segunda-feira, agosto 15, 2011

Turismo na lama - REVISTA VEJA


Turismo na lama 
REVISTA VEJA

A Operação Voucher desmonta esquema de desvio de dinheiro que mirava as gordas verbas da Copa, prende ex-braço direito de Marta Suplicy e atinge em cheio o PT
FERNANDO MELLO

Eles achavam que já estavam com a mão na taça. Dos 36 presos pela Polícia Federal na semana passada, na Operação Voucher, oito eram funcionários do Ministério do Turismo e três estavam estrategicamente próximos dos preparativos para a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016. A quadrilha, que, de acordo com a PF, começou a agir no governo Lula e seguiu delinquindo na atual administração, desviou, pelo que se sabe até agora, 4 milhões de reais dos cofres públicos. Mas se preparava para dar um bote muito maior. Com a proximidade das competições, o Ministério do Turismo havia multiplicado por dez as verbas destinadas à capacitação de mão de obra para os dois eventos. Para 2011, foram reservados 97 milhões de reais, contra 9,7 milhões em 2006. Os indícios de que boa parte desse dinheiro já fluía para o bolso dos corruptos eram eloquentes. A reportagem de VEJA deparou, por exemplo, com cursos virtuais cujos orçamentos incluíam a compra de mochilas e lanches e propostas de "cursos de qualificação" apresentadas por ONGs desconhecidas que ganhavam o selo de aprovação do ministério em menos de setenta minutos. A farra prometia ser grande. Mas aí veio a Operação Voucher.

O que começou com a investigação de uma estranha emenda ao Orçamento no valor de 4 milhões de reais apresentada em 2009 pela deputada Fátima Pelaes, do PMDB, revelada por VEJA em dezembro do ano passado, terminou se mostrando uma teia muito mais complexa, que envolve dinheiro graúdo e atinge em cheio o PT. A beneficiária da emenda da deputada era uma ONG agora sabidamente fantasma e o dinheiro destinava-se a financiar o treinamento, igualmente fantasma, de agentes de turismo no estado do Amapá. As doze horas de gravação e as 245 páginas do inquérito da PF mostram que essa mesma metodologia pode ter sido usada para desviar mais de 30 milhões de reais. O mentor dos desvios, "de acordo com as investigações, era o petista Mário Moysés, que ainda neste mês seria nomeado para trabalhar na Autoridade Pública Olímpica, parceria do governo federal com o estado e a prefeitura do Rio.

Mário Moysés é militante do PT desde os anos 80. Em 2000, foi nomeado chefe de gabinete de Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo. Em 2004, coordenou a campanha derrotada da petista à reeleição. Três anos depois, acompanhou Marta a Brasília, como seu secretário executivo no Ministério do Turismo. Foi a partir desse cargo, o segundo na hierarquia do ministério, que Mário Moysés coordenou o esquema de desvios descoberto na semana passada, aponta a PF. Segundo a investigação, ele ignorou as exigências previstas em lei para selecionar as ONGs que fariam convênios com o ministério, substituindo-as por critérios inaceitáveis. A Ibrasi, por exemplo, ONG fantasma beneficiária dos 4 milhões de reais da emenda de Fátima Pelaes, não precisou sequer apresentar documentos básicos para embolsar a bolada. Bastou caprichar na fachada do prédio para "inspirar confiança", seguindo conselho dado pelo atual número 2 do ministério, Frederico Costa, gravado pela Polícia Federal (ouça os áudios em VEJA.com). Mesmo depois de apresentar contas falsas, a Ibrasi continuou recebendo recursos públicos. O Ministério Público afirma que "toda a fraude teve início com o direcionamento do convênio por Mário Moysés". E questiona: "Como poderia ser celebrado um convênio de 4 milhões com uma empresa que nem mesmo possui empregados?". Para os procuradores da República responsáveis pela investigação, "fica evidente a omissão dolosa do Ministério do Turismo, na pessoa do então secretário executivo, Mário Augusto Lopes Moysés".

Peça estratégica de uma parte do PT paulista, Mário Moysés pode ter sua importância medida por dois episódios. O primeiro deu-se em junho de 2010, às vésperas da eleição presidencial vencida por Dilma Rousseff. Na ocasião, revelou-se que um grupo de aloprados ligado ao PT mineiro espionava adversários do partido dentro do comitê central de campanha. Descoberto e exposto à execração pública, o bando contra-atacou, ameaçando denunciar os detalhes de um certo esquema de caixa dois que o PT paulista operaria no Ministério do Turismo sob o comando de Mário Moysés, então lugar-tenente de Marta. Encurraladas e na iminência de um duelo mortal, as duas facções petistas acertaram uma trégua. O armistício protegeu Mário Moysés e sua turma até a semana passada.

O segundo episódio ocorreu durante a transição entre os governos de Lula e Dilma. O Ministério do Turismo foi reservado ao PMDB, mas o PT paulista bateu o pé para que Mário Moysés seguisse na pasta. Antonio Palocci, chefe da equipe de transição, chegou a marcar uma reunião com o vice-presidente Michel Temer para pedir formalmente que o ex-assessor de Marta fosse deslocado para a presidência da Embratur, o que acabou ocorrendo. Ele saiu de lá para dar lugar a um integrante do PCdoB (loteamento, loteamento, loteamento ...). Não há dúvida de que a prisão de Mário Moysés foi um tremendo choque para uma parte do PT paulista. As lágrimas vertidas em plenário pela ex-prefeita Marta Suplicy são prova disso - assim como sua estratégia de esconder-se em um banheiro do Congresso para evitar ter de falar aos jornalistas sobre a prisão de seu ex-subordinado.

Em um ambiente já inflamado por escândalos em série e demissões em baciadas de funcionários corruptos, a Operação Voucher foi mais um fator de desestabilização política. O PMDB, conhecendo o esquema e seus personagens em detalhes, pôs o PT na parede para proteger os próprios suspeitos. Em ameaças veladas, os líderes peemedebistas avisaram que jogariam Mário Moysés, Marta e os demais envolvidos no fogo, caso o PT e o governo não defendessem os ministros do PMDB acusados de corrupção: Pedro Novais, do Turismo, e Wagner Rossi, da Agricultura. A tática deu certo até o fim da semana, mas novas denúncias contra o segundo devem inviabilizar sua permanência no cargo (veja a reportagem na pág. 78). No Congresso, os partidos aliados impediram qualquer votação em protesto às justas demissões promovidas pela presidente Dilma Rousseff. No PT, partido marcado por guerrilhas internas e teorias conspiratórias, o grupo de Marta Suplicy se voltou contra o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, adversário histórico da senadora. O ministro afirma que soube da Operação Voucher apenas quando ela já estava nas ruas. Mas Marta Suplicy tem convicção de que ele sabia de tudo e não avisou ninguém apenas para prejudicá-la. Não se faz isso com gente tão fina.

VINICIUS MOTA - Obama e o PMDB


Obama e o PMDB 
VINICIUS MOTA
FOLHA DE SP - 15/08/11

SÃO PAULO - Que inveja do Congresso brasileiro. Comentários assim circularam nas conversas entre jornalistas americanos aqui instalados e colegas nos EUA. Referiam-se ao impasse na Câmara e no Senado que quase levou a Casa Branca a suspender pagamentos de contas.

Aventar a suposta disfuncionalidade da política americana agora é lugar-comum. Justifica a baixa na nota de bom pagador do país ou os ataques aos republicanos, na série infinita de discursos de Barack Obama -que já ameaça Fidel Castro no quesito "quando há pouco a fazer, o jeito é falar".

Em contraste com o norte-americano, o presidencialismo brasileiro parece mais apto a responder de pronto às ameaças na economia. Já vem com maioria no Congresso.

É pequena a diferença de composição entre as forças que apoiaram o confisco da poupança sob Collor; as privatizações, o câmbio anabolizado e a liberalização sob FHC; e o programa anticrise que fez saltar o gasto permanente do governo e os empréstimos estatais sob Lula.

Um núcleo robusto de parlamentares -de partidos que hoje por acaso se chamam PMDB, PR, PTB, PDT, PP e o PSD nascituro- está sempre a postos para cumprir, mediante compensações, os desígnios do Planalto. Basta que a força vencedora da eleição presidencial se acople a esse "centrão" para dominar o Congresso.

Não existe essa hipótese nos EUA. Presidentes cujo partido perde na eleição a maioria na Câmara ou no Congresso têm de conviver com esse fato ao longo de dois, quatro, seis ou até oito anos. Bill Clinton, George W. Bush e Obama, para citar os três últimos, enfrentaram o domínio parlamentar da oposição em parte de seus mandatos.

Quer dizer que a solução para os EUA é o PMDB? Bem, podemos pensar em exportar nosso bastião da "governabilidade" e seus satélites. O FBI vai ter trabalho, mas a Casa Branca pode conquistar seus 15 minutos de sossego na economia.

MONICA B. DE BOLLE - Com teto e sem chão


Com teto e sem chão
MONICA B. DE BOLLE
VALOR ECONÔMICO - 15/08/11
Nos últimos dias, a tempestade perfeita tomou conta dos mercados. A piora dos indicadores da economia americana, o imensurável desgaste político de Obama com a discussão sobre o ajuste fiscal e a elevação do teto da dívida levada até as últimas consequências, o rebaixamento dos EUA pela agência S&P, e o agravamento da crise na Europa, atingiram as bolsas e os demais mercados de ativos quase simultaneamente. Em meio aos movimentos frenéticos de reprecificação de risco e de busca por "portos seguros" num mundo onde esses estão em franca escassez, o cenário para os próximos seis meses ficou mais turvo - de novo. Alguns analistas, já falam, inclusive, em recessão nos EUA.

Em meio à confusão generalizada, uma coisa é certa: todos constataram, nas últimas semanas, que há um teto para o crescimento da economia mundial, isto é, as projeções de uma recuperação mais forte dos países maduros no curto prazo se esvaíram. Por outro lado, o pessimismo dos mercados e a falta de instrumentos dos gestores de política econômica das principais economias deixaram o crescimento global sem chão.

Há uma revisão de cenários em curso. Mas ainda é prematuro imaginar que o mundo esteja à beira do abismo, como em 2008. Não há bancos quebrando, por enquanto, no centro do sistema financeiro internacional. O crédito não está paralisado, impedindo a vital circulação de liquidez para o funcionamento da indústria e do comércio, embora permaneça debilitado, sobretudo nos EUA. Por lá, o cenário mais provável ainda é de crescimento baixo e sujeito aos inevitáveis soluços e tropeços. As empresas americanas estão sólidas, as famílias estão se desalavancando lentamente, os bancos continuam refratários a retomar sua função de prover financiamento, mas estão menos alavancados e mais robustos do que há três anos. O governo está entalado com uma herança fiscal maldita, e o Fed esgotou a sua criatividade. Futuras medidas de afrouxamento monetário não destoaram muito do que já foi feito desde 2008.
Mercados não gostam da falta de referências. Preferem os cenários direcionais, em que podem enxergar com mais clareza os extremos: uma recuperação, ou mesmo uma recessão. De um lado, as chances de um quadro recessivo na principal economia do mundo aumentaram. A perda de riqueza nas bolsas, a frustração dos investidores com a falta de direção dos líderes mundiais e com a chamada "década de austeridade" que se anuncia, a acentuação da aversão ao risco, são todos motivos para temer pelos rumos da economia mundial. Diante desse grau de pessimismo, as empresas, mesmo líquidas e pouco alavancadas, podem acabar interrompendo seus planos de investimento e de contratação, afetando famílias que já estão bastante apreensivas com a possibilidade de que tenham de pagar impostos mais altos no futuro e/ou de que percam alguns benefícios que têm permitido a sustentação da renda para garantir o padrão de consumo. Ou seja, movimentos de reprecificação de risco suficientemente severos e prolongados podem acabar respingando na economia real e levando ao temido "duplo mergulho", mais uma vez na ponta da língua dos analistas.

Por outro lado, o mais provável é que o mundo ainda tenha de conviver com a falta de cenários minimamente confiáveis e com a volatilidade acentuada derivada da ausência de referências. A Europa continuará criando confusão nos mercados, ao entrecortar o embalo letárgico da retomada americana com as notas dissonantes de uma potencial crise bancária, lembrando que o cenário global é complexo. Com o envolvimento da Itália e da Espanha na desarmonia europeia, a capacidade de articular uma solução para os problemas que afligem a região sofreu um enorme baque, forçando o Banco Central Europeu (BCE) a tornar-se, novamente, o maestro que não quer ser. A atuação da autoridade monetária europeia nos mercados secundários de dívida, embora bem-vinda, é mais um artifício para ganhar tempo.

Não há clareza sobre a disposição da instituição e de seus pilares de sustentação, a Alemanha e, em menor grau, a França, de perpetuar esse papel. Problemas políticos no primeiro caso, e ameaças de rebaixamento da classificação de risco no segundo pairam tanto sobre a margem de manobra do BCE quanto sobre a transferência de responsabilidade para o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, que ainda não dispõe dos recursos para cumprir suas novas atribuições.

Diante do agravamento do quadro internacional, a presidente Dilma não quis reeditar o discurso complacente do seu antecessor. Preferiu uma nota sóbria. Isso, no entanto, não impediu que alguns membros do governo começassem a falar da necessidade de reduzir os juros e/ou usar outros instrumentos de relaxamento monetário. Mas o quadro inflacionário brasileiro ainda não permite que se inicie a desejada redução da Selic. A inflação mensal está em queda, porém a variação dos preços nos últimos doze meses está desconfortavelmente próxima de 7%, muito acima do teto da banda do regime de metas. A ênfase na solidez das contas públicas e na estabilidade econômica é a melhor forma de manter a boa reputação do país.

A crise de 2008 nos EUA denunciou o esgotamento do modelo de crescimento com sobre-endividamento fundamentado no crédito farto e barato. A crise de 2010/11/? na Europa denunciou o esgotamento do modelo de "entitlements" sociais, com sobre-endividamento do governo e má gestão do gasto público (Grécia, Portugal, e Itália), além de também revelar os riscos do sobre-endividamento privado (Espanha e Irlanda).

As famílias brasileiras estão mais endividadas, sua renda mais comprometida, mas ainda é possível afastar os riscos do aumento desorganizador das taxas de inadimplência. O governo deve fazer o possível para continuar reduzindo o impulso fiscal decorrente da expansão dos gastos. Evitaremos o erro dos outros com um crescimento mais moderado, e inflação mais baixa, mantendo o nosso chão, ainda que sob um teto.

GOSTOSA


RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


Uns e outros
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 15/08/11

O Planalto e o próprio PMDB avaliam de maneira distinta a situação dos dois ministros do partido ora encrencados no noticiário: Wagner Rossi (Agricultura) e Pedro Novais (Turismo). O primeiro carrega um passivo maior, seja pelo tempo de pasta (somado ao que passou na presidência da Conab), seja pela proximidade com personagens já degolados. Paradoxalmente, Rossi é aquele que todos se esforçarão por segurar até o "limite da irresponsabilidade", dada sua ligação com o vice Michel Temer. Já Novais, se não cair agora, dificilmente sobreviverá à reforma ministerial que Dilma Rousseff desde sempre sonhou fazer ao final de seu primeiro ano de governo.
Marca registrada De longe o integrante mais baixinho do primeiro escalão, Novais é conhecido na Esplanada como "o pequeno".

Alarme Ainda mais do que a PEC 300, que fixa piso nacional para policiais, preocupa o governo o projeto de aumento do Judiciário. Dada a movimentação do presidente Cezar Peluso (STF), essa seria a ameaça mais iminente de bomba fiscal.

Correspondência 1 O Planalto não terá de agir apenas para vencer a operação "braços cruzados" dos governistas. Quando os deputados voltarem ao trabalho, pegarão pela proa uma MP que desperta reações mistas na base aliada. Um de seus artigos amplia o escopo de atuação dos Correios, autorizando a estatal a adquirir participação societária ou mesmo controle acionário de empresas já estabelecidas.

Correspondência 2 Há forte lobby na Câmara para derrubar esse artigo, cujo objetivo seria permitir que os Correios comprem uma empresa de transporte aéreo. No entender do governo, mesmo com a resistência será possível aprovar a MP na íntegra.

Geografia Depois do giro pelo Nordeste, Dilma lançará na quinta, em São Paulo, versão do Brasil sem Miséria para a região Sudoeste.

Farmácia Em operação da Corregedoria-Geral do governo paulista cujos resultados serão anunciados hoje por Geraldo Alckmin, foram apreendidas 61 caixas de medicamentos usados no tratamento de câncer e de pacientes transplantados. O material, avaliado em R$ 200 mil, havia sido desviado de hospitais públicos de SP e revendido para distribuidoras.

Em caso... Ciente de que a aliança em prol da reeleição de Márcio Lacerda (PSB) depende de acordo entre Aécio Neves e Eduardo Campos com vistas a 2014, o PSDB mineiro deu a largada na construção de candidatura alternativa em Belo Horizonte. Os tucanos tentam atrair PR e PDT, nacionalmente alinhados com Dilma, mas integrantes da base de Antonio Anastasia em Minas.

...de emergência Filho do secretário de Governo, Danilo de Castro, o deputado federal Rodrigo de Castro é o nome trabalhado para um eventual voo solo.

A regra... Dada como certa se José Serra ficar fora de 2012, a prévia para escolher o candidato tucano em São Paulo é objeto de controvérsia. Há quem defenda um colégio de 2.000 votantes, entre delegados, "notáveis" e representantes zonais. Nesse modelo, o provável vencedor seria o secretário estadual José Anibal (Energia).

...é clara? No outro modelo, preferido pelos demais pré-candidatos e por Alckmin, podem votar todos os 15 mil filiados. A direção municipal estuda estabelecer quarentena para evitar a contaminação do resultado por eventuais filiações em massa às vésperas da prévia.

com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio
"Ao falar mal de São Paulo quando visita a cidade, Haddad mostra que há algo novo em sua candidatura: a língua solta."
DO SECRETÁRIO PAULISTANO DA EDUCAÇÃO, ALEXANDRE SCHNEIDER, em resposta ao ministro, que acusou a prefeitura de, por razões político-eleitorais, não aderir a programas do governo federal que lhe trariam mais recursos. Segundo Schneider, é o MEC que não atende as demandas da cidade.

contraponto
Pechincha

Em reunião com secretários para tratar de investimentos na Baixada Santista, Geraldo Alckmin ouvia as cifras dos Transportes, que incluem o bilionário no túnel Santos-Guarujá. Depois, pediu a Mônika Bergamaschi (Agricultura) que falasse sobre sua área:
-Bem, governador, há as reformas de dois prédios. Juntas, devem custar pouco mais de R$ 1 milhão...
O tucano assentiu e passou para Transportes Metropolitanos, pasta que bancará o também bilionário VLT. Após ouvir o relatório, Alckmin brincou:
-Olha, acho melhor voltarmos para a Agricultura...

JESSÉ TORRES PEREIRA JUNIOR - A agenda do magistrado



A agenda do magistrado
JESSÉ TORRES PEREIRA JUNIOR
O GLOBO - 15/08/11 

A poucos anos de encerrar carreira na magistratura, começo a pensar em deixar testemunhos, se é que a alguém possam interessar.O pri- meiro deles é o de que a pauta do juiz é antes uma lista de “não posso” do que uma agenda de “posso”, ou seja, antes dever do que poder. Eis a lista do que o juiz não pode no exercício de suas funções:

 Não pode escolher dia nem hora para resolver os conflitos que lhe são apresentados, porque os conflitos humanos não têm hora nem lugar certo e do juiz a sociedade espera que resolva aqueles que chegam a ele, durante o expediente ou fora de- le, em dia útil, fim de semana ou feriado, sob a forma de liminares, medidas cautelares e tutelas antecipadas;

 Não pode retardar essa so- lução nem apressá-la porque para cada caso haverá uma solução adequada, e o tempo para encontrá-la também va- riará a cada caso;

 Não pode hierarquizar os conflitos aresolver, porque aos envolvidos o conflito sempre parece ser enorme, quase uma questão de vida, morte, sobrevivência ou honra, ou tudo ao mesmo tempo;

 Não pode generalizar o mal, nem descrer do bem porque em cada conflito eles estarão entremeados e se espera que o juiz tenha conhecimento e sabedoria para distingui-los;
 Não pode hierarquizar interesses seja qual for o titular, porque o juiz é juiz de todos, ricos e pobres, humildes e pode- rosos, crianças, jovens e idosos, públicos e privados, individuais e coletivos;

 Não pode imaginar-se superior em im- portância a outros profissionais porque, se éverdade que recebe da sociedade a incumbência de julgar atodos em suas mazelas, também ele, juiz, porta a mesma natureza de todos aqueles a quem julga;

 Não pode supor-se um ser superior em formação, virtude ou inteligência porque, ainda que as tenha em dose generosa, de nada valerão se não colocadas a serviço do ofício de julgar com justiça;

 Não pode postular prerrogativas que não sejam aquelas estritamente necessárias ao exercício de julgar, do qual decorremde- cisões impositivas para as partes (prender ou soltar, mandar pagar ou não pagar, obrigar a fazer ou a não fazer), porque o reco- nhecimento dessa autoridade pela sociedade não advém, propriamente, das prerrogativas do cargo, mas da sabedoria e da discrição com que são exercidas;

 Não pode pretender aufe- rir vantagem que a nenhuma outra profissão é garantida porque, embora a sua fun- ção seja fundamental para a paz social, todas as outras têm um relevante papel so- cial a cumprir;

 Não pode sacrificar asi próprio, à sua família eà sua saúde com jornadas excessivas ou intemperantes porque equilíbrio e ponderação é o míni- mo que se espera do juiz. Diante de tantas restrições, é admirá- vel que ainda exista quem queira ser juiz. O juiz é parte da sociedade e deve ser reconhecido como alguém que diga o Direito e distribua a Justiça não como atributo de uma inexistente superioridade, mas como missão que alguns devem desem- penhar a serviço de todos.

JESSÉ TORRES PEREIRA JUNIOR é desembargador do Tribunal de Justiça do Rio e professor da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (Emerj).

RICARDO NOBLAT - Volta, Lula!


Volta, Lula! 
RICARDO NOBLAT
O GLOBO - 15/08/11

Um dos donatários do poder, ocupante de amplo e luxuoso imóvel em uma das áreas mais nobres de Brasília, registra com letra miúda em um caderno de capa preta dura os relatos que lhe chegam regularmente sobre memoráveis reprimendas aplicadas por Dilma Rousseff em seus auxiliares desde que tomou posse há oito meses como presidente da República.

Não. Não peçam que eu revele o nome do(a) aplicado(a) cronista da Corte. Ele (a) cumpre sua missão com gosto, paciência e de olho na posteridade. Adianto apenas que é partidário(a) de Dilma. E que a ajuda vez por outra. Jamais foi alvo de uma descompostura presidencial. Não teria cabimento. E pronto. Mais não digo.

O “Caderno das Reprimendas de Dilma Rousseff”, inaugurado em fevereiro último, reúne 16 histórias até agora. Acompanha cada uma delas uma espécie de ficha técnica com data, hora, local e personagens. Três histórias seguem contadas aqui de forma resumida, suprimidos ou trocados alguns dos seus termos menos elegantes.

Dilma despacha com Maria do Rosário, ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Em discussão, a Comissão da Verdade a ser criada pelo Congresso para esclarecer casos de violação de direitos humanos durante a ditadura militar
(1964-1985). Diante de algo que a ministra diz, Dilma perde a paciência: — Cale sua boca . Você não entende disso. Só fala besteira.

Dilma despacha com Ideli Salvatti no dia seguinte à sua nomeação para o Ministério das Relações Institucionais. Leitora atenta de jornais, ela sabia o que Ideli dissera na véspera aos jornalistas. E não gostara. Queixou-se: “Na primeira coletiva que você dá vai logo dizendo bobagem... Imagine nas próximas”. 

Dilma despacha
 com Antonio Patriota, ministro das Relações Exteriores. Quer saber em que pé andam as discussões na ONU sobre
países fornecedores de insumos nucleares. Lá pelas tantas, irritada, interrompe Patriota e o adverte: “Ou você e sua turma dão um jeito nisso ou então demito toda aquela ‘itamarateca’”.

Sarney foi um presidente de fino trato. Assim como FH. Collor era formal. Contrariado, ficava pálido. Mas não estourava com seus auxiliares. Lula estourava, sim. Não o constrangia destratar Gilberto Carvalho, seu assessor mais próximo, em meio a uma reunião ministerial. Depois, pedia desculpas.

Por ora, não há registro de pedido de desculpas feito por Dilma. Nem mesmo ao ministro Cezar Peluso, presidente do Supremo Tribunal Federal. Outro dia, Peluso telefonou duas vezes para Dilma. Que não lhe deu retorno. Devia estar muito ocupada, suponho. Ou sua assessoria falhou.

O estilo Dilma tenciona o governo e assusta os políticos em geral. A maioria deles está convencida de que ela enveredou por um caminho perigoso. Qual? O de posar de guardiã do interesse público em oposição a uma classe política que só pretende dilapidá-lo. O governo é bom. O Congresso só tem vilões.

De mãos postas, o ex-ministro José Dirceu nega a autoria de uma previsão que circulou em Brasília na semana passada: “Se Dilma continuar assim, correrá o risco de não concluir o mandato”. Mas a frase que ele não disse está na boca de políticos de partidos que apoiam o governo. Eles só não têm coragem de repetila em voz alta.

Estão acuados por uma presidente que não disfarça seu desprezo por eles, que os mantém à distância, que resiste a atender aos seus pedidos por cargos e dinheiro para pequenas obras, e que, por último, parece gostar de se exibir fantasiada de “faxineira ética”. É verdade que a faxina estancou às portas dos redutos do PMDB. Mas...

Os partidos que apoiam o governo não querem briga com Dilma. Querem o que tiveram em todos os governos: fatias do poder, respeito e afagos. Dispensam beijo na boca. Se não forem capazes de se entender com Dilma, mesmo assim, não a abandonarão. Não têm para onde ir. De resto, 2014 é logo ali. E Lula... Ah, Lula! Que falta você faz!

LUIZ FELIPE PONDÉ - Natureza e graça


Natureza e graça
LUIZ FELIPE PONDÉ 
FOLHA DE SP - 15/08/11

A vida é feita de escolhas. Uma das escolhas mais sérias na vida é o modo como vivemos a vida, se como graça ou como natureza. Essa questão é uma alternativa clássica na filosofia cristã, mais especificamente de Santo de Agostinho, morto no ano 430 d.C. Duas de suas obras, "Natureza e Graça" e"Confissões", são essenciais para entendermos este problema.
O novo filme do misterioso cineasta americano Terrence Malick (que despreza o glamour da indústria do cinema e das festas da mídia) se abre com esta questão. "Árvore da Vida" foi o vencedor da palma de ouro de Cannes deste ano.
Malick é um cineasta que faz da espiritualidade a matéria-prima de seu cinema, como, por exemplo, o russo Tarkovski fazia.
Já em "Além da Linha Vermelha", de 1998, com a espiritualidade na guerra, e "O Novo Mundo", de 2005, com a espiritualidade do encontro com o "outro", Malick faz da voz em "off" de seus personagens um apelo desesperado da espécie humana em busca do sentido de nossa aventura na Terra. Em Malick, cada agonia do indivíduo (cada "voz") é arquetípica do humano.
Por favor, não entenda "espiritualidade" aqui como essas bobagens de sofás que você muda de lugar para melhorar a energia da sua casa ou uma palavra para você falar de suas manias com cristais ou expectativas reencarnacionistas.
"Espiritualidade" aqui significa a indagação essencial se a vida é fruto de uma força cega ou fruto de uma intenção bela, confrontada cotidianamente com o sofrimento inquestionável da vida.
Segundo a personagem feminina principal, a mãe dos três filhos (um deles, quando adulto, será Sean Penn) e esposa de Brad Pitt no filme, interpretada pela belíssima ruiva Jessica Chastain, há duas formas de viver: "The way of grace or the way of nature"(segundo a graça ou segundo a natureza). Podemos também traduzir "way" aqui por caminho, modo, forma ou maneira.
Esta é a chave para o entendimento mais profundo deste filme. Sem ela, você poderá ficar rodando em círculos ao redor do encontro, no enredo, entre a origem do universo e da vida na Terra (narrada em maravilhosas imagens cósmicas e paleontológicas) e a história da família que tem essa "mística" como mãe e que nos primeiros minutos recebe a notícia da morte de um de seus filhos na guerra do Vietnã (o "filho mais doce e generoso" dos três).
Eu, que sou uma pessoa essencialmente atormentada pela melancolia (como dizia semana passada ao comentar outra recente pérola do cinema, o filme "Melancolia" de Lars von Trier), considero esse conceito de "graça" do cristianismo uma das maiores criações da filosofia ocidental, além do conceito de Deus, claro. A graça sempre me encanta e, no cristianismo, ela é o "modo" de Deus criar as coisas.
Toda vez que o mundo (e nós nele) surpreende, saindo de sua constante miséria interesseira, vaidosa, traiçoeira, monotonamente previsível, eu sinto o cheiro da graça.
Tivesse eu que definir o modo como vivo, diria, entre a melancolia e a graça. Para mim, não há nada entre elas, só abismo.
Peço aos inteligentinhos que me poupem o blá-blá-blá do jardim da infância sobre as críticas ao cristianismo ou ao conceito de Deus. Proponho que hoje vão brincar no parque.
A graça é generosa, não pensa em si mesma, pode ser humilhada, ignorada, desprezada, mas ainda assim ela dá vida. A natureza só pensa em si mesma, submete todos a ela, é escrava de sua fisiologia, ao fim, vira pedra.
É mais ou menos assim que a mãe "mística" define a diferença entre viver segundo a graça ou segundo a natureza.
Se a vida é fruto da graça, ela é dádiva de beleza e de bondade, se ela é apenas natureza, ela é cega e sem sentido.
O adulto Sean Penn será o herdeiro agoniado desta questão: a vida é graça ou mera natureza? "Devo ser competitivo", como o pai o ensinou a ser (a natureza), ou "generoso", como a mãe lhe dizia (a graça)? A morte prematura do irmão será intransponível? Como amar a vida diante da morte? Seria ela a derrota da graça? A vitória da natureza cega?
Cada morte é como se fosse a primeira morte no mundo".

QUERO ROUBAR EM PAZ!


DENISE ROTHENBURG - Lula, o alvo


Lula, o alvo 
DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 15/08/11
Se a revolta que a população sente com a corrupção atingir a imagem do ex-presidente, ele se enfraquecerá, Dilma ficará isolada e virá algo novo na política nacional. É isso que hoje mais incomoda o PT em meio a toda essa crise

Em meio à enxurrada de escândalos que faz com que alguns mudem o nome da Esplanada dos Ministérios para Espanada nos Ministérios, os políticos começam a expor suas impressões sobre o momento. A conclusão de vários grupos, especialmente do governo e de seus aliados, é uma só: o alvo de toda essa confusão política gerada pelas denúncias de corrupção - ou pelo menos parte delas - é enfraquecer a imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

E quem diz isso não põe Lula no papel de coitadinho perseguido, não. Não é isso. Simplesmente esses casos - Turismo, Agricultura, Transporte e quem mais chegar - podem levar muitos a concluir que o governo Lula era conivente com a corrupção. Isso porque todos os casos divulgados até agora ocorreram no governo dele. Assim, constatam os políticos, o objetivo seria mesmo jogar ao sol tudo o que ficou na sombra durante a campanha eleitoral e a ascensão dos brasileiros a um novo patamar de renda. Ou seja, tentar mostrar que o mesmo presidente que deu essa alavancada no país em prol dos mais pobres deixou alguns se fartarem sob sua barba.

Se o eleitorado tiver essa percepção lá na frente - digo, mais perto das eleições - e o cidadão comum repassar para a imagem de Lula a mesma revolta que sente ao ver o dinheiro de seus impostos servindo para dar luxo e riqueza a uns poucos, estará dada a senha para uma mexida geral na política. Por enquanto, a imagem que se tem é de escândalos de corrupção em série e de partidos zonzos - conforme dissemos aqui na semana passada. E, em meio a tudo isso, uma presidente bem-intencionada que está convivendo com problemas políticos gerados pelo desconforto dos partidos ao verem seus integrantes denunciados.

Ocorre que a mesma Dilma que faz a faxina não tem esse borogodó todo na política. E está numa encruzilhada. Se fizer tudo o que os partidos desejam, soará como alguém que não teve pulso para continuar a tal "faxina". Se não fizer, os partidos dirão que ela não entende de política, não tem jogo de cintura. Para completar, há os atrasos na execução dos PACs 1e 2 e a crise econômica internacional. Se não superar isso, passará cada vez mais a imagem de que não é lá aquela gerentona especialíssima que todos esperam.

É nessas horas difíceis que Dilma recorre a Lula. Especialmente quando se sente meio isolada no quesito política, como agora. Lula, por sua vez, ajuda a resolver, fala com um e outro, e é ouvido por todos os aliados. E Lula hoje só é ouvido porque tem tino político, uma alta popularidade e ainda é a opção do PT para o futuro. Pois bem, voltamos ao princípio deste artigo: se Lula for enfraquecido, quem Dilma vai ouvir? Com quem o PT vai contar?

O PT sabe que não tem um substituto à altura para Lula. Embora tenha em Dilma uma boa candidata para 2014, e todos digam que ela é o nome, esse pacto com o PMDB e demais aliados não está selado. E nem Dilma trata dessa perspectiva de futuro no atual momento. Aliás, o PT está ciente de que a presidente não é lá de ficar dando muita corda para a política. Como ela mesma disse na entrevista à revista Carta Capital que chegou às bancas no fim de semana, "tenho de gastar meu tempo tratando de assuntos que resolvam os problemas do país". Ocorre que, enquanto Dilma cuida dos problemas do país e a crise tira o verniz do que foi o governo Lula e da gerente Dilma, o PMDB anda conversando muito com o PSDB e o DEM em salas reservadas nos restaurantes de Brasília. Não é à toa que os petistas se reuniram no Palácio do Planalto semana passada. Já sentiram que os movimentos para tirá-los do papel de anfitriões do poder estão começando e eles não vão ficar apenas assistindo ao tufão se aproximar. A política promete realmente grandes emoções daqui para frente.

E por falar em oposição

PSDB e DEM em momento algum negaram apoio à faxina da corrupção. Querem mais é ver o circo pegar fogo para ver se o PT se incendeia nele. Acham que a hora de desgastar Lula e seu partido é este semestre, crucial para a montagem dos palanques das eleições municipais do ano que vem. Em São Paulo, por exemplo, o PT já está em chamas. Marta Suplicy, ex-ministra do Turismo, anda cabisbaixa depois da prisão do ex-presidente da Embratur Mário Moisés, seu aliado. E Fernando Haddad, ministro da Educação, desfila lépido e fagueiro como pré-candidato a prefeito da capital paulista. Já tem gente apostando um doce que Marta, se sentir o fogo arder sob seus pés, não se movimentará para ajudar a eleger Haddad. Entre os tucanos, as apostas são mais elevadas. Afinal, eles também não podem falar muito de unidade em São Paulo. Lá, tucanos e petistas têm algo em comum: o PSDB só se une para criticar o PT e vice-versa. Fora isso, quem sair primeiro da roda fica de orelha quente.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Cresce nível de estoques na indústria brasileira de eletroeletrônicos em julho
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 15/08/11

Em meio à turbulência na economia mundial, que pode afetar o ânimo do consumidor brasileiro, o nível dos estoques começa a subir na indústria eletroeletrônica.
O setor enfrenta queda nas vendas e os resultados de julho vieram abaixo do esperado, segundo a Abinee (associação do setor). "As empresas previam vender mais. Mas, com o câmbio, cresce a concorrência de importados e há dificuldade em exportar", diz Humberto Barbato, presidente da entidade.
A parcela de empresas que tiveram queda nas vendas e encomendas na comparação com julho de 2010 subiu para 36%, ante 17% em junho. A batalha contra o câmbio não é nova. Mas agora se elevam os estoques, não só de produtos acabados. Matérias-primas também se acumulam, sinal de que a produção de bens finais foi reduzida.
"As fábricas se adaptam ao novo patamar de vendas."
Em julho, os estoques de matérias-primas ficaram acima do esperado para 40% das empresas. Nos primeiros meses do ano, a situação era sentida por cerca de 20%.
O estoque de acabados está alto para 44% da indústria, ante 32% no mês anterior.
O emprego, que sofre os mesmos efeitos, ainda não foi atingido. "Antes dessa etapa, deve haver reposição de estoque para o fim do ano."

REVITALIZAÇÃO PARA AS COMPRAS
O Shopping Ibirapuera, um dos mais antigos de São Paulo, com 35 anos, pretende se modernizar com investimentos de R$ 65 milhões em um projeto de revitalização. "A última grande reforma ocorreu há 15 anos. Precisávamos atualizá-lo", diz Armando de Angelis, presidente do shopping.
As obras começam no fim deste mês e vão incluir a substituição de pisos, forros, colunas, iluminação, sinalização, mobiliário, sanitários, além de uma reforma dos estacionamentos.
Para não atrapalhar as vendas, o projeto será executado durante a noite.
Segundo o presidente do shopping, os recursos virão do próprio caixa do shopping, que tem três quartos de suas cotas administradas pelos lojistas e o restante por uma sociedade anônima.
"O próximo passo será dado no ano que vem, com a construção de um cinema e um teatro", diz Angelis. Segundo ele, desde 2004, o Ibirapuera não dispõe de salas de exibição.

NÚMEROS:

2 milhões
de visitantes por mês

435
lojas no shopping Ibirapuera

R$ 65 milhões
investidos em revitalização

35 anos
é a idade do shopping

COMPLEMENTAR
A procura por planos de previdência do tipo VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre) aumentou no Brasil no primeiro semestre deste ano, segundo empresas do setor.
No período, a Bradesco Vida e Previdência obteve receita de R$ 7,2 bilhões com o segmento, o que representou alta de 38,1% ante o mesmo período do ano passado.
No Itaú, os planos VGBL foram os principais responsáveis pelo aumento de 84,4% na captação líquida de previdência do banco, que atingiu R$ 3,2 bilhões.
"É natural o avanço do VGBL, pois não são todos que podem se beneficiar da isenção fiscal do PGBL. Há também investidores que aplicam em PGBL até o limite de isenção e complementam com o VGBL", diz Osvaldo Nascimento, do Itaú Unibanco.

NOVOS RUMOS
A construtora Souza Lima, especializada em lojas de rua de alto padrão, como Le Lis Blanc e Chocolat du Jour, vai construir edifícios comerciais pequenos, com arquitetura diferenciada.
"Adquirimos terrenos menores", afirma Alexandre Souza Lima, presidente da empresa. "Como não eram de interesse das grandes construtoras tinham preço de mercado mais real", acrescenta ele.
A construtora lançará três empreendimentos, sendo dois em Alto de Pinheiros e um no Morumbi.
Em terrenos de 1.000 m2 a 1.500 m2, os edifícios terão oito andares, com pé-direito duplo, salas de 50 m2 a 300 m2 e valor geral de vendas de R$ 58 milhões.

HORA DO CAFÉ

CRESCIMENTO FORA DE CASA
Depois da China, o Brasil é atualmente o país onde as multinacionais têm registrado o maior crescimento fora de suas sedes, de acordo com pesquisa da Marsh Corretora com executivos de riscos e finanças de companhias de diversos países. O Brasil superou países tradicionais em recepção de investimentos como Reino Unido, França, Alemanha e Japão, de acordo com Eduardo Takahashi, diretor-executivo da Marsh.

Título... Em julho, foram protestados 67.695 títulos, segundo pesquisa do Instituto de Estudos de Protesto de Títulos da seção São Paulo, realizada com os dez tabeliães de protesto da capital. A alta é de 18,2% em relação a junho.

...protestado Dos títulos protestados, 7.361 foram cheques, o que representou 10,8% do total. O número de duplicatas foi de 51.484 e o de notas promissórias, 6.402.

Chocolate A Brou'ne, casa especializada em brownies, abrirá 30 lojas até o fim do ano que vem. O público-alvo são as classes A e B do Estado de SP. Neste ano, serão abertas franquias nas cidades de Jundiaí, Campinas, Barueri e na capital paulista.

com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK, VITOR SION e FELIPE VANINI BRUNING

LEONARDO ATTUCH - Será que Lula quer perder?

Será que Lula quer perder? 
LEONARDO ATTUCH
REVISTA ISTO É
Os números das pesquisas internas do PT para a disputa municipal de São Paulo são cristalinos: Marta Suplicy tem 30%, o tucano José Serra aparece com 23% e Gabriel Chalita, do PMDB, é o terceiro, com cerca de 6%. Além disso, a rejeição a Marta diminuiu, enquanto a de Serra cresceu, em razão das feridas abertas pelo estilo da sua campanha presidencial de 2010. O que significa que o PT, goste-se ou não do partido ou da sua candidata natural, tem chances reais de reconquistar o comando da cidade mais rica do País.

Diante disso, chega a ser surpreendente - e também acintosa - a movimentação do ex-presidente Lula em favor de uma candidatura, a do neófito Fernando Haddad, que se move como um clandestino nas pesquisas, sob o argumento de que São Paulo, saturada da polarização entre Serra e Marta, precisa do "novo". Qual é a lógica? Será que Lula joga a favor ou contra o seu partido? Ele pretende ganhar ou perder a eleição em São Paulo?

Perder? Mas como assim? Pois o fato é que existe hoje uma única disputa relevante na política brasileira, que já não tem mais oposição. Ela se dá entre o criador e a criatura, ou seja, entre Lula e Dilma. E a grande dúvida é: quem será o candidato em 2014? Ele ou ela? É nesse jogo que se insere a disputa municipal de 2012 em São Paulo, onde uma eventual vitória de Marta Suplicy seria um pilar importante para a reeleição de Dilma.

No partido, ninguém ousa enfrentar o ex-presidente abertamente. Mas o que é bom para Lula não necessariamente é bom para o PT. Ele já mostrou sua capacidade política ao fazer de uma até então desconhecida tecnocrata presidente da República. Mas isso não significa que a mágica se repetiria com Haddad, que também tem vulnerabilidades, como os erros do Enem e dos livros didáticos. Além disso, nem todas as ideias de Lula são geniais. Basta lembrar que ele tentou emplacar Ciro Gomes como candidato ao governo de São Paulo.
Lula se preocupa com um único dado: seu futuro político. Mesmo que, para isso, tenha que esmagar seus antigos aliados.

AÉCIO NEVES - Menos com mais


Menos com mais
AÉCIO NEVES
FOLHA DE SP - 15/08/11
O governo federal do PT conseguiu subverter um dos princípios mais disseminados nos manuais contemporâneos de gestão: fazer mais com menos. Ao contrário do lema conhecido no mundo todo, fazer menos com mais passou a ser diretriz na atual organização do Estado brasileiro.
O país herdou do governo passado uma máquina administrativa pesada, com 24 ministérios. Número que chegava a 37 se computados os órgãos cujos titulares ganharam status e equipes de ministro.
Neste ano, o inchaço vem aumentando com a criação de duas novas secretarias setoriais no mesmo patamar.
Assim, o Brasil poderá chegar ao final do ano com estupendos 39 ministros! O excesso fica evidente quando se faz uma comparação com outros países. Os Estados Unidos têm 15 ministérios e a França, 17.
Tudo indica que o número de pastas foi anabolizado não para atender necessidades da administração, e sim para permitir o aparelhamento do Estado com a militância partidária, acomodando interesses e saciando o apetite de aliados.
A imprensa mostrou que, entre 2003 e 2009, aumentou em 40,6% o número de cargos preenchidos pelo governo federal sem concurso público.
Levantamento da OCDE mostra que o Brasil não exibe transparência em relação aos critérios de nomeação e não avalia o desempenho dos beneficiados. "É difícil para o público brasileiro saber onde termina a atividade política e onde começa a administração profissional", diz.
O governo federal permanece alheio, portanto, a inúmeros avanços conquistados por Estados brasileiros nessa área, como a adoção de metas, avaliação de desempenho e de resultados, prêmios por produtividade e a certificação de funcionários, entre outros.
A resistência a essas inovações, cujos êxitos são conhecidos, só pode ser compreendida como um certo constrangimento do governismo em adotar princípios e práticas de governos fora do campo do PT.
O fato é que o Brasil precisa fortalecer a sua burocracia profissional. É compatível a existência de uma burocracia de Estado e outra de governo.
A primeira, de carreira, precisa garantir a continuidade das ações e atender aos interesses permanentes do país. A segunda precisa ser enxuta e, ainda que vinculada a quem a nomeia, deve preencher critérios de qualificação e prestar contas de suas atividades, pois é paga pelo contribuinte e não pelo fundo partidário.
Não há nenhuma medida com maior alcance social do que a correta aplicação do dinheiro público.
O quadro atual, que soma inchaço da máquina pública, falta de preparo de muitos dos indicados e pouca transparência nos controles internos, apresenta, como resultado, a ineficiência, quando não a corrupção.

ANTONIO PENTEADO MENDONÇA - Números muito ruins

Números muito ruins 
ANTONIO PENTEADO MENDONÇA
O Estado de S.Paulo - 15/08/11

Se as indenizações pagas representassem o total das mortes no trânsito, teríamos praticamente 150 mortes por dia, ou 6,25 mortes por hora


A Seguradora Líder do Consórcio do Seguro DPVAT publicou recentemente seus números referentes ao primeiro semestre de 2011. Eles são no mínimo apavorantes.

O seguro DVAT é o seguro obrigatório de veículos automotores terrestres, pago juntamente com o IPVA.

É um seguro de cunho eminentemente social, que paga indenização para todas as vítimas de acidente envolvendo um determinado veículo, independentemente de culpa do motorista ou da vítima estar ou não dentro de veículo.

Como as indenizações são para cada pessoa, o capital é também por pessoa, não havendo rateio entre as vítimas ou redução do valor a ser pago a título de indenização.

Atualmente, os valores segurados são R$ 13.500,00 para morte e para invalidez total permanente, além de cobrir também as despesas médico-hospitalares.

Não cabe aqui discutir se são valores suficientes para permitir às vítimas e suas famílias reporem economicamente a perda pessoal sofrida, mas é sempre bom lembrar que o salário mínimo brasileiro é de R$ 545,00, o que faz com que a indenização do seguro se aproxime, tendo por base o salário mínimo, das indenizações normalmente pagas pelos seguros de vida empresariais, que costumam ser de 24 salários do funcionário em caso de morte acidental.

O foco do artigo é o número de indenizações pagas para as vítimas dos acidentes de veículos e seus familiares no primeiro semestre do ano.

E é aqui que fica clara a tragédia social que é o trânsito brasileiro.

De acordo com a Seguradora Líder, nos primeiros seis meses de 2011 foram pagas 26.894 indenizações por morte e 107.403 indenizações por invalidez.

Quer dizer, se as indenizações pagas representassem o total das mortes no trânsito, teríamos praticamente 150 mortes por dia, ou 6,25 mortes por hora. Além disso, teríamos diariamente 596 pessoas inválidas, ou quase 25 vítimas por hora.

Só que a realidade é pior porque nem todos reclamam o seguro.

São números apavorantes, em primeiro lugar pela constatação de que o trânsito brasileiro é um dos principais assassinos do País.

Em segundo, porque ele é mais cruel ainda, ao deixar inválidas 107 mil pessoas a cada seis meses.

E, em terceiro, mas não menos importante, porque o custo social desse quadro é muito mais caro do que o total das indenizações pagas pelo DPVAT.

Eu não tenho o total das despesas geradas pelos acidentes de trânsito para a seguridade social, mas, com certeza, entre atendimento médico-hospitalar e aposentadorias, anualmente o país gasta vários bilhões de reais.

Os números acima seriam suficientes para pintar um quadro terrível, mas ele vai além.

O sofrimento, a dor e a falta física, além da econômica, das vítimas para suas famílias não tem preço e não pode ser compensada apenas com recursos materiais.

Mas o quadro fica pior.

A maioria das vítimas é composta por jovens e 66% do total das indenizações pagas pelo seguro obrigatório foram geradas por acidentes envolvendo motocicletas.

As motocicletas representam menos de 30% da frota e, todavia, são responsáveis por 66% do total das indenizações pagas pelo seguro obrigatório.

Quer dizer, entre as máquinas de matar e seus pilotos, que diariamente trafegam pelas ruas e estradas brasileiras, nenhuma é tão eficiente quanto elas.

Aliás, basta ver a forma como estes veículos são conduzidos em qualquer grande cidade do país para ficar claro que o resultado não poderia ser diferente e que a pesquisa realizada pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, algum tempo atrás, não poderia deixar de confirmar a realidade, apresentando os acidentes envolvendo motociclistas como responsáveis diretos por várias mortes ocorridas diariamente nas ruas de São Paulo.

O mais triste é que esse quadro deve se repetir no segundo semestre de 2011, e no ano que vem, e no outro. Enquanto o trânsito não for tratado como prioridade, com pouco investimento em educação e menos ainda na malha viária, os brasileiros continuarão morrendo, vítimas dos veículos e de seus motoristas.

JOSÉ MILTON DALLARI - Falta reconstruir a indústria


Falta reconstruir a indústria
JOSÉ MILTON DALLARI
O GLOBO - 15/08/11

É válido o esforço do governo brasileiro para conter a valorização do real frente ao dólar. Mas as medidas anunciadas recentemente - maior tributação das operações financeiras especulativas com dólar e a desoneração de setores da indústria nacional prejudicados pela concorrência estrangeira - podem ser classificadas apenas como emergenciais. Por enquanto, não há sinais de que a trajetória de queda do dólar no Brasil e no mercado internacional seja interrompida em breve. A moeda americana pode até se estabilizar, mas não terá força para se valorizar muito. Há uma razão muito forte para isso. O presidente Barack Obama perdeu a confiança dos americanos de que conseguirá, no curto prazo, recuperar o crescimento da economia dos EUA. Muita gente perdeu o emprego e a casa com a crise dos bancos.

O governo Obama ajudou os bancos quebrados, mas deixou de lado essa massa de trabalhadores que foi posta na rua. Agora com o corte de quase US$1 trilhão no orçamento, nos próximos anos - resultado da briga política entre republicanos e democratas - Obama terá muito menos dinheiro para gastar. Foi um balde de água fria em qualquer perspectiva de retomada de crescimento. É essa crise de confiança que está chacoalhando as bolsas de valores do planeta e fazendo o valor da moeda americana despencar. E, sem querer ser catastrofista, se a crise nas maiores economias europeias se aprofundar - leia-se Itália e Espanha - o cenário pode ficar ainda pior para os americanos. Isso porque a importação de produtos made in USA tenderá a cair. Para tentar conter o pior, o Banco Central Europeu entrou em campo comprando títulos de países endividados e abrindo linhas de crédito a essas nações. Uma reunião de emergência entre as sete maiores economias do planeta foi acertada para coordenar as ações e tentar evitar uma crise global. Essa desconfiança mundial sobre a economia americana, também produz um movimento de manada dos investidores para se proteger de possíveis perdas por lá.

Só para se ter uma ideia, nos primeiros seis meses deste ano US$55 bilhões pousaram no Brasil. Já é mais do que os US$48 bilhões dólares recebidos em 2010. É gente que vem aproveitar os juros altos e o crescimento da economia, investindo em setores produtivos. Mas nesse bolo, também há muitos investidores fugindo dos títulos americanos. Esse fluxo de dólares aterrissando no Brasil ajuda a desvalorizar a moeda americana em relação ao real. A situação tornou-se mais preocupante depois que a agência de classificação de risco Standard & Poor"s rebaixou o rating do crédito de longo prazo da dívida americana de "AAA" para "AA+". Pela primeira vez na história foi colocada em xeque a capacidade do governo dos EUA de pagar suas dívidas. E o déficit americano é enorme e crescente. Outras agências como a Moody"s e a Fitch, embora ainda não tenham rebaixado os títulos americanos, já sinalizaram que isso pode acontecer.

Com essas incertezas em relação à segurança dos títulos americanos certamente haverá mais gente levando seus dólares para obter ganhos em outros lugares, como o Brasil. Para os empresários brasileiros, principalmente aqueles que exportam, o dólar em queda é o pior dos mundos. Além de ganhar menos com as vendas em moeda americana lá fora, eles ainda são ameaçados no mercado interno pela concorrência estrangeira. Dos 24 setores monitorados pela Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex), 19 amargam perdas no primeiro semestre deste ano.

O governo anunciou medidas de estímulo a quatro setores: fabricantes de móveis, calçados e confecções ficam isentos da alíquota de 20% de contribuição patronal sobre a folha de pessoal. Para compensar, serão taxados em 1,5% sobre o faturamento. São setores que sofrem muito com a concorrência chinesa e coreana. O setor de software também se beneficiará da medida, mas pagará 2,5%. Se a arrecadação sobre o faturamento ficar abaixo do que as empresas pagam de impostos sobre a folha, o Tesouro Nacional banca a diferença. Calcula-se que essa medida deve custar R$1,3 bilhão até o fim de 2012.

O problema é que outros setores que também sofrem com o dólar podem se sentir discriminados e exigir compensações. E essas medidas, vamos ser sinceros, ajudam apenas a diminuir as perdas. Elas não reconstroem a indústria nacional.

JOSÉ MILTON DALLARI foi secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda e integrante da equipe que implantou o Plano Real. É sócio da Decisão Consultores.

CLÁUDIO HUMBERTO


Deputados: liberar emendas não acaba crise
Nem mesmo o líder do PT, deputado Paulo Teixeira (SP), acredita que a crise entre o governo Dilma e o Congresso será resolvida com a liberação das emendas parlamentares, prometida para esta segunda-feira pela ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) e confirmada pelo secretário-geral Gilberto Carvalho. O líder do PR, Lincoln Portela (MG), diz que o problema não é dinheiro. É a falta de respeito.


Fogo amigo

"O PT não precisa de emendas, os outros sim", provoca Paulo Teixeira. Partido aliado, o PMDB continua a obstruir a pauta na Câmara.


Grande homem

Corre em Brasília piada de que a PF não prendeu o ministro Pedro Novais (Turismo) porque ele não estava à altura dos investigados.

Exemplo

Cinco meses depois do tsunami, autoridades do Japão anunciam conclusão da reconstrução. Já na região serrana do Rio...


Angra III

Após a Alemanha anunciar a desativação de suas usinas nucleares, o Brasil ficou sem saber como fará a manutenção de Angra II, comprada à alemã KWU. O mais grave é o ressarcimento que o Governo do Brasil exige pela compra dos equipamentos de Angra III, estocados há quase 30 anos, e que viraram lixo tec-nológico. A briga ainda não é litigiosa, mas, como os alemães fazem cara de paisagem, caminha para isso.
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Arrependimento

O lobista Júlio Fróes, que agora admite a "abrir tudo" o que sabe sobre falcatruas no Ministério da Agricultura para o primeiro policial "menos arrogante" que encontrar, lamenta haver agredido Rodrigo Rangel, repórter da revista "Veja". Disse a um amigo que perdeu a cabeça.


Em pé de guerra

O governador do Ceará,Cid Gomes, e a prefeita Luizianne Lins (Fortaleza) estão à beira de um rompimento. De novo


Outra versão

Júlio Fróes diz ter ficado transtornado ao saber que a filha - "a coisa que mais amo na vida" - também viraria notícia de jornal. Confirmou que teve vários encontros com o ex-secretário-executivo do Ministério da Agricultura Milton Ortolan, mas para "assuntos administrativos".


Lista

Técnicos do Tribunal de Contas da União avaliam que a relação de lista de emendas parlamentares sob suspeita de fraudes pode levar mais de cem deputados federais a ficarem sob investigação.


Esconde-esconde

Considerada "eminência parda" na liderança do PMDB e melhor amigo do secretário-executivo do Ministério do Turismo, Frederico Costa, Francisco Bruzzi foi aconselhado a sumir por uns dias, sobretudo da imprensa. Bruzzi ganhou reputação de verdadeiro homem-bomba.


TCU

O deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) se reuniu com a ministra Ideli Salvatti e comunicou que vai disputar a vaga de ministro do TCU. Idelli disse que Dilma é simpática à sua candidatura.


Desconstrução

Estatal de energia que já foi referência de qualidade, a brasiliense CEB foi desconstruída no governo Joaquim Roriz, que utilizou seus recursos e a endividou para construir a superfaturada barragem de Corumbá IV.


Recuperação

A CEB, de Brasília, a segunda pior distribuidora de energia (a primeira é a Celpa, do Pará) tenta se reerguer construindo três subestações e licitando outras duas, além de instalar 75km de linhas de transmissão.


Estado ausente

O Governo do Amapá apela ao Itamaraty por um posto avançado no estado, fronteira com a Guiana Francesa, cuja polícia é acusada de assassinar brasileiros, na região. A pauta será reforçada dias 15 e 16 de setembro em Cayena, no II Encontro Transfronteiriço.

PODER SEM PUDOR

Nobre malvadeza
Os senadores discutiam o projeto de recriação da Sudene, na Comissão de Desenvolvimento Regional, quando o tucano Tasso Jereissati (CE) passou a palavra "ao senador Antonio Carlos de Magalhães". Percebeu o erro e tentou se explicar afirmando que a preposição foi usada, no passado, para designar nobres, "e não há político mais nobre que ACM". O velho babalaô falou e depois provocou risadas:
- Agora devolvo a palavra ao senador Tasso de Jereissati...

SEGUNDA NOS JORNAIS


Globo: Máfia do Turismo planejava fraudes em outros setores

Folha: Sobe total de evangélicos sem vínculos com igrejas

Estadão: Dono afirma que deputada queria 'ONG como 'laranja'

Valor: Dilma pede austeridade e cautela para baixar juros

Estado de Minas: Uma bomba-relógio nos cofres do Estado

Zero Hora: Susepe projeta mil tornozeleiras até 2012 para desafogar cadeias

domingo, agosto 14, 2011

J. R. GUZZO - Vida dura

Vida dura
J. R. GUZZO
REVISTA VEJA

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LYA LUFT - Felicidade

Felicidade
LYA LUFT
REVISTA VEJA

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JOÃO UBALDO RIBEIRO - Pater certus


Pater certus
JOÃO UBALDO RIBEIRO
O Estado de S.Paulo - 14/08/11

-De vez em quando, assim no meio do Dia dos Pais, você não lembra do teu, não?

- Lembro, lembro. Era tudo muito diferente. Acho que nem tinha Dia dos Pais como hoje, tinha?

- Acho que não, mas talvez tivesse alguma coisa com "o papai", tenho a leve impressão de que havia umas coisas com "o papai", uns jingles de rádio, anúncios no jornal, coisas assim. Mas lá em casa se usava somente "pai", ou então "meu pai", "papai" era considerado meio fresco. Assim como exclamar "oh!". Você ainda pegou o tempo em que exclamar "oh"era frescura?

- Peguei, peguei! "Ô" podia, mas "oh" não, não era exclamação de homem.

- E você tratava seu pai por "senhor"?

- Claro, o velho era português, não admitia intimidade. E as prioridades eram todas dele, não tinha essa avacalhação de hoje em dia. Por exemplo, quando tinha galinha, o sobre era dele, ninguém podia tascar, ele adorava o sobre.

- A mesma coisa lá em casa, lá era o pescoço. E o almoço sempre em família, na mesma hora, todo mundo de camisa, sem algazarra, sem muitas restrições ao que era servido e sem se meter em conversa de gente grande aonde não se era chamado.

- É, cara, nós somos uns dinossauros, uns fósseis, isso é o que nós somos.

- Ah, aí não, eu posso ter mais ou menos a tua idade cronológica, mas não somos da mesma faixa psicoetária, isso nunca!

- Faixa psicoetária?

- Isso é um neologismo que minha turma inventou para mostrar que o sujeito pode ter a mesma idade que outros, mas é mais moço. Ou mais velho, conforme o caso. No teu caso, bem mais velho. Eu sou um garotão, cara.

- Precisando de um bom espelho.

- Eu não preciso de espelho nenhum, eu vejo a realidade em torno de mim. É porque você só circula por aqui mesmo, neste estabelecimento que eu frequento somente por tradição e apenas no domingo e onde só tem velho mesmo, até o chope daqui é velho. Minha reputação fala por mim. Eu sou um cavalheiro de boa formação e não é do meu feitio sair por aí contando vantagem, mas você é meu amigo o suficiente para saber que, se eu não fosse um homem de boa situação, estaria com problemas financeiros, com todas as pensões alimentícias que tenho de pagar. E todas, naturalmente, para filhos de mulheres jovens, em idade fértil

- Quantas são? Seis, não é? Realmente, é muita pensão, tem que ter bala na agulha.

- Graças a Deus, eu sempre tive.

- Graças a Deus e a teu pai, que te deixou tudo e o tudo dele era tudo que não acabava mais e até hoje não acabou, mesmo na tua mão. Essas seis pensõezinhas devem fazer tanta falta quanto os jantares que você vive dando nesses restaurantes de mil reais a almôndega.

- Tu é grosso mesmo, tenho certeza de que não foi essa a educação que teu pai te deu. Mas é isso mesmo, eu posso pagar as pensões sem grilo nenhum. E não são nem mais seis, agora. Uma já venceu, agora são somente cinco. Quer dizer, por enquanto, he-he, nunca se sabe o que pode acontecer.

- É isso mesmo que eu ia dizer. Você não sabe o que pode acontecer. Você transa com essas mulheres todas sem camisinha?

- Ah, não é isso, cada caso é um caso. O primeiro foi sem camisinha direto mesmo. No dois seguintes, elas diziam que detestavam camisinha, que tomavam a pílula, etc., mas as pílulas falharam, aquilo falha muito. Nos dois seguintes a esses, parece que as camisinhas tinham defeito de fabricação. Se não fosse chato para mim, eu processava o fabricante. E esse sexto caso é muito recente, ainda não está completamente resolvido. Eu nunca vou deixar de ter esse problema, é meu temperamento lúbrico, fogoso, atirado, acho que isso atrai as mulheres, os homens de hoje não satisfazem as exigências delas.

- Você se lembra de um ditado romano que o Pachecão repetia na faculdade, quando discutia um caso de investigação de paternidade? Não lembra, não, mas eu lembro. Era "mater certa, pater semper incertus", lembra disso? Hoje isso não é mais correto, existe o teste do DNA. Pois é, eu fiquei sem jeito de perguntar assim de cara: você mandou fazer o teste do DNA com essas crianças todas?

- Não foi necessário, eram todos casos claros, tem um que é a minha cara, um dos dois da má qualidade da camisinha. Não, eu não tenho esse negócio comigo, eu sou até mais na base desse ditado que você lembrou aí, o do pater incertus. É isso mesmo, eu não ia pegar uma moça educada, de boa família e exigir dela que apresentasse prova de que o filho era meu. Além disso, quatro delas ou eram casadas na ocasião ou se casaram logo depois, eu sei que minha pensão contribui para a segurança delas, nestes casamentos de hoje em dia. Não, está tudo muito bem assim. Eu tenho meus cinco filhos menores e faço questão de pagar as pensões. E hoje ainda vou patrocinar o almoço de todos, costumo reunir esse povo todo de que posso ou não ser pai.

- Me diz aqui, os outros homens da família não te chamam de papai também?

- É, chamam. Como é que você adivinhou? É meu jeitão, não é?

HUMBERTO WERNECK - Ah, o linguajar do pessoal...


Ah, o linguajar do pessoal...
HUMBERTO WERNECK
O Estado de S.Paulo - 14/08/11

A Solange está muito decepcionada com a nossa classe política. Nada a ver com as maracutaias que congestionam o noticiário, para ela meras perversões consuetudinárias (acho que agora você reconheceu a minha prima que adora falar difícil) da vida pública brasileira. O que a decepciona - mais: o que a deixa fora de si, a pique de perder a tramontana, desejosa de ir dar às de vila-diogo - é a indigência do linguajar desse pessoal. Na semana passada, ela esperou, impaciente, pela posse do Celso Amorim no Ministério da Defesa, certa de que o discurso de Sua Excelência, diplomata e poliglota, viria cravejado de finas gemas da língua portuguesa. Mas o que se ouviu, avalia, foi uma fala pedestre; nenhum voo mais alto, digno de nossa Aeronáutica, ou qualquer arrancada impetuosa no mar encapelado da retórica, à altura dos feitos da Marinha brasileira; tudo rasteiro, compara a Solange, como o arrastado avanço da mais lerda Infantaria.

A prima se pergunta se o Amorim não seria vítima das más companhias, no caso a de Lula, cuja cultura, a seu ver escassamente mobiliada, impôs à nação oito anos de penúria vocabular, além de constrangedoras infrações gramaticais.

Pondero à Solange que o desempenho do pessoal com bom nível de escolaridade não tem sido muito melhor do que o de Lula. Ela concorda, quer dizer, anui, aquiesce - e até prodigaliza uma ilustração: a Dilma, que tem diploma universitário, não nos veio outro dia, para adjetivar o Brasil, com um "funhanhado"?

Fosse só a presidenta - que, afinal, ocupada com a militância clandestina, talvez não tenha podido frequentar amiúde o dicionário -, mas não: a Solange menciona o próprio Fernando Henrique, empencado de títulos e livros e ainda assim capaz de nos brindar com aquele deplorável "nhenhenhém". É curioso, comenta, que FHC, com muito mais bibliografia que seus adversários, em geral recorra menos a palavras rebuscadas do que eles. Verdade que certa vez sacou um "bazófia" para referir-se à fanfarrice de alguns opositores, mas seus uppercuts verbais típicos sempre estiveram mais na linha do tal "nhenhenhém" - expressão aliás aparentada, em sua nasalidade, com o "funhanhado" da Dilma. Vai ver que é por isso, arrisco eu, que a presidenta fez uns rapapés nos 80 anos do FHC.

Não é só por ser mineira que a Solange anda saudosa do Itamar. Mais exatamente, do topete retórico do finado presidente, sobretudo quando se eriçava para hostilizar o ex-ministro que o sucedeu no Planalto. "Anfótero!", invectivou ele, então governador de Minas, quando o presidente FHC desembarcou em seus domínios para visitar as vítimas de uma inundação. Não é descabido imaginar o ex-professor da USP numa subreptícia consulta ao dicionário para saber que seu antecessor se referia a quem reúna em si qualidades opostas. Quais, no caso? Itamar não esclareceu. Como não viesse troco, disparou mais um de seus letais pães de queijo vocabulares: "O presidente é um hotentote!" - e a nação foi assim apresentada a uma das tribos mais primitivas da África. Será que o Itamar embutiu no insulto uma alusão à autoproclamada mulatice de FHC - que, como se sabe, admitiu ter "um pé na cozinha" (e outro, acrescentou o jornalista Marcos Sá Corrêa, num elegante mocassim italiano)?

A turma que aí está, deplora a Solange, não engraxa as botas do Leonel Brizola, que desencavou um "contubérnio" - convivência, camaradagem, mas também mancebia, concubinato, amigação - para rotular o saco de gatos de uma aliança governista. Ou mesmo do Collor, que chamou o Ulysses Guimarães de "bonifrate", reles fantoche.

A Solange tem no coração e no gogó uma lista suprapartidária de políticos dados a esgrimir palavras. Nela sobressai Getúlio Vargas, que, adepto de uma oratória florida, embalada em voz tremelicante, meteu um "obstaculizar" na carta-testamento com que saiu da vida para entrar na História. E também Jânio Quadros, a quem se atribui o célebre "fi-lo porque qui-lo"; se de fato o disse, terá renunciado também ao bom Português, disciplina de que foi professor, já que o certo, ensina a Solange, é "fi-lo porque o quis". Autoridade para corrigir o Jânio não falta à prima, certeira no uso não só do fi-lo como do fê-lo. O que ela não usa, ao menos em público, é fá-lo.

MARCELO GLEISER - O futuro da corrida espacial

O futuro da corrida espacial
MARCELO GLEISER
FOLHA DE SP - 14/08/11 

Ficarmos presos na Terra, sem explorar o Universo pelas missões espaciais, é como negar o nosso destino


Eu tinha dez anos quando, no dia 20 de Julho de 1969, Neil Armstrong pousou na Lua e declarou: "Um pequeno passo para um homem, um salto gigante para a humanidade".
Suas palavras marcavam uma nova era da exploração espacial, semelhante ao que ocorrera aqui na Terra alguns séculos antes, quando estendemos nossa presença aos confins do nosso planeta.
Avançando para 2011, muita coisa mudou. Ainda não temos uma base lunar e, de fato, não pousamos mais na Lua há quase 40 anos. Voos espaciais tripulados são caros e, claro, arriscados.
Entretanto, nos EUA, o presidente Obama permanece firme em sua determinação de enviar humanos ao espaço, conforme afirmou em discurso feito em abril deste ano:
"Em 2025, teremos novos tipos de espaçonaves para enviar humanos ao espaço distante. Enviaremos astronautas até um asteroide. Até meados de 2030 acredito que humanos entrarão em órbita de Marte. Espero ainda estar por aqui para ver".
Para as pessoas da minha geração, missões tripuladas são inevitáveis. Ficarmos presos na Terra é negar o nosso destino. Não sei o que a geração mais nova pensa sobre o assunto. Mas tenho certeza de que muitos dirão que é hora de irmos em frente, de realizarmos sonhos novos. Mas que sonhos são esses?
Nos EUA, o interesse de muitos políticos na corrida espacial é financeiro: manter milhares de empregos abertos para o seu eleitorado. Juntamos a essa motivação o sonho de ir aonde nunca fomos, de explorar os confins do Cosmos, talvez até semeando a vida em novos mundos. Será essa a nossa missão? Espalhar vida inteligente galáxia afora?
Temos também os cientistas, que tendem a preferir missões robóticas mais baratas e em maior número, feitas para cobrir a pesquisa nas mais diversas áreas da astronomia, da astrofísica e da planetologia. Finalmente, temos a privatização da exploração espacial (hotéis e turismo espacial) e a possibilidade de que várias nações e grupos privados tenham interesses econômicos além da Terra, o que já ocorre.
Se quisermos maximizar a relação custo-benefício da exploração espacial, missões robóticas são mais eficientes. Mesmo que seja verdade que um astronauta em Marte teria feito o que as sondas Spirit e Opportunity fizeram em um tempo muito mais curto, a verdade é que não temos o dinheiro ou a tecnologia para enviar humanos até lá.
Não sabemos como nos proteger da radiação letal que existe no espaço nem como evitar o declínio dos músculos por lá. Precisamos de mecanismos de propulsão mais fortes.
Mais importante ainda: precisamos de uma organização internacional dedicada à exploração.
O futuro da exploração espacial tem de ir além das fronteiras e da propaganda patriótica que marcou a sua história até aqui. Ao deixarmos nosso planeta, o faremos como uma espécie e não como indivíduos de um ou outro país.

DANIEL PIZA - Brincando nos campos sem Senhor


Brincando nos campos sem Senhor
DANIEL PIZA
O Estado de S.Paulo - 14/08/11

Lá pela metade da excelente biografia de Schopenhauer, publicada agora pela Geração Editorial, o autor Rüdiger Safranski conta que o filósofo alemão escreveu no peitoril da janela de uma pousada em Rudolstadt, em 1813, um verso de Horácio: "Deve-se louvar uma casa que dá vista para os campos". Quarenta anos mais tarde, seus admiradores já peregrinavam até ali para conferir a inscrição, com Schopenhauer enfim famoso. Lendo a biografia numa casinha com vista para as colinas da Serra da Mantiqueira, em Gonçalves, me ocorreram alguns pensamentos: em como a leitura de poesia e filosofia foram importantes, mais até do que os próprios romances, para eu descobrir o prazer dos livros na adolescência; em como vivemos numa era tão acelerada, de cidades cada vez mais alheias ao tempo e às exigências da reflexão; e em como no século 19 as celebridades eram filósofos, escritores e compositores e agora são atores, cantores e atletas. Quem hoje peregrina para ver um verso anotado por um filósofo vivo no quarto onde escreveu sua obra-prima?

Ele tinha apenas 25 anos quando, isolado naqueles campos, encontrou a clareira intelectual de sua vida e começou a conceber O Mundo como Vontade e Representação. O trabalho de Safranski, muito mais que a cronologia de uma existência, é mostrar o alcance e a incompreensão que ainda persistem a respeito de Schopenhauer. Ele influenciou muito Nietzsche e Freud, o que significa que influenciou muito o pensamento modernista, assim como Machado de Assis e Kafka; mas ora é visto como um pessimista, desses que não acreditam na humanidade e no futuro, ora como um romântico, exaltador dos impulsos irracionais. Safranski faz excelente trabalho comparando suas ideias com as de Kant, Rousseau (estava mais perto de Kant do que de Rousseau) e dos idealistas da mesma geração, como Fichte e Hegel (que o tratou com condescendência, como Goethe), tudo sem perder o andamento narrativo - uma técnica para poucos.

Schopenhauer não apenas relativizou o papel da razão, que em Kant se converte em moral e em Hegel num poder, mostrando que o que define o ser humano é o fato de querer, de ser um corpo carente, submetido a intuições e impulsos contraditórios; mas também criticou os que dizem que "a gente não manda nos sentimentos" ou "paixões não se explicam" e acreditam na superioridade do coração sobre a cabeça, pois prezava acima de tudo o autoconhecimento e a consciência crítica. O que é mais moderno nele, e portanto raro de encontrar até hoje na maioria das pessoas, é essa noção de que as oposições são inconciliáveis, seja numa síntese ideológica seja numa transcendência religiosa - e o que nos cabe é viver com o mínimo de ilusões, cientes apenas de que "a essência da vida é a vontade de viver", na frase de Safranski. Dotados dessa vontade por natureza, devemos resistir à consequente inclinação de confundir desejo e realidade; devemos lutar para olhar além das aparências e das falsas novidades, escolhendo a cada instante entre desejos divergentes, em vez de seguir o caminho fácil da irresponsabilidade.

Para ele, a mente é ativa na percepção da realidade exterior, não um mero depósito de impressões, e por isso é preciso dar valor à imaginação, à empatia e à lógica, num ponto intermediário entre a arte e a ciência, no qual o prazer do conhecimento é fundamental. "A felicidade jamais foi considerada inoportuna", disse Schopenhauer, que em sua obra final, Parerga e Paralipomena, recusa o rótulo de pessimista ao observar que são as pessoas que acham que "Nosso Senhor fez tudo da maneira mais perfeita", duas frases que Safranski não cita. Por outro lado, consciente das dores e injustiças do mundo, que tanto vivenciou em suas relações pessoais, Schopenhauer também buscou na filosofia um consolo inatingível ao propor uma "libertação de todo o querer", uma "renúncia" quase ascética, que ele mesmo jamais atingiu - machista e irascível como era e incapaz de ver benefícios no progresso urbano.

Deitado na rede da varanda em Gonçalves, enquanto meus filhos brincavam nos gramados, terminei o livro com a sensação de prazer cumprido, para usar a expressão de Rubem Braga; louvei a vista e tomei o carro de volta para a vida de computadores, celulares e televisões, ao mesmo tempo menos iludido e mais sereno. O único pecado é não deixar a felicidade entrar e ficar.

Por que não me ufano (1). É amargamente divertido ver a presidente Dilma Rousseff sendo celebrada por sua "atitude" diante dos escândalos que, em apenas sete meses de governo, não param de se suceder. Além do caso Palocci, veio o do Ministério dos Transportes, loteado pelo Partido da República e no qual ela teria mandado fazer "faxina"; depois o da Agricultura, rachado entre PT e PMDB; mais recentemente o do Turismo, com ONGs contratadas no governo Lula, agora na alçada do mesmo PMDB. Lula, por sinal, mandou pegar leve com o partido de José Sarney e Michel Temer... Mas Dilma só reagiu, quando reagiu, ao ver que a imprensa tinha feito as revelações ou, no caso do Turismo, que a Polícia Federal tinha feito uma operação. Por iniciativa própria, que aliás era promessa de campanha, ela não fez nada. Pegar tudo isso para reforçar o suposto perfil técnico da presidente é, no mínimo, desonestidade intelectual. Tecnicamente, Dilma nem começou a governar.

Por que não me ufano (2). Analistas se esforçam para mostrar as diferenças entre a atual crise econômica e a de 2008, quando bancos quebraram em função da desregrada alavancagem de crédito e os governos tiveram de injetar dinheiro para superar a recessão. Mas, como muitos já alertaram na época, o processo nada tinha de "keynesiano" e esteve longe de representar "a volta do Estado" depois de duas décadas de "neoliberalismo", pois as máquinas públicas estão endividadas como nunca. Socorrer o mercado financeiro foi importante, mas as questões estruturais nunca foram realmente combatidas. Barack Obama, muito mais vítima do que vilão, tentou ir ao ponto, tanto cortando gastos como aumentando impostos, mas a força política dos republicanos do "Tea Party" o impediu, já que as crises econômicas costumam acalentar os discursos mais retrógrados. Na Europa, com exceção da Alemanha, os Estados não têm dinamismo e os sistemas produtivos não dão conta de gerar empregos, o que provoca ressentimento social e, no extremo, a cultura racista e revanchista de que se alimenta o terror.

O Brasil também não aprendeu as lições. É comum ouvir que temos reservas recordes, de US$ 350 bilhões, e que a crise é dos países desenvolvidos em face da ascensão da China e outros emergentes. Mas o Brasil depende demais das commodities, não por falta de aviso, e os cenários apontam que a subida dos preços do último decênio não tende a se repetir. Reformas não foram feitas, a taxa de investimento segue abaixo de 20%, a inflação leva à alta dos juros que leva à valorização do real. Como resultado, o PIB mal deve crescer 4%.