domingo, julho 31, 2011

ILIMAR FRANCO - Cortejar a base

Cortejar a base
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 31/07/11

A ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) negocia com o ministro Guido Mantega (Fazenda) a autorização, em agosto, para o empenho de emendas parlamentares do Orçamento de 2011. Um líder relata que Ideli quer arrancar de Mantega cerca de R$ 1 bi. Quer adoçar o Congresso antes de propor uma agenda positiva que inclui a aprovação do Pronatec, do Supersimples, do acesso aos documentos sigilosos e do Código Florestal.

Os braços da Eletrobras no exterior
A Eletrobras, recentemente autorizada por lei a investir no exterior, está começando a estender seus tentáculos na América Latina. A empresa está investindo na construção de usinas hidrelétricas na Argentina (Garabi — 2.000 MW), na Nicarágua (Tumarim — 253 MW), no Peru (Inambari — 2.000 MW) e no Uruguai (Interconexão Brasil / Uruguai). Ela estuda investir em usinas na Colômbia, na
Guiana e no Suriname; em geração eólica no Uruguai; em linhas de transmissão no Peru, no Uruguai e na Venezuela; e na interligação
elétrica com a Guiana, Suriname e a Guiana Francesa. Na mira, também, projetos na África portuguesa. 

"Meu Deus! Me tira daqui. Eles (repórteres) já estão me cercando” — Paulo Sérgio Passos, ministro dos Transportes, sexta-feira, na reunião de balanço do PAC

NO MURO. Com seu domicílio eleitoral em Santarém (PA), o ministro Alexandre Padilha (Saúde) não revela sua posição sobre o plebiscito para criar os estados de Tapajós e Carajás. “Sou ministro do governo, não posso me posicionar”, disse ele. Defensores da separação argumentam que, como o estado é muito grande, essas regiões ficariam abandonadas. Dizem ainda que há uma grande diferença cultural em relação a Belém.

Jobim
Apesar de reconhecerem que há uma “fadiga de material”, pessoas próximas a Nelson Jobim dizem que o ministro da Defesa não está
insatisfeito com o governo. Dizem que há um fogo amigo do PT e do PMDB para forçá-lo a deixar o cargo.

2012
O ex-senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) quer disputar a prefeitura de Manaus. Candidato a vice do ex-ministro Alfredo Nascimento na disputa pelo governo do estado, no ano passado, Serafim Corrêa (PSB) defende aliança com o tucano. 

CPI dos Transportes
Na volta do recesso parlamentar, amanhã, o líder do PSDB, senador Álvaro Dias (PR), vai procurar os senadores Ricardo Ferraço (PMDB-ES), Cristovam Buarque (PDT-DF), Luiz Henrique (PMDB-SC) e Casildo Maldaner (PMDB-SC) para tentar convencê-los a assinar o requerimento de criação da CPI dos Transportes. Faltam quatro assinaturas para que a comissão parlamentar de inquérito seja criada.

Se a moda pega
A Secretaria de Assuntos Estratégicos e o Ministério da Defesa estão redigindo proposta conjunta, para ser incluída na Lei Orçamentária de 2012, proibindo o Ministério da Fazenda de contingenciar recursos destinados às Forças Armadas.

Mentira
O ex-presidente Lula tem dito que vai publicar um livro. Mas não será um relato pessoal, e sim uma compilação de depoimentos sobre
sua administração. “Não vou escrever um livro porque livro de ex-presidente é tudo mentira”, justifica ele.

 O GOVERNO quer retomar a elaboração da Consolidação das Leis Sociais, que foi interrompida por causa da campanha eleitoral.
 O VICE-PRESIDENTE Michel Temer e os ministros José Eduardo Cardozo, Nelson Jobim e Moreira Franco vão visitar, nesta semana, a fronteira norte. 
● A SECRETARIA de Comunicação da Presidência da República ganhou o Prêmio Stevie 2011 na categoria Comunicação de Assuntos Globais pela série de teleconferências entre autoridades brasileiras, jornalistas e analistas internacionais.

MÍRIAM LEITÃO - Teatro do absurdo


Teatro do absurdo
MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 31/07/11

Uma semana inteira de tensões, apelos dramáticos, beira do precipício e ameaças. Assim o mundo viveu os últimos dias, estupefato, diante da maior economia do planeta. Acreditar, ninguém acredita que o impasse possa ter ido tão longe. O que leva uma democracia madura como a dos Estados Unidos a um grau suicida de polarização como a que se viveu nas últimas semanas?

Em agosto, os Estados Unidos têm de pagar uma Grécia e meia aos seus credores. Não é nada para uma economia de US$ 14 trilhões, mas, como disse o presidente Barack Obama, o problema é o sistema político, que não tem estado à altura da boa nota do crédito americano. No governo brasileiro, que tem mais de US$ 200 bilhões das reservas aplicados em títulos do Tesouro americano, caminhou-se do "eles não farão isso" para o "se eles fizerem isso, os fundos de investimento não vão se desfazer dos papéis americanos". Análise ou desejo?

Independentemente do que aconteça, o cristal trincou: já se sabe que eles podem chegar à beira do abismo. Portanto, quem trabalha com risco a sério tem de considerar que a insensatez pode contaminar o ambiente político americano e exibir em Washington um teatro do absurdo.

Para entender o que houve na política e na economia dos Estados Unidos é preciso recuar de novo ao 11 de setembro de 2001. George Bush fora eleito, em 2000, num ambiente já de polarização. O processo eleitoral foi contestado pelos seus óbvios defeitos; o país exibiu ao mundo uma contagem de votos pouco confiável, e com métodos toscos, no estado governado pelo irmão do suposto vencedor. Com baixa popularidade e um discurso de guerra fria, George Bush II assumiu restaurando o fundamentalismo entre os republicanos. O 11 de setembro feriu os Estados Unidos e criou o ambiente para erros políticos e econômicos em série.

Na política, fortaleceu a islamofobia e reforçou as piores características de uma ala da sociedade americana. Diante de duas torres derrubadas em plena Manhattan e de 3.500 inocentes mortos, a direita radical achou que tivera razão desde sempre. Duas guerras foram iniciadas para achar e matar o inimigo. Os cofres foram abertos em gastos sem limites na "guerra ao terror". A crise de confiança econômica que se seguiu ao 11 de setembro poderia levar o mundo à recessão. E também para evitar isso os cofres foram abertos e os juros derrubados a zero. Bush conseguiu se reeleger. Ele não soube como sair das guerras que entrou, os juros negativos e os gastos públicos fomentaram bolhas no mercado americano e elas explodiram na crise da quebra do Lehman Brothers em 2008. Os cofres foram escancarados, de novo, desta vez para salvar o país do seu pior fantasma, a repetição da depressão nos moldes da de 1929.

Na eleição de 2008, os Estados Unidos pareciam reencontrar o eixo moderado na política. No Partido Democrata, a disputa era entre uma mulher e um negro. Do lado republicano, na frente, estava um moderado, John McCain. Para se contrapor ao fato de que lutava contra os que sempre tinham estado fora do poder - mulheres e negros -, ele escolheu uma mulher, e mais conservadora que ele, tentando unir seu partido e agradar o eleitorado. Sarah Palin era desconhecida antes e continua sem expressão hoje, mas o sentimento conservador profundo que sempre habitou uma parte do interior do país se viu refletido nela e assim nasceu o facção republicana extremada conhecida como Tea Party.

A eleição de Obama foi com votos de latinos, negros, independentes, e do trabalhismo democrata que migrou de Hillary para o vencedor das primárias. Os republicanos perderam a Presidência e a maioria nas duas Casas. Os democratas ganharam o poder executivo e legislativo de um país economicamente em destroços e atolado em duas guerras. Elas já mataram duas vezes mais americanos que o 11 de setembro.

Os empresários americanos dizem que o presidente Barack Obama não os ouve. Nas reuniões, parece nem prestar atenção no que dizem. Obama se mostra mais à vontade em discursos diretos à população ou quando está se comunicando com tecnologias de ponta. Ontem mesmo estava tuitando para que eleitores pressionassem parlamentares.

A incapacidade de Obama de restaurar o crescimento e criar emprego azedou a relação com o eleitorado na eleição de meio de mandato. Por outro lado, o Tea Party, que parecia ser um movimento exótico e lateral, ganhou força e hoje é 25% dos republicanos na Câmara. Não têm líderes expressivos, nem número, mas já fizeram um estrago na cena política. Os mais moderados dentro do Partido Republicano foram empurrados mais para a direita. Temem perder espaço nos seus Estados por estarem entre dois fogos: o radicalismo dos Tea Party e os rivais liberais do Partido Democrata. Daí surgiu o impasse, que mesmo após a aprovação na Câmara da proposta de elevar o teto da dívida, mantém o mundo em suspense.

O discurso contra o excesso de impostos sempre fez eco na alma americana, que numa rebelião anti-impostos fez sua independência. É esse sentimento que foi manipulado nesse momento de polarização. O Partido Democrata quer suspender benefícios fiscais aos muito ricos e às grandes empresas, principalmente as do setor de alto carbono. Os republicanos tratam isso como se fosse um aumento de imposto sobre o cidadão comum. Os mais moderados entre os republicanos que tentaram negociar foram chamados de traidores pela ala radical. Os democratas, sem maioria na Câmara e apertados no Senado, foram incapazes de romper o bloqueio. Assim foram os últimos e loucos dias vividos na bicentenária democracia que governa a maior economia do planeta.

GOSTOSA

ELIO GASPARI - A Bolsa Ditadura não chegou ao Araguaia


A Bolsa Ditadura não chegou ao Araguaia
ELIO GASPARI
O GLOBO - 31/07/11

Em abril do ano que vem completam-se 40 anos do início das operações do Exército contra os militantes do PCdoB que se internaram nas matas do Araguaia com o intuito de iniciar uma guerrilha contra a ditadura. Será a triste lembrança de um massacre onde morreram cerca de 60 pessoas, na maioria jovens estudantes. Poucos pereceram em combate. Quase todos foram executados, muitos deles depois de terem se rendido à tropa do Exército. Foram execuções frias, praticadas mesmo depois de alguns presos serem usados até para pequenos serviços. Ordens de Brasília.

Foi uma guerrilha que começou com a fuga do chefe político, João Amazonas, que se foi embora em abril de 1972 para não mais voltar, e terminou com a fuga do chefe militar, Angelo Arroyo, que abandonou a área em janeiro de 1974.
Quarenta anos depois, a tragédia do Araguaia sobrevive como amostra da capacidade do Estado brasileiro de proteger o andar de cima, mostrando-se incapaz de olhar para o de baixo.

Os comandantes militares encobriram os crimes praticados por ordem dos chefes da ocasião. Os poucos sobreviventes do PCdoB e algo como 50 famílias de militantes assassinados foram indenizados.

Até hoje, 44 pobres camponeses que viviam na região esperam algum tipo de ressarcimento. Eles não queriam instalar uma república comunista moldada no modelo albanês. Quando muito, ajudaram os “homens da mata”. Tiveram as roças e criações destruídas. Pelo menos um pequeno vilarejo foi incendiado. Toda a população masculina de outro foi presa. Cavavam-se enormes buracos no chão, onde colocaram-se centenas de pais de família, nus. Era uma gente pobre que foi lançada na humilhação e na miséria. Para eles, não houve “Bolsa Ditadura”, como a que Lula e Fernando Henrique Cardoso recebem. Em 2010 ela valia R$ 4,2 mil mensais para Nosso Guia e uns R$ 8 mil para FH.

Quarenta anos depois, restam poucos camponeses vivos. O governo reconheceu o direito dos 44 sobreviventes, mas uma liminar da Justiça suspendeu o pagamento.

Periodicamente, hierarcas visitam o Araguaia, fazem discursos, exaltam os mortos e, aos vivos que restam, dão apenas promessas. Na semana passada, a ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos, repetiu esse roteiro. A justificativa tem a idade do Brasil: “O que se pode fazer?” Em tese, pouco, porque a Justiça que barrou a indenização dos miseráveis é a mesma que confirmou créditos de R$ 2,5 bilhões para um plantel de beneficiados em que reluzem indenizações milionárias de aproveitadores endinheirados.

Antes que o último camponês do Araguaia morra sem receber um tostão, aqui vão quatro sugestões de providências capazes de atenuar o problema:

1) Lula e Fernando Henrique Cardoso doam à Viúva seus cheques do Bolsa Ditadura, ou separam 10% do que arrecadam com palestras e passam o dinheiro para os 44 camponeses do Araguaia. Por baixo, podem comparecer com R$ 12 mil mensais.

2) Cada um dos cinco mil beneficiados pelo Bolsa Ditadura doa R$ 10 mensais. Arrecadam-se R$ 50 mil.

3) O PT e o PCdoB doam 5% dos R$ 30 milhões que recebem do Fundo Partidário (dinheiro da Viúva) para os 44 do Araguaia. Nesse caso, cada um deles poderá receber R$ 1 mil mensais durante três anos.

4) Com a mesma malandragem que o governo pratica para beneficiar sonegadores de impostos, enfia numa medida provisória um contrabando que cria um fundo de R$ 10 milhões para que os juros da Bolsa Copom remunerem com R$ 1,2 milhão anuais os camponeses. Isso dá R$ 2.300 por mês para cada um deles.

Cardozo e Daiello disputam o troféu Steve Jobs

Oministro da Justiça, doutor José Eduardo Cardozo, e o diretor da Polícia Federal, Leandro Daiello, disputam com os consulados americanos no Brasil o troféu Steve Jobs para casos de inépcia.

O cidadão brasileiro que solicita um passaporte à Polícia Federal é submetido a esperas de até 90 dias. Esse é a marca dos consulados americanos para decidir a concessão de vistos a brasileiros. (Em São Paulo a espera é de 112 dias.)

Nos dois casos, os burocratas justificam as filas dizendo que a demanda é muito grande. Os americanos não têm obrigação de dar vistos a brasileiros, pois eles não lhes pagam os salários. Cardozo e Aiello, contudo, estão na folha da Viúva.

Poderiam aprender com Steve Jobs a diferença entre um executivo e um zelador. Nas suas palavras: “Se eu reclamo que não recolheram o lixo da minha sala, e o zelador diz que trocaram a chave da porta, ele está certo. Para um zelador, basta ter uma explicação. A enunciação do motivo que gerou o problema, vinda de um executivo, é inaceitável.”

O doutor Cardozo fez uma rápida viagem a Paris em maio. Se fosse um simples cidadão, estaria na fila da Federal, mas a ruína só vigora para o andar de baixo. O repórter Ranier Bragon informa que no primeiro semestre deste ano o Itamaraty expediu 89 superpassaportes. Esse número superou a média anual dos mimos distribuídos desde 2006.

Eremildo, o idiota

Eremildo é um idiota e está convencido de que o ministro José Antônio Tóffoli foi à ilha de Capri movido pela admiração que tem pelo escritor russo Máximo Gorki, que viveu numa casa do pedaço, apelidada de “Vila Vermelha”, e pelas boas lembranças que Lenin guardou do lugar.

O ministro recusou-se a explicar quem pagou a estadia, mas um advogado de suas relações confirmou que patrocinou as diárias dos amigos que convidou para seu casamento.

Tóffoli diz que “não tem mais nada a acrescentar”. Por idiota, Eremildo entendeu que o ministro não quer discutir se deixou gorjetas para a criadagem.

Farsa, ou farsas

O comissariado petista busca uma estratégia para que as palavras “faxina” e “mensalão” possam conviver ao longo dos próximos meses, enquanto se aproxima o julgamento da quadrilha de 38 réus no Supremo Tribunal Federal.

Será impossível sustentar que uma tenha sido “farsa” (nas palavras de Lula) sem que a outra também o seja.

Tucanos

O Instituto Teotonio Vilela, do PSDB, pretende organizar um grande seminário para reorganizar sua agenda. Ainda não se decidiu a sede da reunião.

Uma corrente defende que o encontro se realize em São Paulo, a Faixa de Gaza do tucanato.

Mistério

Dias antes de sofrer uma tentativa de assalto em São Paulo, o vice-presidente Michel Temer havia se queixado do tamanho do seu dispositivo de segurança.

A arma do assaltante era de brinquedo. Numa versão, fugiu. Noutra, foi mandado embora. De qualquer forma, não fizeram o necessário Boletim de Ocorrência.

FERNANDO DE BARROS E SILVA - São Paulo à venda


São Paulo à venda
FERNANDO DE BARROS E SILVA
Folha de S.Paulo - 31/7/2011

SÃO PAULO – Sem que isso seja muito evidente, Gilberto Kassab está patrocinando um novo ciclo de especulação imobiliária na cidade. O mesmo setor que contribuiu com milhões para a eleição do prefeito em 2008 está sendo beneficiado em operações urbanas mais do que duvidosas, justamente a um ano da próxima campanha municipal.
De várias maneiras, regiões de São Paulo estão sendo terceirizadas, alienadas ou vendidas para o mercado. O caso mais flagrante é o da “troca” de áreas públicas por creches -ideia que partiu do Secovi, o sindicato do setor imobiliário.
Kassab havia prometido zerar a carência de vagas nas creches. Há mais de 140 mil crianças na fila de espera. Perto do fim do mandato, o problema social se transforma em oportunidade de negócio. Afinal, alguém precisa lucrar com a promessa que não será cumprida.
Quem acredita que as construtoras beneficiadas com áreas nobres farão adequadamente 200, 300, 400 creches na periferia?
Não é só. Kassab vai dar à iniciativa privada o poder de desapropriar uma enorme extensão da Pompeia, como já ocorre, a passo de cágado, na Nova Luz (ou cracolândia). Este é um tipo de concessão que só parece ter sentido numa região arruinada, onde as empresas não investiriam sem atrativos. Mas na Pompeia? Por que facilitar lucros privados gigantescos numa área já valorizada? Não cheira bem.
Por fim, a prefeitura está prestes a aprovar um novo polo de escritórios de luxo na avenida Chucri Zaidan, continuação da Berrini. É mais um capítulo de uma dinâmica perversa: enquanto a região central, com infraestrutura já pronta, permanece subocupada, em estado de degradação, os impostos do paulistano vão financiar a expansão de transporte público, luz, água etc. até os confins da cidade, para onde fogem os ricos seguindo a corrida do ouro do mercado imobiliário.
Tudo somado, o kassabismo é uma espécie de neomalufismo. Essa é a escola em que ele se formou.

MERVAL PEREIRA - Dilma se mostra

 Dilma se mostra
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 31/07/11
A presidente Dilma Rousseff está se saindo melhor que a encomenda. Esta pode não ser a avaliação de quem a encomendou, o ex-presidente Lula, mas ao que tudo indica é a de setores da sociedade que nem mesmo votaram nela. Como, por exemplo, Caetano Veloso, que votou em Marina no primeiro turno, mas hoje considera que Dilma é melhor presidente do que foi candidata.

Já o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que contou um segredo de polichinelo ao revelar que votou no seu amigo José Serra em 2010, nem se deu ao trabalho de fazer a ressalva, e disse que, se Serra fosse presidente, promoveria a mesma "faxina" que Dilma está fazendo no Ministério dos Transportes.

Nos últimos dias, graças à entrevista do Jorge Bastos Moreno e às suas repercussões publicadas ontem, estamos diante de uma personalidade mais rica do que se supunha, com uma sensibilidade insuspeitada que a leva a fazer comentários tanto sobre a novela das nove (deixando feliz "Douglas") quanto sobre Fernanda Montenegro, Caetano ou Chico Buarque.

E que se enternece com a filha de Obama, que se referiu ao Alvorada como uma casa, e não um palácio. Para quem mora na Casa Branca, dizer que o Alvorada é "a casa mais linda" que já viu demonstra um bom gosto precoce de Sasha que, com sua sensibilidade de criança, põe em xeque as críticas de que o grande Oscar Niemeyer constrói monumentos, não residências.

Ao mesmo tempo, o mesmo Moreno, e outros noticiários, trazem de volta ao cenário político a Dilma irascível e autoritária. Diante da franqueza exagerada do ministro Nelson Jobim, (o mensaleiro Delúbio Soares já ensinou certa vez que transparência demais é burrice) Dilma estaria disposta a demiti-lo, e só não o fez até o momento porque Lula estaria empenhado em defender o ministro indicado por ele.

Nesse episódio temos mais incoerências do que normalidades. O ex-presidente Lula, defendendo Jobim, se mostra mais conciliador do que é na verdade: "A gente não pode fazer política achando que quem não votou na gente é pior do que quem votou", pontificou o ex-presidente.

Para quem passa a vida política jogando pobres contra ricos, o "povão" contra a elite, e fez questão pessoal derrotar alguns líderes políticos da oposição, a frase soa falsa, mas a posição é boa.

Já Dilma, que tem desde seu primeiro momento na presidência distendido o ambiente político, defendendo a aceitação do contraditório e lançando a mão estendida à oposição através de gestos republicanos de aproximação com o ex-presidente Fernando Henrique, mostra-se nesse "affaire" menos conciliadora.

É verdade que o ministro Jobim dá a impressão a todo instante de que está querendo deixar o governo, e já teria dito isso à presidente, antes mesmo dos episódios públicos que reforçaram essa percepção generalizada.

Ao saudar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pelos seus 80 anos, Jobim fez referências à maneira sempre gentil com que ele tratava seus assessores, "sem nunca elevar a voz", o que pareceu a todos uma indireta diretíssima para a presidente Dilma, que tem a fama de gritar e dar socos na mesa.

Jobim falou também da sem-cerimônia com que os "idiotas" hoje se apresentam, o que parecia ser outra crítica, desta vez a eventuais companheiros de governo, quem sabe petistas.

Jobim saiu-se com uma desculpa esfarrapada, acusando os culpados de sempre: disse que se referia "aos jornalistas".

Superado esse primeiro impasse, o ministro de FH, Lula e Dilma deu uma entrevista explicitando o que todos já sabiam: que votara em Serra na eleição presidencial do ano passado vencida por Dilma.

Alegou depois que não costuma ser dissimulado, mas é evidente que escolheu responder diretamente à pergunta em vez de, como já fez diversas vezes, exercitar seus dotes políticos e sair pela tangente.

Experiente como é, não é razoável acreditar que Jobim tenha caído em uma armadilha jornalística. O mais correto é especular sobre o que levou Jobim a claramente, em poucos meses, querer deixar tão explícito seu descontentamento com o governo.

A própria presidente, que de boba não tem nada, senão não teria chegado onde chegou, entendeu perfeitamente o objetivo de seu (ex?) ministro, o de afrontá-la na autoridade de presidente. "E isso eu não admito", teria dito.

Em outro front, noticia-se que a presidente voltou a dar socos na mesa para enquadrar o ministro da Fazenda, Guido Mantega, deixando claro que não admite adiar o anúncio da nova política industrial por causa de divergências no governo em função do tamanho da renúncia fiscal.

Fazenda e Desenvolvimento não chegam a um acordo sobre o alcance dos incentivos, devido à posição conservadora da Receita Federal, e a presidente reagiu: "No meu governo a Receita Federal não manda".

São duas faces da mesma mulher, e a mistura pode dar certo, transformando Dilma de mero instrumento de poder de Lula, que pretenderia governar através de interposta pessoa, em uma "persona" política relevante.

A "faxina" no Ministério dos Transportes tem dado a Dilma uma musculatura política que a transforma em presidente popular e respeitada.

Mas se a atitude não for a mesma nos demais feudos políticos de partidos mais influentes, como PT e PMDB, o comportamento errático pode levar à desmoralização dessa nova personalidade, transformando seu mandato em mero interregno que se perderá na História.

BRAZIU: O PUTEIRO

AMIR KHAIR - É preciso avançar

É preciso avançar
AMIR KHAIR
O ESTADÃO - 31/07/11
Nuvens negras no cenário internacional. A dívida dos EUA, mesmo se ampliada pelo Congresso, já arranhou sua imagem e passou a ser motivo de preocupação para todo o mundo. Na Europa a crise grega expôs a fragilidade da zona do euro e a tendência é permanecer estagnada por vários anos, com riscos de default dos PIIGS, atingindo o sistema bancário dentro e fora da zona.


Neste cenário, o Brasil deve procurar se defender, continuando sua política externa no rumo dos países emergentes, que crescem, e proteger nossas empresas da invasão de produtos importados ilegalmente por dumping e triangulação da China usando outros países para exportações ao Brasil.


Mas, o principal é nosso mercado interno sobre o qual podemos ter comando. É dar continuidade ao crescimento da classe média com a formalização da mão de obra e geração de empregos. Políticas nesse sentido já começaram, como a elevação dos valores do Bolsa Família, o lançamento do Brasil sem Miséria e a segunda fase do Minha Casa, Minha Vida.


Será lançado o "Programa de Inovação do Brasil", prevendo incentivo para aumentar a exportação de manufaturados e na exigência de maior conteúdo local, agregação de valor, compras governamentais e política de defesa comercial.


Em entrevista dia 22, a presidente Dilma Rousseff afirmou que a economia está fazendo um "pouso suave" e não aceita a dicotomia entre controle da inflação e crescimento. "Não queremos inflação sob controle com crescimento zero", quando questionada se trabalharia para levar a inflação a 4,5%, em 2012, a qualquer preço. Muitos bancos centrais olham a inflação e o crescimento, como o dos EUA, mas o nosso, só a inflação e, assim, mesmo com instrumento inadequado. O "pouso suave" pode significar preocupação com a inflação face ao crescimento previsto pelo governo de 4,5%, aquém de 6% nos emergentes e de pouco acima de 4% no mundo.


Em relação ao cenário externo afirmou que o Banco Central (BC) "está correto" ao usar os juros para domar a inflação. Nesse dia 22, o Copom elevou a Selic para 12,50%, a quinta alta consecutiva neste ano. A presidente não iria criticar o BC, mas não creio que esteja satisfeita, pois a Selic elevada atrai dólares, que aprecia o câmbio, causa principal do processo de desindustrialização e rombo nas contas externas.


A estratégia do BC de elevar as reservas internacionais para zerar o fluxo de dólares não deu certo e eleva seu custo de carregamento, podendo alcançar neste ano R$ 70 bilhões (!), enquanto o governo se esforça para garantir o superávit primário. Analistas têm afirmado que a principal causa da apreciação cambial está nas operações de derivativos do mercado futuro de câmbio e que o governo deveria tornar essas operações caras e arriscadas. Foi o que fez dia 28 o Conselho Monetário Nacional (CMN).


A primeira medida foi cobrar 1% de IOF, podendo chegar a 25%, quando os investidores ampliarem suas apostas na valorização do real que excederem US$ 10 milhões. A segunda é exigir o registro das operações com derivativos. A terceira taxa em 6% de IOF empréstimos superiores a 720 dias que forem antecipadamente resgatados.


Mas ficou de fora a maior fonte de ingressos de dólares pela porta dos investimentos diretos de estrangeiros (IDE), que não pagam o IOF de 6%. O BC poderia controlar essas operações antes da internação dos dólares pelo depósito obrigatório em sua conta no exterior, só liberando cada entrada ao fluxo de caixa necessário ao investimento a ser feito no Brasil. Não o faz e, assim, os dólares que entram se transformam em reais e podem ser aplicados na Selic, gerando lucros financeiros que são remetidos para a matriz. Isso ficou evidenciado na elevação de 169% (!) do IDE no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2010.


Para completar a defesa cambial é necessário que a Selic vá para o nível internacional para coibir operações de carry trade (tomar dinheiro a uma taxa de juros em um país e aplicá-lo em outro). Esse é o desafio que falta o governo enfrentar. Não é a visão do BC, que usa a Selic elevada como âncora cambial e produz o boletim Focus consultando só o mercado financeiro sobre as expectativas para a inflação. Esse mercado vive da Selic elevada, sendo suspeito para gerar expectativas que vão influenciar as decisões dos agentes econômicos. Esse procedimento já foi questionado e o BC prometeu mudar, mas não mudou. Cabe ao CMN encerrar esse boletim até que isso ocorra. Não dá para protelar mais.


Mudança. É necessário ter nova política monetária, para permitir o desenvolvimento em níveis mais elevados, com controle da inflação de forma diversa da adotada pelo BC do tipo "samba de uma nota só", com a mega Selic e taxas de juros bancárias (inclusive nos bancos oficiais) de botar inveja aos agiotas.


Os efeitos colaterais danosos dessa política da mega Selic são claros: juros criando déficits fiscais, elevação da dívida pública, custo de carregamento das reservas, apreciação cambial, ganhos ao capital externo, elevação da liquidez pelo carry trade, desincentivo ao investimento privado, rombos nas contas externas e desindustrialização.


Condução. Cabe ao CMN o comando da economia. É falsa a questão da independência operacional do BC. É dependente do mercado financeiro. Nos raros casos em que divergiu, foi duramente atacado, como ocorreu na reunião do Copom de 6 de dezembro, quando introduziu as medidas macroprudenciais para controlar o crédito e prevenir a elevação da inadimplência em empréstimos superiores a 24 meses.


Isso atingiu os lucros dos bancos, por terem de elevar capital para empréstimos de prazos mais longos e sofrer aumento nos depósitos compulsórios. Assim, abriram fogo contra o BC, que deveria ter elevado a Selic. Diante disso, logo na primeira reunião do Copom, em 19 de janeiro, retomou a velha política de elevação da Selic.


Inflação. O controle inflacionário deve ser feito de outra forma, via metas de inflação, cuja responsabilidade passa a ser do CMN, pois outros fatores de caráter não monetário influem muito mais na inflação, como choques de oferta, inflação internacional de commodities, falta de etanol, a Vale dobrar num dia o preço do minério de ferro, elevando os custos das empresas a jusante e ao IGP-M, índice que corrige os contratos de locação.


A eficácia no controle deverá se dar através de medidas macroprudenciais, que podem calibrar o crédito e o valor das prestações (o que a Selic não consegue), adequando o crescimento da oferta de empréstimos à evolução da massa salarial, para ter sob controle a inadimplência.


Outros fatores podem contribuir para o controle inflacionário: o resultado fiscal e o comércio externo.


No resultado fiscal, o governo atingiu 68% do seu objetivo neste primeiro semestre, enquanto o BC está batendo o recorde de despesas com juros, danificando as contas públicas. A Lei de Responsabilidade Fiscal pôs limites às despesas de pessoal e dívida para o setor público, mas falhou ao não limitar o impacto fiscal da política monetária.


No comércio exterior, o governo deve controlar mais a importação via impostos, preços mínimos, quantitativos máximos, como fazem os demais países para a proteção de suas empresas e/ou da população contra os preços abusivos internos.


A presidente deve pôr o mercado financeiro e o BC a favor da economia e da sociedade, limitando as taxas de juros e tarifas bancárias extorsivas e trazer a Selic ao nível internacional até meados de 2012. Se assumir esse enfrentamento, terá o apoio da sociedade e se livrará das amarras, que até agora vêm impedindo aproveitar o imenso potencial material e humano que o Brasil possui.

EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO - A CUT contra o resto

A CUT contra o resto
EDITORIAL
O ESTADÃO - 31/07/11
Tendo perdido o acesso privilegiado ao Palácio do Planalto que tinha no governo Lula - até agora, a presidente Dilma Rousseff não recebeu seu presidente, Artur Henrique da Silva, para uma audiência exclusiva -, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) parece estar perdendo também o foco de sua atuação. Passou a atirar para todos os lados, querendo participar de todas as decisões importantes do governo, da reforma tributária à mudança do regime de operação dos aeroportos. Enquanto endurece seu discurso político, demonstra desatenção com as questões que afetam diretamente a vida dos trabalhadores, e vai ficando isolada dentro do movimento sindical.

A direção da CUT queixa-se de não ser ouvida pelo governo, mas, quando tem oportunidade de se manifestar, dá sinais de não entender patavina dos problemas de cuja solução pretende participar, nem o impacto que a demora dessa solução tem sobre a vida das pessoas afetadas por eles, o que inclui os filiados às entidades sindicais que diz representar.

Em entrevista ao jornal Valor, o presidente da CUT disse que, enquanto discute determinados temas com o secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho - designado pela presidente para os contatos com os movimentos sociais -, decisões são tomadas sem que ele seja ouvido. "Se for esperar acabar aquele tema em discussão na Secretaria-Geral para entrar no outro tema, o assunto já foi resolvido dentro do governo", disse. "Um exemplo: aeroporto."

Trata-se, de fato, de um ótimo exemplo do papel desempenhado até há pouco pelo governo e ainda agora pela CUT. A incapacidade do governo de enfrentar o problema da precariedade do sistema aeroportuário e da necessidade de sua modernização e expansão para atender a uma demanda que cresce exponencialmente já provocou situações dramáticas. O caos nos aeroportos observado nos últimos anos foi a demonstração mais nítida da incompetência do governo para prover um serviço adequado.

A rapidez do crescimento do movimento nos aeroportos não diminuiu. "O mercado doméstico brasileiro é o que mais cresce no mundo", apontou o relatório mensal da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata) divulgado há pouco em Genebra. Entre janeiro e junho, o número de passageiros transportados no mercado doméstico cresceu 19% em relação ao primeiro semestre de 2010, índice quase cinco vezes maior do que o crescimento do mercado mundial, de 4%.

Sem reformas profundas na gestão dos aeroportos, seriam cada vez maiores os riscos de repetição, e com frequência cada vez maior, do caos aéreo, comprometendo totalmente a credibilidade das autoridades responsáveis pelo sistema antes mesmo da realização dos grandes eventos internacionais previstos para os próximos anos.

Em maio, finalmente, o governo Dilma tomou a decisão correta de transferir para o empreendedor privado a tarefa de fazer aquilo que o setor público, sobretudo a Infraero, não conseguiu fazer nos últimos anos, isto é, ampliar e tornar mais eficiente o sistema. O modelo para a concessão da expansão e da operação dos principais aeroportos do País - inicialmente, serão privatizados os aeroportos de Guarulhos, Viracopos e Brasília - ainda não foi concluído e, para concluí-lo, o governo tem ouvido as partes interessadas.

Uma dessas partes, pois a concessão envolve questões trabalhistas, é o movimento sindical. Da reunião promovida pela Secretaria-Geral e pela Secretaria da Aviação Civil com sindicalistas, para discutir a questão trabalhista, Artur Henrique saiu ameaçando recorrer à Justiça caso o governo insista em transferir para o setor privado o controle da empresa que ampliará e operará esses aeroportos - questão sobre a qual não tem credenciais para opinar. Pretendendo meter o bedelho nas grandes questões nacionais - deixando de lado as principais questões trabalhistas para outras centrais sindicais, que se mobilizam para realizar um ato conjunto em agosto -, a CUT ignora os interesses dos brasileiros, que precisam de aeroportos eficientes, os quais o sistema atual não conseguiu oferecer.

AFFONSO CELSO PASTORE - O problema da valorização do real

O problema da valorização do real
AFFONSO CELSO PASTORE
O Estado de S.Paulo - 31/07/11


O governo aumentou a potência do arsenal para evitar a valorização do real, intervindo no mercado de derivativos. Exasperado contra o que chamou de especulação, resolveu taxar as posições vendidas de câmbio. Será que esse tipo de medida evitará continuidade da valorização do real?


O aumento da posição vendida de bancos, que tanto irrita o Ministro da Fazenda, é a consequência direta da intensificação das compras do Banco Central no mercado à vista, que elevam o cupom cambial. Na operação de arbitragem do cupom cambial os bancos tomam recursos no exterior à taxa Libor, que é praticamente nula, comprando o cupom cambial no Brasil. Ganham a diferença entre o cupom e a Libor, que é tanto maior quanto mais intensas forem as compras do Banco Central no mercado à vista de câmbio, o que estimula novas entradas de dólares, às quais o Banco Central reage com novas compras no mercado a vista, elevando ainda mais o cupom cambial, fechando-se o círculo. Este é um dos mecanismos que está por trás da baixa eficácia das intervenções no mercado à vista de câmbio.


Há alguns meses o governo tentou conter o aumento da posição vendida de câmbio com um recolhimento compulsório, mas o real continuou se valorizando. Antes disso já havia elevado o IOF sobre ingressos em renda fixa, sem conter a valorização. Ainda quando no início do ano o real estava um pouco acima de R$ 1,60, estendeu a incidência do IOF para ingressos de curto prazo, mas teve a surpresa de ver o real quebrar a barreira de R$ 1,60, valorizando-se ainda mais. Por que não é possível segurar o real? Será que há alguma conspiração dos especuladores?


Ninguém nega que no Brasil os juros são extremamente elevados, o que atrai capitais que ajudam a valorizar o real. Mas isso não significa: nem que esta é a principal causa da valorização; e nem que medidas com estas sustem o fortalecimento do real. Por quê?


Em um momento de lucidez o Ministro da Fazenda reconheceu que a causa mais importante da valorização do real é o enfraquecimento do dólar, que se iniciou em torno de 2002, intensificando-se a partir do anúncio do QE2, em 2010. A partir de 2010, o dólar vem se depreciando com relação a praticamente todas as moedas, inclusive o real. Por exemplo, há fortes valorizações: do peso chileno; do dólar australiano e do dólar canadense, moedas de países com taxas de juros muito mais baixas do que o Brasil. A depreciação do dólar leva, inclusive, à valorização do euro, apesar desta ser a moeda de uma área monetária enfrentando crises gravíssimas de dívida soberana, que pode desembocar em uma crise bancária, ameaçando a própria sobrevivência do euro.


O mais grave é que não há perspectivas de que esse quadro se altere em um futuro próximo, porque a depreciação do dólar é um dos caminhos para minimizar as consequências da crise de 2008 sobre a economia americana. A alavancagem excessiva das famílias nos Estados Unidos, construída nos anos em que as autoridades norte americanas acreditavam que poderiam continuar estimulando o consumo, tem que se reduzir muito relativamente aos seus níveis atuais, e isto retarda o crescimento econômico, o que requer a compensação de estímulos, sem o que o crescimento econômico não se acelera.


Por vários anos, antes de 2008, ocorreu a ilusão de que havia uma simbiose entre Estados Unidos e China, que o professor Niall Ferguson jocosamente batizou de Chimerica, segundo a qual os Estados Unidos poderiam permanentemente continuar consumido acima de seus próprios meios, estimulado por taxas de juros baixas sem que a inflação fosse um problema, porque a China exportava deflação para os Estados Unidos, e ao mesmo tempo financiava seus déficits em contas correntes com compras de títulos do tesouro. A combinação desse erro de política econômica, com a ausência de supervisão bancária levou à crise de 2008, da qual Wall Street foi rapidamente salva pela pronta ação do governo e do Federal Reserve. Mas deixou sem solução à vista o mercado imobiliário, e nem criou condições para um crescimento acelerado do consumo das famílias.


A opção inicial foi pela política fiscal expansionista com a realização de déficits públicos enormes, mas isso gera o aumento acelerado da dívida pública. Ao lado disso o Federal Reserve colocou em prática as recomendações que Bernanke havia feito para redimir o Japão da década perdida dos anos 1990, quando a alavancagem excessiva das empresas, e não das famílias, produziu a estagnação. O QE2 foi adotado, e ele deveria elevar o crescimento econômico, em parte porque deveria gerar um "efeito riqueza" que ampliaria o consumo, e em parte porque depreciaria o dólar. O "efeito riqueza" derivado do QE2 foi pequeno, e os Estados Unidos passaram a depender mais e mais do enfraquecimento do dólar.


No caso da dívida pública chegou-se ao limite que desencadeou a luta política entre republicanos e democratas, elevando o risco de um rebaixamento dos EUA por pelo menos uma agência de classificação de riscos, o que força ainda mais a depreciação do dólar. Por outro lado, embora tenha caído a probabilidade de um QE3, porque a inflação já vem crescendo, a expansão monetária nos EUA continuará elevada, devido á taxa básica de juros nula, o que favorece a continuidade do enfraquecimento do dólar. A perspectiva óbvia, em um caso como este, é a continuidade de pressões para a valorização de todas as moedas com relação ao dólar, inclusive o real.


É esta a força predominante por trás da valorização do real. O Brasil pode colocar band-aids no câmbio, mas isso não cura uma hemorragia. Nesta situação, tudo o que puder ser feito para reduzir a taxa de juros no Brasil ajuda a minorar o problema, embora não o solucione completamente. Mas extremo cuidado tem que ser tomado com a inflação, que já é muito elevada, o que me leva a insistir fortemente no óbvio: há uma única combinação de instrumentos de política econômica que teria uma eficácia muito maior neste caso, que é uma política fiscal suficientemente contracionista, fazendo com que ocorra uma contração forte da demanda agregada, permitindo trabalhar com juros reais mais baixos. O país ganharia no controle da inflação, e reduziria o estímulo ao ingresso de capitais derivado dos juros domésticos muito elevados.


Mas o governo prefere os band-aids, porque politicamente é muito mais atraente conseguir notoriedade combatendo supostos especuladores no mercado futuro de câmbio, do que tomando medidas que reduzam os gastos públicos contraindo a demanda agregada. Essa tendência se reforça porque os gastos públicos elevados aumentam a popularidade do governo perante importantes grupos de eleitores.


O dramático é que em todas as tentativas anteriores, com a imposição de limites à posição vendida de bancos ou mesmo o IOF sobre ingressos de longo e de curto prazo, o real sempre voltou a se valorizar. Isso não poderia ser surpresa, diante do fato de que é o enfraquecimento do dólar que está por trás do fortalecimento do real. A diferença é que desta vez o grau de irritação do governo contra essa valorização cresceu, abrindo as portas para intervenções muito mais pesadas, dando ao Conselho Monetário Nacional um enorme poder de fogo quando fixou a alíquota máxima do IOF em 25%.


Nas operações de mercado futuro não predominam os especuladores, e sim os que realizam operações de hedge, que devem ser preservadas, porque esta é a forma como empresas se defendem de riscos. A natureza procura o caminho da saúde rejeitando a doença, e na busca da saúde uma vítima será a BM&F, porque operações de hedge migrarão para Chicago, substituindo as operações no mercado futuro de câmbio, realizadas no Brasil, por operações em NDF realizadas no exterior. Pior para a BM&F!


Porém, é também pior para o Brasil. Ao entrar para a "guerra cambial" com armas com um elevado poder de destruição que afetam operações de hedge relevantes para a economia, mas com pouco poder de reduzir a apreciação cambial, o governo se arrisca a iniciar uma nova guerra. Nesta ele tende a elevar exageradamente os riscos e a reduzir a previsibilidade das variáveis essenciais para a tomada de decisões econômicas. Deveria fazer um esforço para agir com grande racionalidade no campo econômico, mas aparentemente tem mais dividendos políticos no curto prazo se atirar contra supostos especuladores sem, contudo, resolver o problema.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Lei de Cotas não atinge meta em 20 anos
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 31/07/11

Após 20 anos em vigor, a meta do Ministério do Trabalho para a Lei de Cotas, que obriga empresas com mais de cem funcionários a contratar pessoas com deficiência, ainda não foi atingida.
Em São Paulo, 46% das vagas destinadas a profissionais com algum tipo de deficiência estão ocupadas.
O Estado é, ainda assim, líder em contratações pela lei. Em 2010, 32,7% das pessoas que foram contratadas trabalhavam em São Paulo.
"Gostaria que as fiscalizações fossem mais eficientes, não para multar as empresas, mas para conscientizar o setor produtivo", diz Linamara Battistella, secretária dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo.
Nos últimos dois anos, a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de SP mudou a fiscalização.
"Aumentamos o prazo das empresas de 120 dias para até 36 meses. Em troca, elas se comprometem a fazer programas de capacitação", diz José Carlos do Carmo, coordenador de inclusão do órgão.
Nem todas as companhias seguem as orientações da superintendência. Marcelo Oliveira, que desenvolveu doença nas pernas após acidente de trânsito, acaba de trocar de emprego. Ele não recebera nenhum treinamento.
"Assinei a carteira e, no dia seguinte, estava trabalhando como todos os profissionais."
O funcionário da NET Marcondes Silva, que teve má formação congênita na mão, seleciona pessoas com deficiência para a empresa.
"É comum candidatos nos procurarem por não se sentirem úteis onde foram contratados. As empresas pagam os salários, mas os deixam em casa, encostados."

O QUE ESTOU LENDO
Andrea Matarazzo, secretário estadual de Cultura (SP)
"Fordlândia", de Greg Grandin (ed. Rocco), é a atual leitura do secretário da Cultura do Estado de São Paulo, Andrea Matarazzo.
"É sobre o projeto ousadíssimo e gigantesco de Henry Ford para enfrentar o cartel da borracha. Foi derrotado pela praga nos seringais, [entre outras razões]. Ford copiou a arquitetura dos EUA, tudo de lá, e a adaptação ao Brasil não deu certo." Matarazzo também acabou de ler "Ébano Minha Vida na África" (ed. Cia das Letras), de Ryszard Kapuscinski.

CHURRASCO DE DOMINGO
Fazer churrasco está mais barato neste ano. Os preços das carnes compradas em açougue caíram 2,9% em junho na cidade de São Paulo.
Foi a sexta queda mensal consecutiva, segundo o IPV (Índice de Preços no Varejo), da Fecomercio SP. O principal motivo é o aumento da oferta no mercado interno.
A maior retração foi a das aves (-9,5%), seguida pela suína (-2,8%) e bovina (-1,6%).
Neste ano, as carnes acumulam queda de 9,5%.
O que aumentou a oferta interna foram restrições sanitárias de mercados como Rússia e África do Sul em relação à carne brasileira, de acordo com a Fecomercio.

COM QUE GRAVATA
Na hora de comprar uma gravata para usar ou dar de presente, o que escolher?
Grifes respondem que depende do gosto e do estilo de cada um, mas no quesito largura a tendência é a estreita.
Por que acessórios mais arrojados, como peças de tricô, não fazem sucesso no país? Gravatas de tricô, um clássico do século passado, foram reeditadas e são bem-aceitas na Europa e nos EUA.
"No Brasil, é artigo de nicho dos que têm gosto mais europeizado, mas estamos conquistando o brasileiro", segundo a Ermenegildo Zegna no Brasil.
Para Mariana Nassralla, diretora do Brasil Fashion, que controla a Salvatore Ferragamo no Brasil, "há duas formas de usá-las: o homem se veste no mesmo tom e o acessório acompanha a cor da roupa, e aquela em que a cor da gravata é diferente e se destacará".
Nassralla também diz que o brasileiro, porém, é menos audacioso. O mesmo ocorre com a gravata mais fina: apesar de comum na Europa, a largura tradicional ainda é a preferida aqui.
"Os brasileiros são mais conservadores. Gravatas de crochê ou estampas grandes nunca são as vendidas", diz Patricia Gaia, CEO do Grupo Armani Brasil.
Para a Ricardo Almeida, a de cerca de sete centímetros é adequada. As muito finas são ideais para magros, jovens e mais modernos.
Quanto às estampas, homens clássicos procuram diagonal e poá, em cores cinza, azul e vermelho. Os mais modernos querem tons como roxo, amarelo, laranja e verde.

com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK e VITOR SION

JAPA GOSTOSA

CELSO MING - Foco errado

Foco errado
CELSO MING
O ESTADÃO - 31/07/11
Sexta-feira, a cotação do dólar voltou a recuar (1,02%) no câmbio interno, reforçando as dúvidas sobre a eficácia das decisões tomadas para reverter a tendência de baixa do dólar.


Antes, na quarta-feira, o governo entendeu que devesse intervir pesadamente no mercado de derivativos (mercado futuro do dólar), baseado no diagnóstico de que é principalmente nesse segmento que se formam os preços da moeda estrangeira. E esse tem tudo para ser o engano maior.


Se é o mercado de derivativos que, de fato, determina os preços, então o Banco Central tem falhado desde 2004, quando iniciou a compra de moeda estrangeira no segmento à vista, supostamente para dissipar volatilidades. De lá para cá, empilhou US$ 340 bilhões em reservas - principal resultado dessas compras. Estas vêm sendo justificadas como forma de blindar a economia brasileira contra a crise externa e, nisso, as intervenções foram e estão sendo eficazes. Mas, ao aceitar o diagnóstico de que o que conta são os derivativos -, o Banco Central admite implicitamente que as compras de dólares terão sido inúteis para o outro objetivo: o de evitar a excessiva valorização do real. Ou seja, o Banco Central atuou no mercado errado, menos importante na formação dos preços.


Não têm razão os dirigentes da Fiesp quando afirmam que a exportação de negócios de hedge, efeito colateral das últimas decisões tomadas, não é nada ante o esvaziamento da indústria castigada pela excessiva valorização do real. Seria este um argumento aceitável se as medidas agora colocadas em prática fossem eficazes para segurar a devastação no câmbio e no setor produtivo.


Ninguém sustenta a ideia de que mais importante do que garantir a competitividade da indústria seja preservar os negócios de derivativos no mercado interno. O foco é outro. Tiros de bazuca, como os da semana passada, são fortes o bastante para desmilinguir o mercado de derivativos de moeda estrangeira. No entanto, mais e mais dólares continuarão entrando no País, como receitas de exportações, investimentos estrangeiros e empréstimos entre empresas. E as cotações continuarão mergulhando no câmbio interno.


O grande risco é o de que, além de não frearem o tombo do dólar - objetivo mais importante -, as últimas decisões produzam ainda o efeito colateral de desintegrar o mercado interno de hedge, por meio do qual empresas e pessoas físicas se protegem do risco cambial.


O que mais preocupa não é o voluntarismo do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que decidiu fazer qualquer coisa para evitar novas valorizações do real. É o fato de que, tomado pela aflição, corte os dedos para se livrar de um câncer e, por essas e outras, nem se livre do câncer e ainda perca os dedos.


A principal causa do excessivo fortalecimento do real é a desvalorização do dólar, contra a qual pouco há a fazer. Mas, ainda assim, a melhor coisa que o governo Dilma poderia prover para corrigir esse desvio é derrubar fortemente os juros, para evitar que os capitais entrem (ou deixem de sair) a fim de tirar proveito dos ganhos no mercado financeiro.


Só que isso não se faz com voluntarismo. Para derrubar os juros, será preciso reduzir valentemente as despesas, para que recue o consumo provocado pela renda criada pela política fiscal e que a política de combate à inflação não fique toda nas costas do Banco Central.






43 minutos do 2º tempo


Faltam 48 horas para que os políticos dos Estados Unidos se entendam para definir as condições que autorizarão o aumento do endividamento do Tesouro do seu atual piso de US$ 14,3 trilhões. As finanças do Estado americano vão sendo empurradas para a beira do precipício e, enquanto isso, aumenta o risco de que se instaure um período de grande incerteza na economia global.

IVAN MARSIGLIA - Rogai por noias

 Rogai por noias 
IVAN MARSIGLIA
O ESTADÃO - 31/07/11
A polêmica aparição da santa na cracolândia, que ganhou bênção de dom Odilo Scherer e acabou destruída por usuários da droga


O fotógrafo e artista gráfico José Zarella Neto resolveu fazer uma graça. No dia 21, puxou um gato de seu estúdio na região da Santa Cecília, no centro de São Paulo, e esticou o fio até a esquina, na Rua Apa. Ali fica um dos territórios flutuantes e nômades que nos acostumamos a chamar de "cracolândias". Com dois assistentes, Rodrigo Roseiro e Rafael Berezinski, instalou uma lâmpada na parede, na parte mais escura da rua, onde os usuários da droga se concentram assim que cai a tarde até alta madrugada, e pintou um retângulo azul. Depois, os três fizeram um suporte com espuma de poliuretano. No dia seguinte de manhã, trouxeram uma imagem de Nossa Senhora Aparecida de gesso, comprada de uma artesã do bairro do Jabaquara, cuja coroa e base ele pintou com tinta spray dourada.

Fixaram a santa no suporte, colaram na parede sobre ela uma máscara vazada de estêncil e preencheram as letras com spray da mesma cor: "Nossa Senhora Do...". A última linha, mantiveram coberta com um pano até os últimos retoques. Então, Zarella - conhecido por Alemão entre os vizinhos adictos - verificou se a rua estava vazia antes de retirar o pano. Revelou, então, a última palavra - palavra que não era de Deus. "Nossa Senhora Do Crack."

Aos 33 anos, Alemão mora no bairro da Barra Funda desde que nasceu. Caçula de três irmãos sustentados pela mãe vendedora, perdeu o pai, dentista, aos 6 anos. A aparência que lhe conferiu o apelido herdou do avô, um imigrante russo fugido, segundo lhe consta, da revolução comunista. Antes de se transformar em fotógrafo premiado de publicidade, trabalhou como office-boy, entregador e contínuo de jornal. Lá, após cursar o Senac, fez seus primeiros cliques até tornar-se editor de fotografia de uma sucursal na região do ABC paulista.

Depois, foi assistente de alguns dos grandes nomes da fotografia no País: Thelma Vilas Boas, Luis Crispino, Maurício Nahas, até alçar voo próprio. Hoje, se não deixou o bairro de sua infância simples, pilota um estúdio de três pavimentos e ainda nessa semana preparava a campanha de lançamento do novo carro de uma grande montadora. Na parede, a imagem que ele fez para uma campanha do Exército da Salvação, da agência McCann Erickson, que ganhou o Leão de Bronze em Cannes em 2007. Zarella tem outro desses, que faturou por outra campanha, da agência Loducca, um ano antes.

Não que a convivência entre o luxo e o lixo seja fácil. Uma ocasião teve que interromper uma reunião com clientes por causa da zoeira dos "noias" - como são conhecidos os usuários de crack, por causa de seu estado frequente de inquietação e paranoia - na rua ao lado. Quase apanhou de um deles. Outros, no entanto, felizmente preferiram a política da boa vizinhança: "Deixa o Alemão, que ele é gente boa".

Nada comparado ao que aconteceu no ano passado, quando ele viajou a trabalho com sua equipe e um noia pulou o muro da casa ao lado, cortou a telha de zinco do estúdio e entrou. "O sacana me levou um aparelho de som e outras coisinhas. Mas isso é de menos", contemporiza. Zarella Neto não frequenta igreja, mas tem sempre um terço com contas de madeira pendurado no pescoço e se diz "um Cristão sem religião".

Se é a tal culpa cristã, tampouco ele explica, mas o fato é que o fotógrafo banca do próprio bolso trabalhos autorais com pegada invariavelmente social. Certa vez ele atraiu com sanduíches de mortadela e cachê de R$ 10 oito mendigos da região. Fotografou-se lavando os pés deles com leite - em uma de suas séries mais impressionantes. Outra delas é o work in progress nas cracolândias da cidade, que ele visita uma vez por semana, disparando o obturador da janela do carro. Recentemente, na Praça Júlio Prestes, levou um susto quando um usuário de crack atirou uma pedra e estourou o vidro de seu Renault Mégane.

Nenhum projeto lhe deu tanta dor de cabeça, no entanto, quanto a Nossa Senhora Do Crack, cuja produção e instalação ele registrou em vídeo, que pode ser visto na internet: http://www.youtube.com/watch?v=bQGNpvYYZbA. A repercussão, literalmente, o derrubou: Alemão teve febre e precisou tirar um dia de folga do estúdio. "Eu sabia que aquilo ia causar controvérsia, mas pensava que, por se tratar de uma imagem sacra, a obra seria preservada." Santa ilusão.

De início, tanto o frentista do posto quanto a atendente do bar na esquina, cumprimentaram-no pelo trabalho. Os noias, que costumam estar alheios a quase tudo, também elogiaram. Uma mulher maltrapilha pôs a mão no ombro dele e agradeceu: "É linda. Está aqui para ajudar a gente". Fenômeno diverso, no entanto, se deu após a aparição de uma emissora de televisão.

A repórter colheu opiniões revoltadas nas redondezas. Até os usuários de drogas se puseram a criticar, naturalmente sem mostrar o rosto. No vídeo, uma diz que o crack "não é de Deus"; outro, que aquela era "uma santa do mal". Os ânimos se exaltaram e, diante da câmera, um deles se dependurou no suporte e começou a balançar - até que ele caiu e a santa se espatifou no chão. Uma senhora que passava se apiedou e levou a cabecinha de Nossa Senhora para casa: "Vou cuidar como se fosse uma criança".

O padre Julio Lancellotti, que desenvolve trabalhos sociais com moradores de rua, chegou em seguida e, diante da santa craquelada, abusou da metáfora: "Agora, quebrada, ficou ainda mais parecida com o povo que está aqui. É um povo machucado, destruído, que está com a sua imagem desfigurada".

Mesmo o cardeal dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, deu sua bênção à instalação. "Os usuários de drogas são humanos, irmãos, filhos de Deus. Nossa Senhora Do Crack, rogai por eles e por nós também." Foram as dezenas de cartas e e-mails diabólicos que chegaram ao estúdio - fazendo até menções nada delicadas à mãe do artista - que o deixaram doente.

A repercussão não foi por acaso. Desde que o crack ganhou vulto nas ruas da cidade e bateu na porta das famílias de classe média, o tema suscita as mais pesadas discussões - numa gama que vai da mais completa intolerância à complacência ingênua. De nada adiantou a secretária nacional de políticas sobre drogas, Paulina Duarte, ir à TV dizer que a ideia de que o País vive uma "epidemia de crack é uma grande bobagem".

O Ministério da Saúde ainda aguarda uma pesquisa, prometida para este ano, que dará contornos corretos ao flagelo que afeta não só as grandes cidades, mas também áreas rurais do País. Estima que sejam 600 mil os viciados na pedra em todo o Brasil. Em São Paulo, onde o crack chegou primeiro - assim como agora o oxi, sua versão mais rústica e barata, destilada "artesanalmente" com querosene ou gasolina - policiais do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) calculam que cerca de 2 mil usuários circulam por regiões como a Rua Helvétia, Barão de Piracicaba, Dino Bueno, Tenda da Bela Vista, Praça do Correio e Largo Coração de Jesus, entre outros, além de bairros como o da Mooca.

É igualmente difícil, dizem as autoridades, isolar o dependente de crack do uso de outras drogas, em especial o álcool. É prática comum, por exemplo, o uso do chamado "pitico" ou "basuco": um cigarro de maconha misturado com a pedra. O tema, complexo, é tratado pela Prefeitura ora como questão de polícia, ora como problema de saúde pública.

Ambiguidade. À noite, viaturas da Guarda Civil e da Polícia Militar enquadram os usuários, apreendem drogas e buscam os traficantes. Durante o dia, Kombis da secretaria de Saúde trazem agentes, vestidas de jaleco azul-celeste, que atuam sempre em dupla na tentativa de convencê-los a se tratarem. Os feridos, desidratados ou convalescentes de doenças infecciosas são encaminhados às AMAs (Atendimento Médico Ambulatorial). Os que se dispuserem a aconselhamento ou mesmo a internação são levados para as unidades do Capes, Centro de Atenção Psicossocial.

A não ser por determinação judicial, ninguém pode ser internado compulsoriamente. Quando se dispõe à internação, o usuário pode passar até três meses no Serviço de Atenção Integral ao Dependente (Said), no bairro de Heliópolis, para se reestruturar. A Prefeitura também dispõe de comunidades terapêuticas conveniadas que podem receber doentes. Depois, assistentes sociais fazem um esforço para reintegrá-los à família e ao convívio na sociedade. Por razões óbvias, é bastante difícil conseguir emprego para um ex-usuário de crack.

Em toda a cidade são apenas 317 leitos especializados nesse tipo de tratamento. Neles há grande rodízio de pacientes, que normalmente passam por mais de uma internação. "Essas idas e vindas são comuns, parte do processo de reabilitação", ensina a coordenadora de saúde mental, álcool e drogas do município, Rosangela Elias. Desde que o programa começou, em 2009, 1.705 dependentes foram internados, só 111 deles compulsoriamente. A maioria volta para a droga. "É um trabalho de formiguinha."

Nessa semana, um parecer da Procuradoria-Geral do Município abriu caminho para a adoção, em vigor desde maio no Rio de Janeiro, da internação compulsiva de menores em São Paulo. Para alguns, como o professor da Unifesp Ronaldo Laranjeira, trata-se de "um ato de coerção com compaixão". Para outros, como seu colega Dartiu Xavier da Silveira, internação à força tende ao fracasso: "A recaída é quase certa". Quem trabalha nas ruas também relata uma dificuldade adicional: vários usuários não têm documentos e não é fácil deduzir sua idade pela fisionomia.

Enquanto o debate prossegue, Zarella Neto desistiu de colocar outra escultura da santa no altar da Rua Apa, como chegou a anunciar no início da semana. A Nossa Senhora Do Crack se quebrou e pronto. Mas o fotógrafo já planeja outras "aparições" pela cidade, sobre as quais faz mistério maior que o de Fátima. "Tenho fé que ainda vou abrir os olhos das pessoas."

JANIO DE FREITAS - As marcas do atraso

As marcas do atraso
JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 31/07/11

Privilégios resolvidos há tanto tempo nos países medianamente civilizados ainda são inamovíveis aqui


SOB A CHUVA DE gente do Ministério dos Transportes, ocorre, quase em silêncio, uma tripla coincidência muito representativa do que ainda é este Brasil que já se acha entrado no mundo desenvolvido.
Os exatos 50 anos do escândalo de indignação nacional causado pela aprovação do recesso parlamentar remunerado, que os congressistas se deram em 1961 nos então cafundós de Brasília, ocorre quando os congressistas de hoje voltam de um desses recessos. E, de quebra, o próprio presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça, Cezar Peluso, propõe, sob protestos da classe, a redução dos 60 dias de férias+recesso do Judiciário para os 30 dias de férias comuns aos demais que trabalham (categoria, está visto, em que não se incluem, com duas dúzias de exceções, os congressistas).
Diz-se que 50 anos são um nada na história. Mas a transformação pode dar-se em 50 anos é toda uma história. A aprovação do recesso parlamentar remunerado se fez sob estímulo de Juscelino interessado em aplacar, por acúmulo de benesses e privilégios, as iras de políticos, funcionários e famílias com a mudança precipitada para a Brasília ainda em andaimes. Como reação, por ser o projeto considerado inconstitucional, o presidente da Comissão de Constituição e Justiça, deputado Oliveira Brito, um dos mais importantes no partido de Juscelino, renunciou ao cargo. E, pelo mesmo motivo, foi seguido por todos os componentes da comissão.
Agora, mas não de hoje, só se imaginariam renúncias contra o fim, em perfeita harmonia com a Constituição, de um qualquer dos privilégios componentes do acúmulo indigno gozado pelos congressistas.
Já quanto ao recesso do Judiciário, os argumentos das associações de magistrados contrárias à iniciativa do ministro Peluso estão longe de convincentes. As tensões e responsabilidades dos que julgam são acompanhadas, por exemplo, pelas dos cirurgiões, as dos que ficam 12 e mais horas no desconforto e nas apreensões de uma cabine de pilotagem, as dos obstetras, e as de tantas outras atividades em que mal há as férias normais. E, entre estas, aquelas nas quais os vencimentos e as aposentadorias integram as formas de injustiça e mesmo de humilhação.
Apesar disso, o princípio de apoio à proposta de Cezar Peluso, constatável pelas cartas de leitores aos jornais, só será justo -como convém em relação ao Judiciário- caso se desenvolva sem deixar intocado o recesso remunerado dos congressistas. Estes, que já se davam poucos ares de quem está ocupado com sua atividade formal, na atual legislatura reduziram ainda mais a sua presença semanal em Brasília. E, se lá estão, é sobretudo para buscar e transacionar cargos no governo, de ministro às terceirizações de serviços modestos. Votações? Não importa em que sentido, só se já passadas por transações que não dependem do teor e dos efeitos da coisa a ser votada.
As disparidades, privilégios e deformidades mais simplórias, resolvidas há tanto tempo, senão séculos, nos países medianamente civilizados ou mais, ainda são inamovíveis no Brasil que se regozija é com a exportação de soja, os lucros dos bancos e da Vale, e, claro, com o cassino da Bolsa e do dólar -como atestam, todo dia o dia todo, TV, rádios e jornais.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Batismo de fogo
RENATA LO PRETE
RANIER BRAGON - INTERINO
FOLHA DE SP - 31/07/11

Na imersão a que pretende submeter Fernando Haddad nas zonais paulistanas, o PT cuidará de aproximá-lo de líderes católicos para eliminar vestígios do boicote pregado por parte da cúpula da Igreja aos petistas na campanha de 2010 -subestimado pelo partido à ocasião. Já próximo do padre Rosalvino Viñayo, de Itaquera, o ministro da Educação estará com d. Angélico Bernardino, da Brasilândia.

A despeito da resistência interna à candidatura de Haddad à prefeitura da capital, dirigentes avaliam que Lula, seu mais obstinado cabo eleitoral, ainda não entrou em campo para colocá-lo definitivamente no páreo. "Quando ele mergulhar de cabeça, ninguém segura", afirma um grão-petista.

Parceria 
Os presidentes do DEM, José Agripino (RN), e do PSDB, Sérgio Guerra (PE), vão se reunir para discutir a política de aliança entre os dois partidos nas eleições municipais e a estratégia de atuação no Congresso até o fim do ano.

Lupa 
A fama de detalhista de Dilma Rousseff se espalha. Assessores garantem que são poucas as listas que não passam por sua mão: de convidados a almoços a acompanhantes nas viagens no Aerolula. Em alguns casos, ela mandou desconvidar assessores previamente escalados para reuniões.

Balanço 
Restou apenas um nome indicado por Alfredo Nascimento no Ministério dos Transportes, em Brasília, a chefe da Consultoria Jurídica, Yolanda Corrêa Pereira. Nos Estados, continuam os afilhados Sílvio Romano (Docas do Maranhão), Afonso Lins (Dnit do Amazonas) e Sebastião Reis (Hidrovias e Portos da Amazônia).

A sós 

O presidente de Furnas, Flávio Decat, conversou com Edison Lobão (Minas e Energia) na quinta. Quem sabe do riscado afirma: Decat já avisou a Luiz Hamann, diretor financeiro de Furnas e ligado ao líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), que é grande a pressão para substitui-lo por Paulo Sérgio Petis.

Na gaveta 

O senador Walter Pinheiro (PT-BA) disse que vai cobrar em plenário, nesta semana, que o governo coloque para votar ou retire o regime de urgência do projeto de acesso à informação, que acaba com a possibilidade de sigilo eterno de documentos. A tramitação do texto está barrada por Fernando Collor (PTB-AL), presidente da Comissão de Relações Exteriores.

Delay 
Foi na sexta-feira de manhã que Nelson Jobim (Defesa) deu os primeiros sinais de que a "ficha" caíra. Até então, quando questionado sobre a declaração de voto em José Serra, ele se limitava a rebater com um "o que eu fiz de errado?".

Documento 

Diante da movimentação de Paulo Skaf para se firmar como "Plano B" do PMDB para a eleição paulistana, a direção do partido em São Paulo pretende cobrar do presidente da Fiesp uma declaração pública, gravada, de apoio à pré-candidatura de Gabriel Chalita à prefeitura.

Fiel da balança 
Se o câmbio é o problema do momento para Dilma, a valorização do real ajuda o governo paulista a fechar no azul. Projeções da equipe econômica de Geraldo Alckmin indicam sobra orçamentária de R$ 2,9 bilhões em 2011. O incremento na receita se deve, em grande parte, ao ICMS recolhido sobre importações.

Do contra 
Depois da CUT anunciar que recorrerá à Justiça contra a concessão de aeroportos à iniciativa privada, proposta anunciada pelo governo Dilma, a Força Sindical prepara um documento a favor da medida.

com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio
"O PR e o PMDB são aliados há anos, mas fica claro que o PMDB não é o PR. Como o PR poderá não ser o PMDB em 2012."
DO DEPUTADO LUCIANO CASTRO (PR-RR), sobre manifestações de peemedebistas tentando desvincular a sigla do PR, alvo da faxina promovida pela presidente Dilma Rousseff nos Transportes.

contraponto
Mamão com açúcar

Em reunião na quinta-feira para tratar da melhora nas condições de trabalhadores arregimentados para grandes obras, como as das hidrelétricas de Rondônia, o ministro Carlos Lupi (Trabalho) recebeu da associação das empresas de construção e de centrais sindicais proposta conjunta de portaria com as novas regras. Bem-humorado, parafraseou o ex-chefe, inclusive imitando o tom de voz de Lula:
-Nunca antes na história desse país isso aconteceu: eu receber uma portaria tão de mão beijada!