terça-feira, outubro 04, 2011

EDITORIAL O ESTADÃO - Dilma Rousseff, no comando do BC


Dilma Rousseff, no comando do BC
EDITORIAL 
O ESTADÃO - 04/10\;11

A presidente Dilma Rousseff assumiu oficialmente o comando do Banco Central (BC) e a política de juros é agora decidida no Palácio do Planalto. O plano do governo para 2012 é baixar a taxa básica para 9%, porque "ainda há margem de manobra" para novos cortes, segundo informou ao Estado o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. A conversa, com participação de dois outros membros do primeiro escalão do Executivo, foi bastante clara para eliminar qualquer dúvida: há um plano traçado no Palácio do Planalto e a decisão final caberá à presidente. Ressalvas quanto ao ritmo dos cortes - determinado com "prudência", segundo o secretário - em nada alteram o dado principal. A autonomia de fato do BC, adotada nos anos 90 e mantida nos dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é uma experiência encerrada, embora ninguém, na administração federal, o admita de forma explícita. Não há outra forma de entender as declarações do secretário-geral nem os pronunciamentos da presidente Rousseff e do ministro da Fazenda, Guido Mantega, desde a última semana de agosto.

Esses pronunciamentos foram logo seguidos pelo anúncio da redução dos juros, decidida pelo Comitê de Política Monetária (Copom). A aparente dissidência - a decisão foi tomada por 5 votos contra 2 - até poderia ser interpretada como sinal de permanência da autonomia de fato. Em pouco tempo as palavras do ministro e da presidente confirmaram a interpretação oposta. Eles continuaram falando sobre os cortes de juros como se apontassem o caminho ao BC. E, na sexta-feira, a presidente foi absolutamente explícita - mais do que pretendia, provavelmente - ao defender a redução da taxa básica como resposta ao agravamento da crise internacional. "Desta vez", disse ela, "o Brasil não pode errar na avaliação do quadro externo." Não seria "admissível", acrescentou, deixar de levar em conta o risco de recessão e de deflação no resto do mundo. Não é o tom de quem apenas manifesta um desejo, mas de quem transformou o Banco Central em mais um instrumento da política econômica do governo.

Ontem, o ministro da Fazenda voltou a falar sobre as medidas possíveis diante de uma piora do cenário global e mencionou novos cortes de juros e redução do depósito compulsório dos bancos. Usou o pronome "nós", ignorando qualquer separação relevante entre o BC e o comando do Executivo.

Além de comandar a redução dos juros, a presidente da República decidiu também, segundo todas as evidências, afrouxar o regime de metas de inflação. Sem usar essas palavras, o BC admite o fato num relatório trimestral divulgado na semana passada. Pelas projeções publicadas, a inflação acumulada em 12 meses só voltará ao centro do alvo (4,5%) no terceiro trimestre de 2013 - mas essa hipótese, a mais otimista, só aparece num dos três cenários apresentados.

O afrouxamento do combate à inflação será adotado num período de eleições municipais, com salários em alta e sem garantia, além de meras promessas, de efetiva austeridade fiscal. Ao mesmo tempo, o Executivo embarca em políticas protecionistas muito mal disfarçadas, com o pretexto de tornar mais competitivos certos setores da indústria nacional. Medidas efetivas para promover esse aumento de competitividade permanecem na esfera das promessas e de planos muito mal esboçados.

Bons argumentos a favor de uma política monetária mais branda poderiam surgir em breve, com o provável agravamento da crise no mundo rico. O primeiro passo poderia ser a redução do depósito compulsório, para ampliação do crédito. Vendas de dólares, como em 2008, poderiam ser um complemento, em caso de escassez de financiamentos em moeda estrangeira. O BC tomou medidas como essas no início da grande crise, há três anos, e foi muito mais eficiente, na ação imediata, do que o Ministério da Fazenda - ao contrário da versão cultivada no Palácio do Planalto. Mas o governo preferiu agir às pressas, impondo ao BC uma ação arriscada, alimentando a expectativa de inflação e desmontando a credibilidade do regime de metas e da autoridade monetária. Esse retrocesso pode sair muito caro para o País.

RENATA LO PRETE - PAINEL



Tática de alto risco
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 04/10/11

Começa a se delinear um racha na tropa liderada por Sérgio Cabral (PMDB) na batalha dos royalties do petróleo. Embora unidos na crença de que os blocos já licitados deveriam ser excluídos da redistribuição, parlamentares do Rio divergem quanto à forma de pressão.
A escalada retórica de Cabral, que ontem voltou a emparedar Dilma Rousseff ao cobrar publicamente da presidente o veto a qualquer mudança nesse sentido eventualmente aprovada pelo Congresso, constrange alguns aliados. Para eles, a guerra aberta tende a ser perigosa, seja porque a posição do Rio é minoritária, seja porque Dilma não gosta de ser tratada assim.

Olha eu aqui Segundo observador privilegiado, a questão eleitoral contaminou de vez o debate sobre os royalties: "Está todo mundo no Rio competindo para ver quem fala mais alto. Não pelo Estado, mas pelos votos".

Nem vem Representantes da bancada do Rio desdenham da versão segundo a qual o Planalto seria apenas observador do litígio. Notam que o relator do projeto em discussão no Senado, Vital do Rego (PMDB-PB), não sai do Ministério da Fazenda.

Dia seguinte Quando voltar da Europa, Dilma enfrentará pressão renovada para arbitrar a encrenca dos royalties. Os governadores já pediram audiência.

Não é comigo Em conversa com representantes da Fifa, a presidente sinalizou que não pretende se envolver na questão da meia entrada para estudantes, tema regido por legislação estadual, em jogos da Copa. O provável é que a entidade máxima do futebol negocie esse ponto diretamente com os Estados.

Sujou Termo assinado pela Prefeitura de São Paulo com o comitê local de organização da Copa permite a aplicação da logomarca dos patrocinadores oficiais do evento em banners e postes, na contramão da Lei da Ficha Limpa de Gilberto Kassab.

Deflação 1 A despeito das aspas coloridas, a entrevista de Roque Barbiere (PTB) foi considerada, no Palácio dos Bandeirantes e na Assembleia, um recuo em relação à acusação original do deputado, segundo quem até 30% de seus pares venderiam emendas ao Orçamento paulista. Agora, ele admite que pode ter "exagerado" e promete entregar ao Ministério Público informações relativas a "pelo menos um caso".

Deflação 2 Para completar, a declaração de que é "impossível" atender sua base com R$ 2 milhões em emendas vocaliza um pleito generalizado dos colegas e foi interpretada como senha para a solução do problema.

O quinteto Os senadores Eduardo Suplicy (PT-SP) e Pedro Simon (PMDB-RS) e os deputados Luiza Erundina (PSB-SP), Aldo Rebelo (PC do B-SP) e Chico Alencar (PSOL-RJ) são os únicos parlamentares finalistas nas seis edições do Prêmio Congresso em Foco. Neste ano, os vencedores serão conhecidos somente na noite da premiação, no próximo 7 de novembro.

Temperatura 1 Sai nesta semana o ganhador da licitação realizada para escolher o instituto que fará pesquisas para o Palácio do Planalto. Estão no páreo Ibope, Vox Populi, CP2, Pesquisa e Planejamento, GFK e Meta.

Temperatura 2 Tão logo anunciado o resultado, o governo pretende que o instituto vá a campo medir o grau de conhecimento e a avaliação dos programas já anunciados por Dilma, além de realizar diagnósticos mais precisos a respeito de temas como a saúde pública.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio

"O Cabral e o Lindbergh estão jogando para a plateia, e acham que ninguém percebe. Eles estão mais atrapalhando do que ajudando o Rio de Janeiro."
DO DEPUTADO ANDRÉ VARGAS (PT-PR), sobre a atitude beligerante do governador peemedebista e do senador petista no debate sobre a redistribuição dos royalties do petróleo.

contraponto

Força do exemplo


Certa vez, quando presidia sessão do STF, Sydney Sanches notou que um advogado dormia a sono solto no plenário. Chamou então o "capinha" -como são conhecidos os auxiliares dos ministros- e pediu que advertisse o dorminhoco: ou se punha em alerta, ou teria de sair.
O "capinha" cutucou o advogado, transmitiu a mensagem e, depois de ouvir a resposta, voltou ao presidente:
-Ele disse que continuará a dormir até o senhor acordar também o ministro ali...
Era Paulo Brossard, famoso por "apagar" nas sessões.

DORA KRAMER - Perdas e ganhos


 Perdas e ganhos
DORA KRAMER 
O Estado de S.Paulo - 04/10/11

Não é fácil a solução do problema da distribuição dos royalties do petróleo empacado no Congresso.

De um lado, os "não produtores" têm maioria suficiente para derrubar o veto do então presidente Lula à proposta de distribuição igualitária entre todos os Estados.

De outro, a derrubada do veto, coisa rara no Congresso, cravaria uma derrota política no portfólio do governo.

De um lado, os "produtores" podem recorrer ao STF. De outro, o tribunal pode mandar suspender os pagamentos até que a questão esteja revolvida, resultando em problemas de caixa imediatos para os requerentes.

Além disso, a quase totalidade dos envolvidos é de aliados do governo federal, o que dificulta politicamente qualquer tipo de interferência do governo ou tentativa de arbitrar uma solução.

O senador Lindbergh Farias (PT-RJ) não deixa de ter razão quando reclama que o governo federal se omite. Mas não leva em conta o fato de que o Rio, maior interessado na manutenção da distribuição o mais próximo possível de como é feita hoje, não contou em nenhum momento desse debate com a condução de uma negociação competente dentro do Parlamento.

Desde o início o governador Sérgio Cabral Filho gritou muito e atuou pouco. Preferiu sempre se fiar na aliança com Lula. Bem como parece que os governadores dos outros Estados produtores resolveram pegar carona nessa suposição.

Esta, de fato, rendeu a Cabral o veto do presidente à emenda Ibsen Pinheiro. Mas, como se vê agora, não pôde tudo.

Da mesma forma como os parlamentares representantes do Rio se posicionam em prol do Estado, independentemente da relação com o poder central, a maioria dos senadores nesse assunto também leva em conta os interesses dos respectivos eleitorados.

E nessas horas vale mais a força das bancadas que o peso do poder central.

Mas, como há perdas e ganhos em jogo de todos os lados, nenhum deles está interessado no confronto. Daí a ideia de adiar a votação do veto, daí a perspectiva de construir uma solução negociada.

Ainda que ao arrepio do cumprimento da função do Legislativo, que seria a de pôr o veto a voto.

Ilusão à toa. A informação relevante que a última pesquisa CNI/Ibope trouxe foi o aumento da aprovação do desempenho da presidente Dilma Rousseff nas Regiões Sul e Sudeste, tradicionalmente mais resistentes aos encantos governamentais.

O gerente de pesquisas da contratante, a Confederação Nacional da Indústria, atribui tal resultado à dita faxina que, na realidade, não passou de alguns movimentos iniciais - todos provocados por denúncias da imprensa - e não resistiu ao escrutínio das conveniências políticas.

Havia, por exemplo, promessa do governo de mexer nas regionais do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), o "coração" do escândalo que derrubou a cúpula do Ministério dos Transportes.

Até hoje, dos 23 superintendentes só um saiu e "a pedido". Pode ser que o governo tenha chegado à conclusão de que andava tudo bem e nos conformes naquelas seções do Dnit. Nesse caso, esqueceu de avisar ao respeitável público.

Mas, a rigor, nem precisava. A percepção popular é tolerante, não contabiliza fatos - como a permanência de parentes de políticos empregados na estrutura da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em flagrante ocorrência de nepotismo -, preferindo se contentar com aquilo que lhe proporciona uma sensação positiva.

É nessa ausência de compromisso com a objetividade e no baixo grau de exigência em relação à efetividade de suas ações que os governos se baseiam para seguir dando mais atenção aos interesses internos de sua coalizão de partidos que às manifestações externas em defesa do melhor costume.

A "base" pressiona no cotidiano e não abre mão do que entende serem seus "direitos". Já a sociedade, destreinada na arte de se organizar, desprovida de referências nos movimentos sociais e partidários, acaba deixando-se facilmente capturar pela confortável, mas paralisante, armadilha da ilusão.

VLADIMIR SAFATLE - Para além dos partidos


Para além dos partidos
VLADIMIR SAFATLE
FOLHA DE SP - 04/10/11

Costuma-se dizer que a democracia depende de partidos políticos fortes. No entanto talvez fosse mais correto dizer que ela depende da possibilidade de mobilizações populares para além dos partidos.

É importante lembrar isso em um momento histórico como o nosso, onde a força transformadora da forma-partido se esgotou.

Desde o início do ano, o mundo assistiu a uma sucessão impressionante de mobilizações populares. Tunísia, Egito, Israel, Chile, Espanha, Grécia, Síria, Bahrein, Reino Unido e, agora, os EUA -com as ocupações de Wall Street por "indignados". Raros foram os momentos históricos em que mobilizações ocorreram de forma tão global.

Olhando mais calmamente para elas, notam-se dois importantes pontos em comum: a presença maciça de jovens e uma organização feita a despeito dos partidos.

É bastante clara aqui a consciência de que a forma-partido, como a conhecemos, parece bloquear o campo do político e embotar a criatividade social exigida pelo confronto com novas situações. Os partidos não estão na vanguarda, mas a reboque dos processos.

São os jovens que, sabiamente, sentem mais claramente essa realidade. Por isso, eles não parecem dispostos a se engajar em partidos que submetem a inventividade do político ao raciocínio estratégico do dia. Na verdade, eles estão à procura de outra forma de organização política.

Muitas vezes, alternativas dessa natureza foram conjugadas no interior da lógica "mudar o mundo sem conquistar o poder". Bem, o que se pode dizer a respeito desse raciocínio é: os detentores do poder agradecem.

Ao contrário, espera-se de novas formas de organização política que elas apresentem modelos mais eficientes de governo, que elas nos ensinem, inclusive, a avaliar de outra forma ideias como "eficiência". Ou seja, não se deve temer o poder.

Há de se reconhecer a complexidade da equação: não aceitar o modelo de gestão do poder baseado na forma-partido sem cair em alguma forma de crença no espontaneísmo redentor da "vontade política".

Pensando nisso, talvez vejamos em alguns anos o aparecimento de algo como agremiações eleitorais compostas por vários pequenos grupos políticos que se unem para disputar eleições e modificar, por dentro, a lógica restrita da democracia parlamentar.

Modificação que permita a abertura da vida social para uma democracia com mais densidade de participação popular e com menos medo de uma soberania que se manifeste sem a necessidade de representações.

Certo é que, no mundo inteiro, os partidos não encantam mais.

HÉLIO SCHWARTSMAN - Quem julga os julgadores?


Quem julga os julgadores?
HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 04/10/11

SÃO PAULO - Mais do que formas platônicas e paradoxos matemáticos, a pergunta do título evoca um problema organizacional concreto dos Estados modernos, do que dá prova a polêmica em torno do CNJ.
A corregedora do órgão, Eliana Calmon, afirmou que a magistratura tem "gravíssimos problemas de infiltração de bandidos que estão escondidos atrás das togas". Traduzindo para a lógica formal, ela proferiu um juízo particular contingente que pode ser resumido na fórmula: "existem magistrados corruptos".
Até as pedras sabem que isso é verdade no Brasil, na Finlândia, em Vanuatu e provavelmente em qualquer lugar onde interajam juízes, jurisdicionados e dinheiro.
O CNJ, porém, não partilha da sabedoria das rochas. Doze dos 15 integrantes do conselho assinaram uma nota em que repreendem a corregedora por "acusações levianas". Como não há justificativa lógica para essa interpretação, é forçoso concluir que foi mais o "esprit de corps" do que a boa hermenêutica jurídica que moveu os magistrados, o que nos leva ao cerne do problema: o corporativismo inscrito na natureza humana.
Já no século 18, os primeiros teóricos da democracia perceberam a necessidade de dotá-la de um sistema de freios e contrapesos pelo qual diferentes agentes e segmentos do Estado limitariam o poder uns dos outros.
A coisa funciona melhor na teoria do que na prática. Algumas pontas, como a dos que julgam os julgadores, acabam meio soltas. De um lado, esses metajuízes precisam ter o saber técnico, o que praticamente limita a escolha a magistrados. De outro, é preciso evitar os perigos do corporativismo, do qual, como vimos, nem a cúpula do Judiciário está livre.
Aqui, não há solução perfeita. O julgamento "inter pares" pode ser uma necessidade, mas o "inter compadres" não. Se não há como evitar que um juiz seja julgado por outro juiz, é preciso impedir ao menos que seja o seu amigo e vizinho de sala.

DILMA A CHEFE DO MALFEITO



RAYMUNDO COSTA - Greve nos Correios joga PT contra PT


Greve nos Correios joga PT contra PT
RAYMUNDO COSTA
VALOR ECONÔMICO - 04/10/11

Há uma novidade na relação do governo federal com as greves no setor público. A direção dos Correios, que é do PT, resolveu endurecer - como nunca antes nos últimos sete anos - na negociação com os sindicatos da categoria, que é filiada à Central Única dos Trabalhadores (CUT). Hoje a Justiça do Trabalho realiza a primeira audiência de conciliação, após 21 dias de greve dos carteiros. Ação de dissídio coletivo ajuizada pela ECT.

"Em oito anos do governo Lula negociei seis greves, uma delas de 21 dias", diz o secretário-geral da Federação Nacional dos Trabalhadores nos Correios, José Rivaldo da Silva. "Negociamos com o próprio Lula e não houve desconto de dias parados. Houve compensação". A direção dos Correios não aceita fazer acordo em torno dos dias parados.

Rivaldo da Silva explica a distinção: "Os carteiros não pedem pura e simplesmente o pagamento dos dias parados, ao final da greve. Eles se comprometem a compensá-los trabalhando fora do horário normal do expediente". Aos sábados, por exemplo.

A impressão de Rivaldo da Silva é que a ECT colocou a questão do "desconto" na folha de pagamentos como questão de honra. Assim levaria os funcionários a pensar duas vezes antes de decretar uma greve no próximo ano. Nos Correios, a expressão empregada é "reeducação" do movimento sindical, para irritação dos sindicalistas.

A percepção de Rivaldo da Silva não é desproposital. A presidente Dilma Rousseff tem registrado "ameaças" de paralisações de algumas categorias de primeira linha do serviço público, como as de servidores da Polícia Federal e da Secretaria da Receita Federal, e a todos os "recados" tem respondido da mesma maneira: não vai ceder nas negociações: 2011 é igual a zero de aumento. Pelo menos nesses dois casos.

Os servidores da PF e da SRF integram carreiras de Estado e estão entre os mais bem remunerados do funcionalismo público, o que não é o caso dos carteiros. A ECT fez uma contraproposta: inflação do periodo (6,87%), mais R$ 50 de reajuste linear para todos e a inflação nos demais benefícios, como vale refeição, auxilio-creche. A proposta foi recusada pela categoria.

Os Correios estão na linha de tiro da presidente por outro motivo. A ECT é um dos três órgãos públicos nos quais botou um "xerife" para organizar a casa, desarrumada após anos de gestão rateada entre os partidos integrantes da base aliada do governo.

As outras duas são a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e Furnas Centrais Elétricas, não por acaso, até recentemente domínios do PMDB. Um escândalo nos Correios foi a ponta do fio do novelo que levou até o mensalão, o esquema supostamente de compra de votos (há quem diga que se tratou de caixa 2 de campanha) pelo governo Lula no Congresso.

O jogo duro da direção dos Correios é o que efetivamente "prejudica a população", diz Rivaldo da Silva, invertendo responsabilidade em geral atribuída aos grevistas, nos movimentos paredistas. São cerca de 40 milhões de objetos que deixam de ser diariamente entregues em todo o país. O desabafo de Rivaldo da Silva é feito na medida exata das dificuldades registradas na atual negociação.

"O que o presidente da ECT, que é do PT, foi do Sindicato dos Bancários, Wagner Pinheiro, tá fazendo é terrorismo", diz Rivaldo da Silva. "Você sabia que ele antecipou o pagamento da folha, com descontos dos dias parados, só para fazer terrorismo, agitar ainda mais a categoria"?

ACM "foi o nosso algoz", diz Rivaldo da Silva, referindo-se ao senador baiano Antônio Carlos Magalhães, ministro das Comunicações no governo José Sarney, morto em 2007) " Ele (Wagner) é pior do que o ACM Nem ACM fez isso. Houve desconto com ACM, sim, mas até ele esperava terminar a greve para tomar uma decisão como essa. Nunca houve antecipação de folha de pagamento com desconto para apavorar".

Rivaldo participou de cinco negociações com o PMDB, "que a gente tanto quis fora da empresa". E nas quatro greves realizadas com os pemedebistas na diretoria, "a negociação era estabelecida, abria-se imediatamente um canal de diálogo, de negociação para achar uma solução, uma proposta aceita pela base", conta. "Infelizmente, com os companheiros do PT não estamos encontrando a mesma abertura para o diálogo. E, olhe que iniciamos a negociação da data base há 46 dias e até agora não chegamos a um entendimento, a uma proposta que fosse defensável nas nossas assembleias".

A reação do ministro Paulo Bernardo (Comunicações), a quem está subordinada a ECT, também deixou perplexo o comando de greve na empresa. Basta ver o espanto demonstrado por Rivaldo da Silva: "Ele disse que os trabalhadores dos Correios não estão de greve, mas de férias. Não falei que está pior do que na época do ACM e que é mais fácil negociar com o PMDB"?

Sem acordo com o ministério nem com a presidência da ECT, os grevistas tentaram vias alternativas. Além da diretoria de Recursos Humanos dos Correios, os sindicalistas também procuraram o assessor para assuntos sindicais do ministro Gilberto Carvalho (Secretaria Geral da Presidência), José Lopes Feijóo, que renunciou a uma vice-presidência da CUT para trabalhar no Palácio do Planalto. Deu em nada, muito embora os sindicalistas ressalvem que Feijóo tentou ajudar.

Digno de registro é o fato de que os trabalhadores nos Correios nem sequer pensaram em pedir a intermediação do ministro do Trabalho, Carlos Lupi. Há outras greves em andamento no país, como a dos bancários, mas nenhuma notícia sobre o envolvimento do ministro do PDT em negociações com os trabalhadores. Nem de que ele esteja fazendo falta à mesa.

"A gente vê horizonte para conseguir um reajuste, mas não vê horizonte para se chegar a um acordo quanto a dias parados", diz Rivaldo Dias. "E a gente pensava que era gente nossa". De acordo com o sindicalista, o desconto dos dias parados "coloca mais combustível" na greve. "Lamentamos isso que está ocorrendo com a nova diretoria da ECT".

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília.

ILAN GOLDFAJN - Em tempos de crise


Em tempos de crise
ILAN GOLDFAJN
O GLOBO - 04/10/11

O humor em Washington estava péssimo. As datas da reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial têm por vezes a infeliz característica de coincidir com crises internacionais de grande magnitude. Foi assim em 2008, quando a reunião coincidiu com a crise do Lehman Brothers.

Nessas ocasiões, os investidores reunidos em eventos paralelos aos oficiais reforçam mutuamente seus receios. Neste ano, a sensação era de que as autoridades econômicas europeias não eram capazes de reagir na velocidade exigida para evitar uma crise na Europa.

A crise da Europa tomou novas dimensões: aumentou a probabilidade de uma reestruturação mais forte da dívida grega no curto prazo. As autoridades parecem resignadas a aceitar a insolvência da Grécia. O objetivo agora parece ser proteger os demais países da região - e seu sistema bancário - do contágio. Para isso seria necessário um novo plano. A ideia é usar o Fundo Europeu de Estabilização (EFSF, na sigla em inglês) de forma mais "eficiente".

O Fundo Europeu de Estabilização, após a aprovação nos parlamentos dos países membros, poderá ser usado até a capacidade dele de 440 bilhões de euros. Esse volume de dinheiro seria suficiente para resolver o problema lá atrás, quando se achava que estava confinado à Grécia, a Portugal e à Irlanda. Mas, agora, com o problema se alastrando para a Itália, a Espanha e vários bancos da Europa (expostos aos países com problemas), o pacote ficou pequeno. Serão necessários pelo menos 300 bilhões de euros para recapitalizar os bancos na Europa e cerca de 500 bilhões a 600 bilhões de euros para atuar no mercado secundário, comprando títulos da dívida de Irlanda, Portugal, Grécia, Espanha e Itália (este montante é menor do que a dívida total de 1,5 trilhão de euros). Falase na necessidade de um total de 800 bilhões de euros, mas que provavelmente teria que chegar à casa de 1 trilhão a 2 trilhões de euros. Ficou claro é que o fundo original de 440 bilhões de euros não será suficiente. O problema é que os governos fortes europeus (principalmente o da Alemanha) não gostariam de dar todo esse dinheiro.

Exigiria muito imposto e/ou muito endividamento. A solução proposta, então, é usar os recursos aprovados como se fossem capital de um novo fundo. Os governos continuariam comprometidos com 440 bilhões de euros, mas o fundo se alavancaria, emitindo títulos para captar o restante até 2 trilhões de euros. Com isso poderiam, a princípio, resolver o problema usando os recursos para capitalizar os bancos e comprar títulos dos países afetados.

É importante entender que aumentar os recursos disponíveis emitindo títulos no mercado (ou outras formas) não é uma solução mágica. O aumento do tamanho do fundo teria uma e/ou duas das seguintes características: uma garantia implícita dos governos europeus ou a participação de novos países (China etc.) para bancar o custo do resgate.

A questão é essencialmente política. Os recursos estão disponíveis, mas o montante é muito alto, necessitando, para ser aprovado, de uma coordenação política entre os países europeus.

Não está claro que exista essa coordenação hoje na Europa. É possível que a situação ainda tenha que piorar para os governos se sentirem na obrigação de comprometer tamanha quantidade de recursos para evitar o pior.

A consequência dessa incerteza toda na Europa é que está mais disseminada a visão de perspectivas piores para o crescimento global. Estima- se que a Europa tenha um crescimento negativo em 2012.

Uma desaceleração mais intensa, que leve a uma economia global muito mais frágil, deve gerar desaceleração no mundo emergente também, inclusive no Brasil. Projetando a Selic para 9-10% já em 2012, o crescimento poderia se sustentar em torno de 3,5% (e a inflação ficaria acima do centro da meta, em 5,5%).

Esse cenário de baixo crescimento global não é de ruptura. Uma ruptura seria se, neste momento de incerteza, acontecesse uma crise financeira muito mais aguda, como a da quebra do Lehman Brothers. Não é o cenário principal, mas a probabilidade de ruptura está crescendo. Se antes acreditávamos que a probabilidade era de 5%, hoje está mais para 20-25%: bem alta.

ILAN GOLDFAJN é economista-chefe do Itaú Unibanco e sócio do Itaú BBA.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO



Ministério da Integração Nacional conversa com empresas para irrigação
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 04/10/11

O Ministério da Integração Nacional acerta os últimos detalhes de um programa de irrigação para o semiárido brasileiro, que deve ser anunciado pelo governo no final deste mês.
Pelo projeto, serão implantados 200 mil novos hectares de áreas irrigadas em Estados como Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Norte, Ceará e Minas Gerais.
Os investimentos previstos são da ordem de R$ 10 bilhões, entre recursos do PAC e investimentos privados. O ministro Fernando Bezerra Coelho reuniu-se ontem com Joesley Mendonça Batista, da JBS, para discutir a inclusão da técnica de pastagens irrigadas, um modelo existente no Arizona, nos EUA. Plantações de milho também estão previstas.
A empresa informa que considera interessantes as propostas do ministro e que o tema abordado está em estudo. A Cutrale também afirma que está em negociações com o governo para investir em irrigação no Nordeste, mas ainda não há contratos fechados.
A PepsiCo, cujo nome é também citado entre os prováveis futuros parceiros, afirma que ainda não há acordo formalizado sobre a intenção de participar na PPP.
A Agrovale não confirma se possui conversas com o ministério. A ideia é atrair para as PPPs empresas de infraestrutura e agronegócio. Também estão previstas parcerias com Banco Mundial, BNDES, Banco do Nordeste e outros.
A irrigação impulsionou as exportações brasileiras de laranja, mamão, uva, manga, melão e rosas, segundo o ministério. No mercado interno, destacam-se produtos como tomate e feijão.

MALA CHEIA
A TAM registrou aumento de 80% na receita gerada por excesso de bagagem entre janeiro e agosto deste ano, ante mesmo período de 2010. Na Avianca, não foi houve incremento por esse motivo. "A receita [por causa do excesso de peso] é muito menor do que a que temos com multas cobradas por troca de passagens", diz o diretor de serviços, Renato Aranha.
Na Gol, as receitas auxiliares (que correspondem a excesso de bagagem e remarcação de voos, entre outros) aumentaram 4,2% no segundo trimestre deste ano, ante mesmo período de 2010, segundo relatório da companhia. Essas receitas representaram 12% da receita líquida total do período.

CASA PRÓPRIA EM SÃO PAULO
A construtora e incorporadora mineira Clip Engenharia acaba de abrir escritório em São Paulo, para expandir seus projetos voltados para o programa Minha Casa, Minha Vida. A empresa, que atua com foco em projetos para a baixa renda, pretende lançar 2.500 unidades no próximo ano, com VGV (Valor Geral de Vendas) em torno de R$ 340 milhões.
Neste ano, deve fechar com aproximadamente R$ 170 milhões em VGV de cerca de 1.200 unidades, de acordo com o presidente da Clip Engenharia, Paulo Berbert. O primeiro contrato da empresa no modelo do Minha Casa, Minha Vida 2 acontece nesta semana no município mineiro de Barbacena. Serão dois empreendimentos residenciais. "Em São Paulo, buscaremos maior atuação no interior, onde já temos 44 projetos prospectados", afirma Berbert. A Caixa Econômica Federal informa que já foram contratadas mais de 300 mil unidades no MCMV 2.

DÉBITO OU CRÉDITO?
O número de operações feitas com cartões em geral deve chegar a 6,8 bilhões neste ano, segundo a consultoria Capgemini. Até 2013, a média de crescimento do setor deverá ser de 48,8% ao ano, de acordo com o levantamento. Os países em desenvolvimento são os principais responsáveis por essa alta.
Em 2010, os pagamentos que não foram feitos com moeda cresceram 37,2% na África, no Oriente Médio e na Europa Central, segundo o estudo. Na América Latina, no mesmo período, o aumento foi de 9,7%.

BILL GATES E A SAÚDE
Uma equipe da Fundação Bill & Melinda Gates reuniu-se ontem com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em Brasília, para discutir os termos de um acordo.
Na pauta, projetos para produzir não apenas vacinas, como também para desenvolver pesquisa sobre outras demandas da área, inclusive de outros países. Saúde materna será uma das prioridades. A equipe da fundação, que deverá entrar com recursos, visitará a Fiocruz (Rio) e o Butantã (SP). Ainda não está confirmada a vinda de Bill Gates, fundador da Microsoft, para a assinatura do acordo com a presidente Dilma.

com JOANA CUNHA, VITOR SION, LUCIANA DYNIEWICZ e VERENA FORNETTI

MURILLO DE ARAGÃO - E a reforma política


 E a reforma política
MURILLO DE ARAGÃO
BRASIL ECONÔMICO - 04/10/11

Cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas Considerada a mãe de todas as reformas, a reforma política continua tramitando na Câmara e sendo alvo de esforços periféricos para que se torne realidade.

Na última quinta, o deputado Henrique Fontana (PT-RS), relator da matéria na Câmara, apresentou uma série de modificações em seu anteprojeto e acolheu emendas enviadas pelos partidos à versão inicial proposta por ele em agosto. O objetivo foi conquistar mais apoio, cujo eixo central, conforme seu relatório, é o financiamento público exclusivo de campanha.

Entre as alterações está a redução do mandato dos senadores (de oito para quatro anos) e da idade mínima para assumir o cargo (de 35 anos para 30, como governadores e vice-governadores).

O novo relatório prevê ainda a realização de segundo turno para prefeito nos municípios que tenham mais de 100 mil eleitores.

E reduz de um ano para seis meses o prazo mínimo de primeira filiação partidária para que seja possível candidatar-se.

Foi ampliada a punição para os partidos que não cumprirem a determinação de aplicar uma parte do fundo partidário em programas de promoção e difusão da participação política das mulheres e dos negros. O partido que não respeitar a norma perderá 10% da quota a que teria direito no fundo.

Amanhã, o relatório será votado na Comissão Especial. Hoje o PT promove evento na Câmara para dar amplitude ao tema.

Participarão o ex-presidente Lula, os governadores Tarso Genro (PT-RS) e Sérgio Cabral (PMDB-RJ), representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), da União Nacional dos Estudantes (UNE), de centrais sindicais e de partidos políticos.

A tendência é que o relatório seja aprovado na Comissão Especial. Porém é baixa a probabilidade de que seja votado e aprovado no plenário da Câmara ainda este ano.

Lamentavelmente, não existem forças políticas expressivas para estabelecer o financiamento cidadão de campanhas eleitorais, que seria sem dinheiro público e de empresas. Os partidos teriam que ir às ruas para conquistar apoio e recursos para disputar as eleições.

Com o atual modelo (misto) ou apenas público, a política partidária irá virar um jogo burocrático. Longe das massas e a política cada vez mais dependente de quem pode capturar grande blocos de votos por força de estruturas sindicais, religiosas ou pelo exercício da funções públicas.

Outro ponto que a reforma deixa de abordar é o uso de recursos públicos federais para a manutenção de escritórios eleitorais nos estados. É o mesmo que a Câmara dos Deputados financiar com nosso dinheiro a campanha de um deputado em desfavor de alguém que não o é e deseja ser candidato.

O rol de vícios e fragilidades de nosso modelo político é imenso e, infelizmente, não está devidamente considerado. A reforma proposta avança. Mas não o suficiente. Mesmo que aprovada, a política continuará longe dos reais interesses da cidadania no Brasil.

ARNALDO JABOR - A paranoia está batendo


A paranoia está batendo
ARNALDO JABOR
O Estado de S.Paulo - 04/10/11

Um dia, há muitos anos, percebi que haviam modificado a caixa grande dos Chicletes Adams (uma cor-de-rosa e outra amarela). Quem se lembra dessas saudosas embalagens? Eram caixas maiores, que tinham uma janelinha de celofane, através da qual se viam os chicletinhos chacoalhando. Assustado, notei que a janela original fora trocada por uma mentirosa abertura, desenhada com os chicletinhos impressos. Algum executivo zeloso, para fazer bonito junto aos patrões, acabara com a visão real das balinhas frescas como a brisa, deixando-nos somente um simulacro. Isso me preocupou. Entendi que se iniciava uma época comercial menos humana (talvez a pós-modernidade), mas, por outro lado, compreendi que detalhes ínfimos podem ser indícios de momentos históricos. Por isso, como vivemos a época de encrencas insolúveis, sem um futuro claro, me ligo em bobagens iluminadoras do presente.

Por exemplo, que significa a resposta de uma telefonista, se eu lhe agradeço por uma informação e ela replica: "Imagina!...". Que quer dizer isso? Talvez denote que eu e ela fazemos parte de um "sistema" coletivo de obrigações automáticas, sem espaço para gentilezas individuais e gratidão desnecessária. É quase uma repreensão, como se meu 'muito obrigado' quebrasse a lógica contínua de seu serviço. Daí a resposta: "Imagina! O senhor se acha especial?".

Aliás, "senhor" é uma novidade. Dizia-se sempre "Sr. Fulano, Sr. Sicrano...".

Tudo bem, mas agora usam um "senhor" no fim da frase: "Estaremos entregando a encomenda, senhor"... Ou "senhorita". Alguém já ouviu "senhorita" no dia a dia? Isso deve ser influência do gerúndio na dublagem de filmes americanos: "Miss Williams, we'll be sending your package soon". Seria a nefasta influência do imperialismo cultural (esquerda) ou o crescimento de uma linguagem global (liberais).

As telefonistas também dizem: "Quem deseja?" ou "O senhor Fulano não se encontra...". Isso me desorganiza. Tenho ganas de dizer: "Todos desejam, o ser humano deseja! E o senhor Fulano não 'se encontra', como? Ele está em crise, perdidaço na vida?". Nada digo, porque ela responderia: "Eu não saberia lhe informar, senhor...".

Outro fenômeno moderno, ou melhor, "contemporâneo" (aliás, não aguento mais esta palavra 'contemporâneo', que tudo absolve e tudo explica: "Isso é uma merda, mas é supercontemporâneo!..."), é o tom dos falantes no celular. Em aeroportos, é comum mulheres discutindo a relação com o marido, falando alto, andando pela sala, até chorando, na linguagem 'metapsicológica' dos Big Brothers. Criou-se uma língua BBB, feita de súbitas lágrimas, acusações e queixumes, rancor dosado por perdões simultâneos, deixando escapar propositais intimidades, pontuadas por rápidas olhadas para conferir a reação dos circunstantes.

Aliás, por falar em celular, e as musiquin has? Jingle Bells ou Pour Elise tocam no bolso de um executivo, que imediatamente faz um resumo da situação da empresa aos berros. Por que não fazem um celular que aperte o saco do usuário? Ele daria um grito e gemeria discretamente: "Alô?".

E os dedinhos "contemporâneos" que não param nos blackberries e iPhones, com as cabeças baixas, digitando mensagens misteriosas? Isso me traz uma dolorosa solidão, pois ninguém mais presta atenção em ninguém 'ao vivo', como se o importante é o que não está ali, o desejo 'não se encontra' aqui, mas acolá, talvez na 'nuvem'.

E as notícias? São eivadas de incertezas - se a Grécia quebra ou não quebra - ou de certezas impossíveis como, por exemplo: a taxa de inflação vai ser de 6,3 ou 6,7 ao fim do ano, cai em outubro e sobe em novembro. Como podem saber? Como se mede isso? Por que não tomam medidas essenciais como cortar gastos públicos em vez dessa irritante roleta brasileira de palpites? Claro que os 'pentelhos' e seus aliados feudais não deixam.

Por que as paradas gay têm três milhões e os evangélicos quatro milhões e a marcha contra a corrupção no Rio só 2.500 pessoas? É a medida clara de nossa alienação política.

E as queimadas e desmatamentos? O governo fala disso como se referisse a outro país, com um lamento impotente: "O equivalente a mil campos de futebol foram queimados em um mês...". Por que a medida 'campos de futebol'? Para deprimir corintianos? Aliás, entristece-me ver os times de futebol com anúncios no peito dos jogadores. Sou um babaca romântico, claro. Mas os times heroicos vendendo Hyundai e Kalunga me doem.

E os garçons simpáticos? Sempre que eu peço um guaraná, ouço invariavelmente: "Com gelo e laranja?". Por quê? O meu guaraná indígena não basta? Sempre tenho a esperança de encontrar um "old timer" que me pisque o olho e faça a bela pergunta antiga: "Da Brahma ou da Antártica?".

E a demarcação das terras indígenas, e as paisagens condenadas? É politicamente incorreto ser contra 11 mil índios que dispõem de dez mil metros quadrados cada um na 'Raposa do Sol', índios de bermuda e relógio. Por quê? Não podemos mais admirar uma paisagem sem que um chato não diga: "Olha bem, que está acabando...".

Repugnam-me células fotoelétricas em bicas de banheiros chiques. Você mete a mão ensaboada debaixo de uma bica dourada e a água não sai. Você tenta de novo, nada; até que o faxineiro te instrui a posição certa, esperando gorjeta, mas a água jorra e para, antes de lavar o sabão cor-de-rosa ou cor de diarreia. E o aparelho de secar mão que uiva como uma boca de hipopótamo? E os cremes de rosto e dentes, com a bisnaga vazia pela metade, para faturar uns reais dos otários? E as giletes turbinadas cujas caixas só têm duas unidades? E o papel higiênico 'folha fina', que se esgarça entre as unhas? Abomino e-mails em cascata, com as piadinhas da hora, tenho asco de pequenas besteirinhas como gente dizendo-me "bom descanso" ou "bom trabalho", pagode careta, casais que se casam e se separam na Caras, e, pasmem, não aguento mais 'bunda'. Isso, no bom sentido, claro, mas não aguento mais ver 'melancias, melões e moranguinhos' em toda parte, outdoors, revistas... A economia de consumo é embalada pelas bundas. Viram? A paranoia está batendo... Santo Deus, que será de mim?

XICO GRAZIANO - Respeito animal


Respeito animal
XICO GRAZIANO
O ESTADÃO - 04/10/11

Hoje se comemora o Dia Mundial dos Animais. A data reverencia São Francisco de Assis, falecido em 4 de outubro de 1226. Pregador errante, tratava os bichos como gente, chamando-os a todos de irmãos. Origens do ecologismo.

Nascido na Úmbria (Itália), o santo padroeiro dos animais viveu na época das Cruzadas, escolha beligerante que a Igreja Católica promoveu para tentar dominar o mundo. Apenas pequenos burgos existiam quando o filho do rico comerciante se despojou da riqueza para ajudar a pobreza, tingindo sua pregação com as cores da natureza. Atitude estranha naquele tempo.

Somente séculos mais tarde, ao final do período medieval, a urbanização começava a criar um modo de vida e, consequentemente, uma cultura própria, distanciando as pessoas citadinas, ainda que relativamente, do mundo natural. E somente agora, com a metropolização dos espaços humanos, aí, sim, tal separação acabou quase completa. Vida artificializada.

Faz bem à sociedade atual refletir sobre a relação entre o homem e seu meio originário. Civilização, no passado, era sinônimo de "conquista" sobre a natureza. E nessa história a domesticação dos animais ocupa destaque. Utilizados na tração, no alimento, no vestuário, nas guerras ou na estima familiar, os animais amansados progressivamente se diferenciaram dos bichos selvagens.

Num extraordinário livro, intitulado O Homem e o Mundo Natural (1983), o inglês Keith Thomas mostra como evoluíram, contraditoriamente, o usufruto da natureza e o valor sentimental oferecido aos animais, selvagens ou domésticos. Ele mostra que só a erosão do antropocentrismo antigo, no final do século 17, permitiu à força dominadora dos humanos ceder espaço à simpatia pelo mundo animal.

Predominava no início o aspecto religioso. O homem, ser racional, único portador de alma, capaz de amar o Superior, recebeu das mãos divinas o desígnio de explorar as criaturas para satisfazer sua vontade. Em nome de Deus, e para o bem das pessoas, permitia-se caçar, abater ou aprisionar os animais. Pecado apenas era a crueldade, uma blasfêmia contra a Criação.

Ao ampliar os limites do mundo, porém, o conhecimento científico promove uma revolução no moderno pensamento ocidental. Astrônomos descobrem novos planetas, zoólogos enxergam a vida microbiana, botânicos classificam plantas sem parar, geólogos medem a idade das rochas. A visão criacionista, que coloca o homem no centro do Universo, e tudo justifica em seu nome, aos poucos perde lugar para correntes de pensamento arejadas pelas ideias de Bacon, Descartes, Kant, Hume, Hobbes, entre tantos filósofos iluministas. Começava a sorte dos animais.

Certamente não se esgotou a polêmica que há séculos travam sábios, clérigos e o povo sobre os direitos, e os limites, do homem na exploração do mundo natural. A mesa do debate continua, subordinada agora aos valores trazidos pela modernidade da ecologia. Biodiversidade virou credo. E o bicho selvagem ganhou status nas áreas protegidas dos parques florestais.

No mundo todo se discute a função dos zoológicos. Críticas ao sofrimento animal os fizeram alargar as baias, ampliar os espaços, climatizar os cômodos, recriar hábitats selvagens, favorecendo o bem-estar dos bichos presos. Um bom movimento. Reconhece-se que, longe daquela arrogância antropocêntrica primitiva, os animais também têm direitos. E dignidade.

Os cientistas continuam na parada. Para eles, os zoológicos podem virar laboratórios de pesquisa, úteis para tornar viável a preservação das espécies selvagens ameaçadas de extinção. A reprodução assistida de animais livrou, por exemplo, o pequeno mico-leão dourado da lista negra do desaparecimento. Trabalho exemplar do zoológico de São Paulo.

Entretanto, para a mente mais sensível, perdeu sentido ético aprisionar animais selvagens para divertir gente. Para estes, zoo é sempre perverso, mesmo bem ambientado. Nem o lazer educativo, missão pedagógica que, felizmente, se expande nesses recintos mundo afora, é capaz de iluminar os olhos tristes dos bichinhos, ou bichões, mantidos presos em minúsculas celas. Tirem-me daqui, parecem solicitar.

Domingo passado (25/9), realizou-se a última tourada em Barcelona (Espanha), proibida pelo Parlamento catalão. Ninguém apostaria nessa lei há alguns anos. Mas o ativismo em defesa dos animais conseguiu suplantar a herança cultural que se alegrava na malvadeza contra os touros. No Brasil, os rodeios foram obrigados a adotar regras de bem-estar animal para sobreviverem. Nem assim fugiram da mira dos ecologistas. Tampouco os circos. Elefantes, tigres, chimpanzés e cachorrinhos desaparecem do espetáculo. Ainda bem.

O rumo dessa mudança comportamental se impõe progressivamente na sociedade. Mas muita crueldade contra animais se pratica ainda por aí. Vejam as prisões, algumas bem decoradas, que roubam dos passarinhos a felicidade de voar livremente - afinal, para isso existem asas. Gaiola, logo, será peça de museu. Tomara.

Resta falar dos "animais" humanos. A figura de linguagem utiliza-se para desqualificar pessoas tidas como insanas, brutas, raivosas. Antigamente se dizia "besta fera". Xingar alguém de "animal" já estigmatizou o jogador Edmundo, envolvido em corriqueiras brigas no futebol. No dito popular, criminosos sanguinários são considerados selvagens, matam sem dó.

Desses tipos desumanizados, o pior, em minha opinião, são aqueles trogloditas, gente rica, que acendem luzes e arremetem seus possantes veículos contra os pobres mortais que teimam em respeitar os limites de velocidade nas estradas. Animais, não, verdadeiros idiotas do trânsito.

Animais merecem respeito.

VINICIUS MARQUES DE CARVALHO e DIOGO THOMSON DE ANDRADE -


Combate a cartéis na economia
VINICIUS MARQUES DE CARVALHO e DIOGO THOMSON DE ANDRADE
FOLHA DE SP - 04/10/11

O acordo entre concorrentes prejudica o consumidor com alta de preços e restrição da oferta, além de comprometer a inovação tecnológica


Cartel é um acordo entre concorrentes fechado principalmente para fixação de preços, cotas de produção, divisão de clientes e mercados de atuação. É um crime contra a ordem econômica e a mais grave forma de lesão à concorrência.

Prejudica os consumidores com a elevação de preços e a restrição da oferta, compromete a inovação tecnológica e impede a entrada de novos produtos e processos no mercado. No longo prazo, acarreta perda de competitividade da economia como um todo.

Instituído há três anos por decreto do presidente Lula, o Dia Nacional de Combate a Cartéis (8 de outubro) corresponde à data de assinatura do primeiro acordo de leniência pela Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça, em 2003. Esse mecanismo prevê que integrantes de um cartel forneçam informações para as entidades que coíbem a prática e, em troca, não sofram punição por ela.

Naquele ano, na linha do que vinha sendo feito por autoridades antitruste em todo o mundo, o Brasil transformou o combate a cartéis em prioridade e passou a lançar mão de alguns dos mais avançados instrumentos de investigação. Foi nesse período que teve início uma profícua atividade de colaboração entre a secretaria, as polícias e os ministérios públicos (tanto o federal quanto os estaduais).

Da necessidade de aprimorar constantemente a cooperação entre os órgãos e de coordenar essas ações é que surgiu a Estratégia Nacional de Combate a Cartéis (Enacc), que promoveu, ontem e hoje, o seu terceiro encontro anual. A meta é fortalecer a Política Nacional de Combate a Cartéis por meio de um processo democrático e gerar maior eficiência nos órgãos responsáveis pelo combate a esse crime, de efeitos tão difusos quanto nocivos à economia e ao poder de compra do cidadão brasileiro.

Para que o combate a cartéis possa incrementar seus resultados e sensibilizar um maior contingente da sociedade, contudo, é preciso garantir ações estruturantes em três eixos: administrativo, civil e criminal. As melhores experiências internacionais revelam que a prevenção, via prioritária em políticas públicas em geral, depende do alinhamento dessas três frentes.

No eixo administrativo, por meio da intensificação das investigações, melhoria da gestão dos processos e detecção dos setores mais propícios à prática do conluio. No âmbito criminal, com a participação cada vez maior do Ministério Público e da polícia, com a discussão sobre proporcionalidade das penas e com a ampliação do número de acordos de leniência.

Na esfera civil, por fim, apostamos em um salto de qualidade que advirá com o estímulo à cultura da reparação de danos causados por cartéis. Nesse sentido, já há previsão legal para que pessoas prejudicadas por cartéis sejam ressarcidas pelos prejuízos sofridos, via ação reparatória de iniciativa do Ministério Público, de entidades de defesa do consumidor ou dos próprios consumidores.

Nesse último caso, mesmo o Estado brasileiro deve ser estimulado a demandar judicialmente quando vitimado, por exemplo, por um cartel em licitação.

No contexto das importantes transformações sociais recentemente vividas no Brasil, enfrentar cartéis significa evitar abuso de poder econômico e combater a erosão do poder de compra dos cidadãos.

É com a certeza da importância de nossa missão, portanto, que encaramos com otimismo o novo ciclo da política de combate a cartéis no país, para consolidar as conquistas aferidas nos últimos anos e avançar na garantia de uma ordem econômica mais justa para todos os cidadãos brasileiros.



VINICIUS MARQUES DE CARVALHO é secretário de direito econômico do Ministério da Justiça (SDE-MJ).

DIOGO THOMSON DE ANDRADE é diretor do departamento de proteção e defesa econômica da SDE-MJ.

EDITORIAL O GLOBO - Perda de royalties desorganizaria o RJ


Perda de royalties desorganizaria o RJ
EDITORIAL 
O GLOBO  - 04/10/11

O mais difícil de entender em relação à polêmica dos royalties é que, em nenhum momento, a proposta de redivisão leva em conta o impacto negativo dessas mudança sobre as finanças do Estado do Rio de Janeiro e dos municípios fluminenses produtores. Como ficaria, por exemplo, o pagamento anual de R$ 1,5 bilhão que o RJ faz à União em decorrência do acordo de renegociação da dívida? Hoje, esses recursos são descontados da receita de royalties, e ajudam o Estado a se manter em dia com esses compromissos, o que é fundamental, também, para o equilíbrio das finanças federais.

Dos R$ 6,8 bilhões previstos de receita dos royalties em 2011, cerca de R$ 4,6 bilhões serão transferidos para capitalizar o fundo previdenciário dos servidores estaduais. Sem essa transferência, o Estado teria de, forçosamente, destinar ao fundo recursos que têm sido reservados para investimentos, que ainda são muito limitados, considerando-se o que precisa ser feito no estado para que a população usufrua de segurança, razoável infraestrutura e serviços públicos básicos.

O que sobra da receita dos royalties é repartido entre municípios não produtores (R$ 338 milhões) e o fundo que financia projetos de recuperação do meio ambiente (R$ 324 milhões). É falso o argumenta que o RJ nada em royalties, portanto.

Embora o Estado do Rio esteja passando por um bom momento econômico - depois de atravessar cinco décadas de estagnação e decadência -, o incremento das demais receitas não seria suficiente para compensar a perda de arrecadação dos royalties. Isso porque a atividade que responde por aproximadamente 20% do PIB estadual, o petróleo, não sofre tributação na origem, mas apenas no destino. Petróleo cru e energia elétrica foram as duas únicas exceções estabelecidas na Constituição de 1988.

Os demais produtos e serviços são tributados tanto na origem como no destino. O petróleo contribui para que o RJ apresente indicadores acima da média nacional, reduzindo a quota parte a que o Rio de Janeiro tem direito no Fundo de Participações de Estados e Municípios.

Curiosamente, a emenda Ibsen que propôs a redivisão dos royalties usou os critérios de Distribuiçãodo Fundo do Participação - já definidos como inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal - para redivisão dos royalties. Assim, o RJ seria punido duplamente, por não ter tributação sobre o petróleo, e pela reduzida quota do Fundo de Participação. Mais terrível ainda seria o impacto dessa redivisão sobre os orçamentos dos municípios produtores e seus vizinhos. Dos 92 municípios fluminenses, 49 têm hoje uma receita de royalties e participações especiais que supera a arrecadação dos demais tributos recolhidos pelas prefeituras. Em 20 deles, a receita dos royalties supera as transferências recebidas do Fundo Participação. E, em quinze, os repasses de ICMS.

Não se pode simplesmente ignorar essas questões, o que desperta certas indagações. Por que deputados, senadores, governadores e prefeitos de estados não produtores insistem em pôr em prática uma fórmula que deixaria algumas unidades da federação (o RJ, em especial, e logo a seguir o Espírito Santo) em grande dificuldade financeira? Caberá à Justiça dar um fim nesse atentado político? A presidente Dilma não deveria participar com mais firmeza para se encontrar uma solução?

Não se pode esquecer que combustíveis não são taxados na origem

CLAUDIO HUMBERTO

“Todo mundo está querendo entrar”
PREFEITO PAULISTANO GILBERTO KASSAB CONTANDO VANTAGEM SOBRE O SEU PSD

‘GASTOS SECRETOS’ COM CARTÕES IGNORAM A CRISE 
Os gastos com cartões corporativos da Presidência da República voaram na bonança da economia até julho, quando despesas sigilosas por “questões de segurança” da presidente Dilma Rousseff já superavam a metade do valor total do governo Lula em 2010: ele torrou R$ 6,1 milhões. O aparato em torno da presidente atinge quase R$ 4 milhões, segundo informações do Portal da Transparência. 

ESPECIALIDADE 
A Agência Brasileira de Inteligência, última a saber de “malfeitos”, mantém-se imbatível: R$ 5,6 milhões nos cartões, em seis meses. 

RECORDISTA 
A Abin gastou até julho o dobro do ministério da Agricultura (R$ 2 milhões) e do Planejamento (R$ 2,4 milhões). Proibido saber em quê.

Ó, COITADOS 
Uma família americana beirando a pobreza ganha R$ 3,1 mil, sem 37% de impostos do Brasil. Nenhuma quer morar no Complexo do Alemão.

O HAITI É AQUI 
O Haiti vai inaugurar em 2012 dois hospitais construídos com US$ 7 milhões do Brasil, onde, diz Lula, saúde pública é de “primeiro mundo”.

DILMA QUERIA ELIANA CALMON MINISTRA DO SUPREMO 
A presidente Dilma ficou impressionada com a coragem da ministra Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça – e corregedora nacional de Justiça do CNJ –, que advertiu para a existência de bandidos de toga. 
Chamou o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) e pediu mais informações: queria nomeá-la ministra do Supremo Tribunal Federal, em lugar de Ellen Gracie. Ficou chateada porque a ministra completará 67 anos no dia 5 e a Constituição veda nomeação no STF após os 65.

NA RUA 
A campanha em São Paulo já começou. O PRTB lançou seu candidato à prefeitura: Levy Fidelix, que anda às turras com Gilberto Kassab. 

BELLA VITA 
Um grupo de políticos fará cruzeiro na costa amalfitana, na Itália, entre amanhã e o dia 11, no 16º Meeting Internacional de João Dória Jr. 

ESQUECERAM DE MIM 
Dilma lança hoje na Bélgica os vídeos promocionais de turismo para a Copa no Brasil. 
Deixou para trás Flávio Dino, presidente da Embratur.

TUMA JR. NO DEM 
O ex-secretário nacional de Justiça Romeu Tuma Jr. decidiu se filiar ao DEM do seu pai, o saudoso senador Romeu Tuma. Afastado por Lula sem direito de defesa, Tuma Jr. jamais foi alvo de inquérito, nada. Lula não perde por esperar: ele vai contar tudo o que sabe em livro.

FESTA NA EMPREITEIRA 
A venda do “Banerjão”, prédio de 20 andares onde funcionam secretarias estaduais do Rio, está ligada ao lançamento de um centro administrativo bilionário, novo xodó dos governos estaduais.

CRIME IMPUNE NO RIO 
Amigos e admiradores homenagearam o arquiteto Rômulo Castro Tavares na Casa Cor do Rio. Enquanto o governo conta a lorota da “pacificação”, a Polícia Civil finge que procura o bandido que o assaltou na porta de casa e, mesmo sem Rômulo reagir, matou-o com um tiro.

MARASMO 
Câmara e Senado vivem um marasmo. Entre debates, o que mais se aprovou foram concessões de rádio e datas comemorativas, como o Dia Nacional do Distribuidor de Insumo Agrícola e Veterinário (18/10).

BRASÍLIA 51 
Não é a 51 que Lula tanto aprecia, mas já são 51 os senadores que apoiam o jogo de abertura da Copa do Mundo em Brasília. A iniciativa é do senador Vital Rego (PMDB-PB).

AULAS DE CIDADANIA 
Juízes eleitorais capixabas percorrem escolas públicas preparando os alunos para fiscalizar as eleições de 2012, dentro do Programa de Ética e Transparência Eleitoral criado em boa hora pelo presidente do TRE-ES, desembargador Pedro Valls Feu Rosa.

DESCASO NA CAIXA 
Na agência da CEF no Brasília Shopping não havia, ontem, nem mesmo envelopes para depósito. Um gerente fez pouco caso da queixa de um correntista, contribuinte otário que paga seu salário. 
Para isso é que tanto valorizam a estabilidade no emprego: tripudiar sobre a clientela.

LÍNGUA DE TRAPO 
Papo de funcionário de estatal do Rio, num botequim chique da Zona Sul: “Pago as contas dele com meu cartão no exterior, porque assim o presidente escapa da fiscalização. Depois, recebo a grana”. 

PENSANDO BEM... 
...O governo federal quer aumentar a punição para quem formar cartel, mas, para certos políticos, formação de quadrilha continua liberada. 

PODER SEM PUDOR
ELAS POR ELAS 
Especialista em pregar peças, o saudoso Maurício Fruet era secretário do primeiro governo Roberto Requião e foi a Mandaguaçu (PR), em uma espécie de governo itinerante. Sua secretaria foi instalada próxima aos banheiros. Sem que ninguém percebesse, ele substituiu a placa de “Elas” por “Eles”, no W.C. feminino, e fez outra “Elas” em cartolina, afixando-a em uma porta secundária da sala de Requião, que se mantinha fechada. A fila do mulherio foi aumentando até que uma delas, aflita, esmurrou a porta:
– Ei! Tem alguém aí?
Tinha. Era Roberto Requião, o “Maria Louca”, enfurecido. 

TERÇA NOS JORNAIS


Globo: Rumo a 2014 e 2016 - Após o rock, Rio removerá favela para as Olimpíadas

Folha: Metrô falha pela 2ª vez em 3 dias e afeta 75 mil

Estadão: Dilma diz que Europa deve evitar ajuste fiscal recessivo

Correio: Professor assassino apostou na impunidade

Valor: Novo regime automotivo privilegia o carro elétrico

Estado de Minas: Mensalidade escolar vai subir acima da inflação

Jornal do Commercio: Greve dos bancários prejudica os clientes

Zero Hora: Brasil já admite rever lei para manter Copa

segunda-feira, outubro 03, 2011

GUILHERME FIUZA - A França condecora um Lula imaginário



A França condecora um Lula imaginário
GUILHERME FIUZA
REVISTA ÉPOCA


Luiz Inácio da Silva foi condecorado na França. O título de doutor honoris causa, concedido ao ex-presidente brasileiro pelo Instituto de Ciências Políticas de Paris, tem valor especial: em 140 anos de existência da prestigiada instituição, apenas 17 pessoas receberam a homenagem. Para os intelectuais franceses, Lula é o homem do povo que dobrou as elites, o ex-operário que superou a ignorância para salvar os pobres. Só quem não superou a ignorância, pelo visto, foram os cientistas políticos parisienses.

Lula não é o único mal-entendido dos luminares europeus. Instituições de alto nível como Sorbonne e London School of Economics estão cheias de pensadores com teorias incríveis sobre heróis do Terceiro Mundo. Essas usinas de bondade à distância fazem cabeças no mundo inteiro. Notáveis como o escritor José Saramago e o cineasta Oliver Stone depositaram seus sonhos revolucionários em Hugo Chávez, em defesa dos fracos. O herói bolivariano afundou a Venezuela e espalhou o autoritarismo populista pela América do Sul. Mas esses detalhes não arranham a ética dos notáveis.

Os intelectuais franceses ovacionaram Lula. Especialmente quando ele se declarou o primeiro presidente brasileiro a não governar para os ricos, demonstrando "que um metalúrgico sem diploma universitário podia fazer mais do que a elite política do Brasil".

Lula fez mais – até porque soube, como ninguém, se apropriar do que os outros fizeram. A redução da desigualdade no Brasil nasceu de um plano econômico que Lula tentou afundar a todo custo. Eleito presidente, jogou suas teses de ruptura no lixo e surfou na política monetária do antecessor. O Instituto de Ciências Políticas sentiria náuseas se alguém lhe informasse que o poder de compra dos pobres foi elevado por um "neoliberal". O humanismo fashion dos franceses não suportaria esse golpe.

Se os intelectuais deram a ele o título de doutor em Paris, deve ter havido algum erro na tradução de "mensalão" para o francês

Eles têm razão. O enredo do coitado que vira salvador da pátria é muito mais excitante do que a história real, que só existe para atrapalhar os teóricos da bondade. Condecorar um Lula da Silva como herói é um verniz e tanto para acadêmicos e artistas do Primeiro Mundo. No texto da revista Time que lançou Lula como celebridade internacional em 2010, o cineasta panfletário Michael Moore explicava que o brasileiro se tornou um dos mais influentes do mundo por ações como o Fome Zero. O fato de esse programa ter morrido de inanição não interessou ao justiceiro de Hollywood.

Para fazer "mais do que a elite política", o metalúrgico sem diploma fundou sua própria elite política. Apinhou o aparelho de Estado com sindicalistas e correligionários, mostrou com quantos cargos se constrói uma rede de lealdades. Sua "elite política" montou um duto entre os cofres públicos e seu partido, no mais ousado esquema de corrupção já visto neste longínquo país tropical.

Quase quatro dezenas de aliados do doutor honoris causa aguardam julgamento por esse escândalo sem precedentes. Mas deve ter havido algum problema na tradução de "mensalão" para o francês.

A canonização de Lula é um diploma de futilidade das elites intelectuais europeias e americanas. Mas isso é problema delas. O problema do Brasil é o bombardeio propagandístico que vai eternizando no poder um projeto político dedicado a uma causa soberana: permanecer no poder.

Os mitos vão aniquilando a crítica. Dilma Rousseff, a primeira mulher, que sucedeu ao primeiro operário, é capa da revista Newsweek, apresentada como uma comandante implacável com a corrupção. O fato de que todos os focos de corrupção "combatidos" por Dilma tenham provindo da nova elite política que a elegeu, e de que Lula tenha convidado os denunciados a resistir com "casco duro" em seus cargos, também não teve tradução para o inglês.

Pelo visto, nem para o português. As pesquisas eleitorais para 2014 revelam que o Brasil quer uma doutora honoris causa em Paris.

Carta ao leitor - Um debate necessário - Revista Veja


Carta ao leitor
Um debate necessário
Revista Veja 

Esta edição de VEJA retrata em cores dramáticas as contradições do Poder Judiciário no Brasil, uma hierarquia imperfeita encarregada de interpretar e aplicar leis que, como mostrou a última capa de VEJA, formam um cipoal de abstrações, quando não de absurdos. A revista foca agora os bastidores da Justiça, onde, longe dos olhos dos brasileiros, se trava uma diuturna luta do bem contra o mal, de juízes honestos e heróicos contra seus pares reféns ou cúmplices do crime organizado. Essa contradição chegou ao ápice com a discussão aberta e corajosa sobre a honestidade dos juízes brasileiros sendo feita publicamente pelas mais altas autoridades do Judiciário em Brasília.
"A magistratura hoje está com gravíssimos problemas de infiltração de bandidos que estão escondidos atrás da toga", disparou Eliana Calmon, corregedora nacional de Justiça. "Em quarenta anos de magistratura nunca li coisa tão grave. É um atentado ao estado democrático de direito", reagiu Cezar Peluso, presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que desafiou
a corregedora a citar casos e nomes, sob o risco de fazer generalizações injustas sobre toda uma classe.
Ainda na semana passada, talvez para evitar decidir no calor da polêmica entre Eliana Calmon e Cezar Peluso, o Supremo Tribunal Federal (STF) resolveu postergar sua decisão sobre quais devem ser os poderes do CNJ no trabalho de vigiar e punir juízes, cujas entidades de classe defendem a tese de que o mau comportamento deles só pode ser punido pelas corregedorías de cada instância.
A reportagem de VEJA investigou o que ocorreu com juízes brasileiros flagrados
de maneira inconteste em escândalos de corrupção na última década. Os repórteres rastrearam o andamento de processos criminais de 39 magistrados pegos em operações da Polícia Federal. Dos 39 envolvidos, 31 foram denunciados à Justiça e apenas sete foram julgados. Dos sete, apenas dois foram condenados, mas ainda recorrem da decisão. Só um está preso, Nícolau dos Santos Neto, o Lalau, mesmo assim domiciliarmente. A reportagem nos leva à conclusão de, que, se a impunidade é regra geral para os parlamentares, ela é lei no Judiciário.
Estava passando da hora de o Brasil encarar essa questão, e é ótimo que ela tenha entrado em ebulição. O Poder Judiciário é o garantidor da ordem, do cumprimento dos contratos e da harmonia social mínima necessária para que uma nação marche na direção correta, rumo ao progresso material e social para a maioria de seus cidadãos. Sem justiça funcional, não existem prosperidade nem democracia. Sem juízes honestos e imparciais, não existe justiça.

FELIPE PATURY - REVISTA ÉPOCA


Os milhões (ou bilhões?) de Orestes Quércia
FELIPE PATURY 
REVISTA ÉPOCA

A Justiça paulista recebeu há dez dias a relação de bens do inventário do ex-governador paulista Orestes Quércia, morto em dezembro de 2010. Calcada na última declaração de rendas, a lista soma R$ 126 milhões. Esse montante foi calculado com base em valores históricos e está fortemente subavaliado. A viúva, Alaíde, seus quatro filhos e os dois herdeiros que Quércia teve fora do casamento concordaram em contratar uma auditoria independente para atualizar os números. As estimativas mais acanhadas preveem que a fortuna legada por Quércia ficará entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão. Outras ultrapassam em muito, muito mesmo, essa cifra. Enquanto espera a partilha, Alaíde resolveu editar uma biografia do marido e contratou jornalistas para entrevistar políticos que conviveram com ele.

Uma solidão amazônica
A ex-governadora do Pará Ana Júlia Carepa (PT) encomendou pesquisas para avaliar se poderia vencer alguma das disputas municipais do próximo ano. O resultado foi desalentador. Ana Júlia não desistiu. Resolveu aquilatar as chances de ser eleita vereadora em Belém. Os números não vieram melhores. Pior: o Planalto e a cúpula petista preferem mantê-la em casa a entrar numa disputa que possa melindrar seus aliados locais.

A nova Anatel
Está decidida a nova composição do Conselho da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, encaminhará ao Planalto o nome de seu consultor jurídico, Rodrigo Zerbone, e o do procurador-geral da Anatel, Marcelo Bechara, chancelado pelo PMDB. Ambos terão de passar pelo crivo do Senado. O economista João Rezende, que já integra o Conselho da Agência, deverá ascender à presidência. Como Zerbone, ele é uma indicação pessoal de Paulo Bernardo.

Quer pagar quanto?
O ex-senador Luiz Estevão negocia um acordo para devolver aos cofres públicos os R$ 160 milhões desviados da construção do Tribunal Regional Federal de São Paulo, nos anos 1990. Corrigida e acrescida de juros, essa dívida alcançou R$ 890 milhões. O governo aceitou o pedido de Estevão por um abatimento no valor do débito. Estevão propôs, então, pagar R$ 470 milhões em prestações de R$ 4 milhões mensais. Seus termos foram recusados. Neste mês, ele voltou à carga com um plano ligeiramente melhor: os mesmos R$ 470 milhões em parcelas de R$ 6,5 milhões. A oferta está sendo avaliada pelo Tribunal de Contas, pela Secretaria de Patrimônio e pela Advocacia-Geral da União.

Mérito contra a dengue
Hoje, os recursos para o combate à dengue são distribuídos entre os municípios de acordo com critérios estritamente populacionais. A partir deste ano, o governo passará a considerar também o desempenho das prefeituras na prevenção e no tratamento da doença. As mais eficientes podem ganhar até 20% mais dinheiro. O principal critério de avaliação será a redução de focos de mosquitos nas residências, responsáveis por 82% das contaminações, como revela uma pesquisa encomendada pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

O tempo passa, o tempo voa...
Então terceiro maior banco privado do país, o Bamerindus esfacelou-se em 1997. Sua clientela e seus ativos sadios foram incorporados pelo HSBC. A parte podre ficou com o dono, José Eduardo Andrade Vieira, e seus sócios. Inconformado com a solução dada pelo Banco Central, Vieira clamou por uma indenização bilionária na esfera judicial. O Banco Central (BC) finalmente venceu o processo. O ministro Castro Meira, do Superior Tribunal de Justiça, concluiu o óbvio: o BC só interveio no Bamerindus porque ele não era mais capaz de saldar seus compromissos.

Bola fora
A presidente Dilma Rousseff se reunirá na Europa, nesta semana, com o presidente da Fifa, Joseph Blatter, e com o secretário-geral da entidade, Jerôme Valcke. O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, não foi convidado.

Você não gosta de mim, mas seu pai...
O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), foi vaiado por 100 mil pessoas no Rock in Rio, no dia 24, quando o cantor Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, lhe dedicou a canção "Que país é esse?". Na quinta-feira, Sarney enviou uma carta ao artista reclamando do tratamento. Começou o texto dizendo que "entrou no Rock in Rio aos 80 anos", que o festival se beneficiou dos incentivos à cultura criados por seu governo, arvora-se de defensor da liberdade de expressão e conclui com uma lembrança: foi ele quem promoveu o diplomata Afonso Ouro Preto, pai de Dinho, a embaixador.

O gordo, o magro e o neomagro
Candidato do PMDB à prefeitura de São Paulo, o esbelto deputado Gabriel Chalita tem comemorado a conquista de dois cabos eleitorais de peso: o ex-jogador Ronaldo Fenômeno e o apresentador Fausto Silva. Só é injustopesar o neomagro Faustão pela mesma balança de Ronaldo.

Puxadinho na Câmara
Os deputados desistiram de construir o Anexo 5 da Câmara, um prédio projetado por Oscar Niemeyer que custaria R$ 1 bilhão. Em seu lugar, querem reformar o envelhecido Anexo 4, onde ficam os gabinetes dos parlamentares, e construir um puxadinho. Estimado em R$ 300 milhões, ele terá 80 escritórios e um auditório de 600 lugares.

Oi, Hélio
Agora, o ex-ministro das Comunicações Hélio Costa está fazendo valer a regra de portabilidade que impôs às operadoras de celular. No início do ano, ele acertou seu ingresso no Conselho da TIM. Na semana passada, disse a um amigo que deverá assumir uma posição na Oi. Ouvido, Costa foi lacônico: "Não tenho nada a comentar".

O país do café
Líder mundial na produção de café, o Brasil deverá tomar dos Estados Unidos a posição de maior consumidor em 2012. O mercado nacional demandará 21 milhões de sacas, um pouco além das necessidades americanas de abastecimento.

Andrés Sanchez - Revista Época


Andrés Sanchez
Revista Época 

CHAPA DE LULA, AMIGO DO FENÔMENO, PARCEIRO DA ODEBRECHT... O RETRATO DO PRESIDENTE QUE TRANSFORMOU O CORINTHIANS NUM NEGÓCIO BILIONÁRIO

Preto no branco

Luiz Maklouf Carvalho

A sexta-feira 9 de setembro foi dia de corintiano feliz. Às 11 horas da manhã, a mulher do mais ilustre deles, dona Marisa Letícia Lula da Silva, ligou para o presidente do clube, Andrés Navarro Sanchez. Ele estava em sua mesa de trabalho, no Parque São Jorge, a enorme sede social do Corinthians, no Tatuapé, bairro da Zona Leste de São Paulo. Naquela calorenta manhã, o quase sempre carrancudo Sanchez era um sujeito agradável. No jogaço de véspera, no Pacaembu, contra o Flamengo, o atacante Liedson vingara-se do soco do zagueiro Gustavo com um segundo gol que selaria a vitória corintiana. "O mais importante é que o time jogou bem. O Adriano foi no vestiário, no intervalo, e botou pilha no pessoal. Belo gesto! O chato foi aquele soco no Liedson", disse Sanchez, entre goles no café com leite e dentadas no pão, enquanto fazia seu tradicional desjejum na padaria. De celular para celular, dona Marisa Letícia cumprimentou-o pela vitória. Ele respondeu:

– No sufoco, quase morrendo do coração, mas ganhamos (risos). Um beijo.
Ela passou o telefone para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Da boca de Sanchez, saiu o seguinte:
– Tá vivo, presidente? Tava lá, pô! P.q.p.! Você tem que ir num jogo lá, pô...
– Ah, vai pegar um gancho de uns dez jogos. O cara foi muito covarde. Mas pode ficar tranquilo que se o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) não pegar, vou entrar com a denúncia.
Lula, então recém-chegado de Portugal, sugeriu, empolgado, que o Corinthians apresentasse algo parecido com a águia amestrada que sobrevoa os estádios antes das partidas do Benfica.
– Esse cara da águia veio aqui também, presidente, há uns dois anos, querendo colocar um gavião. Só que o gavião é símbolo de uma torcida, a Gaviões da Fiel, e não o símbolo do Corinthians, né?
Lula insistiu. Sanchez riu, depois deu uma gargalhada.
– O senhor tá bem?, perguntou.
Lula falou da viagem. E ouviu:
– P.q.p.! Se tiver uma viagem pra esses lugares aí, El Salvador, Haiti, aí eu vou junto, pô. Tá bão? Um beijo! Tchau.

O Corinthians tem um outro Lula da Silva. É o preparador físico e jovem empresário Luís Cláudio, filho de Lula, também conhecido como Lulinha. Ele é funcionário, contratado em 2009. Começou na preparação física do esporte amador – mas nos últimos meses vem cuidando de intercâmbios na difícil área internacional. Volta e meia Sanchez o recebe em sua sala. "É um bom funcionário e um bom menino", diz. (Ambos os Lulas da Silva não quiseram dar entrevista.)

"Não aguento mais essa p...", gritou Sanchez, em sua sala de presidente, numa fria manhã de setembro. "Fico aí, me matando, e ainda sou chamado de ladrão." O palavrão designa o clube com uma das maiores torcidas do Brasil. Mas é apenas um desabafo. No fundo, Sanchez é um sujeito profissionalmente feliz. Sabe que faz a gestão mais produtiva da história do clube. Controversa, sim. Mas vai deixar um legado inegável: um centro de treinamento que custou R$ 50 milhões e é o mais moderno da América Latina, a terceira camisa mais valorizada publicitariamente em todo o mundo e o clube brasileiro que mais arrecada com propaganda. De acordo com a consultoria financeira Crowe Horwath RCS, cujo sócio brasileiro é o vice-presidente de finanças Raul Correa da Silva, a marca Corinthians passou a ter o maior valor de mercado do futebol brasileiro: R$ 867 milhões. O Corinthians ainda terá, em dois anos, um estádio próprio na Zona Leste paulistana, o Itaquerão. Ele está sendo construído pela Odebrecht – ao anunciado custo de R$ 780 milhões. Sanchez aposta que será lá o jogo de abertura da Copa do Mundo de 2014. Ao ser perguntado sobre o Itaquerão, obra que só vai sair graças a um financiamento a juros baixos do BNDES e a incentivos fiscais dos poderes públicos, Sanchez travou o seguinte diálogo com o repórter de ÉPOCA:

– Quem fez o estádio fui eu e o Lula. Garanto que vai custar mais de R$ 1 bilhão. Ponto. A parte financeira ninguém mexeu. Só eu, o Lula e o Emílio Odebrecht (presidente do Conselho de Administração da Odebrecht).
– O dia em que essa história vier a público, vai ficar feio para quem?
– Não vai ficar feio pra ninguém. Vai ficar, talvez, não imoral, mas difícil para o Lula.
– Por quê?
– Porque vão falar: "Pô, como é que uma empreiteira se submete a fazer isso? Por que o presidente pediu?". É o que insinuam até hoje.

A sala de Sanchez fica no 5º andar do edifício sede no Parque São Jorge. De meia em meia hora, ele pede cafezinhos com leite. Fuma um cigarro a cada três minutos. Pelo estatuto do Corinthians – renovado em sua gestão –, faltam cinco meses para terminar seu segundo mandato de presidente, iniciado em fevereiro de 2009. Deveria sair em fevereiro de 2012, mas anunciou que sairá, sem falta, no próximo dia 15 de dezembro.
Sanchez perdeu uma lasca do dedo anular direito ao teimar em mexer com uma máquina de moer cana. Tinha 6 anos. Foi em Limeira, a 150 quilômetros de São Paulo, no sítio dos avós maternos, espanhóis. "André foi um menino de coração muito bom, mas de gênio ruim", diz sua mãe, Josefa Sanchez, a dona Pepa, em sua casa na periférica Vila dos Remédios, em Osasco, Grande São Paulo. Faz sete anos que ela perdeu a visão. "Cada um carrega sua cruz", afirmou. Pepa e o marido de 80 anos, Gregório Navarro Reche, são espanhóis da Andaluzia. Conheceram-se em São Paulo, no final dos anos 1950. Gregório tinha um açougue em Ribeirão Pires, na Grande São Paulo. Josefa, uma família grande e bem estabelecida em Limeira. Casaram lá, em 1961. Sanchez chegou na véspera do Natal de 1963. Foi o segundo, de quatro filhos. Toda a família o chama de André.

Gregório tinha uma banca de frutas no Ceasa de São Paulo. Corintiano, associou-se ao clube em fevereiro de 1969, com o título de número 100.492, quando moraram na Zona Leste. Sanchez tinha 5 anos. Em 1972, Gregório pegou Pepa, os três filhos de então e embarcou num navio para a Andaluzia natal. Passaram dois anos com parentes na aldeia de Llano de Los Olleres. Gregório e Pepa trabalharam duro. Sanchez sofreu na escola, mas aprendeu a língua dos pais. "Foi uma experiência boa, mas complicada", diz. Retornaram no final de 1974. Gregório voltou a trabalhar no Ceasa, agora como carregador. Anos depois, estabeleceu-se como feirante, com uma banca de frutas. Acordavam de madrugada, de segunda a domingo, para montar a barraca nas feiras da Vila dos Remédios. "O André ajudava, mas não parava de reclamar", diz seu Gregório.

No Colégio Nossa Senhora dos Remédios, Sanchez penava para passar de ano. Gazeteava aulas para ir, de ônibus, ao Parque São Jorge. Aos 13 anos, já se esforçava para passar na peneira do dente de leite corintiano. E passou, aos 14, como lateral direito. "Eu sabia jogar e queria ser profissional. Mas já bebia, já fumava, não aparecia nos treinos. Não deu certo. Sou um jogador frustrado."

Seu melhor amigo da juventude foi o tenente-coronel Augusto Fernando Silva, que o chama até hoje de Espanha. O apelido do coronel era Fernando Minando. Quase três anos mais velho que Sanchez, ele entrou para a Polícia Militar de São Paulo aos 15, quando isso era possível. Passou a maior parte do tempo na Rota, aposentou-se com 45 anos e hoje, aos 51, cuida da segurança de um banqueiro. Minando e Espanha eram amigos s de bairro, bailes e futebol. Sanchez jogou futebol de salão, como ala, no Água Branca, do Moinho Santo Antônio, e no Real Madrid – da Vila dos Remédios.

Sanchez namorou e casou com os olhos verdes de uma colega do bairro e da escola, Maria Bernadete Gomes, a Dete, filha de portugueses, o pai sapateiro, depois padeiro. Tiveram Lucas, 18 anos, e Marina, 14, os dois filhos que quase sempre vão ao estádio quando o Timão joga em São Paulo. Separaram-se em 2000. Mantêm boa relação, mas não inteiramente resolvida.

Foi com José Oller, primo pelo lado materno, dois anos mais velho, que Sanchez começou a trabalhar e a ganhar dinheiro. Antes, penara como um indisciplinado praça do 4o Batalhão de Infantaria Motorizada, em Quitaúna, Grande São Paulo. Oller abriu uma loja nas cercanias do Mercado Municipal paulistano. Vendia sobretudo limões, no atacado. Sanchez chegava de madrugada e suava a camisa até as 3 da tarde. Aos limões, Oller agregou embalagens para frutas, as redinhas. Associou-se ao dono da Sol Embalagens, a fábrica que as produzia. O negócio cresceu, e Oller montou lojas na Ceasa de Ribeirão Preto e na de Campinas. Sanchez foi ser gerente desta última, no começo de 1983. Mudou-se, alugou apartamento, melhorou de carro.

Um ano depois, resolveu passar seis meses em Barcelona, na Espanha. Lá, morou com Tadeu Oller, irmão de José. Sindicalista desde os tempos da luta contra o franquismo, relacionava-se bem com a cúpula dos então nascentes PT e CUT. De volta à Ceasa em Campinas, Sanchez teve um rápido flerte com o Partido Comunista do Brasil. Depois filiou-se ao PT. Em Campinas, conheceu e ficou amigo do atacante José Ferreira Neto, hoje comentarista da rádio e TV Bandeirantes. Naquela ocasião, a canhota de Neto brilhava no Guarani de Campinas. Fanático, Sanchez não perdia os jogos do Corinthians. Dete, com quem já namorava, tinha sempre de dividi-lo com o clube. Foi a terceira namorada das quatro que diz ter tido – fora os enroscos.

Casaram-se, apaixonados, em abril de 1989. Oller abrira mais uma Sol Embalagens, na Ceasa do Rio de Janeiro, e o casal mudou-se para lá. "Foi a melhor fase da nossa vida", diz Dete no apartamento em que mora, com os dois filhos e a cadelinha poodle Lila, no Jaguaré, na Zona Oeste de São Paulo. O imóvel está no nome de Sanchez, que paga as despesas, inclusive o salário de Dete, sua funcionária num de seus dois postos de gasolina.

Lucas nasceu no Rio de Janeiro, no final de 1992. Sanchez continuava colado no Corinthians. Não perdia os jogos em São Paulo e, quando o clube jogava no Rio, era o anfitrião de Neto, então no Timão, e de jogadores amigos dele. Neto também o apresentou ao bicheiro e diretor de base do Corinthians Jacinto Antônio Ribeiro, o Jaça. Saíam depois dos jogos, pela animada noite do Rio. "O Andrés tinha dinheiro e nunca deixou ninguém pagar nada", diz Jaça. Dete implicava com as farras. Em 1994, com cinco anos de Rio, a família voltou para São Paulo. Oller, prosperando, comprara a fábrica Sol Embalagens, em Caieiras, Grande São Paulo. Além de sócio, com participação de 8%, Sanchez passou a comandá-la. Comprou um BMW 323, preto, e alugou um bom apartamento no Alto de Pinheiros, bairro nobre na Zona Oeste paulistana.

O fim do casamento de 11 anos, em 2000, está vivo até hoje. Ele praticamente casara-se com o Corinthians – pelo menos é a avaliação dela – e padeceu o que chama de "decepção amorosa". Foi uma fase difícil para ambos, agravada por um câncer que mais tarde Dete conseguiu vencer. (Ele também teve um, anos depois, e também pulou a fogueira.) Sanchez gosta de falar sobre questões pessoais. Ele se autodefine como "muito solitário". "Tenho poucas horas de alegria para muitas de tristeza. É mais ou menos como o Corinthians: poucas horas de alegria para muitas de dor de cabeça." Por que ele se sente assim? "Depois das minhas decepções amorosas, ou da maior delas, me tornei muito sozinho, fechado, bloqueado." Mesmo eventualmente pensando em retomar o casamento, não superou o passado. Hoje, dizem ambos, está terminada a relação pessoal. "Tenho fama de comedor, de galinha, mas não sou isso", diz. "Às vezes, à noite, vou na Passatempo (boate no Itaim Bibi, na Zona Sul paulistana), fico lá tomando meu uísque e venho embora pra minha casa."

Deve-se ao bicheiro Jaça a entrada de Sanchez na vida interna do Corinthians. O então diretor de futebol amador do clube pediu ao auxiliar que cuidava da escolinha de futebol, Manoel Ramos Evangelista, que André do Rio – como Sanchez era então conhecido – fosse
admitido como ajudante. Nesse período, o jogo do bicho pesava muito na balança corintiana. O apelido de Evangelista é Mané da Carne, oriundo do ramo que o tornou próspero: açougue, primeiro; depois, a carne verde no atacado. Em 1995, ele era diretor adjunto da escolinha que reunia 70 moleques de 10 a 13 anos. Sanchez passou a ser seu assessor. Ia para o clube de BMW e tirava dinheiro do bolso para as despesas de uma categoria a que a diretoria não dava maior importância. "Ele gastava, do dele", diz Jaça. "E, como todo mundo sabe: quem assina o cheque tem preferência." Aos três mosqueteiros – Jaça, Mané e Sanchez – juntou-se um quarto: André Luiz de Oliveira, conhecido como André Negão. Também era bicheiro, sócio de Jaça, e Mané o agregou à escolinha. Como mostra seu cartão, Jaça é "assessor especial da presidência". Ele mesmo traduz: "Na verdade, sou um aspone. Não mando p... nenhuma e não faço nada". Já mandou mais, muito, mas ainda banca suas apostas.

Num fim de semana de outubro de 1996, Sanchez capotou e arrebentou, com perda total, um BMW que Jaça acabara de comprar e ainda tinha plástico nos bancos de couro. Estavam em Coxim, Mato Grosso, numa casa de Jaça, à beira do Rio Taquari. Depois de uma noite de farra, ao amanhecer, Sanchez pegou o BMW e foi levar umas garotas em casa. Na volta, o carro ficou com os quatro pneus no ar. Dois dias depois, num hospital de São Paulo, Sanchez soube que fraturara a vértebra C-4. Queriam operar, mas ele não deixou. Ficou 93 dias com um colete de gesso no pescoço.

André Negão, hoje diretor administrativo do Corinthians, tem uma sala ao lado de Sanchez. Simpático, não se importa em mostrar as marcas, pelo corpo todo, dos sete tiros que levou na manhã de 8 de agosto de 2003. Saía de uma padaria, perto do Parque São Jorge. Uma moto encostou, o carona desceu e, pelas costas, disparou. "Foi um milagre ele ter sobrevivido", diz Sanchez. Até hoje, o caso é um mistério. "André, Jaça e Mané são meus grandes amigos", diz Sanchez. "Me ajudaram muito, e sou parceiro dos parceiros." Mané também tem seu cartão de "assessor especial da presidência".

Na definição coincidente de seus três mosqueteiros, Sanchez era, nas internas do Corinthians, um reclamão contumaz das precariedades do futebol amador – que continuava a tentar sanar com dinheiro do próprio bolso. Sanchez cuidava das categorias mais crescidas da base do clube quando, no final de 1999, o poderoso vice-presidente Nesi Curi, braço direito do presidente Alberto Dualib, afastou-o do Corinthians. "Foi como se o mundo tivesse caído", diz Dete. Ela se viu livre da concorrência. O marido concentrou-se na fábrica de Caieiras – e ficou dois anos fora do Timão.

Curi morreu na segunda semana de setembro. Sanchez visitou-o no hospital e foi a seu enterro. "Nesi o afastou porque descobriu que ele estava negociando jogadores para um clube do interior", diz o blogueiro Paulo César de Andrade Prado. Responsável pelo Blog do Paulinho, Prado é o mais implacável detrator de Sanchez, de boa parte de seus diretores e de alguns de seus amigos. Diz responder a 56 processos por calúnia, injúria e difamação. Foi condenado em primeira instância em pelo menos meia dúzia – inclusive nos movidos por Sanchez, André Negão, Mané da Carne e Jaça. "Nesi me tirou da categoria de base porque eu brigava muito com ele", diz Sanchez. "Nunca negociei jogador." Outro que o apoquenta com acusações é o conselheiro corintiano Rolando Wohlers, vulgo Cyborg. Ele já foi sentenciado e cumpriu pena pelo crime de estupro. Prado e Wohlers são ligados a adversários de Sanchez no Corinthians.

Em 2002, André Negão, também no limbo com o afastamento do amigo, deu um jeito de voltar ao Corinthians: virou cabo eleitoral do mais uma vez candidato a deputado estadual Wadih Helu. Morto em junho último – Sanchez também bateu ponto no cemitério –, Helu era uma espécie de "faraó malufista" da política paulistana. Por dez anos presidente do Corinthians (1961-1971), continuava a ter forte influência na gestão Dualib-Nesi Curi. "Fui à fábrica falar com o Andrés", diz André Negão. "Disse a ele que a nossa chance de voltar para o Corinthians era apoiar a campanha do Wadih." Sanchez respondeu:

– Você tá louco, tio. Isso eu não vou fazer nunca. Sou do PT, c... Se os caras descobrem um negócio desses, eu tô perdido. Não dá, tio.
– Então, tio, você não quer ser diretor – disse André desolado, já saindo.
– Ô tio, volta aqui. Você tem certeza que se eu fizer isso eu posso ser diretor do Corinthians?
– Claro, tio! Você não vive dizendo que quer ser presidente? Pois o caminho é esse. O Nesi é assim com o homem.

Poucas empresas apoiaram uma campanha de Wadih Helu com o calor da Sol Embalagens. Teve churrasco em chácara alugada, para mais de 1.000 pessoas, e material de campanha a valer. Ao ver todo aquele apoio, Nesi Curi mudou de opinião sobre os "tios". Ainda em 2002, a pedido de André Negão, fez com que Dualib nomeasse os quatro mosqueteiros conselheiros vitalícios do Corinthians. No passo seguinte, Sanchez realizou a primeira parte de seu sonho: diretor de esportes terrestres, no quarto e penúltimo mandato consecutivo de Alberto Dualib (2003-2005).

Corinthians Casuals Football Club – homenagem à cidade grega de Corinto – foi um time de estudantes ingleses que passou por São Paulo em 1910. Jogou bonito. Por isso, cinco operários do bairro do Bom Retiro, na região central de São Paulo, escolheram esse nome quando fundaram o Timão, há 101 anos. Seu presidente notório, muitos anos mais tarde, foi o espanhol naturalizado Vicente Matheus. O último eleito, antes de Sanchez, foi Alberto Dualib. Ficou 14 anos ininterruptos no poder, fora os dez em que foi vice-presidente de Wadih Helu.

Kiavash Joorabchian, ou Kia, como ficou conhecido, é um milionário empresário anglo-iraniano. Em 2004, ele era o dono da Media Sports Investment, a MSI, sediada em Londres. É conhecida a história tumultuada de sua parceria com o Corinthians. Rendeu inquérito e processo, ainda tramitando, sobre a entrada de dinheiro ilegal no Brasil. Nessa ocasião, o articulado Sanchez já era diretor de futebol do clube. Apoiou a parceria, esteve em Londres com a comitiva que acertou o negócio, ficou amigo de Kia. Quando a Polícia Federal entrou no caso, Sanchez foi investigado e várias vezes ouvido pelo delegado e hoje deputado federal Protógenes Queiroz (PCdoB-SP). Não foi denunciado, não é alvo de inquéritos nem responde a processos judiciais. "O que mais me irrita é a insinuação de que eu sou ladrão e faço negociata com jogador", diz Sanchez. "Já cansaram de me investigar – e estou limpo."

Alberto Dualib é um senhor vetusto que põe terno e gravata para receber visitas no apartamento em que mora, no elegante Alto de Pinheiros, na Zona Oeste paulistana. Tem 91 anos e carrega, além da viuvez recente – Sanchez mandou uma coroa de flores –, uma condenação na primeira instância, por estelionato, em parceria com o finado Nesi Curi. Coisa de notas fiscais frias quando comandavam o Corinthians. Alega inocência – e recorre da sentença.

Dualib apoiou Sanchez porque ele era um empresário bem-sucedido e mão-aberta, disposto a emprestar dinheiro ao clube, ou a avalizar empréstimos, quando "seu Alberto" pedia. Subiu de posto, para vice-presidente de futebol, quando Dualib começou a anunciar que seu amigo e diretor Roque Citadini poderia, se quisesse, ser o próximo presidente do clube. Desafeto de Citadini, Curi exigiu que Dualib lhe diminuísse a crista. Sanchez aproveitou para crescer.

Sanchez narra o começo da sedição contra Dualib: "A oposição começou, forte, quando vimos o contrato que a Carla Dualib, neta do seu Alberto, tinha assinado com o clube. Ela ganhava R$ 38 mil por mês e tinha direito a 30% de toda a publicidade que entrasse no Corinthians, mesmo a que não fosse trazida por ela. Um privilégio absurdo". Por causa da campanha movida por Sanchez, Dualib foi forçado a renunciar. Carla está processando o clube. "Ele soube fazer", diz Dualib. "Formou uma ala política, disputou e ganhou."

Sanchez assumiu a presidência do Corinthians, pela primeira vez, para cumprir o resto do mandato de Dualib. Era outubro de 2007. Nos meses que antecederam a queda de Dualib, Sanchez reuniu ao grupo da contravenção – a turma do bicho e agregados – profissionais liberais bem situados e interessados em melhorar o clube, batizados como "corintianos obsessivos". "Ele teve a capacidade de nos conquistar", diz o advogado Sérgio Alvarenga, diretor jurídico do Corinthians. "E jogo de cintura para administrar a convivência dos dois grupos", afirma o advogado Felipe Ezabela. Os dois foram fundamentais na área jurídica. Também ajudou, e muito, a tonitruante autoridade do delegado de polícia Mário Gobbi. E, mais que os anteriores, o economista Luís Paulo Rosenberg, o vice de marketing. É dele a melhor frase sobre a diferença entre os dois grupos: "Se o Andrés me pedir para atender um pedido do Mané da Carne, simplesmente vou embora!". Sanchez explica o segredo da convivência: "Todos engolindo sapo de um lado, todos engolindo sapo do outro".

"Só consegui trabalhar com dois chefes: Delfim Netto e Andrés Sanchez", diz Rosenberg na sala de reuniões da Rosenberg Partners, na movimentada Avenida Faria Lima, em São Paulo. Rosenberg colaborou com a gestão Dualib quando um grupo de jovens empresários achou que podia dedetizá-la. Sanchez colocou-o na vice-presidência de marketing. Lá, implantou uma gestão que multiplicou os empreendimentos e a receita do clube. "O Andrés é mercurial", diz Rosenberg. "Tem péssima formação escolar, mas uma grande sensibilidade política para perceber onde pode surgir a crise e abortá-la." Dois goles de água depois: "O Andrés, na verdade, é a versão futebolística do Lula. Sabe unir pessoas em torno de uma ideia e tem uma incrível capacidade de delegação. É grosseiro e muito agressivo. E também um manteiga derretida, o mais emotivo, o mais doce, o mais amigo dos amigos".

Eleito presidente do clube, Sanchez deixou as empresas de José Oller. Vendeu os 8% da Sol Embalagens, montou meia dúzia de lojas em Ceasas de Estados diferentes, comprou dois postos de gasolina, o imóvel em que Dete mora e outro, menor, no mesmo bairro do Jaguaré. "Meu patrimônio é de R$ 3,5 milhões", afirma. "Ficou combinado, com a família, que eu ficaria quatro anos dedicado ao Corinthians, mantendo minha retirada." Suas lojas, que têm 80 funcionários, são administradas pelo irmão mais novo, Tadeu. "Vivo muito bem com R$ 40 mil por mês. É o suficiente." (O Corinthians não remunera sua diretoria.)

O maior gol contra da primeira gestão de Sanchez no Corinthians foi o rebaixamento para a segunda divisão, em dezembro de 2007. Quando ele assumiu, faltavam sete jogos para o final do campeonato. Os adversários de Sanchez gostam de insinuar que a queda foi proposital. Sanchez diz: "Foi a maior frustração da minha vida. Fiz tudo ao meu alcance para o time não cair". E por que ele não trocou de técnico? Sanchez reconhece o erro: "Eu tinha que ter afastado oito ou dez jogadores e ter trocado a comissão técnica. Mas, como assumi na terça e no domingo o time ganhou do São Paulo, não quis trocar. Talvez eu tenha sido omisso. Não mudei talvez por um pouco de medo de levar a culpa 100% sozinho. Tem que ver o tamanho da culpa de cada um. Que tenho culpa, tenho. Eu era o presidente. Nunca me isentei".

Ronaldo Nazário, o Fenômeno, foi o maior gol de Sanchez no Timão, feito no final de 2008. Foi seu grande trunfo para ganhar o segundo mandato – para o qual seria reeleito, em fevereiro de 2009. O martelo foi batido num hotel do Rio de Janeiro, no dia 9 de dezembro, um dia depois da festa em que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) entregou os prêmios para os destaques de 2008. Sanchez e Rosenberg estavam hospedados no hotel Novo Mundo, no bairro do Flamengo, no Rio. Ronaldo chegou com seu empresário, Fabiano Farah. A tantas, resolvido o essencial da parte financeira, Rosenberg e Farah começaram a discutir os detalhes. Sanchez desceu para fumar, e o Fenômeno o acompanhou.

Aconteceu então uma cena inusitada. "Apareceu um torcedor com uma tatuagem do meu rosto na perna", diz o agora empresário Ronaldo na sede de sua empresa de marketing esportivo 9ine, em São Paulo. "Ficou muito emocionado, chorou, foi uma p... coincidência. Isso me fortaleceu na hora de decidir." Ele achou a proposta de Sanchez desafiadora. "Eu já vinha de salários bem altos na Europa e não sabia os valores que poderiam me oferecer. O Andrés teve a ideia de vender patrocínio na manga da camisa e no calção. Montamos juntos lá essa divisão do uniforme, de acordo com o patrocinador que viesse. Eu teria 80% de manga e calção, participando também no patrocinador máster (o principal)". O santo dos dois bateu: "O Andrés é simples, autêntico, passa credibilidade. Boto a minha mão no fogo por ele", diz Ronaldo. Na avaliação do Fenômeno, Sanchez "fez uma revolução no Corinthians e ensinou para o Brasil como fazer negócio, como trazer grandes jogadores, como viabilizar a permanência deles com salários altos". O momento mais marcante entre os dois foi quando Ronaldo o avisou que pararia de jogar. Foi no apartamento do Fenômeno. Tomaram uma garrafa de uísque – o de Sanchez com guaraná, como sempre. "Aí contei tudo", diz Ronaldo. "Falei das minhas dores, disse que não podia mais. Ali eram dois amigos, chorando como duas crianças bobas. Foi f..."

Como presidente do Corinthians, Sanchez não vai levar muitos títulos para casa. Só ganhou dois, neste segundo mandato que está acabando: o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil de 2009. Ainda tem o Brasileiro, em andamento, para testar sua sorte. Dos momentos amargos, ficará o dramático adeus à Libertadores na derrota para o Tolima, da Colômbia, neste ano. "Ainda dói", diz.

Antes de Sanchez, era o Clube dos 13 que negociava, com as empresas de televisão, o preço das cotas de patrocínio pela exibição dos jogos. Calculando que o Corinthians podia ganhar mais, Sanchez implodiu o Clube dos 13. Inaugurou o modelo da negociação direta, depois seguido pelos outros clubes. Sua opção foi negociar com a TV Globo. A negociação começou em outubro de 2010 e terminou em março deste ano. Foram 15 reuniões. Sanchez e Rosenberg pelo Corinthians. Tinham pela frente Marcelo de Campos Pinto, diretor executivo da Globo Esportes. "Foi uma batalha campal, reunião a reunião, com avanços e recuos", diz Campos Pinto. "Andrés foi duro e extremamente cioso na defesa dos interesses do Corinthians – e nós dos nossos. O resultado foi feliz para os dois lados."

O contrato é confidencial. Do que veio à luz, o Corinthians receberá a partir de 2012, em quatro anos, entre R$ 80 milhões e R$ 120 milhões, ou quase o dobro do contrato anterior. "Andrés herdou um Corinthians em situação econômica e financeira absolutamente desesperadora e conseguiu sanear", diz Campos Pinto. "Fez uma gestão muito eficiente: tem o maior patrocínio de camisa no Brasil – o terceiro do mundo –, construiu o centro de treinamento e elevou as receitas globais do clube. Andrés não é um scholar, mas é um dirigente sagaz, peitudo, ousado e intuitivo." Campos Pinto diz que a TV Globo não se sentiu ofendida quando Sanchez a chamou de "gângster" numa reunião do Clube dos 13. "Lá, as reu­niões costumam ser esquentadas", afirma. "Foi só uma palavra mal aplicada." Sanchez esclarece: "Falei gângster também para o Ricardo Teixeira, presidente da CBF, que é meu amigo, no sentido de gente poderosa, mas não criminosa".

O advogado do Corinthians, Luiz Felipe Santoro, despacha com Sanchez praticamente todo dia. Também o acompanha em viagens, para resolver pendências do clube. Na segunda quinzena de abril, eles estiveram em Brasília, onde Sanchez prestou um depoimento à Comissão de Educação, Cultura e Desporto do Senado. No voo de volta, Santoro tomou um susto ao ver uma bolha do tamanho de meia laranja na perna esquerda de Sanchez. Sem aguentar a dor, ele puxou a perna da calça e, a sangue-frio, estourou a bolha contra a poltrona. Fazia três dias que queimara a perna, na sauna do novo centro de treinamento. Como não quis perder o compromisso no Senado, deixou a queimadura em paz, até a volta. Só em São Paulo, procurou um médico. "Quase gangrena", diz Sanchez, rindo. Ficou uma semana no hospital.

Sanchez indicou, como candidato a sua sucessão, o delegado da Polícia Civil Mário Gobbi, que considera capaz de fazer o resto da faxina. Gobbi atende num posto do Detran em Guarulhos. Tem um vozeirão, está longe de ser simpático e é daqueles sujeitos que mostram o Imposto de Renda sem que se peça – mas retira-o imediatamente da mesa quando se vai olhar. "Sempre me preparei para receber essa indicação", diz Gobbi. Ele é apoiado pelos "corintianos obsessivos". Rosenberg é seu maior cabo eleitoral. André Negão não gostou da escolha. "Eles são obsessivos pelo poder, não pelo Corinthians", diz. Negão sabe que Gobbi pretende tirar, pelo menos da cúpula diretora, todo o resquício da contravenção. Logo que Sanchez bateu o martelo por Gobbi, Negão lançou, em seu perfil no Facebook, o movimento "Fica Andrés". Isso significaria mudar o estatuto, para permitir a reeleição. Sanchez não demoveu o amigo – até disse para ir em frente –, mas deixou claro que é contra. "Jamais vou brigar com o Andrés, meu irmão, por motivo nenhum", diz Negão. "Nossa amizade está acima do Corinthians", afirma Sanchez. Jaça também não quer Gobbi. Está organizando um grupo de oposição chamado "Corinthians com respeito".

A verdade é que Sanchez não pretende exatamente sair. Antes de deixar a presidência, ele vai propor, no Conselho Deliberativo, a criação de uma comissão de três pessoas para acompanhar as obras de construção do Itaquerão. "Eu no comando, com autonomia total, um outro diretor que eu indique e um integrante da oposição. Quando o estádio ficar pronto, eu entrego a chave e digo: "Está aí, ó"", diz Sanchez. "Além de um cara da oposição, eu queria colocar dois jornalistas. Mas isso não vai dar certo, porque vão dizer que é privilégio dos escolhidos." E por que não um representante do Ministério Público? Sanchez dá risada: "Mas aí o cara vai querer aparecer mais que eu. Promotor é brincadeira, né?".

Sanchez é bom em administrar a convivência dos contrários, como Gobbi e André Negão. Sabe que os potenciais candidatos da oposição – Osmar Stábile e Paulo Garcia – tentam sair numa chapa conjunta. Mas só observa, na dele. Parece ansioso para sair da presidência, que lhe exige dedicação integral. Quer mais tempo para os filhos. Para Dete, quem sabe? E mais liberdade para o uísque com guaraná, o pôquer e o truco, as incursões no clube de suingue que frequenta, as casas de samba, os botecos, os ótimos restaurantes e as boates caras. Quem sabe seja o presidente da CBF quando seu amigão Ricardo Teixeira sair? "Isso aí já deve estar tudo certo", diz o comentarista Neto, com a autoridade de amigo assíduo. Ou, quem sabe?, volte depois do delegado Gobbi.

O que Sanchez quer que digam a respeito de suas gestões?

– Que um cara da torcida administrou muito bem o Corinthians. Que existe um Corinthians antes desse cara e um Corinthians depois desse cara.

Simples assim.