terça-feira, setembro 27, 2011

EDITORIAL FOLHA DE SP - A lei da Fifa


A lei da Fifa
EDITORIAL 
FOLHA DE SP - 27/09/11

A presidente Dilma Rousseff tem acertado ao não ceder às exigências da Fifa, entidade máxima do futebol, para a realização da Copa do Mundo no Brasil, em 2014.

O mais novo motivo de disputa é a Lei Geral da Copa, que define regras para sediar o Mundial no país, como políticas de ingresso, distribuição de direitos de mídia e garantias dos patrocinadores.

A Fifa parece buscar, na prática, autonomia total para definir essas questões, como se não houvesse uma legislação nacional em vigor.

A questão dos ingressos é exemplar. O Estatuto do Idoso garante meia-entrada aos maiores de 60 anos, assim como leis estaduais preveem o desconto também para estudantes. Não há por que suspender esses direitos na Copa e deixar a definição para a Fifa.

Também vai na direção correta a decisão do governo federal de liberar até 3% do tempo dos jogos e 30 segundos dos eventos oficiais para emissoras que não detêm os direitos da Copa. Essa fatia não chega a prejudicar as empresas que pagarem pelo evento, que terão a exclusividade em sua transmissão.

Compreende-se a preocupação da Fifa, que nos últimos quatro anos ganhou cerca de US$ 4 bilhões com esse tipo de negócio. Mas deve-se buscar um equilíbrio entre o lucro das empresas, e também o da Fifa, e o acesso dos brasileiros à maior celebração do calendário mundial do futebol, que voltará ao país depois de 64 anos.

O governo já cedeu bastante à Fifa, atendendo a exigências -muitas delas razoáveis- que inflaram os custos do evento em pelo menos dezenas de milhões de reais.

A preparação para a Copa avança a passos lentos. As prometidas melhorias de infraestrutura estão em risco. A ampliação dos aeroportos será mais tímida do que se imaginava. O investimento no transporte público pouco avançou, e já se cogita decretar feriado nos dias de jogo para evitar, ou amenizar, um vexame. Até hoje, nem o governo sabe, como admite a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, quanto vai custar o evento.

Um ambiente de fragilidade institucional, com as leis do país suspensas para atender a uma entidade privada, seria um novo golpe no duvidoso legado da Copa.

A experiência bem-sucedida da Alemanha, em 2006, deve servir de exemplo para o governo brasileiro negociar com a Fifa, respeitando direitos empresariais sem, no entanto, ferir os interesses do país.

A Lei Geral da Copa será agora analisada pelo Congresso, ambiente em que lobbies e pressões costumam surtir efeito. O governo deve vetar mudanças que alterem o cerne dessa legislação.

LUIZ GARCIA - FICHAS LIMPAS



Fichas limpas
LUIZ GARCIA
O GLOBO - 27/09/11


Este mês, a Lei da Ficha Limpa, que celebrará seu primeiro aniversário esta semana, poderá — ou não — ser declarada em vigor. Ela está completando seu primeiro aniversário, mas não entrou em vigor porque o Supremo Tribunal Federal ainda não conseguiu decidir se é ou não constitucional. No ano passado, houve empate no STF, que estava com dez membros, devido à aposentadoria do ministro Eros Grau. Agora, ele já tem substituto, mas o tribunal ainda não decidiu a questão definitivamente: prevaleceu a norma de que novas leis eleitorais só têm validade um ano depois de aprovadas. A decisão virá ainda este ano, provocada por ações da Ordem dos Advogados do Brasil e do PPS.

Não há críticas ao comportamento do STF, mas é legítimo lamentar a demora. Para quem já esqueceu, a Lei da Ficha Limpa nasceu de forma inédita: não foi gerada por partidos políticos e sim por um nunca visto movimento da opinião pública, com peso e força suficientes para praticamente obrigar deputados, senadores e o então presidente Lula a transformarem em lei um desejo explícito e vigoroso dos cidadãos. Alguns ministros do STF acham que candidatos não podem ser punidos por algo que tenham feito antes de a nova lei entrar em vigor.

Defensores da lei, como o presidente da OAB, Ophir Cavalcanti, argumentam que a inelegibilidade não seria punição de um delito, e sim, simplesmente, a constatação de falta de condições para a eleição. Isso pode parecer um jogo de palavras — mas certamente pode ajudar a eficácia e mesmo a sobrevivência de uma lei que sem dúvida alguma corresponde à vontade da opinião pública. É importante, a propósito, não esquecer que a exigência da ficha limpa nasceu de um absolutamente inédito movimento popular. Juízes e políticos com certeza não podem deixar de levar em conta as inéditas — e mesmo surpreendentes — raízes de uma campanha pela moralização dos costumes políticos como nunca se viu antes na história do país.

Na campanha popular, a opinião pública disse o que queria de seus representantes — e juízes, mesmo sem mandatos, também o são.ste mês, a Lei da Ficha Limpa, que celebrará seu primeiro aniversário esta semana, poderá — ou não — ser declarada em vigor. Ela está completando seu primeiro aniversário, mas não entrou em vigor porque oSupremo Tribunal Federal ainda não conseguiu decidir se é ou não constitucional. No ano passado, houve empate no STF, que estava com dez membros, devido à aposentadoria do ministro Eros Grau.

Agora, ele já tem substituto, mas o tribunal ainda não decidiu a questão definitivamente: prevaleceu a norma de que novas leis eleitorais só têm validade um ano depois de aprovadas. A decisão virá ainda este ano, provocada por ações da Ordem dos Advogados do Brasil e do PPS. Não há críticas ao comportamento do STF, mas é legítimo lamentar a demora. Para quem já esqueceu, a Lei da Ficha Limpa nasceu de forma inédita: não foi gerada por partidos políticos e sim por um nunca visto movimento da opinião pública, com peso e força suficientes para praticamente obrigar deputados, senadores e o então presidente Lula a transformarem em lei um desejo explícito e vigoroso dos cidadãos.

Alguns ministros do STF acham que candidatos não podem ser punidos por algo que tenham feito antes de a nova lei entrar em vigor. Defensores da lei, como o presidente da OAB, Ophir Cavalcanti, argumentam que a inelegibilidade não seria punição de um delito, e sim, simplesmente, a constatação de falta de condições para a eleição. Isso pode parecer um jogo de palavras — mas certamente pode ajudar a eficácia e mesmo a sobrevivência de uma lei que sem dúvida alguma corresponde à vontade da opinião pública.

É importante, a propósito, não esquecer que a exigência da ficha limpa nasceu de um absolutamente inédito movimento popular. Juízes e políticos com certeza não podem deixar de levar em conta as inéditas — e mesmo surpreendentes — raízes de uma campanha pela moralização dos costumes políticos como nunca se viu antes na história do país. Na campanha popular, a opinião pública disse o que queria de seus representantes — e juízes, mesmo sem mandatos, também o são.

PAULO CÉSAR DE OLIVEIRA - Lula quer poder absoluto


Lula quer poder absoluto
PAULO CÉSAR DE OLIVEIRA
JORNAL DE BRASILIA - 27/09/11


Bem ao contrário do que muitos pensam, a busca do poder é sim uma atividade nobre em política. Desde, claro, que o objetivo também seja nobre, ou seja, de chegar ao poder para, nele, implantar um modelo de administração sustentado pelo pensamento político de um determinado grupo. O poder pelo poder, a busca do poder como forma de satisfação pessoal em nada ajuda o País.

Vencer, com o objetivo de demonstrar prestígio pessoal, tem como consequência a radicalização política. Esta, ao que parece, é a situação da sucessão na cidade de São Paulo.

Lula tomou para si o desafio de fazer o seu PT, com o candidato que escolheu, chegar novamente à prefeitura paulistana onde já esteve duas vezes, com Luiza Erundina e Marta Suplicy. A justificativa é a necessidade de se quebrar a hegemonia "tucana" na cidade, preparando o caminho para as eleições de 2014.

Esta é a explicação pública para uma questão de natureza pessoal. Tanto que Lula decidiu pelo, aparentemente, caminho mais longo. Despreza a candidatura Marta para impor Fernando Haddad, alguém que, como Dilma, nunca disputou eleições. Com a agravante de que Haddad, como ministro da Educação, esteve na vitrine muito mais pela incompetência de realizar um Enem e pelas polêmicas dos livros didáticos de conteúdo duvidosos.

Vencer com um candidato assim seria a consagração de quem, historicamente, teve a rejeição da população paulistana.

Lula, parece, quer mais é vencer a sociedade, impondo a candidatura de um neófito numa situação que em nada se assemelha à candidatura de Dilma. A presidente, mesmo fazendo sua estreia nas urnas, tinha um passado de militância política e construiu um conceito de boa administradora. Era, portanto, uma candidatura mais leve, que em alguns momentos caminhou sem a muleta de Lula embora, não se possa negar, tenha sido eleita pelo prestígio dele.

Mas, se elegeu Dilma, ele não pode se esquecer de que legou a ela situações, políticas e econômicas, muito complicadas.

São da cota dele todos os ministros que caíram, inclusive Nelson Jobim, o único que não saiu por corrupção, mas que deixou o cargo sinalizando sérias divergências políticas com o grupo político da presidente. Na economia deixou um descontrole nos gastos públicos que ficam mais evidentes na medida em que a nova crise - ou seria o prolongamento da velha - recrudesce Radicalizar a disputa em nada contribui.

Dilma, diga-se, tem se mostrado mais madura do que Lula. Seus movimentos buscam manter um diálogo de alto nível com o que de melhor existe na oposição. Com isto busca se proteger do que há de pior em sua base, caso as dificuldades aumentem com a crise. Lula precisa entender a necessidade de se preservar. Sua liderança no país, e não apenas sobre determinadas camadas sociais, pode ser fundamental no caso de um anunciado agravamento da crise mundial. Não se trata de pedir que abra mão das disputas eleitorais. Que seu partido entregue prefeituras, que não se esforce no embate com seus adversários. Não é isto. Pede-se apenas que ele desça do palanque agora e suba no momento certo.

ALCIDES LEITE - Quem é mais realista? O BC ou o mercado financeiro?


Quem é mais realista? O BC ou o mercado financeiro?
ALCIDES LEITE
O ESTADÃO - 27/09/11

A pesquisa de Expectativa de Mercado, mais conhecida como Relatório Focus, é realizada semanalmente pelo Banco Central. Nessa pesquisa, a autoridade monetária ouve a opinião das 90 principais instituições do mercado sobre suas expectativas em relação ao comportamento de diversos indicadores, como inflação, PIB, taxa de desemprego, taxa de câmbio, etc...

Na última pesquisa, feita durante a semana passada, e divulgada ontem, chama a atenção a expectativa do mercado em relação à inflação.

Segundo a pesquisa, o mercado acredita que a média do IPCA para 2011 será de 6,52%, número superior ao teto da meta estipulado pelo Conselho Monetário Nacional, que determina como meta a inflação de 4,5% com tolerância de 2 pontos porcentuais para cima ou para baixo.

Se, de fato, a inflação de 2011 for superior a 6,5%, o presidente do Banco Central deverá escrever uma carta aberta para o ministro da Fazenda, explicando as razões do descumprimento da meta e as medidas que serão adotadas para que a inflação de 2012 retorne aos limites estabelecidos.São as condições impostas pelo sistema de metas de inflação vigente no País desde 1999.

Nos últimos 13 anos, de 1999 a 2011, o BC conseguiu atingir a meta nove vezes. Em 2001, 2002 e 2003, a inflação superou o teto; 2011 pode ser a quarta vez que o BC não consegue manter a inflação dentro do intervalo determinado.

O resultado da última pesquisa Focus preocupa porque a expectativa do mercado em relação à inflação é um dos componentes que acabam influenciando no comportamento da própria inflação. No seu site, o próprio BC informa que: "um dos objetivos centrais do regime de metas é justamente ancorar as expectativas de mercado que, de forma geral, orientam o processo de formação de preços na economia".

Ademais,a previsão do Focus tem forte embasamento real.

Mesmo com as dificuldades dos países desenvolvidos, a economia global continuará crescendo em 2011. Países como China e Índia vão aumentar sua demanda por commodities agrícolas e minerais, fato que impede a redução acentuada dos preços destes produtos.

Os preços dos produtos comercializáveis, os chamados tradeables, que são determinados pelo mercado internacional e cotados em dólares, são responsáveis por cerca de 25% da taxa de inflação ao consumidor. Igual parcela é atribuída aos preços administrados (energia elétrica, água, pedágio, combustível, etc...), que são reajustados pela inflação passada. O resto é composto pelos preços livres, que obedecem diretamente a lei da oferta e da demanda.

Com preços comercializáveis ainda em alta, com preços administrados pressionados pela inflação passada, e com os preços livres pressionados pela expectativa de mercado e pelo crescimento real da renda familiar, não podemos acreditar que a pressão inflacionária vai ser substancialmente reduzida nos próximos meses.

O presidente do BC continua afirmando que a inflação de 2011 ficará dentro do intervalo da meta, mas pela primeira vez o mercado financeiro acredita que ela furará o teto. Quem está sendo mais realista? A situação indica que, por mais volúvel que seja, desta vez parece que o mercado está sendo bem mais realista que o BC.

É PROFESSOR DA TREVISAN ESCOLA DE NEGÓCIOS

CELSO MING - Socorro aos bancos


Socorro aos bancos
CELSO MING
O ESTADÃO - 27/09/11

Uma vez admitida a inevitabilidade do calote (default) da Grécia, as discussões agora giram em torno do que fazer para que o processo seja minimamente ordenado.

O setor mais vulnerável hoje a uma implosão é o dos bancos europeus - e não somente gregos. O grande risco de contágio não é de que outros países sigam a Grécia abismo abaixo. É, sim, o rombo nas finanças dos bancos provocado pelo calote, catapultado pela ameaça de outros sócios do euro também quebrarem e aprofundarem o estrago no patrimônio dos bancos.

Isso significa que a tarefa imediata consiste em preservar os bancos. O Fundo Monetário Internacional já avisou: apenas na Europa, será preciso capitalizar os bancos em mais de 200 bilhões de euros. Como já aconteceu, provavelmente esse volume está subdimensionado e será preciso mais.

Desta vez, não se pode falar em lambanças dos bancos, como aconteceu durante o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos, em 2008. Os bancos não fizeram outra coisa senão financiar os Tesouros soberanos, com aval do Bank for International Settlements (BIS) - organismo que funciona como banco central dos bancos centrais. É que, até recentemente, o BIS considerava os títulos públicos como ativos praticamente sem risco. Mas, agora, se vê que não é assim.

Há apenas dois meses, para não deixar os Tesouros sozinhos com a tarefa do saneamento, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, pretendia que os credores assumissem "voluntariamente" um pedaço da conta da renegociação da dívida pública grega. A essa proposta, o Banco Central Europeu (BCE) se opôs radicalmente, por prever a trombada a que estaria sujeito o patrimônio dos bancos, afinal, os principais credores. Agora, no entanto, o corte de cabelo, como se diz no jargão das finanças, não poderá mais ser "voluntário". Se o calote se confirmar, será imposto unilateralmente e produzirá estragos, provavelmente, maiores.

Mas, afinal, de onde sairão os recursos para capitalizar ou socorrer os bancos? Não haverá de ser dos Tesouros, quebrados e que, em última análise, estão afundando os bancos. Nesta segunda-feira, dava-se como inevitável que sairá do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF, na sigla em inglês). Mas se o EFSF já é pequeno, menor ainda será se tiver mais funções. Outro candidato quase inevitável a salvador é o BCE.

Essa operação não reconstruirá a área do euro. Somente apagará focos de incêndio. Tentará impedir a perda de confiança entre bancos e a perda de confiança do público neles. E, como todas as intervenções dos bombeiros, quebrará louças, inutilizará móveis, romperá vidros e o telhado. Mas será o primeiro passo para impedir o desastre. Em seguida, será preciso recuperar as outras economias vulneráveis - tarefa nem um pouco clara. E, mais adiante, tudo terá de ser reconstruído, especialmente o euro, em novos e bem mais sólidos fundamentos.

Afora isso, é preciso ver como fica a Grécia. Caso imponha um calote de 50%, sua dívida cairá para 175 bilhões de euros (75% do PIB). Mas, tão cedo, não terá um único centavo de financiamento para dar cobertura a novos déficits, como aconteceu com a Argentina. E, sem condições de se endividar, as despesas públicas serão o que forem suas receitas. São a recessão e os cortes de despesas, provavelmente, ainda mais drásticos do que se pretende hoje e que tanto drama têm gerado.

CONFIRA

Em setembro, a corrida dos aplicadores não foi para a segurança? Então, o que explica a queda das cotações do ouro? Pois bem, a corrida para a segurança rumou ao castigado dólar. Não há o que colocar no lugar. Nem o ouro.

Devagar demais. Nesta segunda, no 8º Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas, Benjamin Steinbruch, vice-presidente da Fiesp e presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, reclamou da demora do Banco Central em intervir no mercado para derrubar as cotações do dólar. Logo ele, entre os que mais reivindicavam puxá-las para cima.

GOSTOSA


JOHN KORNBLUM - O imagine um mundo sem o euro


O imagine um mundo sem o euro
JOHN KORNBLUM
O ESTADÃO - 27/09/11

O fim da Guerra Fria em 1990 foi um período de preocupação e de celebração.

À medida que os europeus olhavam o futuro, ficavam obcecados com o passado sangrento do continente.

Uma nova Europa e, especialmente, uma Alemanha reunificada poderiam reavivar velhos sentimentos nacionalistas e levariam de novo ao perigo de uma guerra? Desde então, Helmut Kohl, da Alemanha, François Mitterrand, da França, consideraram uma moeda comum essencialmente como um projeto político, que tinha como objetivo consolidar a unidade europeia. Para eles, um mundo sem o euro seria cada vez mais ameaçado pela guerra.

O projeto do euro foi formalizado rapidamente, sem um acordo chave em termos de instituições políticas comuns que transformariam a Europa numa zona econômica unificada.

Em consequência, cada país segue sua própria política econômica: a Grécia gasta, e a Alemanha economiza.

A guerra não chegaria à Europa, como usem o euro. Um prognóstico feito pelo economista de Harvard Martin Feldstein, em 1997, está próximo da realidade.

Segundo ele, a introdução do euro provocaria um grande atrito dentro da União Europeia, porque os problemas para manter uma moeda comum criariam confrontos e um retorno do nacionalismo.

Feldstein estava certo.

Outro temor era que, sem o euro, uma Alemanha reunificada dominaria o continente. Se a Alemanha renunciasse à sua moeda, a França apoiaria sua reunificação - o euro ajudaria a manter Berlim ligada à Europa.

A chanceler Angela Merkel não se cansa de repetir: "Se o euro fracassar, o projeto europeu inteiro estará em risco" quando insiste num outro pacote para Grécia ou Portugal.

Mas nos últimos 20 anos, ocorreu o oposto. Os alemães reformaram sua economia. Sem o euro, a Alemanha seria o país mais poderoso da Europa, mas não teria o multiplicador de uma moeda comum.

Usar o euro foi o equivalente ao uso pelos americanos do seu cartão de crédito até o limite.

Foi a Alemanha que mais aproveitou o esbanjamento de outros países europeus, que absorvem 75% das suas exportações.

Assim, sem o euro, haveria menos consumo e a Alemanha poderia não ter se tornado a potência que é hoje. Mas, haveria uma outra consequência: a Europa poderia não ter contribuído de modo tão fundamental para a crise financeira de 2008.

Os bancos europeus quiseram lucrar muito com o dinheiro que emprestavam à Grécia. Então o que fizeram? Adquiriram centenas de bilhões de dólares em hipotecas subprime e passaram por uma crise real em 2007 e 2008. Os bancos europeus estão afundando novamente, uma vez que a sua exposição à divida soberana de países como a Grécia os ameaça.

É por isso, em parte, que os bancos centrais da Europa e Estados Unidos prometeram injetar mais dólares nos bancos europeus para ajudá-los a pagar o que devem. E é por esta razão também que o secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, foi à Polônia para tentar convencer os europeus a tomarem medidas para resolver seus problemas. Ele avaliou muito mal o sentimento entre os ministros europeus.

O erro dele foi achar que os ministros estavam debatendo questões bancárias ou de déficits. Mas na realidade eles estavam falando de guerra e dos temores que motivaram Kohl e Mitterrand.

Esse medo de um conflito interno é o legado da 2.ª Guerra Mundial, que tem pesado sobre a União Europeia desde que nasceu em 1957.

A Europa estaria melhor sem o euro? Talvez. Mas, se o euro não tivesse sido implementado como um projeto político numa Europa que ainda não estava pronta para uma moeda comum, os especialistas provavelmente conseguiriam resolver a situação de maneira rápida. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

FOI EMBAIXADOR DOS EUA NA ALEMANHA DE 1997 A 2001

JOSÉ PAULO KUPFER - Quebra de tabus


Quebra de tabus
JOSÉ PAULO KUPFER
O ESTADÃO - 27/09/11

Ainda não são definitivos os sinais de que a crise grega desembocará em breve num calote negociado de sua dívida. Mas são cada vez mais amplos os indicativos de que está chegando a hora.

Não só autoridades, como diretores do Banco Central Europeu (BCE) e o próprio ministro das Finanças da Grécia, já falam, com desenvoltura, na possibilidade. O processo de lenta agonia a que as lideranças políticas europeias têm imposto à Grécia - e por contágio às economias super endividadas da zona do euro - produz ele mesmo um estreitamento de alternativas.

São dois os tabus que estão sendo paulatinamente quebra dos como desenrolar da agonia grega - e ambosse revelam logicamente interligados.O primeiro é o de que reestruturações de dívidas soberanas devem ser evitadas a qualquer custo. O segundo remete à constatação de que, no quadro atual, é possível estimular investimentos, recuperando economias com dívidas e déficits muito além do razoável, com programas draconianos de austeridade fiscal.

Só os mais refratários ainda permanecem de olhos fechados diante do que, a essa altura, pode ser considerado o melhor desfecho para a crise - ou seja,uma reestruturação organizadadas crises de dívida das economias europeias. Numa de suas últimas colunas, Martin Wolf, o comentarista principal do Financial Times, observou que a reestruturação da dívida grega não é mais "uma questão de se", mas de quando. Esse "quando", porém, não pode demorar. A demora atropelaria o calote organizado - espécie de política de redução de danos -, dando lugar a um salve-se quem puder.

A quebra dos tabus se deve a convicções que foram ganhando corpo, ao longo dos últimos meses. Elas encorparam a partir de uma combinação de fatores derivados da hesitação europeia em adotar opções menos ortodoxas e os custos - financeiros e políticos - que essa hesitação crescentemente tem produzido.

Hoje são poucos os que ainda não se convenceram de que, para nenhum de seus membros, o abandono do euro é uma alternativa viável.

No caso de uma economia fraca, como a da Grécia - ou de seus vizinhos igualmente combalidos, como Portugal, Irlanda, Espanha e Itália -, já se entendeu que a saída da União Europeia e a troca do euro pela velha moeda local não facilitaria muita coisa. A possibilidade de desvalorizar o câmbio e tentar a sorte no mercado externo seria fragorosamente atropelada por um surto inflacionário, em meio a crises bancárias e falências de empresas. Estima-se que as perdas, no primeiro ano, equivaleriam à metade do PIB nacional.

Esse desenrolar não é muito difícil de entender, mas o interessante é que se alastra a percepção de que abandonar o euro também não seria saída para as economias mais fortes, como a da Alemanha.

O quadro mais provável de uma decisão desse tipo, para uma economia como a alemã, seria o de redução da competitividade nas exportações e de valor nos ativos bancários no exterior.

No fim do primeiro ano, as perdas equivaleriam a um quarto do PIB.

A deterioração da situação afunilou de tal maneira as saídas possíveis que não será surpresa se um plano de reestruturação da dívida grega já estiver assando no forno das autoridades da zona do euro. No fim de semana, circularam rumores de que os governos europeus trabalhavam na formação de uma lenta do bolo de € 2trilhões, para enfrentaras consequências e repercussões além da Grécia de um calote grego, que envolveria metade de sua imensa dívida de € 350 bilhões - valor equivalente a 150% do PIB grego.

Embora as negativas oficiais não tenham mudado de tecla, o calote grego aparece mais e mais como favas contadas. Não é por outro motivo que a verdadeira preocupação geral do momento se concentra na sustentação dos bancos. Os títulos da dívida soberana que carregam já não valem o que está escrito no papelório contabilizado a valor de face. Os rebaixamentos em série promovidos pelas agências de classificação de riscos são a antessala do que ocorrerá com o anúncio do calote.

O mais dramático é que não se trata apenas da dívida da Grécia ou mesmo da exposição exclusiva de bancos europeus.Para aguentar o tranco, estes últimos necessitariam de um montante de dinheiro que, de acordo comas diversas estimativas, varia de U$300 bilhões a US$ 1 trilhão. Mas, e os bancos americanos, por exemplo, que estão expostos em cerca de US$500 bilhões nos cinco países encalacrados da zona do euro? Compreende-se o quanto deve ser custoso para o BCE, instituição de DNA tão conservador, se ver no papel de emprestador de recursos ilimitados a um sistema bancário que não conseguiu conter ou regular riscos.

Mas este, novamente são poucos os que ainda duvidam, será um outro tabu que essa crise quebrará.

MARCO ANTONIO VILLA - Um poder de costas para o país


Um poder de costas para o país
MARCO ANTONIO VILLA
O GLOBO - 27/09/11

Justiça no Brasil vai mal, muito mal. Porém, de acordo com o relatório de atividades do Supremo Tribunal Federal de 2010, tudo vai muito bem. Nas 80 páginas — parte delas em branco — recheadas de fotografias (como uma revista de consultório médico), gráficos coloridos e frases vazias, o leitor fica com a impressão que o STF é um exemplo de eficiência, presteza e defesa da cidadania. Neste terreno de enganos, ficamos sabendo que um dos gabinetes (que tem milhares de processos parados, aguardando encaminhamento) recebeu “pela excelência dos serviços prestados” o certificado ISO 9001. E há até informações futebolísticas: o relatório informa que o ministro Marco Aurélio é flamenguista.

A leitura do documento é chocante. Descreve até uma diplomacia judiciária para justificar os passeios dos ministros à Europa e aos Estados Unidos. Ou, como prefere o relatório, as viagens possibilitaram “uma proveitosa troca de opiniões sobre o trabalho cotidiano.” Custosas, muito custosas, estas trocas de opiniões. Pena que a diplomacia judiciária não é exercida internamente. Pena. Basta citar o assassinato da juíza Patrícia Acioli, de São Gonçalo. Nenhum ministro do STF, muito menos o seu presidente, foi ao velório ou ao enterro. Sequer foi feita uma declaração formal em nome da instituição. Nada.

Silêncio absoluto. Por que? E a triste ironia: a juíza foi assassinada em 11 de agosto, data comemorativa do nascimento dos cursos jurídicos no Brasil. Mas, se o STF se omitiu sobre o cruel assassinato da juíza, o mesmo não o fez quando o assunto foi o aumento salarial do Judiciário. Seu presidente, Cézar Peluso, ocupou seu tempo nas últimas semanas defendendo — como um líder sindical de toga — o abusivo aumento salarial para o Judiciário Federal. Considera ético e moral coagir o Executivo a aumentar as despesas em R$ 8,3 bilhões. A proposta do aumento salarial é um escárnio.

É um prêmio à paralisia do STF, onde processos chegam a permanecer décadas sem qualquer decisão. A lentidão decisória do Supremo não pode ser imputada à falta de funcionários. De acordo com os dados disponibilizados, o tribunal tem 1.096 cargos efetivos e mais 578 cargos comissionados. Portanto, são 1.674 funcionários, isto somente para um tribunal com 11 juízes. Mas, também de acordo com dados fornecidos pelo próprio STF, 1.148 postos de trabalho são terceirizados, perfazendo um total de 2.822 funcionários. Assim, o tribunal tem a incrível média de 256 funcionários por ministro.

Ficam no ar várias perguntas: como abrigar os quase 3 mil funcionários no prédio-sede e nos anexos? Cabe todo mundo? Ou será preciso aumentar os salários com algum adicional de insalubridade? Causa estupor o número de seguranças entre os funcionários terceirizados. São 435! O leitor não se enganou: são 435. Nem na Casa Branca tem tanto segurança. Será que o STF está sendo ameaçado e não sabemos? Parte destes abuso é que não falta naquela Corte. Só de assistência médica e odontológica o tribunal gastou em 2010, R$ 16 milhões.

O orçamento total do STF foi de R$ 518 milhões, dos quais R$ 315 milhões somente para o pagamento de salários. Falando em relatório, chama a atenção o número de fotografias onde está presente Cézar Peluso. No momento da leitura recordei o comentário de Nélson Rodrigues sobre Pedro Bloch. O motivo foi uma entrevista para a revista “Manchete”. O maior teatrólogo brasileiro ironizou o colega: “Ninguém ama tanto Pedro Bloch como o próprio Pedro Bloch.”

Peluso é o Bloch da vez. Deve gostar muito de si mesmo. São 12 fotos, parte delas de página inteira. Os outros ministros aparecem em uma ou duas fotos. Ele, não. Reservou para si uma dúzia de fotos, a última cercado por crianças. A egolatria chega ao ponto de, ao apresentar a página do STF na intranet, também ter reproduzida uma foto sua acompanhada de uma frase (irônica?) destacando que o “a experiência do Judiciário brasileiro tem importância mundial”. No relatório já citado, o ministro Peluso escreveu algumas linhas, logo na introdução, explicando a importância das atividades do tribunal.

E concluiu, numa linguagem confusa, que “a sociedade confia na Corte Suprema de seu País. Fazer melhor, a cada dia, ainda que em pequenos mas significativos passos, é nossa responsabilidade, nosso dever e nosso empenho permanente”. Se Bussunda estivesse vivo poderia retrucar com aquele bordão inesquecível: “Fala sério, ministro!” As mazelas do STF têm raízes na crise das instituições da jovem democracia brasileira. Se os três Poderes da República têm sérios problemas de funcionamento, é inegável que o Judiciário é o pior deles. E deveria ser o mais importante. Ninguém entende o seu funcionamento.

É lento e caro. Seus membros buscam privilégios, e não a austeridade. Confundem independência entre os poderes com autonomia para fazer o que bem entendem. Estão de costas para o país. No fundo, desprezam as insistentes cobranças por justiça. Consideram uma intromissão.

MARCO ANTONIO VILLA é historiador e professor da Universidade Federal de São Carlos.

GOSTOSA


MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Mercado livre ganha consumidor de 'menor porte'
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 27/09/11

O mercado livre, que representa os grandes consumidores de energia, recebeu novos membros, que migraram do mercado cativo com maior intensidade nos últimos anos.
Os chamados "consumidores especiais", que só precisam de 0,5 MW de demanda contratada para atuar no mercado livre, registraram aumento de 30% no consumo entre julho de 2010 e julho deste ano, segundo Cristopher Vlavianos, presidente da Comerc, gestora e comercializadora de energia.
O volume total de consumo deste grupo subiu de 810 MW para 1.040 MW no período. Entre os livres, a alta foi de apenas 1%, para 9.137 MW.
O consumidor livre precisa ter uma demanda de 3 MW para que possa contratar energia de qualquer gerador.
Já os especiais podem atuar neste mercado com 0,5 MW, desde que consumam de fontes de energia renovável. O grupo saltou de 194 em 2008 para 508 neste ano, enquanto os livres saíram de 459 para 496.
"Ao aumentar a demanda por energia renovável, esse consumidor estimula a oferta e, consequentemente, fomenta o desenvolvimento dessa matriz no Brasil", afirma Vlavianos. Entre os consumidores especiais que aumentaram sua presença no mercado livre estão shoppings e indústrias de baixo consumo.
O movimento estimulou debate em torno da regulamentação o setor, segundo Lúcio Reis, da Anace (Associação Nacional dos Consumidores de Energia).
"Uma nova regulamentação, que está em discussão, instituiria o comercializador varejista, que poderia facilitar a interface entre esses pequenos consumidores, tão numerosos, e a CCEE [câmara de comercialização]", diz.

Apetite... A rede de comida italiana Spoleto pretende dobrar o número de lojas na Grande São Paulo e no interior do Estado. Hoje há 35 lojas nessa região e estão previstas quase 70 até 2013 no modelo de franquias.

...italiano A rede está focada em cida­des com renda per capita aci­ma de R$ 8.000 por ano e população superior a 150 mil habitantes. Os investimentos envolvidos são de cerca de R$ 10 milhões.

Preço do interior O valor do metro quadrado em Campinas (SP) chega a custar R$ 8.000 em alguns bairros, como Cambuí, de acordo com estudo da Lello. A valorização imobiliária na cidade foi de 40% nos últimos dois anos.

Saúde Laboratórios associados à Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa) produzem 43% dos genéricos no país, segundo a consultoria IMS Health.

Chimarrão A imobiliária gaúcha Guarida Imóveis começará a trabalhar com franquias. A empresa pretende abrir 94 agências no Estado, o que deve movimentar cerca de R$ 10 milhões.

Crédito O Ibmec criou um departamento para trabalhar o crédito estudantil. Em cinco anos, o grupo espera que 15% de seus alunos participem de programas de crédito. Os estudantes poderão financiar o curso inteiro e terão o dobro do prazo normal para pagar.

Formatura< A Gol e o Grupo Forma, controlador da operadora Forma Turismo, fecharam acordo de US$ 2 milhões (cerca de R$ 3,6 milhões) para o fretamento de 22 voos por semana para Porto Seguro (BA) entre setembro e outubro.

NERVOS DE AÇO

A Saint-Gobain do Brasil Divisão Cerâmicas passa a atuar em um segmento onde ainda não trabalhava, com o fornecimento para o mercado de aciaria na indústria siderúrgica. Com investimento de R$ 25 milhões, o complexo da empresa em Vinhedo (SP) terá uma nova fábrica, que entra em operação ainda neste ano.
A unidade será destinada à fabricação de refratários de magnésia-carbono para aciarias das usinas siderúrgicas.
Está prevista uma segunda fase para os próximos três anos, segundo Alonso Kafer, diretor-geral da empresa.
"Vamos produzir 24 mil toneladas por ano de refratários nesta primeira etapa. Na segunda, podemos adicionar mais 20 mil toneladas", diz. O processo de aciaria é a transformação do ferro gusa em diferentes tipos de aço, segundo a empresa.

HOTEL CORPORATIVO

O Hotel Transamérica Ilha de Comandatuba (BA) investirá cerca de R$ 25 milhões na construção de um centro de convenções.
A inauguração do novo espaço está prevista para ocorrer em outubro de 2012, de acordo com o diretor da unidade, Heber Garrido.
"Esperamos recuperar o investimento em até nove anos, pois a nossa margem de lucro nos eventos não costuma ser muito alta, é de cerca de 25%", afirma Garrido.
Com o novo centro de convenções, a expectativa do hotel é que, até 2014, os eventos corporativos sejam responsáveis por 60% de sua ocupação anual. Hoje esse índice é de cerca de 50% e, em 2009, era de 30%.
"O crescimento deste setor é uma tendência do mercado", diz Garrido.
Até setembro deste ano, o hotel diz ter faturado R$ 17 milhões com eventos corporativos, o dobro do registrado durante 2010.

BOA VIZINHANÇA

Cerca de 60% das empresas que atuam na América Latina consideram a possibilidade de realizar recrutamento internacional até 2015, ante apenas 20% em 2007, segundo estudo da Brain (Brasil Investimentos e Negócio).
O índice chega a 56% na Europa e a 48% na América do Norte.
O trabalho também aponta que a entrada de estrangeiros no Brasil é considerada complexa, pois "a legislação e os processos de imigração são protecionistas em relação à mão de obra nacional".
A Brain é uma entidade voltada para a consolidação do Brasil como polo internacional de investimentos e negócios e possui 13 associados, como BM&FBovespa, Anbima, Febraban, Fecomércio, Citibank, HSBC, entre outros.

DESEMPENHO MINEIRO

Belo Horizonte, Uberlândia, Nova Lima, Juiz de Fora e Uberaba são as cinco cidades mais competitivas de Minas Gerais, de acordo com estudo do Sebrae-MG.
Entre os quesitos avaliados, as cidades tiveram melhor desempenho no quadro social, que engloba mortalidade infantil e taxa de analfabetismo, entre outros índices. A média foi de 88,74 (acima de 80, a competitividade é muito alta).
O pior resultado dos municípios foi no índice de capacidade de alavancagem do governo, que inclui a participação da arrecadação tributária na receita. As cidades obtiveram 46,46 de média (nível médio de competitividade).
A pesquisa ainda analisou a performance econômica das cidades (PIB per capita e taxa de emprego, entre outros), o suporte aos negócios (diversificação da economia e número de bancos oficiais, por exemplo) e a infraestrutura.

JANIO DE FREITAS - Sem de, não da


Sem de, não da
JANIO DE FREITAS
SOLHA DE SP - 27/09/11

Da Comissão da Verdade não se exige mais do que uma comissão de verdade, que não se preste a farsas


As discussões suscitadas pela aprovação, na Câmara, da Comissão da Verdade giram, sobretudo, em torno do número de seus integrantes, do proposto impedimento a ex-militantes de integrá-la e de sua vigência restrita a dois anos. Mas o fator decisivo não está aí.

Os sete integrantes previstos tanto podem ser suficientes como não. Dependerá de suas qualidades pessoais, dos recursos humanos e instrumentais de que disponham e, base de tudo, da representatividade institucional que lhes seja conferida e à sua missão.

ACM Neto deve ter razões não explicitadas para preocupar-se com a possibilidade de algum vitimado da ditadura, direto ou indireto, integrar a comissão.

Em princípio, não há motivo para repelir a proposta adotada pelo DEM, com uma condição inabalável: a esse impedimento tem que corresponder o de militares da ativa, da reserva ou reformados, e aliados explícitos ou subentendidos da ditadura.

Dois anos para investigar as violações a direitos humanos desde o fim da ditadura de Getúlio parecem brincadeira, mas foi um artifício para restringir a atividade que é a razão de ser da comissão.

Ficou uma brecha, porém. Os artificiosos não cuidaram de determinar ordem cronológica na coleta das informações esperadas.

À comissão bastará designar assessores para o trabalho sobre o passado distante, enquanto outra e principal atividade se concentra no que os atuantes da ditadura e seus atuais seguidores querem escondido para sempre.

Desde o governo Fernando Henrique, foram adotadas numerosas iniciativas com a finalidade declarada de levantar as verdades mais autênticas da ditadura militar e respectivas autorias, tanto por execução como por mando e cobertura. Frustradas todas.

Só para a procura dos assassinados do Araguaia criaram-se sucessivas missões e comissões no governo Lula, reduzidas à inutilidade por interferência militar.

A condição para que afinal se encerre o predomínio do cinismo, sob o qual prosperam todas as outras impunidades, não exige que a Comissão da Verdade seja mais do que isto: uma comissão de verdade, que não se preste a farsas nem se dobre por temores seus ou alheios. Disso já vimos o bastante.



OUTONO LÁ

Do alto dos saltos altos de seus sapatos, a derrota que Nicolas Sarkozy vê despejar-se sobre sua pretendida reeleição é mais do que uma vitória da "esquerda" sem ocorrência, em eleições para o Senado da França, desde 1958. Em pleno e múltiplo outono europeu, é como o início da Primavera Francesa.

ELIANE CANTANHÊDE - Belo grupo de picaretas


 Belo grupo de picaretas
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 27/09/11


BRASÍLIA - Lá se vão quase 20 anos desde que o Lula de antigamente falou e disse sobre os "300 picaretas [do Congresso], que defendem apenas seus próprios interesses".

Eleito presidente e surfando em alta popularidade interna e externa, ele deixou essas picuinhas para lá e se esbaldou com os picaretas que antes criticava -e desprezava.

Lá se vão também mais de seis anos desde que Roberto Jefferson detonou o "mensalão" de R$ 30 mil (em valores da época...) para parlamentares, em troca de apoio no Congresso.

Nada parece ter mudado, a se considerar a afirmação do deputado estadual Roque Barbiere (PTB) de que 25% a 30% dos 94 membros da Assembleia Legislativa de São Paulo vendem emendas parlamentares e fazem lobby para empresas: "Tem um belo grupo que vive, sobrevive e enriquece fazendo isso". Muda a "praça", continua a prática dos "interesses pessoais".

Nome aos bois, Barbiere, o novo Jefferson, não deu. A boiada inteira ficou marcada e seus 93 colegas têm a obrigação pessoal, política, ética e moral de investigar a acusação. Barbiere mentiu? Se falou a verdade, quem são e o que fazem exatamente os "25% a 30%"?

Mas, peraí... se todos estão sob suspeição, quem é mesmo que vai investigar quem?

Em tempos de Rock in Rio, vale lembrar que Os Paralamas do Sucesso pegaram carona nos "300 picaretas" de Lula e lançaram: "Luiz Inácio falou, Luiz Inácio avisou/ São 300 picaretas com anel de doutor/ Eles ficaram ofendidos com a afirmação/ Que reflete na verdade o sentimento da Nação/ É lobby, é conchavo, é propina e jetom/ Variações do mesmo tema sem sair do tom/ Brasília é uma ilha, eu falo porque eu sei/ Uma cidade que fabrica sua própria lei".

Donde se conclui que, num ponto, Herbert Vianna errou: será que Brasília é tão ilha assim? Ao que parece, os picaretas estão por toda parte. E continuam firmes e fortes.

CLAUDIO HUMBERTO

“Se me desrespeitarem e me esculacharem, vão ter o troco”
DEPUTADO ROMÁRIO (PSB-RJ), AVISANDO OS COLEGAS QUE NÃO LEVA DESAFORO PRA CASA

IPI: NACIONALIZAÇÃO DE 65% PODE SER FLEXIBILIZADA 
O governo federal estuda flexibilizar a exigência mínima de 65% de conteúdo nacional, na indústria automobilística, para dispensar o acréscimo de trinta pontos percentuais do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), que passou de 7% para 37%. A ideia é dar um prazo de carência para as empresas que se instalem no País, “escalonando” gradativamente a exigência de nacionalização até alcançar os 65%.

ASSIM É... 
O decreto governamental exige 65% de nacionalização das peças de pelo menos 80% dos veículos montados em uma mesma empresa.

...SE LHE PARECE 
É só lorota para proteger “carroças” made in Brasil: o cálculo dos 65% será feito com base no preço final do carro, não no número de peças.

A ‘TEORIA’ É OUTRA 
O Sindipeças estima que na prática o índice de nacionalização em carros vendidos no Brasil será de cerca de 20%.

NEM AÍ 
O governo não está preocupado com desempregados no setor que vende carros importados. Acha que serão absorvidos pelo mercado. 

DF: OBRA DE CENTRO ADMINISTRATIVO CAUSA REVOLTA 
Continua provocando revolta entre urbanistas, pioneiros e arquitetos, como Carlos Magalhães, que representa Oscar Niemeyer em Brasília, a construção de um centro administrativo que pretende transferir o poder local para Ceilândia, cidade a quase 30 km da capital. A obra é do consórcio da Odebrecht, que ganha todas no governo federal, com Via Engenharia, que ganha todas no DF, incluindo o Estádio Nacional.

SOB SUSPEITA 
Concebido pela dupla Rogério Rosso-Durval Barbosa, ex-presidentes da Codeplan, o centro administrativo foi “licitado” no governo Arruda.

GRANDE NEGÓCIO... 
Carlos Magalhães acha que o centro administrativo é coisa de quem não gosta de Brasília, mas aprecia grandes negócios.

...E LUCRO GARANTIDO 
Suspeita-se que antes de ser anunciado o centro administrativo, as áreas disponíveis na região foram compradas por empresas e laranjas.

OS ESPECIALISTAS 
Está tudo dominado: Marcelo Leal Oliveira, advogado de Fernando Sarney, e Marcelo Leonardo, defensor de Marcos Valério, réu no caso do mensalão, foram nomeados pelo presidente do Senado, José Sarney, para a comissão que vai redigir o anteprojeto do Código Penal.

JUSTA CAUSA 
O Ministério do Trabalho merece demissão por justa causa. Indagado sobre o desemprego, informa não ter os dados, somente os de geração de emprego. Em eventual crise, o governo será o último a saber.

SOL COM PENEIRA 
A direção da Agência de Aviação Civil (Anac) censurou em seu clipping a notícia desta coluna sobre a armação para fazer da empresa EBP vencedora da disputa para fazer editais de privatização de aeroportos.

EM REDE 
Dados da Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dão conta de que 14 milhões de computadores serão vendidos só este ano no Brasil. O país conta hoje com 68 milhões de usuários diários da internet. 

ADEUS OBA-OBA 
Quem manda no mundo e acerta previsões acredita que o Brasil só crescerá 3,5% este ano, e 3,3% ano que vem. É o que anunciou o Instituto de Finanças Internacionais, que reúne 450 grandes bancos.

LONGE DA SALA 
Há oito dias, a professora Marilda Araújo, 59, e o técnico em Educação Abdon Guimarães estão em greve de fome na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. A greve já foi julgada ilegal. 

CONTRAMÃO 
Os veículos da Agencia Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), que conduzem fiscais nas estradas privatizadas, pagam pedágio às concessionárias. O serviço de ambos continua ruim. E muito caro.

LIGAÇÕES PERIGOSAS 
A chefe da consultoria jurídica do Ministério dos Transportes, Yolanda Corrêa Pereira, é testemunha no processo de Cobrança de Honorários Advocatícios em favor de Vera Carla Nelson, uma ex-juíza de Manaus. Curiosamente, as duas são ligadas ao ex-ministro Alfredo Nascimento.

PERGUNTA ALOPRADA 
Se existissem e fossem instalados detectores de drogas nos portões de entrada, haveria Rock In Rio? 

PODER SEM PUDOR 
O PAPA CATARINENSE 
Américo Farias teve 120 mil votos em 2,5 milhões, quando em 1986 se candidatou ao Senado por Santa Catarina. Quatro anos depois, tentaria o governo do Estado pelo PRN, mas ninguém acreditava nas suas chances. Certa vez, ao encontrar em Rio do Sul um candidato a deputado, Alexandre Traple, Farias encheu o peito: “Você está falando com o futuro governador!”. Traple não perdeu a piada, respondendo em italiano:
– Piacere, io sono il Papa (Prazer, eu sou o Papa)!...

TERÇA NOS JORNAIS


Globo: BC radicalizará corte de juros, apesar da inflação

Folha: Crimes aumentam no Estado de SP em agosto

- Estadão: Europa tenta blindar sistema financeiro contra calote grego

Correio: Choveu

Valor: Importadores tentam negociar IPI de carros

Jornal do Commercio: Segurança do Enem terá 2.600 policiais

Zero Hora: Ministro confirma metrô na Capital

segunda-feira, setembro 26, 2011

WALCYR CARRASCO - Despedida



Despedida
WALCYR CARRASCO
REVISTA VEJA - SP

Tudo começou em abril de 1992, uma época dificílima da minha vida, há quase vinte anos. Sem emprego fixo, eu batalhava arduamente para pagar o aluguel, botar comida na mesa, enfim... Vivia de reportagens e artigos avulsos para várias revistas — os famosos “frilas”, no jargão jornalístico. Eu ainda apostava na minha carreira como escritor. Não estava na televisão. Mas uma ou outra peça de teatro de minha autoria, quando era montada, ajudava a desafogar as finanças. Até que um dia recebi um telefonema do Carlos Maranhão, hoje diretor editorial de VEJA Cidades.
— Nós vamos publicar crônicas na última página. Você está interessado em escrever?
— Claro! — respondi alegremente.
Detalhe: eu nunca havia escrito uma crônica. Desliguei o telefone e corri para a livraria. Buscar livros de crônicas, é claro! Durante alguns dias, mergulhei nos livros, tentando entender, sentir, captar o que é crônica, um gênero fluido, sobre cuja definição os autores divergem. A crônica é quase um artigo, mas não é, na medida em que se usa o “eu”. Ou seja, admite o uso da experiência pessoal, da vida e dos sentimentos de quem escreve. É quase um conto, mas também não é, porque não deriva apenas da imaginação do autor, mas de sua observação da realidade.

Sentei-me para escrever a primeira. Oh, meu Deus, num computador movido a lenha, como eram todos na época! O Maranhão ligou:
— Você fez um artigo, não uma crônica.
— Posso tentar de novo?
Eu precisava conseguir! Seria um pagamento fixo, um mínimo fundamental para as minhas finanças! Seis vezes escrevi, seis ele recusou. Mas eu insisti. Até que finalmente...
— Está boa. Na semana que vem mande a próxima.
E assim estreei nestas páginas! E paguei o aluguel! Achava que a segunda seria mais difícil. Não foi. O que começou como desespero de causa financeira tornou-se uma tarefa agradável. Nunca falhei. Os fatos da minha vida alimentaram meus textos. Certa vez estive hospitalizado. Escrevi sobre a internação! Falei sobre temas que me fascinam, como culinária, tradições, internet... Quando meu cachorro Uno ficou doente e mais tarde faleceu, abri meu coração. Minhas palavras eram lágrimas. Recebi tantos e-mails, compartilhando da minha dor!
Sempre fiz questão de dizer a verdade. Meus pais não estão mais aqui. Nas datas comemorativas, nunca fingi que estivessem vivos. Confesso: uma das maiores lutas da minha vida é contra o peso e a barriga. As lutas travadas para fechar as camisas sem que o umbigo ficasse de fora foram inúmeras. E, atualmente, só preciso perder alguns centímetros para os paletós voltarem a servir. Todas essas batalhas eu contei. Assim como meus problemas de consumidor, amizades reencontradas, loucuras da moda. E talvez por isso meu contato com vocês, leitores, tenha sido sempre tão íntimo. De certa maneira, vocês se reconheceram nas minhas dores, alegrias e pequenas indignações do dia a dia! Durante todos esses anos nós rimos e nos emocionamos juntos
Mas agora a minha vida segue novos caminhos. E, por vontade própria, vou deixar esta página. Dói, confesso. Tenho a sensação de me despedir de milhares de amigos, todos vocês que me acompanharam nesses anos. Esta é a minha última crônica, aqui, na Vejinha. Só de saber que eu ia escrevê-la, fiquei um dia doente, de cama. E, agora, sinto o coração apertado. Eu queria poder dar um abraço em cada um de vocês. Fica o abraço, como está em moda hoje em dia, virtual. Para sempre, eu os considero meus amigos, meus leitores!

FERNANDA TORRES - Ponto de cruz


Ponto de cruz
FERNANDA TORRES
REVISTA VEJA - RIO

A televisão é um incrível monstro engolidor de capítulos.

Mesmo quando se estreia com alguma frente, uma vez no ar, dias inteiros de serviço se esvaem em instantes. Só o nível industrial de programação garante o passaporte para a rotina do público. O resto é esquecimento.

Para atingir o poder de penetração de uma novela das 9, são servidos 3 600 segundos de dramaturgia na hora da janta, diariamente. É um feito tão impressionante quanto bater o recorde da colheita de soja. Os trinta minutos de exibição do seriado Tapas e Beijos, todas as terças-feiras, requerem uma jornada de dez horas durante quatro dias da semana. Isso sem contar a redação, a preparação, a montagem, a finalização e os efeitos.

Como todo operário de linha de produção em série, os profissionais de TV se ressentem do esforço da repetição. Dores localizadas, mau humor e cansaço são alguns dos sintomas aparentes. Desesperar-se é a pior escolha, para si mesmo e para os que terão de aguentá-lo em volta.
Deve-se manter a leveza. Pensar em Chaplin apertando, com a chave de boca, os botões na saia da fiscal da fábrica.

Tive uma experiência catastrófica em Selva de Pedra. Assustada com o peso da labuta da heroína das 8, amarrei uma tromba da qual me envergonho há 25 anos. A marcha de Tapas e Beijos é menos estafante do que a de um folhetim, mas nem por isso branda.

Os textos são enxutos e decorar não é problema; mas a linguagem é decupada. Trocamos a posição das duas câmeras e da luz dezenas de vezes por dia. O ator permanece em constante estado de atenção, entre a ação e a espera de ser chamado. A cada tomada, é concedido um intervalo grande o suficiente para um telefonema, um e-mail e um retoque na maquiagem.

No começo, eu telefonava muito; depois, passei a jogar gamão no celular. Não demorou, a jogatina virou um vício aborrecido.

O figurino nos arrumou umas bolsas de algodão para guardar os textos e os objetos pessoais. Um dia, combinei de bordar as sacolas com Andréa Beltrão, minha parceira de empreitada. Munidas de linha, agulha e bastidor, descobrimos uma obsessão criativa na medida certa dos entreatos.

Não é possível ler em um set de filmagem, nem aprender violão. Não é possível desenhar, tampouco escrever. A pequena compulsão manual ajuda a apaziguar a cabeça. Acredito no seu potencial para dar jeito em ansiedade, fobia, mania e até tabagismo.

Exige-se da bordadeira a paciência do ponto, e só. O efeito do conjunto virá com a dedicação e o tempo. Um painel da sua idiossincrasia.

Meu saco de textos já está quase tomado de um lado e tenho até o início de dezembro para concluir o outro. Quando terminar, faço a fantasia de que, fora o personagem, razão de ser do meu ofício, entrarei de férias com um testemunho pessoal do ano que passei ali.

Minha avó Ilda, maranhense da Rua do Sol, era uma menina selvagem até vir para o Rio, casar e se mudar com o marido médico e político para Guaçuí, uma cidadezinha no interior do Espírito Santo. Ilda era uma inconformada conformada com a sua posição de mulher. Se tivesse nascido em outras épocas, teria aproveitado bem mais.

Mestra em crochê, tecia rendas com linha de costura e agulhas microscópicas. Guardo uma veste extraordinária, brocada, mistura de Erté com Ernesto Neto, feita por ela a mão. No crochê, Ilda punha em prática a sua sanidade artística.

Nos dois meses de filmagem de Casa de Areia, na aridez dos Lençóis Maranhenses, a pintura foi meu escapismo. Os intervalos são longos em cinema. Guardo comigo os quadrinhos mal pintados. Eles são a lembrança mais real que possuo da aventura que vivi com minha família na terra natal de minha avó paterna.

Li no jornal que a doutora Nise da Silveira foi transferida para a ala de terapia ocupacional do manicômio em que trabalhava por ter se desentendido com a direção. Não sei se é verdade. Se for, bendita geladeira. No setor mais caseiro da psiquiatria, Nise desenvolveu sua pesquisa e trouxe à luz Arthur Bispo do Rosário.

Santo ponto de cruz!

PAULO RABELO DE CASTRO - O que há de diferente (e pior) na crise europeia


O que há de diferente (e pior) na crise europeia
PAULO RABELO DE CASTRO
REVISTA ÉPOCA

O Brasil pode pagar parte da conta porque a Europa não tem uma lei de responsabilidade fiscal

Deveria haver concurso para o título de livro mais original. Meu candidato seria Desta vez é diferente (This time is different), da obra dos economistas americanos Catherine Reinhart e Kenneth Rogoff. Eles fazem a narrativa detalhada de 800 anos de trapalhadas financeiras repetidas, em diversos países, quando banqueiros ensandecidos se dispõem a emprestar a quem não terá condições de pagar de volta, assim levando populações inteiras a crer na mágica do consumo sem trabalho.

Governos irresponsáveis aplaudem o espetáculo e colhem votos no circo de mentiras. Pior que isso: a espetacular narrativa de Reinhart e Rogoff nos aponta como os políticos articulam o discurso ufanista, tapeando a população na conversa de que "desta vez será diferente", com isso obtendo dos mercados a complacência para executar políticas econômicas financeiramente desastrosas.

Cada passo desse tipo de desastre financeiro aconteceu em 2001 na Argentina, embora solenemente negado pelas autoridades locais, até por indivíduos competentes como o ministro da Economia de então, Domingo Cavallo. A leitura distorcida das reais chances de a economia argentina superar sua crise levou os mercados, as agências de rating e os financiadores da dívida argentina a apostarem, até o último instante, que daquela vez seria diferente. Não foi e jamais será. A história de um desastre financeiro se repete, agora, na Grécia, debaixo dos nossos olhos, enquanto os governos, tanto daquele país quanto da União Europeia, acolitados pelos banqueiros envolvidos, se debatem em planos para tentar remendar o que não tem mais remédio. A conta do calote grego já foi empurrada por baixo da porta dos mercados. Os credores olham espantados para o calote que representa uma vez e meia aquilo que os gregos conseguem produzir num ano inteiro, ou seja, o PIB anual daquele país. De fato, é mais que isso. Os "extras" da conta ainda vão aparecer, tornando a vida dos credores da dívida grega ainda mais azeda. Esses credores são bancos espalhados por toda a Europa, com ramificações em outras regiões do globo. Desta vez, o tamanho do despautério financeiro é bem maior que no caso argentino, algo cinco ou seis vezes mais grave, com desdobramentos difíceis de avaliar sobre o nível de desconfiança dos mercados a respeito de outras dívidas de países do "circuito da azeitona", como carinhosamente podemos nos referir a Portugal, Espanha e Itália, além da própria Grécia. No final, são os próprios credores que se sentem quebrados. Por isso, ações de bancos europeus sofreram desvalorizações catastróficas e não cessam de cair.

O Brasil pode pagar parte da conta porque a Europa não tem uma lei de responsabilidade fiscal

Cada caso de calote tem alguma peculiaridade que, examinada em retrospectiva, estava lá desde o início, como uma fragilidade mal escondida. Os mercados e os banqueiros afoitos normalmente fazem vista grossa a pequenos detalhes que, depois, farão toda a diferença. O problema financeiro da Europa tem na fragilidade fiscal da Comunidade seu tendão de aquiles. O Parlamento europeu não pode votar o tributo sobre vendas que seria necessário, por cima do atual imposto sobre valor agregado. O novo imposto daria conta de montar um fluxo financeiro futuro para as dívidas que a autoridade monetária europeia terá de assumir no presente. Falta na Europa uma lei de responsabilidade fiscal para seus membros, como no Brasil foi conseguida, a duras penas, na administração FHC. Aqui foi preciso que o país passasse na beira do abismo em 1999, sendo considerado quebrado por seus credores. O abismo já chegou para os europeus. Desta vez, entretanto, é diferente. Sim, porque o impasse ocorre dentro dos países centrais do mundo financeiro, pondo em emergência o fiapo de estabilidade do resto do mundo, inclusive nós, que daqui quase nada conseguimos perceber. O Brasil também deve estar preparado para começar a pagar uma parte dessa conta indigesta nos próximos meses. Que tenhamos a sorte de não desperdiçarmos a oportunidade de avançar na crise, com as reformas que nossos políticos ainda nos impedem de fazer.

PAULO BROSSARD - Incompetência ou conivência



Incompetência ou conivência
PAULO BROSSARD
ZERO HORA

Nos poucos meses da presidência iniciada em janeiro, na esfera administrativa, aconteceram coisas jamais vistas nem imaginadas, ainda que os nossos costumes nem sempre fossem imaculados. Basta dizer que dos cinco ministros que deixaram o governo, quatro foram faxinados, não porque os serviços estatais houvessem apurado incorreções mais ou menos graves em suas gestões, pois nenhum tivera sua revelação creditada a ele, mas todos, sem exceção, a órgãos de comunicação. Aliás, longe de ser irrelevante, esse dado é da maior importância, pela simples razão de que não fora a imprensa, ou a mídia, como hoje se diz, nada autorizaria supor que eles viessem a ser inventados e publicados. O fato é bastante para indicar que alguma coisa está torta na administração. Mas a gravidade da ocorrência não se esgota aí, antes suscita outra delicada questão. Enquanto a nação recebeu essas novidades com nojo e indignação, os serviços oficiais, tão zelosos em devassar a vida de pessoas honradas, guardaram sepulcral silêncio, sem uma só ação ainda que retardatária, como se o assunto lhe não dissesse respeito. O mínimo que se pode dizer é que tudo isso parece estranho, tanto mais quando alguns serviços dispõem de meios praticamente ilimitados e impalpáveis a permitir que ninguém esteja livre de ser radiografado até em seus pensamentos. Já não falo no que tem ocorrido com a divulgação privilegiada de trechos inconclusos escolhidos por investigadores ocultos, como se caídos do céu. Tudo isso concorre para tornar mais nebuloso o silêncio do governo. A propósito, já faz um mês da última revelação e até agora nada foi dito, nem mesmo que a lista está esgotada ou se ainda há coisas a serem aditadas.
Curiosamente, o governo, que anunciara uma faxina na área pustulenta, voltou atrás para dizer que a operação se referia à pobreza... versão que não repercutiu bem. E no recente Congresso do partido oficial houve quem pretendesse encerrar a anunciada faxina, sob a alegação de que terminaria atingindo o governo do ex-presidente da República.
Nessa altura o silêncio oficial causou espécie, cada vez mais evidente que não só nada fez para apurar fatos de inegável relevo, limitando-se a receber passivamente a valiosa contribuição da imprensa, como calando em todas as línguas acerca da indolência de seus serviços. O efeito tem sido o pior possível. De muitas pessoas e de variados setores sociais tenho ouvido, em termos absolutos, que todos são corruptos. Desnecessário dizer que não participo da simplicidade da apreciação. No entanto, desgraçado do país em que seus governantes mais altos e seus representantes mais categorizados são vistos, sem distinção, como delinquentes. O fato é que a revelação de todos os deslizes cometidos, para não dizer coisa mais adequada, se deve exclusivamente à imprensa, enquanto o governo só aparece depois da publicação. Peço perdão ao leitor pela insistência, mas vale a pena ressaltar, tamanha a impressão a mim causada.
Por fas e por nefas há quem pense que a omissão dos serviços oficiais se deve à incompetência ou à conivência. A alternativa é penosa. As coisas que deixam de ser feitas oportunamente subitamente se convertem em dissabores e amarguras. Ou muito me engano ou o silêncio oficial dá margem às piores ilações, na competência ou conivência, conivência ou incompetência! Que horror!

*Jurista, ministro aposentado do STF

Custou a chegar a já vai embora? REVISTA VEJA


Custou a chegar a já vai embora?
REVISTA VEJA

O valor do dólar dispara, e isso pode ser prenúncio de tempestade na economia brasileira, que se acostumara ao câmbio favorável a viagens e compras no exterior

Marcelo Satake e Ana Luiza Daltro
Os brasileiros que voltaram recentemente do exterior e aqueles que se preparam para a tradicional viagem de fim de ano tomaram um susto nos últimos dias. As empresas brasileiras que contraíram dívida em moeda estrangeira e que dependem da compra de insumos importados também viram o panorama financeiro àa sua frente mudar radicalmente. O dólar se valorizou 15% em relação ao real em apenas um mês, anulando um movimento na direção contrária que havia se prolongado por quinze meses. No fim de julho, a moeda americana tinha atingido seu menor valor no Brasil desde janeiro de 1999, sendo negociada a 1,53 real. Encerrou a semana passada a 1,84 real. Antes disso beliscou a cotação de 2 reais. Não há planejamento familiar ou empresarial que fique indiferente a tamanha oscilação em tão pouco tempo. Um brasileiro que tivesse viajado para os Estados Unidos e feito compras de 1 000 dólares usando o cartão de crédito teria de pagar 1 702 reais se a fatura vencesse no dia 23 de agosto (a conta já inclui o aumento do imposto que incide sobre o uso do cartão no exterior, anunciado pelo governo há seis meses). Na semana passada, ele seria obrigado a tirar do bolso 1 957 reais. O salto na cotação da moeda americana fez crescer em 13,7 bilhões de reais o endividamento somado de 240 empresas que são negociadas na Bovespa, segundo levantamento da consultaria Economática (esse montante, que não leva em conta eventual proteção contratada pelas companhias contra as variações no câmbio, equivale a 54% do lucro obtido no segundo trimestre deste ano). Até mesmo os exportadores, para quem a desvalorização do real é benéfica - porque seus produtos ficam com preços em dólar mais competitivos e eles embolsam mais reais pela mesma quantidade vendida lá fora -, são prejudicados pela incerteza cambial. O sobe e desce das corações dificulta o planejamento.

O Brasil é um dos países onde o dólar mais ganhou valor (veja o gráfico abaixo), mas o fenômeno é global e está intimamente ligado à percepção de que a crise econômica na Europa e nos Estados Unidos é mais grave do que se imaginava - e a questão é saber quando exatamente ela atingirá seu ápice e quais suas proporções. "Existe um movimento de aversão ao risco, causado especialmente pelo caos na Europa. Fugir de riscos significa sempre comprar dólar", disse a VEJA o economista Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley. As lideranças mundiais, reunidas nos Estados Unidos, afinaram o discurso de que estavam prontas para agir, na esperança de acalmar os investidores. Os mercados fizeram ouvidos de mercador. Há temor de uma "doença japonesa" global - referência ao crescimento nulo e prolongado do Japão na década de 90. Está em curso uma profunda crise de confiança na recuperação econômica, não importa que medidas sejam tomadas. Uma pesquisa do Fórum Econômico Mundial com 1 500 empresários, governantes, dirigentes de instituições e acadêmicos quantificou esse pessimismo: metade dos entrevistados revelou ter pouca confiança tanto na saúde da economia como na capacidade dos líderes mundiais de evitar uma catástrofe nos próximos doze meses. O temor da vez é o de um efeito dominó de calotes de governos europeus, começando pela Grécia, e que isso detone uma onda de quebra de bancos do continente. Mas, há dois meses, a ameaça de não pagar as contas vinha dos Estados Unidos. Tantas incertezas abalam a confiança de quem faz a economia girar. Para o consumidor, a falta de perspectiva no mercado de trabalho o torna o mais conservador possível nos gastos. Para as empresas, não importa que os juros estejam próximos de zero - isso representa custos baixíssimos para tomar crédito e investir -, porque a expectativa de retomada do consumo também é baixa. "O que as pesquisas de confiança sugerem é que as expectativas sobre a economia estão intimamente ligadas às histórias de endividamento excessivo e de perda de responsabilidade de governos e pessoas. E que isso rudo está fora de controle. É o tipo de perda de confiança que pode durar anos", disse o economista Roben Shiller, da Universidade Yale, em artigo sobre a crise.

Para os brasileiros, a valorização do dólar é a face mais visível de uma crise que até dois meses atrás não lhes parecia tão desfavorável. O quadro combinava crescimento anêmico dos países desenvolvidos com expansão ainda vigorosa no Brasil, e isso se traduzia na entrada de recursos estrangeiros, fortalecendo o real e aumentando, portanto, o poder de compra do brasileiro no exterior. Era um cenário traiçoeiro, como agora se percebe. A valorização súbita do dólar pode pressionar ainda mais a inflação, que já está acima da meta oficial. Vai encarecer produtos importados e aumentar os custos da indústria. Outra consequência indesejada do agravamento da crise é a queda nas cotações de matérias-primas negociadas nos mercados internacionais, as commodities, que representam mais de dois terços das exportações brasileiras e dependem da demanda global. O cenário só não é mais preocupante a curto prazo porque a desvalorização do real ajuda o exportador a absorver parte das perdas. O tom da reação das autoridades brasileiras subiu à medida que a crise revelou sua gravidade. Na semana passada, o Banco Central entrou no mercado cambial pela primeira vez em dois anos para vender dólares, com o objetivo de estancar a sua valorização. Especialistas consultados por VEJA (as opiniões deles podem ser conferidos na íntegra na versão para iPad e outros Tablets) acreditam que o real possa recuperar parte de seu valor nos próximos meses. Mas isso não significa que reagir ao vaivém dos mercados represente a melhor estratégia. "O câmbio não pode ser usado para mascarar nossas deficiências internas ou como ajuda definitiva aos exportadores. Momentos como este só reforçam a urgência de reformas que deem competitividade à economia e que já deveriam ter sido adoradas, como simplificar a tributação ou investir mais em infraestrutura", afirma Nathan Blanche, sócio da consultoria Tendências.

Com reportagem de Érico Oyama



Dilma e o fim das pirotecnias

Quando ouviu a pergunta sobre a disparada do dólar em relação ao real no dia em que a cotação saltara para 1,90, a presidente Dilma Rousseff cerrou os olhos e deu um sorriso de desalento. Em seguida, as palavras casaram com a linguagem corporal: "O nosso compromisso é com a estabilidade", disse, em sua entrevista coletiva à imprensa, concedida no 18° andar do hotel Waldorf Astoria. Poderia ter tentado faturar com a dança cambial, dizendo que a alta cotação do dólar beneficia os exportadores brasileiros, mas, em vez de espelhos e fumaça, Dilma preferiu uma avaliação serena e realista. Em sua passagem por Nova York e pela tribuna da ONU, onde foi a primeira mulher a abrir uma Assembleia-Geral, Dilma Rousseff deixou essa marca incomum nos périplos do seu antecessor: nada de pirotecnia ou prepotência. Na entrevista em que fez um balanço de sua viagem, a presidente disse que o Brasil está preparado para ajudar na superação da crise mundial, mas o fez sem arrogância. Disse ela: "Não temos receituário para o mundo. Queremos é participar das soluções". Em cinco dias na cidade, Dilma visitou o Metropolitan Museum e o Museu de Arte Moderna e elogiou a atuação vigilante da imprensa brasileira. Aqui também poderia ter garganteado, mas não o fez. Nessa sua primeira grande e significativa viagem internacional, Dilma preferiu a serenidade à exorbitância de dar lições ao resto do mundo.

André Petry, de Nova York