terça-feira, setembro 20, 2011

EDITORIAL O ESTADÃO - STJ acode o clã Sarney


STJ acode o clã Sarney
EDITORIAL
O Estado de S.Paulo

Quatro anos de trabalho policial acabam de ir para o ralo com a decisão da 6.ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de invalidar as provas colhidas pela Polícia Federal (PF) na investigação sobre os negócios do clã do presidente do Senado, José Sarney. Com base em interceptações telefônicas e no acesso a movimentações financeiras da família, autorizados pela Justiça do Maranhão, a PF abriu cinco inquéritos que resultaram no indiciamento do filho do oligarca, Fernando Sarney, por desvio e lavagem de dinheiro, tráfico de influência e formação de quadrilha. O ponto de partida da inicialmente denominada Operação Boi Barrica e, depois, Faktor, foi a descoberta de um saque de R$ 2 milhões em dinheiro da conta do casal Fernando e Teresa Sarney, às vésperas da eleição de 2006, quando a irmã do empresário, Roseana Sarney concorria (pela terceira vez) ao governo maranhense.

As conversas captadas pelos federais registraram, além de fortes indícios de transações escusas, a desenvoltura com que os Sarneys exerciam a política de patronagem no governo Lula, reproduzindo na esfera federal, com a maior naturalidade, os padrões de controle oligárquico sobre o seu Estado de origem reduzido a capitania hereditária. Em 2009, a pedido de Fernando Sarney, o desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal - e amigo do patriarca Sarney -, proibiu este jornal de continuar divulgando as evidências levantadas pela PF. A aberração da censura prévia imposta ao Estado completa hoje 781 dias. Enquanto essa ilicitude se perpetua, o STJ resolveu considerar que a decisão judicial que permitiu conhecer de perto as traficâncias sarneysistas, mediante quebras de sigilo bancário, fiscal e de dados telefônicos, carecia de fundamentação.

Formalmente, isso não significa o fim da investigação, muito menos equivale a um atestado de inocência dos investigados. Mas a volta à estaca zero, no caso, "abre a porta para a impunidade", como diz o presidente do Sindicato dos Delegados Federais em São Paulo, Amaury Portugal. "A PF respeita as decisões judiciais, mas o trancamento da Boi Barrica é temerário", alerta. O órgão policial sente-se diretamente atingido no cumprimento das suas atribuições, na medida em que a anulação das provas possa sugerir que a PF "forçou a barra" junto ao Judiciário maranhense para obter a prorrogação das interceptações por 18 vezes. "A PF não inventa, ela investiga nos termos da lei e sob severa fiscalização", retruca o diretor de Assuntos Parlamentares da Associação Nacional dos Delegados da PF, Marcos Leôncio Sousa Ribeiro. Ele se refere ao controle do Ministério Público Federal, "fiscal da lei", e do Judiciário, "garantidor de direitos".

Pode-se concordar ou discordar da sua opinião sobre a falta de "interesse em deixar investigar" quando os investigados não são pessoas comuns - como, numa tirada reveladora do quanto mudou o combatente social de outrora, o presidente Lula se referiu ao bom amigo José Sarney. Pode-se também concordar ou discordar da tese de que o Judiciário está "a serviço das elites", o que seria, segundo o delegado, o pano de fundo do ato do STJ. Mas é difícil refutar a sua narrativa do episódio, a partir da referência aos controles que incidem sobre a atuação da PF: "Aí uma Corte superior anula todo um processo público com base em quê? Com base no 'ah, não concordo, a fundamentação do meu colega que decidiu em primeiro grau não é suficiente'. Nessa hora não importa que os fatos sejam públicos e notórios e que nem sequer há necessidade de se ficar buscando uma prova maior".

Não é a primeira vez que o STJ invalida ações da Polícia Federal. Os precedentes mais notórios foram a Operação Satiagraha, que focalizou o banqueiro Daniel Dantas, e a Castelo de Areia, envolvendo diretores da empreiteira Camargo Corrêa. Num caso, o motivo foi a participação, julgada ilegal, de membros da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) nas investigações. No outro, o tribunal entendeu que denúncias anônimas não justificam autorizações para escutas telefônicas. São objeções respeitáveis. Agora, está-se diante de uma interpretação equivocada - ou pior.

ROSELY SAYÃO - Um fato, duas versões


Um fato, duas versões
ROSELY SAYÃO
FOLHA DE SP - 20/09/11

São os pais que não educam ou é a escola que dá chance para os alunos aprenderem o que não deveriam?
UMA DAS coisas que considero mais interessantes na vida é observar como um mesmo fato é capaz de provocar interpretações muito diferentes, opostas até. E meu interesse aumenta quando a situação envolve os mais novos.

Esse fenômeno acontece por um motivo simples, nem sempre reconhecido: os pontos de vista de cada um que olha são bem diversos. Por exemplo: quando é o pai que coloca seu olhar sobre o filho, ele vê algo que pode ser bem diferente do que capta o olhar da mãe, não é verdade?

Pois hoje temos uma prova interessante a esse respeito: duas mensagens comentando a mesma situação, que envolve crianças entre quatro e seis anos, mas com abordagens bem distintas.

Um dos pontos de vista é o de uma mãe e o outro, de uma diretora de escola de educação infantil.

Nossa leitora, mãe de um garoto de cinco anos, escreveu para reclamar da escola onde matriculou seu filho.

Ela diz que, apesar de ser nova na idade, pratica o que chama de "educação à moda antiga" com o filho. Faz o menino respeitar os mais velhos, o ensina a falar sempre "obrigado" e "por favor", não admite palavrão tampouco teimosia exagerada.

Depois de contar tudo isso, a leitora aliviou um pouco: "Sei que ele é uma criança, só exijo dele o que ele pode fazer", explicou.

O problema, segundo essa mãe, é que o garoto tem aprendido a fazer tudo o que ela não quer na escola. Agora, ela enfrenta um filho teimoso, bravo e rápido no palavrão. Nossa leitora acredita que o menino só pode trazer isso da escola, já que, em casa, não tem oportunidade de aprender essas coisas.

Já a diretora da escola reclama da falta de educação das crianças -e responsabiliza os pais por isso.

Ela diz que crianças bem pequenas, desde os três anos, se comportam na escola como adolescentes rebeldes: xingam os colegas, brigam com eles pelos motivos mais banais e resistem muito a obedecer os professores.

Essa outra leitora tem uma convicção: a de que as crianças assim se comportam porque, em casa, os pais pouco ensinam, por terem pouco tempo para estar com os filhos e, consequentemente, não querer desgastar o relacionamento com eles ensinando uma boa convivência, o que, convenhamos, dá muito trabalho.

Quem tem razão nessa história, afinal? São os pais que não educam seus filhos ou é a escola que dá chance para os alunos aprenderem o que não deveriam?

Poderíamos dar a razão a qualquer uma das interpretações. Mas, se considerarmos as crianças, podemos problematizar a situação para os dois pontos de vista.

De largada, vamos ter de admitir que são prerrogativas das crianças a provocação, a transgressão e também o ato de desafiar.

É só por causa disso que elas falam palavrões, mesmo sem entender o significado do que falam.

Mas uma coisa entendem: que fazem algo que provoca o adulto. É também apenas por isso que desobedecem, provocam seus pais e professores e testam mil vezes as imposições e os impedimentos que lhes colocam.

Além disso, precisamos considerar que, no mundo contemporâneo, as crianças não são mais educadas apenas pela família e pela escola. A cidade educa, a mídia educa, a sociedade educa etc.

Pronto: apenas esses dois pontos são suficientes para nos ajudar a entender que, quando uma criança faz algo que não deveria fazer, pode não estar nem na família nem na escola a responsabilidade por esse fato.

Mas de uma responsabilidade essas duas instituições não escapam: a de insistir nas boas lições, cada uma à sua maneira.



ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)

JOSÉ CARLOS TÓRTIMA - Abundantes, não infinitas


Abundantes, não infinitas 
JOSÉ CARLOS TÓRTIMA
O GLOBO - 20/09/11

Na deslumbrada primeira visão da nossa terra, Pero Vaz de Caminha, o empolgado escrivão da frota de Cabral, não conteria a euforia ao anunciar, em sua célebre carta ao rei D. Manuel, que as águas da nova colônia eram não só muitas, mas "infindas". Talvez, no afã de abrandar o, sempre perigoso, desapontamento do soberano, que, indócil, aguardava notícias mais auspiciosas, sobre filões de esmeraldas e veios de ouro, Caminha estivesse a lhe oferecer uma espécie de prêmio de consolação, com as tais águas infinitas. Afinal, inaugurando a tradição nepotista que se incorporaria aos usos políticos do futuro país, o escriba, na mesma epístola, suplicaria ao rei o perdão para o genro, ex-tesoureiro da Corte, degredado por improbidade para a Ilha de São Tomé.

Só não imaginava ele que com sua bela carta de apresentação do Brasil aos nossos ancestrais lusitanos poderia estar lançando as sementes da arraigada e onipresente cultura de esbanjamento do precioso líquido e do mito de sua inesgotabilidade. Cultura esta que até hoje se faz presente nas cenas de desperdício explícito nas cidades e no campo. E também na timidez de políticas públicas direcionadas à preservação das reservas do mineral, tais como a de conservação dos lençóis freáticos, o combate à degradação das florestas, técnicas racionais de irrigação e a busca sistemática de Fontes alternativas de energia limpa, distintas das hidrelétricas, entre outras.

A sensação ainda dominante no espírito da maioria dos brasileiros, pela forma como lidam com a água, é que esta jamais faltará, como se sua demanda tivesse estagnado na época do descobrimento do Brasil. Poucos, pouquíssimos, governantes, parlamentares, ou mesmo cidadãos comuns, se importam com o desperdício de água. Talvez porque medidas que procurem coibi-lo, como a simples proibição da lavagem de calçadas no período de estiagem, não rendam votos. Se você perguntar ao seu vizinho de condomínio o que é a Anac, muito provavelmente ele haverá de responder que se trata da agência reguladora da aviação civil. Mas essa mesma pessoa dificilmente saberá o que significa a sigla ANA (Agência Nacional de Águas), autarquia federal incumbida do gerenciamento dos recursos hídricos.

A precária percepção entre nós sobre a importância do uso racional da água, cuja escassez já desencadeou conflitos armados em outras partes do mundo e tem dado alento a inquietantes teses de internacionalização de regiões com abundância do mineral, é desoladora. A onda ecológica que atravessou o Atlântico para empolgar o discurso politicamente correto em terras brasileiras corre o risco de ficar só no discurso, se não resultar num sério esforço, irmanando governos e sociedade civil, de conscientização sobre o correto e escrupuloso aproveitamento e uso da água. Algo que transmita às pessoas, definitivamente, a ideia de que nossas águas são, por enquanto, abundantes, mas não infinitas, e que sem elas a vida será um inferno.

JOSÉ CARLOS TÓRTIMA é advogado.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA



Louco por você
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 20/09/11

Em novo lance da aproximação com Dilma Rousseff, Geraldo Alckmin abriu tratativas para transformar as instalações do desativado hospital psiquiátrico do Juqueri, em Franco da Rocha, num campus de universidade federal que atenderá as cinco cidades mais pobres do entorno da capital, onde vivem 600 mil pessoas.
A etapa inicial prevê reforma e adaptação do prédio, tombado pelo Condephaat, para abrigar cursos da UFscar. Ontem, o governador tratou do assunto em telefonema ao ministro Fernando Haddad (Educação). Os dois acertaram vistoria conjunta no local, que já acolheu 14 mil pacientes e hoje está sob guarda do Estado.

Bumerangue A ala tucana crítica ao namoro de Alckmin com o governo petista teme que parcerias como a de Franco da Rocha beneficiem eleitoralmente Haddad, que ontem selou o apoio da corrente majoritária do partido à sua candidatura a prefeito. Lula pretende caracterizá-lo como "o ministro que levou os pobres à faculdade".

Dependência Refratária à distensão entre a presidente e o governador, a bancada do PT na Assembleia divulga hoje levantamento da Frente Parlamentar de Enfrentamento ao Crack, segundo o qual só 5% das cidades paulistas recebem recursos estaduais para combater a droga.

Café... No Planalto, forma-se a percepção de que a disputa entre os ministros Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) e Fernando Pimentel (Desenvolvimento) pela localização da futura planta da Foxconn no Brasil tende a se resolver a favor do segundo, com Minas levando a melhor sobre São Paulo. Mas o primeiro ainda luta.

...com leite Chama a atenção do governo federal a ausência da secretária Dorothéa Werneck (Desenvolvimento), pelo lado mineiro, nas negociações para atrair a indústria taiwanesa. Antonio Anastasia (PSDB) optou por escalar outro interlocutor.

Numa nice Segundo relatos de quem a acompanha, Dilma não poderia estar mais satisfeita em NY. "Não votei na senhora, mas estou feliz com seu governo", ouviu a presidente de uma brasileira na rua domingo. Ontem, a petista repetiu a dose de passeio a pé, com direito a muitas fotos ao lado de turistas.

Romântico 1 Em entrevista para o documentário "Os Herdeiros de Vargas", a ser lançado em abril de 2012, José Dirceu conta que nos anos de exílio e clandestinidade tornou-se fã de Roberto Carlos. "Meu grande sonho atual é conhecê-lo pessoalmente", diz o ex-ministro, que lista "Detalhes", "Eu Te Darei o Céu Meu Bem", "Só Vou Gostar de Quem Gosta de Mim" e "Estrada de Santos" como suas canções favoritas.

Romântico 2 Na entrevista, Dirceu manifesta nostalgia dos anos 80: "Havia as festas do PT, muita gente namorou, noivou e casou. Gostaria que o partido voltasse a fazer festas como aquelas".

Tenho dito Na contramão dos que julgam fadado à derrota o projeto para retirar a Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo do gabinete do secretário da Segurança, Campos Machado (PTB), mentor da ideia, sustenta que, "se os deputados comparecerem no dia da votação", o texto será aprovado. A matéria deverá voltar à pauta da Assembleia Legislativa em outubro.

Visita à Folha Fernando Haddad, ministro da Educação, visitou ontem a Folha, a convite do jornal, onde foi recebido em almoço. Estava com Leonardo Barchini, chefe de gabinete, e Nunzio Briguglio, assessor especial.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio

"Se continuar nessa toada, o DEM pode acabar se transformando numa espécie de PSTU da direita: um partido radical, raivoso e praticamente irrelevante."
DO SECRETÁRIO DA CASA CIVIL DE GOIÁS, VILMAR ROCHA (PSD), deputado federal licenciado, sobre a mobilização dos "demos" na tentativa de barrar na Justiça o registro do novo partido de Gilberto Kassab.

contraponto

Faroeste boleiro


Em reunião na Câmara paulistana, o secretário Marcos Cintra (Desenvolvimento Econômico) recorreu a uma parábola para prever que a Fifa escolherá o Itaquerão como estádio de abertura da Copa. Contou que um árbitro, ao constatar que a torcida local estava toda armada, foi acalmado por seu auxiliar, segundo quem as espingardas serviriam só para celebrar as vitórias com tiros para o alto:
-E quando o time da casa perde?
O assistente pensou um pouco e respondeu:
-Ah, isso eu nunca vi acontecer aqui, não..

GOSTOSA


CELSO MING - Operação Twist


Operação Twist
CELSO MING 
O Estado de S.Paulo - 20/09/11

A falta de reação da economia dos Estados Unidos está levando o mercado financeiro internacional a pressionar por novas ações do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). É o que um grande número de analistas internacionais aguarda com ansiedade que seja anunciado amanhã, ao mesmo tempo que o Fed divulgar o resultado de mais uma reunião destinada a reexaminar os juros.

Desde junho, a reivindicação-padrão era a de que o Fed, presidido por Ben Bernanke, voltasse a comprar títulos do Tesouro americano no mercado secundário, dentro do que se convencionou chamar de afrouxamento quantitativo (quantitative easing).

Essa operação consiste em emitir moeda e, com ela, comprar os títulos. O objetivo é injetar dinheiro no mercado para que o crédito se expanda e, com ele, o consumo, a produção e o resto da atividade econômica.

Afora as outras emissões de US$ 1,7 bilhão destinadas a resgatar títulos privados que estavam sem liquidez desde meados de 2008, quando do estouro da crise, o Fed fez duas operações de afrouxamento quantitativo, num total de US$ 900 bilhões. O resultado foi fraco ou, mesmo, inexistente. Em vez de reemprestar ao setor privado, os bancos preferiram depositar os recursos no próprio Fed, porque entenderam que o mercado já estava excessivamente endividado.

Depois de insistirem em novas operações de afrouxamento quantitativo e verem pouca disposição em atendê-los, os analistas querem agora que o Fed coloque em movimento a chamada Operação Twist. O nome vem do primeiro evento no gênero, em 1961, quando o twist era a dança da moda.

Trata-se da troca de títulos de curto prazo em poder do Fed por títulos de longo prazo. Do ponto de vista da autoridade monetária, essa operação traz duas vantagens sobre a anterior. Primeira, não aumenta a carteira de títulos do Fed - ou seja, dispensa emissões adicionais de moeda. Segunda, cria demanda para títulos de longo prazo, na mesma proporção em que haja troca. A consequência esperada é a redução dos juros de longo prazo que, por sua vez, tende a expandir o horizonte para as empresas e, assim, incentivar investimentos. O Fed tem em carteira cerca de US$ 500 bilhões em títulos do Tesouro com vencimento previsto de menos de três anos.

Provavelmente por falta de opções à mão, o mercado financeiro deposita esperanças excessivas nessa operação. Se injeção na veia (o afrouxamento quantitativo) não teve o resultado esperado, não serão esses comprimidos de Novalgina que darão conta do recado.

Não faltam recursos. Ao contrário, nunca se viu tanta liquidez. E, no entanto, nem os bancos se animam a emprestar para seus clientes nem estes se animam a se endividar ainda mais. Somente no setor imobiliário, o setor privado dos Estados Unidos enfrenta dívidas (hipotecas) que ultrapassam os US$ 12 trilhões.

Repetindo o que ficou dito aqui algumas vezes: uma saída seria uma operação que reduzisse em determinado prazo as dívidas dos mutuários, abrindo espaço para novos endividamentos. Aparentemente, o que impede isso é a oposição do Partido Republicano, sempre disposto a explorar o argumento de que é injusto alguns pagarem tudo (os que já saldaram suas dívidas habitacionais) e os folgados serem beneficiados com um perdão que, de resto, tem objetivos eleitorais.

JOSÉ PAULO KUPFER - Guerras comerciais


Guerras comerciais
JOSÉ PAULO KUPFER 
 O Estado de S.Paulo - 20/09/11

A proposta de um "antidumping cambial", que o Brasil promete apresentar na Organização Mundial de Comércio (OMC), não seria mais do que uma ideia ingênua, se fosse para realmente ser tomada a sério. Levar organismos multilaterais, como o FMI, a definir limites de variação cambial para cada país, a partir das quais poderiam ser aplicadas alíquotas adicionais de impostos de importação, não só é tecnicamente inviável como, mais ainda, politicamente impossível. Seria, de certo modo, como estabelecer, em impensáveis termos globais, um regime flexível de bandas cambiais.

Mesmo assim, a demanda brasileira tem o seu valor, como forma dramatizada de expor um problema gravíssimo e recolocar na agenda global a necessidade do combate coordenado à guerra comercial. O impacto destrutivo das guerras comerciais de natureza global é grande demais para ser enfrentado com instrumentos convencionais - os atuais níveis tarifários, cujos limites, em média, equivalem a uma alíquota de 35%, foram definidos num, do ponto de vista econômico, longínquo 1994.

Na longa e variada história das crises econômicas, a saída clássica para a contração que se segue aos excessos de liquidez tem sido a da desvalorização da moeda local, com que se abrem espaços para vender em mercados externos. A lógica que move essa saída é absolutamente singela: enquanto o mercado interno permanecer fechado, o negócio é manter - e até mesmo acelerar - o nível de atividade, o emprego e a renda com produção e venda para mercados externos.

A situação começa a se complicar quando a crise atinge um número maior de países. É fácil entender que a competição - e a tentação em enfraquecer a própria moeda - tende a se acirrar entre as economias em dificuldades. Imagine-se então o que pode ocorrer quando o problema é praticamente global. Com todo mundo querendo vender para todos, logo muitos estarão engalfinhados em guerras comerciais. No vale-tudo que se instala, não só a taxa de câmbio, mas ações de dumping, para alijar concorrentes, se ocultam na proliferação de Cavalos de Troia exportadores.

Nas guerras comerciais, economias de massa, com grande mercado interno e desequilíbrios macroeconômicos ou microeconômicos, são vítimas preferenciais. Desajustes fiscais e monetários tiram eficácia de políticas macro que objetivem impedir valorizações excessivas da moeda local. Insuficiências logísticas, de infraestrutura, tecnológicas/educacionais, potencializadas por cargas tributárias e burocracias disfuncionais, aprofundam as desvantagens competitivas promovidas pela taxa de câmbio adversa.

O Brasil abriu, na semana passada, uma guerra comercial contra veículos importados, atingindo mais diretamente exportadores chineses e coreanos. Pelo menos no caso dos chineses - e não só no setor automobilístico -, são notórias as vantagens competitivas de suas exportações, que vão muito além da taxa de câmbio atrelada às variações do dólar e se sustentam num sistema de produção fortemente subsidiado. A reação brasileira, porém, diante da avalanche de veículos ingressados e, mais do que isso, do dilúvio de licenças de importação solicitadas, mostrou que o governo tem noção do problema, mas não está sabendo como enfrentá-lo.

Difícil encontrar contra-ataque mais ineficaz e sem sentido. Parecendo assustado com o rumo das coisas, o governo adotou medidas improvisadas, que atropelam um programa de política industrial lançado dias antes, e que, além de prejudicar o consumidor, não garantem nem a melhoria da competitividade da indústria já instalada nem atrai os atuais importadores a produzir no País. Em resumo, protecionismo da pior qualidade, na linha do atraso promovido pelas reservas de mercado, que só reafirma a histórica força do lobby das montadoras com fábricas locais.

Nem mesmo uma lambança como essa, contudo, dissolve a certeza de que não se pode ficar de braços cruzados assistindo a banda dos importados passar. Chorar pelo leite derramado das soluções estruturais adiadas não parece ser uma alternativa à emergência da situação. No plano interno, seria o caso, por exemplo, de reforçar os controles antidumping.

Tudo pesado, o governo brasileiro está correto em tentar avançar no debate sobre as regras de comércio num conturbado mundo. Se a missão da OMC é promover um comércio internacional dentro de limites mínimos de concorrência leal, alguma coisa já está demorando para ser feita.

LUIZ FELIPE D"AVILA - Para mudar o Congresso


Para mudar o Congresso
LUIZ FELIPE D"AVILA
O GLOBO - 20/09/11

Não há sistema eleitoral perfeito. Se existisse, todos os paises democráticos teriam adotado as mesmas regras que definem a conversão de votos dos eleitores em representação política de candidatos e partidos. Nem o voto distrital nem o voto proporcional são capazes de eliminar a corrupção, a imoralidade e o desperdício de dinheiro público que se tornaram endêmicos no país. O único antídoto eficaz contra esses males é a criação de instituições democráticas fortes e confiáveis que garantam a liberdade individual e o respeito ao estado direito; o resto são eufemismos para diminuí-los, em nome do "bem comum". Portanto, quando analisamos reforma política, é fundamental compreender se ela fortalece ou enfraquece as instituições democráticas.

A reforma política que tramita na Câmara vislumbra criar um sistema eleitoral inusitado. Trata-se do voto proporcional misto com lista fechada. Em nome do "bem comum", caçariam o nosso direito de escolher os deputados, obrigando-nos a votar apenas no partido. Os candidatos seriam selecionados pela cúpula partidária, o que asseguraria a eleição permanente dos caciques da legenda; eles encabeçariam o topo da lista partidária e teriam cadeira cativa na Câmara. Em nome do "bem comum", seria instituído o financiamento público de campanha. Seremos convocados a pagar todas as campanhas políticas com o dinheiro dos nossos impostos. Renunciaríamos a parte dos recursos que financiam a saúde, a segurança e a educação pública para custear as campanhas políticas. Não seria uma surpresa se criassem mais um imposto - a CPMF das Eleições. Mas os defensores desta proposta alegam que a preservação do "bem comum" requer o sacrifício da liberdade de escolha do eleitor e da utilização dos nossos impostos para criarmos um sistema eleitoral capaz de fortalecer os partidos e de diminuir o peso do poder econômico nas eleições.

Na direção oposta, propomos a substituição do sistema atual pelo voto distrital. No novo sistema, cada Estado seria dividido em distritos com algumas centenas de milhares de eleitores; cada distrito elegeria um único deputado pelo voto majoritário de seus eleitores. Desta forma, o voto distrital prioriza o fortalecimento das instituições democráticas, atacando o problema central que vem corroendo a credibilidade do Poder Legislativo: a falta de responsabilização - accountability - dos nossos deputados. Hoje, apenas 36 dos 513 deputados federais se elegem com voto próprio; a maioria necessita das artimanhas do voto da legenda, das coligações partidárias e das celebridades que "puxam" votos para conquistar uma cadeira no Congresso. O voto distrital acaba com o deputado "genérico" que vaga pelo Estado em busca de votos e que prioriza os interesses corporativistas. Gostaria de ver um parlamentar aumentar o seu próprio salário ou votar o aumento de imposto e voltar ao seu distrito para prestar contas aos seus eleitores. O voto distrital permite ao eleitor cobrar e fiscalizar o seu representante e julgar com mais propriedade o seu desempenho no Congresso. A reeleição do deputado dependerá exclusivamente dos seus feitos; não há coeficiente eleitoral ou legenda partidária que irão livrá-lo da derrota nas urnas se o seu desempenho político for rejeitado pelo eleitor.

Precisamos de uma reforma política que dê mais poder ao eleitor de fiscalizar e cobrar o seu parlamentar e que aumente significativamente a responsabilização individual da atuação do parlamentar. Esta combinação ajudará a resgatar a credibilidade e o prestígio do Legislativo. Hoje, temos um Congresso submisso aos interesses das corporações e distante da população - 70% dos eleitores não se recordam em quem votaram para deputado. O sistema atual colaborou para eliminar o equilíbrio constitucional entre os Três Poderes, criando um Poder Executivo anabolizado e um Legislativo atrofiado. Precisamos de um Congresso forte e independente que represente os interesses dos eleitores e que seja capaz de servir de contrapeso ao Executivo. O voto distrital não é a solução para todos os problemas, mas ele contribuirá para discernirmos melhor entre o joio do trigo no Congresso. Isto não é pouca coisa. O êxito da reforma política depende da pressão e da mobilização da sociedade. Assine e participe do Movimento "Eu Voto Distrital" (www.euvotodistrital.org.br).

LUIZ FELIPE D"AVILA é sociólogo.

RODRIGO CONSTANTINO - Às ruas!


Às ruas! 
RODRIGO CONSTANTINO
O GLOBO - 20/09/11


Milhares de pessoas foram às ruas no feriado de 7 de Setembro protestar contra a corrupção. Ao contrário do que estamos acostumados a ver, não foi um evento com patrocínio de movimentos "sociais" mobilizados pela esquerda; estes aderiram ao constrangedor silêncio de quem parece satisfeito com as gordas verbas estatais. Desta vez, os grupos se organizaram de forma espontânea e apartidária pelas redes sociais. Nas palavras de uma revista, tratou-se do "despertar das consciências".


A iniciativa merece apoio daqueles cansados de tanto descaso no uso do dinheiro público. Bilhões são desviados todo ano, políticos são pegos em flagrante, mas nada acontece. O ex-presidente Lula ajudou muito a criar este clima de anestesia geral, utilizando sua popularidade para proteger aliados corruptos. Parece que as pessoas estão finalmente acordando para o fato de que a letargia de hoje será paga com mais abusos amanhã.


Já era hora de as pessoas honestas, saturadas de tanto abuso dos governantes, partirem para alguma ação efetiva. A pressão popular é uma arma legítima em qualquer democracia. O ideal é que este movimento se mantenha blindado contra o oportunismo político. Desta forma ele ganha mais legitimidade, até porque o combate à corrupção é uma bandeira da sociedade contra o corporativismo político, não contra um partido específico.


A corrupção tem muitas causas, mas creio que duas merecem destaque: impunidade e concentração de poder. Quanto à impunidade, a arma mais eficaz talvez seja justamente a pressão popular, com passeatas de protesto. Lembremos que o "mensalão" ainda nem foi julgado e corre o risco de prescrever. Os brasileiros decentes não podem aceitar tanto escárnio!


Já quanto à concentração de poder, será preciso atuar no campo das ideias, com foco no longo prazo. A mentalidade predominante no país, que desconfia do livre mercado e deposita fé quase religiosa no governo, terá que mudar. Mas isso não ocorre num piscar de olhos. É preciso investir nas ideias, apostar no poder dos bons argumentos. Esta mudança cultural será crucial para a sustentabilidade de um modelo com menos corrupção.


A ONG Transparência Internacional possui um ranking com os países percebidos como menos corruptos por seus cidadãos. Já o The Heritage Foundation publica anualmente o Índice de Liberdade Econômica. Não será surpresa alguma para quem compreende a teoria econômica saber que há enorme correlação entre ambos, ou seja, os países menos corruptos são também os países com maior liberdade econômica. Nada menos que 15 países estão entre os 20 primeiros colocados de ambos indicadores. Já o Brasil está na rabeira dos dois. E ainda culpam os "neoliberais" por nossos males!


Quanto mais recursos da economia forem canalizados para o governo central, maior será a tentação de grandes empresas tentarem capturar tais recursos por meio de propinas. Quando o destino de um setor inteiro depende da poderosa caneta de um burocrata, parece natural supor que o preço desta caneta vai às alturas no mercado negro. Subornar governantes passa a ser bem mais lucrativo do que investir na competitividade.


Milton Friedman destacava quatro formas de se gastar dinheiro. A primeira é quando gastamos nosso dinheiro conosco, com total foco no custo e no benefício. A segunda é gastar nosso dinheiro com terceiros, como na compra de um presente. O benefício já perde alguma importância. Já as duas últimas são as piores: gastar dinheiro dos outros com os outros e com nós mesmos. O famoso "dinheiro da viúva", sem dono e, portanto, sem grandes preocupações com o custo. Estas são as formas estatais de gasto. Alguém ainda fica surpreso com tanto desperdício?


A verdade é que ninguém cuida tão bem de um carro alugado. A tendência natural é cuidar melhor daquilo que nos pertence. Por isso é tão comum o descaso com a coisa pública, especialmente quando tudo importante sobre ela é decidido lá longe, em Brasília. Em nossos condomínios ainda investimos algum tempo, pois sabemos que temos maior poder de influência. Mas com tanto poder concentrado no governo central, quanto vale o meu único voto entre tantos milhões?


Estava mesmo na hora de os brasileiros saírem às ruas contra a impunidade. Talvez seja a melhor medida de curto prazo contra a corrupção. Mas também devemos investir em ideias, para reduzir a concentração de poder no governo central. Governo obeso é um convite à corrupção. Até agora já pagamos este ano mais de R$1 trilhão em impostos, o grosso para o governo federal. Acorda, Brasil!


RODRIGO CONSTANTINO é economista.

MARCIA PELTIER - Procura-se



Procura-se
MARCIA PELTIER
JORNAL DO COMMÉRCIO - 20/09/11

Pesquisa feita pela consultoria Michael Page, uma das maiores empresas de recrutamento especializado de executivos, revela que o Rio de Janeiro sofre com a falta de executivos em finanças e engenharia. Atualmente, cerca de 20% das vagas estão abertas por falta de candidato com o perfil exigido.

Expansão
A Starbucks, maior rede de café dos Estados Unidos, acaba de aprovar um plano de crescimento ousado para o Brasil. Além de abrir unidades em shoppings, a companhia está escolhendo a dedo algumas faculdades particulares espalhadas pelas principais capitais do país para abrir novos endereços. A meta inicial é ter outras cinco lojas até o fim do primeiro semestre de 2012. Segundo um estudo feito pela rede, os jovens estudantes são os principais consumidores de café.

Na programação
Quem vai abrir escritório no país é a rede iraniana Press TV. Apesar de todas as entrevistas serem em inglês, diretores do grupo procuram correspondentes com fluência na língua oficial da emissora, o persa. O escritório deverá ser em São Paulo. Mas montarão uma equipe carioca para a cobertura de eventos internacionais.

Conexão
A partir de novembro, os cariocas poderão acrescentar um novo destino em suas rotas internacionais. É que a TAM começa a operar voos diretos para a Cidade do México com o airbus A330.

Promissor
Dois empreendedores americanos tentam dar novos rumos ao mercado online para bebês, pais e gestantes. A ideia surgiu após Kimball Spencer Thomas, um dos sócios, passar férias no Brasil com sua família. Notou que, além deste tipo de produto ser muito caro nas farmácias e mercados, não era fácil encontrar determinados tamanhos de fraldas e produtos de higiene. O site baby.com.br, que começa a funcionar até o fim deste mês, também irá vender roupas, carrinhos, cadeiras e brinquedos certificados.

Sem filas e trânsito
A sede do grupo Baby.com será em São Paulo e contará com mais de 30 funcionários. A entrega dos produtos na capital paulista será no mesmo dia. "Nas demais localidades, pode variar de 24h a 72h", explica o executivo formando em Havard que estuda uma solução de logística com o sócio, seu primo Davis Marston Smith — fundador da PoolTables.com, empresa de mesas de bilhar que se tornou a maior varejista da América. Os dois empresários resolveram se mudar para o Brasil com suas famílias por acreditarem na necessidade deste tipo de serviço no país.

Carga completa
Quem nunca se deparou com a falta de bateria bem na hora de tirar uma foto? Para ajudar os fãs, a operadora Claro vai instalar dois totens com carregador de celular durante o Rock in Rio. Também haverá locker para os aparelhos serem guardados com segurança.

Esmaltes e lixa
A cantora Rihanna, que está em turnê pelo Brasil, escolheu o Rio de Janeiro para repor as baterias entre um show e outro. Chegou na segunda de manhã no Hotel Fasano, em Ipanema, onde pretende ficar até o almoço desta quarta-feira, quando voa para Brasília para mais uma apresentação. Considerada uma pop star bem tranquila pela produção, o único pedido até o momento foi uma manicure de emergência. Uma de suas unhas quebrou, e ela não conseguia se concentrar em nada.

Sem prazo
As farmácias venceram uma disputa que já durava dois anos. É que o Tribunal de Justiça do Rio declarou inconstitucional a lei que estabelecia prazo entre 45 e 60 minutos para as entregas de medicamentos em domicílio feitas por drogarias.

Livre-Acesso

O Festival de Ideias começa hoje e vai até amanhã na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. O evento, promovido pelo Centro Ruth Cardoso, vai debater assuntos contemporâneos e modernos. Nas mesas redondas, convidados especiais como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-chefe da Mangueira Tuchinha debatem os desafios do mundo atual. A produção já planeja a segunda edição do evento para o ano que vem.

Hoje tem chá com bingo beneficente em favor da ABBR, nos salões do Copacabana Palace. Os ingressos custam R$120 e podem ser comprados na hora. Começa às 15h.

A modelo Fernanda Tavares é presença confirmada na plateia do desfile Noivas Passarelle, promovido pela Beaux, na Barra. Looks e sugestões do estilista Ricardo Almeida serão apresentados em primeira mão.

Com a profissão regulamentada há menos de um mês, a Associação Brasileira de Sommeliers promove concurso cultural entre os profissionais da área. O prêmio inclui passagens para o Festival Sud France.

Com Marcia Bahia, Cristiane Rodrigues, Marcia Arbache e Gabriela Brito

NIZAN GUANAES - Se você conseguir lá...


Se você conseguir lá...
NIZAN GUANAES
FOLHA DE SP - 20/09/11

Como o país não tem cultura de anunciante global, poucas marcas brasileiras são globais


A agência que abri em Nova York, diferentemente do que se poderia normalmente esperar de mim, não é uma agência de publicidade. É uma agência de relações públicas.

Todas as vezes que falo isso, vejo sempre sobrancelhas levantadas. De interrogação, de perplexidade ou de dúvida. Mas tenho certeza absoluta de que é com relações públicas, e não com publicidade, que as empresas brasileiras vão construir suas marcas no mundo. Afinal, não temos dinheiro para construir marcas mundiais pagando os imensos custos de mídia de um mercado global caro, fracionado e complexo.

E não é só isso. Não é só um problema de falta de dinheiro. Não temos cultura de anunciantes globais. O Brasil sempre foi um país fechado e insular. Completamente voltado para dentro. Boa parte de nossas exportações são commodities. Poucas marcas brasileiras são globais. Mas hoje é preciso ser global até para competir no seu próprio país.

As pessoas vão se tratar no hospital Albert Einstein ou no Sírio-Libanês porque têm certeza absoluta de que eles são hospitais de padrão global. Porque, se tivessem alguma dúvida, elas pegariam um avião e iriam se tratar no exterior, como faziam no passado. Portanto, a construção de uma percepção global de sua marca, do que você faz, é também uma iniciativa de proteção do seu mercado interno.

É essa imensa oportunidade, precaução e ferramenta que o Brasil e suas marcas devem explorar. E explorarei na Africa NY. O exemplo mais eloquente disso é o sucesso internacional da marca Havaianas, que não foi construído no exterior com publicidade, mas sim com ações de RP, como sampling, networking.

É difícil, por exemplo, você se hospedar em um bom hotel no Brasil e não ter uma sandália dessas no armário. Esse trabalho de chinês foi feito pelas Havaianas. E, como tudo o que é bom, deve ser seguido por outras indústrias também.

Marcas brasileiras de moda, como Osklen e Lenny, sempre fizeram esse trabalho de RP divinamente. Sabem tudo do assunto. Exatamente porque nunca tiveram grandes verbas publicitárias. Por isso, só tinham como projetar suas marcas no mundo pensando fora da caixa. Fazendo um corpo a corpo agressivo com a imprensa de moda internacional e construindo com ela um intenso relacionamento.

Ninguém da grande imprensa internacional passa por São Paulo e pelo Rio sem jantar na casa da Lenny Niemeyer, do Oskar Metsavaht, do Rogério Fasano ou sem tomar drinques com Monica Mendes e com Paula Bezerra de Mello. Vi a Daslu construir sua marca no mundo com pouquíssima verba e muitíssima imaginação. Justamente porque todos esses aqui citados não tiveram, em geral, um vintém para anunciar. E, portanto, não podiam ficar acomodados, na zona de conforto em que a publicidade acaba aprisionando a gente.

A capacidade de promover meu trabalho e o de meus anunciantes sempre ajudou a mim e a eles. Washington Olivetto foi o primeiro publicitário a ter uma compreensão madura disso.

Antes da palavra "buzz" existir, ele sempre soube fazer "buzz" marketing como ninguém. Algumas das pessoas mais bem-sucedidas do mundo, independentemente de serem gênios no que fazem, são gênios em RP. Como Steve Jobs, Madonna, Lady Gaga, Valentino ou Ralph Lauren.

É com esse olhar que abro minha agência em Nova York. Certo de que é com relações públicas que a pinga brasileira, o pão de queijo, o design, a água de coco, o avião da Embraer, o sabonete de óleo vegetal, as praias do Nordeste ou os arquipélagos do rio Amazonas se tornarão mais conhecidos no mundo.

É munido dessa esperança e dessa audácia que rumo para Nova York, pátria da publicidade e das relações públicas. Porque, afinal, "If you can make it there, you can make it every- where".

GOSTOSA


MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Real sofre mais do que outras moedas similares
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 20/09/11

"O real está se depreciando mais do que as outras moedas de países produtores de commodities", observou Octavio de Barros, diretor de pesquisas e estudos econômicos do Bradesco, ontem, quando o câmbio bateu em R$ 1,80, e fechou em R$ 1,78. "Se dependesse simplesmente da queda no preço das commodities que o Brasil exporta, o real estaria hoje em R$ 1,67", disse.
Para o economista, o real deveria se depreciar tanto quanto as moedas de Austrália, Noruega, Chile, Canada, Nova Zelândia e África do Sul.
"O primeiríssimo candidato a explicar [a desvalorização] é a mudança abrupta na política monetária no último Copom [do BC], gerando forte queda dos juros futuros e a leitura de que seguirão caindo por algumas reuniões."
Além disso, a política econômica lançou mão de instrumentos que estavam "bem fora do radar de quem se habituou com uma convencional administração do tradicional tripé (câmbio flutuante, regime de metas e responsabilidade fiscal)."
"Não só no Brasil, mas em praticamente todo o mundo, a ortodoxia deve ter tirado um período sabático de três anos, pelo menos." Para ele, "a política econômica está de pernas para o ar em todo o mundo gerando reações defensivas por parte dos agentes econômicos que estão líquidos". Analistas e investidores estão sem bússola, acrescentou.
As medidas protecionistas deveriam valorizar o real e uma nova onda de expansão monetária nos Estados Unidos e na Europa também deveria jogar na mesma direção de um real forte.
"Mas o que está falando mais alto é a aversão ao risco", afirmou ele. "Ela é gerada por um cenário europeu ainda imprevisível e incertezas na reação de governos diante de cenários relativamente inéditos", concluiu. "Essa crise é 'café com leite' perto da de 2008."

NOVOS SOTAQUES
A DM9DDB vai expandir suas operações para o Rio de Janeiro e Porto Alegre com a abertura das agências DM9Rio e DM9Sul. Segundo Sergio Valente, presidente da DM9, não se trata de escritórios para atender clientes locais. "É um projeto de expansão de marca. São agências 100% estruturadas, com criação autônoma e que vão trabalhar com a metodologia que fez da DM9 o que ela é hoje", diz Valente.
Agência do Grupo ABC que tem a DDB (grupo Omnicom) como sócia, a DM9 pretende se associar a profissionais locais. "Não vamos comprar agências", diz. "Temos de beber chimarrão e estar totalmente inseridos." A DM9Rio nasce com a conta de Americanas.com, Submarino e Shoptime. A DM9Sul atenderá Vulcabras e marcas como Olympikus, Azaleia, Dijean e Opanka. A DM9 é a oitava maior agência do país e fez 22 anos ontem.

Cresce parcela de cheques devolvidos ante compensados

A parcela de cheques devolvidos em relação aos compensados cresce no Brasil. Entre janeiro e agosto, foram devolvidos 1,94% dos cheques compensados, ante 1,83% em igual período do ano passado, de acordo com a Boa Vista, administradora do SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito). O percentual de agosto deste ano (1,88%) é superior ao mesmo mês do ano passado (1,62). Na comparação com julho, no entanto, apresenta leve queda (1,99%).
As devoluções de pessoas jurídicas cresceram 8,6% no período acumulado em relação ao ano passado. Para as pessoas físicas houve queda de 7,1%.
"Os efeitos recentes da inadimplência trouxeram reflexo ao comportamento dos intermediários financeiros, com maior rigor nas concessões", afirma Flávio Calife, economista da Boa Vista. "Pode gerar impacto sobre o cenário dos cheques e de outras formas de pagamento", afirma.

FUTURO
O HSBC prevê uma inflação maior para 2011 e 2012 do que a pesquisa Focus, feita pelo Banco Central com analistas do mercado financeiro. Enquanto o banco privado espera que o IPCA feche 2011 em 6,50%, a pesquisa prevê 6,46%. Para o próximo ano, os números são 5,70% (HSBC) e 5,50% (Focus).
Tanto a pesquisa quanto o HSBC apontam que a taxa Selic terminará o ano em 11%. Para 2012, o banco prevê uma queda de um ponto percentual. O BC, de apenas 0,25. O HSBC também está mais otimista em relação ao PIB. Acredita em crescimento de 4% em 2012. A pesquisa Focus aponta 3,7%.

Ferro... A queda de 22,8% no faturamento acumulado até julho das empresas de material para saneamento já reflete no emprego, segundo a Asfamas (entidade do setor). Na comparação entre julho deste ano e o mesmo mês de 2010, o faturamento nominal teve leve alta.

...fundido A baixa demanda de obras públicas obrigou o segmento de canalização de ferro fundido, que tem seu principal mercado no setor de saneamento, a reduzir seu efetivo em 10%, diz Carlos Rosito, vice-presidente da entidade.

Cobrança... O uso de correspondências para enviar cobranças a clientes está em queda. Hoje, as empresas do setor mandam 6 milhões de mensagens por celular por mês, enquanto o número de correspondências é de 1,5 milhão.

...rápida Na mesma época no ano passado, de acordo com o Igeoc, entidade que reúne o segmento no país, eram 4 milhões de correspondências por mês e 3 milhões de mensagens por celular.

CONECTADO
A Vivo manteve a liderança em número de usuários de modem para acesso sem fio à internet em julho passado, de acordo com dados da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações).
A companhia tinha 882,1 mil clientes, enquanto a Tim, segunda colocada, apresentava de 877,4 mil usuários. O estudo também inclui terminais para pagamentos eletrônicos via cartão.
Claro e Oi aparecem nas terceira e quarta posições, com 372,7 mil e 106,8 mil clientes, respectivamente. Entre as quatro principais empresas do segmento, a Tim foi a que atraiu mais clientes em julho, 51,1 mil. A Vivo, por sua vez, teve aumento de 35,6 mil clientes.

com JOANA CUNHA, VITOR SION, LUCIANA DYNIEWICZ e MARIANA BARBOSA

MIRIAM LEITÃO - Tarefas inescapáveis


Tarefas inescapáveis
MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 20/09/11

A semana começou com as bolsas caindo na Europa e o dólar subindo no Brasil. Nada de novo no front, exceto a crise mesmo que se repete a cada dia com as suas oscilações. O motivo imediato importa pouco, o mais importante é encarar as tarefas inescapáveis: a Grécia dará o calote, o euro precisa ser reformulado, o mundo terá que encontrar formas de criar emprego.

A impossibilidade de a Grécia sair da crise atual sem um calote é matemática. Aquela dívida não se paga; negocia-se, na melhor das hipóteses. Os números não confortam nenhum outro caminho. A Grécia terá um déficit de pelo menos 7,6% do PIB este ano; tem uma dívida de 155% do PIB; paga juros 26 vezes mais altos que a Alemanha; o seguro contra o calote grego custa 55% do valor da dívida; e o país está em recessão de 7% com taxa de desemprego de 16,3%. Portanto, os credores terão que perder dinheiro e negociar uma saída para o país. O problema é que a Europa não construiu, na sua arquitetura monetária, uma porta de saída.

Ontem, o presidente do Banco Central da Alemanha, e membro do conselho executivo do BCE, Jens Weidmann, disse exatamente isso: que as reformas do euro precisam incluir a possibilidade de um país entrar em moratória e não conseguir cumprir com as exigências. Ele acha que o "pacto de estabilidade e crescimento" precisa ser fortalecido, para que possam ser punidos mais facilmente os países que o descumprirem. Disse que, do jeito que está, quando os estados estão em dificuldades por erros fiscais cometidos eles recebem ajuda da União mas são eles próprios que decidem se cumprem os requisitos ou não. Para ele, nenhum socorro pode ser concedido se as condições para a ajuda não forem cumpridas.

O governo alemão está sentindo a pressão dos eleitores em derrotas regionais sucessivas, que consideram que o governo tem feito excessivamente pelos cidadãos de outros países; ao mesmo tempo, tem sido cobrado por supostamente fazer menos do que o necessário para socorrer os países em dificuldade. De quebra, tem enfrentado a insinuação de que quer, através da moeda comum, ser a dona da Europa. Isso sem falar em brigas internas no governo. O ministro da Economia, Philipp Roesler, afirmou no fim de semana que um calote grego não deveria ser descartado e levou uma bronca pública do ministro das Finanças, Wolfgang Schaeuble, que alegou que ele, Schaeuble, e a chanceler Angela Merkel é que são responsáveis pelos assuntos do euro.

A crise da Europa permanecerá conosco por muito tempo e o que os países precisam saber é como lidar com isso, fazendo a sua política local que reduza os efeitos do impacto.

No Brasil, a lista de tarefas inclui manter a inflação baixa, os gastos públicos sob controle, para que os juros possam ser reduzidos sem impacto inflacionário. O governo tem adiado medidas de ajustes, sob argumento de que em comparação com o mundo estamos bem; e tem recriado políticas de protecionismo explícito. A ideia de adiar o ajuste e fechar o mercado para criar emprego já foi testada aqui no passado e só agravou o problema.

Emprego é um dos desafios atuais, principalmente para os jovens, que sofrem com o desemprego alto no mundo inteiro. No Brasil, está em torno de 14%, num bom momento. A tentação de proteger o mercado nacional para garantir que haja vagas para os trabalhadores de cada país é enorme, mas isso cria mais distorções.

Mas é uma tentação na qual muitos vão cair porque os dados são impressionantes. Na semana passada, a revista "Economist" trouxe como reportagem de capa o tema do desemprego de jovens, que tem sido assunto desta coluna e de notas no blog. A revista inglesa registrou os seguintes dados para o desemprego em geral: 44 milhões são os desempregados do Ocidente, um país do tamanho da Espanha. E por falar nela: a Espanha tem 21% de desemprego, a maior taxa do mundo. Se fossem reunidos numa só cidade, os espanhóis sem trabalho representariam a soma das populações de Madrid e Barcelona. Lá, 46% das pessoas com menos de 25 anos estão desempregadas. Nos Estados Unidos, cuja taxa continua firme em torno de 9%, alta para um mercado de trabalho flexível e dinâmico que reage rapidamente às crises, o total de pessoas procurando emprego é de 14 milhões.

A dor social da crise - e das transformações atuais - se reflete exatamente numa juventude com maior nível de escolaridade mas sem perspectiva de futuro, como a personagem entrevistada pela revista Maria Gil Ulldemolins, que tem um diploma universitário da Inglaterra, está concluindo outro na Espanha, mas afirmou que se qualificou para um mundo que não existe mais. O mundo perdido é o da ideia de que quem estuda muito consegue ter um futuro melhor do que o dos seus pais. É a mola da mobilidade social pela educação. Se isso se quebra, o desalento é assustador.

O futuro esperado que não veio explode hoje em vários lugares. O jovem que se imolou na Tunísia em protesto tinha feito universidade, mas estava sendo achacado por policiais na sua banca de verduras. Se na África isso tem sido, apesar de todos os pesares, uma força renovadora, pode ser a fonte de vários conflitos sociais.

O desemprego de jovens não foi inventado por esta crise, mas num contexto recessivo mundial ele se agrava. Essa é uma das tarefas inescapáveis dos tempos atuais. Talvez a mais crucial.

VINICIUS TORRES FREIRE - Aonde vai andar o dólar


 Aonde vai andar o dólar
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 20/09/11


Não há motivo "de fundo" para mudança duradoura e grande no câmbio, mas vai haver "sustos" com o dólar


EM PRINCÍPIO, não existe motivo maior para o valor do real dar uma corrida nesta ou naquela direção. Ou, como preferimos pensar o câmbio aqui no Brasil, não há motivo para o dólar subir muito e por muito tempo. Dito isso, ressalte-se que, no curto prazo, a taxa de câmbio não tem princípios, ainda mais nesta era de demência financeira.

O dólar pode ir a R$ 2 bem na semana da sua viagem de férias? Pode. E recuar para R$ 1,70 assim que se voltar para o trabalho. Então, o que quer dizer esse "em princípio"? Que o câmbio sofre influência de alguns fatores fundamentais, os quais não mudaram muito recentemente. Tanto não mudaram que os economistas não preveem grande mudança para o dólar no final do ano: algo em torno de R$ 1,70.

Quais são esses fatores mais "fundamentais" do câmbio? O real se valorizava porque temos juros e deficit altos, além de uma economia que cresce mais que a do mundo rico (rende mais). Estava entrando muito dólar aqui. Outros fatores de fundo ajudavam. Temos agora uma economia um pouco mais arrumadinha, que não assusta investidores estrangeiros.

Temos reservas bastantes para compensar fugas súbitas de capital. Temos um deficit externo até contido, estável, e bem financiado. Por esses motivos, Dilma Rousseff chegou a dizer, com certo exagero, que "o Brasil não quebra mais". Enfim, um motivo importante da alta do real foi a abundância de dólares no planeta, derivada da política monetária de juro zero e outras expansões de moeda nos EUA.

Decerto as coisas mudaram, de uns dois meses para cá, no que diz respeito ao mercado local de dólar. No final de julho, o governo completou uma saraivada de intervenções no mercado de câmbio e capital externo. Criou impostos sobre entrada de dólar e interveio no mercado futuro, culminando com um decreto que lhe deu plenos poderes de mudar o funcionamento dos negócios, a qualquer tempo. Isso diminuiu um pouco a quantidade de dinheiro disponível para negócios ("liquidez"), machucou as pernas de alguns investidores e aumentou o que se chama de "risco regulatório" (de mudança de regras, que podem dar em prejuízos).

Além do mais, o Banco Central indicou que vai derrubar os juros, e o fez de modo surpreendente. Ficou menos rentável "especular" com o real, além de mais arriscado. Também aumentou um tanto o risco de piora nas contas externas. Quer dizer, pode haver perda de valor dos bens que exportamos e menos capital para financiar nosso deficit externo, dadas as perspectivas ruins para a economia mundial.

Como cereja ou melancia desse bolo de mal-estares econômicos há, claro, a interminável crise da dívida dos governos da União Europeia. Como já está todo mundo cansado de saber, se a Grécia e/ou vizinhos derem o calote, haverá tumulto muito feio no mundo. A alta explosiva do dólar será o menor dos problemas, apenas sintoma de uma paralisia geral de crédito nos mercados.

A febre recorrente da crise financeira europeia está num de seus picos. O mercado brasileiro está mais arriscado, menos rentável, mais travado, "menos líquido". Num mercado com mais risco e menos negócios, uma movimentação grande pode jogar para lá ou para cá o preço do dólar. O barco vai balançar.

JANIO DE FREITAS - A marcha a ré


A marcha a ré
JANIO DE FREITAS 
FOLHA DE SP - 20/09/11


Ministros têm de justificar de forma mais convincente a alta do imposto cobrado para carros importados Protecionismo ao emprego e ao desenvolvimento tecnológico, como alegado, não é. Os ministros Guido Mantega, Miriam Belchior e outros que se ponham a justificar o acréscimo de imposto cobrado a carros importados têm a obrigação de fazê-lo de modo mais convincente.

Como feito agora, sujeitam o governo a suspeitas de motivações obscuras por conveniência, seja atribuída a relações externas ou a causas não mais citáveis do que aquelas.

Como razão inicial contra a precária justificativa, é de conhecimento geral, e de farta autoglorificação dos governos Lula e Dilma Rousseff, o crescimento admirável, nos últimos anos, da produção e venda de automóveis saídos de montadoras instaladas no Brasil.

O que se deu em paralelo ao crescimento da importação e do êxito comercial de automóveis estrangeiros.

Nas montadoras internas houve aumento do emprego. A importação também abriu empregos. Não surgiu indicação recente de tendência em sentido oposto.

Muito ao contrário, montadoras como a chinesa JAC e a japonesa Nissan, maior produtora e vendedora de carros do mundo, estão com projetos de instalar-se em São Paulo e no Rio para produção tão ou mais abrasileirada do que as já existentes. Mais empregos e mais atividade econômica, portanto.

O desenvolvimento tecnológico brasileiro em indústria automotiva é balela.

A tecnologia provém toda das matrizes, quando muito havendo, por aqui, uma ou outra adaptação que não merece o atributo de criação tecnológica. Por sinal, não consta que alguma delas seja para dar ao carro melhoria verdadeira.

Ao inverso do que sugerem as pobres justificativas de ministros para os novos impostos, a importação de modelos novos foi que forçou as montadoras aqui instaladas a tornar menos desatualizada a sua oferta aos consumidores brasileiros, como foi a tática adotada na maior parte da existência de "produção brasileira".

Também os números que estão nos computadores dos ministros Mantega, Belchior e outros lhes negam o necessário socorro.

Por eles se constata que, neste ano até agosto, as importações de apenas dois fornecedores de automóveis importados estão em equilíbrio, nos valores financeiros, com a soma de todos os demais.

O Brasil importou de Argentina e México o total de US$ 3,784 bilhões. De Coreia do Sul, Japão, Alemanha, Estados Unidos e todos os outros, importou US$ 3,568 bilhões.

Mas as importações feitas à Argentina e ao México, protegidas por acordos com o Brasil, não estão sujeitas à nova carga de impostos. A Argentina é o maior fornecedor e o México, o terceiro, ultrapassado pela Coreia do Sul que é, à primeira vista, a maior prejudicada pela sobretaxação.

Pressões internas contra a concorrência sujeita à imposição de aumentar os seus preços?

Pressão externa contra sul-coreanos e também, em futuro insinuado, japoneses e sobretudo chineses? Ou terceira e mais hipóteses, todas resultando na recusa à ligeira e não demonstrada justificativa do governo.

FERNANDO DE BARROS E SILVA - Justiça com a barrica


Justiça com a barrica
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SP - 20/09/11

SÃO PAULO - Não há o menor risco de que uma figura influente ou endinheirada seja condenada por crime de corrupção pela Justiça brasileira. Se esse medalhão for um político, tipo peixe graúdo, aí então a disposição do Judiciário para absolvê-lo será ampla, geral e irrestrita.

O aparato legal do país opera de maneira seletiva e distorcida: provê justiça de menos para o conjunto da sociedade, sobretudo para os mais pobres, e zela demais pela impunidade de quem está por cima da carne seca. Exagero retórico?

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) acaba de anular as provas colhidas pela Polícia Federal durante a Operação Boi Barrica, que investiga atividades suspeitas do empresário Fernando Sarney, filho do próprio.

É um repeteco do que o mesmo STJ já havia feito meses atrás, quando anulou as provas obtidas pela PF na Operação Castelo de Areia, investigação que envolvia a empreiteira Camargo Corrêa e dúzias de políticos.

Nos dois casos, os ministros do STJ consideraram que as escutas telefônicas -sempre autorizadas pela Justiça- não estavam suficientemente embasadas e, com isso, jogaram no lixo (ou varreram para debaixo do tapete) toda a sujeira revelada a partir delas. Não é trivial.

Em relação a Sarney, a investigação começou quando se detectou um saque em espécie no valor de R$ 2 milhões à véspera da campanha eleitoral de 2006. Roseana, sua irmã, era candidata. Depois disso, o empresário foi indiciado sob acusação de tráfico de influência, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Na prática, nada disso vale mais.

Não se trata de passar um cheque em branco à PF nem de desconhecer que ela comete, sim, abusos e também deve ser criticada por isso. Mas quem exorbita nesse episódio escandaloso? É a polícia? Ou é um Judiciário que afaga descaradamente investigados que possuem poder político ou econômico? Tem boi nessa linha. Ou melhor: tem barrica à mostra sob o manto da legalidade.

CLAUDIO HUMBERTO

“Não mexa com Dilma”
CAPA DA REVISTA AMERICANA NEWSWEEK, SOBRE O TEMPERAMENTO DA PRESIDENTE DO BRASIL

CRIMES NA CIDADE DO RIO JÁ SUPERAM A BAIXADA 
O assassinato do arquiteto Romulo Castro Tavares, na zona sul do Rio, trouxe à tona uma realidade que as autoridades na cidade escondem. A capital supera a Baixada Fluminense, com fama de violência, em número de latrocínio (roubo seguido de morte). Pelos dados oficiais da Secretaria de Segurança, de janeiro a junho deste ano foram 24 casos na capital contra nove registrados nas doze cidades da Baixada.

NA PONTA 
No primeiro semestre de 2010, o Rio também liderou. Foram 36 casos de latrocínio contra treze na Baixada. Isso, os que foram registrados...

PIOR AINDA 
Os números são alarmantes também para tentativas de homicídio. A capital registrou 620 casos até junho. A Baixada, 472 tentativas.

CRIMES NÃO CONTADOS 
Os números da criminalidade na cidade do Rio poderiam ser piores. Não entram nas estatísticas as vítimas dos bueiros explosivos.

VIVA JUCA 
O genial Juca Chávez fará o show de inauguração amanhã dos teatros Brasil 21, em Brasília, a convite do empresário Arnaldo Cunha Campos.

AMAZÔNIA QUER O SEU PRIMEIRO MINISTRO NO TCU 
Até governadores estão na disputa pela vaga no Tribunal de Contas da União. Para enfrentar o eventual favoritismo de Aldo Rebelo (PCdoB), o governador Omar Aziz está engajado no esforço de Átila Lins (PMDB), auditor de carreira, para se converter no primeiro representante da Amazônia no TCU. Eduardo Campos (PSB), de Pernambuco, já com três ministros na corte, pede votos para a mãe, Ana Arraes (PSB-PE).

CREDICONTA 
Os atendentes do Mastercard enforcam sábado e domingo: finda a gravação eletrônica, só musiquinha e cobrança da ligação, claro. 

LEMBRETE 
A prefeitura do Rio deu R$ 1 milhão para a o show de Luan Santana no Maracanãzinho. Já para os postos de saúde da cidade...

DESGOVERNADO 
A Nasa alerta que satélite de seis toneladas cairá em algum lugar da Terra, na sexta (23), quando é geral a debandada no Congresso.

LOROTA EM LISBOA 
Em jantar de negócios em Lisboa com Miguel Relvas, homem forte do governo português, o ex-presidente Lula exagerou nos agrados. Disse que Pelé lhe confidenciou que o lusitano Eusébio seria melhor e mais completo que ele. O jantar, dia 8, foi no restaurante Horta dos Brunos.

TOCA DO COELHO 
O presidente em exercício Michel Temer deve ter jantado ontem no Planalto ou não tirou o olho do relógio: sua agenda, às 17h, registrava seis encontros, um de-
les com o ministro do Turismo, o Gastão. 

ESQUEÇA O QUE EU DISSE 
Apesar de anunciá-los, Dilma evitará em seu discurso, na ONU, os temas Parceria para Governo Aberto (OGP, em inglês), que lidera com Barack Obama, objetivando transparência nas ações de governos e o combate à corrupção, e o apoio do Brasil à criação do Estado palestino. 

CALÇADA DA FAMA 
Passeata contra o governo é de graça; a favor, não. A Caixa “patrocinou” com R$ 400 mil a “Marcha das Margaridas”, movimento chapa branca de mulheres camponesas, apoiada pela CUT. 

ZEN NOÇÃO 
Nem monge budista entende: para não melindrar a China, maior parceiro comercial, o governo Dilma não recebeu o Dalai Lama, mas lascou depois um baita imposto sobre carros importados... da China. 

RODA E AVISA 
Nem metrô, nem bicicleta: a Presidência da República vai gastar R$ 7,7 milhões no aluguel de carros com motorista para os diligentes “cumpanheros” alçados à condição de chefetes. Nós pagamos a conta.

VOLTA À LIDA 
Após quarentena, o ex-ministro da Defesa Nelson Jobim 
retorna à advocacia em seu escritório, do qual fazem parte jovens talentos como Rodrigo de Oliveira Kaufmann.

SÓ PARA VIP 
Após presentear com R$ 2 milhões o “Athina Onassis Horse Show”, onde pobre não passou nem perto da baia, o governo do Rio de Janeiro quer agradar ainda mais a elite: trazer o ATP de Tênis.

PENSANDO BEM... 
...mudemos a Constituição: todos são Sarney até prova em contrário. 

PODER SEM PUDOR
SEM INTIMIDADES 
No final de 1964, o então coronel que mais tarde seria o célebre brigadeiro João Paulo Burnier, assumiu o comando da Base Aérea de Santa Cruz. Chefe rigoroso, era muito temido por todos. Certa vez, numa sexta-feira, ligou para o Oficial de Dia, tenente Tomaz:
– Tenente, soube que amanhã haverá seção de cinema na Base.
Qual será o filme?
O tenente, nervoso, respondeu com a voz trêmula:
– “Eu, Você e o Destino”.
O comandante Burnier não entendeu direito:
– O quê?
Para evitar intimidades, o tenente se apressou em corrigir:
– O filme é “Eu, o Senhor e o Destino”...

TERÇA NOS JORNAIS


Globo: Bolsa Família agora por 5 filhos desde a gravidez

Folha: Montadoras dizem que preço de carro pode subir

Estadão: Real perde 11 % em 30 dias e dólar chega perto de R$ 1,80

Valor: Crise estanca captações e IPOs

Estado de Minas: Planos de saúde na uti e o sofrimento é nosso

Zero Hora: Soldados abrem caminho para acordo com Piratini

segunda-feira, setembro 19, 2011

É preciso preencher a cabeça deles - REVISTA VEJA


É preciso preencher a cabeça deles
REVISTA VEJA


O Enem mostra que os brasileiros concluem a escola com deficiências básicas – o que lhes subtrai a chance de competir em igualdade de condições com jovens de todo o mundo

Quando o prêmio Nobel de Física Richard Feynman (19181988) esteve no Brasil, nos anos 50, ficou assombrado com o que viu. Ao tomar contato com estudantes às vésperas do vestibular, espantaram-no tanto o pendor local pela decoreba de fórmulas como a completa ignorância sobre seu significado. Anos mais tarde, registraria em seus escritos aquilo que entendeu como um paradoxo brasileiro: entre os estudantes do mundo inteiro, os jovens que conheceu nos trópicos eram os que mais se debruçavam sobre a física e os que menos sabiam sobre a matéria. À medida que o ensino médio foi se expandindo no país - em seis décadas, o porcentual de jovens matriculados passou de 3% para os atuais 51 % -, a desvantagem escolar observada por Feynman só se agravou. As aulas são rasas, desinteressantes, incapazes de preparar os estudantes do século XXI para disputar espaço em um mercado de trabalho global, no qual a capacidade de inovar é cada vez mais valiosa. Alerta o sociólogo Simon Schwanzman:

"Se não começar a desatar os nós do ensino médio, o Brasil vai ficar para trás".

O recém-divulgado Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), prova aplicada pelo Ministério da Educação a 3,2 milhões de estudantes do país inteiro, dá a dimensão exata do abismo a vencer. É um espanto. Dos 23900 colégios públicos e particulares submetidos ao teste, não mais que 1.500 ou 6% da amostra - têm nível semelhante ao das escolas de países da OCDE (organização que reúne os mais ricos). O Enem trata de desmistificar uma ilusão que muitos pais cultivam ao matricular seus filhos em uma instituição privada - a de que eles ganharão um passaporte para o sucesso na vida adulta. Pois mesmo muitas das escolas que têm renome, prédios vistosos e mensalidades altas não resistem à comparação com suas congêneres estrangeiras: 80% oferecem na sala de aula qualidade equivalente à das escolas apenas medianas do mundo desenvolvido. Pasmem: na faixa dos 15 anos, estudantes demonstram dificuldade de resolver operações simples de matemática. como frações e porcentagens e de compreender textos curtos.

Várias razões explicam o cenário de terra devastada - a começar pelo despreparo dos professores. A maioria deles desembarca na sala de aula sem nenhuma estratégia para despertar o interesse de jovens inseridos em um mundo no qual o saber enciclópédico deixou de fazer sentido diante da internet. Na verdade, as deficiências de nossos mestres começam no nível mais básico. Os egressos das faculdades de pedagogia e das licenciaturas sabem pouco, ou nada, de didática, já que 80% do que aprenderam foram teorias obsoletas permeadas de bordões ideológicos. Às vésperas de formar-se pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Liliane Maria dos Santos, de 27 anos, dá o retrato acabado desse equívoco:

"Eu e meus colegas não estamos preparados para enfrentar a vida real na escola". Sobre o ensino médio pesa ainda um déficit de 40 000 professores, principalmente de matemática, química e física, segundo o MEC. São vagas preenchidas com gente de outras especialidades ou que nem mesmo chegou à faculdade. A escassez de cérebros para o ensino atinge escolas públicas e particulares." É raridade encontrar um professor realmente bom", diz o diretor Adilson Garcia, do Colégio Vértice, em São Paulo, o terceiro colocado no ranking nacional do Enem.

O ensino médio brasileiro se apoia em uma equação que não tem como dar certo: em nenhum outro lugar do mundo se despeja tanto conteúdo na lousa em tão pouco tempo. No afã de suprir todas as demandas do vestibular e agora as do Enem - hoje passaporte de entrada para 167 universidades públicas e mais de 500 particulares -, o currículo só cresce, amontoando temas que mobilizam apenas os estudantes brasileiros. Para se ter uma ideia, o número de tópicos apresentados ao aluno nas aulas de matemática chega a ser dez vezes o que aprende um típico estudante de Singapura (com o detalhe de que nós estamos na rabeira e eles, no topo). A velha cultura corporativista também tem sua parcela no inchaço do currículo. Ele vai inflando à medida que grupos com interesses próprios lutam pela inclusão de mais e mais disciplinas. Ocorreu recentemente com filosofia e sociologia, hoje obrigatórias, e periga se repetir com esperamo e linguagem de sinais, que figuram entre os oitenta projetos do gênero que aguardam votação no Congresso Nacional. "O ensino médio é um verdadeiro massacre de matérias dadas de forma muito superficial", diz a estudante carioca Julia Pimentel, de 16 anos.

Espreme-se tudo isso em uma jornada escolar de quatro horas - quando não menos. Pesquisadores que acompanharam o dia a dia de dezoito escolas públicas durante quase um ano chegaram a uma conclusão estarrecedora: mesmo entre as melhores, o tempo líquido em sala de aula não passava de duas horas e treze minutos, contados no relógio. O desperdício se deve ao absenteísmo dos mestres, às greves e à indisciplina - esta um mal também muito disseminado em colégios particulares, que, em geral, não sabem lidar com o problema. "Ver alunos e professores concentrados na sala de aula é coisa rara", resume Wanda Engel, superintendente do Instituto Unibanco e coordenadora do estudo, feito em parceria com o Ibope. Para efeito de comparação, nos países de melhor ensino os jovens passam, em média, seis horas na escola, às vezes até oito.

Os problemas do ensino médio começam a ser gestados bem antes, no nível fundamental. "Os alunos brasileiros acumulam deficiências tão graves que, ao chegar à etapa seguinte, ficam boiando na aula". diz a doutora em educação Maria Inês Fini. A metade dos 3,6 milhões que chegam a essa etapa acaba debandando dos bancos escolares antes do fim do ciclo - um funil que não condiz com uma economia que demanda cada vez mais gente bem formada. O fracasso do ensino médio torna necessária uma reflexão sobre o modelo brasileiro - único no mundo. Enquanto em países da OCDE os jovens podem escolher entre uma gama de escolas e disciplinas, no Brasil o sistema é igual para todos, maçante e enciclopédico, à revelia das diferenças de interesses e expectativas de cada um . Não custa trazer à realidade brasileira as palavras do filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592), que se preocupava com o ensino nas escolas de seu tempo. No período final da Renascença, ele dizia: "Uma cabeça benfeíta vale mais do que uma cabeça cheia".