sexta-feira, maio 20, 2011

TÁ FEDENDO

WASHINGTON NOVAES - Nem ''loucuras'' faltam nos ''eventos extremos''


Nem ''loucuras'' faltam nos ''eventos extremos''
WASHINGTON NOVAES
O Estado de S.Paulo - 20/05/11

Em julho de 1975 o autor destas linhas foi a Pernambuco documentar para o programa Globo Repórter, da Rede Globo, as consequências de uma grande enchente no Rio Capibaribe, no Recife e adjacências. E entre os muitos dramas, não havia quem não comentasse uma estranha ocorrência. No momento em que se propagou pela região central do Recife a notícia de que a inundação já era forte e aumentaria ainda mais - pois a barragem de Tapacurá, a montante da cidade, se teria rompido -, estabeleceu-se o pânico. Pessoas abandonaram seus carros no meio das ruas e procuraram refúgio em edifícios. Nestes, um corte de energia, aliado à fuga de operadores, levou à paralisação de elevadores, com pessoas retidas dentro. No meio dessa confusão, ocorreu a uma alma generosa que era preciso libertar os "loucos" internados no asilo da Tamarineira, pois também ali os guardiães haviam sumido. Abriu os portões. Os internos saíram e imediatamente começaram a ordenar o trânsito caótico e a livrar pessoas presas nos elevadores. Mas era boato, a barragem não se rompera. E passado o susto os internos da Tamarineira foram recolhidos ao asilo e trancadas as portas.

Há poucos dias, a situação repetiu-se em parte no Recife. A meteorologia preveniu que estava a caminho forte chuva. As autoridades tomaram várias providências, incluindo a de liberar parte da água retida na barragem de Carpina, para não correr risco de rompimento. Mas, enquanto sobrevinha um início de pânico, o vento mudou, a chuva desviou-se, a barragem permaneceu intacta. Só que mensagens pelo Twitter e por telefones celulares continuavam a divulgar informação de rompimento da barragem. E o pânico cresceu, deu trabalho para ser contido (desta vez, sem ajuda de internos de asilos).

Mas se o Recife escapou do drama maior, no mesmo momento outras regiões de Pernambuco - as mesmas atingidas pelas enchentes do ano passado - estavam de novo envolvidas em tragédias, em 45 municípios. Desta vez, com 145 mil pessoas afetadas, vários mortos. Da mesma forma, em 10 municípios alagoanos atingidos em 2010. Sem falar no Rio Grande do Norte, Maranhão, Sergipe e Bahia. Ou, descendo no mapa, Rio Grande do Sul, onde em certas áreas em menos de três dias choveu o esperado para todo o mês, deixando 12 mortos e mais de 36 mil pessoas afetadas em 12 cidades. Na cidade de São Paulo, na primeira quinzena de abril choveu mais que o previsto para o mês (Estado, 19/4); em janeiro já caíra o dobro do esperado. No dia 26 de abril, pela primeira vez foi testado ali o sistema de alerta, quando em poucas horas choveu o dobro do previsto para todo o mês (Estado, 27/4).

O Brasil, como já se registrou aqui (22/4), é o país em sexto lugar (2008 a 2011) no número de mortos (10 pessoas por milhão de habitantes), 70% dos quais em deslizamentos de encostas - como tem lembrado o Centro de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério de Ciência e Tecnologia (SBPC, 6/5). O cientista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), adverte que só temos mapeadas, até aqui, 1.500 das 20 mil áreas de risco no País, em geral tomadas por populações que têm de abandonar áreas valorizadas e ocupar lugares de risco (como na Região Serrana do Rio de Janeiro, onde morreram 906 pessoas e 400 estão desaparecidas).

Principalmente para essas populações, é vital o desenvolvimento de sistemas de informação que habilitem a Defesa Civil a alertar para o risco de "eventos extremos", em geral relacionados com mudanças climáticas. Ainda mais quando se lembra o relatório (Estado, 27/4) Vulnerabilidade das Megacidades Brasileiras às Mudanças Climáticas (Inpe, UFRJ, Fiocruz, Unicamp), já mencionado no mesmo artigo de 22/4, que prevê para a Região Metropolitana do Rio de Janeiro um aumento de até 4,8 graus Celsius na temperatura ao longo deste século. Nesse Estado, ainda não se resolveu a situação de 7 mil famílias que continuam desabrigadas na Região Serrana, nem foram feitas as obras em 770 encostas, que custarão R$ 3,3 bilhões (Fernando Gabeira, 23/4).

Outro estudo do Inpe e do Met Office (O Globo, 11/5) diz que o índice de pluviosidade na Amazônia, até 2080, pode cair até 41%. Grandes estiagens e chuvas intensas serão mais frequentes, como já tem acontecido nos últimos anos, com secas e inundações inéditas e reflexos em todo o País. Inclusive na área da agricultura, em que a Embrapa tenta criar espécies de soja, milho e outras mais resistentes ao calor. Na última safra, foram significativas as perdas em culturas, principalmente no Centro-Oeste, com o calor e as chuvas, e no Sul, com as secas.

Colocado diante desse quadro, o cidadão perguntará o que as instituições globais, os governos dos países farão para enfrentar o panorama. E mais uma vez se espantará. A ONU já não espera que possa ser alcançado um acordo "vinculante", obrigatório para todos os países, na próxima reunião da Convenção do Clima, no fim do ano, na África do Sul, como já se assinalou aqui. Tanto que o secretário-geral, Ban Ki-moon, se afastou das negociações. O único documento obrigatório na área - o Protocolo de Kyoto, que obriga os países industrializados a reduzir suas emissões em 5,2%, calculadas sobre as de 1990 - expira no ano que vem, antes de ser cumprido pela maior parte dos países e com as emissões ainda em alta.

Praticamente todos os especialistas na área - a começar pelo conceituado sir Nicholas Stern - consideram altamente improvável que se consiga suficiente redução de emissões para conter em 2 graus o aumento da temperatura da Terra até 2050. E isso terá consequências muito sérias, mais "eventos extremos", mais elevação do nível do mar.

Então, é preciso correr com a chamada adaptação às mudanças. Mas os últimos acontecimentos mostram que também aí ainda vamos muito devagar - onde vamos.

ANNA RAMALHO - Coisa antiga


Coisa antiga
ANNA RAMALHO

JORNAL DO BRASIL - 20/05/11

Faz seis meses que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras – Coaf – enviou um relatório à Polícia Federal comunicando que a Projeto, de propriedade do caseiro do Palácio Planalto – o chefe da Casa Civil, Antônio Palocci – fez uma operação financeira suspeita na compra de um imóvel de uma empresa que estava sendo investigada pela polícia. Até agora, nada. 

Primeiro mundo
O premier sueco, Frederik Reinfeldt, comentou em roda de conversa, em Brasília, que ele próprio lava suas roupas. Além do mais, seu cargo não tem as mordomias aqui do Patropi, tipo carro com motorista e chapa especial, franquia de correios, verbas de gabinete e demais penduricalhos tão caros aos nossos ínclitos parlamentares.

País rico é outra coisa.

Nem pensar

O ministro Antonio Palocci já avisou a quem de direito que seus contratos de consultoria são segredo de estado. Os nomes dos contratantes não fornece nem a pau.

Este país é um deboche, né, não?

Agora, vem cá


Será que as consultorias eram por debaixo dos panos ou, como acontece com empresas idôneas, foram emitidas notas fiscais?

Se foram emitidas, é só uma questão de dias para que o Brasil saiba quem contratou o ministro e quanto custaram suas consultorias.

Alô, Ruy Barbosa!
Há um novo idioma na praça: o PTguês. Costuma ser falado em meios “intelectuais” e se propaga com rapidez. Tem mais: quem fala com língua presa, garante doutorado.

Tá com tudo

Preta Gil recebe nesta segunda-feira, 23, na Câmara dos Vereadores, a maior honraria do município do Rio de Janeiro: a Medalha Pedro Ernesto. Trata-se de homenagem inédita, uma vez quer a iniciativa partiu conjuntamente do vereador Leonel Brizola Neto (PDT) e da deputada Aspásia Camargo (PV). 

Duo

Jorge Vercilo recebe domingo, no palco Arpoador do Viradão Carioca, o amigo e parceiro Milton Nascimento. Os dois cantam juntos a canção Há de ser. Aliás, o cantor encerra dia 2, no Vivo Rio, a turnê do disco DNA, que já rodou o país.

No forno

No segundo semestre, Jorge Vercilo lança um novo disco de inéditas, que está sendo gravado no estúdio de sua casa, no Rio.

A Rainha e a cartilha

Depois de participar, ontem, do Seminário sobre Experiências de Legislação contra Castigos Corporais de Crianças e Adolescentes, na Câmara dos Deputados, Xuxa encontrou-se com o senador Eduardo Suplicy que lhe entregou a cartilha, feita pelo Ziraldo, sobre o programa da Renda Básica de Cidadania em linguagem própria para crianças. Empolgado, o senador contou à Rainha dos Baixinhos que já lera para os netos Bernardo e Laura. “Que coisa legal, atingiu o objetivo”, disse Xuxa. Depois da troca de cartões, Suplicy ficou de enviar para a casa da apresentadora no Rio, vários exemplares da Cartilha.

Pegou mal

Comentário da revista L'Express sobre o vestido(?) usado por Charlotte Gainsbourg (grávida de sete meses de Yan Attal) no festival de Cannes, onde está como atriz do filme Melancolia de Lars von Trier: “Que vestido é esse, Charlotte ? Soutien aparecendo, transparência e assimetria são informações demais para uma pessoa só, não?”


Charlotte, prêmio de Melhor atriz do Festival de Cannes 2009 por seu papel no filme Antichrist do mesmo von Trier, não deu muita sorte até agora na edição 2011. Além do vestido, que é horrível mesmo, ainda teve que entubar o escândalo das declarações do diretor e sua simpatia confessa por Hitler e todo o tititi que este absurdo gerou.

GOSTOSA

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE


De mãos dadas
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 20/05/11

Sem ferir regras estabelecidas, o governo Dilma quebra a cabeça para encontrar meios de incentivar empresas estrangeiras a se instalarem no Brasil por meio de parcerias com grupos nacionais. "Queremos dar vantagens a quem optar por entrar no País desta maneira", revelou ontem Fernando Pimentel, do Desenvolvimento. Como? Via financiamentos ou incentivos fiscais.

O ministro, em Nova York para participar de seminário sobre inovação tecnológica da McKinsey, adiantou à coluna que o ministério mergulhou na legislação brasileira para dar materialidade à ideia.

Piquete

Das cerca de 10 mil famílias que terão casas desapropriadas pela Operação Urbana Água Espraiada, 30% são da classe média. E prometem fazer barulho na Câmara Municipal, semana que vem. Na ocasião, devem ser votadas alterações no projeto que prevê construção de avenidas, ruas, além de um túnel na região.

A reforma no Brooklyn pode chegar a R$ 3 bilhões. Desse total, R$ 900 milhões já foram arrecadados com empresas instaladas na área, o que já é suficiente para tocar as obras.

Pela causaAs Olimpíadas do Colégio Dante Alighieri, que começaram nesta semana, contaram com dinheiro proveniente da Lei do Incentivo ao Esporte. Orlando Silva liberou para captação R$ 429 mil, dos quais foram arrecadados R$ 300 mil.

Com o dinheiro, a escola particular construiu arquibancadas, cobriu as quadras e contratou Giba, do vôlei, e Daiane dos Santos, da ginástica, para a abertura.

Chamar de seu
O Museu TAM terá um Boeing 737 para chamar de seu, vindo da extinta Vasp. A aeronave, hoje estacionada em Confins, será levada à cidade de São Carlos, onde fica o museu, por via... terrestre.

A ideia, segundo João Francisco Amaro, é restaurá-la. E para tanto, a TAM pretende convocar como voluntários antigos mecânicos da empresa extinta para ajudar na tarefa.

Luta
A rua Oscar Freire deve ganhar uma academia de três andares para os chamados esportes ou modalidades de contato, como jiu-jítsu, muay thai e submission.

Sopram os ventos que será filial da Pretorian Hard Sports.

Positivo

O hospital público Emílio Ribas, o segundo maior de infectologia do mundo, passará por reforma completa. Giovanni Guido Cerri, da Saúde estadual, pretende liberar cerca de R$ 60 milhões. O projeto arquitetônico, doado pela Faap, prevê modernização da fachada, do interior e equipamentos. Os sistemas elétrico e hidráulico, que têm 40 anos, também serão renovados.

Prevista para começar em junho ou julho, após a inauguração do prédio ambulatorial, a obra precisa ainda de outros R$ 30 milhões para ser finalizada. David Uip, diretor da instituição, está atrás de doações.

Afro
A Fundação Biblioteca Nacional abrirá cinco bibliotecas de cultura negra em comunidades remanescentes de quilombos. Cada uma receberá R$ 180 mil do Programa Cultura Viva.

A iniciativa faz parte das comemorações do Ano Internacional do Afrodescendente.

Trio de ouro

José Maurício Machline conseguiu. Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg e Aracy Balabanian aceitaram seu convite para encerrar o Prêmio da Música Brasileira, apoiado pela Vale. No Municipal do Rio. Dia 6 de julho.

Elas cantarão Noel Rosa, homenageado da noite.

Agora vai
O longa sobre Pixinguinha deve sair do papel. Até porque o prazo de captação foi prorrogado até dezembro. Cotado para a direção, Miguel Faria Jr.

AntiestrelaIrene Ravache está encantada com Franco Nero, marido de Vanessa Redgrave, com quem filma Sala de Espera. "Ele é, graças a Deus, normal". Ambos gravam em Paulínia.

Na frente


Nemércio Nogueira aceitou convite de Clarice e Ivo Herzog para assumir a diretoria executiva do Instituto Vladimir Herzog. Com a missão de dar continuidade aos trabalhos e ampliar sua ação.

A mostra Amilcar de Castro abre amanhã na Galeria Millan. Já na Central Galeria de Arte Contemporânea, individual de Tatiana Cavinato.

Em cartaz, a mostra Defensoria Pública: 5 Anos em Imagens. Na sede da instituição, em SP.

Benoît Gouez, chef de Cave da Moët & Chandon, pilota degustação e brunch segunda. Na Casa ao Lado, da Micasa.

Raí ataca de escritor. Autografa Turma do Infinito, na Livraria da Vila. Amanhã.

JOÃO MELLÃO NETO - Palocci e a mulher de César


Palocci e a mulher de César
JOÃO MELLÃO NETO
O Estado de S.Paulo - 20/05/11

Por volta do ano 60 antes de Cristo, Júlio César era um nome em ascensão. Já ocupava postos de destaque na República romana e todos - inclusive o próprio - acreditavam que, com o seu prestígio e a sua popularidade, seria tentado a sagrar-se imperador. Na verdade, sua ambição era ainda maior. Quando andava pelas ruas e o povo o chamava de rei, ele invariavelmente respondia: "Não sou rei, sou César".

Mas o que importa, aqui, é o conceito de vida pública que ele cultivava. Quando Pompeia, sua esposa, se envolveu num escândalo, Júlio César imediatamente se divorciou dela. Quando perguntado sobre o porquê de tão drástica atitude, uma vez não havia provas concretas contra ela, ele teria respondido: "A esposa de César tem de estar acima de suspeitas". Nasceu aí o popular conceito sobre "a mulher de César". Ou seja, não lhe basta ser honesta; tem, também, de parecer que o é.

Dois milênios passados, aqui, nos nossos trópicos, vem à tona o caso do ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República, Antônio Palocci. Será que continua valendo o mesmo princípio?

Sim e não.

Há que levar em conta que, na nossa invulgar República, não existe uma oposição competente. E, para agravar o quadro, o partido que está no poder não costuma dar prioridade ao problema da corrupção. O que vale é a identidade ideológica. A justificação se dá pela fé.

Um argumento a favor de Palocci é o de que ele, no início do governo passado, como titular do Ministério da Fazenda, demonstrou ser o único dique de sensatez a barrar a avalanche de desvarios de seus correligionários. Há quem diga que foi ele o grande arquiteto do presente "milagre econômico".

Existe alguma verdade nisso. Palocci teria dissuadido o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva de pôr em prática as tresloucadas concepções econômicas do seu partido. Foi graças à sua persistência - ao manter intactas as políticas adotadas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso - que os bons resultados na economia puderam ocorrer. Como o governo de Fernando Henrique acabara com a inflação e deixara as contas em ordem, o crescimento do produto interno bruto (PIB) seria de esperar. Se esse quadro de estabilidade e bonança vai permanecer, já é outra história...

Agora, com relação ao presente escândalo envolvendo o nome do ministro, as reações de Palocci têm servido apenas para reforçar as suspeitas que pairam sobre ele. "Se tem cara de boi, berro de boi e chifre de boi, então é boi!" - essa é a conclusão a que chega a opinião pública.

"Ou, então, é o capeta!" Tratar-se-ia, no caso, de um demônio sonso. Bem ao estilo da "companheirada".

Palocci, no presente governo, tem sido a figura principal - na falta de uma principal figura.

Quando a imprensa levantou dúvidas sobre a recente prosperidade do ministro, as suas respostam levantaram ainda mais dúvidas. Os imóveis não pertenceriam a ele, mas, sim, a uma empresa de consultoria. E a quem pertenceria essa empresa? A ele. Quem seriam os profissionais que trabalham na dita empresa? Somente ele. E quanto aos seus clientes, quem seriam? Ele não pode dizer, porque a informação é confidencial...

É como na fábula. Cadê o queijo? O rato comeu. Cadê o rato? O gato engoliu. Cadê o gato? Foi para o mato. Cadê o mato? O fogo queimou... E desse jeito a história nunca termina.

É um caso raro de alguém que chega à desgraça por esforço próprio. Geralmente isso acontece com a ajuda dos inimigos. Mas quem é inimigo de Palocci?

A oposição não é. No ninho dos tucanos, José Serra e Aécio Neves - os seus mais conhecidos representantes - trataram logo de defender o ministro. Alegaram, para tanto, o benefício da dúvida.

Bem que no interior de São Paulo - à época em que a ave foi adotada como símbolo da social-democracia - os mais antigos já alertavam: "Isso não vai dar certo. O tucano é conhecido como um pássaro que tem bico longo e voo curto".

Quem, então, está querendo derrubar Palocci? Pelo jeito, são os seus pretensos amigos. E - como já foi dito - ele próprio.

Um dos principais mandarins do Palácio do Planalto - depois de apresentar algumas desculpas nada convincentes - aproveitou o momento para dar ainda mais um impulso à polêmica: decretou que a questão estava "encerrada"! Podia estar para ele. Para a opinião pública, estava apenas começando.

É típica dessa gente, que se acredita "de esquerda", a atitude de pretender arbitrar a natureza das coisas. E também a de reivindicar indulgência plenária para todos os pecados que eles mesmos cometem. Entendem que, como a sua causa é nobre, tudo o que fizerem se justifica.

Os liberais - que eles reputam ser da "direita" -, ao menos, são mais humildes. Por aceitarem a natureza humana como ela é, renunciam à ideia de que é possível reformá-la. Contentam-se em cultivar a ética e a integridade como virtudes pessoais. E, no mais, que cada um cuide de si.

Os esquerdistas não são assim. Por acreditarem estar do lado do povo - uma entidade que se torna a cada dia mais abstrata -, eles entendem que jamais fazem nada de errado.

As atrocidades cometidas pelos regimes da direita são indesculpáveis, porque inerentes ao sistema iníquo que ela defende.

Já as barbaridades verificadas nos regimes ditos de esquerda são meros "acidentes de percurso". E plenamente justificáveis, porque, afinal, o que eles buscam é o bem da humanidade...

Só que o "povo" não pensa assim. O "povo" entende que não basta aos homens públicos serem honestos. Eles precisam também parecer honestos. E quando surgem dúvidas, demonstrar que o são de verdade.

JORNALISTA, FOI DEPUTADO ESTADUAL, DEPUTADO FEDERAL, SECRETÁRIO E MINISTRO DE ESTADO

ESSE PALLOCI É MUITO ESCROTO...

MÔNICA BERGAMO - SER OU NÃO SER


SER OU NÃO SER
MÔNICA BERGAMO 
FOLHA DE SÃO PAULO - 20/05/11

No começo dos ensaios de "A Tempestade", a paulista Thaila Ayala, 25, achou "quase impossível" dar vida à personagem Miranda, de William Shakespeare. "É muito prazeroso fazer o texto acontecer. E estrear no teatro com um texto de Shakespeare é incrível!", diz a atriz. "Estou muito cansada, mas está valendo a pena ter emendado a novela "Ti-Ti-Ti" nesse trabalho." O espetáculo, que tem direção de Marcelo Lazzaratto, estreia na próxima quinta, 26, no teatro Raul Cortez, em São Paulo.

PLANTÃO MÉDICO
A Amil, operadora de planos de saúde, está na lista das empresas que contrataram a consultoria do ministro Antonio Palocci, da Casa Civil, quando ele era deputado federal. A empresa confirma. E diz que Palocci prestou serviços como médico e sanitarista, dando palestras de prevenção na época do surto da gripe suína para seus "clientes e executivos". Na área econômica, prestou assessoria quando a Amil decidiu expandir negócios no Nordeste.

INTERFACE
As operadoras de planos de saúde são reguladas pela ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), que tem seus diretores indicados pelo governo federal.

RECHEIO
Quem viu a até ontem misteriosa lista de clientes de Palocci afirma que nela estão quase duas dezenas das maiores empresas do país, de todos os setores, como bancos, por exemplo.

CARTA AO TIO
E o responsável técnico pela Projeto, consultoria de Palocci, é seu sobrinho, André, 28, economista. Como o ministro é médico, não podia se registrar no Conselho Regional de Economia e indicou o parente. Antes de assumir o "cargo", André deu a volta ao mundo. Até relatou, em 2009, que não pôde alimentar seu blog na China por causa da censura. "O que ainda há de comunista por aqui leva a sério essa questão de liberdade de expressão!"

ALVINEGRO
Carnavalescos da Gaviões da Fiel querem transformar Lula em samba-enredo em 2012. Seu nome, no entanto, gera controvérsia. Outra opção é homenagear o corintiano Adoniran Barbosa.

UNIÃO SOVIÉTICA
O vice-presidente Michel Temer acertou com o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, em encontro em Moscou nesta semana, o início das operações pela companhia aérea russa Transaero de voos comerciais diretos entre os dois países. Em troca, a Rússia vai registrar as aeronaves da Embraer, o que permitirá que elas sejam vendidas naquele país.

QUARENTENA

Marcelo Carvalho, da Rede TV!, assinará cláusula de "noncompete" que o deixará por até dois anos fora da TV aberta depois que vender os 33% que tem da emissora. Ele negocia com o sócio, Amilcare Dallevo Jr. Caso não cheguem a um acordo, Carvalho descongelará conversas com os portugueses do grupo Ongoing e com um grupo de investidores dos EUA que já foram ligados à MGM. Ele contratou o BTG Pactual, de André Esteves, para representá-lo.

NA ATIVA
Carvalho, que diz querer R$ 500 milhões pelo negócio, pretende depois investir em conteúdo e distribuição em TV paga. Diz que não há hipótese de embolsar o dinheiro e se aposentar. "Não vou para o campo jogar golfe, mesmo porque não sei."

ESTRELAS NO PRATO
O chef francês Eric Frechon, avaliado com três estrelas pelo guia "Michelin", cozinhou em Higienópolis, anteontem. Foram ao evento a empresária Chris Bicalho, Rosangela Lyra, diretora da Dior no Brasil, o sommelier Marco Pelletier e Osmar Zogbi, conselheiro do Instituto Ayrton Senna, que foi beneficiado com o dinheiro levantado.

JOANA DE SP
Os atores André Latorre e Liz Reis estrelam a montagem de "Joana d'Arc", dirigida por Marcelo Marcus Fonseca, que estreou anteontem. O autor Renato Borghi esteve na plateia do teatro Bibi Ferreira para assistir à primeira apresentção.

GÔNDOLA

Foi cassada na Justiça a liminar que proibia o Walmart de veicular uma propaganda em que comparava preços de supermercados diferentes.

O Pão de Açúcar, que solicitou a medida, diz não ter sido notificado de sua cassação. O Walmart afirma que em breve levará ao ar novos comerciais.

INTERNÉTICO
Nos intervalos das gravações de "Insensato Coração", o ator José de Abreu não larga seu iPad ou seu laptop da Apple. E não deixa de checar seu iPhone.

ROLÊ

A atriz brasileira Maria Flor decidiu esticar a temporada europeia após acabar de filmar "360", longa internacional de Fernando Meirelles no qual contracena com Anthony Hopkins.

A atriz se deu um período "sabático" e ficará viajando pelo continente até o meio do mês de julho.

CURTO-CIRCUITO

Luiz Tatit, José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski fazem show amanhã às 21h e no domingo às 18h para gravação do DVD "O Fim da Canção" no Sesc Vila Mariana. Livre.

A Multicase Entretenimento promove a festa Rock Star em um castelo no Ipiranga, hoje, às 23h. 18 anos.

A festa pernambucana Sem Loção volta a São Paulo amanhã, no casarão do Bixiga na rua 13 de Maio, 409. Classificação etária: 18 anos.

Jorge La Ferla, consultor do Museu de Arte Moderna de Buenos Aires, virá a São Paulo no dia 25 para abrir a exposição "12 Obras/12 Autores" no Itaú Cultural.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA, THAIS BILENKY e CHICO FELITTI

MIGUEL CONDE - Um debate estridente


Um debate estridente
MIGUEL CONDE

O GLOBO - 20/05/11

Ninguém precisa ir à escola para aprender o uso popular da língua. O ensino de português ou de qualquer outro idioma num ambiente escolar tem por objetivo a formação de cidadãos capazes de utilizar a língua de acordo com as regras gramaticais que definem a chamada norma culta.

Esse aprendizado está diretamente ligado às chances que uma pessoa tem de melhorar de vida, pois o domínio da norma culta é uma condição de acesso ao mercado de trabalho e de exercício pleno da cidadania.

Embora existam situações, informais, em que o uso popular da língua pode ser aceito, o conhecimento da norma culta é indispensável à comunicação em inúmeras instâncias da vida em sociedade. A incapacidade de utilizá-la tem por consequência, na prática, a exclusão social.

Em linhas gerais, é isso que defende o livro "Por uma vida melhor", da professora Heloísa Ramos, distribuído pelo Ministério da Educação a 4.236 escolas do país e destinado a cursos de educação de jovens e adultos. Acusada nos últimos dias de estimular o uso incorreto de português - transformando "a ortografia em pornografia gramatical", nas palavras do senador Álvaro Dias (PSDB-PR), cometendo "um crime contra os jovens", segundo a procuradora da República Janice Ascari -, a obra está agora disponível para leitura no site da sua editora, o que permite contrastar as críticas que lhe vêm sendo dirigidas àquilo que de fato consta do texto. Dada a estridência com que se tem desenrolado a discussão, pode ser útil, antes de tomar parte na briga, atentar para alguns trechos do livro até o momento ignorados nas citações que têm sido feitas.

Em seu primeiro capítulo, de onde foi extraído o trecho que supostamente autoriza o erro, o livro afirma que a língua portuguesa "apresenta muitas variantes", regionais e sociais. A variante popular, afirma, pode ser adequada a situações informais, mas a norma culta é necessária para o uso da língua em situações formais: "Quando escrevemos um bilhete a um amigo, podemos ser informais, porém, quando escrevemos um requerimento, por exemplo, devemos ser formais, utilizando a norma culta." Intitulado "Falar não é escrever", o capítulo diz que saber falar português não é o mesmo que dominar suas regras, e acrescenta: "A escola deve se preocupar em apresentar a norma culta aos estudantes, para que eles tenham mais uma variedade à sua disposição, a fim de empregá-la quando for necessário."

O trecho mais mencionado na discussão tem sido citado de maneira incompleta. A leitura da passagem na íntegra mostra que a noção de preconceito linguístico, uma forma enviesada de se referir ao zelo pela correção gramatical, não é usada para validar o erro, mas para enfatizar que aquilo que pode ser aceito numa situação informal não será aceito em outras onde a norma culta regula a comunicação: "Você pode estar se perguntando: "Mas eu posso falar os livro?" Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião. Existe outro tipo de concordância: a que envolve o verbo. Observe seu funcionamento: na norma culta, o verbo concorda, ao mesmo tempo, em número (singular/plural) e em pessoa (1/2/3) com o ser envolvido na ação que ele indica."

A esse trecho seguem-se exercícios de acentuação, separação silábica, uso de pronomes e correção de formulações com erros gramaticais, que devem ser reescritas pelo aluno de acordo com o padrão da norma culta.

É sem dúvida possível questionar certas colocações do livro, em particular o uso infeliz da expressão "preconceito linguístico", além de termos politicamente carregados como "classe dominante". Certamente há maneiras melhores e mais objetivas de transmitir a uma turma de ensino fundamental o conhecimento de que a língua é um sistema dinâmico, que se altera com o tempo, e que a norma culta é uma convenção social estabelecida para regular o uso das palavras em meio a essas variações. Para que esse debate importante possa acontecer, no entanto, é indispensável primeiro conhecer aquilo que pretendemos discutir.

GOSTOSA

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


Plano de saúde
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 20/05/11

Preocupada com rumores despertados por viagens adiadas, agenda oficial restrita e semirreclusão no Palácio da Alvorada, Dilma Rousseff recomendou a assessores informar que ela está trabalhando bastante, a despeito da convalescença da pneumonia.
Segundo a presidente, a decisão de pouco ir ao Planalto se deve ao fator ar-condicionado: lá, ou ela liga o equipamento, o que não quer fazer neste momento, ou em poucos minutos se sente numa estufa -duas das quatro paredes do gabinete são envidraçadas e não se abrem. No Alvorada, ela tem despachado na biblioteca, com os portas da varanda abertas.

Sorry
A sessão para apreciar o Código Florestal foi marcada para 9h de terça, o que atrapalhará os planos da oposição de tentar convocar o ministro Antonio Palocci (Casa Civil), em alguma comissão da Câmara, para falar sobre a multiplicação de seu patrimônio. Quando há sessão no plenário, as comissões não podem funcionar.

Nem te vi 
O código deverá ser votado sem que Dilma tenha se reunido uma única vez com Aldo Rebelo (PC do B-SP), o governista escalado para relatar o projeto.

Chop suey 
De um deputado favorável ao código nos termos do atual relatório: "O governo vibrou com o anúncio da abertura do mercado chinês à nossa carne suína. Se o texto tivesse sido aprovado do jeito que a Dilma inicialmente queria, não ia ter nem sequer um porco para vender aos chineses".

Mudo 
Lula, que manifestou opinião até sobre o local adequado para a estação de metrô de Higienópolis, já inteirou cinco dias sem dizer palavra sobre o caso Palocci.

Garfo e faca 

O ex-presidente estará na próxima terça em Brasília para almoço com senadores aliados. Articulador do encontro, o líder do PT, Humberto Costa (PE), diz que a pauta é livre.

Morde-assopra 

Palocci ligou para Geraldo Alckmin na tentativa de desfazer a impressão de que o Planalto opera para tirar de SP a abertura da Copa. No mesmo dia, o ministro Orlando Silva (Esporte) deu entrevista com críticas à condução do processo pelo governo estadual.

Agora vai? 
Após semana turbulenta no desenho da equação financeira do "Itaquerão", representantes do Estado e da prefeitura manifestam confiança no início das obras na segunda-feira.

Pechincha 
Depois de validar a licitação da Linha 5-Lilás do metrô, suspensa sob suspeita de conluio entre as empresas participantes, o governo paulista reuniu ontem os consórcios vencedores para tentar baixar o índice de correção de custos relativo aos sete meses em que a obra ficou paralisada.

Veja bem 
Apesar da declaração pública de Alckmin sobre José Serra ser "preparadíssimo" para presidir o Instituto Teotônio Vilela, praticamente nenhum tucano vê envolvimento concreto do governador para materializar o desejo de Serra.

Tela dividida 
O DEM-SP diz que vereadores e deputados da capital dividirão com o secretário Rodrigo Garcia (Desenvolvimento Social) as inserções televisivas a que o partido tem direito.

Desenrolou 

Depois de meses de espera, Orlando Pessutti será nomeado para o conselho de administração do BNDES. Roberto Requião (PMDB-PR), crítico do abrigo ao desafeto, tem disparado petardos contra Palocci, responsável pelas indicações.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio

"Que Palocci teve uma experiência única e valiosa todos nós sabemos. O que precisamos saber é quem desfrutou dela e com quais interesses."
DO DEPUTADO VANDERLEI MACRIS (PSDB-SP), sobre a expressão "experiência única", usada pela Casa Civil para justificar o êxito do ministro como consultor.

contraponto

Entrando numa fria

Ao encontrar Dilma Rousseff em almoço no Itamaraty, na terça-feira passada, José Sarney (PMDB-AP) lembrou da visita que fizera ao Paraguai, dois dias antes, para representá-la na comemoração dos 200 anos da independência do país vizinho.
O presidente do Senado se queixou de que a viagem não foi lá essas coisas: choveu o tempo todo, e a temperatura estava baixíssima. E arrematou:
-Em resumo, a presidente escapou de uma boa. Eu é que quase peguei uma pneumonia!

DORA KRAMER - Uma foto do Brasil


Uma foto do Brasil
DORA KRAMER
O ESTADO DE SÃO PAULO - 20/05/11

No dia 10 de maio, uma professora, Amada Gurgel, falou em audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte meia dúzia de verdades que desenharam em parte o cenário da educação no país.

Às autoridades presentes restou o silêncio diante das palavras de uma brasileira angustiada.

As seguintes: “Durante cada fala aqui eu pensava em como organizar a minha fala. Porque são tantas as questões a serem colocadas e tantas as angústias do dia a dia de quem está em sala de aula, que eu queria pelo menos conseguir sintetizar minimamente essas angústias.

Como as pessoas sempre apresentam muitos números e dizem que eles são irrefutáveis, eu gostaria também de apresentar um número que é composto por três algarismos apenas, bem diferentes de tantos números que são apresentados aqui com tantos algarismos: é o número do meu salário, R$ 930, com nível superior e especialização.

Eu perguntaria a todos aqui, mas só respondam se não ficarem constrangidos, se vocês conseguiriam sobreviver ou manter o padrão de vida que vocês mantêm, com esse salário. Certamente não conseguiriam.

Não é suficiente nem para pagar a indumentária que os senhores e as senhoras utilizam para poder frequentar esta Casa. A minha fala não poderia partir de um ponto diferente, porque só quem está em sala de aula, só quem pega três ônibus por dia para chegar a seu local de trabalho é que pode falar com propriedade.

Fora disso, qualquer consideração aqui é apenas para mascarar uma verdade visível a todo mundo: em nenhum governo, em nenhum momento no nosso Estado, na nossa cidade, no nosso país a educação foi uma prioridade.

Então, me preocupa muitíssimo a posição da maioria, inclusive da secretária (de Educação) Betânia Ramalho, de não falarmos sobre a situação precária porque isso todo mundo já sabe.

Como assim, não vamos falar da situação precária? Gente, estamos aceitando a condição precária da educação como uma fatalidade?

Estão me colocando dentro de uma sala de aula com um giz e um quadro para salvar o Brasil, é isso?

Salas de aulas superlotadas com os alunos entrando com uma carteira na cabeça porque não têm carteiras nas salas e sou eu a redentora do país? Não tenho condições, muito menos com o salário que recebo.

A secretária disse que não podemos ser imediatistas, que precisamos pensar a longo prazo. Mas a minha necessidade de alimentação é imediata.

A minha necessidade de transporte é imediata, a necessidade dos alunos de ter uma educação de qualidade é imediata.

Eu gostaria de pedir aos senhores que se libertem dessa concepção extremamente equivocada, e digo isso com mais propriedade do que os grandes estudiosos: parem de associar a qualidade da educação com professor dentro da sala de aula.

Não há como ter qualidade em educação com professores trabalhando em três turnos seguidos, multiplicando seus salários: R$ 930 de manhã, R$ 930 de tarde, R$ 930 de noite para poder sobreviver. Não é para andar com bolsa de marca nem para usar perfume francês.

É para pagar a alimentação de seus filhos, para pagar a prestação de um carro que muitas vezes compram para se locomover mais rapidamente entre uma escola e outra.

Não me sinto constrangida de apresentar meu contracheque, porque penso que o constrangimento deve ser de vocês.
Lamento, mas deveriam todos estar constrangidos. Entra governo e sai governo e o que se solicita de nós é paciência e tolerância.

Quero pedir à secretária paciência também porque nós não aguentamos mais esse discurso.

Não podemos ser responsabilizados pelo caos que na verdade só se apresenta para a sociedade quando nós estamos em greve, mas que está lá todos os dias dentro da sala de aula, em todos os lugares.

São muitas questões mais complexas que precisariam ser postas aqui. Mas infelizmente o tempo é curto e é isso que eu gostaria de dizer em nome dos meus colegas que pegam três ônibus para chegar ao local de trabalho, em nome dos estudantes que estão sem aula agora por causa da greve, mas que ficam sem aula por muitos outros motivos”.

É isso. Embora não seja apenas isso.

FACHADA

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - Bem-vinda mudança de discurso


 Bem-vinda mudança de discurso
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

FOLHA DE SÃO PAULO - 20/05/11
Reconhecer que o mercado de trabalho e os serviços afetam a inflação é um grande passo de Mantega
"A INFLAÇÃO brasileira está sendo afetada pelo mercado de trabalho apertado e pelo setor de serviços. Mercados emergentes com as economias aquecidas, como Brasil, Índia e China, correm o risco de ter a inflação provocada pelo aumento dos preços das commodities espalhando-se por outras áreas."
Fiquei surpreso com essas declarações do ministro Mantega ao navegar na internet ontem pela manhã, como faço todos os dias. Como sabe o leitor da Folha, há algum tempo tenho feito essa mesma leitura da inflação brasileira. Finalmente, parece que o ministro da Fazenda deixou de lado seu discurso de que a aceleração da inflação, neste início do governo da presidente Dilma, devia-se apenas a fatores externos, principalmente o aumento dos preços em dólares dos produtos primários.
O fato de reconhecer que as condições do mercado de trabalho e o descompasso entre demanda e oferta no setor de serviços também estão afetando a dinâmica da inflação é um grande e desejável passo do ministro. Parece-me ser crível que essa mudança de posição seja também endossada pela presidente Dilma, o que aumenta o espaço para que a inflação seja combatida como se deve daqui para a frente.
Para ficar ainda mais confiante nessas afirmações, gostaria de ouvir, das vozes mais representativas do Palácio do Planalto, o reconhecimento de que o crescimento da economia vai ter de ser reduzido dos níveis atuais. Mas temo que isso seria exigir demais de um governo do PT.
O Banco Central divulgou nesta semana sua projeção de crescimento do PIB no mês de março passado, o que permitiu aos analistas estimar, para o primeiro trimestre do ano, aumento da ordem de 6,5% e reforçou as apostas de crescimento de 4,5% para 2011.
Esse cenário é totalmente incompatível com a estratégia de trazer a inflação para o centro da meta do Copom ao longo de 2012 com gradualismo e sem matar a galinha dos ovos de ouro do consumo, para usar uma imagem do próprio ministro Mantega.
Para que essa convergência ocorra, será preciso esfriar ainda mais a economia, fazendo com que a demanda e a oferta em mercados importantes se aproximem e reduzam o poder de preços dos agentes econômicos.
Nos próximos dois ou três meses, os índices de inflação serão influenciados pela queda vigorosa dos preços de produtos importantes, como alimentos, álcool e gasolina.
Para junho e julho estão previstas taxas de inflação bastante baixas, negativas até se nada atrapalhar o comportamento da natureza nesse período. Mas, passado esse período de bonança consentida, as taxas de inflação vão voltar a se acelerar e as projeções que o mercado vai construir para 2012 podem deixar o BC -e o Copom- em saia justa.
Aparentemente, toda a equipe do governo -como fez o ministro Mantega- está mais atenta às verdadeiras causas do aumento da inflação e à necessidade de uma ação mais efetiva.
O próprio BC vem emitindo sinais de que pode levar o processo de aumento dos juros mais longe do que havia previsto no começo do ano. O reconhecimento das causas internas da inflação é um passo importante na direção de seu enfrentamento exitoso, mas não é tudo.
O sucesso vai estar associado também às doses dos instrumentos que serão usados para desaquecer a economia, enquanto os investimentos e a mobilização de novos contingentes de trabalhadores maturam. Como tenho dito, não serão as gotinhas de Weleda -nome carinhoso que tenho dado para as chamadas medidas macroprudenciais- que nos farão chegar a 2012 com um quadro mais equilibrado de oferta e de procura nos mercados não afetados por importações.
Será preciso reforçar ainda mais o controle da expansão do crédito ao consumo, pois, em um ambiente de crescimento dos salários e do emprego, ajudado ainda pela megacorreção do salário mínimo do próximo ano, essa pode ser uma alavanca muito poderosa de crescimento.

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS - A Constituição "conforme" o STF


A Constituição "conforme" o STF
IVES GANDRA DA SILVA MARTINS
FOLHA DE SÃO PAULO - 20/05/11

Penso que o ativismo judicial fere o equilíbrio dos Poderes e torna o Judiciário o mais relevante, substituindo aquele que reflete a vontade da nação


Escrevo este artigo com profundo desconforto, levando-se em consideração a admiração que tenho pelos ministros do Supremo Tribunal Federal brasileiro, alguns com sólida obra doutrinária e renome internacional. Sinto-me, todavia, na obrigação, como velho advogado, de manifestar meu desencanto com a sua crescente atuação como legisladores e constituintes, e não como julgadores.
À luz da denominada "interpretação conforme", estão conformando a Constituição Federal à sua imagem e semelhança, e não àquela que o povo desenhou por meio de seus representantes.
Participei, a convite dos constituintes, de audiências públicas e mantive permanentes contatos com muitos deles, inclusive com o relator, senador Bernardo Cabral, e com o presidente, deputado Ulysses Guimarães.
Lembro-me que a ideia inicial, alterada na undécima hora, era a de adoção do regime parlamentar. Por tal razão, apesar de o decreto-lei ser execrado pela Constituinte, a medida provisória, copiada do regime parlamentar italiano, foi adotada.
Por outro lado, a fim de não permitir que o Judiciário se transformasse em legislador positivo, foi determinado que, na ação de inconstitucionalidade por omissão (art. 103, parágrafo 2º), uma vez declarada a omissão do Congresso, o STF comunicasse ao Parlamento o descumprimento de sua função constitucional, sem, entretanto, fixar prazo para produzir a norma e sem sanção se não a produzisse.
Negou-se, assim, ao Poder Judiciário, a competência para legislar.
Nesse aspecto, para fortalecer mais o Legislativo, deu-lhe o constituinte o poder de sustar qualquer decisão do Judiciário ou do Executivo que ferisse sua competência.
No que diz respeito à família, capaz de gerar prole, discutiu-se se seria ou não necessário incluir o seu conceito no texto supremo -entidade constituída pela união de um homem e de uma mulher e seus descendentes (art. 226, parágrafos 1º, 2º, 3º, 4º e 5º)-, e os próprios constituintes, nos debates, inclusive o relator, entenderam que era relevante fazê-lo, para evitar qualquer outra interpretação, como a de que o conceito pudesse abranger a união homossexual.
Aos pares de mesmo sexo não se excluiu nenhum direito, mas, decididamente, sua união não era -para os constituintes- uma família.
Aliás, idêntica questão foi colocada à Corte Constitucional da França, em 27/1/2011, que houve por bem declarar que cabe ao Legislativo, se desejar mudar a legislação, fazê-lo, mas nunca ao Judiciário legislar sobre uniões homossexuais, pois a relação entre um homem e uma mulher, capaz de gerar filhos, é diferente daquela entre dois homens ou duas mulheres, incapaz de gerar descendentes, que compõem a entidade familiar.
Este ativismo judicial, que fez com que a Suprema Corte substituísse o Poder Legislativo, eleito por 130 milhões de brasileiros -e não por um homem só-, é que entendo estar ferindo o equilíbrio dos Poderes e tornando o Judiciário o mais relevante dos três, com força para legislar, substituindo o único Poder que reflete a vontade da totalidade da nação, pois nele situação e oposição estão representadas.
Sei que a crítica que ora faço poderá, inclusive, indispor-me com os magistrados que a compõem. Mas, há momentos em que, para um velho professor de 76 anos, estar de bem com as suas convicções, defender a democracia e o Estado de Direito, em todos os seus aspectos, é mais importante do que ser politicamente correto.
Sinto-me como o personagem de Eça, em "A Ilustre Casa de Ramires", quando perdeu as graças do monarca: "Prefiro estar bem com Deus e a minha consciência, embora mal com o rei e com o reino".