o Legislativo, incapaz de se entender sobre os royalties, também não se entende sobre a reforma política, que nunca foi um tema que conseguisse convergências no Congresso.

Pelo menos dois desses temas têm no ex-presidente Lula um partícipe importante, mas ele está evitando envolver-se na questão dos royalties e, na reforma política, tentou e não conseguiu levar a base partidária do governo a um acordo.

O maior sintoma de que mais uma vez ela caminha para o impasse foi sua ausência, alegando cansaço, e de outros líderes importantes na cerimônia do Congresso que marcou seu lançamento na terça-feira.

O adiamento da votação na Comissão Especial da Câmara ontem, a pedido do relator, o petista Henrique Fontana, foi consequência natural da dificuldade de encontrar posição majoritária que se imponha.

O ex-presidente fez diversas reuniões no Instituto Lula, em São Paulo, foi até o Palácio Jaburu para tentar cooptar o PMDB através de acordo com o vice-presidente Michel Temer, mas na hora decisiva não apareceu por estar alegadamente cansado do glorioso périplo europeu. Ele certamente constatou que não há condições políticas para aprovar o projeto que o PT quer, espécie de remendo feito por Fontana para tentar apoio do PMDB: metade dos deputados federais seria escolhida por lista fechada, o sistema de agrado do PT, e a outra metade, pelo "distritão", o preferido do PMDB.

Os estados seriam transformados em grandes distritos eleitorais, e os representantes, escolhidos pelo voto majoritário, quando os mais votados são eleitos. Para completar, financiamento público de campanha misturado com financiamento privado, tudo fazendo parte de um fundo eleitoral.

Em comentário na CBN, ao me referir a esse sistema de financiamento, cometi ato falho e disse que "os investidores" não saberiam em quem estavam pondo o dinheiro.

Na teoria, são financiadores de campanhas políticas; na prática, "investidores" que apostam seu dinheiro nos candidatos que, adiante, poderão lhes dar ajuda no Congresso. Mas, com esse fundo misto, os "investidores" não saberiam quem estariam financiando, e por isso o PMDB é contra o sistema.

Outro detalhe crucial desse sistema é que o dinheiro seria distribuído conforme o tamanho das bancadas, o que beneficiaria de cara o PT, dono da maior delas, e o PMDB. Além disso, ajudaria a que o equilíbrio de forças continue basicamente o mesmo.

Pelo visto, o projeto está todo prejudicado, pois interessa sobretudo ao PT e tem pouca chance de ser aprovado. Já o ex-presidente Lula continua com sua maneira de fazer política: evitando confrontos mais polêmicos quando estão em jogo seus parceiros políticos.

Na questão dos royalties do petróleo, ele é talvez o principal sujeito da disputa. O que está para ser votado é seu veto à emenda do deputado Ibsen Pinheiro, que distribui os royalties entre os estados com base nos critérios do Fundo de Participação dos Estados e Municípios, sem levar em conta a situação especial dos estados produtores.

Nunca é demais lembrar que os royalties e as participações especiais foram criados na Constituinte de 1988 para compensar os estados produtores, que, além de não receberem ICMS sobre o produto - petróleo e energia elétrica são taxados no local de consumo, e não na origem -, também têm problemas ambientais e sociais maiores por conta da exploração.

Lula vetou corretamente o projeto, assumindo compromisso com os estados produtores de que eles não seriam prejudicados, mas agora não move uma palha para que seu compromisso seja cumprido pelo governo de sua sucessora. Ele, que em outros temas não tem evitado interferir.

Esse sempre foi o estilo de fazer política de Lula. Enquanto trata os adversários como inimigos que devem ser subjugados, trata os aliados com toda a condescendência, minimizando os "malfeitos" e atendendo a seus pleitos.

Quem está ao seu lado sabe que será beneficiado por benesses e regalias que só o Poder permite. E, para ter base de apoio tão ampla. Lula evita os temas polêmicos.

Passou os oito anos de governo sem fazer reformas estruturais que mexessem com interesses de corporações ou sindicatos e, por isso, deixou sem regulamentação a parte da reforma da Previdência Social que conseguiu aprovar em seu primeiro ano, com o apoio da oposição e contra o PT e os sindicatos dos servidores públicos. Os fundos de previdência que complementariam salários dos servidores nunca saíram do papel.

Quem definiu bem a situação na discussão da reforma política foi um dos caciques do PMDB, o deputado Eduardo Cunha - que não é um santo do meu altar, mas desta vez teve uma boa tirada.

Ao ouvir o relator Henrique Fontana dizer sempre que "Lula acha isso", " Lula quer aquilo", Cunha perguntou: " Se o Lula passou oito anos no governo e não aprovou nada da reforma política, por que acha agora, que não tem mais a caneta, que pode aprovar o que quer?"

Uma boa pergunta, que pode inclusive indicar uma tendência política.

MIRIAM LEITÃO - O fim ou tudo de novo


O fim ou tudo de novo
MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 06/10/11

O fim do capitalismo foi previsto em estudos - e desejado em tantos textos ideológicos -, continua sem data para acontecer, mas o tamanho da encrenca em que ele entrou agora é de grandes proporções. Ontem, os ministros das Finanças da Europa admitiram que precisam recapitalizar os bancos com medidas fortes. Nas ruas, os protestos aumentam.

Para onde se olhe há fios desencapados na ordem econômica mundial. Os bancos com suas ações em queda livre e alvo de desconfiança de investidores e até deles mesmos representam um dos problemas. A ideia agora é: os governos europeus agirem de maneira mais decidida para provar que os bancos que compraram suas dívidas não vão quebrar por isso. O Dexia tem 15 bilhões de euros da dívida italiana que foi rebaixada esta semana. Tem outros 3,5 bilhões de euros de dívida grega. Operava intensamente no que eles chamam de mercado de dívida soberana e subsoberana - de outras entidades estatais e públicas - e pediu socorro. Está sendo resgatado. Ele está longe de ser o único. Há inúmeros bancos alemães, franceses, belgas com bilhões de dívida dos governos da periferia da Europa, ou de países centrais encrencados.

Mas o que os ministros das Finanças da Europa admitiram em reunião é que mais precisa ser feito e de forma mais convincente. É preciso agir de forma coordenada. Foi o que alguns disseram após um encontro em Luxemburgo. A Alemanha - sempre ela - pensa em pôr de novo em atividade o mecanismo de salvamento dos bancos que foi usado em 2008. O ministro George Osborne, da Inglaterra, tão mão fechada em todos os gastos, também disse que: "está claro agora que o sistema monetário europeu precisa ser fortalecido e necessita mais capital."

O difícil é como contar isso para o contribuinte que sofreu inúmeros cortes em seus serviços e benefícios nos últimos anos de crise e está diante de economias que oferecem cada vez menos empregos. Os protestos de Wall Street têm se intensificado dando uma aparência de rebelião norte-africana ao país que mais apoiou com belas frases, votos na ONU e atos os rebeldes dos países árabes.

A grande encrenca é que uma quebra em dominó de bancos produzirá uma crise mundial de proporções inimagináveis. Veja o que a quebra do Lehman Brothers fez ao mundo, que desde então patina. Afinal, a crise de 2011 é apenas a recidiva da crise de 2008. É o W desenhando sua segunda queda.

Os bancos não podem ser salvos da mesma forma que foram, por vários motivos. Primeiro é que na queda precipitada pela quebra do Lehman o que se viu é que a falta de regulação e supervisão estava na origem das estranhas criaturas financeiras que os levaram ao precipício. Segundo, que os governos gastaram muito, endividaram-se demais para socorrê-los e o mundo entrou no círculo vicioso de dívida soberana e bancos frágeis do qual ainda não saiu. Hoje os governos têm menos capacidade de ampliar a munição de gastos para o resgate.

Terceiro, porque logo depois de socorridos com dinheiro público, benesses, expansão monetária, os bancos voltaram a pagar milionários bônus aos mesmos executivos e dividendos aos maiores acionistas. Para qualquer pessoa que vai para as ruas protestar - ou não - parece um acinte que quem escolheu estar no negócio bancário lucre na abundância e na crise, eternamente sem punição.

Ninguém ganha com uma crise bancária e ela atinge o cidadão que protesta nas ruas mais do que ele mesmo imagina. Mas não necessariamente isso significa salvar banqueiros e executivos e deixá-los serem regiamente pagos por administrar as instituições financeiras da mesma forma de sempre, expondo o mundo a riscos dos quais serão resgatados.

Depois de uma crise que se desdobra em ondas de aflições desde 2008 está na hora de as autoridades mundiais pensarem no fim do capitalismo como nós o conhecemos. Há muito a ser feito para melhorar a regulação, fiscalização para a prevenção de crises. Basta ver o resultado dos testes de estresse a que foram submetidos os bancos europeus. Eles passaram. O Dexia, também, e está com problemas três meses depois. No mínimo os testes têm de ser revistos. Isso sem falar nas agências com suas notas doidas e deplorável atuação. Não precisa estar em Wall Street protestando para saber que há algo de podre nas relações promíscuas entre agências, bancos, fiscalizadores e reguladores e que no final das contas todos serão salvos porque uma crise bancária mundial é um armagedon que todos vão querer evitar.

Todos disseram frases fortes ao fim da reunião de ministros das Finanças da Europa, em Luxemburgo. O comissário econômico da Europa, Olli Rehn, disse que há um senso de urgência entre os ministros e a convicção de que é preciso ir em frente. O ministro alemão Wolfgang Schauble disse que a maior preocupação que eles demonstraram na reunião é que a crise atual escale e se torne uma crise bancária disseminada. Diante do cenário de fim de mundo eles vão agir. Mas a dúvida é: o mundo ficará à espera da próxima crise em que a mesma ameaça terminal será usada para justificar qualquer medida ou desta vez será o resgate para acabar com todos os resgates? (Com Álvaro Gribel.)

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Empresa de semicondutor faz parceria no país
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 06/10/11

Enquanto o governo tenta impulsionar a fabricação de semicondutores, avançam as iniciativas privadas na tecnologia do produto no país. A AMD, empresa especializada no setor, fechou acordo com a Unicamp para trabalhar com pesquisadores do instituto de computação em um projeto de desenvolvimento de inovação.
Com o acordo, o Brasil entra na lista de países em que a companhia investe em parcerias com instituições de ensino, como Alemanha, Reino Unido e Índia. "A AMD não tem fábricas. Precisamos lembrar que desenvolver software é tão importante quanto ter fábricas de hardware", afirma Ronaldo Miranda, presidente da AMD no Brasil. A pesquisa será focada no tratamento de imagens.
O setor de eletroeletrônicos tem debatido com governo sobre o desenvolvimento da indústria de chips no país. Em agosto, a Abinee (associação da indústria) enviou ao Ministério da Ciência e Tecnologia documento que aborda o tema. A entidade aponta que, apesar do fortalecimento do real na balança comercial de eletroeletrônicos, o segmento de componentes continua a pesar na pauta de importações. Hoje ele representa 50% das compras externas.
No primeiro semestre, as importações de componentes atingiram US$ 10,3 bilhões, 15% acima do mesmo período do ano passado, segundo a Abinee.

NOVA DIREÇÃO NA HYPERMARCAS
Luiz Eduardo Violland, que foi presidente da Nycomed, é quem vai ocupar a presidência da divisão farmacêutica da Hypermarcas. A chegada do executivo era esperada desde agosto, quando a companhia anunciou sua reorganização em duas divisões, após uma sequência de aquisições no setor farmacêutico.
A área, que a empresa chama de Farma, abrange as operações relacionadas a medicamentos, como OTCs, genéricos e cosméticos para pele. A parte de consumo, que inclui cosméticos, fraldas, limpeza e alimentos, é presidida por Nelson Mello. O novo contratado responderá ao presidente da empresa, Claudio Bergamo.

PÉS NO EXTERIOR
A fabricante de calçados Carmen Steffens inaugura nesta semana sua segunda loja na África do Sul. A unidade faz parte do projeto de expansão da marca no exterior, que prevê outras 120 lojas fora do país até 2020. Hoje, são 28 em 16 países (como França, EUA e Canadá). Em 2012, cerca de R$ 10 milhões serão investidos em 12 unidades, em países como Japão, Chile e Colômbia. A internacionalização da marca começou há dez anos, no Paraguai. "São cinco anos para ajustar o negócio à cultura de um país. Fizemos isso antes desse bom momento brasileiro", diz o presidente da empresa, Mário Spaniol.
A Carmen Steffens produz 7.000 sapatos por dia em fábricas em Franca (SP) e Sapiranga (RS). Ela adota o estilo de produção italiano, no qual são feitos apenas nove pares por vez. "O sistema permite um grande mix de produtos em uma linha de montagem." Com a expansão, o foco da empresa será desenvolvimento, marketing e distribuição. As fábricas próprias ficarão com 50% da produção.

SOB CONTROLE ITALIANO
A empresa italiana de transporte Pezzaioli investirá R$ 25 milhões para abrir sua primeira fábrica no Brasil. A unidade será em Faxinal dos Guedes (SC) e produzirá carrocerias para transporte de animais vivos.
A linha mais sofisticada da marca tem bebedouros e controle de temperatura e umidade interna. Na Europa, as carrocerias custam até € 250 mil (cerca de R$ 610 mil).
A empresa venceu ontem uma licitação para se instalar em um terreno doado pela prefeitura. As obras devem começar em 90 dias, e a produção, no segundo semestre de 2012, com dez unidades por mês. Quando a fábrica estiver completamente instalada, terá capacidade mensal para 30 carrocerias. Parte delas deve ser exportada para o Mercosul.

CUSTO DO COMBUSTÍVEL
O etanol foi menos vantajoso que a gasolina em setembro na cidade de São Paulo, segundo estudo do IPTC (Índice de Preços Ticket Car). Os motoristas que optaram pelo combustível derivado da cana-de-açúcar pagaram 1,27% a mais que os consumidores de gasolina. No fim de setembro, o preço médio do etanol fechou em R$ 1,92 por litro, enquanto o da gasolina era R$ 2,71.

Crédito... A OAB SP e o Banco do Brasil firmaram convênio que garante crédito imobiliário com taxas de juros mais baixas aos 300 mil advogados inscritos na entidade paulista.

...imobiliário Nos imóveis residenciais de até R$ 150 mil, a taxa de juros no convênio é de 8,4%, mais a TR (taxa referencial) de 11,5%. Fora do acordo, os valores são de 8,9%, além da TR de 12,5%.

Ferro A Mineração Usiminas, subsidiária da Usiminas na produção de minério de ferro na região de Serra Azul (MG), deve fechar 2011 com investimentos de R$ 60 milhões em máquinas e equipamentos, alta de 140% ante 2010.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

RICARDO MELO - Casa de tolerância


Casa de tolerância
RICARDO MELO
FOLHA DE SP - 06/10/11

SÃO PAULO - Com as exceções de praxe, a Assembleia Legislativa de SP é uma daquelas instituições pouco lembradas por iniciativas marcantes para os cidadãos. Mas o que lhe falta em contribuições institucionais sobra em transações obscuras e denúncias de gatunagem.

A Casa foi palco até de um rumoroso "escândalo das calcinhas", em que um ex-presidente torrou dinheiro público em peças de lingerie (quem se interessar pode acessar acervo.folha.com.br/fsp/1976/12/03/2).

Os anos passaram, os métodos mudaram, assim como as calcinhas, mas a coisa não melhorou no Ibirapuera. Agora, um deputado compara o Legislativo a uma praça de ambulantes. "Isso é igual a camelô, cada um vende de um jeito", disse Roque Barbiere (PTB). "Cada um tem uma maneira, cada um tem um preço."

O alvo de Barbiere, pelo menos o declarado, é o comércio de emendas, esquema consagrado no próprio Congresso. Para embolsar a comissãozinha de cada dia, parlamentares negociam "projetos" com governos, ONGs e empresas diversas, atacam o Tesouro e posam de benfeitores.

Por que Barbiere demorou tanto para denunciar? Ingênuo ele não é. Como ele mesmo diz, tem 32 anos de janela em vários cargos; elegeu-se deputado seis vezes. Questionado sobre responsabilidades, retrucou mais como chantagista do que como alguém interessado em purificar o ambiente: "Nenhum nome, nem com o revólver na cabeça".

A atitude esquiva não obscurece a gravidade das denúncias. O mensalão ensina que casos assim sobem à tona quando interesses de favorecidos -por ação ou omissão- são contrariados no trajeto.

Resta saber se as investigações vão avançar. Os tucanos, que controlam a Assembleia e o governo estadual, arrepiam as penas quando ouvem falar de CPIs em seu poleiro. Os demais partidos, por motivos mais do que suspeitos, não se mostram entusiasmados em acender a luz. Com a palavra, o Ministério Público.

RIBAMAR OLIVEIRA - Algumas despesas podem estar subestimadas


Algumas despesas podem estar subestimadas
RIBAMAR OLIVEIRA
VALOR ECONÔMICO - 06/10/11

Há fortes indícios de que algumas das principais despesas da União podem estar subestimadas na proposta orçamentária para 2012. Uma análise mais detida da proposta mostra que o governo trabalha com uma queda real (descontada a inflação) das despesas com pessoal e encargos sociais, o que há muito tempo não ocorre.

As previsões de gastos com benefícios previdenciários e assistenciais para 2012 foram feitas pelo governo com base em um aumento de 13,62% para o salário mínimo a ser pago a partir de 1º de janeiro, levando em conta um INPC neste ano de 5,69% e o crescimento da economia em 2010 de 7,5%. A regra do reajuste do mínimo prevê uma correção pelo INPC do ano mais o aumento real do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos anteriores. Em 2010, o PIB cresceu 7,5%.

O mais provável, no entanto, é que o índice de reajuste fique próximo a 14,5%, pois o INPC talvez atinja 6,5%, se a última projeção de inflação do Banco Central para 2011 estiver correta. Para cada R$ 1 de aumento do salário mínimo, a equipe econômica estima uma elevação das despesas previdenciárias e assistenciais em R$ 306 milhões.

Se for levado em conta o mínimo de R$ 619,21 projetado pelo governo, as despesas com benefícios previdenciários e assistenciais deverão crescer R$ 22,7 bilhões em 2012 - valor que está na proposta orçamentária. Se o mínimo ficar em R$ 624 (com reajuste de 14,5%), o gasto adicional seria de R$ 24,2 bilhões. Essas despesas estariam subestimadas, portanto, em R$ 1,5 bilhão.

É razoável pensar que o impacto do aumento do salário mínimo nas despesas previdenciárias e assistenciais seja maior, atualmente, que os R$ 306 milhões para cada R$ 1, estimados inicialmente. Isto porque os gastos com benefícios previdenciários e com abono salarial e seguro desemprego cresceram muito em 2011.

De acordo com o relatório de avaliação de receitas e despesas relativo ao 4º bimestre, as despesas deste ano com benefícios previdenciários subiram R$ 5,5 bilhões em comparação ao inicialmente previsto, enquanto os gastos com o abono salarial e o seguro desemprego aumentaram R$ 5 bilhões. As elevações desses gastos só foram conhecidas depois que o governo encaminhou a proposta orçamentária de 2012 ao Congresso, em agosto. Isto significa que a base para a projeção dessas despesas no próximo ano aumentou. Seria interessante que a área econômica estimasse o novo impacto do aumento do mínimo nas contas da União.

A outra despesa orçamentária importante é o pagamento do funcionalismo público federal. A proposta orçamentária prevê um aumento de R$ 7,6 bilhões nesses gastos em 2012, em comparação com este ano. Nesse total, estão computados despesas de R$ 1,8 bilhão por conta de reajustes e reestruturações de carreiras realizadas em 2011 e R$ 1 bilhão decorrente de admissões de servidores este ano.

Para as reestruturações de carreiras que serão feitas em 2012 - e que atingirão 937,7 mil servidores, sendo 546,9 mil ativos e 390,8 mil inativos - o governo destinou R$ 1,5 bilhão. Há previsão ainda, no próximo ano, de R$ 1,6 bilhão para concursos e preenchimento de cargos no Poder Executivo e de R$ 504 milhões no Legislativo, Judiciário e Ministério Público da União (MPU).

Mas não há previsão de reajuste salarial para os servidores do Judiciário, do Legislativo ou do MPU. Não há sequer previsão para o reajuste do teto da remuneração do funcionalismo, que é o subsídio de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e que regula os vencimentos de toda a magistratura do país. Mesmo no caso do Executivo, não foi contemplado qualquer tipo de correção para os servidores da Polícia Federal, da Receita Federal e do Tesouro Nacional.

A dúvida que persiste é se o governo Dilma Rousseff terá condições políticas de manter esse controle dos gastos com o pagamento do funcionalismo no nível que consta na proposta orçamentária. As diversas categorias de servidores já estão em mobilização salarial, estimuladas pela corrosão da elevada inflação sobre o seu poder aquisitivo.

Essa análise sobre as despesas é importante para saber se o governo central (Tesouro, Previdência e Banco Central) terá condições de obter o superávit primário de R$ 97 bilhões no ano que vem, sem o desconto dos investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). É bom lembrar que a proposta orçamentária foi elaborada com um superávit de apenas R$ 71,4 bilhões, pois foram descontados R$ 25,6 bilhões do PAC.

Se duas das principais despesas estiverem subestimadas, como parece que estão, as dificuldades para obter a "meta cheia" de superávit, sem o desconto do PAC, serão ainda maiores. O contingenciamento de fevereiro terá que ser mais forte. Mesmo porque, como foi lembrado nesta coluna na semana passada, a receita da União projetada na proposta orçamentária para 2012 já inclui uma receita extraordinária de R$ 18 bilhões, mais ou menos aquela que será obtida este ano. As receitas extraordinárias são aquelas decorrentes de decisões judiciais, antecipações de pagamento de tributos etc. Ou seja, não haverá margem para aumentar essas receitas e resolver o problema orçamentário.

ALBERTO TAMER - Estão bravos com o Brasil


Estão bravos com o Brasil
ALBERTO TAMER 
O Estado de S.Paulo - 06/10/11

Os europeus estão reclamando. O Brasil começa a adotar um política comercial protecionista! Foi uma espécie de resposta às criticas da presidente às políticas fiscais restritivas que estão levando a União Europeia à beira da recessão; um risco crescente que agora até mesmo o FMI admite como o mais provável.

Não deixa de ser estranha a reação europeia porque nos primeiros oito meses do ano as exportações da União Europeia para o Brasil aumentaram 28,2% sobre igual período do ano anterior. Foram US$ 30,2 bilhões, o que representa 21,2% de que tudo o que o Brasil importou. O bloco da União Europeia suplantou os Estados Unidos e é o nosso segundo mais exportador. Perde apenas para a Ásia, leia-se China e os países pelos quais passam suas vendas para o Brasil.

Mas tem superávit! É esse o argumento. Nos oito primeiros meses do ano, o Brasil registra um superávit de US$ 5,15 bilhões, quase o dobro de igual período do ano passado, quando o saldo foi de US$2,28 bilhões. Apesar da desaceleração econômica, o Brasil exportou mais para a Europa do que importou. Por isso não tem nada que falar em "proteger" sua indústria. Uma análise dos números do comércio bilateral, divulgados esta semana pelo Ministério do Desenvolvimento, mostra que não é bem isso. A realidade é outra. A Europa ainda está importando muito, sim, mas commodities que incluem semimanufaturados e que representam 66,6% das exportações totais para o bloco. Enquanto isso, 99,7% - sim quase 100%! - do que importou da União Europeia foi de produtos industrializados.

Eles estão errados ao importar matérias-primas e exportar produtos acabados para o Brasil? Não. Quem está errado somos nós, que estamos primarizando a pauta das exportações. As matérias-primas representaram nada menos que 63,6% das exportações brasileiras.

Mas saímos da crise! Isso permitiu aumentar a receita das exportações porque os preços das commodities permanecem elevados. Mas é temerário continuar se acomodando e acreditando nesse cenário porque as cotações das commodities ainda estão em alta, mas recuaram em setembro. O acompanhamento que a equipe do Economist Inteligente Unit realiza semanalmente confirma essa tendência. Os preços das commodities agrícolas, por exemplo, ainda registram aumento de 11,4%, mas em setembro registraram uma queda significativa de 10,7%. Industriais, que incluem nafta, metais, 11,2%. As empresas de análise desse mercado são unanimes ao prever que essa tendência de baixa deve continuar ainda no próximo ano.

É hora de mudar. Como? A impressão atual é que o governo tem apenas uma decisão, defender o mercado. A presidente já optou por medidas programáticas no comércio exterior, que deem resultado a curto prazo, acordos bilaterais, mas tudo parece ainda meio vago, com o Ministério da Fazenda acertando nas suas sugestões mais ousadas, mas encontrando obstáculos no governo para concretizá-las.

A impressão dominante é que o resultado das exportações das commodities vem tirando o sentido de urgência para dar incentivos à industria nacional, que estagna, quando não recua.

O correspondente do Estado em Genebra, Jamil Chade, informa que o governo estuda uma nova estratégia para as exportações, deixando de lado Doha, que já morreu há muito tempo e só o Brasil, ingênuo e teimoso, acreditava nela. A sonhada liberalização comercial defendida pela OMC morreu antes de nascer. O governo está certo ao defender regras próprias de comércio, mas isso é um passo apenas inicial e isolado de um projeto de comércio exterior que ainda não existe e se anuncia agora.

A economia mundial está em crise e ninguém acredita mais na liberalização comercial. O Brasil deu os primeiros passos para se enquadrar nesse novo cenário. Todos estão se defendendo. Obama criou uma "força-tarefa" para proteger o mercado americano e aumentar as exportações, o que já está dando algum resultado. Mas vai ser mais agressivo, pois o déficit comercial dos Estados Unidos ainda é de US$ 706 bilhões.

ANTÔNIO CARLOS DE ALMEIDA CASTRO - Coletar provas sem driblar a Constituição


Coletar provas sem driblar a Constituição
ANTÔNIO CARLOS DE ALMEIDA CASTRO
FOLHA DE SP - 06/10/11

Quando a PF e o MP praticam abusos, acatados por juízes voluntariosos, ocorre muito mais do que uma injustiça contra o cidadão investigado


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
(Augusto dos Anjos , em "Versos Íntimos")

Há três anos, a 6ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, ao julgar o habeas corpus 76.686, que sustentei oralmente, anulou as provas colhidas na Operação Sundown por falta de fundamentação nas interceptações telefônicas e pelo enorme prazo de mais de dois anos de duração das escutas. A Constituição Federal e a lei determinam que toda decisão há de ser fundamentada e, no caso da interceptação, há um prazo legal de 15 dias de duração, prorrogável por mais 15.
Essa operação, conduzida pelo Ministério Público Federal de Curitiba, investigava integrantes da família Rozenblum, sócia do grupo Sundown, mediante interceptação telefônica e de dados. No âmbito dela foram efetuadas prisões e houve busca e apreensão nos escritórios das empresas e residências, assim como sequestro de todos os bens dos envolvidos.
Na oportunidade, o ministro Nilson Naves declarou que aquele era o mais importante caso na área criminal julgado pelo Superior Tribunal deJustiça (STJ). A decisão anulou várias condenações e mais de três dezenas de procedimentos.
O noticiário daquela época encarou a questão como se o tribunal tivesse desprezado o trabalho da Polícia Federal, do MP e do juiz de primeiro grau, apenas pelo fato de o STJ ter tido a coragem de fazer cumprir a lei e a Constituição. Simples assim!
Após esse julgamento, vários outros se deram na mesma linha, determinando a retirada, por imprestável, da prova avaliada como ilícita, seja por abuso da polícia, seja por desmandos do MP, seja por falta de zelo dos juízes no trato com a Constituição.
Agora, nova decisão da mesma turma do STJ é criticada como se não fosse obrigação dos ministros fazer cumprir as leis e a Constituição. Conforme tem sido amplamente veiculado na imprensa, o STJ anulou as provas colhidas na Operação Faktor, que investigava Fernando Sarney, defendido pelo advogado Eduardo Ferrão.
Costumo dizer que as pessoas, no geral, se portam como se estivessem num jogo de máscaras: quando veem um poderoso, um rico ou um político sendo preso ou processado, regozijam-se, são tomadas por um frenesi íntimo indizível e inconfessável. Pouco importa se foram desrespeitados os direitos fundamentais. Veste-se a máscara da hipocrisia, da desfaçatez.
Porém, a vida dá, nega e tira. E pode ser que um dia, nas curvas que ela faz, a desgraça de uma injustiça bata à porta daquele que desprezou os mais elementares princípios de direito -e o próprio, ou alguém da sua família, se veja às voltas com uma arbitrariedade.
Aí o cidadão veste a máscara do devido processo legal, do direito à ampla defesa, do contraditório. Clama-se a partir daí por justiça e para que sejam cumpridos os preceitos constitucionais.
Mas há algo mais grave, que merece a reflexão de todos. Quando a PF e o MP praticam abusos, acatados por juízes voluntariosos, ocorre muito mais do que uma injustiça contra o cidadão investigado; há grave ofensa à credibilidade dos tribunais, pois se passa a impressão de que são temperantes e protetores dos poderosos, quando, na verdade, estão fazendo cumprir a Constituição.
Sempre é bom lembrar as palavras do ministro Marco Aurélio Mello, do Superior Tribunal Federal (STF): "É o preço que se paga para viver num Estado Democrático de Direito, e é módico".

ANTÔNIO CARLOS DE ALMEIDA CASTRO, o Kakay, é advogado criminalista.

ELIANE CANTANHÊDE - Só de mentirinha


Só de mentirinha
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 06/10/11

BRASÍLIA - O Brasil tem teto salarial para os três Poderes, certo? Mais ou menos. A Constituição estabelece que o salário dos ministros doSupremo Tribunal Federal, atualmente de R$ 26,7 mil, é o limite para todos os demais servidores do Judiciário, do Legislativo e do Executivo. Mas é um teto para inglês ver, ou para brasileiro bobo acreditar.
Lembra da "anomia", ausência de lei ou de regras? Cabe perfeitamente aqui, porque o teto deveria ter sido regulamentado e nunca foi. Assim, há variados e criativos penduricalhos para aumentar os salários reais acima, às vezes muito acima, do teto constitucional.
Há gratificações, adicionais por tempo de serviço, sobreposição de aposentadorias, abonos, subsídios, 14º e 15º salários.... Nada disso é computado na hora do "teto".
Um exemplo concreto é o do presidente do Senado, José Sarney, que deveria ganhar dos cofres públicos o máximo de R$ 26,7 mil mas ganha em torno de R$ 60 mil mensais. Ele é apenas um, entre centenas, milhares de casos nos três Poderes.
Conforme a Folha publicou no domingo, Dilma quer enviar ao Congresso um projeto para transformar o teto de mentirinha em teto de verdade. A base é um texto da senadora e agora ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. Só falta articular apoio político e mandar ficha.
Líderes do governo e da oposição já se manifestaram a favor da medida, pelo menos da boca para fora. O mais difícil, porém, será conquistar apoio do Judiciário, que corre em sentido contrário: quer porque quer aumento de 56%.
Isso somaria R$ 8 bi ao ano, justamente depois do corte de R$ 50 bi determinado por Dilma para equilibrar o Orçamento e diante de uma crise internacional cujo impacto no Brasil ainda é uma incógnita.
Com todo respeito, a sensação é de que o Judiciário anda tropeçando nas próprias pernas. Ou melhor, num descarado corporativismo.

CLAUDIO HUMBERTO

“É só acabarmos com as bandalheiras”
DEPUTADO PAULO MALUF (PP-SP) E SUA RECEITA CONTRA A ESCASSEZ DE RECURSOS PARA A SAÚDE

BOLSA VERDE PODE FRACASSAR POR FALTA DE ESTRUTURA 
A falta de estrutura e de fiscalização poderá condenar ao fracasso o programa Bolsa Verde, cujo anúncio pela presidente Dilma pegou de surpresa até os órgãos ambientais que farão sua gestão. O Ibama e o ICMBio nem sequer sabiam do programa. 
A Bolsa Verde – copiado do Bolsa Floresta do governo do Amazonas – vai distribuir R$ 300 por trimestre a famílias que preservem as reservas ambientais onde vivem.

NÃO DÁ 
O ICMBio, que dirigirá a Bolsa Verde, tem 300 fiscais para monitorar 8,44 milhões de hectares em doze parques nacionais na Amazônia. 

CLARÃO NA MATA 
Segundo o ICMBio, há 3.500 famílias em 31 reservas ambientais no Norte e Centro-Oeste. 
Elas invadem reservas com a ajuda de madeireiros. 

FIASCOS 
Outros dois programas similares foram fiascos: o Projovem, cancelado após R$ 1,6 bilhão, e o Bolsa Pesca, que naufraga com R$ 1,3 bilhão.

ÚLTIMA CHANCE 
A última tentativa de conciliação, na greve dos Correios, está marcada para segunda (10) no Tribunal Superior do Trabalho. 
Depois, só dissídio.

CONSELHO DO BB NÃO DISCUTIU MUDANÇA PARA SP 
A transferência sorrateira para São Paulo não foi discutida no conselho de administração do Banco do Brasil, nem o Palácio do Planalto foi consultado. 
O objetivo é fortalecer a campanha municipal do PT-SP em 2012. Cinco vice-presidentes paulistas do BB criaram fato consumado, após uso abusivo de “teleconferências” em substituição à presença física deles em Brasília. E já ampliaram seus gabinetes paulistanos.

I HATE BRASÍLIA 
A agência Lew Lara, que ganhou parte da verba publicitária de R$ 420 milhões do BB, já foi dispensada de investir em instalações em Brasília.

MUSCULATURA 
O ex-ministro Luiz Gushiken, réu do mensalão, está feliz com o BB em São Paulo: 
o PT ganha músculos, e sua protegida Lew Lara economiza.

ÊXODO SILENCIOSO 
O BB transfere setenta dos cem funcionários da Diretoria de Marketing para São Paulo. A diretoria de Mercado de Capitais já foi.

AOS TAPAS E BRONCAS 
Dilma se relaciona com assessores e ministros não apenas com o seu jeito búlgara de ser, à base de broncas. Agora, quando bem humorada, ela deixa fluir o lado “paz e amor”, saudando-os com tapas nas costas e na barriga. Dói muito, mas ninguém reclama. Até acha graça.

TÁ FEIA A COISA 
Quando vê o nome de Marcelo Odebrecht, o presidente da Vale, Murilo Pinto Ferreira, lê “Roger Agnelli”, e sente urticária. 
Mandou fazer pente fino nos contratos com a empreiteira e não gostou nada do que viu.

BARBA A JATO 
O ex-presidente Lula, que amigos banqueiros chamam de “Barba”, embarcou para Nova York com André Esteves (BTG) em seu jatinho para palestra no Waldorf Astoria. Fala hoje a banqueiros americanos.

MULTIPARTIDÁRIO 
Após a inclusão de Joaquim Roriz, então no PMDB, no caso Caixa de Pandora, e como a maioria de subornos a políticos ocorreu no governo de sua vice, Maria Abadia (PSDB), perde sentido a denominação de “mensalão do DEM” para o escândalo de corrupção no governo do DF.

AUTODEFESA 
Diretores do Instituto do Câncer foram ao Ministério da Saúde na tentativa de prorrogar, de novo, a decisão do MP que ordenou que a entidade demita 800 comissionados e contrate concursados. 

ATEUS DERROTADOS 
Caiu nas mãos do ministro Luiz Fux, que é judeu, uma ação da Atea (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos) para proibir no Planalto um “Culto à Glória de Deus”. O Estado é laico, mas a liberdade de culto é um direito. E o caso não era da alçada do Supremo Tribunal Federal.

LADOS OPOSTOS 
Situação inusitada em Fortaleza: a greve de professores deixou dois irmãos em lados opostos. O comandante da PM que cerca os manifestantes na Assembleia Legislativa é o coronel Pimentel, irmão do senador José Pimentel (PT), que diz lutar pela classe no Estado.

INTERFERÊNCIA 
Citado como líder de Estados bem tratados no Fundo de Participação (FPE), o senador José Sarney lavou as mãos sobre a ameaça de a Corte fixar nova tabela em 2012: “Isso seria uma interferência do STF”.

CONSTITUIÇÃO, 23 
“Será luz, ainda que de lamparina, na noite dos desgraçados”, disse Ulysses Guimarães há 23 anos, sobre a Constituição. 

PODER SEM PUDOR
UM POLÍTICO GENEROSO 
Deputado pelo Rio Grande do Norte, Djalma Marinho era reverenciado pelos colegas, mas, nos anos 80, foi derrotado na disputa para presidir a Câmara. Ele já tinha a idade avançada e a saúde debilitada, por isso os amigos José Sarney e Prisco Viana o visitaram preocupados.
– Estamos aqui para pedir a você não guardar ressentimentos – disse Sarney.
– Vocês não me conhecem – respondeu ele, com largo sorriso – Em toda a vida, eu não consegui guardar dinheiro, como vou guardar ressentimentos?
Ele morreria logo depois. Sem ressentimentos.

QUINTA NOS JORNAIS


Globo: Saúde é a que menos ganha com arrecadação recorde

Folha: Steve Jobs, da Apple, morre aos 56 anos

Estadão: Alckmin cobra deputado que denunciou venda de emendas

Correio: Steve Jobs 1955-2011: Depois dele, o mundo nunca mais foi o mesmo

Valor: Instabilidade de moedas dá alto retorno a fundos

Estado de Minas: Se beber, não fale alto. Senão...

Jornal do Commercio: Guerra às cinquentinhas

Zero Hora: Sem reforma, país já tem 29 partidos

quarta-feira, outubro 05, 2011

STEVE JOBS


STEVE JOBS

loucamente excelente



ALON FEUERWERKER - O papel aceita tudo


O papel aceita tudo
ALON FEUERWERKER
CORREIO BRAZILIENSE - 05/10/11


Dilma recomenda heterodoxia aos europeus, mas o que tem garantido relativo equilíbrio e relativa capacidade de crescimento à economia brasileira é justamente o tanto de disciplina fiscal que o país conseguiu produzir

Quando veio ao Brasil, este ano, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, precisou explicar aos eleitores dele que viajava para garantir negócios e gerar empregos americanos na América. Na do Norte, claro. 
Pois o americano médio precisava entender por que Obama resolvera passear aqui quando tinha tanta coisa mais séria a tratar ali. 
Os governantes conduzem as relações externas de olho na política interna. Quando desfilam do lado de fora, continuam atentos à turma de dentro. 
Pois a fonte de poder está dentro, não fora. Quem elege são os nacionais, não os internacionais. 
Dilma Rousseff foi à Europa justo no pior (ainda que sempre possa piorar) momento da economia europeia. E tratou de discorrer sobre como não enfrentar uma crise. 
Austeridade fiscal, por exemplo, não seria recomendável. Conduz à recessão, à perda de empregos, etc. 
Esse discurso recolhe sucesso aqui dentro. Ainda mais quando acoplado ao desejo de vingança do oprimido. 
"Agora vamos ensinar a eles como é que se faz. Bem diferente de quando eles vinham aqui nos dizer como fazer." 
Reconheçamos: o Brasil a-do-ra ficar repetindo isso. Digo o povo, e não só o governo. 
Pois é mais fácil arrancar um país da condição colonial do que eliminar a cicatriz colonial da alma de um país. Revelada também na necessidade compulsiva de se mostrar, em todo momento, acima dos outros. 
Mas, e os fatos? 
O que tem garantido relativo equilíbrio e relativa capacidade de crescimento à economia brasileira é justamente o tanto de disciplina fiscal que o país conseguiu produzir após longa era de gorda inflação. 
E não foi fácil, nem automático. 
Mesmo Fernando Henrique Cardoso, cujos seguidores hoje reivindicam quase teologicamente a paternidade da responsabilidade fiscal, só descobriu as virtudes de um orçamento mais austero depois de levar o país à quebra em 1999. 
O presidente já estava convenientemente reeleito para um segundo e derradeiro mandato. E não mais tinha como vender estatais. Não mais havia coelhos para tirar da cartola. 
Aí veio Luiz Inácio Lula da Silva, cujo ato inaugural para controlar a economia deixada meio instável pelo antecessor foi dar uma bela tacada nos juros morro acima e um superavit primário recorde. 
Isso não o impediu de continuar falando mal do FMI, do Consenso de Washington, de FHC, dos neoliberais, etc. Um ilusionismo deveras útil, politicamente falando. 
Agora mesmo, o governo brasileiro insiste na necessidade de apertar o cinto. Resultado também da farra insustentável de 2010. Que prometeram perene, mas acabou. 
As dificuldades políticas em Brasília resvalam nisso. Emendas, investimentos, aumentos salariais esbarram nisso. 
Quando a crise mundial estourou, em 2008, o mundo passou a rodar a maquininha e a gastar o que tinha e o que não tinha, para fugir do colapso. Nós inclusive. 
O problema é que o endividamento chegou agora num nível complicado, sem sinal de que o remédio vai mesmo tirar o paciente da enfermaria. 
E por isso o doente ameaça voltar para a UTI. 
E volta a preocupação com as contas. 
Está certo? Errado? Vai dar certo? Não vai? 
Os assim chamados movimentos sociais, desorganizados ou organizados, torcem o nariz. Bem como os keynesianos. Dizem que o remédio heterodoxo é bom, só não veio ainda em dose suficiente. 
Esse pessoal anda meio sem ibope nos ambientes que efetivamente contam para a condução das políticas econômicas. Inclusive aqui. 
De relevante mesmo, só a impressão de incerteza generalizada. O tom entre os economistas anda meio mudado. Há alguns que até adotaram a humildade, a modéstia. 
Acredite, se quiser. É grave a crise. 
Só uma coisa é certa. Por via das dúvidas, está todo mundo, inclusive o governo brasileiro, apertando o cinto. 
Mas, e o discurso? 
Apenas comprova que o papel aceita tudo.

ANCELMO GOIS - Battisti in Rio



Battisti in Rio
ANCELMO GOIS
O GLOBO - 05/10/11

O italiano Cesare Battisti passou uma semana no Rio.
Foi ao quarteirão de Copacabana, onde viveu na clandestinidade há cinco anos. Procurou aqueles a quem pedira dinheiro emprestado antes da prisão e foi tratado como celebridade. Ninguém queria receber a dívida.

TOURO INDOMÁVEL... 
Um executivo de banco presenteou Battisti com um autógrafo do boxeador Jake La Motta, feito sobre uma foto do ator 
Robert de Niro, que fez o lutador no filme Touro Indomável. O executivo disse que, como o boxeador ítalo-americano, Battisti sofrera muito, mas “daria a volta por cima”.

CELEBRIDADE... 
Reconhecido nas ruas, Battisti tirou muitas fotos — inclusive, com turistas italianos. Ninguém o hostilizou.
No que concluiu: “Os brasileiros não existem”. É. Pode ser.

JANEIRO DE 2012 
Oscar Niemeyer avisou que, em janeiro de 2012, quando terá 105 anos, vai assistir ao show de seu amigo Chico Buarque.

DIRCEU IN RIO 
Amigos de Zé Dirceu preparam um ato em sua homenagem, dia 17, no Teatro Casa 
Grande, com direito a lançamento de seu livro, Tempos de Planície.

NO MAIS... 
Dirceu tem sido tão festejado que, qualquer dia desses, vai ter menino sonhando ser acusado de formação de quadrilha e corrupção ativa quando crescer. Com todo o respeito.

DELETA, GOOGLE 
A 18ª Câmara Cível do TJ-RJ determinou, ontem, que o Google exclua do Orkut todas as comunidades que fazem apologia ao nazismo, a crimes como pedofilia e a brigas entre torcidas.
A ação foi movida pela Procuradoria Geral do Estado.

NO PAÍS DO TINTIM 
Filho de carioca, Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, contou ontem à ministra Ana de Hollanda, na Europalia, na Bélgica, que é fã do pai dela, Sérgio Buarque – principalmente por Raízes do Brasil.
Durão ainda cantarolou um verso de Samba da Bênção, de Vinicius e Baden Powell, que diz: “A vida é a arte do encontro”.

NO PAÍS DO TINTIM II 
Aliás, Kristine de Mulder, organizadora da feira, ressaltou a importância de os europeus aprenderem com os brasileiros o valor da mestiçagem e as benesses do “viver junto”. 
Dilma destacou a cultura brasileira e suas múltiplas raízes.

NO PAÍS DO TINTIM III 
Ziraldo parecia o passageiro mais entusiasmado da comitiva de Dilma pela Europa. Ontem, quase perdeu o voo Bruxelas-Bulgária no AeroDilma. Achou que a viagem era hoje.

SEM CARTEIRA 
Virna, a ex-jogadora de vôlei, perdeu a carteira de motorista na madrugada do dia 30. Foi parada numa blitz da Lei Seca, na Lagoa, no Rio.

JUÍZO FINAL 
O Ministério da Cultura prestará uma homenagem a Nelson Cavaquinho (1911-1986), autor de clássicos como Quando eu me chamar saudade e Juízo final, dentro do projeto Seis e Meia.
Será dia 28, véspera do centenário do compositor, com Elton Medeiros e a Velha Guarda da Mangueira, na Sala Funarte, no Centro do Rio.

ROLF KUNTZ - Manufaturados e ovos



Manufaturados e ovos
ROLF KUNTZ
O Estado de S.Paulo - 05/10/11

O melhor mês de setembro da história do comércio exterior brasileiro foi garantido principalmente pela exportação de commodities, isto é, de matérias-primas e produtos semimanufaturados. Essas duas categorias proporcionaram 63,6% da receita de US$ 23,3 bilhões contabilizada no mês. Um ano antes, a participação havia sido de 60,3%. O próprio governo parece dar pouca importância a esse detalhe, embora insista em agitar a bandeira de uma até agora inexistente política industrial e de competitividade. De janeiro até o mês passado o País faturou US$ 119,8 bilhões com a exportação de básicos e semimanufaturados, 63% dos US$ 190 bilhões obtidos com as vendas ao exterior. O saldo comercial do ano, US$ 23 bilhões, já superou o de todo o ano de 2010, US$ 20,2 bilhões. O secretário executivo adjunto do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Ricardo Schaefer, atribui esse resultado à diversificação de mercados: "Se tivéssemos concentrado (as vendas) apenas nos mercados europeu e americano, já estaríamos sentindo um arrefecimento (...) Como não colocamos todos os ovos na mesma cesta, isso nos permite ter uma condição melhor de resistir à crise". Mas quem teria proposto uma distribuição imprudente dos ovos?

O Brasil é descrito como "global trader" há mais de três décadas. Qualquer pessoa informada sobre história econômica sabe disso. Nunca esteve em pauta, nesse período, o dilema de concentrar ou diversificar as parcerias. A diversificação maior, a partir dos anos 90, resultou em parte das mudanças globais, incluído o surgimento da China como potência comercial e grande consumidora de produtos básicos. Na virada dos anos 90 para a década seguinte o governo já trabalhava para ampliar as vendas à China e à Rússia. Se houver dúvida, consultem-se arquivos de jornais e do Ministério.

Se a opção entre concentrar e diversificar o comércio nunca esteve em pauta, qual foi de fato a grande escolha dos últimos anos? A resposta é dada pela seleção de "parceiros estratégicos". Essa qualificação foi atribuída à China e à Rússia, por exemplo.

O mercado russo absorve grande parte das exportações brasileiras de carnes, mas o Brasil tem sido negligenciado na distribuição de cotas, enquanto Estados Unidos e União Europeia recebem tratamento preferencial.

A China tornou-se a maior fonte de receita cambial para o Brasil, mas praticamente só importa primários e semimanufaturados. Nessa relação, o Brasil assume o papel quase colonial de fornecedor de produtos básicos e comprador de manufaturados, vendidos com câmbio depreciado e preços formados de modo pouco transparente. Ninguém precisaria ser um estrategista excepcionalmente sagaz para perceber o atrativo de um mercado em rápida expansão, como o chinês. O governo brasileiro, no entanto, ideologizou a aproximação com a China.

Os chineses, muito mais práticos, têm agido de outra forma. Não desprezaram o mercado americano nem o europeu, enquanto o governo brasileiro deu precedência a uma fantasiosa relação Sul-Sul. Com isso, negligenciou as possibilidades de acordos comerciais com os Estados Unidos e com a União Europeia, deixando espaço para chineses e outros competidores.

O Brasil nada perderia se houvesse dado mais atenção a esses mercados. Os produtores brasileiros sentiriam os efeitos da crise no mundo rico, mas ganhariam mais do que vêm ganhando. Neste ano, até agosto, 44,4% (US$ 7,3 bilhões) das exportações para o mercado americano foram de manufaturados. Em 2010, a participação foi de 51,6%. Neste ano, em oito meses, a indústria brasileira vendeu à União Europeia US$ 11,6 bilhões de manufaturados, 33% do total. Nas vendas à China esse item proporcionou apenas US$ 1,2 bilhão, 4,5% do valor exportado. Resumo: em 2011, a indústria brasileira vendeu à China um sexto dos manufaturados vendidos ao mercado americano e um décimo dos enviados à União Europeia.

O País poderia ter vendido mais tanto à Europa quanto aos Estados Unidos, se a sua diplomacia econômica tivesse sido menos ideológica e mais competente em termos comerciais. Isso não implicaria perda em relação à China, até porque o mercado chinês continua sendo um insaciável devorador de produtos básicos. Se alguém errou na distribuição dos ovos, foi o governo petista. Nem foi erro de cálculo, mas tolice ideológica. Ao mesmo tempo, o governo descuidou das condições de competitividade, apesar de seu falatório sobre política industrial. Neste ano, a produção da indústria tem fraquejado, mas não a demanda interna. A diferença aparece nas importações de bens de consumo e de bens intermediários - e na inflação, é claro. O resto é conversa.

RUY CASTRO - Conversões de pedra



Conversões de pedra
RUY CASTRO 
FOLHA DE SP - 05/10/11

RIO DE JANEIRO - Na noite de 12 de outubro de 1931, um marinheiro irlandês, já para lá de zuzu, desembarcou de um navio recém-aportado no Rio. Ao pisar a praça Mauá, olhou para o céu escuro e, súbito, um Cristo fosforescente surgiu aos seus olhos. "Milagre!", exclamou o marinheiro, a quem uma remota fé católica e as pregações do capelão não impediam que ele emborcasse tudo que houvesse de líquido a bordo e, às vezes, visse coisas.
Mas aquele era um sinal. O homem de braços abertos surgira do nada, aceso, paternal, como que chamando de volta o cordeiro que se desgarrara. O marujo voltou correndo para o navio e se entregou ao capelão. O qual, se sabia que o Cristo era uma estátua da altura de um edifício de dez andares que se inaugurava naquele dia, no alto de uma montanha, fez-se de bobo. Afinal, ganhara de graça uma alma que já dera como perdida para as biroscas do cais.
O tal marinheiro não foi a única conversão operada pelo Cristo Redentor. Nem a primeira. Antes mesmo de sua inauguração naquele dia, há quase 80 anos -antes até de ficar pronto-, a imagem do Cristo já consolidara a fé do homem que o estava construindo no topo do Corcovado: o engenheiro-arquiteto carioca Heitor da Silva Costa.
Matemático e geômetra rigoroso, nascido e formado no século 19, Heitor era indiferente às coisas místicas, quase um agnóstico. Seu interesse inicial pelo monumento pode ter sido o desafio puramente técnico. Mas o Cristo avassalador que nascia de seu gênio e concepção alterou sua visão do mundo. Dali Heitor construiria outros monumentos religiosos, em São João del-Rei, Petrópolis e no próprio Rio.
E quem, muito depois, em visita ao Rio, disse que aquele Cristo entre as nuvens balançara seu ateísmo foi a escritora americana Anne Rice. E os vampiros ficaram tiriricas.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Abertura de capital global cai 57% no 3º tri
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 05/10/11

IPOs globais recuaram 57% no terceiro trimestre ante o segundo trimestre deste ano, segundo levantamento da empresa de auditoria e consultoria Ernst & Young.
A sigla IPO designa ofertas públicas iniciais, de empresas que abrem capital. A média global do tamanho dessas ofertas recuou para US$ 100 milhões. Era de US$ 204,8 em 2010. Emissores asiáticos continuam a dominar a atividade de IPO, com 47% dos recursos globais levantados.
"Por que a China está tão forte e o Brasil, não?", pergunta Paulo Sérgio Dortas, sócio da Ernst & Young Terco, no Brasil. "Na China, o comprador é mais local, e o chinês tem muito pouca alternativa. Nosso grande comprador, porém, é o americano", diz Dortas.
Muitas empresas chegaram a acessar a Bolsa brasileira, mas apenas 11 venderam ações no mercado. Das emissões globais, 87% saíram pelo preço inicial, enquanto no Brasil, das 11 operações, apenas duas foram negociadas pelo valor estipulado no lançamento.
"As outras nove, foram para a frente com preço inferior", segundo o sócio da Ernst & Young Terco. "Ainda há espaço para IPOs na China, mas, para o Brasil, o ano acabou", afirma o executivo. "Começamos 2011, com a expectativa de 30 operações, tivemos 11", lembra.
"Há ainda três em processo de registro, mas acreditamos que nenhuma delas irá adiante. Se forem, terão valor mais baixo."

"Ainda há espaço para IPOs na China. Para o Brasil, o ano acabou. Começamos com expectativa de 30 operações, tivemos 11. Há três em processo de registro, mas não devem ir adiante. E se forem, terão valor mais baixo"
PAULO SÉRGIO DORTAS
sócio da Ernst & Young Terco

INSTRUMENTO DE IMPORTAÇÃO
A Michael Instrumentos Musicais, do grupo mineiro Classic, investirá R$ 20 milhões para atender à demanda do final deste ano. O valor será usado para abertura de escritórios em São Paulo e no Recife e importação e desenvolvimento de novos instrumentos. A empresa espera vender mais 60 mil peças em 2011. "O mercado está em expansão devido à obrigatoriedade do ensino de música nas escolas", diz o diretor-presidente da companhia, Marco Aurélio Bousas. Os produtos importados são responsáveis por 80% das vendas no país, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Instrumentos Musicais e Áudio.
"Com a alta do dólar, é possível que as empresas nacionais ganhem mais licitações das prefeituras, pois têm preferência se o preço for até 25% mais caro, e aumentem a participação no mercado", diz o presidente da entidade, Anselmo Rampazzo.

Falta mão de obra para terceirização na Copa

O setor de serviços terceirizados e trabalho temporário receia que vá faltar mão de obra para os preparativos da Copa e durante o evento. Mais de 80% dos empresários neste mercado afirmam que a carência de mão de obra qualificada está entre as principais dificuldades a serem enfrentadas na prestação de serviços durante o evento.
A segunda preocupação, que envolve a documentação oficial para licitações é menos intensa, mencionada por 25%, segundo pesquisa do Sindeprestem e da Asserttem (sindicato e associação do setor), a ser divulgada amanhã. A logística de atendimento também figura entre os desafios do setor.
"Para se ter uma ideia do tamanho que tem o nosso mercado hoje, neste Natal, serão 147 mil vagas temporárias no país para serem preenchidas. É um sinal de como estamos e do que vamos precisar para essa Copa", afirma Jismália Alves, diretora da Asserttem. Nem todas as companhias que atuam na área estão acostumadas a trabalhar em eventos de médio e grande porte. Entre os entrevistados, apenas 58% já tiveram alguma experiência nesta área.

ARTE À VENDA
A arte contemporânea brasileira caiu no gosto do mercado internacional. As exportações somaram US$ 24,2 milhões (R$ 45 milhões) de janeiro a julho deste ano. O valor aproxima-se dos US$ 26,6 milhões (R$ 49 milhões) de 2010. O Brasil é o país da América Latina que mais exporta arte, está à frente do México e da Argentina. A crise afastou, em 2010, três grandes compradores de arte brasileira -Reino Unido, França e Espanha- e fez cair as exportações em 31%.
Os dados preliminares de 2011, porém, apontam para um recorde de exportações, de acordo com Mônica Novaes Esmanhotto, gerente do Projeto Brasil Arte Contemporânea, da ApexBrasil (agência estatal de promoção de exportações). Não há nos registros o período artístico das peças exportadas, mas os tipos de obras sugerem que a maioria são de arte contemporânea. "Estão todos interessados. A arte contemporânea brasileira está valorizadíssima", diz Cândida Sodré, da casa de leilão Christie"s.

NÚMEROS
US$ 24,2 MILHÕES
foram exportados em obras de arte de janeiro a julho deste ano

US$ 26,6 MILHÕES
foi o total vendido pelo Brasil para outros países no ano passado

Humor... Uma pequena perda de otimismo foi registrada neste ano entre os empresários, na comparação com o ano passado, com relação a vendas e lucros, de acordo com levantamento realizado pela Amcham.

...nos negócios No ano passado, 79% apostavam em vendas crescentes ante o período anterior, agora são 71%. Para 2012, a expectativa volta ao padrão de 2010 (77%). A fatia de companhias que acreditam em aumento do lucro, que era de 64% em 2010, passa para 55% neste ano.

Desperdício... O Brasil é o país que mais se preocupa com o desperdício de alimentos, segundo pesquisa da Unilever Food Solutions, divisão da multinacional para o mercado de alimentação fora do lar, com 4.000 entrevistados.

...na mesa A maioria dos brasileiros (96%) se preocupa com o volume de comida desperdiçada e considera relevante o descarte sustentável dos resíduos em restaurantes. A preocupação com a quantidade de comida descartada nas refeições fora de casa é mais comum em países emergentes.

com JOANA CUNHA, VITOR SION, LUCIANA DYNIEWICZ e PEDRO SOARES.

ANTONIO PRATA - Anistia para o tomate seco



Anistia para o tomate seco
ANTONIO PRATA 
FOLHA DE SP - 05/10/11

No início dos anos 1990, não havia restaurante ou evento que não oferecesse tomate seco no cardápio


Sei que na última quarta prometi continuar minha lista das coisas-que-não-funcionam, abarcando também as ideias-que-não-funcionam, como o camping, pintar a própria casa e relação a três. Se não cumprirei com minha palavra é porque nesses dias descobri que, de todas as ideias-que-não-funcionam, a mais estéril é decidir com antecedência o tema de uma crônica. Crônicas são como cogumelos, brotam onde querem, espontaneamente, e não convém colhê-las muito antes da hora nem demorar para tirá-las da terra, sob o risco de secarem e perderem o sabor.
Vejo um leitor franzir o cenho. O quê? O funghi secchi? O bacalhau? A baunilha? É verdade, é verdade, aí estão alimentos que, desidratados, ficam mais saborosos do que "in natura". Devo agradecê-lo, perspicaz leitor: seu comentário não só me faz perceber o equívoco de minhas divagações fúngico-literárias como me traz ao verdadeiro tema deste texto, um tema que eu jamais encontraria sozinho, errando por parágrafos como quem passeia por bosques, em busca de crônicas e cogumelos; falo de um alimento desidratado e saboroso, que conheceu dias de glória, não faz muito tempo, mas caiu em desgraça e hoje vive quase no esquecimento. Falo do tomate seco.
No início dos anos 1990, não havia evento ou restaurante digno de nota que não o oferecesse no cardápio. Estava em pizzas, saladas e sanduíches. Em casamentos, vernissages e bar-mitzvás. Era chique, porém moderno. Saboroso, porém saudável. Vinha embebido em azeite, quando o azeite começou a ficar na moda. Trazia novidades, como a mozarela de búfala e a rúcula, sabia reverenciar os mais velhos, como o rosbife. E então, o que aconteceu? Feito um artista que estoura rápido demais, não soube administrar a carreira, perdeu-se na superexposição. Foi parar em rótulos de batata chips. Passou a ser figurinha carimbada em sanduíches de metro nos bufês infantis. Renegou os antigos amigos -a rúcula, a mozarela de búfala, o rosbife - e enrolou-se com queijo prato e presunto gordo, em sórdidos balcões de alumínio, ao lado de ovos azuis e torresmos amanhecidos.
O resultado, todos conhecem. Ninguém foi tão rápido do estrelato ao ostracismo: nem a lambada, nem o Collor, nem o Keep Cooler. Hoje, o tomate seco é como o John Travolta, antes de "Pulp Fiction": um modismo condenado ao limbo do passado recente, onde se debatem as pessoas, os objetos, as músicas e os cortes de cabelo que não são nem tão novos para permanecer cool, nem tão velhos para chegar ao vintage.
Pois eu estou disposto a acabar com essa condenação. Quero ser para o tomate seco o que o Tarantino foi para o John Travolta. Quero lembrar ao mundo que ele é mais do que um gostinho bonito, que tem talento e estatura para sair da história e voltar para a vida. Façam um pequeno esforço: da próxima vez que forem ao supermercado, comprem um pote e me digam se esse alimento nutritivo e saboroso não merece estar de novo entre nós -ele, que jamais se envolveu com PC Farias, não teve qualquer ligação com a banda Kaoma nem foi responsável por misturar vinho com suco de cereja. Que a justiça seja feita -e bom apetite.

GOSTOSA


ILIMAR FRANCO - Não à Petrobras


Não à Petrobras 
ILIMAR FRANCO
O Globo - 05/10/2011

A presidente Dilma vai se reunir com o ministro Edison Lobão (Minas e Energia), na segunda-feira, no Planalto. Vão tratar de reivindicação do presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, para flexibilizar as regras para as compras necessárias para explorar o petróleo do pré-sal. A inclinação da presidente é pela manutenção, no pré-sal, do grau de nacionalização de 65% das peças e materiais usados pela empresa, como ocorre no pós-sal.

Novas regras para destruição das drogas
O governo fechou ontem, num encontro que reuniu o presidente em exercício, Michel Temer, e o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça), texto de projeto de lei que visa a garantir a destruição das drogas apreendidas e disciplina o uso de bens apreendidos em mãos de criminosos. As drogas terão de ser destruídas em, no máximo, 45 dias. O trabalho terá vistoria. Os bens recolhidos (veículos, barcos e aeronaves) poderão ser usados pela polícia, mas desde que tenham autorização judicial. O leilão de bens apreendidos será feito por pregão eletrônico, e a venda não poderá ocorrer por valor menor que 80% da avaliação.

Enquanto a dona da pensão não chegar, não tem conversa" - Delcídio Amaral, senador (PT-MS), sobre o congelamento das negociações dos royalties do petróleo enquanto a presidente Dilma estiver no exterior

Proposta Alternativa
O petróleo já licitado era um território intocável. Mas, ontem, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) entrou no debate da redefinição dos royalties do já licitado. Ele apresentou projeto que destina aos produtores 34% dessa receita. Os números são iguais aos da proposta que o ex-presidente Lula mandou à Câmara em dezembro de 2010. Este percentual é inferior aos 49,25% da proposta do relator da lei da partilha na Câmara, o líder do PMDB, Henrique Alves (RN).

Dramático
Inconformado com o rumo do debate sobre os royalties do petróleo, Marcelo Crivella (PRB-RJ) protestou na tribuna do Senado: "Isso aqui é a ditadura da maioria". E acusou a Casa de promover "a balcanização do Brasil".

Na contramão
O líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR), e do DEM na Câmara, ACM Neto (BA), insistiram ontem, na reunião com o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), em manter para hoje a votação do veto de Lula à emenda Pedro Simon.

Modelo
A equipe do ministro Moreira Franco (Assuntos Estratégicos) vai adotar o programa Pró-Acre, que tem apoio do Banco Mundial, para dar assistência a 60 mil brasileiros que vivem em 600 lugarejos na fronteira norte do país.

Disputa de egos
O governador Sérgio Cabral "liberou" os parlamentares do Rio para negociar com o senador Wellington Dias (PT-PI), autor da proposta que redistribui os recursos do petróleo. Mesmo assim, só cinco deputados compareceram ontem à reunião com Dias, capitaneados pelo deputado Edson Santos (PT-RJ). A iniciativa foi bombardeada pelo coordenador da bancada do Rio, deputado Hugo Leal (PSC-RJ), que se sente atropelado pelo petista.

Dia do fico
O senador Flexa Ribeiro (PSDB) desistiu de migrar para o PSD. Ele disputa com o presidente regional do PSDB e líder da Frente Contra a Divisão do Pará, o deputado Zenaldo Coutinho, a indicação para concorrer à prefeitura de Belém.

O MINISTÉRIO do Meio Ambiente não gosta da ação do senador Lindbergh Farias (PT-RJ) no debate do Código Florestal. Ele se aliou ao PSOL e isso dificulta um acordo com os ruralistas no Senado.

O DEPUTADO Miro Teixeira (PDT-RJ) é contra a cobrança do governador Sérgio Cabral, para que a presidente Dilma antecipe um veto à lei dos royalties: "Sou contra constranger a presidente da República. A solução tem que sair daqui, do Congresso".

DEPOIS de escapar da cassação, a deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF) foi recebida ontem pela ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil).