sábado, julho 30, 2011

ILIMAR FRANCO - O impasse

O impasse
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 30/07/11

Azedou o clima entre os ministros Fernando Pimentel (Desenvolvimento) e Guido Mantega (Fazenda). Os dois divergem sobre o montante dos incentivos fiscais que serão concedidos pelo Programa de Inovação do Brasil. A Fazenda, tendo como álibi a crise internacional, não quer conceder vantagens significativas. Pimentel teme que um volume acanhado de renúncia fiscal transforme o novo programa num factoide. A presidente Dilma está com Pimentel e mandou Mantega se virar.

Recorde de ressarcimento

O ressarcimento dos planos de saúde ao SUS bateu recorde neste semestre: R$ 28 milhões. Esse valor é maior do que a soma dos últimos três anos. O governo incluiu na medida provisória que altera a tabela do Imposto de Renda, em tramitação no Senado, artigo revertendo esse dinheiro para o Fundo Nacional de Saúde. Atualmente, esses recursos ficam no Tesouro Nacional e contribuem para o superávit primário. A expectativa é de que os reembolsos dos planos privados para o SUS aumentem ainda mais nos próximos anos. Para facilitar os cruzamentos, as guias de internação dos hospitais terão que incluir o número SUS.

"Não tem um brasileiro que possa fazer o trabalho com a competência que o Jobim está fazendo no Ministério da Defesa” — ex-presidente Lula, ontem, para o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes

GRILO FALANTE. O secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, diz que, quando foi convidado pela presidente Dilma Rousseff para assumir essa função, ela pediu que ele fizesse o papel de uma espécie de “grilo falante”, levando problemas e demandas dos movimentos sociais. No escândalo do Ministério dos Transportes, Gilberto agiu para reduzir os danos e defendeu o ex-diretor-geral do Dnit Luiz Antônio Pagot.

Cada uma
A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, conseguiu surpreender o governo brasileiro. Ela não aceitou a água oferecida pelos garçons do Planalto. Cristina trouxe a sua própria água para consumir enquanto estivesse no Brasil.

Haja festa

Quando visitou o Hospital da Criança, em Feira de Santana, no dia 20, o ex-presidente Lula perguntou: “O Padilhinha já veio aqui?”. Ontem, o ministro Alexandre Padilha (Saúde) esteve lá. O hospital foi inaugurado no ano passado. 

Paradas desde o ano passado

O ministro Fernando Bezerra Coelho (Integração Nacional) confirma que as obras de transposição do Rio São Francisco estão paradas “desde agosto do ano passado”. E afirma que a retomada está começando. Nesta semana, ele assinou quatro aditivos. Na semana que vem, assina mais quatro e, até o meio do mês, outros quatro. Acrescenta que nenhum desses aditivos ultrapassa o limite de 25% do valor das obras.

Os vices
O prefeito Eduardo Paes (PMDB) ainda não fechou o vice na candidatura à reeleição. Mas no PT já há quatro pretendentes: o vereador Adilson Pires, o secretário Jorge Bittar e os deputados estaduais Gilberto Palmares e Carlos Minc. 

Qual a guerra?
O secretário da Fazenda de São Paulo, Andrea Calabi, nega a existência de guerra fiscal para a produção de tablets. “A guerra é de competitividade”, diz. Afirma que apenas São Paulo e Rio têm condições de absorver essas fábricas.

 COTA. A ministra Iriny Lopes (Mulheres) quer aumentar a mão de obra feminina nas obras do PAC, da Copa de 2014 e nos grandes projetos, como a construção de hidrelétricas.
 O COMBATE à violência no campo será uma das principais bandeiras da Marcha das Margaridas, que acontecerá nos dias 16 e 17 de agosto, em Brasília. 
● DURANTE a reunião da Unasul, em Lima, anteontem, a presidente Dilma ligou para o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Dilma o cumprimentou pelo aniversário. Chávez garantiu que sua saúde vai bem.

MÔNICA BERGAMO - NA SALA DE JUSTIÇA

NA SALA DE JUSTIÇA
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 30/07/11

Apenas 4% da população sabe exatamente o que faz o STF (Supremo Tribunal Federal). É o que aponta o Índi­ce de Confiança na Justiça da Escola de Direito da Funda­ção Getúlio Vargas. A pesqui­sa foi realizada em sete Esta­dos. Do total de 1.551 entre­vistados, 37% afirmam desco­nhecer completamente as atividades do STF, enquanto 59% dizem conhecer "apenas um pouco" das funções do órgão. E 83% dos entrevistados já ouviram falar do Supremo.

NA SALA DE JUSTIÇA 2
"É a primeira vez desde que o índice foi criado, em 2009, que perguntamos sobre o STF. Vimos que quanto maior a renda e a escolaridade, maior o grau de conhecimento do órgão", afirma Luciana Gross Cunha, coordenadora da pesquisa.

DUAS FRENTES
Além de sondar a equipe do publicitário mineiro Paulo Vasconcelos para fazer sua campanha, o deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP), pré-candidato à Prefeitura de São Paulo, também conversa com Valdemir Garreta. Quer o marqueteiro, que já trabalhou para o PT e para o presidente do Peru, Ollanta Humala, cuidando da inteligência de pesquisas.

PENÚLTIMO CAPÍTULO
O Ministério Público apresentou as alegações finais no processo em que Oscar Maroni, dono da boate Bahamas, é reu por formação de quadrilha, exploração de casa de prostituição e tráfico interno de pessoas. O promotor José Carlos Blat pedirá pena de nove a 21 anos, caso ele seja condenado por todos os crimes. O advogado de Maroni, José Thales Solon de Melo, disse não ter tomado conhecimento das alegações do MP até ontem.

PREFERENCIAL
A defesa de Maroni apresentou um pedido para que o processo dele seja julgado com celeridade, baseado no que diz o Estatuto do Idoso. O empresário tem mais de 60 anos.

ELE DE NOVO
Bruno Mazzeo será o mestre de cerimônias do Prêmio Multishow de Música Brasileira, em 6 de setembro, pelo segundo ano consecutivo.

NOVA COXIA
O palco do edifício Itália, que abrigava o Teatro de Dança, será administrado pela CZ Produções. A empresa de Cizo de Souza, Erlon Bispo e Darihel de Souza fechou contrato depois que a Secretaria da Cultura não renovou o aluguel do espaço. A estreia será em 27 de agosto, com o musical "Eu Te Amo Mesmo Assim".

A ÚLTIMA CEIA
O empresário Marcelo Fernandes, dos restaurantes Kinoshita, Clos de Tapas e Mercearia do Francês, foi convidado pelo espanhol Ferran Adrià para participar do jantar de encerramento do El Bullí, hoje, na Espanha.

ESTRELA DA CAPA
Adriane Galisteu ri dos comentários de que a entrevista de Sandy na edição de aniversário da "Playboy", em que a cantora afirma ser possível sentir prazer anal, irá ofuscar seu segundo ensaio nu para a revista. "Acho que essa dupla [Sandy e Galisteu] dará o maior caldo", diz. Adriane conta que a publicação, na qual repetirá a famosa foto de depilação de 1995, será lançada no dia 9 no espaço Lagoon, no Rio.

MARIA CHIQUINHA
E a edição de ontem do programa "Globo Esporte" foi embalada por diferentes hits da época em que Sandy fazia dupla com Junior.

BANDEIRA JULINA
A banda Blitz tocou na festa do Seo João, do Grupo Bandeirantes, comandado por João Saad. A apresentadora Renata Fan, o comentarista Neto e a diretora Rosana Saad foram ao arraial.

VOU DE BIKE
A baiana Maria Luísa Jucá é a idealizadora da prova ciclística Tour do Rio, que termina amanhã no Rio de Janeiro. "As provas de ciclismo no Rio aumentaram 400% em um ano", diz ela, que agora pretende levar a competição para dois outros Estados: Bahia e Rio Grande do Sul

CURTO-CIRCUITO

José Victor Oliva inaugura na segunda a agência Samba.Pro, em casa dos anos 50 na av. Rebouças.

A festa Cabaret, de Ulisses Campbell, estreia hoje no Sonique. 22h. 18 anos.

O presidente da OAB-DF, Francisco Caputo, será anfitrião do Prêmio Engenho de Comunicação na segunda, às 20h30, em Brasília.

Martha Streck estrela a nova campanha da Saad.

com DIÓGENES CAMPANHA(interino), LÍGIA MESQUITA, THAIS BILENKY e CHICO FELITTI

MÍRIAM LEITÃO - Refrescar a indústria


Refrescar a indústria
MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 30/07/11

A indústria aguarda para a semana que vem um anúncio do governo, mas sabe que qualquer que seja o desfecho do embate entre os ministérios não há muito o que esperar da política industrial. Não haverá a reforma tributária, os encargos trabalhistas não serão reduzidos, a infraestrutura não será melhorada a curto prazo. Negociam algumas medidas que ajudem determinados setores.

O que fazer com o setor de ar-condicionado, por exemplo? O presidente da CNI, Robson Andrade, disse que hoje 90% dos produtos vendidos estão vindo da China e que a indústria está acabando no Brasil. Os dados mostram que as importações saíram de US$ 106 milhões em 2002 para US$ 697 milhões em 2010, só desse produto, um aumento de 550%. O déficit hoje é dez vezes maior do que era.

"O pior é que a indústria brasileira cumpre normas ambientais que não são exigidas do produto estrangeiro."

Robson acha que levantar a licença automática já permitiria separar o joio do trigo. O joio seria produto de triangulação ou que não respeita padrões locais.

Ele garante que não quer protecionismo, mas esse tipo de entendimento sobre a necessidade de cada setor.

Com um genro chinês, que é pai de dois dos seus três netos, o novo presidente da CNI brinca que não tem nada contra o país em si, e entende que as importações de lá estão ajudando a modernizar as máquinas e equipamentos usados pela indústria brasileira. O problema, segundo ele, é a incapacidade brasileira de enfrentar os velhos gargalos.

A política industrial setorial pode refrescar um ou outro setor, mas o que realmente resolve são as mudanças não feitas, como a prometida desoneração da folha salarial.

O ministro Guido Mantega pediu que os empresários se pusessem de acordo sobre que nova fonte de arrecadação poderia substituir os atuais encargos trabalhistas. Não foi possível, porque há interesses conflitantes entre setores. Certas propostas que agradam uns desagradam outros.

Robson Andrade diz que um dos pedidos mais objetivos que tem feito é o da desoneração do investimento. "Os créditos do IPI, PIS e Cofins são aproveitados em 12 meses; o ICMS, em muito mais tempo ou, em alguns estados, nunca. E isso tem um custo, paga-se o imposto no investimento, e o desconto é num tempo longo."

Há setores empresariais que estão em conflito aberto, como a siderurgia e a mineração. Esta semana eu entrevistei o novo presidente da Vale, Murilo Ferreira, no meu programa na Globonews . Ele defendeu a decisão de investir em siderurgia como forma de garantir mercado para o minério de ferro da Vale dentro do Brasil.

"Tínhamos 70% do mercado interno de fornecimento de minério de ferro para a siderurgia, hoje temos 50% e te garanto que em 2014 teremos 29%. O ciclo mundial está favorável ao minério de ferro, mas sei que o mundo é feito de ciclos altos e baixos. A melhor coisa que a Vale pode ter é um mercado cativo para o fornecimento do seu minério", disse Murilo.

No setor de siderurgia, o argumento é que havia competição entre mineradoras no Brasil até que a Vale comprou a Samitri, Samarco, Ferteco, Soicomex, MDR. Aí virou um quase monopólio. As siderúrgicas começaram então a entrar em mineração.

A CSN já tinha a sua Casa de Pedra. A Usiminas comprou jazidas perto de Betim. A propósito: ao contrário do que parece, ainda é em Minas que a Vale tira a maior parte da sua produção, e não em Carajás. Outras siderúrgicas estão também entrando em mineração e dizem que fazem isso numa atitude defensiva, para não ficarem na mão da Vale. O problema é como transportar o minério.

A Agência Nacional de Transportes Terrestres acaba de baixar uma resolução que dá muito mais do que o direito de passagem, entende que os trilhos são da União. Então bastaria à Usiminas ter uma locomotiva. Está formado o conflito. A Vale, por sua vez, está investindo em siderurgia apesar de haver 530 milhões de toneladas de aço de capacidade ociosa mundial e de ela mesma ter vendido seus investimentos siderúrgicos tempos atrás. Murilo Ferreira nega que esteja fazendo esse movimento para atender a uma pressão do governo.

Bem menos convincente é sua explicação para a presença da Vale na polêmica hidrelétrica de Belo Monte.

"Não participei dessa decisão. Foi na administração anterior. Mas conversei com o departamento de meio ambiente e de energia e todos eles me disseram que os estudos indicavam o ingresso da Vale no grupo. Conversei com meus colegas das diversas áreas e posso lhe assegurar que a decisão foi tomada com base em pareceres técnicos", disse.

Coincidentemente, todos os dois movimentos - entrar em siderurgia e no consórcio de Belo Monte - foram pedidos feitos pelo governo.

A economia chega na semana em que será, possivelmente, anunciada a nova política industrial com empresas privadas se comportando como se fossem estatais e a representação industrial sabendo que não adianta pedir aquilo que realmente precisa: uma reforma tributária, a desoneração da folha, investimentos maciços na infraestrutura.

BUNDAS & BUNDAS

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Exame de paternidade
RENATA LO PRETE
RANIER BRAGON - interino
FOLHA DE SP - 30/07/11

Estrela da degola em série nos Transportes, o PR não gostou do que viu ontem na divulgação do primeiro balanço do PAC da gestão de Dilma Rousseff. Além da reclamação sobre a alegada "demonização" da sigla, chamou a atenção o fato de a abertura do relatório sobre o setor trazer autocrítica sobre os "inúmeros aditivos" causados por projetos insatisfatórios.
Integrantes do PR lembram que boa parte das obras agora sob o escrutínio da "lupa muito forte" de Paulo Passos se desenvolveu justamente quando ele ou era o ministro ou o secretário-executivo da pasta. Por fim, afirmam não haver como esquecer que a "mãe" do PAC dá hoje expediente no gabinete presidencial.

Capítulos 

"Não estamos mortos", diz um dos insatisfeitos. O partido alimenta a esperança de que a "resposta" seja dada no discurso que o ex-ministro Alfredo Nascimento fará, na terça, para marcar sua volta ao Senado.

#prontofalei 1 
De Luiz Antônio Pagot, ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes: "Eu assumi o Dnit com 282 contratos, dos quais 36 paralisados. E entreguei o Dnit com 1.156 contratos, sem nenhuma paralisação".

#prontofalei 2 
Questionado sobre o balanço do PAC, se esquivou: "Nada a declarar. A única coisa que eu acho importante é termos, de vez, a CPI do Dnit".

Fila 
Com a confirmação de que Ellen Gracie deixará o STF em agosto, ganhou corpo no mundo jurídico a avaliação de que a ministra do Superior Tribunal Militar Maria Elizabeth Rocha tem boa chance de herdar o posto. Rocha trabalhou com Dilma na subchefia de assuntos jurídicos da Casa Civil e advogou para petistas antes de ingressar no STM.

Tenho dito 
Assessores diretos da presidente ficaram incomodados com o fato de, na véspera da publicação da entrevista em que Nelson Jobim declarou voto em José Serra, Dilma ter despachado longamente com o ministro sem que ele tenha dito palavra sobre o "desabafo", àquela altura, já gravado.

Boca de urna
Mesmo com as reduzidas chances de Belo Horizonte sediar a abertura da Copa-2014, o senador Aécio Neves (PSDB) irá hoje ao sorteio das eliminatórias.

Plus 
Depois da reunião do Conselhão, na terça, Dilma conversou com os empresários Jorge Gerdau e Paulo Tigre. Dali partiu o empurrãozinho que faltava para a presidente mandar turbinar as medidas da nova política industrial, cujo anúncio ocorre num delicado momento para o setor, que sofre devido à valorização do real.

Santinho 
A decisão de Dilma de comparecer ontem à inauguração da sede própria da Embaixada da Argentina, em Brasília, atendeu a pedido vindo da diplomacia vizinha. Segundo relatos, Cristina Kirchner queria uma imagem ao lado da colega brasileira e do ex-presidente Lula. Para uso na campanha.

Luz... 
Após o novo apagão de anteontem, o governo paulista chamou os dirigentes da CTEEP, empresa privatizada em 2006, para avaliar, na segunda-feira, os investimentos em linhas de transmissão. Hoje, o secretário José Aníbal (Energia) inspeciona a subestação do Jaguaré, que ocasionou a pane.

...de velas 
Em audiência marcada para quarta-feira, a Comissão de Infraestrutura da Assembleia paulista quer ouvir Aníbal e os dirigentes da agência reguladora de energia sobre os blecautes. Na volta do recesso, os deputados pretendem instalar a CPI da Eletropaulo.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio


"No PSD, a situação é a seguinte: após aquele embalo inicial, muita gente já começou a colocar o pé na embreagem."
DO PRESIDENTE DO DEM, JOSÉ AGRIPINO, sobre políticos que anunciaram ida para o PSD, mas que estariam temerosos de que Gilberto Kassab não consiga criar a sigla até outubro, prazo-limite para participação nas eleições de 2012.

contraponto

Tropa de elite

Depois do anúncio de Nelson Jobim (Defesa) de que votou em José Serra (PSDB) e não em Dilma Rousseff (PT) na eleição de 2010, choveram especulações sobre o futuro do ministro no Planalto. Um dos subordinados da presidente, ao avaliar que, para falar publicamente tal coisa, o peemedebista parece estar disposto a deixar o governo, brincou:
- A Dilma está a ponto de encarnar o Capitão Nascimento e dizer: pede para sair, zero-dois!

FERNANDO RODRIGUES - País do curto prazo

País do curto prazo 
FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 30/07/11

Quando cheguei a Nova York em 1988 e passava 90% do meu tempo fazendo a cobertura jornalística da crise da dívida externa para a Folha, logo conclui que o Brasil é o país do curto prazo.

Sofre com uma incapacidade atávica de planejar seu futuro. Naquela época, faltava dinheiro para os compromissos internacionais de curto prazo – o que vencia em até 12 meses. Vivia-se em “moratória branca”. Um “calote cordial”, diria Sérgio Buarque de Holanda. O governo Sarney não admitia a moratória. Simplesmente não pagava. E seguia enrolando.

Hoje existe um cenário oposto, mas a maldição do curto prazo permanece. Embora o Brasil já não tenha o menor problema com seus débitos a vencer nos próximos 12 meses, ninguém tampouco tem a mais remota ideia de como estará o país em 5 anos, no médio prazo, ou em 20 anos, no longo prazo. Há sinais amarelos na economia.

Até biquínis são importados da China. Em 2010, o Brasil teve um deficit de US$ 33,5 bilhões na sua balança comercial de produtos manufaturados. Neste ano, o buraco deve passar de US$ 50 bilhões.

Os pobres, a classe média e os ricos podem adorar comprar tudo a preço de banana. Mas quem pensa alguns segundos perceberá o alto grau de insustentabilidade do modelo baseado em exportar matéria-prima e trazer produtos industrializados do exterior.

Não é uma questão de se, e, sim, de quando e de como essa farra acabará. A presidente Dilma Rousseff entra agora no seu 8º mês de mandato. Ainda não tomou grandes medidas para corrigir os principais gargalos da economia.

A nova política industrial a ser lançada na quarta-feira não ficou pronta. Todos parecem esperar o desfecho da crise da dívida nos EUA para só então pensar no curto prazo. Esse é o desafio de Dilma: romper essa lógica que impede os brasileiros de terem um pouco mais de certeza sobre o futuro.

COMENDO O CU

FERNANDO DE BARROS E SILVA - Dilma na guerrilha

 Dilma na guerrilha
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SP - 30/07/11
SÃO PAULO - Lula acomoda, Dilma confronta; Lula contemporiza, Dilma peita; Lula negocia, Dilma perde ou ganha. A diferença na maneira de atuar entre um e outro já foi bastante comentada.
Marcos Nobre, professor de filosofia da Unicamp, batizou esse novo estilo de "política da queda de braço". O artigo que publicou no jornal "O Estado de S. Paulo" avança em relação ao que tem sido dito.
Dilma, ele escreve, "mobiliza e canaliza a seu favor a legítima ojeriza da sociedade à desfaçatez do sistema político. Como se ela própria não estivesse metida até o pescoço nesse mesmo sistema político que combate de dentro. Com isso, projeta a imagem de uma presidente que não se mistura à baixaria, que se mantém a salvo da contaminação".
Segundo essa lógica da "antinegociação", eventuais derrotas se transformam em "vitórias morais" da presidente. Mas se os políticos e a política são colocados, em bloco, no papel de vilões, o feitiço pode se voltar contra a feiticeira.
Tome-se o que disse nesta semana Paulinho, da Força Sindical: "Se esse tratamento valer para toda crise, teremos que tratar Dilma dessa mesma forma quando houver uma denúncia que envolva a presidente". O notório deputado é do PDT, mas tomou as dores do PR -ou dos "vilões" vistos em conjunto. Em geral, esse tipo de chantagem se esgota por aí, mas já é um sintoma, como diz Nobre, "do clima de permanente tensão produzido pelo modus operandi da presidente".
Dilma procura moralizar, ou reduzir o grau de bandalheira nos Transportes, o que ninguém de boa-fé ousaria dizer que é inócuo.
Mas sua ação saneadora não altera a estrutura fundamental da política brasileira, da qual ela é refém no atacado, ainda que a combata no varejo. O PT nasceu há mais de 30 anos com a veleidade de enfrentar essa velha política, de que é hoje o maior fiador. Dilma se vê novamente no papel de guerrilheira. Mas o inimigo desta batalha perdida agora são os seus aliados.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Minha mulher diz: mudar de marido é mudar de defeito”
DEPUTADO FEDERAL PAULO MALUF (PP-SP), CASADO HÁ 56 ANOS

Desvio de prefeitura leva servidores ao SPC
O prefeito da pequena Caaporã (PB) complicou a vida dos servidores do município. Ele fechou parceria com o Banco Gerador em junho de 2009 para empréstimo consignado, mas o valor dos descontos nos contracheques não chegou ao banco. O Ministério Público estadual foi acionado e investiga o sumiço de R$ 500 mil. Dezenas de empregados tiveram os nomes incluídos no Serviço de Proteção ao Crédito.

CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ
Com o Ministério Público na cola, a Prefeitura de Caaporã fechou um acordo com o Banco Gerador para pagar a dívida semana que vem.

QUEM? ONDE?
O prefeito João Batista Soares não foi localizado. Enquanto isso, o nome dos servidores continua sujo na praça. E os descontos seguem.

AINDA BEM
Para sorte de outros servidores, João Batista Soares desistiu em 2009 de concorrer à presidência da Federação das Associações de Municípios da Paraíba.

NO LUGAR CERTO
Se nome é destino, Dilma acertou nomeando um Masella para a secretaria-executiva do Dnit, afastando um Fatureto da coordenação.

ELLEN GRACIE CONFIRMA A APOSENTADORIA
Conforme a coluna publicou em primeira mão dia 6 de junho, a ministra Ellen Gracie deixará o Supremo Tribunal Federal. Sua aposentadoria será oficializada dia 8 de agosto. A ministra tem 63 anos e poderia ficar na corte até 2018. Recentemente, Ellen comprou um apartamento no Flamengo, no Rio de Janeiro. Sua substituta deve ser Neuza Maria Alves da Silva, desembargadora do TRF da 1ª Região (Brasília).

WE HAVE BANANAS
O Brasil vai mandar 30 mil estudantes para graduação no exterior. Deverão falar javanês: no Chile, o inglês é a segunda língua na escola.

MÃOS À OBRA
O governo do DF assinou a liberação pelo Banco de Brasília de R$ 500 milhões destinados a financiamento de pequenas empreiteiras.

QUARTEL-GENERAL
O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, gosta de ordem unida: tem 29 coronéis comandando as subprefeituras da capital paulista.

MOBILIZAÇÃO CONTRA SHOPPING
Indignados com a liberação de construção de um shopping no Parque Olhos D’Água, na Asa Norte, em Brasília, onde existe uma nascente de rio, centenas de moradores fazem protesto amanhã às 11 horas no local. O parque tem 21 hectares, com pista de cooper e trilhas no cerrado.

A BANCA DO DISTINTO
O Banco Pactual, que bancará palestras de Lula em outubro no luxuoso hotel Waldorf Astoria, em Nova York – como antecipou a coluna – “esquece” de remunerar pequenos aplicadores do Fundo BTG. Só preju.

ETERNO RETORNO
Citado em 26 processos no Tribunal de Contas da União, o novo secretário-executivo do Dnit, Miguel Masella, já teve que se explicar no início dos anos 1990 sobre irregularidades na finada Lloydbrás.

MAIS UMA
A América Latina tem mais uma anta: Ollanta Humala tomou posse na presidência do Peru, na quinta (29), já comprando briga com os dois vices por não reconhecer a Constituição de 1993.

ELE É QUEM MANDA
Foi o atual chefe de Solange Viera (ex-Anac), o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, quem sacou do bolso do colete o nome de Wagner Bittencourt para ministro da Secretaria de Aviação Civil. Ele ligou para a presidente Dilma Rousseff, que aceitou a indicação.

PROFISSÃO DE MORTE
A Unesco condenou ontem o assassinato de uma jornalista mexicana e do brasileiro Auro Ida, de Mato Grosso, fundador do Midia News e vítima de suposto crime passional há uma semana, em Cuiabá.

OPOSIÇÃO NÃO DESCANSA
A oposição mantém a esperança de aprovar a CPI do Dnit. Se ninguém desistir, faltam poucas assinaturas para a instalação. A ordem da ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) à base é abafar o caso.

FÉ NO CONTRA-ATAQUE
As bancadas evangélicas em Brasília se movimentam para reverter politicamente a decisão do TJ do Distrito Federal que concedeu liminar derrubando a Marcha para Jesus do calendário oficial de eventos.

QUEM INDICA
Dilma não quer mais PR nos currículos do Dnit. Agora só QI.


PODER SEM PUDOR

VENERANDO SALAFRÁRIO
Ex-presidente da OAB, Reginaldo de Castro disse certa vez, na 21ª Conferência de Advogados, que o Judiciário ainda se julga herdeiro da monarquia, usando tratamentos como “Excelso Pretório” (alto, sublime), “excelentíssimo”, “meritíssimo” etc. Sua frase lapidar arrancou aplausos:
– Às vezes o venerando acórdão é proferido por um salafrário e nós temos de chamar de “venerando acórdão”.

SÁBADO NOS JORNAIS

Globo: Crise nos Transportes prejudica PAC e contratos serão revistos

Folha: PIB cresce pouco, apoio cai e Obama faz ‘tuitaço’

Estadão: Republicanos aprovam plano, mas impasse nos EUA continua

Correio: “A droga me tirou tudo”

Zero Hora: Apuração do vôo 447 muda a aviação civil

Estado de Minas: Por que os planos de saúde não querem dona Maria Inês

sexta-feira, julho 29, 2011

ELIANE CANTANHÊDE - Campanha e fotos

Campanha e fotos 
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 29/07/11

Às vésperas das eleições presidenciais na Argentina, em 23 de outubro, Cristina Kirchner vem hoje ao Brasil para fazer o lançamento internacional de sua candidatura à reeleição e tirar fotos, muitas fotos, com Dilma e, principalmente, com Lula.

Brasil e Argentina vivem um amor conturbado, na base de tapas e beijos. Os dois são os principais sócios do Mercosul e precisam um do outro, política e estrategicamente. Ao mesmo tempo, competem.

Como a situação econômica brasileira é muito melhor do que a argentina e como o Brasil é francamente superavitário nas relações comerciais, a Argentina cria dificuldades e barreiras para produtos brasileiros.

A linha branca (geladeiras, fogões...) sofre. Lula levava na base da diplomacia e dos sorrisos, mas foi Dilma assumir e dar sinal verde para a retaliação. Canelada com canelada se paga.

Daí as tais guias de importação para carros importados, que são teoricamente para todos, mas as torcidas do Corinthians e do Boca Juniors sabem que são só para azucrinar os argentinos.

Pois bem. Cristina chega e inaugura a nova sede da Embaixada da Argentina (em construção há séculos...) sem abrir a boca para falar de comércio, barreiras e essas chatices que, segundo o chanceler Patriota, são coisa para o Fernando Pimentel aqui e a Débora Giorgi lá – que vêm a ser os ministros de indústria.

O que a presidente-candidata quer é posar ao lado de Lula, um ídolo, quase um mito, na Argentina, e de Dilma, mulher, presidente e discípula lulista – como ela própria, Cristina, quer se mostrar ao eleitorado argentino.

A viagem não é de presidente, é de candidata. Brasil, Lula e Dilma fazem bom investimento e não têm o que perder. Cristina é favorita, até porque a oposição, rachada, não tem um nome para enfrentar a presidente e a força do sobrenome Kirchner. Ainda mais atrelados a Lula, forte fator eleitoral aqui e alhures.

CLÁUDIO GONÇALVES COUTO - Lula e Dilma

Lula e Dilma
CLÁUDIO GONÇALVES COUTO
VALOR ECONÔMICO - 29/07/11

Os primeiros sete meses do governo de Dilma Rousseff, marcados por muitas dificuldades na frente política, tornaram inevitáveis comparações da atual presidenta com seu antecessor e mentor. Curiosamente, algumas das características da nova chefa de governo mais elogiadas pelos críticos acerbos do estilo de Lula têm sido agora apresentadas como causas de suas dificuldades políticas. Enquanto ele seria um presidente loquaz, afável e permissivo, Dilma se caracterizaria por uma grande discrição, pouca disposição para o contato direto com os políticos e uma rigidez muito grande nas negociações.

Diante de tais contrastes, seria fácil compreender o porquê de Lula ter sido tão bem sucedido na construção de uma ampla e segura rede de apoios, enquanto Dilma enfrentaria já de saída severas dificuldades na manutenção da lealdade de sua base. Em alguns momentos, a dureza do estilo da nova presidenta é lastimada de forma severa e até mesmo ameaçadora por membros da coalizão partidária. Foi o que fez, por exemplo, o deputado do PDT paulista, Paulo Pereira da Silva, em matéria publicada anteontem no Valor. Diante da ação implacável da chefa de governo no Ministério dos Transportes, Paulinho afirmou: "Se for assim, se esse tratamento valer para toda crise, teremos que tratá-la [Dilma] dessa forma quando houver uma denúncia envolvendo a presidente".

Méritos da candidata são as fraquezas da presidente

A ameaça nada velada de Paulinho ganha ainda mais força se, novamente, contrastarmos Lula com Dilma. A maior condescendência do ex-presidente com seus aliados, mesmo quando denúncias surgiam, teve como contrapartida a proteção que em torno dele se criou nalgumas ocasiões, principalmente à época do mensalão. Mesmo Roberto Jefferson, o pivô do escândalo, procurou preservar a figura do presidente do centro das falcatruas, apontando-o muito mais como um líder traído do que como o chefe da conspiração, que teria o (muito mais afeito à imagem de conspirador) apparatchik José Dirceu como seu articulador.

Os líderes petistas de projeção nacional que escaparam à tragédia do mensalão soçobraram pouco tempo depois: Antônio Palocci, com o escândalo do caseiro; Aloizio Mercadante, com o imbróglio dos aloprados. Lula sempre defendeu até o limite do possível seus auxiliares (na maior parte dos casos, petistas), defenestrando-os do governo apenas quando seus próprios problemas os catapultavam para fora dele. Assim, o presidente parecia apenas aceitar resignado a renúncia de auxiliares politicamente moribundos, aos quais não restava mesmo outra alternativa. No caso dos ministros, seu afastamento ocorria ainda com um simbólico ato de reconhecimento dos serviços prestados, mediante as cerimônias de transmissão do cargo.

Ironicamente, contudo, foi a dizimação de líderes petistas a principal causa do surgimento de Dilma como virtual candidata à Presidência da República pelas mãos do preservado e popularíssimo Lula. Ao PT não restava nenhum nome que tivesse projeção nacional, fosse da confiança de Lula e, sobretudo, fosse minimamente consensual no partido - principalmente em sua coalizão interna dominante, o Campo Majoritário. Tarso Genro, o homem para todas as empreitadas difíceis (Conselho de Desenvolvimento, Educação, Presidência Interina do PT, Articulação Política e Justiça), era demasiadamente controverso dentro do partido - principalmente por seu antagonismo com José Dirceu. Assim, embora Tarso desfrutasse de potencial eleitoral e tivesse sobrevivido aos escândalos, sua eventual indicação pelo presidente conflagraria o PT.

Dilma, filiada ao PT apenas no início dos anos 2000 e tendo uma trajetória muito mais afeita à ocupação de cargos governamentais que a lutas intrapartidárias, não tinha maiores vínculos com qualquer corrente petista, não suscitando assim grandes resistências a seu nome. Para um partido desprovido de melhor alternativa (até mesmo porque Lula não alimentou a tese do terceiro mandato consecutivo), a candidata internamente incontroversa e eleitoralmente turbinada pela grande popularidade do presidente converteu-se numa dádiva. Aquilo que opositores denunciaram como um mexicano "dedazo" pode ser melhor descrito como uma salvadora solução arbitrada. Lula era o único que, na situação de vácuo de lideranças do PT, poderia transferir externamente popularidade para um nome e arbitrar internamente a definição sucessória.

Todavia, se o perfil de Dilma foi vantajoso na criação da candidatura no período entre o mensalão e a sucessão, pode agora representar uma debilidade exatamente no âmbito em que funcionou melhor antes: o apoio intrapartidário. Como a presidenta não é uma petista "autêntica", de "origem" e nem possui vínculos estreitos com as diversas frações do partido, a motivação do aparelho do PT para defendê-la incondicionalmente é muito menor. Isto tende a ocorrer sobretudo na medida em que certas decisões de seu governo contrariarem mais fortemente preferências partidárias bem consolidadas - sejam elas programáticas ou fisiológicas. As históricas turras de dirigentes petistas com governantes "excessivamente autônomos" no passado mostram que este risco é real.

Lula podia se dar ao luxo de contrariar impunemente o partido porque era (como ficou provado) sua tábua de salvação e porque a história do PT se confundia com a sua própria. Dilma, ou qualquer outro governante menos enfronhado com a máquina partidária, mesmo que ungido por Lula, não conta com esse mesmo poder. Tal lógica evidencia-se em manifestações como a reproduzida esta semana pela "Folha de S. Paulo", do deputado paulista Carlos Zarattini, criticando o favorito de Lula na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Disse ele: "O Haddad é um bom nome, mas tem pouca interlocução com a base petista". Membro dileto da coalizão dominante do PT paulistano (grupo de Rui Falcão, irmãos Tatto e Marta Suplicy), Zarattini queria dizer: "O Haddad é um bom nome, mas não é um dos nossos". Se Dilma quiser saber melhor o quanto isto pode atrapalhar, poderia chamar a ex-prefeita Luiza Erundina para uma conversa.

Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da FGV-SP e colunista convidado do Valor.

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - O governo e a batalha do câmbio

O governo e a batalha do câmbio
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS
FOLHA DE SP - 29/07/11

No Ministério da Fazenda ninguém tem a menor ideia sobre a caixa de surpresas que foi aberta nesta semana

COM O real chegando a seu momento de maior força em relação ao dólar, o governo Dilma Rousseff cruzou uma nova fronteira em sua confusa e pouco eficiente estratégia de proteger a indústria brasileira.
Pela primeira vez desde que o ministro Guido Mantega cunhou a expressão "guerra cambial", o governo tomou medidas para atingir o mercado futuro de câmbio na BM&F.
Ao taxar essas operações com o IOF e estabelecer um marco legal para fixar --por medidas administrativas do CMN-- o nível de garantias exigidas, o governo --como Cesar-- cruzou o Rubicão.
Não há mais volta, pois, ao interferir em um mercado tão grande e tão interligado com o lado real da economia sem a devida reflexão sobre seus efeitos --e esse é certamente o caso--, o governo criou algo muito perto do caos.
Estou fora do país, mas os relatos que tive sobre a coletiva do ministro Mantega são suficientes para compor esse quadro de desconhecimento profundo das consequências das medidas adotadas.
Posso afirmar isso porque participei em 1986, quando era diretor do Banco Central, de algo muito semelhante. Pressionado para enfrentar a questão das expectativas de inflação embutidas nas taxas de juros dos títulos públicos, o Banco Central mudou a tributação desses papéis sem a necessária avaliação de suas consequências na economia como um todo.
Tudo virou um inferno, e uma sequência de novas medidas foi necessária para tentar enfrentar as maiores distorções que apareceram. E, a cada tentativa de correção, novos problemas se colocavam. No final, tivemos de voltar atrás...
A questão do real forte é ainda mais complexa do que a que o Banco Central enfrentou décadas atrás. E isso ocorre por várias razões.
A mais importante delas está relacionada às complexas relações entre mercados internos e externos que existem hoje na economia brasileira.
E não estou falando apenas de relações financeiras, mas sim da complexa interação entre as cadeias produtivas em setores importantes do tecido produtivo. As importações fazem parte do cotidiano das empresas brasileiras, o que as obrigam a realizar operações de proteção contra a flutuação da taxa cambial.
Também os exportadores, principalmente no setor de produtos primários, precisam de mecanismos de proteção contra as flutuações de grandes proporções que ocorrem hoje nos mercados futuros desses produtos no exterior. E essas operações de proteção trazem, juntas, as flutuações nos mercados de câmbio.
Poderia escrever muito mais sobre as relações econômicas, e, como já disse, não apenas as financeiras, que estão por trás das operações de taxas de câmbio futuro na BM&F.
Mas tenho certeza de que isso não é necessário para mostrar ao leitor da Folha a fragilidade que está por trás das decisões tomadas pelo governo Dilma nos últimos dias.
Quando escrevo esta coluna, os mercados estão paralisados à espera de esclarecimentos do governo sobre as medidas tomadas. Já tenho muito tempo de estrada para acreditar que elas virão. Volto a afirmar que ninguém no Ministério da Fazenda --inclusive o ministro Mantega-- tem a menor ideia sobre a caixa de surpresas que eles abriram agora.
Uma coisa é certa: ao longo dos próximos dias um mercado futuro de taxas de câmbio, tendo o real como uma das pontas das operações, vai aparecer em Chicago ou em outras praças financeiras.
As demandas por operações desse tipo fazem parte hoje do que chamo de metabolismo da economia brasileira. Por isso, elas vão reaparecer em outros lugares. Mas, como sempre ocorre nessas situações, os custos de transação vão aumentar para quem faz negócios no Brasil e com o Brasil.
Um dos pensamentos estratégicos que os chineses, em seus 5.000 anos de história, nos deixaram foi o de nunca usar um canhão para matar uma formiga.
Os efeitos colaterais que ocorrem quando isso acontece são sempre muito maiores do que os eventuais benefícios gerados.
Vamos testar no Brasil de hoje a sabedoria estratégica dos chineses.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Carimbo oculto
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 29/07/11

As medidas de transparência anunciadas pelo governo de Dilma Rousseff após a polêmica da emissão de "superpassaportes" a filhos do ex-presidente Lula não se mostraram, na prática, tão abrangentes quanto o prometido. Portaria de janeiro determinava que além de o ato de concessão sair no "Diário Oficial", a solicitação e o "despacho do ministro das Relações Exteriores" deveriam ser publicados na internet.
Questionada pelo fato de não haver sinal claro dos dados no site do Itamaraty, a assessoria respondeu, três dias depois, tê-los movidos para área de maior visibilidade. O que se vê, porém, é a mera reprodução dos atos publicados, sem conteúdo do pedido e da aprovação, destoando do que prega a nova regra.
DNA Causou estranheza no Itamaraty a escolha de Laércio Antonio Vinhas, diretor da Comissão Nacional de Energia Nuclear, para representar o Brasil na Agência Internacional de Energia Atômica. Sob Lula, inquietavam as indicações de políticos para embaixadas. Dilma escolheu um técnico, mas sem elo com a diplomacia.

Contágio 
Continua a divisão no PMDB sobre a ideia -patrocinada inicialmente por Moreira Franco- de divulgar uma nota pedindo investigação sobre os ministros do partido. Há quem considere que o debate só serviu para puxar o PMDB para perto da crise do PR.

Atestado 
Contrário à proposta, um ministro ironiza: "É como se eu saísse por aí gritando: 'Sou honesto'".

Fatos... 
Nos bastidores, ministros espumam com a declaração de Nelson Jobim (Defesa) revelando o voto em José Serra. "Rara inoportunidade", diz um deles, contestando a versão de que Dilma deixará passar mais essa.

...e versões 
O Planalto também implica com a explicação de Jobim de que se referia a jornalistas ao falar que os idiotas "perderam a modéstia", negando ter sido cobrado por Dilma -"Ela até riu". "Ela não riu", sublinha um integrante do governo.

Autoral 
Sobrou para Dilma arbitrar: defendido por BNDES e Ministério do Desenvolvimento, o mote "Brasil Maior" já circulava como slogan da política industrial a ser lançada terça. Mas o marqueteiro João Santana entrou em campo e sugeriu "Programa da Inovação Brasileira". O novo "PIB".

Futuro... 
Chefiada pelo publicitário mineiro Paulo Vasconcelos, a equipe de marketing sondada pela campanha do PMDB à prefeitura paulistana considera o cenário com Marta Suplicy (PT) e José Serra (PSDB) "o mais adequado" para posicionar Gabriel Chalita como candidato da renovação.

...do pretérito 
Delfim Netto aceitou convite de Chalita para colaborar na redação do capítulo econômico de seu plano de governo.

Prata da casa 
Em contenção de gastos, o cerimonial do Palácio dos Bandeirantes passou a presentear visitantes estrangeiros com peças de artesãos da Secretaria de Emprego.

Front 
Ainda disputando a partida inaugural da Copa-2014, São Paulo e Minas ganharam estandes vizinhos da Fifa no sorteio das eliminatórias, amanhã, no Rio. Geraldo Alckmin irá ao local. O mineiro Antonio Anastasia, não -está no Japão.

Visita à Folha 

Luiz Flávio Borges D'Urso, presidente da OAB-SP (seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil), visitou ontem a Folha. Estava com Mardiros Marcos Burunsizian, assessor da presidência, e Santamaria Nogueira Silveira, assessora de comunicação.
com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio

"O PT age como criança malcriada. Vive escondendo o que faz de errado e, quando é descoberto, joga logo a culpa em alguém."
DO PRESIDENTE DO PSDB-SP, PEDRO TOBIAS, sobre os R$ 396 mil gastos pelo Ministério da Educação em campanhas publicitárias para rebater críticas à pasta que atingiram a imagem de Fernando Haddad.

contraponto

Prato feito
Após longa reunião com dirigentes de secretarias sobre redução de despesas no governo, o superintendente do Ipem-SP, Fabiano Marques de Paula, disse a Geraldo Alckmin que ampliaria a contenção de gastos almoçando em restaurante popular no bairro paulistano do Paraíso, também frequentado pelo governador, onde a refeição custa R$ 10. O tucano respondeu:
-Conheço outro na Liberdade, onde o comercial sai pela metade do preço. Depois passo o endereço.

GILBERTO KASSAB - PSD: apoio, sim, mas com o rigor da lei

PSD: apoio, sim, mas com o rigor da lei 
GILBERTO KASSAB
FOLHA DE SP - 29/07/11

Nosso partido repudia toda e qualquer ilicitude na coleta de assinaturas, e pede a suas bases que denunciem logo qualquer indício de falsificação

"Quando a verdade é dita, a justiça é feita" (Provérbios, 12.17, Bíblia, NTLH).
Cumprindo exigência da Justiça Eleitoral, o PSD vem recebendo há três meses, por todo o país, assinaturas de brasileiros que apoiam sua criação. Não se trata de filiação partidária, o que ocorrerá em outro momento, após sua existência legal -aí, sim, por meio de preenchimento de ficha partidária.
Por lei, um novo partido deve recolher o apoio de quase 500 mil eleitores no Brasil inteiro. Esses apoiamentos (esse é o termo) são encaminhados à Justiça Eleitoral.
É um trabalho de enorme amplitude e, por isso mesmo, sujeito a muitos problemas. Além de não aceitar ou concordar, o PSD repudia, condena e lamenta que possa haver coletas irregulares.
E não apenas aplaude e agradece, como pede que a Justiça continue a fazer com o máximo rigor o que lhe compete fazer: conferir os dados, os nomes, as assinaturas e a veracidade dos documentos.
A coleta de assinaturas é coordenada em 23 Estados por senadores, deputados federais e estaduais, governadores, vice-governadores, prefeitos e vices, vereadores e lideranças comunitárias de centenas de municípios. Eles têm a ajuda de milhares de militantes, que vão em busca dos eleitores para pedir seu apoio e assinaturas nas fichas.
Sem contar outras milhares de pessoas que procuram voluntariamente o partido nesses municípios para levar as fichas a parentes e amigos e devolvê-las preenchidas.
O PSD tem trabalhado para facilitar a certificação desses apoiamentos nos cartórios da Justiça Eleitoral. Adotamos fichas individuais, que devem ser preenchidas com nomes completos e legíveis, conferidos cuidadosamente com os documentos apresentados na hora pelo apoiador.
As fichas também precisam ser assinadas na hora. Qualquer erro, por mínimo que seja, pode anular o documento ou levantar suspeitas de irregularidades.
Por essa razão, antes do envio à Justiça Eleitoral, uma conferência prévia tem sido feita pelo partido, com rejeição de milhares de fichas que poderiam suscitar dúvidas em relação à sua regularidade. Mas ainda assim há problemas.
O PSD tem acompanhado as denúncias feitas a jornais e a Tribunais Regionais Eleitorais e manifesta, mais uma vez, repúdio a toda e qualquer ilicitude nessa coleta.
Pede também às lideranças e às bases políticas em todo o país que estejam atentas e denunciem imediatamente qualquer indício de falsificação, movimento de pessoas suspeitas, mal-intencionadas, mal orientadas ou estranhas ao processo de coleta de apoiamento, que possam atrapalhar ou impedir nosso trabalho e que busquem confundir ou fraudar nosso esforço para criar o PSD.
Queremos também, acima de tudo, agradecer a todos os milhares de cidadãos que, no país inteiro, já preencheram, assinaram e prestigiaram nosso partido.
Temos plena confiança de que o PSD vencerá todos os obstáculos e vai conseguir o apoio necessário para nascer forte, consciente do papel que deverá cumprir política e administrativamente.
Essa confiança vem da acolhida popular e do testemunho do que temos presenciado e sentido nas dezenas de reuniões já realizadas nos vários Estados; vem também do número surpreendente de assinaturas e do entusiasmo com que as adesões são externadas, com transparência, com verdade, com energia e com o desejo de participar e lutar por um Brasil melhor.

FERNANDO DE BARROS E SILVA - A ponte do PMDB

 A ponte do PMDB
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SP - 29/07/11

SÃO PAULO - "Vossa Excelência teve a sabedoria de não designar uma pequena rua, uma pequena avenida para o nome do Quércia. Isso vulneraria a grandiosidade dele." Parece Odorico Paraguaçu, mas é Michel Temer, o chefe do invulnerável PMDB. Agradecia ao governador Geraldo Alckmin na inauguração da ponte Governador Orestes Quércia, sobre o fétido rio Tietê.
Sob o glacê da retórica pomposa e cínica, a cerimônia funcionou como ato simbólico de apropriação do espólio quercista por Michel Temer. Foi este o seu significado político.
Depois de promover uma razia nos postos de comando do partido ocupados por quercistas, Temer foi à ponte para discursar e mostrar quem agora é o patrão do território.
Não faltaram as trocas de gentilezas entre Temer e Alckmin nem as insinuações de que ambos podem estar juntos na eleição paulistana. Não seria tão constrangedor se o cacique do PMDB não fosse, também, vice-presidente da República, eleito na chapa com Dilma Rousseff, do PT. Mas esse tipo de escárnio é o que define o caráter do PMDB.
Com o deputado neopeemedebista Gabriel Chalita a tiracolo, Temer começou a fazer o leilão de 2012 sobre a ponte Orestes Quércia. Chalita, por ora, está candidato a prefeito, mas o PMDB ainda pode se acertar com o PT ou com o PSDB. Ou seja, fazemos qualquer negócio, mas o preço do partido subiu.
A dedetização localizada que patrocinou nos Transportes deixa a presidente mais vulnerável ao PMDB. Este raciocínio de Lula é tão republicano quanto o PR que ele adora, mas é politicamente correto.
Por essas e outras, Michel Temer é hoje o principal líder de oposição ao governo Dilma. Ele sabe disso e joga com isso. Aécio, Serra e os pobres Demos não têm, juntos, nem a décima parte do poder de fogo para incomodar o Planalto que Temer e sua patota acumularam nas mãos.



Ministro de FHC, de Lula e de Dilma, eleitor de José Serra: Nelson Jobim, seu nome é PMDB.