sábado, outubro 01, 2011

MÔNICA BERGAMO - JUNTA TUDO



JUNTA TUDO
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 01/10/11

O governo de SP planeja um programa para desburocratizar o processo de abertura de empresas. As medidas incluirão até a mudança da sede da Junta Comercial do Estado, hoje na Barra Funda, para um prédio no Centro no primeiro semestre de 2012.

CARIMBO VIRTUAL
O projeto contará com o apoio da Receita Federal e da Imprensa Oficial, que desenvolverá um sistema para preenchimento on-line do contrato social. Hoje, esse documento precisa ser protocolado fisicamente na Junta, que expede o Nire (número de registro de empresa). O proprietário então leva a papelada à Receita para tirar o CNPJ. A ideia é que tudo seja feito pela internet.

MÃOS À OBRA
A editora Saraiva, por meio do selo Benvirá, assinou contrato com o jornalista e escritor Fernando Morais para editar três obras dele nos próximos oito anos. A estreia será o livro sobre o ex-presidente Lula. Morais viajará com ele nos próximos meses pelo Brasil para finalizar sua pesquisa.

DOIS PONTOS
O conselheiro Marcelo Nobre, do CNJ (Conselho Nacional deJustiça), diz que a palavra "arrependimento" não é a correta para explicar sua posição em relação à nota divulgada pelo colegiado contra declarações de Eliana Calmon, corregedora do órgão. "Nós temos que separar os assuntos: uma coisa é a entrevista desastrosa da ministra. Não me arrependo em relação às críticas feitas na nota às declarações dela. A outra é a defesa das competências do CNJ. Defendo que ele continue recebendo diretamente reclamações dos cidadãos."

TEXTO FINAL
Nobre faz parte do grupo de seis conselheiros do CNJ que divulgará texto para esclarecer o apoio que deram à nota de Peluso contra as declarações de Eliana Calmon de que há "bandidos infiltrados" na magistratura.

DAMA DA LOTAÇÃO
A atriz Dira Paes usou o serviço de uma lotação VIP -com preço a partir de R$ 30- para conseguir deixar a Cidade do Rock às 5h da manhã. "É errado com o público os carros e táxis não poderem ter acesso aos portões. Na hora de ir embora, todo mundo já tá morto. E a gente ainda quer fazer uma Copa do Mundo!", dizia.

TE LIGUEI
Quando Stevie Wonder cantou "I Just Called to Say I Love You", muita gente na plateia do Rock in Rio levantou os celulares para gravar recados para outras pessoas.

CRAVOS
O ator português Paulo Rocha, o Guaracy de "Fina Estampa", da TV Globo, era um dos mais assediados no Rock in Rio anteontem. Na porta de um dos camarotes, as mulheres faziam fila para tirar uma foto com ele. Rocha garante que em sua terra natal o assédio é o mesmo. "A intensidade é igual aqui ou lá. Mas a situação aqui é atípica por causa do tamanho desse evento", disse.

OLHA EU
E em um dos espaços VIP da Cidade do Rock, outro ator da mesma novela tentava ser fotografado ao lado de Marco Pigossi (o Rafael da trama), seu colega de elenco. "Eu também estou na novela", dizia pra quem se aproximava com uma câmera.

ROCK VIP
Personalidades como os atores Marcelo Serrado, Fernanda Rodrigues, Paulo Rocha e Tania Khalill passaram pela área VIP do Rock in Rio, anteontem.

CURTO-CIRCUITO

Caetano Veloso e Maria Gadú cantam no dia 21, às 22h, no Via Funchal. Ingressos de R$ 150 a R$ 350. Classificação: 14 anos.

O livro "Lições da Cidade", organizado pelo vereador José Police Neto, será lançado hoje, das 11h às 14h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

O filme "Garrincha, Alegria do Povo" será exibido amanhã no ciclo "Cinema e Psicanálise", seguido de debate com Ruy Castro. Às 18h, na Cinemateca. Classificação: livre.

A loja de presentes Amoreira, no Alto de Pinheiros, promove hoje, das 10h às 18h, oficina de costura e desafio de futebol de botão para pais e filhos.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

GUSTAVO LOYOLA - Não há motivos para pessimismo


Não há motivos para pessimismo
GUSTAVO LOYOLA
O ESTADÃO - 01/10/11

Fazer qualquer previsão sobre o desenlace da crise europeia não é tarefa fácil. Há diversas variáveis em jogo e não pode ser descartada a possibilidade de acidentes de percurso. Mas é possível traçar dois cenários para o problema europeu. No primeiro, o default se circunscreve à Grécia e a Comunidade Europeia consegue isolar os demais países e os sistemas bancários nacionais dos efeitos negativos do calote grego. No cenário alternativo, há default por parte de outros países, com fortes repercussões sobre os bancos europeus, principalmente se Itália e/ou Espanha forem atingidas.

Para que o primeiro cenário se materialize, é necessária a reestruturação ordenada da dívida da Grécia, com vistas a pôr seu endividamento numa trajetória sustentável, ao mesmo tempo que haveria a recapitalização dos bancos afetados. Para os demais países com dificuldades - Portugal, Irlanda, Espanha e Itália -, mas que ainda são solventes, haveria abundantes recursos comunitários para assegurar a liquidez necessária para rolar sua dívida, por meio do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF). Neste caso se estaria aplicando a recomendação de Walter Bagehot no seu célebre livro Lombard Street, segundo a qual é necessário prover liquidez ilimitada aos bancos solventes numa situação de crise financeira. O EFSF serviria de emprestador de última instância, cumprindo um papel que o Banco Central Europeu teria dificuldades estatutárias e conceituais para executar. Apesar das dificuldades políticas e técnicas de implementação das medidas, este é o cenário mais provável, até porque as alternativas são bem mais custosas.

De todo modo, não se deve descartar a possibilidade do cenário alternativo, em que haveria uma crise financeira de grande intensidade, causada pelo default desordenado de países soberanos. Este cenário derivaria da impossibilidade de os países europeus agirem tempestivamente, principalmente em razão de obstáculos políticos. Os líderes europeus seriam atropelados pelos mercados, gerando uma crise financeira aberta, cujo tratamento se daria por medidas isoladas dos países, com baixo grau de coordenação entre eles.

As consequências para o Brasil seriam bem distintas dependendo da ocorrência de cada um desses cenários. No primeiro caso, os efeitos sobre nossa economia se dariam primordialmente pelo canal de comércio, fruto de menor taxa de crescimento da economia mundial. Trata-se de cenário moderadamente desinflacionário que afetaria o crescimento do PIB, mas sem afastá-lo substancialmente de sua trajetória potencial. Neste caso, as preocupações domésticas do Banco Central (BC) estariam ainda mais focadas na inflação, pois a demanda continuaria relativamente aquecida e a inflação de serviços seguiria mostrando forte rigidez para baixo. Não ocorreria o cenário de crise aventado pelo Copom na última ata.

Por sua vez, no cenário de default desordenado, as consequências sobre a economia brasileira tenderiam a se assemelhar aos fatos observados em setembro de 2008, quando da quebra do Lehman Brothers. A propagação da crise para o Brasil viria fundamentalmente da retração da liquidez internacional, com efeitos sobre o crédito doméstico e sobre a confiança dos agentes econômicos. Neste caso, o cenário pessimista do BC se materializaria e estaria justificado o afrouxamento monetário preventivo. Novas ações da autoridade monetária, seja de baixa de juros ou de liberação de recolhimentos compulsórios, deveriam se seguir. Nesta hipótese, o ideal seria um "mix" de política econômica com emprego mais intensivo da política monetária e menor uso da política fiscal, diferentemente do observado em 2008-2009.

Embora neste último caso os efeitos sobre a economia brasileira sejam importantes, os fundamentos macroeconômicos e os instrumentos de política disponíveis dão razoável conforto de que os efeitos da crise serão passageiros, a exemplo do ocorrido em 2009. Em suma, mesmo num cenário mais difícil, não há motivos para pessimismo em relação ao Brasil, exceto se cometidas barbeiragens na condução da política econômica.

GOSTOSA


CELSO MING - A reboque dos fatos


A reboque dos fatos
CELSO MING 
O Estado de S.Paulo - 01/10/11

Duraram pouco os festejos pela aprovação, nos Parlamentos da Finlândia, da Alemanha e da Áustria, da nova versão ampliada do Fundo de Estabilidade Financeira Europeia (EFSF, na sigla em inglês), destinado a prover mais recursos para o socorro aos bancos e aos Tesouros soberanos da área do euro. Ontem foi mais um dia de apreensão.

O EFSF está sendo reforçado, expandido de 250 bilhões de euros para 440 bilhões de euros. E será dotado de mais funções que, em princípio, o tornarão mais ágil. Mas essas alterações chegaram tarde e, mais que tudo, são insuficientes.

É fortemente provável, por exemplo, que a Grécia aplique um calote de uns 50% na sua dívida de 350 bilhões de euros. Embora amplamente esperada, essa decisão tem tudo para deflagrar nova onda de rejeição de títulos públicos dos países mais enfraquecidos: Portugal, Irlanda, Itália e Espanha. Se o EFSF assumir mais atribuições e se puser a recomprar alentada parcela de títulos que ficarão largados no mercado secundário, em alguns meses, as reservas terão ido embora. Nessas condições, a conta será empurrada para o Banco Central Europeu (BCE), que terá de emitir moeda para exercer seu papel de tomador de última instância. E, com um panorama desses, sabe-se lá o que será da inflação do euro e que corcovadas mais darão as cotações das moedas nos mercados de câmbio.

Um dos motivos pelos quais os políticos europeus estão sempre atrasados é a visão distorcida que têm do mercado financeiro. Tendem a tomá-lo como rede de abutres, sempre prontos para tirar proveito próprio, sobretudo, nos momentos de maior vulnerabilidade do sistema. Mas, se pensam assim, por que então se tornaram reféns dele?

O mercado financeiro tem lá suas peculiaridades. Faz parte da sua natureza que os detentores do capital sejam covardes. Fogem ao primeiro sinal de perigo e deixam de dar cobertura aos que antes acolhiam. Mas isso é mais antigo do que a Sé de Braga. O fato é que os governos gastaram os olhos da cara antes, durante e depois da crise, viram-se obrigados a recorrer aos empréstimos bancários para financiar suas despesas correntes e, assim, ficaram altamente dependentes dos seus credores.

Isso não é tudo. Os calotes, que agora parecem inevitáveis, provocarão rombos nos bancos. Como não podem quebrar, sob pena de provocar colapsos sistêmicos e queima de depósitos, poupanças e aplicações do público, os bancos a perigo precisarão, de novo, de socorro oficial. Seria grave erro castigá-los e reduzi-los a fumaça, como aconteceu com o Lehman Brothers.

Dirigentes, políticos e chefes de Estado têm mostrado visão curta. Estão mais empenhados em dourar a pílula e a fazer o jogo do contente do que em identificar problemas e proporcionar soluções adequadas. E estão sempre a reboque dos fatos e do que tem de ser feito.

A propósito, o ex-presidente Lula fez observação especialmente lúcida ontem, durante a conferência promovida pela revista inglesa The Economist: "Nos encontros do Grupo dos 20 (G-20), parece que não existem problemas. Só percebemos que existem pela imprensa".

RENATA LO PRETE - Ponto de combustão


Ponto de combustão
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 01/10/11

O anúncio de uma nova fábrica de automóveis no Rio, a ser feito hoje no Palácio do Planalto, colocará frente a frente Dilma Rousseff e Sérgio Cabral pela primeira vez desde a escalada de temperatura no debate sobre os royalties do petróleo. Nesse período, o governador tentou mais de uma vez resolver o assunto diretamente com a presidente. Mas ela tem repetido que atingiu seu limite na negociação, cabendo agora a Estados produtores e não produtores chegar a um acordo -do qual até o momento não há sinal. Ontem, Cabral disse a integrantes da bancada fluminense estar se preparando "para radicalizar".

Sem-tela 1 Enquanto Aloysio Nunes, excluído das inserções de TV do PSDB paulista, protestou no Twitter, José Serra, outro omitido, queixou-se à direção estadual. Para atendê-los, o partido propôs gravar material a ser veiculado nos próximos meses.

Sem-tela 2 Correligionários de Geraldo Alckmin lembravam ontem: quando ele estava sem mandato (e Serra no governo), também foi submetido a um longo jejum de propaganda partidária.

Pontes Ideli Salvatti (Relações Institucionais) articula encontro entre Dilma Rousseff, cuja relação com o alckmismo já está bem encaminhada, e o serrista Aloysio Nunes. O motivo alegado é o fato de o tucano ter assumido a relatoria da Comissão da Verdade no Senado.

Aviso 1 Insatisfeitos com a conduta do Palácio dos Bandeirantes no escândalo das emendas, deputados da base de Alckmin ameaçam aderir à CPI proposta pelo PT. Foram demovidos na reunião de líderes, mas ainda consideram a hipótese de assinar.

Aviso 2 Os parlamentares alegam que o governo, a quem cabe liberar e fiscalizar os recursos solicitados via Assembleia, tenta se eximir de responsabilidade por quaisquer irregularidades.

Não mexe Dilma determinou que nenhuma diretoria do BB seja transferida de Brasília para São Paulo, na contramão de especulações de que isso poderia ocorrer com áreas como a de marketing. A presidente ficou especialmente contrariada diante de relatos de que o pai da ideia seria Ricardo Berzoini.

É festa 1 Em reunião ontem com prefeitos do ABC, Ideli Salvatti, que já morou na região, confidenciou sentir falta de cachaça de cambuci, fruta típica da Serra do Mar. Sem demora, Luiz Marinho, de São Bernardo do Campo, providenciou garrafa para a ministra, que arregalou os olhos de satisfação.

É festa 2 Ideli aproveitou o compromisso em São Paulo e, em vez de seguir para Santa Catarina, sua base, fez conexão para o Rio, onde assistirá amanhã, ao lado do marido, aos shows de encerramento do Rock in Rio.

Aqui não Pressionados por Lula e pelo PT nacional a apoiar Manuela D"Ávila (PC do B) em Porto Alegre, a seção local do partido promoverá manifestação nesta segunda-feira, sob o lema é "Sou PT, quero votar 13".

Aqui sim De sua parte, o PC do B deixou claro a Lula: a presença do PT na chapa de Manuela é condição essencial para que os comunistas do Brasil entreguem seu modesto porém útil tempo de TV ao candidato petista em SP.

Quarentena Franklin Martins entregará nos próximos dias o primeiro volume de sua obra de história da política brasileira contada por meio da música, trabalho ao qual se dedica desde que deixou o governo.

com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio

"Quem se dispõe a homenagear um assassino condenado três vezes na Itália deveria no mínimo convidar os parentes das vítimas para participar da cerimônia."

DO LÍDER DO PSDB NA CÂMARA PAULISTANA, FLORIANO PESARO, sobre a proposta, de autoria do colega Juscelino Gadelha (PSB), de concessão de título local de cidadania ao ex-terrorista Cesare Battisti,.

contraponto

Centro cirúrgico


Prestes a abrir, anteontem à noite, a reunião do PSDB em que seriam discutidas as regras das prévias para escolher o candidato do partido à prefeitura paulistana, o presidente estadual, Pedro Tobias, assustou os integrantes do diretório exclamando ao telefone:

-Eu ponho você na faca amanhã!

Atônitos com Tobias, que é médico, os tucanos foram tranquilizados por um assessor presente à mesa:

-Calma, pessoal! Ele está apenas marcando uma cirurgia no hospital em Bauru...

EDITORIAL FOLHA DE SP - Sobre distorções


Sobre distorções
EDITORIAL 
FOLHA DE SP - 01/10/11

Freio no gasto é crucial para corrigir anomalia dos juros altos, mas governo não pode dar chance ao retorno do descontrole de preços

As principais previsões do relatório trimestral do Banco Central sobre a inflação reafirmam o que já se intuía. Há uma chance razoável de estouro do teto de 6,5% da meta para a alta dos preços neste ano. Além disso, a piora da crise econômica nos países desenvolvidos vai dificultar que o país cresça 4%, como almeja o governo.

O aumento da inflação esperada para 2011, de 5,8% para 6,4%, reacendeu as críticas sobre a decisão, tomada pelo Banco Central no fim de agosto, de abater meio ponto percentual da taxa básica de juros, fixando-a em 12% ao ano. Já a previsão de crescimento menor reafirma o entendimento do BC de que o esfriamento da atividade econômica está em curso.

No encontro do FMI, há uma semana, o governo brasileiro demonstrou confiança sobre suas ações recentes. Disse aos investidores que sempre esteve certo -e antes dos outros- no prognóstico pessimista acerca da retomada econômica nas nações desenvolvidas. Enfatizou as "vantagens comparativas" da situação econômica brasileira nesse contexto.

O Brasil, de fato, tem munição para reagir, pois já desfez a maioria das medidas de estímulo emergencial tomadas após o ápice da crise, no final de 2008. O nível de poupança em moeda forte -as chamadas reservas internacionais- e do fundo de contingência para evitar corridas bancárias domésticas supera bastante os indicadores de três anos atrás.

Por fim, ainda há boa margem para cortar os juros básicos.

Como contrapartida para manter a inflação sob controle, membros da equipe econômica asseguraram, em sua passagem por Washington, que desta vez, à diferença do que foi feito em 2008, o governo não embarcará em uma aventura de gastos públicos.

A presidente Dilma Rousseff, discursando ontem em São Paulo, procurou reforçar e completar a mensagem de seus ministros. Numa crítica discreta a seu antecessor, asseverou que o Brasil não pode desperdiçar mais uma oportunidade -novamente oferecida por um quadro de desalento no mundo rico- de corrigir suas distorções macroeconômicas.

A presidente acerta no reparo à gestão Lula, se estiver se referindo ao descasamento entre uma política de gastos desenfreada, do lado fiscal, e uma atitude excessivamente conservadora do BC para baixar juros. Fazer diferente desta vez, portanto, requer uma inversão perfeita dos termos da equação: freio rigoroso nos gastos e impulso no corte de juros.

É importante, contudo, que o governo esteja atento para o comportamento da inflação -e preparado para abortar iniciativas que alimentem altas perigosas de preços. O Brasil não aceita corrigir a distorção dos juros exorbitantes se o custo for o retorno de outra distorção, a inflação descontrolada.

É PT, É LADRÃO


FERNANDO RODRIGUES - A ilusão do sistema perfeito


A ilusão do sistema perfeito
FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 01/10/11

O Brasil teve poucos momentos de otimismo como o da volta à democracia depois de 21 anos de ditadura. Amadureceu a ideia de redigir uma nova Constituição. Depois, veio a frustração. A Carta de 1988 foi produzida por um Congresso Constituinte. Os deputados e senadores faziam leis e, ao mesmo tempo, escreviam a Constituição. Lobistas se esbaldaram. A corporação dos advogados é citada 23 vezes, um recorde e um despautério nunca corrigidos.

Logo depois de 1988, a Constituição passou a ser o Judas a ser malhado. Prolixo, com muitos direitos, poucos deveres e sem especificar de onde viriam os recursos, o texto passou a ser o culpado pelo baixo crescimento do país. Roberto Campos (1917-2001) brincava com um trecho do artigo 5º, que garante o “direito à vida”. Espirituoso, dizia: “Vou pedir um habeas corpus preventivo a Deus”.

Agora, o mais novo partido político brasileiro, o PSD, está propondo uma Assembleia Constituinte exclusiva. A sigla de Gilberto Kassab deseja jogar no lixo a Constituição de 1988. Um novo texto será redigido por pessoas escolhidas apenas para essa tarefa em 2014. Teriam um prazo de dois anos. Nascerá (sic) então um outro Brasil.

Devagar com o andor. A Carta atual é defeituosa, mas deu aos brasileiros o seu período mais longo de democracia e de estabilidade econômica em todos os 511 anos de história do país. Uma troca pura e simples por outra Constituição não garante a criação de um sistema perfeito – uma miragem.

É triste, mas no Congresso, quase sempre quando um deputado ou senador tem uma ideia, o Brasil piora. Mesmo representantes exclusivos não ficarão infensos aos lobbies. Será uma dispersão de energia sem chance de produzir algo melhor. Se deseja virar um partido de verdade, a primeira providência para o PSD é enterrar a ideia de convocar uma nova Constituinte.

CLAUDIO HUMBERTO

“O PSDB me ignorou”
SENADOR ALOYSIO NUNES (SP), SOBRE O PARTIDO TÊ-LO “ESQUECIDO” PARA O HORÁRIO DE TV

AMIGO DO BANCO FEZ LOBBY PARA “PRÊMIO” DO ITAÚ 
O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) proibiu o Itaú de propagar que é o “mais sustentável do mundo”, título dado pelo International Finance Corporatin (IFC), do Banco Mundial. O idealizador do “prêmio” é o jornalista inglês John Barhan. Ele era editor da revista Latin Finance, em Miami, e, amigo do banco, sempre concedeu o prêmio para o Itaú. Assim que foi contratado pelo IFC ano passado, o Banco Mundial anunciou a honraria para o banco brasileiro.

NA CONTA 
John Barhan vendeu para o IFC a ideia do “prêmio” assim que foi contratado. Curiosamente, o Itaú foi o escolhido sem critérios claros.

LUPA NO EXTRATO 
O Conar descobriu o evidente lobby do inglês amigo do Itaú dentro do Banco Mundial e agora pode multar o banco brasileiro.

EMPURRÔMETRO" 
Com qualidade duvidosa de serviços e técnica do empurrômetro de produtos a clientes, só o Banco Mundial viu “banco sustentável”.

ASSALTO DA DÉCADA 
O Banco Mundial também não soube, provavelmente, que o Itaú tentou esconder o assalto a 170 cofres da agência na Av. Paulista.

FICHA-SUJA ASSINAVA SINDICÂNCIAS NA CODEPLAN 
Presidente demissionário da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan), Miguel de Lucena anulou ofício de sindicância recente que investigava um grupo por graves irregularidades. Quem assinou parecer inocentando os colegas foi um “ficha-suja” lá dentro, Guilherme Boechat Véo, acusado de irregularidades na prestação de contas da Codeplan em 2005 pelo Tribunal de Contas do DF. Nova sindicância foi instaurada.

ESTOU FORA 
Considerado linha dura, o ex-delegado Miguel Lucena não compactuou com muita coisa errada na Codeplan, corrigiu-as e se demitiu.

VISTA GROSSA 
A sindicância investigava dezenas de servidores na Codeplan desde o governo passado, de Rogério Rosso. Ele também já dirigiu o 
órgão. 

NINHO DO MAL 
A Codeplan foi o ninho das malfeitorias do mensalão do DEM. Foi lá que Durval Barbosa, o delator, começou suas operações político-financeiras.

QUARTETO VASCAÍNO 
Quatro vascaínos roxos se reuniram semana passada em Brasília: os presidentes Ophir Cavalcante (OAB Nacional) e Wadih Damous (OAB-RJ); o ministro Cesar Asfor Rocha, decano do STJ, e Cezar Britto, ex-presidente nacional da OAB. Convictos de que o Vasco será campeão.

TOMÁ LÁ, DÁ CÁ 
A empreiteira Odebrecht sabe investir: doou oficialmente R$ 200 mil para a campanha do governador Sérgio Cabral (PMDB), em 2010, e levou contrato de R$ 860 milhões na reforma do Maracanã.

FEIRA LIVRE 
Um desconhecido engravatado vagueia pelo Cafezinho da Câmara dos Deputados vendendo bugigangas eletrônicas. Atualmente oferece IPad 2 aos parlamentares a preços abaixo do mercado. Muito estranho.

DESCARRILANDO 
O deputado Weliton Prado (PT-MG) reuniu 220 assinaturas e lança 25 de outubro a Frente Parlamentar dos Sistemas Metroviário 
e Ferroviário Nacional. Mais do mesmo. Já existe a Mista do Setor Ferroviário.

BRASIL X EUA 
Segue muito mal a relação da Petrobras e do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP) com o governo americano e petroleiras de Houston. Eles vão realizar no Rio a OTC, feira internacional do setor, e não convidaram o IBP, que realiza a Rio Oil & Gás. Empresários prometem boicotar.

NA MIRA 
Convidadas para a OTC, as diretoras Graça Foster (Petrobras) e Magda Chambriard (ANP), se arriscam a levar vaia do setor nacional. Seus nomes surgem como convidadas de honra do evento americano.

CAMPANHA JÁ COMEÇOU 
O prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), tem levado vaias públicas de centenas de manifestantes ligados a sindicatos petistas. Ele rompeu com seu vice, o petista Robertinho Ferreira, que quer se lançar.

PERGUNTA COM RESPOSTA 
Ex-bancário, o petista Ricardo Berzoini mal esconde sua aprovação ao esvaziamento da sede do BB em Brasília. Diz que sempre se perguntou por que o banco “precisava ficar em Brasília”. É a lei, deputado.

PERGUNTAR NÃO OFENDE 
O secretário de Segurança do Rio vai propor revisão de cursos e patrimônio só para a Polícia Militar? 

PODER SEM PUDOR
VOTO DECLARADO 
Depois de elogiar a atuação de Osmar Serraglio à ocasião da CPI dos Correios, a então deputada Juíza Denise Frossard (PPS-RJ) confessou que votaria nele, se pudesse, para ministro do Supremo Tribunal Federal. Ao ouvir a declaração, o presidente Delcídio Amaral (PT-MS) provocou: 
– Vote em mim, também, no Mato Grosso do Sul! 
– Só se você votar em mim no Rio de Janeiro – devolveu a deputada. 
– Isto está virando compra de voto – encerrou, rindo, Arnaldo Faria de Sá.

SABADO NOS JORNAIS


O Globo: Chefe da PM surpreende e troca dez no comando

Folha de S. Paulo: Projeto permite segurança privada armada em ônibus

O Estado de S. Paulo: Dilma e Mantega sinalizam que juros podem voltar a cair

Correio Braziliense: Professor de direito mata aluna e entrega o corpo em delegacia

Zero Hora: Mudança na estratégia das detenções reduz lotação de presídios



Estado de Minas: Ensina-me a conviver




sexta-feira, setembro 30, 2011

CLÓVIS ROSSI - No hay gobierno? Soy a favor


No hay gobierno? Soy a favor
CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SP - 30/09/11

A Bélgica que a presidente Dilma Rousseff visita a partir de segunda-feira está completando 475 dias sem governo, todo um recorde mundial.

Sem governo é maneira de dizer: seus políticos não conseguiram se entender para formar um gabinete efetivo, depois das eleições de junho do ano passado. Em sendo assim, governo há, mas se trata de uma administração em funções apenas com poder de fogo limitado ao mínimo.

Não obstante, a Bélgica cresceu, no segundo trimestre do ano, mais que a formidável locomotiva chamada Alemanha. Para o conjunto do ano, a previsão é de crescimento de 2%, índice que se poderia chamar de chinês se se levar em conta a anemia econômica da Europa.

As más línguas (ou as boas, você decide) dizem até que o crescimento não é APESAR da ausência tão prolongada de um governo efetivo mas justamente POR CAUSA dela. Explico: como não há um governo com força suficiente para decretar um ajuste fiscal, ação que se tornou obsessiva nos parceiros europeus da Bélgica, não há, em consequência, esse freio à atividade econômica.

Pode ser, pode não ser. Mas, à primeira vista, o país não parece sentir a falta de governo. É verdade que houve, tempos atrás, manifestações públicas cobrando a formação de um gabinete efetivo. Há poucos dias, os oito principais partidos até chegaram a dois acordos em torno de temas que dividiam o mundo político entre os flamengos (holandeses) do Norte, mais ricos, e os valões fracófonos e mais pobres do Sul.

Mais pobres em termos belgo-europeus. Se os pobres brasileiros fossem pobres como os pobres belgas, que beleza, como diria Milton Leite, esse excelente locutor da Sportv.

Não vou entrar em detalhes sobre a divergência, mais antiga que a própria Bélgica e mais chata do que dizem ser o próprio país. Não concordo, diga-se. Um país que tem o volume de informações disponíveis em Bruxelas não consegue ser chato nem que se esforce, mas admito que essa é uma visão pessoal, de alguém absolutamente viciado em informação.

Além disso, com ou sem governo, a Grand Place continua a ser a mais bela praça do mundo, para o meu gosto. Nesta sexta-feira, estava até enfeitada por um mini-piquenique de alunos de primário exibindo o caráter multicultural do país, um negrinho de mãos dadas como uma loirinha, um indiano ao lado de uma branquinha. Não que a xenofobia que está abrindo caminho no mundo esteja ausente da Bélgica, mas o estrago, até agora, é limitado.

Como um país consegue funcionar sem governo? Simples: a administração é tocada por uma burocracia profissional, pouco afetada pelas trocas da superestrutura política. Muda uma camada fina na cúpula, o resto toca a vida, qualquer que seja o partido ou coligação que governe. Agora, por exemplo, discute-se a formação de um governo de unidade nacional formado pelos oito partidos que negociaram o acordo básica que emperrava as discussões.

Enquanto não sai o novo governo, o jornal "Le Soir", o mais importante do lado francófono, divertia-se discutindo o transcendental assunto da falta de um estacionamento para bicicletas no Parlamento. Emocionante, não?

ALON FEUERWERKER - Sempre há esperança

Sempre há esperança
ALON FEUERWERKER
CORREIO BRAZILIENSE - 30/09/11


Já que o governo Dilma parece tentado a romper com a herança maldita da submissão incondicional aos beneficiados pela ciranda financeira, não custa reacender, mais uma vez, a esperança de que possa ir além

Está certíssimo o Banco Central quando recusa ouvir os conselhos para manter os juros lá em cima num quadro internacional de desaceleração e que, segundo a autoridade monetária, deve caminhar para deflação.
E parabéns à presidente Dilma Rousseff por dar sustentação política ao BC nessa caminhada, contra as pressões por um aperto monetário nonsense, em cenário de grande ameaça ao crescimento econômico.
O Banco Central está fazendo agora o que deveria ter feito na passagem de 2008 para 2009.
Aproveitar a onda descendente e reduzir os juros. Para abrir espaço ao investimento e ao consumo privados. E para permitir que o governo faça política fiscal de maneira mais saudável. Gastando menos com juros.
Não tem lá grande efeito prático falar do passado, mas é bom que o BC ajude a colocar um ponto final naquela polêmica de três anos atrás. E este colunista fica em situação confortável, por ter defendido então o que o BC faz agora.
Sem, entretanto, tirar o mérito de quem exigia uma coisa três anos atrás e exige outra hoje, radicalmente oposta. Pois ninguém é dono da verdade. E a flexibilidade para mudar " para melhor " é qualidade, não defeito.
Ainda que o quadro hoje seja muitíssimo menos propício do que era depois da quebra de 2008, quando a demanda caiu a zero e os governos reagiram com uma inundação de liquidez.
Ao que o então BC reagiu, por sua vez, advertindo sobre a ameaça de inflação importada por causa da momentânea desvalorização do real.
Mas agir é sempre preferível a resmungar e o governo brasileiro desta vez está agindo.
O governo Dilma faz uma aposta corajosa.
Se lá na frente a inflação resistir, os de sempre vão colocar a culpa nos motivos de sempre. Vão exigir juros e mais juros.
Vão convenientemente esquecer da inflação dos preços administrados.
Vão esquecer, por exemplo, da indexação absurda nos contratos das concessionárias de serviços públicos, uma herança da privatização que até hoje ninguém teve peito para corrigir.
O PT está há uma década no poder, já ganhou três eleições falando mal da privatização. Mas mexer no vespeiro que é bom, nada.
Já que o governo Dilma parece tentado a romper com a herança maldita da submissão incondicional aos beneficiados pela ciranda financeira, não custa reacender a esperança de que possa ir além.
De que tome coragem para atacar as injustas e injustificadas relações de desigualdade entre os bancos e seus clientes. Injustiça que se traduz numa palavrinha inglesa: spread.
A diferença entre o que o banco paga de juros a quem poupa e o que cobra de quem lhe pede dinheiro emprestado.
Uma diferença que o Brasil calcula multiplicando por dez. O banco chega a cobrar pelo empréstimo dez vezes o que paga ao poupador. Se não for mais.
Isso sem contar as gordas tarifas.
Daí que nossos governantes possam passear pelo mundo cantarolando a saúde do sistema bancário brasileiro, quando na verdade somos todos vítimas de uma doença: a falta de crédito barato e de longo prazo para o cidadão comum.
O brasileiro que não tem amigos no governo e não tem acesso às diversas modalidades de juro subsidiado, especialmente no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.
Essa massa de gente paga duplamente o pato. Paga no spread abusivo cobrado pelos bancos. E paga nos impostos que o governo repassa ao BNDES para rodar a máquina.

Risco
Diante do sucesso aparente do PSD, os demais ensaiam contra-atacar com a aprovação de uma janela de infidelidade ampla, geral e irrestrita. Para evitar que os insatisfeitos migrem só para o partido do prefeito Gilberto Kassab.
Como desejo é legítimo, mas corre forte risco de cair no Supremo Tribunal Federal.
Onde há a dúvida sobre a legalidade de o Congresso suspender a vigência de norma constitucional, como a que deu base à decisão de 2007 sobre a relação entre os partidos e os mandatos.

ANCELMO GOIS - Dilma escapou ilesa



Dilma escapou ilesa
ANCELMO GOIS
O GLOBO - 30/09/11


A ação do Itamaraty livrou Dilma de uma saia justa na sua visita, quarta, a Bruxelas. 
Estava prevista uma manifestação no Parlamento Europeu dos familiares das vítimas do italiano Cesare Battisti, cujo pedido de extradição pela Itália foi negado pelo Brasil.

SEGUE... 
O Brasil conseguiu cancelar a manifestação prometendo a formação de uma comissão ítalo-brasileira para discutir o caso.
Com o acordo, os italianos desconvidaram o senador tucano Álvaro Dias, que viajaria de classe executiva para a Bélgica, paga pela Itália, só para participar do ato.

ROCK NA UPP 
Shakira, a cantora colombiana que veio para o Rock In Rio, Xuxa e a ministra Maria do Rosário vão hoje à Cidade de Deus.
Vão fechar uma parceria para a promoção da educação e dos direitos de crianças e adolescentes na América Latina. 

LOS PANCHOS 
A TAM sorteou dois ingressos do Rock In Rio no voo JJ 3031, Brasília-Rio, quarta.
Quem faturou foi a ex-baterista da banda Los Panchos... deputada federal Jandira Feghali.

NO MAIS 
A coluna é do samba e não morre de amores pelo axé, mas apoia 100% Cláudia Leitte que respondeu assim as críticas por ter participado do Rock in Rio:
– Não gostar de axé é normal! Anormal é se achar superior porque conhece John Coltrane ou adora o Metallica.

A VOLTA DE DUNGA 
Dunga, o técnico da seleção na Copa de 2010, dará palestra, quarta que vem, no Instituto Bola pra Frente, ONG dos também tetracampeões Jorginho – seu auxiliar no comando do time que fracassou na África do Sul – e Bebeto.
O tema é “A Copa do Mundo em todas as suas dimensões”.

POXA, SUPLICY! 
Não se faz mais senador Eduardo Suplicy como antigamente. O petista, ele mesmo, furou a maior filona, anteontem, no lançamento do livro Tempos de Planície, de José Dirceu, em Brasília. 
Ele chegou por volta das 11h30, passou na frente de todo mundo que estava há mais de uma hora esperando.

CONTA CORRENTE 
O Itaú inaugurou ontem sua primeira agência no Complexo do Alemão, no Rio.

ROGAI POR NÓS 
Gastão Veira foi procurado esses dias pela turma da CNTur e da ABIH-RJ. Querem que o novo chefão do Turismo peça ao colega Carlos Lupi, do Trabalho, que flexibilize o modelo de contratação de temporários. Temem que as normas atuais, que acham rígidas, prejudiquem os próximos grandes eventos no País.

BRASIL NA FRENTE 
Os executivos brasileiros, acreditem, já ganham mais que os colegas norte-americanos. A informação está na matéria de capa da revista Você S/A, dia 6 nas bancas. Mostra que um diretor em São Paulo ganha em média R$ 31.580, contra R$ 27.688 de um em Nova York. 

FALTA DE HUMOR 
Sei não. Mas acho que, com toda a admiração à luta das mulheres por respeito e igualdade – eu apoio, eu apoio –, às vezes falta um pouco de humor em questões como a do anúncio estrelado por Gisele Bündchen. Calma, gente! 

MARIA CRISTINA FERNANDES - A loba que come lobo



A loba que come lobo
MARIA CRISTINA FERNANDES
VALOR ECONÔMICO - 30/09/11

Sabatinada para o Superior Tribunal de Justiça, na condição de primeira mulher a ascender à cúpula da magistratura, a então desembargadora da justiça baiana, Eliana Calmon, foi indagada se teria padrinhos políticos. "Se não tivesse não estaria aqui". Quiseram saber quem eram seus padrinhos. A futura ministra do STJ respondeu na lata: "Edison Lobão, Jader Barbalho e Antonio Carlos Magalhães".

Corria o ano de 1999. Os senadores eram os pilares da aliança que havia reeleito o governo Fernando Henrique Cardoso. A futura ministra contou ao repórter Rodrigo Haidar as reações: "Meu irmão disse que pulou da cadeira e nem teve coragem de assistir ao restante da sabatina. Houve quem dissesse que passei um atestado de imbecilidade".

Estava ali a sina da ministra que, doze anos depois, enfrentaria o corporativismo da magistratura. "Naquele momento, declarei totalmente minha independência. Eles não poderiam me pedir nada porque eu não poderia atuar em nenhum processo nos quais eles estivessem. Então, paguei a dívida e assumi o cargo sem pecado original."

Eliana Calmon nunca escondeu seus padrinhos

De lá pra cá, Eliana Calmon tem sido de uma franqueza desconcertante sobre os males do Brasil. Muita toga, pouca justiça são.

Num tempo em que muito se fala da judicialização da política, Eliana não perde tempo em discutir a politização do judiciário. É claro que a justiça é política. A questão, levantada pela ministra em seu discurso de posse no CNJ, é saber se está a serviço da cidadania.

A "rebelde que fala", como se denominou numa entrevista, chegou à conclusão de que a melhor maneira de evitar o loteamento de sua toga seria colocando a boca no trombone.

Aos 65 anos, 32 de magistratura, Eliana Calmon já falou sobre quase tudo.

- Filhos de ministros que advogam nos tribunais superiores: "Dizem que têm trânsito na Corte e exibem isso a seus clientes. Não há lei que resolva isso. É falta de caráter" (Veja, 28/09/2010).

- Corrupção na magistratura: "Começa embaixo. Não é incomum um desembargador corrupto usar um juiz de primeira instância como escudo para suas ações. Ele telefona para o juiz e lhe pede uma liminar, um habeas-corpus ou uma sentença. Os que se sujeitam são candidatos naturais a futuras promoções". (Idem)

- Morosidade: "Um órgão esfacelado do ponto de vista administrativo, de funcionalidade e eficiência é campo fértil à corrupção. Começa-se a vender facilidades em função das dificuldades. E quem não tem um amigo para fazer um bilhetinho para um juiz?" (O Estado de S. Paulo, 30/09/2010).

Era, portanto, previsível que não enfrentasse calada a reação do Supremo Tribunal Federal à sua dedicação em tempo integral a desencavar o rabo preso da magistratura.

Primeiro mostrou que não devia satisfações aos padrinhos. Recrutou no primeiro escalão da política maranhense alguns dos 40 indiciados da Operação Navalha; determinou o afastamento de um desembargador paraense; e fechou um instituto que, por mais de 20 anos, administrou as finanças da justiça baiana.

No embate mais recente, a ministra foi acusada pelo presidente da Corte, Cezar Peluso, de desacreditar a justiça por ter dito à Associação Paulista de Jornais que havia bandidos escondidos atrás da toga. Na réplica, Eliana Calmon disse que, na verdade, tentava proteger a instituição de uma minoria de bandidos.

Ao postergar o julgamento da ação dos magistrados contra o CNJ, o Supremo pareceu ter-se dado conta de que a ministra, por mais encurralada que esteja por seus pares, não é minoritária na opinião pública.

A última edição da pesquisa nacional que a Fundação Getúlio Vargas divulga periodicamente sobre a confiança na Justiça tira a ministra do isolamento a que Peluso tentou confiná-la com a nota, assinada por 12 dos 15 integrantes do CNJ, que condenou suas declarações.

Na lista das instituições em que a população diz, espontaneamente, mais confiar, o Judiciário está em penúltimo lugar (ver tabela abaixo). Entre aqueles que já usaram a Justiça a confiança é ainda menor.

A mesma pesquisa indica que os entrevistados duvidam da honestidade do Judiciário (64%), o consideram parcial (59%) e incompetente (53%).

O que mais surpreende no índice de confiança da FGV é que o Judiciário tenha ficado abaixo do Congresso, cujo descrédito tem tido a decisiva participação da Corte Suprema - tanto por assumir a função de legislar temas em que julga haver omissão parlamentar, quanto no julgamento de ações de condenação moral do Congresso, como a Lei da Ficha Limpa.

A base governista está tão desconectada do que importa que foi preciso um senador de partido de fogo morto, Demóstenes Torres (DEM-TO), para propor uma Emenda Constitucional que regulamenta os poderes do CNJ e o coloca a salvo do corporativismo dos togados de plantão. "Só deputado e senador têm que ter ficha limpa?", indagou o senador.

Ao contrário do Judiciário, os ficha suja do Congresso precisam renovar seus salvo-conduto junto ao eleitorado a cada quatro anos.

O embate Peluso-Calmon reedita no Judiciário o embate que tem marcado a modernização das instituições. Peluso tenta proteger as corregedorias regionais do poder do CNJ.

Nem sempre o que é federal é mais moderno. O voto, universal e em todas as instâncias, está aí para contrabalancear. Mas no Judiciário, o contrapeso é o corporativismo. E em nada ajuda ao equilíbrio. Em seis anos de existência, o CNJ já puniu 49 magistrados. A gestão Eliana Calmon acelerou os processos. Vinte casos aguardam julgamento este mês.

Aliomar Baleeiro, jurista baiano que a ministra gosta de citar, dizia que a Justiça não tem jeito porque "lobo não come lobo". A loba que apareceu no pedaço viu que dificilmente daria conta da matilha sozinha, aí decidiu uivar alto.

RUY CASTRO - Álbum de figurinhas



Álbum de figurinhas
RUY CASTRO
FOLHA DE SP - 30/09/11 

RIO DE JANEIRO - Meu neto João Ruy, que é português e mora em Lisboa, fez seis anos outro dia e recebeu do Brasil seu presente favorito: um álbum de figurinhas -no caso, o do Campeonato Brasileiro- e centenas de pacotinhos com as respectivas. É um brinquedo solitário, porque ele não tem com quem trocar duplicatas ou disputar no bafo-bafo. E, claro, só consegue identificar os jogadores do Flamengo, por quem torce ardentemente quando vem ao Rio, ou algum outro que atue pela seleção.
Mas João Ruy não se importa, e passa dias colando cromos de clubes e jogadores para ele desconhecidos. O prazer de completar uma página supera o fato de que muitos daqueles times e indivíduos continuarão a ser rostos e camisas no vazio, e que ele nunca os verá jogar.
Diante da informação de que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) concedeu registro ao PSD (Partido Social Democrático), fundado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e que este é o 28º partido na fosca constelação política brasileira, coloquei-me no lugar de João Ruy. Imaginei como seria um álbum de figurinhas sobre os partidos.
Cada página dupla seria dedicada a um deles. Traria informações como data de fundação, número de filiados, colocação nas últimas eleições, e mostraria suas cores, mascote, seus 20 principais nomes, o recordista em mandatos etc. -cada qual numa figurinha, como no álbum do Brasileirão.
A exemplo de João Ruy, eu e milhões de brasileiros colaríamos figurinhas de gente que, em grande maioria, nunca vimos e, no caso, é melhor mesmo não ver. Um bando de ninguéns sem representatividade, homiziados em partidos de cujas siglas só se ouve falar quando discutem com o governo ou com a oposição sobre quem dá mais pelos seus miseráveis votos.

VEGETARIANO ASSASSINO

VEGETARIANO ASSASSINO


'Tuiteiros' são mais felizes de manhã


'Tuiteiros' são mais felizes de manhã
O Estado de S.Paulo - 30/09/11

Microblog é alvo de estudo do comportamento

O Twitter confirma: as pessoas tendem a acordar de bom humor e são mais felizes nos fins de semana.

Além do blá-blá-blá das celebridades e das ruminações a respeito do que se comeu no café da manhã, a rede social oferece aos cientistas a chance de observar, em tempo real, o comportamento e o pensamento - presumivelmente sem muitos filtros - das pessoas.

Foi o que fizeram pesquisadores da Universidade Cornell, nos Estados Unidos. Com base na análise do conteúdo - feita por um programa de computador que buscou palavras expressando bom e mau humor, apenas no idioma inglês - do microblog de 2,4 milhões de pessoas em 84 países, recolhido durante dois anos, os cientistas encontraram padrões interessantes, descritos em artigo na revista Science.

As conclusões são as seguintes: a menos que você seja notívago, os ápices da positividade se localizam no início da manhã e em torno de meia-noite, com trajetória descendente no meio da manhã e ascendente durante o início da noite. Durante o fim de semana, a positividade aumenta, com o pico matinal ocorrendo duas horas mais tarde.

Você pode pensar que ir para o trabalho, enfrentando problemas como o trânsito congestionado, explicam esse padrão. Nem tanto. O estresse relativo ao trabalho pode ter alguma influência, mas não explica por que a curva descendente matinal ocorre também no sábado e no domingo - ou na sexta e no sábado, nos países muçulmanos.

Scott Golder, estudante da universidade que liderou a pesquisa sob a orientação do sociólogo Michael Macy, afirma que esse padrão provavelmente é causado pelo nosso relógio biológico de 24 horas, o ritmo circadiano que nos diz quando devemos dormir e acordar.

Pesquisas anteriores ligaram o relógio biológico ao humor, mas foram feitas com bases de dados menores. Mas fazer pesquisa com base no Twitter também pode gerar distorções, já que os usuários do serviço costumam ser mais jovens que a população em geral e com maior nível de escolaridade.

Segundo Macy, a relevância principal de seu estudo é chamar a atenção para o potencial científico das redes sociais. A mesma ferramenta já foi estudada por pesquisadores interessados nos efeitos da campanha política feita na internet. Dados de buscas do Google também foram usados para prever surtos de gripe, com base na descrição de sintomas. "É uma nova forma de fazer ciência social e comportamental, algo inimaginável há cinco anos", diz. / AFP

FERNANDO DE BARROS E SILVA - Abaixo o sutiã


Abaixo o sutiã
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SP - 30/09/11 

SÃO PAULO - "Amor, eu estourei o limite do cartão de crédito. Do seu e do meu." Vestida e afetando culpa no tom de voz, Gisele Bündchen dá a má notícia ao marido imaginário. Essa é a maneira errada de abordar o assunto. A maneira certa, explica a propaganda de lingerie estrelada pela modelo, é de calcinha e sutiã, requebrando com a mãozinha na cintura e a fala sensual.
Se a propaganda está no ar, é porque deve ter alguma eficácia. Mas não é preciso muito para perceber que estamos diante de mais uma fashion-cafajestada, entre tantas outras do mercado da publicidade, basta ligar a TV para constatá-lo.
Pior, no entanto, do que o apelo ao machismo mais vulgar é a disposição do governo para combatê-lo recorrendo à censura. A Secretaria de Políticas para as Mulheres acionou o Conar, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, para tirar a peça do ar. É uma medida obscurantista, além de desencadear o efeito contrário ao pretendido por essas feministas de tesoura.
A propaganda, diz a secretaria, reforça "o estereótipo equivocado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora os grandes avanços alcançados para desconstruir práticas e pensamentos sexistas". Sim, estamos de acordo -mas e daí?
Em nome de que a propaganda deve estar necessariamente em sintonia com valores progressistas ou submetida à visão igualitária da relação entre o homem e a mulher?
Como conciliar a defesa da emancipação e dos direitos da mulher com a opção regressiva e autoritária pela censura? O que, afinal, é mais nocivo e perigoso para quem aspira viver numa sociedade com menos discriminação e mais esclarecida: a moral da história do anúncio ou a iniciativa do governo para bani-lo da tela?
Com sua cruzada, a ministra Iriny Lopes folcloriza as atribuições de uma pasta que tem assuntos reais para enfrentar. Só falta lançar uma campanha de esclarecimento público: Gisele Bündchen faz mal à saúde.

EDITORIAL O ESTADÃO - O jogo perigoso do BC



O jogo perigoso do BC
EDITORIAL 
O ESTADÃO - 30/09/2011
Os brasileiros terão de aguentar a inflação acima da meta por mais dois anos, segundo a hipótese mais otimista do Banco Central (BC). Se der tudo certo, o índice oficial baterá no centro do alvo no terceiro trimestre de 2013, com aumento de preços de 4,5% em 12 meses. Nos cenários menos favoráveis, a presidente Dilma Rousseff completará seu terceiro ano de mandato com o custo de vida ainda subindo mais do que o prometido pelas autoridades. São essas, pelo menos, as perspectivas apontadas no relatório trimestral de inflação divulgado nessa quinta-feira.

Apesar disso, o tom do relatório é otimista com relação aos preços. O ciclo de inflação elevada de 12 meses deve ter acabado neste trimestre, segundo o documento, e agora o indicador deve avançar na direção da meta. Levará quanto tempo para chegar lá? Se alguém perguntar se o governo ainda leva a sério o regime de metas, a questão será pertinente.

O presidente do BC, Alexandre Tombini, insiste em reafirmar o compromisso com esse regime. Além disso, ele usou um tom ainda mais otimista que o do relatório. "Trabalhamos com a inflação no centro da meta em 2012", disse Tombini, ontem cedo, numa palestra para executivos financeiros em Curitiba. Horas antes, no Rio de Janeiro, a Fundação Getúlio Vargas havia publicado o Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M) de setembro, com fortes sinais de repique inflacionário. A variação geral passou de 0,44% em agosto para 0,65% em setembro. O índice de preços ao consumidor, um de seus três grandes componentes, aumentou 0,59%, bem mais do que no mês anterior, quando havia subido 0,12%. O IGP-M é apenas um entre muitos indicadores, mas é sempre prudente levá-lo em conta.

Prudência em relação aos preços parece artigo escasso no BC, ultimamente. O Relatório de Inflação aponta a possibilidade de novos cortes de juros, nos próximos meses, e reafirma a argumentação usada para justificar a mudança.

A alegação mais convincente refere-se ao agravamento da situação internacional. Esse fator, segundo o pessoal do BC, deve eliminar as pressões inflacionárias. Mas esse detalhe continua sujeito à verificação, por causa da demanda chinesa, ainda vigorosa, e das condições incertas de suprimento internacional de produtos agrícolas.

O relatório reafirma também as avaliações sobre a situação interna. Para o BC, a economia perde impulso tanto do lado da oferta - especialmente da produção industrial - quanto da demanda. Um dia antes de sair o Relatório de Inflação, porém, o próprio BC divulgou nota mensal sobre a política monetária, confirmando uma nova expansão das operações de crédito em agosto. Além disso, ontem mesmo a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo revelou uma nova elevação do índice de atividade em agosto, com melhor resultado para o mês desde 2005. Apesar disso, o crescimento acumulado será bem menor que o do ano passado, mas a avaliação do BC é insegura em relação à oferta e ainda mais discutível em relação à demanda de consumo. Este último ponto é reconhecido até no relatório, onde os salários e o crédito são mencionados como fatores de risco.

Enfim, o BC repete a profissão de fé no cumprimento estrito de uma política de consolidação fiscal em 2012, sem redução da meta fiscal fixada pelo Executivo. Nem o projeto de orçamento autoriza essa aposta, nem a perspectiva de um ano de eleições combina com a hipótese de rigorosa disciplina fiscal. Há razões fortes para desconfiar de uma precipitação do BC.

A projeção das contas externas fica restrita a este ano e também é otimista. De fato, o resultado deve ser melhor que o previsto até há pouco tempo, principalmente por causa dos preços dos produtos básicos. Mas é estranho o relatório se deter antes de uma análise das perspectivas de 2012. Se o cenário global for tão ruim quanto o pessoal do BC insinua, e se, além disso, for razoável a previsão de recuo de preços das commodities, o setor externo será uma área de risco, mesmo com o atual volume de reservas. Estranho e preocupante é o aparente descaso em relação a esse ponto.

GOSTOSAS


BARBARA GANCIA - 'O mercado está condenado'



 'O mercado está condenado'
BARBARA GANCIA 
FOLHA DE SP - 30/09/11

'Em 12 meses, milhões vão sumir. Isso é só o começo. O pior risco é não fazer nada. Proteja seus ativos'


REPERCUTIU ATÉ no dogão da dona Maria o show que um operador de mercado deu na BBC nesta semana. Chamado a opinar sobre a crise, ele foi tão contundente que fez a entrevistadora admitir: "O senhor acaba de derrubar o queixo de todos no estúdio".
De fato, o quadro pintado pelo zé-mané foi aterrorizante, um desalento para quem tem ainda alguma ilusão quanto a democracia e o capitalismo. O seu emprego, meu dileto leitor, sua poupança, sua reles existência, aparentemente, nada disso interessa ao sistema financeiro globalizado. Ninguém quer saber, inclusive, do seu voto ou impostos.
Estamos cansados de ouvir essa verdade ser contada pela boca de filósofos como Slavoj Zizek, que vivem de detonar o sistema. Mas quando a crítica vem de dentro apavora um tico a mais.
O operador independente Alessio Rastani (apelido "Ratfuck") foi tão rústico em sua análise sobre a crise na Europa que lembrou Roberto Jefferson quando o deputado apontou o dedo para o então ministro José Dirceu.
O vídeo está aqui youtu.be/BMrHo0Alexw , mas não precisa sair correndo para assistir que eu conto tudo. Antes, porém, algumas considerações sobre a motivação do senhor Rastani.
A mim realmente não importa se o operador é ex-funcionário de algum grande fundo, se tomou um chute no fiofó da Goldman Sachs, se agiu movido por ressentimento ou se expôs os fatos em toda a crueza porque a mulher passou a noite com dor de cabeça.
Tem gente dizendo que se trata de mercenário ou impostor. Ora, será que é tão difícil assim aceitar que até um "trader" possa ter alma? Em vez de insultá-lo, eu lhe daria um troféu. Nunca vi usar de tamanha objetividade para descrever situação tão complexa.
Se você também consegue pressentir que os pacotes foram insuficientes, que falta regulamentação, que nada do que estava errado foi corrigido e que poucos controlam toda a flutuação, também saberá apreciar o que ele disse.
Ele abre sentenciando que "O mercado está condenado". A entrevistadora pergunta o que se deve fazer. "Veja, não tenho esse tipo de preocupação", diz. "Sou um operador de mercado, se enxergo uma oportunidade de ganhar dinheiro, corro atrás. Não é problema meu como vão sanear a economia. Pessoalmente, venho sonhando com esta crise há três anos. Vou confessar uma coisa: eu vou para a cama toda noite sonhando com uma nova recessão, com um momento como este".
Não é de morder uma pessoa capaz desta candura elevada? Rastani continua: "Muita gente ganhou com a crise de 29 e isso não é só para uma pequena elite, é para todos. Quando o mercado despenca, quem planejou pode ganhar com estratégias de 'hedging' e investindo em títulos do governo. Daqui a 12 meses, a poupança de milhões de pessoas irá desaparecer. E isso é só o começo. O pior risco que você pode correr hoje é não tomar providências. Proteja seus ativos. Esta crise é como um câncer. Não se deve esperar que o governo resolva. Prepare-se. Governos não mandam no mundo, quem manda é a Goldman Sachs". E viva a volatilidade! Amigo meu, mestre do universo em pé de igualdade com Gordon Gekko e Sherman McCoy, só ficou decepcionado com essa última parte da fala. "Teria preferido vê-lo desprezar a Goldman Sachs, não é tudo isso, não", disse-me. "De resto, porém, o camarada não errou". Bora andar de montanha-russa, então!

NELSON MOTTA - Corações apaixonados


Corações apaixonados
NELSON MOTTA 
O Estado de S.Paulo - 30/09/11

Com toda a sua densidade musical e poética já reconhecida pela crítica especializada, o que mais me impressiona e emociona no novo disco de Chico Buarque não são as melodias e harmonias elaboradas e nem o virtuosismo e a audácia das rimas, mas as canções de amor, as confissões de um poeta apaixonado. Como um Vinicius moderno, em seus melhores momentos, seu discípulo dileto coloca o coração nos versos e revela o seu encantamento, suas esperanças e temores com um novo amor, logo ele, sempre tão discreto com sua vida pessoal e seus sentimentos.

O poeta sessentão presenteia sua jovem musa - e o público - com músicas e letras que estão entre as suas melhores e afirmam o seu crescimento musical e a sua vitalidade criativa. Sem declarações de amor sentimentais, sem populismo afetivo nem romantismo popular, tudo em forma rigorosa, com palavras, ritmos e sons se harmonizando numa síntese entre razão e emoção difícil de ser encontrada no mercado inesgotável das canções de amor.

"Meu tempo é curto, o tempo dela sobra / Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora / Temo que não dure muito a nossa novela, mas / Eu sou tão feliz com ela / Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas / Não canso de contemplá-la."

No blues Essa pequena, entre as delícias do amor e a fugacidade do tempo, entre a urgência e a paciência, Chico enternece sem perder o humor, rimando "ela pinta a boca e sai" com "take your time" e concluindo: "Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas / O blues já valeu a pena".

Na linda Tipo um baião as mudanças bruscas de ritmo e de melodia inspiram os versos que criam imagens vivas dos seus sentimentos: "É São João / Vejo tremeluzir / Seu vestido através da fogueira / É Carnaval/ E o seu vulto a sumir / Entre mil abadás na ladeira".

Como um filme musical, Se eu soubesse é a história do encontro improvável e feliz entre o peso da maturidade e a leveza da juventude, que se harmonizam no dueto amoroso de Chico e Thais Gulin: "Mas acontece que eu sorri para ti / E aí, larari, lairiri, lariri…"

Corações apaixonados de todas as idades devem comprar imediatamente.

JOSÉ SIMÃO - Ueba! Lucas faz gol de nariz!


Ueba! Lucas faz gol de nariz!
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 30/09/11

E o Ronaldinho Gaúcho? E não é que ele não consegue marcar gol de falta, ele não faz falta nenhuma. Rarará! 


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E ontem foi Rosh Hashaná, o Ano Novo dos judeus. E olha a frase que corria na internet: "Amigos judeus, vocês que estão no ano de 5.772, me contem: o Corinthians já foi campeão da Libertadores?". O Itaquerão ficou pronto? Teve Copa no Brasil? O Sarney ainda tá vivo? Rarará!
E um leitor mandou perguntar: "O que vai explodir primeiro, o shopping Center Norte ou o Ronaldo Fenômeno?". O Ronaldo Fenômeno! Porque solta mais gases! Rarará!
E o jogo Selecinha versus Argentina?! Ops, AAARGH... entina! Eu acho uma frescura ficar reclamando do campo! Futebol se joga em qualquer pirambeira. Futebol se joga até em ladeira! Abriu uma clareira, tá todo mundo jogando futebol! Ou os nosso craques aprenderam a jogar em Wimbledon? Rarará! 
E quem eram aqueles argentinos disfarçados de jogadores? Quem escalou aquela seleção? A Cristina Kirchner, que é vesga? Um quebrou o nariz do Lucas e outro roubou um número da camisa do Neymar. 
As camisas brilharam! O Lucas trocou de camisa três vezes. E como disse um cara no meu Twitter: agora ele já pode dizer que vestiu várias vezes a camisa da seleção. "Quantas vezes você vestiu a camisa da seleção?" "Três!" Rarará! 
E o nariz sangrando! O Lucas também pode dizer que deu o sangue pela seleção! Rarará! E o Neymar é tão cai-cai que até o número da camisa dele caiu! Aquela camisa do Neymar foi comprada na 25 de Março! Camisa oficial pirata! O Neymar é bem menino danado: em cinco minutos o uniforme tá imundo! Rarará!
E o Ronaldinho Gaúcho? Aquela mistura de Mulata Globeleza com Michael Jackson paraguaio? E não é que ele não consegue marcar gol de falta, ele não faz falta nenhuma. Parece malabarista de farol, faz aquele monte de malabarismo e depois perde a bola! E parabéns pro povo de Belém que passou duas horas sentado no Mangueirão. Rarará! Eu disse que era proibido fazer trocadilho com Mangueirão mas não resisti! 
E o Galvão tá com a cara mais redonda que o logotipo da Globo! Um amigo meu acha que ele tá com cara de pão na chapa! Rarará! O Galvão devia transmitir avalanche, briga de cachorro e ataque terrorista! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! 

GOSTOSA


ILIMAR FRANCO - Queimado


Queimado
ILIMAR FRANCO 
O GLOBO - 30/09/11

Se já estava irritada com o Senador Lindbergh Farias (PT-RJ), pelo que considera radicalismo na discussão da redistribuição dos recursos do petróleo entre os estados, a presidente Dilma agora está furiosa com a participação dele em ato organizado pela família Garotinho, semana passada, em Campos. "Nós temos que mostrar força, e a Dilma tem que saber também que nós vamos para as ruas, que nós vamos nos mobilizar", disse ele.

TorturaO Subcomitê de Prevenção da Tortura das Nações Unidas apresenta hoje, para a ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos), um diagnóstico sobre a situação das prisões brasileiras. A expectativa da ministra não é nada boa.

RASGANDO SEDA. Ao avistar o ministro Fernando Haddad (Educação) na fila de autógrafos do livro do ex-ministro José Dirceu, anteontem, o deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP) não se conteve e correu para abraçá-lo. Os dois, que devem se enfrentar na disputa pela Prefeitura de São Paulo, eram só amabilidades. Filha do ex-presidente Lula, Lurian, que trabalha para Chalita, também se pendurou no pescoço de Haddad.

Na vida e na política o que derruba não é a montanha, é a pedrinha" - Sérgio Machado, presidente da Transpetro e ex-Senador (PSDB-CE)

O MINISTRO Moreira Franco (Assuntos Estratégicos), nas conversas com integrantes da oposição, está vaticinando que a alternativa de poder competitiva ao PT vai sair da divisão na própria base do governo.

O DIRETÓRIO Nacional do PSDB suspendeu a intervenção da Executiva Estadual no Diretório de Caxias e deu sete dias para que o presidente regional, Luiz Paulo Corrêa da Rocha, justifique a iniciativa.

DEPOIS de ensaiar uma candidatura à Prefeitura de São Gonçalo, a deputada Benedita da Silva (PT-RJ) diz: "Meu candidato é o Gilberto Palmares".

Reestruturação tucanaO presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE), apresenta hoje, para os oito governadores tucanos, em Goiânia, pesquisa realizada pelo cientista político Antonio Lavareda. O PSDB passa por um processo de reestruturação, que culminará com a apresentação do novo programa partidário, coordenado pelo economista Edmar Bacha, no dia 28 de outubro, em congresso nacional no Rio. A meta dos tucanos é aumentar de 790 para 1.000 o número de prefeitos no ano que vem.

MenosApesar da declaração do líder do governo, Cândido Vaccarezza (PT-SP), de que vai convidar o PSD para participar das reuniões semanais da base aliada com a ministra Ideli Salvatti, o Palácio do Planalto acha que é cedo para isso.

PautaA prioridade do governo no Senado é votar, na próxima semana, a criação da Comissão da Verdade e, de quebra, o fim do sigilo eterno de documentos oficiais. Mas o clima está conturbado por causa dos royalties do petróleo.

SucursalNo Pará, o PSD nasce patrocinado pelo governador Simão Jatene (PSDB). Lá, o organizador da sigla é o secretário de Governo, Sérgio Leão. Por isso, o Senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) está de malas prontas para mudar de partido.

Dilma está uma araraO governo acionou o presidente do PT, Rui Falcão, para tentar enquadrar Lindbergh, e o Planalto já ameaça tratar o petista a pão e água a partir de agora. Uma das irritações é com a intenção de Lindbergh de obstruir as votações do Senado. Sobre a proposta da União, de contribuir com R$1,8 bi, ele disse, na tribuna, anteontem: "A proposta do governo é: "Apresentei isso. Matem-se agora no Senado e na Câmara"". Na lista de queixas do Palácio do Planalto em relação a Lindbergh ainda está sua participação, na marra, na reunião, esta semana, com o ministro Guido Mantega (Fazenda), para a qual ele não havia sido convidado.

WASHINGTON NOVAES - Onde a sociedade quer mais saúde?


Onde a sociedade quer mais saúde?
WASHINGTON NOVAES
O Estado de S.Paulo 30/09/11

Reacende-se o debate sobre a situação calamitosa da saúde pública na maior parte do País - e até já se prevê que será esse o tema principal na campanha eleitoral de 2012. O governo federal, por intermédio de suas lideranças, admite que precisará criar algum imposto que acrescente R$ 45 bilhões anuais ao setor (o ministro da Saúde fala em mais R$ 41 bilhões para igualar o nível da saúde no País ao da Argentina e do Chile). Em 2010 investiu o nosso governo central R$ 61,9 bilhões - mas as despesas da União no setor, segundo Ricardo Bergamini, caíram de 1,88% do PIB, entre 1995 e 2002, para 1,80%, entre 2003 e 2010; a tendência até aqui é de 1,56% do PIB em 2011.

Mas a oposição e até parte dos governistas já dizem que não concordam com um novo imposto, embora haja quem fale em taxar, para isso, grandes fortunas, legalizar o jogo (cobrando altas taxas), aumentar os impostos sobre o fumo e reservas no exterior, além de destinar à saúde parte dos royalties decorrentes da exploração do petróleo.

Até se registram alguns avanços importantes no Estado de São Paulo, como o da redução da mortalidade infantil, que em 20 anos caiu 61,8%, passando de 31,2 mortes de crianças em 1.000 nascidas vivas para 11,9 - e isso se deveu em grande parte aos avanços no setor de saneamento. Também influíram o aumento da vacinação, os cuidados na fase pré-natal, a assistência às gestantes (Estado, 27/8). Em contrapartida, cresceram os índices de poluição do ar nas maiores cidades, que já produzem 23,7 mil mortes por ano. O Rio de Janeiro está com índice três vezes acima do máximo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS); São Paulo e Campinas, com o dobro (o melhor índice é o de Curitiba). E o Escritório da ONU sobre Drogas e Crime (Unodc) alerta para o consumo abusivo de medicamentos no Brasil, sobretudo emagrecedores (Envolverde, 27/6).

A questão brasileira na área da saúde parece ainda mais preocupante quando colocada diante de outros relatórios internacionais. Como o do World Cancer Research Fund (BBC Brasil, 17/9), que aponta um aumento da incidência de câncer no mundo da ordem de 20% na última década, quando se registraram 12 milhões de casos novos; 1,8 milhão estavam relacionados com má alimentação, deficiências de atividade física e aumento de peso - e esse número "deve crescer dramaticamente na atual década". Além do câncer, diz a ONU em outros documentos, também crescem muito doenças não transmissíveis, como as cardiovasculares, respiratórias crônicas e diabetes. No Brasil, segundo a OMS, os casos de câncer de próstata (41,6 mil em um ano) e de pulmão (16,3 mil) são os mais frequentes entre homens; na mulher, câncer de mama (42,5 mil) e de colo do útero (24,5 mil). Já o IBGE diz que 16% dos meninos brasileiros e 12% das meninas de 5 a 9 anos sofrem com obesidade, sedentarismo e estresse deles decorrente.

Outro alerta da OMS é para a ameaça de recrudescimento da gripe aviária (vírus H5N1), principalmente na Ásia e em regiões mais próximas, embora possa expandir-se. Desde 2003, o combate à gripe exigiu o sacrifício de 400 mil aves confinadas em 63 países, com prejuízos de US$ 20 bilhões. Em 2010-2011 já surgiram 800 casos e há vírus endêmicos em seis países. Como grande exportador de carne de aves, o Brasil precisa se precaver.

Chega-se, então, ao terreno dos medicamentos. Há progressos na cooperação da indústria farmacêutica com a OMS e outros organismos, que permitirá a produção de medicamentos antirretrovirais em versão genérica por um consórcio internacional que os fornecerá a 111 países mais pobres, com economia de US$ 1 bilhão (o Brasil já quebrou a patente em 2001). Também haverá redução dos royalties em patentes de medicamentos para hepatite (Estado, 13/7). Na verdade, os ministros da Saúde do Brasil, da Rússia, da Índia, da China e da África do Sul - o Brics - querem mudanças na legislação sobre medicamentos e patentes para ampliar o acesso das pessoas mais pobres e baratear custos. A resistência é forte. Mas a própria presidente Dilma Rousseff defendeu na recente reunião da ONU a que esteve presente a quebra de patentes de remédios para doenças não terminais (Estado, 20/9), como diabetes, hipertensão e outras. Segundo ela, trata-se de um "elemento da estratégia para aumentar a inclusão social".

É um tema antigo e difícil. Quando era secretário de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia do Distrito Federal (1991-1992), o autor destas linhas e o então presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ennio Candotti, tentaram evitar que o Congresso Nacional incluísse na Lei da Propriedade Industrial, que então discutia, o reconhecimento de pipelines para medicamentos com patente já vencida no exterior - quando, na verdade, deveriam passar a ser fabricados aqui sem pagar royalties, como já ocorria em tantos países. Até ao então presidente Itamar Franco foi uma delegação com representantes da SBPC em todos os Estados. O chefe do governo aderiu imediatamente à reivindicação. Mas seus líderes no Congresso impediram qualquer avanço. E os pipelines prevalecem até hoje, embora haja ações de inconstitucionalidade tramitando no Supremo Tribunal Federal.

Prevenida quanto ao avanço de certas reivindicações, a indústria farmacêutica transnacional já domina 40% do mercado de medicamentos genéricos (Folha de S.Paulo, 28/8), quando há três anos só tinha 12%: muitas patentes poderão cair em domínio público em prazos curtos.

Com tudo isso, a sociedade precisa acompanhar atentamente a discussão sobre a saúde pública, uma das que mais lhe interessam. Recursos podem surgir - basta lembrar o que já se citou num dos últimos textos nesta página: o governo federal paga em juros da dívida pública entre R$ 60 bilhões e R$ 70 bilhões/ano (por causa da mais alta taxa de juros no mundo); em subsídios a vários setores econômicos, R$ 30 bilhões; em ajuda a mutuários, R$ 32 bilhões (Agência Estado, 8/8). Recursos como esses terão o destino que a sociedade autorizar.