domingo, setembro 04, 2011

JOSUÉ GOMES DA SILVA - Nem oito nem oitenta

 Nem oito nem oitenta
JOSUÉ GOMES DA SILVA
FOLHA DE SP - 04/09/11 

Não se pode desqualificar a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, ao reduzir a taxa básica de juros em 0,5%.
Não é lógico o que afirmaram alguns analistas de mercado, de que o órgão cedeu às pressões do governo. Afinal de contas, o BC é uma instituição que integra o governo e, como tal, é saudável que atue em sinergia, mas sem abrir mão de suas atribuições.
O BC ausculta os setores financeiro e produtivo, empresários, trabalhadores, acadêmicos em permanente e legítimo diálogo. Nem por isso se deixa pressionar por qualquer interlocutor. No passado, esses segmentos tiveram assento no Copom, como ainda acontece em outros países.
Ninguém pode dizer que a decisão do BC foi errada. Somente o futuro dirá. O "mercado" não tem o monopólio da verdade, muito menos acerta previsões com tal frequência que o coloque acima do bem e do mal. Portanto, tenham cautela os que se pautam pelas suas opiniões.
Muitos fatores justificam a baixa nos juros. A economia tem mostrado sinais de desaquecimento, o mundo passa por nova onda de crises, o crescimento previsto para 2011 e 2012 sofreu significativa redução. O governo aumentou o superavit fiscal primário, abrindo espaço para um reivindicado reequilíbrio entre as políticas monetária e fiscal.
Ainda assim, temos uma das maiores taxas de juros do planeta. O argumento favorável à manutenção desse status é a inflação que, de fato, gira acima do centro da meta. É fácil perceber como esse "dragão" afeta nossas vidas, pois ninguém quer ter o salário nem sequer chamuscado pelo seu hálito quente.
Ao contrário, o impacto dos juros altos em nosso cotidiano é bem menos perceptível, mas estimula o ingresso de capital especulativo, reduz a expansão do PIB, diminui a oferta de emprego e a geração de renda.
Como se não bastasse, drena recursos que poderiam ser aplicados na melhoria de educação, saúde, segurança, infraestrutura, saneamento básico e habitação. A redução de 0,5% na Selic significa cerca de R$ 7 bilhões por ano a menos nos juros pagos pelo governo, o que daria para construir cerca de 200 mil casas populares.
Outros instrumentos podem conter a inflação, não só o conservadorismo da alta dos juros. Medidas macroprudenciais têm sido usadas e seus resultados devem ser considerados. Nesse contexto, a política fiscal é parte das alternativas, e também está sendo usada.
Assim, não parece pertinente criticar a decisão do Copom quanto à redução da Selic. O órgão levou em conta o complexo cenário mundial, seu prolongamento em 2012 e possíveis reflexos no Brasil.
Tratou-se de uma medida de caráter técnico, feita com responsabilidade.

JOSÉ DIRCEU - Oposição sem rumo


Oposição sem rumo 
 JOSÉ DIRCEU
FOLHA DE SP - 04/09/11

LEIAM COM O NARIZ TAMPADO. ESSE CARA FEDE

Ao criticar as alianças de Dilma, Eduardo Graeff parece se esquecer de que o PSDB se alinhou com as mesmas siglas nos Estados que governa


Enquanto o Brasil avança com o PT no governo federal, a oposição demo-tucana permanece inerte, saudosa de um passado distante e perdida em seus próprios dilemas.
Sem propostas viáveis para o crescimento do Brasil, os velhos mandatários centralizam seus esforços em inúteis tentativas de desestabilizar o governo e o país, por meio de ataques sem provas ao PT e a seus militantes.
No último dia 23, fui grosseiramente atacado, nesta Folha, em artigo assinado pelo cientista político Eduardo Graeff, secretário-geral da Presidência da República no governo FHC. Graeff tomou versões mal-intencionadas e sem compromisso com a verdade para reembalar teses que há muito não encontram eco na sociedade.
Seu artigo "Aliados e companheiros" é uma coletânea desatualizada de equívocos e hipocrisias.
Graeff chega a dizer que, em 1998, eu teria arrecadado recursos em prefeituras para financiar campanhas do partido. Trata-se de uma mentira, de uma acusação que não se sustenta caso seja questionada judicialmente.
O episódio fantasioso se tornou público na investigação do assassinato do então prefeito de Santo André, Celso Daniel, e seu autor se retratou em juízo pelas falsas alegações. O ex-assessor tucano vai ao fundo do poço ao dar conotação política a um caso que, por duas vezes, ficou comprovado em inquéritos policiais se tratar de crime comum. Na tentativa de provocar estragos, investe até mesmo contra a imagem de Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência.
Graeff critica as alianças do governo Dilma. E parece se esquecer de que o PSDB se alinhou com essas mesmas siglas nos Estados que governa. O PMDB não está na base de sustentação da gestão de Geraldo Alckmin em São Paulo?
Antonio Anastasia não levou o PDT e o PSB para a base de seu governo em Minas Gerais?
E mais, o tucano mineiro não desmontou a oposição a seu governo ao tirar primeiro o PR da frente parlamentar Minas sem Censura, e agora o PMDB? José Serra, quando assumiu a Prefeitura de São Paulo, não nomeou prefeitos derrotados no Estado para as administrações regionais da cidade? Quer maior aparelhamento e uso da máquina do que esse?
Quando secretário-geral da Presidência, na hoje longínqua era FHC, parte das tarefas de Graeff não era ouvir reivindicações da base aliada a respeito da ocupação dos cargos públicos e de emendas parlamentares?
E agora vem o próprio Graeff questionar a legitimidade da participação dos partidos que apoiam o governo. Quanta hipocrisia!
Estamos dispostos a um debate mais profundo do que esse. Já realizamos as reformas da Previdência e do Judiciário e colocamos na pauta a Tributária e a do Código Civil.
Nos oito anos em que governou o país, o PSDB não foi capaz nem de apresentar uma proposta de reforma que pudesse corrigir erros históricos e estruturais de nosso sistema político-eleitoral e conter a forte influência do poder econômico em nossas eleições.
O tema também já está lançado com a reforma política. Nós, do PT, defendemos o financiamento público exclusivo das campanhas eleitorais, de forma a acabar com a contribuição direta a partidos ou candidatos e a anular a força do poder econômico na eleição. Somos favoráveis ao sistema proporcional misto, no qual o eleitor votará duas vezes: primeiro, na lista do partido de sua preferência, e depois em um candidato da própria lista.
Nossa posição é clara. Surpreende a fuga do PSDB a esse debate.
Para eles, talvez seja melhor atacar a honra alheia do que discutir questões realmente importantes para o país.

GOSTOSAS


MÍRIAM LEITÃO - A meta e a dúvida

A meta e a dúvida
MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 04/09/11

A semana passada terminou com uma fratura. De um lado, economistas, de dentro ou de fora do mercado financeiro, convencidos de que o Banco Central abandonou princípios básicos da política de metas de inflação. De outro, o governo, tentando defender a decisão do BC com o argumento de que a situação internacional em deterioração acelerada justifica uma medida ousada.

De fato, a situação vem piorando desde o início do ano. O que era esperança de recuperação virou risco de uma recessão sincronizada entre EUA, União Europeia e Japão. É verdade a piora, mas não ocorreu abruptamente. A conjuntura foi se deteriorando. Há 45 dias, o BC achava que a despeito dos sinais de agravamento da crise ainda assim era necessário subir juros ao ritmo de 0,25 ponto percentual; agora, decidiu reduzir em meio ponto. Esse tipo de movimento brusco não é comum.

A avaliação do governo é a de que houve fatos inesperados, sim, desde a última reunião, como o quase calote americano, a decisão do Fed de anunciar o prolongamento até 2013 dos juros zero, e as dúvidas sobre bancos europeus complicando ainda mais a frágil situação da zona do euro. A tese é que o risco que era hipotético virou realidade. Argumenta-se que tudo isso justifica a mudança brusca de rumo. O mundo crescerá menos e haverá menos pressão inflacionária, e o risco a se evitar agora é de uma queda maior do PIB. Além disso, argumenta que os juros reais ainda são de 6,5%. Mas, no mercado, as contas são outras. O BC faz a conta assim: juros de 12% menos previsão de inflação para os próximos 12 meses. O mercado calcula juros futuros menos inflação futura e Imposto de Renda.

O assunto foi politizado; o que é ruim. O Banco Central foi defendido por ministros de outras áreas, pela direção partidária. Ficou ainda pior. O BC em vez de divulgar sua decisão nas costumeiras quatro linhas fez um longo comunicado, parecendo que queria se justificar. Foi mais um indício a se somar às muitas suspeitas de que algo fora dos padrões ocorreu no Banco Central.

Do lado de dentro do governo se diz que a inflação vai ceder. Do lado de fora se diz que nada garante a convergência para o centro da meta e que não se pode reduzir os juros com a inflação acima do teto da meta. Do lado de dentro se diz que o BC tem que olhar para a frente, que a inflação de 7% no acumulado de 12 meses é passado, e que as taxas serão cada vez menores neste fim de ano e durante o ano que vem. Do lado de fora se diz que a inflação vai cair, mas apenas nos últimos três meses do ano, no acumulado de 12 meses, mas nada está garantido depois disso. Há produtos afetados por fatores climáticos - álcool, açúcar, trigo, milho - mas há sobretudo um choque de custos por causa do salário mínimo que vai elevar mais a inflação de serviços.

O governo está convencido - todo ele, inclusive o Banco Central - que o setor público fez um ajuste fiscal importante nos dias que antecederam a reunião do Copom, quando elevou o superávit primário em R$10 bilhões. Os especialistas em contas públicas têm uma lista de dados provando o oposto. Não foi corte de despesas, mas sim a promessa de que parte de uma receita extraordinária não será gasta. O Orçamento do ano que vem fortalece a preocupação com o gasto público. Divulgado no mesmo dia da decisão do Copom, o Orçamento prevê um aumento de despesas de 15,9% e um aumento da receita de 12,8% relativamente ao projetado para 2011. No mesmo dia em que o BC alertou para o risco de desaceleração do crescimento, o Ministério do Planejamento fez as contas para o ano que vem contando com uma alta de 5% do PIB.

Há cenários divergentes dentro do governo, mas já não há mais vozes divergentes. Todos parecem subestimar o risco inflacionário e todos argumentam que as contas públicas estão melhores que as de muitos outros países. Mas o risco dos outros é de calote, o nosso é de que o excesso de gasto eleve a inflação. A comparação não faz sentido. Além disso, nossas contas estão melhores não por mérito, mas porque os outros pioraram. O país repete o mesmo roteiro de sempre: riscos fiscais rondam o governo, em forma de medidas que o Congresso pode adotar, e as autoridades avisam que podem criar, ou recriar, impostos. O mesmo movimento que fez a carga tributária subir 10 pontos percentuais do PIB em 16 anos. A solução é sempre apertar mais o torniquete sobre o público pagante.

O mais grave da fratura da semana não é apurar quem tem razão, mas constatar que já não se confia mais na autonomia do Banco Central, e o regime de metas de inflação pressupõe confiança de que o guardião da moeda perseguirá a meta. É preciso haver segurança de que o BC tem um objetivo hierarquicamente superior a todos os outros: combater a inflação. Se a ideia que fica é a de que o Banco Central não tem respaldo para fazer seu trabalho, quem forma preço aposta em inflação mais alta nos seus reajustes, nos seus contratos, nas suas previsões.

O que houve desta vez não foi avaliação diferente sobre a conjuntura, mas sim a sensação de que o BC passou a aceitar mais inflação. Não é o que se diz no governo. Mas neste caso o que claramente o Banco Central terá de fazer nos seus próximos pronunciamentos, como a ata do Copom e o Relatório de Inflação, é dar consistência técnica à decisão tomada. A comunicação agora será uma ferramenta essencial.

VINÍCIUS TORRES FREIRE

Mundo piora, BC agradece
VINICIUS TORRES FREIRE 
FOLHA DE SP - 04/09/11

Sucesso da política do BC do Brasil depende de mais ruína econômica mundial. Por ora, vai dando certo


A SEMANA até que terminou bem para o Banco Central do Brasil. Quer dizer, más notícias colocaram azeitonas na empada do comunicado que o BC divulgou ao talhar os juros. O texto dizia que a economia mundial vai para o vinagre, rápido.
As notícias de sexta-feira indicam que o BC está bem cotado para o troféu Cassandra, uma moça troiana que deveria ser padroeira de economistas, pois ao contrário deles era capaz de ouvir o futuro (embora ninguém acreditasse nela).
De mais óbvio, soube-se na sexta que o saldo de novos empregos de agosto foi zero nos Estados Unidos.
Ficou claro que os bancos europeus captam dinheiro a prazo cada vez mais curto, com taxas no nível ainda ruim de meados de 2009. Dinheiro europeu continua a vazar para os Estados Unidos. Bancos do continente dependem de transfusões de sangue do BC Europeu -dinheiro para tapar o caixa.
A fogueira por ora branda, mas contínua da crise bancária europeia foi avivada pelas notícias ruins da economia americana e mais ainda pelo processo que a Agência Federal de Financiamento Imobiliário (FHFA) passou a mover contra 17 bancões da Europa e dos EUA.
Essa agência do governo americano administra as quebradas e em 2008 estatizadas Fannie Mae e Freddie Mac, nome fantasia de empresas meio privadas, meio estatais, de refinanciamento imobiliário.
Tais empresas compraram de bancos centenas de bilhões de títulos lastreados em hipotecas, os "que deram origem à crise" de 2008.
A FHFA diz que Fannie e Freddie compraram gato por lebre, papéis de alto risco vendidos como coisa segura pelos bancões. Bidu.
Qual o problema? Instituições como o Bank of America (BofA), o maior dos EUA, já perdem bilhões em processos devido a papéis imobiliários podres. O BofA entrou nessa fria ao comprar uma megafinanceira imobiliária toda enrolada no pior da bolha, a Countrywide.
Tais prejuízos, como outros, podem reduzir o capital dos bancos. Menos capital, menos empréstimos, menos lucros. Perdas grandes poderiam em tese exigir que bancos levantem mais capital, talvez por meio de venda de novas ações, o que reduz o direito a dividendos dos atuais acionistas. A ação do banco pode então perder graça e preço.
Tudo isso ainda é especulação. Mas o mercado acredita nela. As ações do BofA caíram 45,5% neste ano (o Dow Jones caiu 2,9%). Seus pares maiores americanos tomaram tombos menores, mas ainda na casa de 20%, 30%. Ações de grandes bancos franceses e britânicos recuaram, no ano, entre 30% e 40%.
Enfim, houve a revisita da crise da dívida da velha senhora, a Grécia. Na sexta, FMI, União Europeia e Banco Central Europeu cortaram a conversa sobre a nova parcela do empréstimo tapa-buraco grego.
A Grécia diz que vai ter recessão de 5% neste ano e, portanto, seu deficit será maior que o combinado com a troika. Coisa de € 1 bilhão, ninharia, mas FMI, UE e BCE acham que os gregos estão enrolando as privatizações e as "reformas" prometidas. Querem pressioná-los.
Mas vão fazer o quê? Deixar a Grécia dar calote? Os europeus querem ver os gregos pelas costas, claro.
Porém, se a Grécia desmorona, Portugal e Itália vão em seguida, arrastando a banca do continente. E o crédito na economia mundial.

MARCELO GLEISER - Você comeria carne de proveta?

Você comeria carne de proveta?
MARCELO GLEISER
FOLHA DE SP - 04/09/11

Quem tiver problemas em comer carne produzida em laboratório deveria visitar um matadouro

Imagine que um dia você vai ao supermercado e encontra, junto aos cortes usuais de carne e galinha, carnes produzidas em laboratório.
Um pouco adiante, vê filés de peixe, também criados artificialmente. Um rótulo amarelo distingue os dois tipos de carne: "natural" e "artificial". Qual você escolheria?
Mesmo que cientistas garantam que não há diferença hormonal, nutricional ou molecular entre os dois tipos de carne, tenho certeza de que a maioria escolheria carnes naturais. Por que isso?
Pode ser por ecos do que chamo de Síndrome de Frankenstein, o medo irracional de que a ciência foi mais longe do que deveria. Porém, se podemos cultivar vegetais, por que não carnes?
Se isso parece coisa de ficção cientifica, pense de novo. Dezenas de laboratórios estão tentando cultivar carne, partindo de amostras de células musculares (que é o principal do que comemos na carne) alimentadas em soluções que induzem a sua proliferação. Em 1999, o holandês Willem van Eelen registrou patentes internacionais da "produção industrial de carne usando culturas celulares".
Após muito esforço, van Eelen convenceu o governo holandês a financiar projetos de pesquisa em três universidades, visando aprimorar o desenvolvimento de tecido muscular em laboratório.
"Se bilhões de pessoas parassem de comer animais, que ótimo seria oferecer-lhes carnes obtidas sem o horror do matadouro, dos caminhões, das mutilações, da dor e do sofrimento causados pela produção industrial de carnes", afirmou Ingrid Newkirk, cofundadora e presidente da fundação Peta (Pessoas pelo Tratamento Ético de Animais).
Imagino que Newkirk seja a inimiga número um dos produtores de carne. De minha parte, escrever estas linhas reafirma meu compromisso em ser vegetariano.
Fora as vantagens éticas, existem inúmeras vantagens ambientais: a agropecuária consome quantidades enormes de recursos naturais, da água à energia, fora o desmatamento incluído no pacote.
Quem tiver problemas em comer carnes feitas em laboratório deveria visitar um matadouro e comparar os dois.
Portanto, a possibilidade parece ser óbvia. Supondo que a carne in vitro seja uma realidade num futuro próximo, quantas pessoas estariam dispostas a comê-la? Note que o processo não envolve qualquer manipulação genética, não tendo nada de transgênico.
A questão envolve a credibilidade da ciência e a sua percepção popular. Quem vai acreditar nos cientistas que trabalham para a indústria de carnes artificiais?
Como temos visto com a questão do aquecimento global, os dias em que pessoas equiparavam ciência à verdade já estão longe.
As coisas se complicam quando os cientistas trabalham para empresas privadas. Pense na diferença entre o depoimento de um especialista em câncer de um hospital e o de outro que trabalhe para uma indústria de cigarros.
Por outro lado, dado que o consumo mundial de carne é de 285 milhões de toneladas por ano, o potencial econômico é gigantesco, mesmo que só uma fração do público esteja disposta a comer carne de proveta.
Alguns cientistas creem que essa seja a solução para o problema da fome mundial: carne artificial, barata e nutritiva. Outros querem só ganhar dinheiro.
Espera-se que cientistas do governo informem o público das vantagens e desvantagens da carne artificial. Enquanto isso, talvez seja hora de você repensar seus hábitos alimentares.

CLÓVIS ROSSI - Em busca da "demo-islam"

 Em busca da "demo-islam"
CLÓVIS ROSSI 
FOLHA DE SP - 04/09/11

Revoluções árabes darão origem a batalha entre instintos primordiais das sociedades e a modernidade


As revoluções em curso no mundo árabe darão origem a uma batalha entre os instintos primordiais de cada sociedade envolvida e a modernidade.
É a avaliação de Uzi Rabi, diretor do Centro Moshe Dayan de Estudos Africanos e do Oriente Médio da Universidade de Tel Aviv.
Decodificação: para Rabi, as revoltas nasceram de uma rejeição frontal às tiranias, de parte das bases da sociedade, o que ele festeja.
Mas as elites tradicionais tratarão de impor seus "instintos primordiais" (tribais, étnicos, religiosos, clânicos, autoritários).
Quem vai ganhar essa disputa é algo que ninguém está em condições de dizer. Mas Rabi escolhe o seu lado: "Tomara que surjam muitas Turquias no Oriente Médio".
Entenda-se por Turquias o surgimento do que o professor chama de "demo-islam", a combinação entre democracia e islamismo, até hoje presente apenas na Turquia dos últimos dez anos, mais ou menos.
É curioso que no mesmo dia em que Uzi Rabi usava essa expressão, em conversa com jornalistas brasileiras, o presidente do Conselho Nacional de Transição da Líbia, Mustafa Abdel Jalil, dizia algo muito parecido, em sua reunião com a comunidade internacional em Paris: assegurava que o líbio "é um povo muçulmano comprometido com a liberdade e a democracia".
Fácil de falar, muito difícil de por em prática, como admite até mesmo um torcedor do modelo como Uzi Rabi.
É sempre relevante ouvir opiniões de especialistas israelenses por ao menos dois motivos: vêm do único país do Oriente Médio e adjacências em que o fluxo de informações é absolutamente livre. Dois -e mais importante: estudar a evolução da vizinhança é uma questão existencial, em se tratando de país que vive em um ambiente hostil.
Tão hostil que o professor Rabi reconhece que, para Israel, é mais confortável ter Bashar Assad no comando na Síria, apesar de ser um país ainda tecnicamente em guerra com o Estado judeu, do que um eventual governo rebelde.
É a velha história: melhor um demônio antigo e por isso conhecido do que uma entidade ainda sem rosto como o movimento rebelde.
O que complica ainda mais a vida para Israel é o fato de que as revoltas e alguns eventos anteriores levaram a uma situação inédita na região, conforme a avaliação do especialista: as potências que emergem como dominantes não são árabes. São persa (Irã) e turca.
Pior: o Irã já foi bom amigo de Israel, até a queda do xá, em 1979; hoje, é seu maior inimigo. A Turquia substituiu o Irã como o grande aliado israelense no mundo muçulmano, até a invasão de Gaza, em 2009.
A partir daí, começou um processo de distanciamento que atingiu o pico esta semana: degradou as relações diplomáticas ao nível de segundo secretário, cortou os laços militares e, acima de tudo, "Israel está sendo desprovido da amizade da Turquia", disse o chanceler Ahmet Davutoglu.
Tudo isso no momento em que o xadrez regional está para ser dramaticamente afetado pela petição da Autoridade Palestina para que seu Estado seja plenamente reconhecido pelas Nações Unidas, tema a que voltarei mais adiante.

MAC MARGOLIS - A flor da primavera latina


A flor da primavera latina
MAC MARGOLIS
O ESTADÃO - 04/09/11


Como revolucionária, Camila Vallejo decepciona. Com olhos verdes, um piercing no nariz e 220 mil amigos no Facebook, a universitária chilena está mais para vedete do que para as barricadas. Mas é justamente essa líder estudantil de 23 anos a personagem mais célebre do movimento político que revirou o Chile e colocou à prova o governo do presidente Sebastián Piñera.

A flor da primavera latina, a bela e a fera. Não faltam metáforas para descrever a militante do Partido Comunista e sua cruzada para mudar o sistema educacional do Chile. Antes, ninguém sabia quem era a aluna de geografia da Universidade do Chile. Hoje, ela é ídolo nacional.

Os protestos que liderou provocaram uma crise no comando da policia chilena, em apuros após a morte de um manifestante e a demissão de uma secretária do Ministério da Cultura, cujo desabafo infeliz soou como uma ameaça: "Mata-se a cadela e acaba-se a ninhada." Ela também forçou o governo a reescrever seu plano para reforma do ensino.

Quando sai às ruas, como fez em Brasília esta semana, se vê cercada de tietes, paparazzi, pedidos de autógrafos, uma penca de jornalistas e políticos. Difícil não se empolgar com a energia do movimento que lidera.

No seu grito de luta, porém, há exageros que descaracterizam a política chilena e mesclam a justificada reivindicação para reformas educacionais com flâmulas partidárias e desvios ideológicos.

Por mais importante que seja, a estação de protestos chilena não é a primavera árabe. Enquanto os dissidentes de Líbia e Síria arriscam a vida para derrubar ditaduras sanguinárias, os estudantes estão nas ruas por causa da democracia. São filhos de primaveras passadas, herdeiros da estabilidade e prosperidade construída ao longo das últimas décadas.

Camila tem toda a razão em reclamar das distorções do sistema educacional. Nos anos 70, o Chile tinha poucas universidades públicas e muitas privadas, todas dependentes de recursos públicos. O diploma era para poucos.

O governo Pinochet cortou subsídios e incentivou empresas privadas a investir em faculdades. Em duas décadas, o número de alunos nas universidades passou de 200 mil para 1,2 milhão. As dívidas dos alunos também aumentaram.

Pressionado, Piñera cedeu, propondo abaixar os juros para alunos, aumentar as bolsas de estudo e injetar mais US$ 4 bilhões no ensino. Os estudantes, porém, não querem ajustes. Querem a mudança do "modelo": o ensino gratuito e "para todos."

Para Camila, a educação não se vende, é um bem público e deve ser pago pelo Estado, sem atravessadores ou lucros. A batalha do ensino tornou-se uma aula de ideologia caduca. A bandeira da estatização já empolgou mais. Na última eleição, os radicais tiveram menos de 7% dos votos.

O levante estudantil atrai apoios de grupos que querem ganhar no tapetão o que não conseguem conquistar pelo voto. Confundir Piñera com Pinochet e bradar contra a "educação da ditadura" pode soar bem nos protestos, mas desfoca a pauta da educação de qualidade. Pode ser que os ânimos chilenos esfriem, mas, sem equilíbrio, a primavera chilena também arrepia.

JOÃO UBALDO RIBEIRO - Reforma na corrupção


Reforma na corrupção
JOÃO UBALDO RIBEIRO
O Estado de S.Paulo - 04/09/11

Como previsto, já arrefece o mais recente debate sobre corrupção. Ainda se discute, sem muito entusiasmo, a absolvição de uma deputada que foi filmada recebendo um dinheirinho suspeito, mas isso aconteceu antes de ela ser deputada, de maneira que não vale. Além da forte tendência de os parlamentares não punirem os seus pares, havia o risco do precedente. Não somente o voto é indecentemente secreto nesses casos, como o precedente poderia expor os pescoços de vários outros deputados. O que o deputado faz enquanto não é deputado não tem importância, mesmo que ele seja tesoureiro dos ladrões de Ali Babá.

Aliás, me antecipando um pouco ao que pretendo propor, me veio logo uma ideia prática para acertar de vez esse negócio de deputado cometendo crimes durante o exercício do mandato. Às vezes - e lembro que errar é humano - o sujeito comete esses crimezinhos distraído. Esquece, em perfeita boa-fé, que exerce um mandato parlamentar e aí perpetra a falcatrua. Fica muito chato para ele, se ele for flagrado, e seus atos podem sempre vir à tona, expostos pela imprensa impatriótica. Não é justo submeter o deputado a essa tensão permanente, afinal de contas, ele é gente como nós.

Minha ideia, como, modéstia à parte, costumam ser as grandes ideias, é muito simples: os deputados usariam uniforme. Não daria muito trabalho contratar (com dispensa de licitação, dada a urgência do projeto), um estúdio de alta-costura francês ou italiano, ou ambos, para desenhar esse uniforme. Imagino que seriam mais de um: o de trabalho, usado só excepcionalmente, o de gala, o de visitar eleitores e assim por diante. Enquanto estiver de uniforme, o deputado é responsabilizado pelos seus atos ilícitos ou indecorosos. Mas, se estiver à paisana, não se encontra no exercício do mandato e, por tanto, pode fazer o que quiser. E depois, é claro, exigir seu foro especial para o julgamento. Surgirão alguns problemas de implantação, mas logo serão superados e se firmará jurisprudência sobre se estará uniformizado o deputado que tenha momentaneamente tirado o paletó para melhor acomodar o bolo de dinheiro desviado, ou a deputada que, confrontada por semelhante problema de espaço, levante a saia por um instante fugaz. (Mais de dez segundos talvez configurem um adicional de conduta indecorosa.)

Mas isso é um mero detalhe, uma providência que melhor seria avaliada no conjunto de uma reforma séria, que levasse em conta nossas características culturais e nossas tradições. Já estamos cansados de ler e ouvir explicações sobre por que há tanta corrupção no Brasil, a começar pela afirmação de que Portugal só mandou para cá perigosos degredados, assim nos legando ancestrais da pior extração. Mas mesmo que isso fosse verdade, que dizer então da Austrália, que foi realmente colônia penal? Também não cola direito essa conversa sobre como corrupção e esbórnia com o dinheiro público existem em toda parte. Claro que existem, mas nunca, a não ser em sociedades politicamente atrasadas, nas proporções exuberantes que vemos aqui - e tudo sem punição de espécie alguma.

O que cola mesmo aqui são os ensinamentos de líderes como o ex-presidente (gozado, o "ex" enganchou aqui no teclado, quase não sai), que, em várias ocasiões, torceu o nariz para denúncias de corrupção e disse que aqui era assim mesmo, sempre tinha sido feito assim e não ia mudar a troco de nada. E assumia posturas coerentes com esse ponto de vista. O governo atual parecia que ia em outro caminho, mas não vai nem nada, até porque, segundo declaração da presidente que não entendi, mas deve ser por causa da profundidade do pensamento, isto aqui não é Roma antiga. De qualquer forma, o estabelecido e aceito é a boa a velha teia da corrupção em todos os níveis.

Contudo, quando se descobre mais um caso de corrupção, a vida republicana fica bagunçada, as coisas não andam, perde-se trabalho em investigações, gasta-se tempo prendendo e soltando gente e a imprensa, que só serve para atrapalhar, fica cobrando explicações, embora já saibamos que explicações serão: primeiro desmentidos e em seguida promessas de pronta e cabal investigação, com a consequente punição dos culpados. Não acontece nada e perdura essa situação monótona, que às vezes paralisa o País.

A realidade se se exibe diante de nós e não a vemos. Em lugar de querer suprimir nossas práticas seculares, que hoje tanto prosperam, por que não aproveitá-las em nosso favor? Creio que o estabelecimento do Fundo Nacional de Governabilidade Sustentável substituiria com ampla vantagem o atual sistema de barganhas e concessões. Seria criado o auxílio-voto para os deputados que relutassem em votar com o governo. Não precisa nomeação, não precisa nada disso, basta sacar o auxílio-voto (resultado de cálculos complexos, conforme o caso) no Fundo e votar com a consciência e o bolso tranquilos. Os projetos andariam tranquilamente, todos continuariam a roubar como sempre roubaram, mas de forma construtiva e organizada, contribuindo para a economia e a paz política. Cursos de formação de quadrilha podiam ser oferecidos a todos e, dessa forma, as mutretas não seriam, em tantos casos, tão mal conduzidas. O brasileiro preocupado com o assunto já pode sonhar com uma corrupção moderna, dinâmica e geradora de empregos e renda. E não pensem que esqueci as famosas classes menos favorecidas, como se dizia antigamente. O mínimo que antevejo é o programa Fraude Fácil, em que qualquer um poderá habilitar-se ao exercício da boa corrupção, em seu campo de ação favorito. Acho que dá certo, é só testar. E ficar de olho, para não deixar que algum corrupto corrupto passe a mão no fundo todo, assim também não vale.

JOÃO BOSCO RABELLO - Identificação de custos


Identificação de custos
JOÃO BOSCO RABELLO
O Estado de S.Paulo - 04/09/11

Ao excluir o Poder Judiciário da peça orçamentária enviada ao Congresso Nacional, a presidente Dilma Rousseff quis dar visibilidade ao custo do aumento salarial de 56% a uma elite de servidores cujos ganhos, somados o salário-base e os benefícios agregados ao contracheque, faz com que boa parcela já receba acima do teto dos juízes.

A restrição do governo é à extensão do aumento a todo o Poder Judiciário. Gostaria que ele fosse limitado aos 14% dos juízes dos tribunais superiores, mas ao forçar essa posição, impôs ao Superior Tribunal Federal (STF) o sentimento de humilhação e submeteu-o ainda mais à pressão dos servidores.

Dilma manteve a estratégia que vem cumprindo de expor as fontes de custos que considera incompatíveis com a crise econômica internacional e seus reflexos no Brasil e que permaneceram refratárias à pressão política do governo.

Fez assim com as emendas parlamentares, com os projetos que ampliam custos da Saúde e com salários de policiais e bombeiros.

A conduta presidencial leva em conta principalmente os reajustes em pauta a partir de setembro, de metalúrgicos (20%) bancários e petroquímicos e o novo salário mínimo de R$ 620, a partir de janeiro, propulsores de consumo, em contraste com a queda combinada de juros com o Banco Central, obtida pela economia adicional de R$ 10 bilhões para aumentar o superávit.

Essa cifra é superada pelos aumentos em pauta no Congresso - principalmente o do Judiciário (R$ 8 bi) e do piso nacional de policiais e bombeiros (R$ 35 bi). E mais a a emenda 29, da saúde.


Veto

No contexto dos aumentos de custos em pauta na Câmara, o que efetivamente preocupa o governo é o que pode resultar da fixação de um piso nacional para policiais e bombeiros - a chamada PEC 300, que Dilma já disse que vetará, se vier a aprovada. A presidente, segundo auxiliares próximos, está disposta a assumir o ônus do veto. O aumento do Judiciário seguiu finalmente para o Congresso sem a devida cobertura, como um cheque sem fundos que o Legislativo terá de cobrir, eliminando outras despesas de seu interesse. A emenda 29, que amplia os gastos com saúde, é agora a que menos incomoda o governo.


Recado

Foi para o PR o recado de Lula de que Dilma não estará sozinha se vier a ser aprovada uma CPI da Corrupção, como ameaça o ex-ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento. A adesão do PR tornaria viável o requerimento pretendido pela oposição.


Sindicalismo de toga

O conflito gerado pela exclusão do Judiciário no orçamento reabriu a discussão sobre o desgaste dos presidentes de tribunais superiores com aumento dos servidores. Segundo um ministro do STF, que já foi do Executivo, o atual sistema fez do presidente do STF, César Peluso, um líder sindical a defender sua categoria. "Funções técnicas comuns à administração pública, deveriam ter uma gestão única de RH", defende esse ministro.


Anatel

O PMDB não apoia mais Antonio Domingos Bedran para uma das vagas do Conselho Diretor da Anatel. O nome do partido agora é o do ex-consultor jurídico do Ministério das Comunicações, Marcelo Bechara, que já havia trabalhado lá durante a gestão Hélio Costa. Para a outra vaga, que foi aberta no final do ano passado, o nome forte é André Barbosa, do PT, ex-assessor de Dilma na Casa Civil. A ideia é enviar os dois nomes ao Senado, em um momento mais próximo do final do mandato de Ronaldo Sardenberg, em novembro.

SOBRE VACAS E OVELHAS


DANIEL PIZA - O engenho de Galileu


O engenho de Galileu
DANIEL PIZA
O Estado de S.Paulo 04/09/11

O leitor pode culpar minhas obsessões, mas não consigo deixar de ver uma simbologia na publicação do livro de Galileu Galilei, Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo Ptolomaico e Copernicano (editora 34). A obra é de 1632 e a tradução brasileira só foi feita em 2001 por Pablo Rubén Mariconda, tradução que agora ganha edição voltada ao público mais amplo. Quer dizer que até este século os leitores brasileiros eram obrigados a consultar edições de outros países, o que significa que poucos o fizeram espontaneamente. E um idioma precisa se enriquecer de traduções de grandes prosadores, o que Galileu, como notou Italo Calvino e como essa tradução demonstra, seguramente foi. A dedicatória do tradutor diz tudo: "A meu pai, Letizio Mariconda, que tanto sonhou com o Diálogo em português". Qual é, então, a simbologia? A de um país que insiste em dar pouco valor à ciência e à prosa científica, entre outros motivos porque colonizado durante a mesma Contrarreforma que condenou Galileu.

A introdução de Mariconda é preciosa por vários pontos. O maior deles é a descrição de como a pesquisa e a literatura de Galileu significaram não apenas uma mudança científica, mas acima de tudo cultural. A defesa que o Diálogo faz do geocentrismo de Copérnico tem caráter e implicações filosóficas, como, para ficar em apenas mais um exemplo, a teoria da seleção natural de Darwin. "Até Copérnico, pode-se dizer que as próprias categorias do pensamento estão organizadas em torno da afirmação de nossa posição central no universo", escreve Mariconda. É por isso que Galileu defende a matemática dos ataques que recebe dos teólogos, os quais querem "salvar as aparências", ou seja, impedir que os engenhos da razão mostrem que os sentidos são enganados, pois a visão católica e aristotélica era a de que apenas Deus veria detrás dos fenômenos sensíveis.

No Brasil, onde cientista não é considerado intelectual, opinião própria é artigo raro e o ensino fracassa redondamente em transmitir conceitos e operações matemáticas, mostrar esse valor de Galileu na mudança da mentalidade humana - a troca do dogma pela pergunta, do sermão pela observação - seria essencial. É comum ouvir, nesta cultura contrarreformista, que temos de "conciliar" religião e ciência, pondo a ênfase mais na arrogância da ciência do que da religião, esquecendo como as doutrinas religiosas trabalham com descrições do mundo natural e combateram a liberdade científica, travestindo muitas vezes esse combate de loas à humildade. Há um viés antirracional na mentalidade brasileira, um dos países menos seculares do planeta, ainda que se considere "do futuro". Galileu, como Darwin depois dele, diz pela boca de Sagredo que não vê por que a Terra seria menos nobre e admirável por sofrer "tantas e tão diversas alterações, mutações, gerações, etc. que nela acontecem incessantemente". Que a Terra se mova é o que a faz viva.

Cadernos do cinema (1). Fui com os filhos ver O Planeta dos Macacos - A Origem, de Rupert Wyatt, e gostei muito. É uma alegoria da evolução dos primatas em humanos. James Franco é um pesquisador que, ansioso para curar o Alzheimer de seu pai, desenvolve uma injeção que provoca mutação genética num chimpanzé, Caesar, que gradualmente adquire faculdades humanas, ao mesmo tempo que mantém a resistência imunológica e a agilidade física dos macacos. Vemos Caesar desenvolvendo intensa empatia com outros seres (a ponto de tomar as dores do velho e defendê-lo passionalmente do vizinho), estendendo habilidades para ferramentas (Miguel Nicolelis aplaudiria) e, até, no final, se expressando verbalmente (e é interessante que sua primeira palavra seja "Não!"). E o vemos junto a outras espécies de símios ganhando o poder de liderança, peitando o macho alfa dos chimpanzés, se comunicando com o orangotango e atraindo para si o forte gorila; mais importante, dando um senso de estratégia ao grupo tribal, como na cena da ponte. Daí seu nome, que remete a cesarismo, pois se impõe ao topo da hierarquia em torno do projeto pessoal de se vingar da instituição que levou sua mãe à morte.

Os efeitos impressionam pelo refinamento, não pelo exagero; um bom ator de verdade, Andy Serkis, empresta expressividade para que os animadores digitais façam dele um macaco com semblante humano, em especial um olhar dirigido e significativo. Ele fica a meio caminho entre homens e macacos, o que não lhe permite criar helicópteros e sinfonias, mas o mantém mais perto da natureza. Neste aspecto, o filme tem aquela velha ideologia rousseauniana de Hollywood, segundo a qual a ciência passa para o lado do mal quando se arroga a interferir demais no curso da natureza. Não que a crítica à manipulação genética comandada por interesses meramente lucrativos - que precipita a empresa a querer usar o remédio em humanos, ignorando as diferenças inclusive negativas em relação aos símios - não seja razoável, mas o que vale o filme é o processo que mostra decorrer em Caesar. Deixa-se de lado um assunto fundamental, a sexualidade (ninguém flerta com Caesar, nenhuma Cornélia), mas todo o resto está lá. E não é pouco.

Cadernos do cinema (2). De Melancolia eu esperava mais, não menos, em parte porque eu tinha lido que nele Lars Von Trier deixou de lado a violência grand-guignol de Anticristo e voltou a um estilo mais parecido com o do Dogma. De fato, as cenas do casamento, com câmeras tremidas em meio à família desestruturada, lembram o movimento dos anos 90; desde a abertura, com as infinitas manobras da limusine, até a amargura da mãe e o sumiço do pai, mergulhamos gradualmente nessa realidade íntima. Chegamos até a entender parte da inclinação depressiva de Justine (Kirsten Dunst), no dia em que se casa e ainda é promovida, porque também vemos como seu marido e seu emprego são "chatos como uma calçada", na frase de Flaubert - embora não entendamos o comportamento da noiva, que ultrapassa o mau-caratismo.

Mas, principalmente a partir da segunda metade, dedicada à sua irmã (Claire), quando vemos o efeito sobre as duas da aproximação de um planeta chamado Melancholia, vemos o Von Trier de sempre, com sua arrogância e misoginia. Os homens são meio bobos e monetaristas, mas também confiantes e engenhosos; as mulheres, no entanto, mais uma vez são criaturas controladas por forças maiores, seja a melancólica Justine seja a neurótica Claire, que tem um surto de histeria com a possibilidade de perder seu mundo aparentemente perfeito. As imagens "cósmicas", como em A Árvore da Vida, beiram o kitsch; os diálogos dizem coisas como "A Terra é ruim. Estamos sós no universo"; e o excesso de pausas e lentidão dão um tom pseudoprofundo à narrativa, embalada por Tristão e Isolda, apesar da ópera de Wagner tratar do destino de um casal sexualmente atrelado. Os nazistas usaram muito Wagner, Lars Von Trier elogiou a arquitetura nazista de Albert Speer. Mas há uma insuperável distância entre a grandeza trágica de Wagner e a arte grandiloquente e apocalíptica de Von Trier.

Por que não me ufano (1). Que ninguém tenha dúvida de que não existe na classe política o menor compromisso contra a corrupção, a não ser até um determinado ponto aonde a opinião pública a obriga a se mover. Que Jacqueline Roriz não tenha sido cassada porque o crime que foi flagrada cometendo aconteceu antes de ter sido eleita, eis um argumento de um cinismo insuperável. Dele se depreenderia, por exemplo, que ela vá ser de alguma forma julgada e condenada... E desde quando o fato de um representante público ser ladrão antes ou depois da eleição muda o fato de que ele não tem moral para representar o público? O Executivo não fica atrás. Se quisesse mesmo fazer uma faxina, a presidente Dilma Rousseff deveria tomar a decisão de cortar e muito a quantidade de cargos públicos "de confiança" (sic), nomeados política e não tecnicamente; derrubar de 20 mil para 2 mil, como se tem nos países desenvolvidos.

Sobre a queda dos juros, só um ortodoxo doentio não comemora a queda de 0,5 ponto anunciada para a Selic nesta semana. Afinal, temos a maior taxa de juros do mundo e com folga. Mas só um heterodoxo ingênuo não percebe que os motivos técnicos que poderiam ser alegados - como o desaquecimento da produção, que poderia levar a uma queda do ritmo da inflação - não batem com a postura que o BC vem adotando desde há muito tempo. A presidente foi a primeira a dizer que não daria margem para a inflação, a qual dificilmente não vai bater no teto da meta. O governo está de olho mesmo é na crise mundial, que costuma afetar muito o Brasil e pode trazer um PIB ainda menor até o final do ano.

Por que não me ufano (2). Vou a alguns lugares e ouço algumas histórias que me põem a pensar de novo sobre a cafonice consumista dos endinheirados brasileiros, ou paulistanos em particular. As mulheres vão na onda do "ão": cabelão, oclão, bocão, peitão, carrão. Gastam milhares de reais em maquiagem e cabeleireiro, só usam grifes, repetem as mesmas cores que a indústria decretou estar na moda. Os homens são todos parecidos também, sempre com semblante mal-humorado, como se apenas tolerassem o mundo ao redor, em especial os serviçais que lhes atendem. No shopping Cidade Jardim, me sinto numa ilha da fantasia, na qual os visitantes estão dispostos a pagar por qualquer coisa muito mais do que ela vale, de cafezinhos de R$ 15 a bolsas de R$ 40 mil, bem mais caras do que no exterior.

Sei que a indústria da beleza não para de crescer no mundo todo, apesar da crise, e sei que vivemos em tempos que dão mais valor às aparências do que às inteligências. Não tenho nada contra, ou melhor, tenho tudo a favor de se vestir bem, de se cercar de coisas bonitas, etc.

Mas só posso chamar de mau gosto esse mundinho narcisista, esnobe, que não apenas vira as costas para a realidade social, mas também para a própria elegância.


Aforismo sem juízo

Não há nada que cause mais infelicidade na maioria dos seres humanos do que ver a felicidade da minoria.

DORA KRAMER - Sob medida


Sob medida
DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 04/09/11

Em seu libelo contra o apoio geral à faxina que foi sem nunca ter sido, o PT mais uma vez levanta a tese da "conspiração midiática" à falta de argumentos para defender o indefensável, propõe censura e aponta a reforma política como solução para os males da corrupção.

Em resumo é a pauta do 4.º Congresso do partido que começou na sexta-feira e se encerra hoje em Brasília. Graças às garantias coletivas e individuais da Constituição, cada um discute o que bem entende. Inclusive quando escolhe debater o retrocesso e por mais que a agenda se localize a léguas do que seja relevante para o País.

O partido detentor da Presidência da República, pelo terceiro período consecutivo, de fato não está preocupado com o destino do Brasil: dedica-se exclusivamente a cuidar de si.

Se a ofensiva por razoável asseio moral remete à condescendência de Lula com a degradação dos costumes na política e relembre ao público as incursões do PT pelo terreno da transgressão, criminalize-se a ética como fruto de campanha referida em golpismos do passado.

Se a imprensa livre faz seu papel de fiscalizar, investigar e denunciar evidenciando a negligência governamental, restrinja-se a liberdade, ainda que isso rebaixe o Brasil à condição de não democracia.

Não há a menor importância, desde que o PT se safe e possa prosseguir na consecução de seu projeto de poder a qualquer custo. Ainda que o preço seja pago por todos na conta do atraso.

A opção preferencial pelo próprio umbigo não se traduz só na pauta de um congresso partidário, cujas decisões dificilmente sobrevivem à realidade, mas se expressa também nas ações com alguma chance de produzir malefícios na prática.

O PT vê que o "núcleo do combate à corrupção" está em duas reformas: política e do Estado. Sobre esta última prega no vazio, pois nem o partido nem seu governo dão sinais de insatisfação com o statu quo.

Quanto à reforma política os desejos do partido estão contidos na proposta que começa a tramitar na Câmara sob os auspícios do relator Henrique Fontana (PT-RS).

E quais são esses anseios? Pelo que diz a proposição, resumem-se a atender aos interesses do PT com concessões ao PMDB a fim de facilitar a maioria que faltou ao partido no Senado para aprovar o voto em lista fechada e o financiamento público de campanhas eleitorais.

A fórmula encontrada favorece os maiores partidos, em nada facilita a vida do eleitor, muito menos na essencial aproximação entre representantes e representados, não confere transparência ao processo e aprofunda os vícios do financiamento.

A atual sistemática do voto proporcional, de difícil compreensão, fica ainda mais confusa. O eleitor vota duas vezes: no partido e em um candidato de sua preferência, não necessariamente da mesma legenda escolhida para o voto em lista, sendo que os eleitos serão escolhidos alternadamente entre os mais votados nominal e partidariamente.

Se hoje dificilmente alguém lembra em quem votou, depois disso o eleitor nem sequer saberá quem escolheu, mas as cúpulas partidárias reforçarão suas posições.

De todos os defeitos o mais grave é o dito "financiamento público exclusivo" que prevê a criação de um fundo composto por dinheiro do Orçamento, mais doações de pessoas físicas e jurídicas. Ou seja, ao sistema atual acrescenta-se o dinheiro público.

A ser distribuído de que maneira? Uma pequena parte (5%) para todas as legendas, 15% para os partidos com representação no Congresso e 80% proporcionalmente ao tamanho das bancadas eleitas no pleito anterior.

Tudo feito na medida para fortalecer os mais fortes (PT e PMDB) e dificultar o fortalecimento dos mais fracos.

Pato pagador. Quando o governo fala em novas "fontes de recursos" fala do bolso do público pagante. E o Congresso, a fim de não parecer "irresponsável", embarcará na onda do discurso que habilmente a presidente constrói.

Férias. De partida para a segunda etapa. Até a volta, em 27 de setembro.

MÔNICA BERGAMO - APOLINÁRIO NO SALÃO

APOLINÁRIO NO SALÃO
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 04/09/11

O vereador que criou o Dia do Orgulho Hétero diz que se casou virgem, lamenta ter sido chamado de "feio" e afirma que é hora de se aposentar


O vereador Carlos Apolinário, 59, coloca o CD de seu filho, Claudio Apolinário, no som instalado no segundo andar da cobertura de 280 m² em que vive com a mulher, Dalva, no bairro de Santana. Do aparelho surge a voz grave do jovem, que é pastor evangélico, interpretando a canção que fez para o pai: "Papaai, como eu admiro você/ Pois você me ensinou a viver esta vida/ Me ensinou a sorrir, me ensinou a lutar/ Me ensinou a sonhar e até mesmo a chorar/ Papaai...".

"Eu não gosto de pensar nisso porque eu não tenho um filho homossexual", diz Apolinário, autor do projeto que criava o Dia do Orgulho Heterossexual, e que foi vetado na semana passada pelo prefeito Gilberto Kassab. Além de Claudio, que é casado e tem três filhos, ele é pai de Carlos Apolinário Junior, solteiro aos 37 anos.

"Eu não ia ficar contra o meu filho. Eu continuaria amando. Mas, ainda que fosse uma filha com o namorado: precisa ficar dando beijo de língua na frente da família? Espera eu sair!"
Para o vereador, "os gays viraram uma categoria especial de ser humano. Eles não querem esperar a sociedade evoluir e se acostumar com essa questão, que é nova. Acham que todo mundo tem que engoli-los."

Ele troca o CD do filho pelo da mulher. "Aleluia, Aleluia/A Deus Jeová", canta Dalva. "Eu tinha 16 anos quando fui na casa do meu sogro, em Vila Medeiros (zona norte), pedir ela em namoro." Em dezembro, comemoram 39 anos de união. "Eu me casei virgem", diz Apolinário.
Percebe a incredulidade. "Tô te falando que ela foi a primeira!". E única, afirma.

"Sou gamado nessa mulher. Ó que bonita que ela tá ainda!" "Ainda?", rebate Dalva, enquanto arruma a mesa do café da manhã. Apolinário toma uma colher de sobremesa de azeite puro. "É a gordura de que preciso no dia." Come frutas e toma Isopure, complexo vitamínico que ajuda a ganhar músculos. Ingere 12 pílulas de ômega 3.

Há alguns anos, ele decidiu mudar o visual. "Sabe que já perdi muito voto por isso? As pessoas acham que eu não sou eu. Mas sabe aquelas coisas que te dão vontade de fazer?"
Perdeu 27 kg depois de frequentar uma clínica adventista. Fez cirurgia da vista com laser e abandonou os óculos. Corrigiu as pálpebras. Tirou o bigode. "Aí, olhei no espelho e falei: vou dar um trato no cabelo."

É quando surge em sua vida o cabeleireiro Régis Marciliano. "Estou há oito anos com ele. Já troquei de quatro salões atrás dele."

Régis já foi citado em vários jornais. O cliente famoso invocava seu nome para provar que, apesar do Dia do Hétero, não tinha preconceito, já que o cabeleireiro é gay.
"Ele me abraça, me beija", repetia. Antes de ir para o seu escritório no edifício Joelma, no centro, o vereador concorda em dar uma passada no salão de Régis. "Eu só peço que vocês não o fotografem. Os gays radicais podem fazer passeata em frente ao salão." Apolinário dirige uma perua Toyota blindada.

"Convivo aqui com 12 gays, toda sexta (dia em que Apolinário faz mão, pé e massagem relaxante). Me beijam, me respeitam, eu os respeito." Um profissional o cumprimenta.
"Esse é gay. Nem parece, né?", cochicha. Régis se aproxima. Se beijam no rosto.

O cabeleireiro não vê problema em ser fotografado. "Eu adoro o Apolinário. Eu sempre falo: "Gente, se tem o dia do gay, do negro, do índio, desse povo todo, por que não o do hétero?"
Mas Régis é contra todas as datas. "No Dia do Hétero, a gente vai comemorar o quê, Apolinário?" "Régis, o Dia do Hétero é uma besteira. Eu apresentei para discutir os excessos dos gays. Mas respeito o ser humano gay."

Régis conta que já sofreu agressão e que, na década de 80, gay "tinha que correr da polícia". Hoje, diz, "não mais". É por isso que ele é contra a Parada Gay. "Eu ia porque o gay tinha uma causa. Hoje não precisa. Tá na novela, nos shoppings. A Parada tem um sentido puramente comercial." Para Apolinário, "tirando aqueles casinhos na avenida Paulista, não tem mais agressão a gay"

Apolinário se despede: "Eu não te disse que meu cabeleireiro era um doce?".

Na polêmica do Dia do Hétero, o novelista Walcyr Carrasco escreveu em seu blog que "esse tipo de projeto sempre é inventado por gente feia". Outro jornalista disse: "A julgar pelo resultado daqueles cabelos negros [de Apolinário] como a graúna", seu cabeleireiro era um "profissional de duvidosa competência".

"Eu não me acho bonito. Mas eles estão me discriminando. Isso é argumento?" Além dos gays, diz, "tem discriminação com o gordo, o negro, o feio, o religioso. Eu sou o cara mais discriminado, sabia? Sempre escrevem 'Apolinário, evangélico'".

Diz que decidiu disputar eleições porque via os políticos fazerem campanha na igreja Assembleia de Deus da Vila Medeiros, que frequentava. "Eles sumiam depois. Pensei: por que não um candidato da própria igreja?"

Foi eleito deputado estadual, federal, vereador. Chegou a governar o Estado em 1992, quando presidia a Assembleia Legislativa e substituiu o então governador Fleury por dez dias.

Já na política, comprou a Rádio Vida. E arrenda a Rádio Musical, cujos horários aluga para igrejas evangélicas. Já teve programa nas emissoras. Na época da campanha, cabos eleitorais distribuem seu material "nas 20 mil igrejas evangélicas de SP". Ele explica: "Igreja católica tem uma em cada bairro. Se todos quiserem rezar, não tem lugar. Na favela você entra e tem meia dúzia de igrejas evangélicas. Sempre vai ter uma cadeirinha para o fiel que queira ir ao culto."

Ele diz que, no próximo ano, vai se aposentar. "Político virou sinônimo de tudo o que não presta. Um erra, todos pagam." Em 2010, foi considerado o pior vereador de SP pelo Movimento Voto Consciente. Tirou 0,42 na avaliação dos 20 projetos de sua autoria.

A imprensa, diz, "tem parcela de responsabilidade. Se um político tem um projeto bacana, ninguém fala. Se outro faz coisa errada, vira manchete". Conta que, numa entrevista a uma rádio, o locutor perguntou: "O senhor não tem nenhuma ideia melhor que o Dia do Hétero?".
"Tenho", respondeu. "Mas vocês só perguntam disso!"

Aprendeu com os anos que sucesso mesmo fazem propostas como o Dia do Hétero, que virou notícia até na americana Fox News.

Deu trabalho passar o projeto na Câmara Municipal. Os 55 vereadores têm um acordo informal para que todos aprovem duas propostas de cada um deles por semestre, num total de 110 -muitas são votadas sem que a maioria saiba de que tratam.

O projeto de Apolinário, de 2005, nunca entrava em pauta. Ele então se rebelou. E se inscreveu para comentar todos os projetos dos colegas, cada um durante meia hora. Em uma semana, falaria por 20 horas. Nas primeiras duas horas, venceu pelo cansaço. E o Dia do Hétero foi aprovado.

Com o veto do prefeito Gilberto Kassab, ele considera o assunto "encerrado". Vai agora lutar pela proibição da Parada Gay na avenida Paulista. " Convivo aqui com 12 gays, toda sexta. Me beijam, me respeitam, eu os respeito. Eu não te disse que meu cabeleireiro era um doce?"
" Eu disse ao pastor: o senhor gasta R$ 400 mil [em quatro anos de despesas da igreja] para dizer que Jesus é bom. Eu, R$ 200 mil na eleição pra dizer que sou bom"

HUMBERTO WERNECK - Nem aqui nem na Capadócia!


Nem aqui nem na Capadócia!
HUMBERTO WERNECK
O Estado de S.Paulo - 04/09/11

Era eu redator-chefe da Playboy (sim, rapazes, ela mesma, aquela revista farta em cultura trans que vocês compram para ler interessantes artigos e entrevistas aprofundadas) quando, uma tarde, me liga a escritora Hilda Hilst, grande figura e escritora melhor ainda, porém dada a chamar em momentos pouco adequados. Foi o que aconteceu naquele dia de dezembro, em plena correria para fechar uma edição que deixaríamos pronta antes das férias coletivas. Em meio ao caos, lá estava ao telefone, chorosa, aquela que não sem bons motivos já chamei de minha amiga heavy metal.

A conversa também não era nova: Hilda se dizia financeiramente arruinada, e, uma vez mais, imprecava sem piedade contra pessoas que lhe haviam "tomado" terras. Ela vivia na Casa do Sol, perto de Campinas, outrora sede de uma propriedade rural que lhe viera às mãos como herança de família. No correr dos anos, quando seu saldo bancário emagrecia, Hilda ia passando nos cobres uns nacos de terra, com o que sua fazenda acabou praticamente resumida à Casa do Sol - bela construção em estilo espanholado que a escritora dividia com agregados (Caio Fernando Abreu foi um deles), o ex-marido e várias dezenas de cães recolhidos por aí.

Curiosamente, Hilda não parecia dar-se conta da relação que havia entre suas operações imobiliárias e o encolhimento da propriedade. Considerava-se lesada pelos compradores, uma gente solerte que a seu ver passava a perna na ingênua e desamparada escritora - e que por isso ela fustigava com rajadas de pragas e desaforos, cravejadas dos mais corrosivos e infamantes palavrões.

Naquele dezembro de 1994 Hilda estava outra vez sem dinheiro e vinha oferecer à Playboy um conto erótico de sua lavra, ainda por escrever, na linha daqueles que, fazia uns anos, lhe haviam valido notoriedade até literária. Sim, meu amor, resumiu ela cruamente, uma história com muita sacanagem. Mande lá, disse eu, confiante em que os leitores (a palavra talvez não seja bem esta) não ficariam descontentes se lhes servíssemos alguma prosa estimulante, além, claro, dos artigos interessantes e das entrevistas aprofundadas.

Confesso que não levei a sério a conversa - escaldado por experiências anteriores, imaginei que minutos depois Hilda, tendo conseguido em outra fonte a transfusão de que sua conta bancária precisava, já nem se lembraria do oferecimento da tal "história com muita sacanagem". Tinha sido assim em 1989, numa passagem que já contei: não menos chorosa, num leito de hospital, ela tanto insistiu que aceitei me transformar em seu cabo eleitoral na luta pelo troféu Juca Pato, de Intelectual do Ano, disputado também por "aquele padre", o cardeal Paulo Evaristo Arns. Perdeu, é claro - mas quando liguei, estava alegrinha, já nem se lembrava do "padre" e só faltou me consolar.

Dessa vez, porém, Hilda me surpreendeu: não se haviam passado duas horas quando me chegaram, por fax, as quatro laudas de um texto que, sem entrar no mérito da qualidade literária, resultara impublicável na Playboy. Havia nele, é verdade, uma "viscosidade no meio das coxas", mas me ocorreu que nosso leitor, ao se deparar com exotismos do tipo "deixa-me oscular tua rósea orquídea", talvez tivesse dificuldade em, digamos assim, ligar o nome à pessoa. A própria Hilda deve ter percebido a inconveniência, pois lá pelas tantas introduziu na história um personagem, Humberto, que pergunta: "Não tem um texto mais alegre?". A interlocutora, de nome Hilda, oferece sem muito entusiasmo uma alternativa: "Tem. O Cu do Sapo Liliu, mas é um texto infantil e não é inédito". "Então nada feito, Hilst", decido eu, ou melhor, Humberto. Hilda volta à carga: "Pera, pera, agora me lembro, tem este aqui" - e põe sob os olhos do interlocutor uma lauda intitulada Penis kapadocius, o que me deu o trabalho adicional de explicar à autora, agora na vida real, que o leitor da Playboy, supõe-se, não está interessado nessa mercadoria, ainda que capadócia. Tudo bem, disse Hilda Hilst, alegrinha de dar gosto.

MARTHA MEDEIROS - Tempos de amnésia obrigatória

Tempos de amnésia obrigatória 
MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 04/09/11

A gente procura esquecer para poder ir adiante, mas que espécie de caminho trilhamos quando não enfrentamos a verdade?

Com diferença de poucos dias, uma amiga do Rio e um leitor aqui do Sul me enviaram vídeos protagonizados pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano. Em um, ele dá uma entrevista e, no outro, lê os próprios textos. Ambos os programas estão acessíveis pelo YouTube. Respeito as coincidências: como é que eu ainda não havia me dedicado a esse grande pensador humanista?

Num dos vídeos, Galeano aparece lendo seu texto “El Derecho al Delírio”, onde descreve como seria um mundo ideal, e aproveita para homenagear aqueles que insistem em não esquecer a própria história (a exemplo das mães da Plaza de Mayo) nesses tempos de amnésia obrigatória.

A partir daí não ouvi mais nada, pois considerei marcante essa expressão: tempos de amnésia obrigatória. O assunto mereceria um tratado. Amnésia. É o que explica tanta neurose e tanta infelicidade. A gente procura esquecer para poder ir adiante, mas que espécie de caminho trilhamos quando não enfrentamos a verdade?

Esquecer é uma estratégia de sobrevivência. Somos todos uns esquecidos crônicos. Pra começar, esquecemos de alguns descuidos que sofremos na infância, pois nos educaram para considerar pai e mãe infalíveis.

Dessa forma, nossas dores internas acabam ganhando o apelido de fricotes, só que esses fricotes viram traumas, e esses traumas minam nossa confiança na vida e sustentam os consultórios psiquiátricos, já que esquecer é uma forma de impedir a compreensão absoluta de nós mesmos e alguém precisa nos ajudar a lembrar para nos libertarmos.

Esquecemos os desaforos que tivemos que engolir durante um casamento ou namoro, tudo porque nos ensinaram que o amor deve ser forte o suficiente para aguentar os revezes da convivência, e também por medo da solidão, que tem péssimo cartaz.

Então, para nos enquadramos e nos sentirmos amados e estoicos, esquecemos as mentiras, as traições, os maus tratos, as indiferenças e mantemos algo que ainda parece uma relação, mas que deixou de ser no momento em que enfiamos a cabeça dentro do buraco.

Esquecemos em quem votamos, céticos de que em política nada muda, e em vez de investirmos nossa energia em manifestações de repúdio à corrupção, deixamos pra lá e seguimos em frente conformados com a roubalheira, desmemoriados sobre nossos direitos.

E esquecemos, principalmente, de quem somos. Dos nossos ideais, das nossas vontades, dos nossos sonhos, das nossas crenças, tudo em prol de uma adaptação ao meio, de uma preguiça em desfazer o combinado e buscar uma saída alternativa, de uma covardia que gruda na alma e congela os movimentos. Esquecer de nós mesmos é assinar um contrato com a resignação.

Obrigada, Galeano, por nos fazer lembrar: a amnésia é uma opção, não é obrigatória.

GOSTOSA


Gisele Bündchen



DANUZA LEÃO - Por que não me ufano do meu país


Por que não me ufano do meu país 
DANUZA LEÃO 
FOLHA DE SP - 04/09/11

Se fosse na Argentina ou no Chile, o povo iria para a rua; no Rio, o máximo que acontece é uma passeatinha


A CLASSE política nunca foi flor que se cheirasse (fora as exceções etc.), mas a cada nova eleição ela consegue ficar pior. Fico pensando nesses deputados que absolveram Jaqueline Roriz; o que é que eles dizem a seus filhos? Como se explicam?

É bem verdade que, sendo o voto secreto, eles podem sempre mentir e dizer que votaram pela cassação, mas será que cola? Mas ainda tem pior: o vergonhoso secretário de Transportes do Rio, Julio Lopes, que depois da tragédia com o bondinho de Santa Teresa tentou botar a culpa no pobre do condutor que tinha morrido; é de uma falta de caráter revoltante.

Depois dessa tragédia, que deixou cinco mortos e mais de 50 feridos, qualquer secretário de Governo (sério) teria a obrigação de se demitir; se não o fizesse, o governador teria a obrigação de demiti-lo. Mas como o governador é Sergio Cabral, ele continua no cargo; quando questionado, três vezes, se iria demitir o "secretário", ele simplesmente não respondeu. Quanto tempo falta para acabar esse governo que o Rio não merece?

Se fosse na Argentina ou no Chile, o povo iria para a rua; no Brasil _no Rio_, o máximo que acontece é uma passeatinha muito frouxa, diante do mar _isso se estiver fazendo sol, para pegar uma praia depois.

Aqui, as coisas não acabam em pizza, mas em samba. O governo é o que é, e a oposição, ninguém sabe, ninguém viu. Enquanto isso, os escândalos se sucedem, e a presidente já deixou claro que não vai continuar a faxina _"faxina é para acabar com a pobreza", diz ela. Sem corrupção, presidente, o país teria dinheiro para a saúde, a educação, as estradas etc., e isso me lembra do que dizia o saudoso ministro Mario Henrique Simonsen: "fica mais barato pagar a comissão e não fazer a obra".

Tremo em pensar na Copa do Mundo; no preço que vão custar as reformas, nas licitações que não vão haver, devido à urgência _tiveram todo o tempo do mundo e deixaram tudo para a última hora. Aliás, tanto faz. Alguém acredita que alguma licitação no Brasil é séria? Estamos cansados de saber que é tudo combinado antes, viva a criatividade brasileira.
Mas o ministro do Turismo, amiguinho de Sarney, continua firme e forte no seu posto. Aliás, é só olhar para saber que ele é o homem certo para o lugar certo.

Mais do que pelo dinheiro que vai ser afanado, tremo em pensar que um estádio pode cair, como caem as pontes pelo Brasil afora, por ter sido malfeito, por terem misturado areia com o cimento, para o lucro ser maior. Houve um tempo em que a corrupção era mais personalizada, para usar a palavra da moda; hoje, qualquer escândalo é seguido por "formação de quadrilha". Que se trate de Fernandinho Beira-Mar, ou dos mais importantes ministros do governo _desse governo e do outro, o último_, a corrupção agora é coisa de quadrilha.

E prefiro não fazer as contas de quanto tempo falta para as eleições majoritárias, para não pensar nas caras dos governantes rindo muito e voando, de Estado em Estado, nos jatinhos dos empresários, para ver os jogos do Brasil. E, a cada vez que nossa seleção ganhar, considerar e fazer cara de que a vitória é um pouco deles.
Cansei, mas vou continuar votando; é o que posso fazer.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


Jogo de duplas
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 04/09/11

Instado a comparar a relação Dilma Rousseff-Alexandre Tombini à de Lula com Henrique Meirelles, um observador privilegiado dos dois governos conta que o presidente anterior ouvia as explanações do titular do Banco Central, normalmente as aceitava e de vez em quando lhe dava uns ralhos. Meirelles, por seu turno, buscava acordos de longo prazo com o chefe -um desenho de política que Lula acompanhava a intervalos dilatados. Já entre Dilma e Tombini a conversa é mais técnica, e os entendimentos, de prazo mais curto -ela segue os dados amiúde.
Lula exigia de Meirelles que fosse a público se explicar. Nesse quesito, Dilma cobra menos de Tombini.


Semelhanças Assim como Lula e Meirelles, Dilma e Tombini pouco se conheciam antes de trabalharem juntos. E, em ambos os casos, desenvolveu-se uma relação de respeito mútuo.

Ruptura O queixo caído dos ministros do Supremo Tribunal Federal diante do "perdido" que o governo ameaçou dar no reajuste do Judiciário se explica: desde a presidência de Carlos Velloso (1999-2001), o Executivo não mexia na proposta orçamentária do Judiciário.

Ponta cabeça 1 Causou estranheza no próprio governo a entrevista coletiva na qual a ministra Miriam Belchior (Planejamento) apresentou o Orçamento de 2012 e, ato contínuo, disse que ele sofrerá um contingenciamento de mais de R$ 25 bi.

Ponta cabeça 2 Em geral, o Executivo atribui a necessidade de promover cortes aos "jabutis" acrescentados pelo Congresso -que, neste caso, ainda não havia nem recebido a peça. Ou seja, o governo admitiu a necessidade de rever o próprio trabalho -ao anunciá-lo.

Edição Sem prejuízo da opinião geral de que Dilma estava desenvolta como nunca antes em sua aparição no congresso do PT, alguns correligionários mais afiados ainda esperam ver três expressões banidas do discurso da presidente: "eu acho", "eu queria" e "no meu governo" -em vez de "nosso".

Confecom 2.0 A malhação da imprensa revelou-se o assunto principal do congresso do PT. No partido, há quem reconheça que não havia outro disponível.

Bíblico Do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), prevendo no Twitter aliança PT-PMDB já no primeiro turno da eleição paulistana: "Lula quer o apoio do PMDB a [Fernando] Haddad. Logo veremos [Michel] Temer vestido de Salomé oferecendo a cabeça de Chalita na bandeja ao Guia Genial dos Povos".

Parceria 1 Na tentativa de conter o PSDB no seu principal reduto, Temer negocia diretamente com os petistas um pacote para a Baixada Santista em 2012. O vice convenceu o prefeito peemedebista de Santos, João Paulo Papa, a lançar candidato de seu grupo à sucessão, vetando pacto com os tucanos.

Parceria 2 O nome provável é o de Sérgio Aquino (presidente da Autoridade Portuária), abrindo caminho para composição que envolveria até a ex-prefeita Telma de Souza (PT), hoje deputada estadual. Pelas mãos de Temer, as siglas também podem se unir em Praia Grande, Cubatão e Guarujá.

Eldorado Beneficiado pelo pré-sal e pela expansão da indústria naval, o litoral sul é alvo de Geraldo Alckmin, que anunciou obras bilionárias, como o VLT e o túnel. O governador patrocina a candidatura santista de Paulo Barbosa, seu secretário de Desenvolvimento.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio

"Agora fica claro o motivo do isolamento do Serra. Ele está afinado com a gente, e o restante do PSDB, totalmente perdido."
DO DEPUTADO ANDRÉ VARGAS (PT-PR), sobre as críticas de tucanos à redução da taxa básica de juros determinada pelo Banco Central, bandeira histórica do candidato derrotado do partido à Presidência da República.

contraponto

Texto e contexto


Chico Alencar (PSOL-RJ) e Nelson Pellegrino (PT-BA) visitavam exposição na Câmara sobre os 50 anos da Campanha da Legalidade, quando pararam diante de reprodução do bilhete com o qual Jânio Quadros renunciou. Ao ler o trecho "deixando com o ministro da Justiça, as razões de meu ato", Alencar comentou:
-Quem diria: o presidente professor cometeu um erro gramatical, separando o verbo de seu objeto!
Pellegrino retrucou:
-Professor Chico, acho que o erro realmente grave do Jânio foi de análise de conjuntura...

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO - Crônica de um tempo difícil


Crônica de um tempo difícil
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
O Estado de S.Paulo - 04/09/11

Às vezes me dá vontade de ser mais cronista do que articulista. Explico-me: espera-se de um articulista que argumente lógica e concatenadamente sobre um assunto qualquer. Já o cronista pode divagar. Estou ficando cansado de argumentar, e com mais vontade de discorrer sem pretensões do que ter de demonstrar a lógica de meus argumentos.

Começo por fazer uma confissão. Na quinta-feira, dia 1.º de setembro, depois de um prazeroso almoço com bons amigos que ainda se dão ao trabalho de continuar a celebrar meus já batidos 80 anos, cheguei ao instituto às 5 e meia da tarde. Recebi um antigo colaborador e amigo que não via há muito tempo (por sinal, hoje general do Exército) e, ainda, me dispus a mostrar-lhe a exposição sobre o Brasil de antes e depois do Plano Real que o acervo do iFHC preparou para servir às novas gerações e, quem sabe, despertar o interesse de algum pesquisador. Às 7 da noite, terminada a visita à exposição, recebi um recado de uma das minhas assessoras: não me esquecer do artigo para o primeiro domingo de setembro!

Mais grave ainda: devia sair de casa para o aeroporto na sexta-feira às 7 e meia da manhã para ir a Montevidéu, a convite de meu amigo o ex-presidente Julio Sanguinetti. Que fazer? Tinha em mente dois temas para este domingo. Algumas reflexões sobre a crise da economia dos países ricos e a nossa experiência em lidar com a questão ou, algo mais quente, os limites da "faxina" da presidente Dilma Rousseff e minhas declarações a esse respeito. Temas sérios. Confesso, faltou-me energia para discutir a fundo essas questões em duas horas - que era o que me restava -, embora não me faltasse apetite para dar alguns palpites como cronista (sem querer ofender os brios dos verdadeiros cronistas).

Vamos lá. Primeiro, a crise financeira deles e o nosso "legado", palavra pretensiosa e tão mistificadora como a expressão que andou na moda, herança maldita. No caso dos países ricos, é indiscutível, o que causou a crise foi mais o desregramento do sistema financeiro e a crença cega nas autocorreções do mercado do que a gastança governamental, a crise fiscal, embora esta exista também. Em nosso caso, foram as agruras nas contas externas e, sobretudo, as especulações contra a moeda nacional - o "contágio" -, acrescidas, também, de fragilidades fiscais. Lá, como aqui, com as mesmas razões ou sem razões aparentes, as agências avaliadoras de risco desempenharam papel importante para desencadear dúvidas sobre a liquidez e a solvência.

Mas param por aí as similitudes. Nem tínhamos a possibilidade de picotar e transformar as hipotecas em "derivativos", pois o crédito imobiliário era pequeno, nem de empurrar para o Banco Central o desastre financeiro dos bancos e quejandos. Entre nós, também houve alguma "socialização das perdas", isto é, o Tesouro (eu, você e todos os contribuintes) acabou pagando algo dos desatinos dos banqueiros e especuladores. Mas em pequena proporção: o grosso foi pago pelos próprios banqueiros audaciosos. Tiveram seus bens indisponíveis e perderam seus bancos. Isso foi o Proer. E os bancos públicos estaduais, quando governadores tomavam dinheiro emprestado e não pagavam, foram privatizados ou fechados. Nesses casos também houve algum aumento da dívida pública federal, justificável para barrar de vez a possibilidade de desregramentos futuros. Isso foi o Proes.

Nos Estados Unidos e na Europa, o que vemos? Inundação de dinheiro público via bancos centrais para salvar o sistema financeiro, sem nenhuma penalização dos responsáveis e, ainda por cima, cortes drásticos nos orçamentos, sem aumento de impostos, fazendo com que os menos aquinhoados paguem os desvarios dos mais ricos! Pior: tudo isso sem que a economia retome o seu dinamismo. Na Europa, um empurra-empurra para ver se algum país paga pelos empréstimos que seus bancos fizeram aos países ora em penúria ou se o Banco Central Europeu - quer dizer, todos - vai pagar. Sempre, além disso, há cortes drásticos no orçamento para pôr as contas fiscais em ordem. Resultado: poucas chances de crescimento nos próximos anos. Dá para entender?

Quando daqui gritávamos contra a desregulação - cheguei a apoiar a Taxa Tobin, um imposto sobre as transações financeiras internacionais, que quase todos os economistas condenam, para criar um fundo de solvência dos países endividados -, vinham-nos com a mesma receita: aperto fiscal e nada mais, salvo um ou outro empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI) quando a situação já era desesperadora. Quem com ferro fere com ferro será ferido.

A confusão, agora, é "deles" e, como é "deles" e não há mais eles sem nós, barbas de molho, porque a recessão em marcha acabará por nos atingir. Enquanto isso, os sonhos de um G-20 ativo tratando de regular o mercado financeiro morre na praia. Não aprenderam nossa lição: além do apregoado aperto fiscal, seguimos as regras da Basileia, isto é, nosso Banco Central pôs freio à especulação e à irresponsabilidade no sistema financeiro, desde os tempos do Proer e do Proes. E não descuidamos de ter um Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ativo nem dos programas de transferência de renda para os mais pobres e de aumentos reais do salário mínimo desde 1994 até hoje.

Em contrapartida, deveríamos aprender com os países ricos que com corrupção pública não se deve brincar. Na Alemanha, o grande consolidador da União Europeia, Helmut Kohl, pagou alto preço por não querer dizer quem o ajudou em eleições e, recentemente, um importante ministro foi demitido por denúncia de plágio acadêmico. Assim, agora que se começou a falar em faxina, creio que devemos apoiar as iniciativas nesse sentido - desde uma CPI até os atos da presidente, estimulando-a a ir mais longe -, sem deixar que o governo ou um partido, mesmo que de oposição, se apodere da bandeira da moralização. Isso seria logo visto como manobra política e perderia apoios na sociedade, que se cansou de tanta impunidade.

Daí a pensar, como alguns pensam, que estamos querendo apoiar governos ou ficar bem na foto, é desconhecimento das reais motivações ou insensatez de quem não vê mais longe: as forças da corrupção estão mais enraizadas no poder do que parece. Sem tática, persistência e visão de futuro, será difícil barrá-las.

ELIO GASPARI - A Fiocruz precisa tomar a vacina da licitação


A Fiocruz precisa tomar a vacina da licitação
ELIO GASPARI
O GLOBO - 04/09/11

Contrato da informática foi suspenso temporariamente, mas o negócio continua com um forte cheiro de Dnit


A FIOCRUZ PRECISA de uma vacina para se proteger contra a bactéria "menigococus criminalis brasiliensis". Sua diretoria resolveu suspender, temporariamente, o contrato de até R$ 365 milhões assinado sem licitação com a empresa portuguesa Alert para informatizar seus serviços e, sobretudo, para a operação, sabe-se lá quando, do banco de dados do Cartão SUS. É pouco.
(Estava errada a informação aqui publicada na semana passada segundo a qual o contrato atenderia apenas duas unidades da Fiocruz. Estava errada também outra informação, publicada em janeiro, segundo a qual o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, nada contrataria para o Cartão SUS sem licitação pública. Ele mudou de ideia, para pior.)
O contrato da Fiocruz com a Alert tem um forte cheiro de Dnit. Não só porque não houve licitação, como também porque o faturamento mundial da empresa em 2010 foi de 47 milhões (R$ 107 milhões), valor bastante inferior ao contrato firmado. Se isso fosse pouco, entre os argumentos usados para justificar a escolha da Alert estava o de que ela tinha uma certificação do renomado IHE, o "Integrated the Healthcare Enterprise". Em seu sítio na internet o IHE roga que seu santo nome não seja usado como fator de "certificação" ou "validação" de empresas ou programas.
Se um cidadão for convidado pela gloriosa Fiocruz para tomar uma vacina, a tradição e o bom senso recomendam que aceite a sugestão. Se convidarem essa mesma pessoa para servir de testemunha num contrato como o da Alert, ela deve fugir como se estivesse diante da peste. Jogaram a credibilidade da fundação na briga de cobras que acompanha a discussão do software do Cartão SUS.
Os sábios da Fiocruz e do Ministério da Saúde suspenderam o contrato e estão pesquisando modalidades de transparência, legitimação e consulta para avaliar o negócio. Querem tratar o doente com curativos, quando o melhor remédio contra o "menigococus criminalis brasiliensis" é a velha e boa vacina da licitação pública. Quem quiser disputa, e quem ganhar leva.

TREM-BALA
Para a crônica dos fracassos do projeto do trem-bala. Até julho passado, quando o governo desistiu do leilão de sua concessão, informava-se que o principal consórcio interessado no negócio era formado por empresas coreanas.
Parolagem. O consórcio coreano implodiu meses antes. Seu executivo mais qualificado já retornara a Seul.

MASMORRA CAPIXABA
As masmorras do governo do Espírito Santo fazem história. O Ministério Público Federal vem perdendo todas as paradas para resolver o problema das más condições da penitenciária de Barra de São Francisco. Sua população, projetada para 106 presos, passou de 274 em 2008 para 364 em 2010, ou 1,09 metro quadrado por pessoa. Uma perícia da Polícia Federal concluiu que o presídio "não possuía, em suas unidades celulares, condições mínimas de salubridade para a existência humana". Aos pedidos de informações o governo do Estado responde com lero-leros, às solicitações de providências, com silêncio.
O Ministério Público Federal pediu à Justiça que suspenda a remessa de presos para Barra de São Francisco e que a União fiscalize o seu descongestionamento. A juíza da 1ª Vara Federal de Colatina negou o pedido e lembrou que "a concretização de todos os direitos fundamentais e sociais esbarra nas limitações materiais do Estado".
Desse jeito, a penitenciária ficará na mesma, mas surgiu um perigo: que alguém proponha a criação de um novo imposto para financiar (em tese) as masmorras nacionais. Até porque os doutores que mandam em Barra de São Francisco sustentam que "se comparada a outras unidades" ela se encontra "em situação favorável".

UM LIXO DE FAXINA
O melhor retrato da postura do PT diante de toda e qualquer faxina foi conseguido na noite de terça-feira pelo repórter fotográfico Ailton de Freitas.
Ele mostrou o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), paternal e sorridente, cumprimentando a deputada Jaqueline Roriz durante a sessão em que ela viria a ser consagrada pelos seus pares.
Vaccarezza e a doutora Dilma informam que o governo precisa de um novo imposto para financiar a saúde. Durante a campanha eleitoral ela dizia o contrário.
Eremildo, o Idiota, entendeu os recados: a faxina será feita no bolso da choldra.

MÁS MARQUETAGENS
Ao insinuar a responsabilidade do condutor (morto) do bondinho de Santa Teresa pelo desastre que matou cinco pessoas e feriu 57, o doutor Julio Lopes, secretário de Transportes do governador Sérgio Cabral, reciclou um velho ditado segundo o qual "tudo na vida é passageiro, menos o cobrador e o motorneiro".
Na linguagem dos administradores de crises, "em governo marqueteiro, a desgraça é do passageiro e a culpa é do motorneiro".
Dias depois da sentença do secretário, o governador admitiu que a oficina de reparo dos bondes está sucateada, mas o doutor Lopes voltou a pontificar: "Nós investimos recursos significativos, mas não no montante que se poderá investir agora, em função dessa trágica ocorrência". Transformou desgraça em estímulo ao investimento.
(Em julho passado os doutores Lopes e Cabral levaram a doutora Dilma para a inauguração do teleférico do Alemão. Havia o teleférico, mas não havia o serviço.)

A "BOLA DE CRISTAL" PARA O VOTO AMERICANO
Faltam 14 meses para a eleição americana. Aqui vai um refresco para quem pretende acompanhá-la fora do universo das superstições. É o site de Larry Sabato, um professor da Universidade de Virgínia que estuda o comportamento do eleitorado e tem uma enorme coragem, pois em 2002 criou uma newsletter eletrônica (grátis como o ar) chamada "Sabato's Crystal Ball" ("A Bola de Cristal de Sabato"). Infelizmente, está em inglês.
Sabato acertou todos os principais resultados eleitorais, com uma precisão que passou a casa dos 90%. Ele sustenta que não se deve projetar 2012 a partir do resultado da eleição do ano passado, quando os republicanos trituraram os democratas. A razão é matemática. O eleitorado que vai às eleições intermediárias é diferente, e menor, do que aquele que vai às presidenciais. Em 2008 Obama teve 69,5 milhões de votos. Em 2010 os republicanos ganharam a maioria na Câmara com 44,6 milhões de votos.
O nome do jogo numa eleição presidencial é o comparecimento. De uma maneira geral, em qualquer eleição, comparecem 40% dos eleitores. Quando a Casa Branca está em jogo, podem comparecer mais 20%. Os outros 40% simplesmente não vão votar. Em 2008 Obama conseguiu atrair mais eleitores democratas e sobretudo jovens.
Está na rede um artigo do professor Andrew Hacker publicado pelo "The New York Review of Books", intitulado "The Next Election: The Surprising Reality" ("A Próxima Eleição: A Surpreendente Realidade"). É coisa fina.

GOSTOSA


GAUDÊNCIO TORQUATO - O lulismo e o dilmismo


O lulismo e o dilmismo
GAUDÊNCIO TORQUATO
O Estado de S.Paulo - 04/09/11

Ao entrar no nono mês, o governo Dilma deixa transparecer os primeiros traços de sua cara. Que permite divisar contornos mais homogêneos e menos oblíquos que a do ciclo Lula. As diferenças não se devem a razões de natureza política e nem de longe se abrigam na discutível hipótese, de viés conspirador, de que as criaturas, mais cedo ou mais tarde, acabam se rebelando contra o criador. Quem apostar na ideia de que um dia a criatura Dilma tomará rumos diferentes do criador Luiz Inácio perderá feio. Os dois atores fazem parte do mesmo enredo. E até se completam, pois o que sobra nele falta nela, e vice-versa. Exemplo: carisma e experimentação, de um lado, apuro técnico e organicidade, de outro. Um distanciamento, mesmo ocasional, traria perda para ambos. A configuração mais retilínea da atual administração resulta da identidade da presidente, da qual se extrai a ênfase em vetores como planejamento, controles e cobranças, análise de performances, calibragem da máquina, substituição de peças e sintonia fina nos programas. O dilmismo, como se pode designar tal modelagem, terá o condão de lapidar o lulismo, expurgar excessos, preencher reentrâncias, aplainar caminhos.

A imagem do "pente-fino" cai bem nas operações que o lulismo desenvolveu em diversas frentes. Convém definir o lulismo: um ajuntamento de programas, alguns de argamassa frouxa, implantados sob o escudo do real estável, que geraram um "novo milagre brasileiro", expressão de Rudá Ricci para explicar o ingresso de 30 milhões de pessoas no meio da pirâmide. Ainda conforme o sociólogo, "o lulismo teria se formado a partir do encontro com as classes menos abastadas do País, que rejeitam ideologias". E, claro, trombeteado por um líder que, no dizer de José Nêumanne Pinto em seu livro O que Sei de Lula, "é e sempre foi, sobretudo, um manipulador de emoções da massa". Sendo assim, diferencia-se do petismo, porquanto este tinha como foco as classes trabalhadoras organizadas em estruturas tradicionais e aquele abre os braços a contingentes desorganizados, desideologizados e pragmáticos. A análise do ciclo Lula permite distinguir alta dose de experimentalismo, como se constata nas idas e vindas que marcaram o início do Fome Zero. E mesmo após arrumar as coordenadas na área social, a partir da integração de projetos da era FHC, que redundou no símbolo da redenção de milhões de brasileiros, o Bolsa-Família, o lulismo deixou, ao fim de oito anos de império de Luiz Inácio, a impressão de larga defasagem entre discurso e prática. Espaços como os de infraestrutura e educação registraram resíduos de improvisação, como se vê nas planilhas do PAC ou em livros didáticos editados sob o selo de patrulhas que ousaram apresentar nova versão para a História do País.

Aduz-se, portanto, que o dilmismo veste o figurino adequado ao momento. Primeiro, por mostrar disposição de cortar gorduras acumuladas no corpo administrativo, tarefa complexa, diga-se, porque decisão dessa natureza contraria interesses da base partidária. Confira-se, a título de exemplificação, a assepsia que a presidente tenta realizar nos recônditos ministeriais. De forma lenta e gradual, a chefe do governo desobstrui dutos congestionados por sujeira, formando novas composições com quadros técnicos. O estilo Dilma incomoda aliados? Sem dúvida. Os parceiros não lhe dão o troco, ouve-se à boca pequena, por sentirem que manobra contrária à limpeza seria um bumerangue. Andar na contramão da faxina é defender sujeira. Um risco para a imagem pública do representante do povo.

A condição de mulher, ademais, ajuda-a a empreender o mutirão de depuração, eis que projeta os valores encarnados pela dona de casa: zelo, preocupação, cuidados com a organização do lar. Se parcelas governistas ameaçam ir para o confronto, juntando-se à oposição, como indicam a votação da Emenda 29 e da PEC 300, o governo brande o argumento da crise que nos ameaça. No planeta quase em chamas, onde nações poderosas dão sinais cada vez mais próximos de calote em credores, o Brasil não se pode dar ao luxo de gastança desbragada, como se via na era Lula. Querem mais dinheiro para a saúde? Indiquem a fonte, diz a presidente. Eis mais um elemento de diferenciação entre o ontem e o hoje. Luiz Inácio era um ás no campo da articulação política. Escudava-se na conversa ao pé do ouvido, no conchavo, na capacidade de convencimento. Lábia declamada com o mel do carisma é puro acalento. Tranquilizante. Já o estilo duro, direto, conciso de Dilma gera temor. É inegável, porém, que o País não aguentaria mais uma jornada de experimentações, andando em curvas, algumas bem fechadas, subindo em palanques no interregno de pleitos, escancarando cofres, expandindo ao infinito os gastos públicos. Se o dilmismo aperfeiçoar a rota da governança sob a marca da responsabilidade, ganhará o reconhecimento da sociedade.

Neste ponto, convém pinçar mais um traço relevante na metodologia da atual governante: a altanaria, a capacidade de não se deixar envolver pela competição interpartidária quando estão em jogo questões de absoluta prioridade. O programa Brasil sem Miséria, que complementa e ajusta a rede social tecida no ciclo anterior, foi lançado no Palácio dos Bandeirantes, ao lado do governador Alckmin e do ex-presidente Fernando Henrique. Significado: a vida pátria deve ser uma obra comum. Compartilhada por gregos e troianos. Gestos como esse abrem a esperança de que o dilmismo faça muito bem ao País.