quinta-feira, setembro 15, 2011

PATRÍCIA MARRONE - Da faxina ao mutirão


Da faxina ao mutirão
PATRÍCIA MARRONE
 O Estado de S.Paulo - 15/09/11

Mergulhados numa crise econômico-financeira de enorme dimensão, os EUA e importantes países da Europa têm lições para a classe política brasileira e, principalmente, para o partido da presidente Dilma.

A crise nos EUA é fruto não só de políticas fiscais pouco responsáveis, mas da falta de capacidade de Democratas e Republicanos em chegarem a um acordo sobre como cortar gastos. Nos países desenvolvidos do Ocidente, a falta de convergência política, e não o desconhecimento das questões econômicas essenciais, tem feito com que as decisões sobre onde e como cortar direitos sociais e aumentar impostos se tornem cada vez mais difíceis, tanto para partidos como para a sociedade. E a imobilização decorrente desses impasses tem enfraquecido progressivamente as economias e a capacidade de gerar empregos.

A limitação operacional dos instrumentos de política econômica expansionista, somada a indispensáveis ajustes fiscais, reprimirá as compras desses governos e do setor privado, reduzindo o ritmo de crescimento de países e gerando repercussões globais.

No Brasil, as medidas recentes de combate à corrupção e de contenção de excessos adotadas pela presidente Dilma foram sinais positivos, mas insuficientes para lidar com o prolongado período de fraco crescimento econômico mundial, acirramento da concorrência internacional e instabilidade nas moedas, que continuaremos a vivenciar. Por isso, a essas medidas deveriam se somar a aceleração na velocidade de reformas estruturais que contribuam para aliviar as contas públicas e que ajudem o setor privado a sustentar o nível de emprego, com apoio no mercado doméstico, mesmo num ambiente de contração econômica global prolongada.

Para ajudar a aliviar as contas públicas, teríamos de acelerar a reforma da Previdência Social, que hoje alcança 25 milhões de aposentados e pensionistas. Ainda que o período de transição para a sua implementação seja de 20 anos a 25 anos, teríamos no horizonte perspectivas de reduções no déficit de R$ 40 bilhões anuais. A convergência política em apoio à aprovação pelo Congresso da criação de um fundo de previdência complementar para o servidor público - que afeta outros 950 mil servidores, só na esfera da União - será crucial, nas próximas semanas, para estancar mais um ralo de R$ 57 bilhões anuais nas contas públicas federais, mesmo que seus efeitos também só ocorram em 30 anos.

As reformas estruturais voltadas para desfazer alguns dos nós que amarram o setor privado, como a inflexível legislação trabalhista e a enorme carga tributaria, se somariam. Vale lembrar que reformas que simplifiquem procedimentos tributários e reduzam os custos dos negócios também trariam crescimento de arrecadação. Prova disso foi o reforço do caixa do governo dado pelo aumento da contribuição sobre a folha de salários e sobre a renda das pessoas físicas gerado pelo crescimento de 18% na formalização do emprego, em larga medida decorrente da aprovação do Supersimples, em vigor desde julho de 2007.

Mas será que nossos políticos conseguem enxergar o contexto de fragilidades econômicas e institucionais em que nos inserimos? Será que conseguiriam mostrar maturidade e se mobilizar em torno de aprovar reformas fundamentais?

Na semana passada, os temas tratados no 4.º Congresso Nacional do PT mostraram que suas preocupações são: o financiamento do partido, a censura à imprensa e o abafar da corrupção no governo. A impressão que trouxe à sociedade é de uma forte acomodação no poder e a pura preocupação de nele se manter. Nem de longe houve discussões sobre como atacar politicamente os problemas acima apontados, aproveitando a longa permanência neste poder; nem sobre como buscar, com os sindicatos de trabalhadores, o apoio para a aprovação de reformas e ser lembrado na história por tê-las implementado! Nenhum ensinamento está sendo extraído da dolorosa experiência a que assistimos os países desenvolvidos passar.

ECONOMISTA (USP). COORDENA O DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DE ENTIDADES DE CLASSE PATRONAIS E É SÓCIA DA CONSULTORIA WEBSETORIAL

ÓS FUROS


MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO



Empresa projeta alocar R$ 6 bi em parque eólico no Maranhão
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 15/09/11

A empresa Bioenergy está com projeto de R$ 6 bilhões para construir 50 parques eólicos no Maranhão. A implantação deles, no entanto, ainda depende dos leilões do governo federal.
Em um leilão que deve ocorrer em dezembro, a companhia pretende entrar com 20 projetos para o Estado, no total de R$ 2 bilhões. Os outros 30 parques ficarão para o período de 2013 a 2015.
Antes, a empresa planejava instalar alguns deles no Rio Grande do Norte. "Mas os ventos no Maranhão também são favoráveis. Além disso, o Rio Grande do Norte está com muitos parques em instalação e tem problemas com linhas de transmissão", diz o presidente da empresa, Sérgio Marques.
As linhas não são suficientes para escoar toda a produção. O RN tem hoje quatro parques prontos e 12 em construção. Desse total, dois concluídos e cinco em obras são da Bioenergy.
O presidente da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica), Ricardo Simões, diz que outras empresas estudam construir suas usinas no Maranhão.
"O vento de lá atrai. As empresas passaram a pesquisar áreas menos óbvias [para produzir energia] e, hoje, a expectativa do mercado para a região é muito grande."
Atualmente, não há parques em construção nem em operação no Maranhão.
Minas Gerais e São Paulo também são Estados que vêm sendo observados pelos empresários, segundo Simões. Além da Bahia, que tem oito em construção e "terá um crescimento assustador".

FRANQUIA PROFISSIONAL
O setor de franquias, que muitas vezes se origina de empresas familiares, começa a ganhar características de profissionalização.
Mais de 30% dos executivos responsáveis têm pós-graduação ou MBA, alguns no exterior, segundo estudo da consultoria Vecchi Ancona. O número é alto, em um contexto em que muitas redes surgiram de negócios próprios de comércio, sem obrigatoriedade de alta formação.
Outro sinal da profissionalização é o alto número de sócios (46,3%) que já receberam contato para vender a marca.
"Nos anos 1990, não existia a percepção de que uma rede poderia ser criada para ser vendida depois. Era para ficar para os filhos", diz Ana Vecchi, sócia da consultoria.
Novato no mundo de fusões e aquisições, o setor ainda enfrenta o "conflito de ego" de ser vendido a um concorrente. "Alguns empresários são sondados e não vendem, como se fosse ofensa."

MÃO ITALIANA
A grife centenária de móveis italianos Giorgetti chega hoje ao Brasil.
Os preços variam de R$ 5 mil, uma cadeira, a uma mesa de R$ 90 mil. Cerca de 30% da fabricação ainda é feita à mão em Meda, a 40 minutos de Milão.
A marca faz coleção anual de mobiliário para uma casa, menos o de cozinha e armários. Cada peça sai da fábrica com um certificado de fabricação e vistoria.
"O estilo é puro Giorgetti", brinca. "Moderno, sem ser minimalista", diz Carlo Giorgetti, CEO da empresa e membro da terceira geração da família do fundador.
"Nunca seguimos moda para que o produto não tenha vida curta. Mas design, qualidade e conforto, sim", afirma o empresário.
"A cadeira vermelha, por exemplo [na foto ao lado; a partir de R$ 20 mil], levou anos para ser desenhada", lembra ele.
"Até que tive a ideia definitiva ao ver uma bela mulher de corpete: a cadeira, de aço flexível, adapta-se ao corpo de quem se senta e depois volta à posição inicial."
Cerca de 20 modelos da marca serão distribuídos no Brasil pela Collectania.

Resistência O mercado de fusões e aquisições no Brasil teve 64 transações anunciadas em agosto, segundo a PwC. O volume está equilibrado com o mesmo período de 2010 (67). "Mesmo nos últimos meses de crise internacional, o Brasil tem se mantido em volume e valor, enquanto as fusões e aquisições no mundo caíram bastante", diz Alexandre Pierantoni, sócio da PwC.

SANTA PREVIDÊNCIA
Igreja também busca produto de previdência. O plano de benefícios Messius, que tem mais de 500 participantes e a Igreja Messiânica Mundial do Brasil como patrocinadora, passa a ser administrado pela BB Previdência.
Com o acordo, o primeiro do tipo com uma entidade religiosa, a companhia captará mais de R$ 50 milhões.
O grupo religioso também tem empresa de jardinagem e fundação educacional.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

MIRIAM LEITÃO - Agenda cheia


Agenda cheia
 MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 15/09/11

Até o fim de setembro tem muito dia em vermelho no calendário econômico mundial. Hoje o programa de ajuste grego começa a ser avaliado. Dia 21 tem reunião do Fed. Nos dias 23 e 24 o FMI e o Banco Mundial fazem a reunião anual. No dia 29 o Parlamento alemão vai aprovar - ou não - a ampliação do Fundo Europeu de Estabilização. Por isso o mercado continuará na gangorra.

O dólar no Brasil subiu 8,2% em 14 dias. Era isso que os ministérios da área econômica queriam e o Banco Central alertava que poderia acontecer. Os ministérios do Desenvolvimento e da Fazenda torciam para que o dólar invertesse a curva. O Banco Central alertou várias vezes e tomou decisões preventivas para evitar o excessivo endividamento em dólar, exatamente porque em momento de crise o câmbio pode se inverter, como já ocorreu no passado.

Mesmo sendo desejado e previsto, quando o dólar começou a subir voltou a preocupação com o efeito inflacionário. No governo o que se diz é que hoje os canais de transmissão da alta do dólar são menores do que já foram. Apesar de o Brasil estar mais integrado ao mundo, é uma economia maior, mais capaz de absorver a mudança na cotação. Pelo sim, pelo não, o Banco Central ontem não comprou dólares no fim do dia pela primeira vez desde dezembro de 2010.

Para o economista Luiz Roberto Cunha o efeito pode ser menor do que já foi no passado, mas diz que o País terá mais uma pressão. "Perde-se a válvula de escape e agora tudo pressiona a inflação, mas o impacto mais imediato é em bens de consumo duráveis que estão num contexto industrial mais fraco com a desaceleração do crédito. A dúvida é se continuará subindo quando o BC anuncia que está entrando no ano US$ 70 bilhões de investimento externo. A alta do dólar continua dependendo da situação externa", analisou.

A situação no mundo continuará incerta por mais algum tempo. Este mês será ainda de expectativas e sobressaltos. O programa grego está sendo avaliado pelo trio que está no comando do problema europeu: FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia. Eles vão analisar se a Grécia está fazendo esforço dentro do combinado de ajuste das contas públicas e podem concluir que mesmo se esforçando a Grécia não consegue atingir os objetivos pela queda do crescimento econômico. Vão também ver se houver a adesão de 90% dos bancos privados na parcela que cabe a eles de renegociação da dívida. Ontem, esse porcentual ainda estava em torno de 75%. Ou seja, as três instituições terão que dizer que passo será dado.

Na reunião do Fed a grande questão é se o banco central americano vai fazer a terceira injeção de liquidez ou se tomará outra medida. A avaliação feita no Brasil é que talvez o Fed procure outro caminho, como o de comprar mais títulos de longo prazo para forçar a curva de juros mais para baixo.

Isso quer dizer que através dessa medida de política monetária a instituição confirmaria o que tem falado: de manter os juros em quase zero até 2013. Mas esse é um dos últimos cartuchos que tem a autoridade monetária americana para tentar elevar um pouco o ritmo da atividade econômica do país. O resto é torcer para que o pacote pró-emprego do presidente Barack Obama seja aprovado, o que é muito incerto.

Na Europa, ontem os dois maiores líderes, Angela Merkel e Nicolas Sarcozy, elevaram o tom das declarações em favor da ajuda à Grécia. O melhor cenário - mas ainda bem difícil de ser atingido - é de aprofundar o federalismo fiscal da região. O que significa aumentar a união e estabelecer parâmetros de controle das contas públicas que todos os países se comprometeriam a cumprir. Mas esse é o segundo passo.

O primeiro seria aprovar o Fundo de Estabilização de 440 bilhões de euros em todos os parlamentos. O mais importante teste será dia 29, em Berlim. A dúvida é: e se tudo der certo, e o Fundo for aprovado, ele será suficiente para evitar a propagação em contágio da crise da dívida? Por isso o Brasil tem de estar preparado. O governo tem instrumentos na mão para usar em caso de algum pânico que ocorra no mercado por algum agravamento repentino. O Banco Central tem reservas, empréstimo compulsório para liberar, formas de aumentar a liquidez na economia. Ajudaria mais se o governo estivesse fazendo o que promete em termos fiscais.

Enquanto o mundo oscila nessa corda bamba, o Brasil está com o seu velho problema inflacionário. Hoje mesmo quem tem uma visão mais otimista, como Luiz Roberto Cunha, que ainda acha possível que a inflação feche o ano sem estourar o teto da meta - isso significa cair de 7,3% atuais para 6,5% no fim do ano - está elevando as previsões para 2012. Apesar do agravamento da situação externa as commodities continuam com preço alto, principalmente as agrícolas.

Até o fim do mês a agenda do mundo está lotada vivendo de notícia em notícia. Ontem o dia começou mal pelo rebaixamento dos bancos franceses, melhorou com a declaração de Merkel-Sarkozy e teve esperança quando o primeiro-ministro Wen Jiabao avisou que pode ajudar no socorro à Europa.

Mas pediu contrapartida: o reconhecimento de que a China é uma economia de mercado. A China não dá ponto sem nó.

ANCELMO GOIS - CALMA, GENTE


CALMA, GENTE 
ANCELMO GOIS
O GLOBO - 15/09/11

Dilma, quem sabe, vai ter que apartar briga em sua estada em Nova York semana que vem. Além dela e de Obama, ficarão hospedados no Hotel Waldorf Astoria os presidentes do Irã (Mahmoud Ahmadinejad) e do Afeganistão (Hamid Karzai).

CUPIDO 
Ronaldo Fenômeno trabalha para que Neymar aceite a proposta do Real Madrid.

CRIME SEM CASTIGO 
Edmundo, o Animal, já pode dormir tranquilo.
É que o STF decidiu ontem pela extinção da pena do ex-jogador, condenado por homicídio culposo e lesão corporal. Em 1995, o carro que Edmundo dirigia, na Lagoa, bateu, matando três pessoas e ferindo outras três.

MAGOOU 
Em entrevista à revista Poder, João Havelange, 95 anos, revela sua mágoa com Dilma. É que o Itamaraty pediu de volta o passaporte diplomático que o ex-presidente da Fifa usava:
– Eu merecia isso? É isso que me dói, este é o meu País.

FIM DO MUNDO 
O jornalão Le Monde publicou estudo que mostra que, desde 1995, os salários dos professores franceses estão caindo.
Deve ser terrível viver num país que não valoriza o mestre.

LEI EMIR SADER 
O sociólogo Emir Sader defende que todo partido que tenha um ministro derrubado por corrupção perca aquela vaga, sem poder indicar o sucessor.

ALIÁS... 
A ideia não é ruim.
Veja o caso de Pedro Novais. Ele foi indicado para o cargo pelo PMDB/Sarney mesmo não sendo do ramo turístico, e depois de ter sido revelado que pagou uma festa num motel com o meu, o seu, o nosso dinheiro.

QUE DIA É HOJE? 
Em Algum Lugar do Paraíso é o título do próximo livro de Luis Fernando Verissimo, que a Objetiva lança em novembro. 
Para o mestre, feliz foi Adão, que, sozinho no paraíso, era um homem sem datas. A festa acabou, lembra Verissimo, com a chegada de Eva, que, na ânsia de puxar assunto, disparou: “Que dia é hoje?”.

LEI CIRO DE OLIVEIRA 
A 13ª Câmara Cível do TJ-RJ decidiu que Sandra Maria vai indenizar Ciro de Oliveira, seu ex-companheiro, em R$ 30 mil.
As filhas de criação do casal disseram que foram coagidas por Sandra a mentir na polícia e acusar Ciro de tentativa de estupro e ameaça de morte.

GISELE É VERDE 
Gisele Bündchen será a estrela de um desfile na Quinta da Boa Vista que faz parte da Green Nation Fest, um festival de cinema ambiental promovido pela RioTur, a partir de 28 de outubro.

QUADRAS ESPORTIVAS 
Dilma anuncia hoje a criação de quadras esportivas e creches para municípios que tenham entre 50 e 70 mil habitantes.

NO MAIS 
Hoje completam-se três anos da quebra do Lehman Brothers, que empurrou o mundo para uma crise financeira sem fim. Até agora, os bancos se salvaram. Já os países, nem tanto.

GOSTOSA


LUIZ FERNANDO VERISSIMO - A Velha Guerra

A Velha Guerra
LUIZ FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 15/09/11

Goethe teve um romance passageiro com a Revolução Francesa, que liberou mais demônios do que ele estava disposto a aceitar. Vem daí sua famosa declaração de que preferia a injustiça à desordem. Goya foi um entusiasta de primeira hora de Napoleão, mas horrorizou-se com as atrocidades da guerra na Espanha, que retratou com ácido e asco na sua série de gravuras Desastres de la Guerra. Acabou desencantado também.
Mas o desencanto de Goethe e Goya não é o mesmo dos que lamentaram o fim da velha ordem, para os quais a Revolução Francesa significou não a derrota do despotismo e da injustiça, mas um crime contra a natureza do homem. Confundir ordem e normalidade com seus próprios privilégios é um velho hábito de castas dominantes. Na literatura da contrarrevolução, tão vasta e influente quanto a literatura da revolução, o que aconteceu na França dos Bourbons foi uma segunda Queda do Homem, uma segunda perda do Paraíso. Só quem tinha vivido antes da revolução – outra frase famosa – conhecia as delícias da vida. Delícias que incluíam não apenas os privilégios do absolutismo, mas do mundo como ele devia ser, com todas as suas injustiças naturais.
A Revolução Russa também provocou dois tipos de reação, a do desencanto com seus excessos e descaminhos depois da empolgação inicial, como o de Goethe e Goya com a Revolução Francesa, e a dos que a condenaram desde o princípio como antinatural. E também provocou dois tipos de literatura. Se todos os que acham que liberdade, fraternidade e igualdade é um slogan ainda aproveitável são filhos da antiga retórica da revolução, os reacionários de hoje são filhos da antiga retórica da restauração, mesmo que o vocabulário tenha mudado. Para estes, o fracasso do comunismo soviético na prática representou o fim do ideal iluminista e a recuperação do homem natural.
A celebração do “bom senso” neoliberal contra a “falácia da compaixão”, como a descreveu alguém, significa mais um triunfo reacionário na velha guerra. E estamos de volta ao delicioso paraíso do egoísmo sem culpa e das injustiças naturais sem remédio.

MARIA CLARA R. M. DO PRADO - Querem enquadrar os culpados!

Querem enquadrar os culpados!
MARIA CLARA R. M. DO PRADO
VALOR ECONÕMICO - 15/09/11

Quanto mais se agrava a situação econômico-financeira dos países mais desenvolvidos, assim chamados até aqui, menos clareza parece haver na percepção dos analistas de mercado quanto às mudanças de rumo e de prumo que têm tomado forma nos últimos três anos. A rigor, no 3º aniversário, completado hoje, da quebra formal do Lehman Brothers, predomina entre os porta-vozes do mercado financeiro a mesma postura de superioridade que ao longo dos anos dourados do crescimento mundial influenciou formadores de opinião, o mundo acadêmico e a política econômica do governo. A impressão que se tem, pelo menos por aqui, é a de que a ficha não caiu!

No entanto, o quadro é outro. São absolutamente vãs as tentativas no sentido de "enquadrar a crise". Assim como são vãs, além de fundamentalmente equivocadas, as análises que teimam em ler os dados conjunturais de hoje com os mesmos olhos que guiaram opiniões e comentários no passado recente. Fizeram sentido até a "explosão" do sistema financeiro nos Estados Unidos, em 2008. Ocorre que a crise pegou no fundo justamente do segmento que mais evidência teve no cenário econômico e financeiro nos anos 90 e em boa parte da década passada. Junto, foram afetados princípios, crenças, dogmas e comportamentos. Mas nem todos se aperceberam disso, por inércia ou por omissão.

Em rápidas pinceladas, é possível resumir a profundidade das mudanças. O gráfico da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), dá uma boa ideia do tamanho de parte do pepino ao revelar a evolução em dez anos da dívida soberana de importantes países da Europa, além dos Estados Unidos. Com exceção apenas do Japão, cujas complicações se arrastam desde meados dos anos 90, os débitos acumulados são tão pesados que passaram a contaminar a eficácia da política fiscal daqueles países além de contaminar a administração da política monetária. No caso dos Estados Unidos, é notório que toda a expansão da dívida promovida nos últimos três anos não foi suficiente para colocar a economia de volta nos trilhos. Do mesmo modo, não resultou em sucesso a grandiosa emissão monetária realizada no mesmo período.

Diante do quadro, Ben Bernanke, presidente do Fed (o banco central dos Estados Unidos), ferrenho defensor do regime de meta de inflação enquanto acadêmico e que abandonou suas crenças, clama pela flexibilidade no gerenciamento da moeda. No tradicional simpósio de Jackson Hole, promovido todos os anos pelo Banco Central da cidade de Kansas, no final de agosto, Bernanke foi claro: "o duplo mandato da política monetária deve responder às mudanças da economia e, em particular, ao panorama do crescimento e da inflação". O Fed, como se sabe, tomou recentemente a decisão inédita de acenar com a perspectiva de mantar a mesma baixa taxa de juros até meados de 2013. Na verdade, mira o crescimento e não a inflação.

Na Europa, o BCE (Banco Central Europeu) jogou para o espaço a sua referência maior na execução da política de administração da moeda, que preconiza o controle dos agregados monetários para manter a inflação estabilizada. Depois de praticar nos últimos anos uma política monetária tradicional, perseguindo ferrenhamente a queda da inflação com juros que enxugassem a liquidez do mercado, o BCE mudou totalmente de rumo quando passou a adquirir toneladas de títulos da dívida soberana dos países do euro que perderam a confiança do mercado. Nada mais faz o BCE, assim como nada mais fez o Fed quando se entupiu de papéis dos bancos que socorreu, do que subjugar-se às ingerências políticas dos países aos quais está atrelado.

Sacrifica-se a independência dos bancos centrais, tão cara ao dogmático padrão de conduta monetária da era de abundância dos PIBs e do encolhimento dos índices de preços, em nome do emprego e da prosperidade que se esvaiu. Venceu o pragmatismo político sobre a autonomia monetária, mesmo sem segurança de acerto e a despeito do risco que representa para o balanço dos bancos centrais o carregamento de dívidas cujos valores se degradam dia após dia no mercado!

No Brasil, a hegemonia do mercado financeiro parece ainda não ter sofrido abalos. Haja vista a reação convicta e estridente à decisão do Copom de reduzir os juros em 0,5 ponto de percentual, ao trazer a taxa para 12% ao ano. Clamou-se a favor do respeito à doutrina que rege o sistema de meta de inflação. Que sistema de metas? Qual a ótica? Ou seja, o BC não teria o direito de deixar o mercado no escuro, sem sinalizar com todas as pistas para onde caminha a condução da política monetária. Leia-se, taxa Selic. A crise, que crise? Para os que ficaram chupando o dedo, o BC precisaria ser enquadrado, assim como a crise.

Ninguém tem condições de antever agora o tamanho da encrenca que se prenuncia. Nem o BC, nem o mercado. Mas não pode haver dúvidas de que é séria a crise e que a economia brasileira sofrerá se o mundo encolher ainda mais!

Maria Clara R. M. do Prado, jornalista, é sócia diretora da Cin - Comunicação Inteligente e autora do livro "A Real História do Real".

CELSO MING - Dos Brics para os Piigs



Dos Brics para os Piigs
CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 15/09/11

Depois que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, confirmou a disposição dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) de contribuir para a salvação da área do euro, a imprensa internacional passou a lidar com a notícia como se fosse algo a ser levado a sério.

Mas, ontem, a presidente Dilma Rousseff se encarregou de colocar um mínimo de racionalidade nesse assunto: "O problema da Europa não é de falta de recursos; é de falta de decisão política".

O despejo de recursos, seja lá de qual fonte for, seria um jeito de ganhar tempo, não de resolver o problema. O Brasil e os demais detentores da sigla Brics podem até mesmo colocar algum dinheiro em títulos soberanos da zona do euro, mas isso deve ser entendido como prática de diversificação de reservas, não como operação de salvamento do cordão de endividados do bloco.

A China, por exemplo, por meio de seu primeiro-ministro, Wen Jiabao, deu ontem a entender que pode investir parte de suas reservas em títulos europeus, desde que a União Europeia a reconheça como economia de mercado. Na última terça-feira, uma autoridade de Moscou avisou que pode estudar o assunto, mas que não tem por que o fazer no âmbito do Brics. E do governo da Índia não se sabe o que pensa sobre o tema.

Alguns governos da área do euro não sabem nem sequer se vão completar sua parte nos adiantamentos destinados à Grécia. A Finlândia, por exemplo, está pedindo garantias. E os alemães querem mais firmeza na condução das reformas e nos compromissos com estabilidade orçamentária por parte do governo grego. Se suas cotas forem inteiramente subscritas, o tal Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF, na sigla em inglês) deve chegar a ter 750 bilhões de euros, uma ninharia para o atendimento das necessidades dos chamados Piigs (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha). Só a Itália tem uma dívida de 1,9 trilhão de euros. A instituição dos eurobônus, uma dívida partilhada solidariamente entre os sócios do euro, até agora foi sumariamente rejeitada pelo governo da Alemanha.

O Banco Central Europeu (BCE) vem atuando como bombeiro. Desde maio de 2010, adquiriu 143 bilhões em títulos desvalorizados no mercado e poderia operar como tomador de última instância. Mas o núcleo duro do euro (especialmente Alemanha, Holanda, Áustria e Finlândia) rejeita essa função heterodoxa do BCE, porque, argumenta, implicaria o financiamento pelo BCE a tesouros relapsos.

Os dirigentes da União Europeia não conseguem chegar nem mesmo a um acordo sobre a necessidade de capitalizar seus bancos. Na última segunda-feira, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, desautorizou um documento do Fundo que advertia para a necessidade de injetar mais 200 bilhões de euros no capital dos bancos. E, no entanto, qualquer um sabe que os títulos dos Piigs estão desvalorizados em cerca de 50%, o que deixa o patrimônio dos credores (bancos) especialmente vulneráveis, necessitados de mais capital.

Se é assim e se falta vontade política por parte dos próprios interessados, por que os tesouros dos países emergentes terão agora de comparecer para fazer o serviço que nem eles mesmos sabem se querem?


CONFIRA

Aí você tem, mês a mês, o comportamento do emprego formal (com Carteira de Trabalho assinada) no Brasil desde fevereiro deste ano.

Não é bem assim

No relatório Perspectivas da Economia Mundial, ontem divulgado, o FMI derrubou um dos pressupostos do Banco Central do Brasil sobre a evolução da inflação. Lá ficou dito que os preços das commodities (especialmente alimentos e petróleo) deverão seguir voláteis e em alta. Ou seja, ao contrário da aposta feita pelo Copom, a economia mundial está trabalhando contra a baixa da inflação.

COMEDORES DE DINHEIRO


ERNESTO LOZARDO - O Brasil será maior

O Brasil será maior
ERNESTO LOZARDO
VALOR ECONÔMICO - 15/09/11

Há uma tácita ironia na história do desenvolvimento econômico brasileiro. O chamado milagre econômico no início da década de 1970 foi arquitetado na década anterior por meio do Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG), em 1964. No cerne da sua estratégia de crescimento, o PAEG carregava as sementes da inserção do País no capitalismo global. Esse plano veio a ser, em grande parte, copiado pelos governos desenvolvimentistas da Coreia do Sul. O sucesso do planejamento econômico desse país contagiou os demais da região asiática, conhecidos como os Novos Países Industrializados (NICs). No Brasil, os governos militares optaram pelo capitalismo estatal em vez do capitalismo competitivo global. Assim, enterraram tanto o PAEG como todos os demais planos plurianuais de desenvolvimento.

Por conta disso, após a década de 1970, o Brasil perdeu a capacidade de planejamento e viveu no inferno fiscal e na superinflação por mais de duas décadas. Optou pelo endividamento público interno e externo, empobreceu a população, deu o calote nos credores externos e transformou-se em uma economia de crises, cujos resultados foram idênticos aos dos atuais países menos desenvolvidos da região da União Monetária Europeia, que vivem no inferno do euro.

Após quatro décadas, ironicamente, o Brasil está seguindo os fundamentos dos NICs. A nova política industrial está propiciando a criação de um ambiente inovador, ou seja, não basta crescer, importa a aceleração do crescimento.

Esta nova política industrial, intitulada Plano Brasil Maior, difere das anteriores por ser leve, ágil e objetiva no tocante aos estímulos à escala de produção dentro de um escopo competitivo das empresas brasileiras e conforme os limites do meio ambiente. Nesse sentido, é imprescindível que haja empresas nacionais de grande porte. Sem grandes empresas, o País não tem como sustentar a competitividade industrial e, muito menos, tornar o setor mais robusto tanto na escala como na capacidade competitiva inovadora e inserida na economia global. São as grandes empresas que arrastam as de médio porte para a competitividade. A política industrial vigente objetiva estimular a competitividade global das empresas de alta tecnologia (softwares, bens de capital, caminhões e veículos leves) para que elas se tornem capazes de atrair recursos físicos, humanos e financeiros e de adquirir conhecimento sobre processos de produção e tecnologias internacionais. O Brasil Maior protege e cria condições para a ascensão competitiva dos setores mais expostos à concorrência global.

Nos tempos atuais da globalização, o papel do Estado é vital na formulação e na implementação de estratégias de competitividade industrial. A política industrial do governo Dilma Rousseff é uma estratégia de curto prazo. Trata-se de um primeiro movimento na remoção e na correção de obstáculos estruturais: eliminaram-se encargos fiscais sobre a folha de pagamento de empresas potencialmente competitivas no mercado global; deram-se estímulos ao desenvolvimento tecnológico e à organização empresarial, à capacidade concorrencial e ao fortalecimento da escala de produção competitiva global.

Essa política está sendo implantada de forma adaptativa, como ocorreu nos NICs, pois nenhum planejamento estratégico industrial tem, na sua largada, todos os detalhes alinhados. O que importa é o direcionamento estratégico. Nesse sentido, o olhar da política industrial está mais direcionado para os riscos da competitividade da indústria em face da concorrência global do que atender às demandas do mercado nacional.

As grandes diretrizes da política industrial consistem na eliminação da alíquota dos 20% de INSS sobre a folha de pagamento das indústrias intensivas no emprego da mão de obra, como as de calçados, confecção, móveis e softwares. A recomposição dessa desoneração dar-se-á por meio de uma alíquota que poderá variar de 2,5% a 1,5% sobre o faturamento, mas poderá ser menor para alguns setores em que a alíquota não representar uma redução efetiva de custo, como o de confecção e têxtil. Essa desoneração valerá até o próximo ano, quando uma reavaliação for feita no tocante aos resultados obtidos quanto ao faturamento e emprego. Se houver uma perda de arrecadação para o INSS, o Tesouro arcará com a diferença. Isso faz sentido, pois não se podem criar condições de competitividade aos empresários e aumentar o rombo na conta da previdência.

O importante nesse plano é o papel desenvolvimentista do BNDES. Há inúmeras linhas de crédito ao setor industrial, como a prorrogação dos recursos do Plano de Sustentação do Investimento, no montante de R$ 75 bilhões, até o final do próximo ano. Vários programas de capital de giro e de modernização patrocinados tanto pelo BNDES como pelo Banco do Brasil foram revogados por mais um período. Trata-se de um plano tático para a inserção competitiva dos setores industriais mais vulneráveis à concorrência global. A soma de todos os benefícios direcionados a esses setores para os próximos dois anos, como a desoneração da folha, isenção de PIS/Cofins, recursos para o Progeren, Revitaliza, devolução de crédito aos exportadores, Proex, Reintegro e tantos outros, atinge cerca de 6% do PIB. Nada desprezível para um país emergente. Sugiro que, de forma critica, devemos apoiar o Plano Brasil Maior, mesmo porque, não há nenhum projeto alternativo que venha aprimorar a competitividade da industrial nacional.

Mesmo assim, ainda falta muito para a economia brasileira tornar-se um clone dos NICs. É pequena a oferta de recursos de poupança nacional para financiar a demanda de investimentos do setor privado; a infraestrutura é precária e insuficiente; os níveis de escolaridade são baixíssimos; o despreparo da mão de obra põe em risco as metas da política industrial; e o conteúdo do currículo do ensino profissionalizante, médio e superior deveria estar sintonizado com os objetivos da política de desenvolvimento industrial do país

À medida que a política industrial se aprofundar no desenvolvimento global competitivo, com melhor distribuição da renda, eliminação da pobreza e elevar a competência do ensino público, maior serão as chances de se tornar um país grandioso e próspero para todos. O desafio de um Brasil maior não é somente do governo, mas de todos.

Ernesto Lozardo é professor de Economia da EAESP/FGV e autor do livro "Globalização: a certeza imprevisível das nações"

ROBERTO MACEDO - Taxa de juros, inflação, incertezas e o mercado


Taxa de juros, inflação, incertezas e o mercado
ROBERTO MACEDO 
 O Estado de S.Paulo - 15/09/11

A recente decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), que reduziu a taxa básica de juros, ou Selic, de 12,5% para 12% ao ano, causou grande surpresa no mercado financeiro, pois a grande maioria dos seus analistas previa que a taxa não seria alterada. Conforme se diz nesse mercado, eles estavam ancorados nessa previsão de estabilidade.

Isso se evidenciou, por exemplo, em reportagem do jornal Valor publicada na edição do fim de semana anterior à data da reunião. Ouvidos 33 analistas, a matéria concluiu que a estabilidade da Selic era a opinião unânime. Além disso, só três esperavam queda da Selic ainda em 2011 e apenas 13, uma taxa menor até o fim de 2012. Os demais previam a estabilidade da taxa até o fim do ano que vem!

Acertar previsões é muito importante para analistas e instituições a que servem. Entre outros aspectos, orientam decisões quanto à alocação de recursos entre diferentes aplicações, bem como a remuneração oferecida a depositantes. Sei de instituições em que parte da remuneração de seus analistas está ligada ao acerto de previsões, o qual também tem efeito no prestígio que sustenta carreiras profissionais. Compreende-se, assim, parte das frustrações após a decisão do Copom.

Por essa e outras razões, a redução da Selic foi bastante criticada no mercado financeiro. Entre outros aspectos, as críticas apontaram que o Copom alterou sua forma de decidir, passando de aumento a redução da Selic sem uma pausa intermediária, assim afetando sua previsibilidade; que a independência do BC foi violada (às vezes ela é um eufemismo para uma desejada dependência do mercado); que a decisão teria sido política (caso em que o BC seria dependente do governo que integra); e que o Copom assumiu também a missão de defender o nível de atividade da economia, quando deveria cuidar apenas da inflação.

Há muita espuma nesse chope em que se afogaram frustrações e outras reações quanto à decisão. Em particular, analistas ignoraram uma lição fundamental dos cursos de estatística pelos quais devem ter passado. Previsões envolvem, em geral, um elemento de incerteza e, assim, devem incluir uma avaliação probabilística. O que fizeram foi atribuir 100% de certeza à estabilidade da taxa, denotando excesso de confiança, que não se coaduna com a frieza analítica que procuram cultivar.

Note-se que o mês de agosto marcou mais uma etapa da crise econômica mundial, com destaque para agravados problemas na área do euro, juntamente com mais notícias ruins sobre os EUA. Nesse mês, os EUA chegaram ao clímax daquele enorme problema de aumentar o teto de sua dívida - que o mercado viu como mal resolvido -, e que também levou à redução da nota do país na avaliação de seu status como devedor, por uma agência do ramo. Tudo isso turvou ainda mais o cenário econômico, reforçou as previsões de menor crescimento lá fora e aqui e levantou até o temor de uma nova recessão mundial. E, vale lembrar, o nível de atividade atua sobre a inflação, que tende a cair com o arrefecimento dele, sendo assim muito relevante para as decisões do Copom quanto à taxa Selic.

Ora, na esteira da recessão de 2008-2009 o BC foi muito criticado pela sua demora em reduzir a Selic, o que deve ter ficado na cabeça dos membros do Copom e seus sucessores. Assim, sem discutir se certo ou errado, também era possível que na reunião o Copom optasse logo por uma redução da Selic, mesmo sendo mais provável - mas, vale repetir, não garantidamente certo - que viesse a decidir pela estabilidade dessa taxa. E não estou argumentando só a posteriori, pois antes da decisão levantei a hipótese de redução em texto escrito para uma instituição financeira.

A avaliação de probabilidades é a tecnologia para trabalhar em condições de incerteza, de modo a levar a previsões mais robustas, mas sempre sujeitas a erros. E, ainda, para não pôr a cabeça a prêmio, se turvada pela confiança excessiva em acertos de previsão.

O Copom faz previsões, e se mostra também muito convicto de que está no caminho certo, embora nas suas atas faça referências à incerteza. Elas costumam apresentar previsões da inflação futura, que há tempos a revelam em 2011 sempre acima do centro da meta de 4,5% no ano, juntamente com dados recentes que a mostram superando até o teto dessa meta, de 6,5% ao ano. Tampouco as previsões do Copom dão maior segurança quanto ao sucesso de suas ações em 2012, outra razão sendo que estimativas de prazo mais longo têm menores chances de se materializar, dada a maior incerteza que envolvem.

Desta vez, a ata veio com uma novidade na previsão, em econometrês: "Um modelo de equilíbrio geral dinâmico estocástico de médio porte admite que a atual deterioração (...) internacional cause um impacto sobre a economia brasileira equivalente a um quarto do impacto (...) durante (...) 2008/2009 (...). Nesse cenário (...), a atividade (...) doméstica desacelera e, apesar de (...) depreciação da taxa de câmbio e de (...) redução da taxa básica de juros (...), a (...) inflação se posiciona em patamar inferior ao que seria observado (se) não (...) considerado o (...) efeito da crise internacional".

O Copom também prevê que neste terceiro trimestre se encerra o ciclo de aumento da inflação acumulada em 12 meses e confia numa tendência declinante a partir do próximo. Também admite que o governo que integra vai colaborar no combate à inflação contendo gastos, embora o tímido ajuste fiscal se limite a gastar menos de uma receita que continua aumentando.

Quem de fora do governo contempla toda essa aposta, refletindo sobre os fundamentos dela para suas decisões, não pode ignorar as incertezas que a cercam, nem deixar de ter um plano B caso venha a se frustrar, o que faltou a quem apostou num só resultado para a última reunião do Copom.

EDITORIAL - FOLHA DE SP - Turismo para quê?

Turismo para quê?
EDITORIAL 
FOLHA DE SP - 15/09/11

Queda do 5º ministro em menos de 9 meses questiona a qualidade das escolhas presidenciais e a necessidade de 38 ministérios em Brasília

Com a queda do ministro Pedro Novais, do Turismo, são cinco os auxiliares do primeiro escalão do governo Dilma Rousseff a perder o cargo em menos de nove meses. É uma marca incômoda.

Por um lado, pode sugerir uma atitude menos conivente e permissiva diante dos escândalos por parte da presidente, sobretudo na comparação com a gestão anterior. Mas indica, também, que as escolhas de Dilma ficaram distantes das expectativas que ela própria fixou em público antes de assumir: "Vou exigir competência técnica, desempenho, um histórico de pessoas que não tenham problemas de nenhuma ordem".

Pedro Novais é o caso típico de ministro que não atende a nenhuma dessas qualidades que a presidente elencou. Além dele, outros três ministros não resistiram ao escrutínio público: Antonio Palocci (PT) na Casa Civil, Alfredo Nascimento (PR) nos Transportes e Wagner Rossi (PMDB) na Agricultura. Nelson Jobim (PMDB), da Defesa, saiu porque criticou e constrangeu o governo em público.

Para o cidadão, não faz muita diferença se Dilma escolheu, ela própria, seus ministros ou se eles lhe foram impingidos pelas circunstâncias da sua eleição, apadrinhada por Luiz Inácio Lula da Silva e patrocinada por um ônibus lotado de fisiologismo.

Pedro Novais, lembre-se, não deveria ter assumido o cargo. Dias antes da posse, descobriu-se que ele havia pago com verba de seu gabinete uma noitada num motel de São Luís, no Maranhão.

Reportagens desta Folha mostraram nos últimos dias que o uso indevido do dinheiro público estava longe de ser circunstancial na sua carreira. Durante sete anos, a empregada de seu apartamento em Brasília recebeu salário da Câmara, como secretária parlamentar. Além disso, outro funcionário da Câmara, contratado pelo gabinete de Francisco Escórcio (PMDB-MA), amigo de Novais, trabalhava na realidade como motorista particular da mulher do ex-ministro. São exemplos de almanaque da cultura patrimonialista.

Além dessas miudezas, que precisam ser punidas com rigor, deve-se considerar que este é um governo com número excessivo de ministérios -38 no total.

O Turismo, por exemplo, não tem função estratégica nem é considerado pelo governo nos preparativos para a Copa e a Olimpíada. Do Orçamento da pasta neste ano, de R$ 3,7 bilhões, sobraram menos de R$ 600 milhões -o restante foi bloqueado pelo Executivo.

É um ministério que parece existir apenas para acolher aliados sem nenhum compromisso público, abrigar emendas parlamentares, patrocinar convênios fajutos e dar vazão ao varejo da fisiologia. O país sairia ganhando se essa estrutura fosse extinta.

CLAUDIO HUMBERTO


“Eu fui presidente e sei que é assim”
JOSÉ SARNEY, PARA QUEM DILMA É A ÚNICA RESPONSÁVEL PELA DEMISSÃO DE PEDRO NOVAIS

PORTOS: ANTAQ PASSA INFORMAÇÃO FALSA AO TCU 
Na defesa extremada da privatização branca dos portos, atendendo a interesses poderosos como os da empreiteira Odebrecht, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários distorceu os fatos em ofício ao Tribunal de Contas da União: afirmou que o governo anterior “privatizou o setor” e que o governo atual teria de respeitar isso. Lorota. O governo privatista de FHC até estimulou investimentos privados no setor portuário, mas manteve a exploração portuária como serviço público.

LICITAÇÃO OBRIGATÓRIA 
O setor portuário tem tratamento idêntico ao ferroviário: delegação da exploração à iniciativa privada por concessão de serviço público.

OLHA A TURMA 
A Antaq ainda é feudo da turma do deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP) que a presidente Dilma “faxinou” na área de Transportes.

OS AFILHADOS 
Tiago Pereira (Antaq) e Amary Pires, do Fundo de Marinha Mercante, são afilhados de Costa Neto, um réu da comissão de ética da Câmara.

ALÔ, MPF 
Já é hora de o Ministério Público Federal investigar a natureza das relações da Antaq com o lobby pela privatização branca dos portos. 

SP: “MÁFIA DA MOOCA” FAZ NOVO NEGÓCIO DA CHINA 
A Mercosul Comercial Ltda, a Capricórnio S/A e a Diana Paolucci S/A, conhecidas carinhosamente como “máfia da Mooca”, que monopolizam as vendas do setor ao governo tucano de São Paulo, devem vencer a licitação amanhã (16) para fornecer 5,7 milhões de mochilas estudantis. A Fundação de Desenvolvimento da Educação pagará R$ 40 milhões: cada mochila (comprada a US$ 0.70 na China) deve sair por US$ 7.00. 

XADREZ POLÍTICO 
O presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, justificou o alto preço do álcool por “falta de cana”. Juridicamente, está corretíssimo. 

EMBRAMICO 
Nem Pelé salva o turismo para 2014: o atraso nas obras da Copa e na reforma do Maracanã foi destaque ontem na imprensa internacional. 

GRANA ÁGUA ABAIXO 
A “lavagem” de R$ 710 mil da Madeleine, em Paris, às nossas custas, pagaria 1.972 bolsas de iniciação científica pelo CNPq (R$ 360 cada).

PESCANDO PARENTES 
O ministro mosca-morta Luiz Sérgio (Pesca) fecha os olhos para um caso clássico de nepotismo sob seus vastos bigodes: Sebastião Birino, chefe de gabinete, e 
Conceição Boas, assessora, são marido e mulher.

PÕE NA CONTA 
Mofam no Paraná 28 mil toneladas de milho que o governo Lula doou à Coreia do Norte, do ditador Kim Jong II, e ao “governo” da Somália: o transporte exigirá uns três mil caminhões até o porto de Paranaguá. 

LEI DA SELVA 
O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa precisa 
honrar a própria denominação: o diretor afirmou a parente de uma vítima que o seu DHPP não elucida 98% dos crimes ocorridos no Rio de 
Janeiro. 

GRAVE DENÚNCIA 
A ex-mulher de Durval Barbosa, Fabiani, disse à TV Record ter ouvido do ex-marido, operador do esquema de corrupção no DF, que tem a Justiça “na mão”, por isso jamais será preso. Ele é investigado por abusar sexualmente dos próprios filhos, de 3 e 6 anos de idade. 

SAIA DE CASA SEM ELE 
Pedro Agora Vais (ex-Turismo) no motel: R$ 2 mil; empregando a governanta na Câmara, R$ 500 mil. A mulher nas compras com motorista oficial: R$ 400 mil. Nosso dinheiro: não tem preço. 

BRASILEIRO BONZINHO 
A embaixadora do Brasil na ONU, Maria Luiza Viotti, destaca a “boa-fé” do Irã, aceitando inspeção às usinas se a Agência de Energia Atômica suspender as sanções. Nem Ahmadinejad acredita nessa tal “boa-fé”.

ROAD SHOW 
Especialista em países emergentes, Françoise Lemoine, do Centro de Estudo e Pesquisa em Economia Internacional, passou a faca em Mantega na revista Le Point. Duvidou da ajuda dos Bric’s à UE: “Não se entendem, é fachada. O Brasil tem pouca reserva cambial para tanto”. 

MATANDO A CHARADA 
Após nove dias em Londres e Paris, o deputado Rogério Carvalho (PT-SE) criticou o SUS de lá, que não é totalmente gratuito. Esqueceu dos 40 milhões no Brasil que preferem pagar plano de saúde.

PERGUNTA ATRÁS DA PORTA 
Como Pedro Agora Vais explicou à Dilma a orgia dele no motel? 

PODER SEM PUDOR
POLÍTICA E VERBORRAGIA 
Lula não foi o primeiro político a utilizar palavras cujo significado ignora. Em 1996, na campanha para a Prefeitura de Curitiba, o radialista Carlos Simões cometia frases do gênero “Os problemas de Curitiba precisam ser tratados de forma equidistante” ou “A cidade cresce para o sul, o norte, para o leste e para o oeste, de forma colateral”. As pesquisas indicavam o favoritismo de Cassio Taniguchi, mas ele tinha uma explicação para o fracasso anunciado:
– A eleição ainda não foi bem encalacrada (sic) pelo povo.

QUINTA NOS JORNAIS


- Globo: Mais um fora do barco - Dilma perde 5º ministro e pede ficha-limpa a PMDB

- Folha de S. Paulo: Governo Dilma perde 5º ministro

- Estadão: Cai o 5º ministro de Dilma; PMDB oferece 80 nomes para a vaga

- Valor: Bancos aumentam rigor na concessão de créditos

- Zero Hora: Aliado de Sarney assume ministério

- Estado de Minas: Gasolina mais barata ficou só na promessa

quarta-feira, setembro 14, 2011

ANCELMO GOIS - GUERRA À VISTA


GUERRA À VISTA 
ANCELMO GOIS
O GLOBO - 14/09/11

Cabral foi informado, ontem à noite, de uma proposta de Guido Mantega que garfa, já em 2012, mais de R$ 2 bi de royalties do petróleo dos Estados produtores.
– É ilegal, não passará. Mas vamos nos preparar para uma guerra – diz o governador.

BYE, BYE, BRASIL 
A Rádio Petróleo informa que a petrolífera Anadarko está querendo sair do Brasil.
A americana foi a primeira privada a descobrir petróleo no pré-sal, em 2008.

CONTAGEM REGRESSIVA 
Orlando Silva ocupa uma rede de rádio e TV amanhã, véspera da celebração dos mil dias para a Copa de 2014.
O ministro garantirá que as obras ficarão prontas a tempo.

E HOJE... 
O governo anuncia um reajuste de R$ 5,6 para R$ 6,5 bilhões nos investimentos para os aeroportos da Copa.

FIM DAS MORTES 
O secretário de Segurança José Beltrame divulga hoje dados oficiais mostrando que despencaram os índices de criminalidade nas áreas das UPPs.
No primeiro semestre, em 13 favelas com UPPs, 11 não registaram homicídios. Apenas duas tiveram registros:Cidade de Deus (3) e Macacos (1).

ISTO É PRESTÍGIO 
O Lincoln Center, templo da cultura em Nova York, faz em 2102 uma retrospectiva completa da obra do cineasta brasileiro Cacá Diegues.

ENCOXADA NO ÔNIBUS 
Nelson Motta conta, na biografia de Glauber Rocha que escreve para a Objetiva, a visita de Jean Paul Sartre nos anos 1960 a Salvador.
O filósofo viajou num ônibus lotado de gente suada e disse que aquilo era rituel de corps.

ATÉ QUANDO? 
No feriado do dia 7, um casal de moças estava no Forneria, na Aníbal de Mendonça, em Ipanema, e, num momento de afeto, se beijou rapidamente.
Logo surgiu um garçom pedindo que elas parassem com os carinhos, porque “estavam constrangendo as outras pessoas na casa”.

SEGUE... 
Uma das moças alertou que ele estava fazendo algo muito grave e proibido por lei.
O garçom, meio arrependido, ofereceu um licor para se retratar. Mas era tarde. As duas pagaram a conta e foram embora.

COCÔ LETRADO 
Carlos Minc, secretário do Ambiente, bateu o martelo ontem: serão investidos 
R$ 70 milhões em redes de água e esgoto e em prevenção de incêndios em Paraty.
Em 2009, em plena Flip, algumas fossas sépticas jorraram para todo lado cocô da turma letrada que estava na cidade.

INFLAÇÃO MALVADA 
De Moacyr Luz, o sambista, ontem, ao comentar, em pleno Dia Internacional da Cachaça, os rumos da economia:
– Jiló está o mesmo preço do caviar, e a malvada mais cara que muito escocês!

NO MAIS 
Concurso de miss é coisa meio demodé e pouco importante. Mas, ainda assim, a vitória da angolana Leila Lopes no Miss Universo representa a entrada de negros em mais um espaço até pouco tempo quase restrito aos brancos. Eu apoio.

TUTTY VASQUES - A derrota da empáfia!


A derrota da empáfia!
TUTTY VASQUES
O ESTADÃO - 14/09/11


Brasileiro adora esculachar técnico da seleção, mas é bem capaz de aliviar a cara do Mano Menezes em caso de derrota neste Brasil X Argentina meia-bomba de hoje à noite, lá. Por maior que seja o fiasco em Córdoba, o torcedor tem mais o que fazer: se é para cair de pau, nada lhe dá tanto prazer no papo da esquina quanto essa coincidência de sucessivos vexames de Vanderlei Luxemburgo e Luiz Felipe Scolari em seus respectivos clubes.

Com todo respeito à aflição momentânea das valorosas galeras do Flamengo e do Palmeiras, não vem ao caso aqui rivalidades esportivas. Está em jogo a derrota da empáfia! Com Luxa e Felipão ladeira abaixo no Brasileirão, o campeonato perde em arrogância, pavoneamento, soberba, grosseria e presunção, características pessoais que neles se evidenciam com o bom desempenho profissional.

É bom mesmo que a dupla de "professores" não esteja por aí arrotando vitórias nas mesas redondas da TV, ainda mais agora que a competição perdeu a elegância e a discrição de Ricardo Gomes à beira do campo.

Neste particular, justiça seja feita a Mano Menezes, se alguém na seleção sofre do mal da falta de educação, francamente, não é o técnico. Fora Ricardo Teixeira!!!

Desmotivação total
Amigos de Aécio Neves estão preocupados. Depois de perder inteiramente o gosto pelas noites no Leblon, o senador nem ligou a TV para assistir ao concurso de Miss Universo na Band.
Tomara que seja só uma fase, né?

Deusa negra
Miss são as outras! A angolana Leila Lopes é uma espécie de Madrinha de Bateria do Universo. Vai ter escola de samba disputando a tapa a beleza pura da eleita no concurso de segunda-feira. Um espetáculo!

Mal comparando

A volta da CPMF é como a estreia de Adriano no Timão: está sempre sendo adiada, mas um dia acontece!

Vice guloso

Que diabos Michel Temer andou comendo em Natal para chegar das férias naquele estado lastimável, caramba? Seja o que for, não dividiu o prato com dona Marcela.

A vice-primeira-dama estava linda, como sempre, quando precisou socorrê-lo no Albert Einstein. Precisa ver se a mãe dela também não voltou de viagem com piriri.

Nada a ver

Antes que a Patrícia Poeta pense naquilo, não rolou "toma lá dá cá" nenhum no papo sobre o Rodoanel que a presidente Dilma manteve com Geraldo Alckmin no Palácio dos Bandeirantes. E não se fala mais nisso, ok?!

Deixa que digam

O PMDB aprovará no fórum nacional que realiza amanhã, em Brasília, uma intransigente defesa da liberdade de imprensa. Isso quer dizer o seguinte: o partido está pouco se lixando para o que os jornais andam dizendo de seus parlamentares.

Ô, raça!

Já tem comentarista econômico por aí preocupado com a alta do dólar! Não dê ouvidos a essa gente! Ou vais enlouquecer!

GINO OLIVARES - Cortes em ritmo de samba


Cortes em ritmo de samba
GINO OLIVARES
Valor Econômico - 14/09/2011

Bom, agora ficou claro. Foi o samba o responsável pelo corte de juros da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). É o que aparece registrado na ata da reunião.

O SAMBA (assim, com maiúsculas) em questão é o modelo que foi utilizado pelo Banco Central (BC) para, sob certas hipóteses, quantificar os impactos da deterioração do cenário internacional sobre a economia brasileira. Avanços na modelagem são sempre bem-vindos, mas nesse tipo de modelo é sempre necessário ter em mente suas limitações. De modo geral, os resultados são extremamente sensíveis ao conjunto de parâmetros utilizados (nem sempre estimados) e às hipóteses sobre a evolução das variáveis exógenas ao modelo. Esperamos que no próximo Relatório de Inflação sejam oferecidos maiores detalhes sobre o exercício que fundamentou a decisão do Copom de agosto. Portanto, melhor focar a questão de fundo, isto é, no entendimento do colegiado de que o cenário internacional manifesta viés desinflacionário no horizonte relevante.

O raciocínio do Copom parece ser o seguinte: pelos diversos problemas já conhecidos, as principais economias crescerão pouco nos próximos trimestres e sendo assim, as pressões inflacionárias diminuirão sensivelmente, podendo até virar desinflacionárias. O argumento parece razoável. A realidade mostra que, de fato, essas economias já estão registrando baixo crescimento há algum tempo, mas ele não veio acompanhado de pressões desinflacionárias. Muito pelo contrário. O que se observa em muitas regiões do mundo, e não apenas nas principais economias, é que o "trade-off" entre crescimento e inflação piorou significativamente no período pós-crise de 2008. Resta entender o motivo dessa piora.

Se até agora a desaceleração não gerou desinflação, porque esperá-la no futuro próximo?

A deterioração do "trade-off" entre atividade e inflação é consequência direta das respostas de política econômica ao choque de 2008. As exuberantes expansões monetárias e fiscais que seguiram à crise, tanto nos desenvolvidos quanto nos emergentes, explicaram a recuperação da economia global já em 2009, mas deixaram como legado uma inflação que hoje se mostra menos sensível à diminuição do ritmo de crescimento global dos últimos trimestres.

Mas, se até agora a desaceleração não gerou desinflação, por que deveríamos esperar por ela no futuro próximo? Ainda segundo o Copom, porque nas principais economias haveria espaço limitado para a utilização da política monetária e restrições do lado fiscal. Há bons motivos para duvidar da efetividade de medidas adicionais, mas jamais se deveria apostar na inação das autoridades.

Basta revisar o noticiário de 8 de setembro. Nos Estados Unidos, o presidente do Federal Reserve (Fed, banco central americano), Ben Bernanke, reafirmou que a instituição tem instrumentos para estimular a economia e que estaria pronto para utilizá-los já na sua próxima reunião, ainda neste mês. Da mesma forma, o presidente americano, Barack Obama, anunciou um novo pacote fiscal de US$ 450 bilhões. Já na Europa, Jean-Claude Trichet informou que o Banco Central Europeu (BCE) reavaliou o balanço de riscos para a atividade e a inflação na zona do euro, o que foi considerado sinal de que o banco pode cortar juros no futuro próximo. Aparentemente faltou alguém avisar às autoridades econômicas americanas e europeias que estão sem margem de manobra.

Adicionalmente, reiteradas citações da crise de 2008 por parte do governo ilustram que a leitura desse episódio está influenciando muito as atuais decisões. Fala-se muito que o objetivo é evitar o "erro" de demorar em cortar juros naquele ano. O Valor publicou, segunda-feira, que hoje se sabe que o atual presidente do Banco Central se posicionou desde o início da referida crise a favor da redução dos juros. Ao contrário do que avalia o atual governo, não houve erro na ação do Banco Central. A ação do banco na crise foi impecável. Os erros na condução da política econômica, cujos custos pagamos até hoje, não foram do Banco Central. Como falar de erro de política monetária se o melhor resultado de inflação no acumulado de 12 meses no período posterior à pior crise financeira mundial dos últimos 70 anos foi uma inflação apenas 0,3 ponto percentual inferior à meta de 4,5%?

Por último, e não menos importante, apostas do Copom em contribuições positivas para a inflação brasileira advindas do cenário externo não têm bom retrospecto. Por exemplo, em meados de 2007, e com base nesse tipo de argumentos, o colegiado acelerou o ritmo de cortes para, poucos meses depois, verificar não só que tal contribuição não aconteceu, como também que suas decisões agravaram o cenário inflacionário. Desta vez será diferente? A conferir.

Enfim, estamos vivendo tempos novos; tempos de política monetária em ritmo de samba. Só nos resta torcer para que o samba não se transforme em choro.

Gino Olivares doutor em economia pela PUC-Rio, é economista da Brookfield Gestão de Ativos.

ZUENIR VENTURA - Eixo do mal


Eixo do mal
ZUENIR VENTURA
O GLOBO - 14/09/11

Houve um tempo em que a rivalidade Rio-SP incluía a comparação dos índices de violência. Meus amigos paulistas fingiam preocupação com a situação do "balneário decadente". Nós os acusávamos de omitir ocorrências policiais. Dizíamos que os jornais paulistanos noticiavam o que de ruim acontecia no Rio com mais destaque do que o que se passava na sua capital. Num desses últimos fins de semana em Sampa, constatei que o jogo está empatado. O recepcionista do hotel foi quem me chamou a atenção: "Nós somos vocês ontem", comentou, ao me ver lendo o noticiário sobre a onda de arrastões a bares e restaurantes que varre a cidade desde o início do ano.

"De junho para cá, nove bares e restaurantes foram assaltados na região da Chácara Santo Antonio e Granja Julieta", dizia uma matéria. "Tiroteio em Moema acaba com dois ladrões baleados", informava outra. "No Morumbi, duas mulheres foram presas por assalto." E mais: "Na Chácara Santo Antonio, na Zona Sul, registrou-se o segundo arrastão em 24 horas. Um dia após a invasão de um restaurante italiano, três criminosos renderam 20 pessoas no bar Sem Stress." Eu mesmo quase fui testemunha de uma ocorrência perto do hotel em que me hospedava na Rua Hadock Lobo, quando de manhã cedo um rapaz foi baleado durante um assalto. Em matéria de violência, Sampa parecia estar ganhando mesmo da Cidade Maravilhosa.

Viajei de volta dizendo como Ancelmo: "Deve ser terrível viver numa cidade assim." Até que fiquei sabendo o que ocorrera enquanto eu estivera fora. Perto de casa, às 11h30m da manhã, um arquiteto fora assassinado junto ao bar Garota de Ipanema, um dos mais movimentados do bairro, aquele onde Vinicius e Tom compuseram sua famosa música num tempo em que "Ipanema era só felicidade", como Vinicius cantou em outra canção. Foi o desfecho trágico de uma onda de assaltos no bairro, executados por ladrões em motocicleta ou por pivetes a pé e de bicicleta. Derrubam a vítima, arrancam o celular ou o relógio e saem correndo. Quando há resistência, matam.

Isso deve preocupar mais do que os incidentes nos morros: volta dos traficantes ao Alemão, desentendimento com moradores, casos de corrupção, que são desvios graves, mas cujo combate está no rumo certo. Não se conhece no país política de segurança tão consistente quanto a das UPPs. Já esse varejo que inferniza o cotidiano dos moradores do eixo Rio-SP, é de difícil solução.

Enigma do "país que não gosta de ler". A 15ª Bienal do Livro do Rio terminou com a presença recorde de 670 mil visitantes. No mesmo domingo, terminava também a XV Feira Pan-Amazônica do Livro, em Belém, frequentada por 500 mil pessoas, um terço da população local. Estive nas duas, e a do Pará ainda me surpreendeu mais. Em um só dia, houve o comparecimento de 65 mil pessoas - público de um estádio de futebol.

GOSTOSA


MARTHA MEDEIROS - Eu não sou passarinho

Eu não sou passarinho
 MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 14/09/11

Convencionou-se que pessoas de boa índole gostam da natureza. Bom, eu gosto muito da natureza, ainda que não seja a candidata ideal para me exilar num sítio ou numa praia deserta por um tempo que exceda o período de férias. Além disso, tenho uma relação pouco amistosa com passarinhos, logo com eles, os representantes oficiais da vida ao ar livre. Se o quesito for esse, não sei se minha índole poderá ser bem avaliada.

Quando criança, os contos de fada tentaram me convencer da prestatividade dos passarinhos. Quando a Gata Borralheira resolveu que iria ao baile no castelo do príncipe mesmo sem ter um trapo decente para vestir, foram os passarinhos que a ajudaram a se transformar numa Cinderela, providenciando tecidos coloridos e customizando as peças. Eles praticamente inventaram a profissão de personal stylist.

No desenho da Branca de Neve, foram ainda mais prestigiosos. Conduziram a mocinha, perdida na floresta, até a casa dos anões, que ela jamais encontraria sem um GPS. E, depois, quando a bruxa malvada a envenenou com a maçã, foram eles que correram até a mina e alertaram os anões para o que estava acontecendo. Twitter pra quê?

Enquanto escrevo esta crônica, às 9h, escuto pássaros. É encantador, se levarmos em conta que estou instalada no 10º andar de um prédio num bairro movimentado da cidade. Como a rua é arborizada e há um parque quase em frente, a passarinhada está garantida. Só que eles não começaram a cantar agora. Estão cantando desde cedo. Bem cedo. Desde as quatro da manhã, pra ser exata. Eu adoraria acordar com o canto dos pássaros às quatro da manhã se tivesse que levantar para ordenhar vacas, cortar lenha e assar o pão em minha casinha romântica instalada no cenário idílico do campo, mas não levo uma vida romântica: me deixem dormir.

Também não preciso levantar às quatro da manhã para preparar o almoço das crianças e então pegar três ônibus para chegar ao trabalho. Tivesse essa vida sacrificada que tantos têm, acordar com os passarinhos seria menos aflitivo do que acordar com um estridente despertador. Mas não levo essa vida sofrida, o horário que devo sair da cama é exatamente 6h50min. Só que abro os olhos bem antes disso. Muito antes. Por obra e graça você sabe de quem.

A primavera está chegando e isso é uma notícia alvissareira depois de um inverno tão castigante. É o momento de recepcionar com alegria os inofensivos e belos cantantes matinais, que tanta poesia conferem ao nosso cotidiano. Pena que eu não seja assim tão nobre. Tenho vontade de abater um por um durante sua sinfonia da madrugada. Só gosto de passarinho em estampas, selos, quadros e fotos (mentira, mentira, nem isso, só estou querendo angariar sua simpatia). Índole nota 7,5.

ILIMAR FRANCO - O Rio vai pagar


O Rio vai pagar
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 14/09/11
O ministro Guido Mantega (Fazenda) apresentou ontem à noite, para um grupo de senadores, sua proposta para atender os estados não produtores na distribuição dos royalties do petróleo. Esses estados dividirão uma receita de R$3,75 bilhões. A União vai abrir mão de apenas R$1,4 bi de suas receitas. O peso maior recairá sobre os estados produtores, R$1,26 bi; municípios produtores, R$582 milhões; e municípios afetados, R$513 milhões.
Equilibrismo na incerteza
Todos os governadores envolvidos no debate dos royalties do petróleo consideram que a União deveria ser mais generosa e abrir mão de uma parcela maior da receita em favor dos estados e municípios não produtores. O maior temor dos atores políticos é que o veto do ex-presidente Lula seja derrubado no Congresso, em sessão marcada para o dia 5 de outubro. Se isso ocorrer, o tema vai para a Justiça. A decorrência imediata do desacordo federativo será bater às portas do STF. A pendência é ruim para todos, pois vai jogar na incerteza ou travar a exploração do pré-sal. No caso do Rio, colocará em risco seu equilíbrio financeiro.
"Não queremos reabrir feridas, mas temos a obrigação de mostrar à juventude como se passou nossa História, mostrar os erros para que não sejam repetidos" - José Gregori, secretário de Direitos Humanos no governo FH, sobre a criação da Comissão da Verdade
ESTADO DE ALERTA. Os principais líderes petistas se reuniram de forma reservada, na segunda-feira à noite, na casa da ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. Na pauta, viabilizar a aprovação da DRU, ameaçada pela calendário, e o financiamento da Saúde. Estavam lá os ministros Aloizio Mercadante, Ideli Salvatti e Paulo Bernardo, os líderes do governo, Cândido Vaccarezza (PT-SP), do PT na Câmara, Paulo Teixeira (SP), e no Senado, Humberto Costa (PE).
No rumo
Depois de levantar cerca de 40 projetos de combate à corrupção, o senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES) quer a criação de comissão especial para apresentar uma proposta em 90 dias. Ele diz: "Chega de bravata, e vamos ao concreto!"
Na festa
O plenário do Senado virou palco para um grupo de Marabaixo, dança negra típica do Amapá. Foi durante sessão, comandada pelo presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), em homenagem aos 68 anos de criação do Amapá.
PSD vê manobra para inviabilizá-lo
A cúpula do PSD interpretou o pedido de diligências, no processo de formação do partido, da procuradora eleitoral, Sandra Cureau, como uma manifestação de desconfiança nos cartórios eleitorais e nos TREs. Se seu pedido fosse acatado, o PSD não seria criado em tempo hábil para disputar as eleições municipais. Eles também consideram excessivo o prazo de dez dias que a relatora no TSE, ministra Nancy Andrighi, concedeu para que o Ministério Público Eleitoral reexamine o caso.
Contestando
O governador Marcelo Déda (SE) nega que tenha sido ouvido pelo PT do Rio sobre a presença de organizações sociais na gestão da Saúde. Diz que, lá, a gestão é diferente. Ela é compartilhada com fundações públicas de direito privado.
Chalita na TV
Começaram a ser veiculadas ontem as inserções na TV do PMDB paulista. O deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP), pré-candidato à prefeitura de São Paulo, será a estrela de 80% das inserções. O restante ficará com os líderes do interior.
ALIADO da candidatura da deputada Ana Arraes (PSB-PE) acredita que o líder do PTB, Jovair Arantes (GO), ao se retirar, deve apoiá-la. Mas prevê que os ruralistas que estavam com ele devem aderir à candidatura do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP).
O SENADOR Flecha Ribeiro (PSDB-PA) anda ameaçando deixar o partido. Ele vive cobrando do presidente do partido, deputado Sérgio Guerra (PE), uma intervenção no Diretório Regional do Pará.
A OEA fechou acordo de cooperação com a Polícia Federal. A parceria prevê capacitação de agentes com foco em eventos como Olimpíadas e Copa.