domingo, março 13, 2011

CLÓVIS ROSSI

Tsunamis e cismas
CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/03/11

SÃO PAULO - Tenho sobre o terremoto/tsunami no Japão sensações muito semelhantes às que dois leitores expressaram ontem, nesta Folha. Filipe Luiz Ribeiro Souza escreve que "as catástrofes naturais estão acontecendo com uma frequência muito maior".
E com efeitos mais devastadores.
Uriel Villas Boas acrescenta: "Até onde isto não é uma resposta do meio ambiente ao comportamento humano?"
Eu também fico com essa dúvida, Uriel, por mais que os especialistas digam que terremotos e tsunamis são fenômenos naturais que independem do que façamos.
Mas que a sequência de catástrofes naturais impressiona é inegável. Mesmo em São Paulo, a quantidade de chuva que cai desde o fim do ano parece anormal, ainda mais porque não cessa nunca.
Minha dúvida é se a frequência (e as consequências) é de fato maior ou o volume de informações é que aumentou exponencialmente nos últimos 20 ou 30 anos, sei lá.
Uma vez, um acadêmico cujo nome me escapa agora escreveu que a notícia da morte de Abraham Lincoln levou 13 dias para chegar à Europa. Hoje, a notícia sobre o terremoto no Japão, do outro lado do mundo, leva segundos para estar na tela do seu computador ou da sua televisão.
Pode ser, portanto, que as tragédias acontecessem, antes, em locais distantes da nossa aldeia original, sem que delas tomássemos conhecimento. Hoje, é impossível escapar desse tsunami informativo.
Mesmo fazendo essa ressalva, não há como fugir à sensação de que a coisa está esquisita. Na semana passada, na fria Suíça, fazia um friozinho até agradável, mas na "quente" Espanha nevava em quantidades industriais.
Pode ser que essas anomalias aconteçam regularmente, mas a memória leva em conta o frio e a neve de hoje, o que contribui para as cismas, minhas e dos leitores.

GOSTOSA

FERREIRA GULLAR

Se a História tem lógica...
FERREIRA GULLAR 
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/03/11

O pan-arabismo acabou há muito tempo e a imagem dos salvadores da pátria se desfez


A AÇÃO do povo desorganizado no Oriente Médio tornou-se um fato dominante da atualidade política internacional, a exigir dos especialistas análises e interpretações nem sempre concordantes, mas que nos dão, no mínimo, a certeza de que ali se iniciou um momento novo de sua história.
O assunto é complexo por muitas razões e, particularmente, porque cada um daqueles países tem composição social, histórica, cultural e política diversa, mas, às vezes, com fatores idênticos, indo desde os fatores religiosos até as divergências tribais. Seria ingênuo ignorar o peso que tem em tudo isso a riqueza petrolífera e as consequentes relações de interesses estabelecidos, em função disso, com as potências ocidentais. Daí o papel que tem exercido, sobre este ou aquele país da região, o poder econômico, político e militar, seja dos americanos, seja dos europeus.
Em face de tão complexa realidade, os comentaristas se perguntam o que resultará dessa onda revolucionária que varre atualmente aquela região e que, ao que tudo indica, tende a se alastrar por todo o Oriente Médio e o norte da África.
Uma questão frequente, nessas especulações, é saber que tipo de governo vai surgir após a derrubada dos regimes autoritários. Surgirão ali governos democráticos ou novas ditaduras?
E ainda a pergunta que mais preocupa: pode acontecer que, como no Irã, criem-se naqueles países teocracias islâmicas dispostas a deflagrar, contra o Ocidente, uma guerra santa? Essa possibilidade abate o otimismo dos que veem com esperança a revolta popular naquela região. Embora não descartando definitivamente essa possibilidade, a maioria dos comentaristas a considera remota pelo fato de que as palavras de ordem dos revoltosos não envolvem questões religiosas: eles reivindicam direitos à cidadania e ao pleno exercício da liberdade política, econômica e cultural.
Essa interpretação parece pertinente pelo fato mesmo de que a maioria dos promotores da revolta é constituída de jovens que, graças à internet, tomaram conhecimento de que uma sociedade mais aberta e mais moderna é possível. São jovens e desejam a felicidade de inventar sua própria vida.
A esses dados acrescento algumas observações, que talvez ajudem a prever o desdobrar desse processo renovador. Pode ser esclarecedor lembrar que os regimes de países como o Egito e a Líbia nasceram da derrubada de monarquias apoiadas na fé religiosa e que foram substituídas por regimes supostamente identificados com o sentimento popular.
Noutras palavras, um líder militar, seja Nasser ou Gaddafi, valendo-se do baixo nível de consciência política do povo e intitulando-se defensor do pan-arabismo, institui uma ditadura e se transforma em um novo "monarca". Travestido de salvador do povo, apropria-se dos meios que lhe permitem gozar de todos os privilégios, extensivos aos filhos, parentes e apaniguados, como uma nova corte. Assim, passa ele a falar não apenas em nome do povo mas em nome de Alá também.
Gaddafi, por exemplo, veste-se como um personagem mítico que ora é um imperador, ora um beduíno, ora um marechal, dando-nos a impressão de que está prestes a desfilar na Marquês de Sapucaí.
Não terá sido essa uma etapa inevitável por que teriam mesmo que passar aqueles países antes de alcançarem a democracia? Se esse raciocínio estiver certo, se a resposta for sim, dificilmente aqueles povos substituirão os mubaraks e os gaddafis por outros ditadores.
O pan-arabismo acabou há muito tempo e a imagem dos salvadores da pátria se desfez. Construir no Oriente Médio regimes democráticos de verdade não vai ser fácil, mas é bem possível que a etapa agora seja essa.
É um ponto de vista que talvez se justifique se levarmos em conta as circunstâncias históricas em que aquelas ditaduras se impuseram: era o período da Guerra Fria que, opondo o sistema capitalista e o sistema socialista, favorecia, especialmente naquela região, a exploração das teses anticapitalistas e antiocidentais. A aspiração a uma sociedade mais democrática e mais moderna se sobrepõe, nos dias de hoje, às questões religiosas e ideológicas.

MARCELO GLEISER

Teoria de tudo: fato ou fantasia?
MARCELO GLEISER
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/03/11

Faço o papel do contra: nosso conhecimento do mundo é necessariamente algo bastante incompleto


NA SEGUNDA-FEIRA passada, tive o privilégio de participar de um evento promovido pelo Museu Americano de História Natural, em Nova York. Foi o debate anual em memória do famoso escritor e divulgador de ciência Isaac Asimov. O mestre de cerimônias foi Neil deGrasse Tyson, do Planetário Hayden.
Éramos seis físicos, alguns conhecidos do público pelos seus livros de divulgação: Katherine Freese, da Universidade de Michigan, Brian Greene, da Universidade Columbia, Janna Levin, também de Columbia, Sylvester Gates Jr., da Universidade de Maryland, e Lee Smolin, do Instituto Perimeter, no Canadá. Um público de 1.300 pessoas lotou o auditório, intrigado pelo tema da discussão: teoria de tudo, realidade ou fantasia?
Foi uma noite e tanto. (Para os leitores que entendem inglês, o debate estará disponível em vídeo em breve.) Muitos físicos acreditam que a teoria de tudo (TDT) é o objetivo final da ciência: a descrição completa de como as partículas elementares da matéria interagem entre si e que, de quebra, mostra que todas as forças que descrevem essas interações são uma só.
Essa TDT seria o ápice do processo reducionista que começou na Grécia Antiga em torno de 450 a.C., quando os atomistas propuseram que a matéria é feita de pedaços indivisíveis, os átomos. (É importante esclarecer que a TDT não diz nada sobre "tudo": ela não prediz o tempo ou o que você vai comer no café da manhã, restringindo-se às partículas e suas interações.)
A busca muda conforme o nosso conhecimento sobre a composição e as propriedades da matéria muda. Esse foi, aliás, um dos meus argumentos. Fiz o papel do contra, baseando-me nas ideias do meu último livro, "Criação Imperfeita". A maioria dos integrantes do painel acredita que é possível chegar a uma TDT e que talvez a teoria das supercordas seja o caminho. Sou mais cético. Não tanto em relação ao que as supercordas podem fazer, mas sobre a existência de uma TDT e a possibilidade de encontrá-la.
"Supercordas", para quem não sabe, é a teoria que diz que as partículas de matéria são feitas de cordas submicroscópicas vibrando em frequências diferentes. Sua atração é que oferece um caminho para entendermos o que ocorre no centro dos buracos negros e na origem do Universo. O problema é que supercordas existem em dez dimensões espaciais e requerem a "supersimetria", uma simetria que dobra o número de partículas que existem.
Até agora, não temos qualquer indicação de que dimensões extra ou supersimetria existem. O LHC, a máquina na Suíça que procura novas partículas, vem pondo limites sérios à existência da supersimetria. Em alguns anos saberemos.
Mesmo se as supercordas estiverem corretas, ainda assim não as chamaria de TDT. O que sabemos da natureza depende do que podemos medir. Portanto, a busca por teorias unificadas deve ser constantemente revisada à medida em que descobrimos mais. Todos os esforços passados falharam porque não podemos prever o que mediremos no futuro. Uma teoria de supercordas do século 21 pode coletar (unificar) o que sabemos até hoje, mas não pode ser definitiva. Nosso conhecimento do mundo é necessariamente incompleto.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"

DEUS

MONSENHOR VICENTE ANCONA LOPEZ

O Opus Dei e a política
MONSENHOR VICENTE ANCONA LOPEZ
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/03/11

O Opus Dei aparecer no WikiLeaks era uma questão de tempo; em um primeiro momento, soa engraçado o poder que nos atribuem

Confesso que me divirto com os comentários que, de vez em quando, saem na imprensa sobre o Opus Dei e a sua suposta atuação política. Aparecer no WikiLeaks era uma questão de tempo...
Num primeiro momento, soa engraçado o poder que nos atribuem; depois, na autocrítica, a conclusão é séria: a nossa comunicação precisa melhorar. Não se trata de melhorar a imagem da Obra, mas, sim, de erradicar uma ideia falsa, transmitindo o que realmente somos.
As pessoas que participam das suas atividades sabem que o Opus Dei não faz política. A sua atuação tem outra dimensão: lembrar que todos, também os políticos, são chamados por Deus a serem santos; e que essa santidade pode e deve ser procurada nas atividades da vida diária, realizando-as por amor a Deus e ao próximo.
Ora, se a Obra tivesse posição política, trairia a sua finalidade, já que de alguma forma estaria privando dessa mensagem quem possuísse uma visão política diversa.
Em Roma, convivi com são Josemaria, fundador do Opus Dei, de 1969 a 1975. Nesse período, nunca o ouvi falar de política. Falava, sim, de conviver e dialogar com todos. Dizia que caridade, mais do que em dar, consiste em compreender.
São Josemaria era o oposto do que se poderia esperar de um "conservador". Estava aberto às novidades, queria aprender, inovar.
Quando passou uma temporada no Brasil, entre maio e junho de 1974, dizia que tinha aprendido muito do povo brasileiro: da nossa cordialidade, da nossa alegria, dessa convivência aberta a todos. E estava, na época, com 72 anos!
Ao mesmo tempo, foi muito incisivo ao nos dizer que aqui havia muito trabalho a fazer, que era preciso melhorar a condição de vida de muitas pessoas. Ao visitar o Centro Social Morro Velho, e também numa conversa com dom Paulo Evaristo Arns, afirmava que não seria cristão permanecer indiferente a tanta desigualdade. Sob o seu impulso nasceram muitas iniciativas sociais, no Brasil e no mundo.
São Josemaria foi pioneiro no ecumenismo, rompendo, ainda nos anos 40, resistências na Santa Sé ao solicitar que, no Opus Dei, houvesse cooperadores de todas as religiões, também ateus. Hoje, é uma realidade em todos os países nos quais a Obra trabalha: cooperadores protestantes, evangélicos, judeus, muçulmanos...
Mas e a relação do Opus Dei com o governo de Franco na Espanha? Faz anos que se esclarece esse tema, e talvez aqui tenhamos falhado ao comunicar. Em primeiro lugar, o Opus Dei não apoiou Franco. Segundo: houve muitos membros do Opus Dei que fizeram oposição a Franco; por isso, alguns tiveram que se exilar.
Por outro lado, alguns poucos membros do Opus Dei colaboraram com o governo de Franco. E por que o Opus Dei não fez nada? Simplesmente porque o Opus Dei não interfere nas atividades políticas dos seus membros, e cada um atua como lhe parece mais conveniente.
A liberdade sempre implica riscos, e o Opus Dei prefere correr esses riscos. Agora, por outro ângulo: o que pode ter a ver com Franco uma dona de casa do Cazaquistão, um estudante universitário do Congo ou um taxista mexicano que sejam do Opus Dei?
Se alguém quiser saber qual é o "projeto de poder" do Opus Dei, está convidado a conhecer as suas atividades, para que possa ouvir pessoalmente o que ali se diz. Fala-se de caridade, de excelência nas virtudes, de vida de oração, de aceitar com alegria as contrariedades, de castidade, de trabalhar com competência etc.
Não poderia ser de outra forma: essa é a mensagem da Igreja Católica, e o Opus Dei nada mais é do que uma pequena parte da igreja, que não tem um projeto de poder, e sim um projeto de serviço.
MONSENHOR VICENTE ANCONA LOPEZ, 61, é vigário regional da prelazia do Opus Dei no Brasil.

GAUDÊNCIO TORQUATO

Maria-Fumaça e a 7ª economia
GAUDÊNCIO TORQUATO
O ESTADO DE SÃO PAULO - 13/03/11
O ministro da Fazenda enche o peito e proclama: no embalo do crescimento de 7,5% do PIB em 2010, o Brasil corre nos trilhos como a 7.ª economia do mundo, superando a França e o Reino Unido. Mas o trem brasileiro, para chegar à estação final do governo Dilma na 5.ª posição, como espera Guido Mantega, precisa ser puxado por uma locomotiva de última geração, que garanta uma viagem rápida, confortável e sem os sacolejos produzidos pela velha Maria-Fumaça. Esse ícone do passado, que queima lenha para ferver água, fazer vapor e jogar fumaça no meio de bucólicas paisagens do interior, transfere seu significado de coisa obsoleta para os vários ramais que conduzem o País na direção do futuro.

O Brasil, é inegável, sobe de posição no ranking das nações. Mas a equação para chegar ao pódio abriga fatores que ameaçam atrasar a jornada. Dentre esses, a frente educacional é a mais importante. Para chegarmos aonde sonha o ministro Mantega, precisamos de mão de obra qualificada para operar novas tecnologias que garantirão a expansão da produtividade. Como fazer isso? A lógica aponta para o longo corredor da aprendizagem, que começa nos primeiros pilares da educação (leitura, Matemática e Ciências). Nesse primeiro estágio, estamos atrás de países de menor expressão econômica, como Chile, Uruguai e Colômbia. É o que diz o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), em que o Brasil se posiciona no 53.º lugar entre 65 países.

O maior desafio do governo Dilma não está, pois, nas frentes política ou econômica, como alguns tentam impingir, mas na gigantesca fila da mão de obra desqualificada. Componentes de cunho político podem ser administrados a qualquer momento. As pressões dos conjuntos parlamentares, previsíveis, fazem parte do cotidiano governamental. O eixo econômico, por sua vez, quando sai do prumo, recebe imediatos ajustes. Já na área da aprendizagem e capacitação de quadros, a tarefa é árdua e demanda tempo. Os buracos não podem ser tampados de imediato. Neste momento, o País registra a crise da escassez de profissionais para trabalhar em áreas que apontam para o futuro, como geologia (exploração do petróleo), engenharia, construção civil, serviços turísticos e hotelaria, meio ambiente, sistemas de informática e tecnologia da informação, entre outros. O estrangulamento de nichos, como o da construção civil, além de atrasar cronogramas, ameaça o próprio conceito do País, principalmente quando se projeta a escalada de gargalos na estampa de eventos de repercussão mundial, como a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, a serem sediados pelo País. Trata-se de palcos fosforescentes para a projeção de imagem de uma nação.

O apagão da mão de obra deixa seu rastro nas estatísticas da empregabilidade, nas reclamações de dirigentes empresariais e no próprio reconhecimento das autoridades. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) é enfático ao mostrar que, dos 24,8 milhões de brasileiros que buscaram emprego no ano passado, 22,2% deles não possuíam requisitos mínimos para as vagas disponíveis. O crescimento quantitativo se distancia da expansão qualitativa. Se agregarmos à massa desqualificada as amarras que atravancam a infraestrutura logística - congestionamento de aeroportos, estruturas obsoletas de portos, rodovias despedaçadas, escassez de ferrovias -, veremos por inteiro a paisagem descomunal do descalabro. Os feriados prolongados, principalmente nas altas estações, prolongam o calvário de consumidores, sob a lupa tosca de agências reguladoras, entidades amorfas que estão a carecer de profunda reformulação. Que danos tal esteira de carências acarreta ao País? Eis alguns: lentidão nos processos produtivos, ociosidade de aparatos tecnológicos, menor produtividade e, consequentemente, maior dependência de tradicionais ferramentas financeiras, como taxa de câmbio e juros. Ou, em outros termos, parques de produção e núcleos de serviços funcionarão aquém de seu potencial, desviando os capitais para a roda da especulação. O desfecho é trágico. O desenvolvimento, visto como a soma de avanços quantitativos e qualitativos, distribuição equitativa de riquezas e promoção do bem-estar, perde dinâmica.

Por que esse desenho borrado não recebe retoques adequados? A resposta sublinha: falta de vontade política, leniência de dirigentes de áreas, ausência de visão empreendedora, desentrosamento setorial, estreita visão de prioridades e a própria desqualificação dos perfis que comandam os sistemas. Vontade política implica, primeiro, investimento pesado na raiz da árvore dos maus frutos: educação. Não há quem não concorde com a premissa, mas as frentes educacionais vivem na penúria. A maior parte da população sai da escola sem saber fazer cálculos e entender escritos simples. O analfabetismo funcional beira 26% da população com mais de 15 anos.

A Coreia do Sul, país inexpressivo há 40 anos, hoje é exemplo para o mundo graças à revolução que fez na educação. Com 40 milhões de habitantes, exporta o dobro do Brasil e paga a um docente do ensino fundamental cerca de US$ 4 mil. Em São Paulo, um professor em fim de carreira na rede pública ganha um salário que não chega aos R$ 2 mil. Lá, há quase sete vezes mais pesquisadores que por aqui. E enquanto 80% dos coreanos que concluem o ensino médio vão para a universidade, esse índice é, entre nós, de menos de 20%. Os nossos guerreiros da batalha educacional preferem lutar com verbos, e não com verbas. Enquanto a verborragia ecoa nos auditórios, as salas de aula locupletam-se de desvarios pedagógicos. Já o setor privado praticamente fica alheio à tomada de decisões. Na Coreia do Sul, 2,25 pontos porcentuais dos 3% do PIB investidos em educação vêm do setor privado.

E assim, a velha Maria-Fumaça, devagar quase parando, puxa o trem da 7.ª economia do mundo. Se Mantega e seus companheiros dormirem na cabine, a máquina não chegará à última estação.

JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP, CONSULTOR POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO

GOSTOSA

SUELY CALDAS

A proposta Palocci para desonerar a folha
SUELY CALDAS
O ESTADO DE SÃO PAULO - 13/03/11
Compromisso firme de campanha da presidente Dilma Rousseff, a desoneração da folha de salários é anunciada há três anos "para muito breve" pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. No mês passado, o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, garantiu que não passa deste primeiro semestre. Mais sincero e menos político, o secretário da Receita Federal (RF), Carlos Alberto Barreto, afirmou no Congresso que "não há modelo simples nessa matéria. É complexo e tudo passa por decisões políticas". O ministro Antonio Palocci tem na gaveta um modelo que pretendia adotar quando era ministro da Fazenda, no primeiro mandato de Lula. Está na hora de desengavetar.

Aliviar a carga tributária sobre salários é intenção de todo governante que passa pelo Planalto. Além de causar perda na competição com outros países em investimentos e produtos exportados, os tributos sobre salários no País expulsaram metade dos trabalhadores para a informalidade. São os sem direitos trabalhistas, sem futuro e sem esperança de Previdência na velhice.

Tem razão o secretário da RF. A decisão não é fácil, atiça o vespeiro dos sindicatos, que o governo quer ver quietinho; pode prejudicar mais de 30 milhões de trabalhadores com carteira assinada se seus direitos forem atingidos; e os sindicatos patronais acionarão seu poderoso lobby se perderem a receita do Sistema S. Em compensação, outros 30 milhões de trabalhadores passarão a ter direitos trabalhistas reconhecidos na lei, mas trata-se de uma maioria silenciosa, desprezada pelos sindicatos. Por isso, Dilma precisará de muita resistência e coragem política para contrariar interesses. FHC e Lula desistiram.

O governo não revela qual solução prepara para o problema. Já se falou em desoneração seletiva da contribuição ao INSS, para favorecer setores exportadores prejudicados pelo cambio valorizado; em reprisar a CPMF, que agora financiaria a Previdência; em incidir a contribuição sobre o faturamento das empresas e não sobre a folha de salários.

De toda a carga fiscal, que onera em 36,8% a folha de salários, o foco recai sobre a contribuição ao INSS não só porque é a maior parcela (20% do total), mas também porque politicamente não convém ao governo agora antecipar tensões, se falar em tirar 3% para acidentes de trabalho, 2,5% de salário educação, 2,5% do Sistema S, 0,6% do Sebrae, 02% do Incra e 8% do FGTS.

Mas é possível, sim, reduzir ou até eliminar a maioria dessas taxas. Salário-educação quase nunca chega ao trabalhador; é preferível as empresas reservarem verbas para acidentes de trabalho do que serem obrigadas a recolher ao governo; se os empresários aplicarem a receita (hoje de R$ 9 bilhões) do Sistema S apenas em treinamento da mão de obra, essa taxa de 2,5% pode ser fortemente reduzida. E qual o sentido de carimbar tributos para o Sebrae e o Incra?

O grande nó do custo trabalhista é o financiamento da Previdência. Calcula-se que a redução de cada ponto porcentual dos 20% da contribuição ao INSS represente perda de R$ 3,8 bilhões aos cofres da Previdência. Portanto, se a taxa cair para 16%, o déficit do INSS saltaria de R$ 44,3 bilhões para quase R$ 60 bilhões. Como desatar esse nó?

Palocci tinha uma proposta prontinha quando estava no Ministério da Fazenda. O tsunami do mensalão e sua saída do cargo o impediram de aplicá-la na época. Agora o caminho está livre.

A intenção da proposta é racionalizar a cobrança do tributo à Previdência de forma inteligente, substituindo-o por outro imposto, em que os setores industriais e de serviços, que utilizam intensamente mão de obra, seriam mais desonerados do que os com menos empregados, porque usam capital intensivo - máquinas que substituem o homem.

Setores industriais que empregam muito (têxteis, calçados e móveis) ou de serviços (comércio lojista, restaurantes) pagariam uma alíquota mais baixa do novo imposto. Enquanto siderurgia, veículos, bancos e setor financeiro seriam taxados com alíquotas mais altas.

Faz sentido: o financiamento à Previdência seria mais equânime. É hora de desengavetar a proposta, Palocci.

JORNALISTA E PROFESSORA DA PUC-RIO

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Piada pronta
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 13/03/11

Conversa de dois jovens fissurados em política mundial:

-Rapaz, viu só que beleza o Egito? Estão desmubaraquizando legal, não vai sobrar nada do regime anterior.

-Pois é, mas na Líbia vai ser difícil deskadafizar.

-A saída, para isso, é desobamizar o Pentágono. Se fosse o Bush, o combate aéreo na Líbia já tinha sido saudiarabizado e aí a briga se equilibrava.

-Será que alguém consegue wikiliquizar essa história para ela ficar interessante de novo?

Maktub

A comunidade árabe, por meio da Federação das Associações Muçulmanas no Brasil, vai homenagear Lula com um jantar no Clube Monte Líbano em São Paulo, dia 21. Quer agradecer o ex-presidente por suas gestões em favor da permanente integração entre brasileiros e árabes.

Maktub 2O comércio entre brasileiros e árabes registrou um crescimento de 58,77% nos dois primeiros meses de 2011.

Só ouvidos
Marin Alsop, regente da Osesp, abriu sorriso agradecido ao ouvir Jude Kelly, do Southbank, dizer que o Brasil é o futuro.

Durante o seminário Women of the World, anteontem, em Londres, aplaudida pelo colega Arthur Nestrovski.

Pela frente

Luiz Ruffato prepara coleção de clássicos da literatura brasileira para a entrada da Babel no Brasil. Entre os primeiros títulos estão Contos Completos, de João do Rio, e O Cortiço, de Aluísio Azevedo.

Filha de peixe, lagartixa não é. Carolina Perez decola em voo solo. Filha de Tereza Perez, dona de agência de turismo, está lançando a Travelweek. Uma feira de turismo de alto luxo que ocupará o prédio da Bienal, a partir do dia 6. Serão 220 expositores vendendo de roteiros de trens a jatos privados. "O mundo é muito dinâmico e destinos tradicionais como Nova York e Londres já são clássicos para o público AAA", aponta. A empresária acredita que os maiores atrativos hoje são viagens que reúnam a família ou as que contemplem a natureza.

Responsabilidade social


Teresa Cristina Bracher será homenageada, terça, pela organização feminina Wizo São Paulo. Em reconhecimento ao seu trabalho à frente da Associação de Assistência à Criança e ao Adolescente Cardíacos e aos Transplantados do Coração.

O Itaú investe amanhã R$ 3,3 milhões em 20 organizações sociais que atuam na área de educação. O valor é o resultado do repasse de 50% da taxa de administração do Fundo Itaú Excelência Social.

A Ultragaz avisa: o seu Museu Itinerante Ultragaz, com curadoria de Katia Canton, estaciona no CEU Butantã entre os dias 14 e 22. Depois segue para mais 11 cidades brasileiras. De graça.

No embalo do Dia Internacional da Mulher, a Cryopraxis dará 25% de desconto às mães que optarem pelo armazenamento das células-tronco do cordão umbilical dos filhos recém-nascidos. Até o fim do mês.

Os índios caiapós da região do Xingu passarão a enxergar com outros olhos. Oftalmologistas voluntários realizarão cirurgias oculares nos vitimados por catarata e outras enfermidades. Com equipamentos doados pela Alcon.

A Liga Solidária fechou parceria com o Shopping Granja Viana. Os clientes que não informarem o CPF no momento da compra poderão doar suas notas fiscais eletrônicas para a entidade.

A Casa do Zezinho aposta numa rede de comunicação entre jovens da periferia. Começa oferecendo oficina de jornalismo para criação da revista e blog Z''zine - Uma Publicação de Zezinhos.

Detalhes nem tão pequenos...


1. No coração da Pauliceia, todo mundo incorporou o clima carnavalesco.

2. Os smokings nunca saem de moda. Mas só para ocasiões especiais, como a volta de Hebe.

3. Não, não é a abelhinha. É só a moça fazendo charme à la colombina de carnaval.

4. "São as águas de março fechando o verão. É promessa de vida no meu coração".

5. O artista dessa obra não levou o Oscar, mas ganhou fãs no mundo inteiro.

6.Ah, se a moda pega...

ORGULHO DE SER BRASILEIRO

JANIO DE FREITAS

Contra as verdades
JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/03/11  

Assim é há um quarto de século e o será por muito tempo, porque as gerações de militares não mudaram


A NOTA do Ministério da Defesa sobre a má recepção militar à futura Comissão da Verdade não é verdadeira. O que "está superado" desde 2010 não é o documento feito no comando do Exército com restrições ao propósito da Comissão, como induz a nota do ministério, e portanto do não assinado ministro Nelson Jobim. Superada foi a intenção dos comandos de tornar o documento oficialmente público, contra a opinião de Jobim. O que não impediu seu recente vazamento, sem que caísse do céu, para "O Globo".
A Comissão da Verdade - projeto encaminhado ao Congresso pelo governo Lula -, ainda que tenha finalidade apenas histórica e não questione a anistia, é considerada revanchista pelos comandos militares. Foi em represália a esse projeto que o patrono designado para a turma de aspirantes de 2010, no Exército, é o general Médici, patrono também do período ditatorial em que se deram os piores e mais numerosos crimes da repressão militar.
Assim é há um quarto de século e assim será por tempo imprevisível, porque as gerações de militares se sobrepuseram, mas a formação dos atuais não mudou e a dos futuros comandos, como informa a escolha do mais recente patrono, continua a mesma. Constou, tem algum tempo, que Nelson Jobim pensava na introdução de duas novas matérias em alguma altura dos cursos de cadetes: Constituição e Direitos Humanos. A escolha é significativa por si só, mas com relevância especial para a indicada necessidade de que seja o caso, ainda, de impor o conhecimento da Constituição. Não é preciso dizer mais sobre a formação.

A MORTANDADE
O aumento dos números de mortos e de acidentes nas estradas federais estarreceu e, como esperado, recaiu inteiro sobre os que dirigiam.
A responsabilidade que cabe a parte deles está à vista nas estradas e nas ruas, mas não se pode afirmar sequer, apesar da probabilidade, que seja a maior causa. Falta uma providência básica para se estudarem as causas reais e, daí, possíveis medidas atenuantes.
Falta o exame pericial do acidente. Da ação do motorista, sim, mas também das condições da via, onde uma pedra e um pequeno buraco podem provocar desvios desastrosos de direção. E exame do próprio veículo. Um pneu que aparece rasgado depois do desastre pode ter estourado antes. A série ininterrupta de convocações (o "recall") para troca de peças é também um alerta sério para a imperfeição dos veículos e de seus componentes. A polícia pode, no máximo, registrar observações superficiais dos acidentes. Não, porém, de uma quebra de suspensão, câmbio inoperante, aceleração involuntária, tantas possibilidades mais.
A perícia correta de um acidente não só o esclarece: é prevenção contra outros acidentes e outras mortes. É informação para autoridades de trânsito, administração urbana e rodoviária, e fabricantes de peças e veículos. Logo, é a mais eficiente ação contra a mortandade nas estradas. E, no entanto, desprezada pelos governos.

ESTAMOS AÍ
A explosão na usina atômica japonesa decorreu do terremoto e em prédio tido, pelos especialistas em produção de energia nuclear, como insusceptível de danos por abalos sísmicos terrestres ou marinhos (a usina fica à beira do mar).
Só mesmo a irracionalidade dos racionais para continuar espalhando usinas nucleares em seus países. O Brasil, claro, vai para Angra 3 e planeja mais.

MÔNICA BERGAMO

Etica e Puxa
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/03/11

Em Brasília , a preocupação com a estética ganha cada vez mais adeptos , mas o tema continua um tabu ; poucos políticos comentam seus retoques

Pelos tapetes verdes, azuis ou vermelhos da Esplanada dos Ministérios corre solta a mágica (secreta) do rejuvenescimento: a cirurgia plástica. Exemplo mais conhecido, Dilma Rousseff surpreendeu há dois anos ao aparecer com um sorriso mais simpático e um olhar mais vivo.

"O menos é mais na cirurgia da face", resume o médico gaúcho Renato Viera, que operou Dilma. A comentada imagem de professora carrancuda se dissolveu após um telefonema. "Ela me ligou, estava descontente com algumas coisas." Ele não entrega o principal: as tais "algumas coisas".

O resultado da cirurgia, "um sucesso de público e crítica", nas palavras da própria Dilma, levou a petista a convidar o médico para a cerimônia de posse na Presidência. Viera causou frisson.

Discrições e indiscrições à parte, a plástica a que Dilma se submeteu em 2008, já de olho nas eleições de 2010, é bem avaliada por entendidos no assunto. Para cirurgiões, marqueteiros e o mundo político em geral, a petista rejuvenesceu na medida. Não ficou nem "esticada" nem "fake", algo crucial para um candidato.

A guinada da presidente foi significativa, mas não a ponto de o eleitor médio comentar. "Nas pesquisas qualitativas que eu acompanhei no ano passado, ninguém falou sobre uma eventual cirurgia da Dilma", revela Paulo de Tarso Santos, inventor do famoso "Lula-lá" e marqueteiro da campanha presidencial de Marina Silva -que mal usa maquiagem.

Esse é justamente o "X" da questão. Ficar natural deve ser o objetivo da plástica, principalmente em políticos, que não podem passar a ideia de artificial e pouco confiável. Marqueteiro de Aécio Neves para os governos em Minas e de Antonio Anastasia na última eleição, Paulo Vasconcelos diz, por exemplo, que nunca sugeriu botox ou algo mais radical a seus clientes. E comenta que usaria a plástica mal feita de um adversário como vantagem, indicando ali um poço de falsidade.

"Quem estica muito a boca fica bem artificial. A gente percebe o olhar de peixe morto, o branco dos olhos acentuado", explica o médico e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica em São Paulo, Carlos Alberto Komatsu.

Mas se tantos políticos fazem cirurgia plástica, poucos revelam e um número ainda menor ousa criticar abertamente a mexida do colega. O tema é tabu, e reina o provérbio que recomenda não jogar pedras aquele que tem telhado de vidro. "Não abordo essas questões, mesmo sendo adversário", dispara o "implantado" senador Álvaro Dias (PSDB-PR).

Dias é um dos exemplos ambulantes do retoque estético. Fez implante capilar há 20 anos e aprovou o resultado. Outro que abre o jogo é o agora ex-deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS), que aderiu à cabeleira em 2005, véspera de eleições. "Você veicula propaganda com cartazes de quatro em quatro anos. Nesse intervalo, uma calvície acelerada muda totalmente sua imagem."

Nem todas e todos, porém, passam ilesos pelo falatório geral. Casos da ex-primeira-dama Marisa Letícia e da nova vice-presidente do Senado, Marta Suplicy. Sobre o que fizeram, como e quando sabe-se pouco.

Marisa Letícia foi operada e usa botox, além de frequentar o consultório da dermatologista Adriana Vilarinho -ciumenta, não deixou Dilma chegar perto dela.

Marta já se entregou, também, à cirurgia plástica. Como elas não detalham o que fizeram, dão asas à imaginação. "É excesso de botox e enchimento nos lábios" opina o marqueteiro Einar Jácome da Paz, com passagens pelas campanhas presidenciais de Fernando Henrique Cardoso e Ciro Gomes, sobre a fisionomia de Marta.

O estrategista relativiza, porém, a comparação com a elogiada plástica de Dilma. "Temos um repertório visual da Marta muito antigo. A gente lembra dela bem jovem e muito bonita."

Marta não quer saber do assunto. "Tô fora. Por que você não vai atrás dos homens que fizeram? Tem um monte aqui", sugere, espirituosa.

A petista tem razão. Apesar de muitos negarem, fala-se pelos corredores de plásticas no senador Walter Pinheiro (PT-BA), nos deputados Onyx Lorenzoni (DEM-RS) e Wellington Fagundes (PR-MT) e no governador Tião Viana (PT-AC). Para citar apenas alguns.

Ultrapopular no Congresso, onde atrai deputados e senadores da esquerda e da direita, a apresentadora Sabrina Sato já se deteve nessas inúmeras faces retocadas. "O poder mexe muito com as vaidades, vicia. Desde que não se corrompam, eles podem até pendurar uma melancia no pescoço."

Reportagem JOHANNA NUBLAT, de Brasília

GOSTOSA

VINICIUS TORRES FREIRE

Economia, o império do efêmero
VINICIUS TORRES FREIRE 
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/03/11

"Bossa nova" no BC apaga outra das ideias econômicas dos anos da breve e estranha regência liberal no Brasil


A NOVIDADE do governo Dilma Rousseff apareceu no governo paralelo do país, de quase qualquer país, o Banco Central. Entre dezembro de 2010 e agora, março, o BC foi dizendo ao público de modo cada vez mais incisivo que mudou a maneira de fazer política monetária.
Associada à implementação acidental de algo que por apreço à brevidade se chama de "desenvolvimentismo", tal mudança coloca mais uns pregos no caixão da regência provisória do "neoliberalismo".
Ensaio liberal aliás muito imperfeito, para não dizer paradoxal. De 1991 (Collor) a 2002 (fim de FHC), a carga tributária aumentou 32,5% (como fatia do PIB); o desmonte do estatismo deu início à criação do grande oligopólio moderno no país (teles, elétricas, minérios, bancos).
Voltando aos miúdos, o BC "sob nova administração" diz que: 1) Os instrumentos do BC para combater a inflação vão além da taxa de juros; 2) Não é preciso fazer a inflação regredir rapidamente à meta.
Essa flexibilidade, digamos, não é invenção nacional. Não por boniteza, mas por precisão, foi adotada pelos BCs pelo mundo afora, dada a situação anormal da economia no pós-crise e devido à desmoralização das ideias na prática dominantes sobre finanças, as quais levaram o mundo à breca a partir de 2007.
Acidentes políticos do governo Lula, folga nas contas externas, capital sobrante no mundo e a própria crise de 2008 abriram caminho para o avanço dos bancos públicos.
Ao final de 2007, os empréstimos (estoque de crédito) do BNDES equivaliam a 39% dos empréstimos da banca privada nacional; em janeiro de 2010, a 51,3%. O BNDES sozinho tem 21% do estoque de crédito do país (contra 17% em 2007); no conjunto dos bancos públicos, a evolução foi de 34% para 42%.
A "rede de proteção social" devia "focar" em apenas miseráveis, de acordo com o ideário da regência liberal. No Estado de Bem-Estar Tropical, os benefícios sociais estatais foram muito além. Considerem-se o gasto e a coordenação estatal em coisas como capilarização da rede de saúde, educação, benefícios para pobres e miseráveis, aposentadoria, programas de eletrificação, agricultura familiar, habitação subsidiada ou financiada pela banca pública e, em breve, internet.
Não são meros meios de redução de desigualdade e pobreza, mas combustível da economia de regiões inteiras. O Estado de Bem-Estar Tropical criou tanto o que a esquerda chama de "mercado de massas" como um pacto político. No futuro próximo, vai ser difícil ver algum governo ter coragem de mexer nisso.
Na propriedade do capital, o petismo-lulismo criou conglomerados com fundos públicos e associações com estatais, em especial em energia e na agroindústria. Além do mais, reestatizou, a sua maneira, parte do setor de petróleo e criou normas de nacionalização para a indústria de fornecedores do setor que vai fazer grossa parte do PIB.
Quando premiê de Lula, Dilma foi uma inspiradora-mor desse modelo. Ainda não apareceu com outras intervenções e até se diz que pretende privatizar parte da infraestrutura.
Mas está evidente que o Estado coordena a associação, o crescimento e a propriedade do capital, o desenvolvimento econômico de regiões atrasadas; que até no BC a "linha dura liberal" recua; que os partidos da regência liberal definham.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Semana gorda
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/03/11

Até agora liberadas a conta-gotas, as nomeações do segundo escalão começarão a sair da gaveta em ritmo mais expressivo, sobretudo para o PMDB, a partir de amanhã. A semana de ""Diário Oficial" robusto", na definição de um assessor palaciano, trará, entre outras novidades, a indicação de Iris Rezende (GO) para a Sudeco, a manutenção de Elias Fernandes no Dnocs e mais de um posto para o partido na estrutura de Itaipu. Outras pendências, como o destino de José Maranhão (PB), também deverão ser resolvidas em breve.
Apesar do silêncio mantido em público, aliados manifestam, em privado, enorme aflição em virtude da demora da presidente em contemplá-los.
Prioridades Comentário de um peemedebista diante da notícia de que começam a sair nomeações de representantes do partido derrotados na eleição de 2010: "Os derrotados do PT já foram todos nomeados. Para o primeiro escalão".

Sob nova... 
Ao passar em revista o PAC da Copa, o governo federal chegou à conclusão de que não é o caso de manter, na lista de obras de mobilidade urbana prioritárias para o Mundial de 2014, o monotrilho que ligará o aeroporto de Congonhas ao estádio do Morumbi.

...direção 
A inclusão do monotrilho no PAC da Copa se deu na época em que o Morumbi concentrava as chances de abrigar o jogo de abertura. Quando o estádio do SPFC perdeu a parada para a futura arena do Corinthians, Gilberto Kassab (DEM) obteve de Lula o compromisso de manter o status especial da obra, garantindo cerca de R$ 1 bi em recursos federais. A equipe de Dilma, porém, avalia que isso abriria precedente complicado.

Era PowerPoint 
Em documento dirigido aos servidores encarregados de elaborar o Plano Plurianual de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) recomendou, no melhor estilo Dilma, farto uso de gráficos e tabelas para a exposição do trabalho.

Fora dos planos
Impressão dominante entre os que conversam com Gilberto Kassab: quando teve a ideia de fundar nova sigla para escapar dos rigores da fidelidade partidária, o prefeito paulistano não imaginava atrair tanto noticiário negativo. Apesar do desgaste, porém, o PDB terá sua criação oficializada ainda este mês.

Baixa Dr. Hélio (PDT), de Campinas, um dos prefeitos mais cortejados por Kassab, pensou bem e decidiu não ir para o PDB. Alegou circunstâncias da política local.

Vaivém 1 
Em seu segundo mandato, Dr. Hélio recebeu também proposta do PTB, que tenta atrair outro prefeito: Rubens Furlan (PMDB), de Barueri.

Vaivém 2 
O presidente do PTB estadual, Campos Machado, negocia ainda associação com a UGT (União Geral dos Trabalhadores). Tudo para montar o que ele chama de "quarta via". Seu candidato dos sonhos na eleição paulistana é Gabriel Chalita (PSB) -igualmente assediado pelo PMDB.

Vamos ver 

Chalita, por sua vez, entrou em compasso de espera. Se vingar o cenário em que Kassab funda o PDB, mas adia a fusão com o PSB, a saída do deputado desta sigla perde o sentido.

Calculadora
O grupo de Geraldo Alckmin projeta obter nas eleições zonais de hoje 80% dos postos do diretório paulistano do PSDB. Caso se confirme esse resultado, a ideia é inibir a movimentação dos vereadores e bancar o secretário Júlio Semeghini (Gestão Pública) à presidência do partido na capital.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio
"As centrais deviam estar doidas para reatar com o governo. A Dilma ofereceu migalhas, e todo mundo saiu de lá aplaudindo."
DO DEPUTADO ACM NETO (DEM-BA), sobre o clima "paz e amor" reinante no encontro da presidente com sindicalistas anteontem no Planalto.

contraponto

Produto importado

Tão logo chegou de viagem oficial à China, o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) procurou seu clínico particular, em Belo Horizonte, para mostrar o curativo que lhe foi feito em Pequim em razão de um dedo machucado. O médico foi direto:
-Esta tala não serve para nada.
Resignado, Pimentel contou a história a seus auxiliares, entre os quais não faltou quem aproveitasse para fazer piada a respeito da questão comercial:
-Olha a tala chinesa aí...

BRAZIU: O PUTEIRO

BARRY EICHENGREEN

A próxima crise financeira
BARRY EICHENGREEN
O ESTADO DE SÃO PAULO -  13/03/11
Quando trabalhei no Fundo Monetário Internacional nos anos 90, um dos membros da equipe administrativa tinha o hábito de carregar no bolso do casaco uma lista de países que mais provavelmente experimentariam problemas financeiros graves. Isso não o capacitou, nem ao Fundo, aliás, para prever a crise financeira asiática. Mas, mesmo assim, a prática era uma forma útil de autodisciplina. Era uma maneira de meu colega se lembrar de ficar permanentemente atento aos riscos.

Estará despontando uma nova crise financeira? Se é verdade, quando ela virá? O que poderá acioná-la? E quais países estão sob maior risco? Os especuladores financeiros inescrupulosos instintivamente olham para as condições específicas dos países quando tentam responder a perguntas como essas.

O risco de crise é maior, eles observam, em países onde grandes aportes de capital alimentam o crescimento do crédito e originam bolhas nos mercados acionários. Ele é maior em países nos quais as taxas de câmbio se tornam sobrevalorizadas, augurando problemas de competitividade e desaceleração do crescimento econômico.

Mas a história sugere também que o timing das crises depende de mudanças nas taxas de juros nos centros financeiros internacionais.

Assim será provavelmente desta vez. Mais cedo ou mais tarde, as autoridades permitirão que as taxas de juros nos Estados Unidos, Europa e Japão subam de seus níveis atuais excepcionalmente baixos. E aumentos nas taxas de juros nos Estados Unidos, Europa e Japão dificultarão para os bancos em mercados emergentes expandirem seus balanços.

Taxas mais altas nos principais centros financeiros internacionais tornarão mais difícil para esses bancos captarem recursos no exterior para financiar o aumento dos empréstimos. Taxas de juros mais altas nesses centros significarão fluxos muito menores de investimentos estrangeiros para mercados emergentes de ações e bônus.

Então o recente sinal do Banco Central Europeu (BCE) de que ele está se preparando para aumentar as taxas de juros será um indício de problemas iminentes? Minha resposta é não. O elefante na sala não é o BCE, mas o Federal Reserve (Fed, o banco central americano). O dólar, não o euro, é a moeda financiadora dos bancos internacionalmente ativos. O gatilho da próxima crise será, portanto, a decisão do Fed de elevar as taxas.

Nesse ponto, os fluxos de capitais para mercados emergentes se inverterão. Os bancos nos países previamente no lado recebedor desses fluxos terão de contrair seus balanços. Haverá um aperto de crédito. Haverá problemas de liquidez, e talvez ainda piores, para instituições financeiras. Se os mercados emergentes estiverem despreparados, poderá haver uma crise financeira.

A boa nova, nessas circunstâncias, é que o Fed provavelmente não vai endurecer antes de 2012. Com o desemprego ainda em 9% nos Estados Unidos, não há nenhum sinal de aumentos nos preços dos alimentos e dos combustíveis resultarem em aumentos salariais. E, na falta de custos mais altos da mão de obra, a espiral preço-salário não está no horizonte.

Mas, se a economia americana continuar melhorando e o desemprego cair, a inflação poderá se tornar um problema para o Fed em 2012. Em outras palavras, os mercados emergentes talvez tenham mais um ano para se preparar.

E como andam esses preparativos? As autoridades financeiras do Brasil mostram sinais de ter instintos corretos e estão começando a dar passos na direção certa. O Banco Central (BC) brasileiro endureceu os requisitos de reservas e capital para impedir que os bancos continuem expandindo seus balanços. Ele espera que isso impeça esses bancos de terem de contrair violentamente o crédito quando vier o aumento das taxas de juro americanas. Corretamente, o BC brasileiro também elevou a taxa básica de juros (Selic) para impedir que as taxas de juros reais caiam com o aquecimento da inflação - taxas de juro excessivamente baixas são uma receita para empréstimos imprudentes.

É tranquilizador que o crescimento do crédito tenha se desacelerado significativamente em janeiro em consequência dessas medidas. Mas são igualmente preocupantes as projeções de alguns analistas de que está havendo um novo crescimento do crédito, de até 20% em 2011. Ninguém questionaria que o Brasil precisa desenvolver seus mercados de crédito. Mas assim, de imediato? Se essas projeções de 20% de crescimento do crédito mostrarem sinais de se confirmar, o BC deveria fazer mais.

É preocupante também a força do real, que cria problemas para os exportadores. A melhor maneira de tratar desse assunto é endurecer a política fiscal e, com isso, reduzir a pressão da demanda. Menos demanda doméstica significará menos gastos em bens locais e menos pressão para a elevação do real. Aqui, o novo governo de Dilma Rousseff enviou os sinais certos. Ele anunciou planos para reduzir o déficit orçamentário cortando gastos com defesa, educação, subsídios à habitação e à agricultura, e repasses ao BNDES. Mas, apesar de o Banco Central já ter agido, as autoridades fiscais ainda não o fizeram.

Outros grandes mercados emergentes estão tomando medidas preventivas também. A China freou os empréstimos bancários. O país está tentando conter o boom imobiliário. Além de endurecer os padrões de empréstimos e tomar outras medidas para desestimular a especulação imobiliária, o governo chinês prometeu recentemente construir 36 milhões de moradias populares nos próximos cinco anos, algo que ajudaria a conter os preços da habitação.

Mas a China também tem o problema adicional de que, diferentemente do Brasil, ela importa cerca de 40% de seu consumo de petróleo. Os brasileiros devem agradecer, portanto, à dádiva das áreas petrolíferas Tupi e Carioca, em outras palavras, e aos esforços de governos brasileiros anteriores para reduzir a dependência do país de energia importada.

A China, ao contrário, ainda depende pesadamente de energia importada.

Isso significa que, diferentemente do Brasil, ela corre o risco de uma tempestade perfeita - desaceleração do crescimento com forte alta dos preços do petróleo por causa da agitação no Oriente Médio, e endurecimento do Fed, tudo ao mesmo tempo.

A história recente nos lembra de que não devemos subestimar a capacidade da China de manter um forte crescimento, mas existe também um cenário em que o crescimento do país se desacelera rapidamente, criando problemas para ele e também, possivelmente, para seus parceiros comerciais.

Mas o país mais ameaçado do Bric não é China ou o Brasil, mas a Índia. Diferentemente do Banco do Povo da China e do Banco Central brasileiro, o Banco Central da Índia está aquém das necessidades. As taxas de juros na Índia estão mais baixas que a inflação. Um déficit orçamentário muito grande, da ordem de 10% do Produto Interno Bruto, agrava o problema do excesso de demanda. A dependência da população pobre da Índia de comida e combustível significa que o governo ficará sob pressão para subsidiar o consumo desses produtos essenciais, dificultando ainda mais o progresso na consolidação fiscal. E a Índia importa 70% de suas necessidades de petróleo, o que a expõe ainda mais que a China ao risco Oriente Médio.

Paul Samuelson, o economista laureado com o Prêmio Nobel e pai da economia financeira, disse certa vez que o mercado acionário havia previsto com sucesso nove das últimas cinco recessões. Os especuladores financeiros inescrupulosos também previram nove das últimas cinco crises financeiras. Mas justo porque erramos antes não torna menos importante repetirmos essas advertências agora. Devemos carregar uma lista das vítimas potenciais em nossos bolsos e atualizá-la regularmente. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

PROFESSOR DE ECONOMIA E CIÊNCIAS POLÍTICAS NA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA, EM BERKELEY

ELIO GASPARI

A Bolsa-Copom plantou uma jabuticabeira
ELIO GASPARI

O GLOBO - 13/03/11

O banqueiro Gastão Vidigal ensinou: "Nós não fazemos produto, produto é coisa que se pode embrulhar"


O ANDAR DE CIMA nacional precisa pensar na vida. A revista americana "Forbes" divulgou sua lista de bilionários e nela há 30 brasileiros e brasileiras com mais de US$ 1 bilhão. O legendário banqueiro paulista Gastão Vidigal ensinava que instituições financeiras não lidam com produtos, pois "produto é coisa que se pode embrulhar", como pregos e sabonetes.
Aplicando-se esse critério à lista da "Forbes", resulta que no Brasil há 13 bilionários na turma dos produtos (Eike Batista, Jorge Paulo Lemann e Ermírio de Moraes, por exemplo), e outros 15 cujo patrimônio derivou principalmente da atividade bancária (Safra, Villela e Moreira Salles).
No grupo da banca, nove dos bilionários pertencem à segunda geração dos fundadores do Itaú-Unibanco e do Bradesco. Alguns deles têm outras atividades profissionais (quando as têm). Dos 9 magnatas suíços, só 1 está no ramo de investimentos.
Na lista dos 10 maiores bilionários do mundo, 8 lidam com produtos e, entre eles, há apenas um lote de herdeiros, os Walton, do Wal-Mart, empresa que revolucionou os hábitos de consumo americanos.
O peso dos bilionários da banca brasileira é único. Para ficar na área dos Brics, dos 30 maiores magnatas russos, 20 lidam só com produtos; na Índia, 23; e na China, onde a banca é controlada pelo Estado, a turma está quase toda produzindo, ou negociando com imóveis.
Esse é o produto da Bolsa-Copom, com seus juros lunares.

UNIDOS

O DEM e o PT entendem-se melhor do que se pensa.
Um bom pedaço de cada partido trabalha para prorrogar a festa de compadres que exploram atividades comerciais nos aeroportos.
Os dois estão silenciosamente combinados para tentar empurrar o voto de lista numa gambiarra da reforma política. Nesse lance está, há tempo, até um pedaço do PSDB.

FORA DESSA

Enganou-se o professor Ives Gandra Martins num debate com o ex-deputado Ayrton Soares, mediado pela jornalista Monica Waldvogel. Raymundo Faoro, presidente da Ordem dos Advogados, não foi o autor do projeto da anistia, votado pelo Congresso em 1979. Em abril de 1979, o senador Petrônio Portela, ministro da Justiça, apresentou ao Planalto suas "primeiras ideias gerais" sobre o projeto.
Um rascunho, de maio ou junho daquele ano, foi anotado pelo chefe do gabinete civil, general Golbery do Couto e Silva, com relevantes intervenções. É provável que tenha vindo de Petrônio, de Faoro é que não veio. Não era seu estilo fazer projeto em segredo.

LIGAÇÃO PERIGOSA
O flerte do tucanato com a Força Sindical na escaramuça do salário mínimo levou-o a uma inédita aproximação com o deputado Paulo Pereira da Silva.
Se metade do que cada um já disse do outro em público for verdade, os dois estão perdidos.

PRESSA
A Prefeitura do Rio está apressada. Diz que as pedras encontradas debaixo do cais da Imperatriz são do atracadouro do Valongo, onde desembarcavam os escravos trazidos d'África. Seria ótimo se alguém mostrasse ao Iphan um documento mostrando que o cais de 1843 foi construído sobre o outro, de 1758.

GADDAFILEAKS
Ao ameaçar o presidente francês Nicolas Sarkozy com a revelação de "um grave segredo", relacionado com o financiamento de sua campanha eleitoral, o encrenqueiro líbio colocou no ar uma nova arma: o GaddafiLeaks.
Pode dar samba.

MADAME NATASHA
Madame Natasha tem horror a números e, no seu esforço para despoluir o idioma, concedeu uma bolsa de estudo coletiva a todos aqueles que usam medidas americanas para descrever objetos. Coisas assim: a tela do iPad tem 9,7 polegadas, a do Kindle tem 6 e o monitor de uma televisão, 38.
A polegada é uma medida de comprimento excêntrica, usada em poucos países. Além dos Estados Unidos, há a Libéria e Mianmar. Os demais seguem o sistema métrico decimal, criado na França e adotado no Brasil desde 1872. (Na Inglaterra rodam os dois.)
Mesmo os americanos, quando sabem que estão falando para uma plateia internacional, registram a medida em polegadas, convertendo-a para centímetros dentro de um parênteses.
Natasha crê que um brasileiro, ao registrar a medida de um produto em polegadas, pratica um exercício de preguiça (quando está traduzindo algum texto) ou de presunção (quando pretende mostrar que sabe uma coisa que a freguesia ignora).
A polegada mede 2,54 centímetros, portanto, a tela de um iPad tem cerca de 25 centímetros.
Natasha propõe que cada pessoa disposta a defender o uso das medidas americanas num texto em português seja capaz de dizer qual a sua altura em pés e polegadas. Ou ainda, que informe o tamanho de seu apartamento de 50 metros quadrados. (Ele tem 538 pés quadrados.)

A lista em que falta o Brasil

Na mesma semana em que a revista "Forbes" iluminou 30 bilionários brasileiros, o semanário inglês "THE" ("Times Higher Education") publicou sua lista das cem melhores universidades do mundo. Cadê o Brasil? Micou e não ficou nem sequer entre as 200. Em 2009, a USP fora a 92ª na área da saúde.
Cruzando a lista dos bilionários com a das universidades, a coisa fica feia. A China teve incluídas cinco instituições, a Índia e a Rússia têm uma cada uma. A América Latina, nenhuma.
Nem tudo é ruína. No pequeno mundo dos cursos de formação de executivos, uma avaliação do "Financial Times", deu a Pindorama o 8º lugar com a Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte, e o 13º com o Insper, de São Paulo. Ambas são instituições privadas.
Não é o caso de retomar a discussão sobre o futuro das universidades públicas, até porque, com poucas exceções, o estrago da privataria na rede particular garante que ela ficará fora de qualquer lista por mais 50 anos.
Os 30 bilionários brasileiros poderiam refletir em torno da história de um casal americano. Chamavam-se Leland e Jane. Tinham um só filho e, em 1884, ele morreu em Florença, aos 16 anos. O casal quis preservar sua memória. Podia ser com um museu, uma escola técnica ou uma universidade.
Procuraram o presidente de Harvard, a quem conheciam, e aprenderam que uma universidade lhes custaria US$ 5 milhões. Entreolharam-se e viram que tinham esse trocado, pois a fortuna do casal ia a US$ 50 milhões (US$ 1 bilhão em dinheiro de hoje). Voltaram para a Califórnia e criaram a Universidade Stanford, com o sobrenome da família. Ela é hoje a 5ª melhor do mundo, e a localidade de Palo Alto, cujas terras eram de Leland, é o pulmão do progresso tecnológico americano.
Pouca gente se lembra do senador Leland Stanford como um dos "barões ladrões" da Califórnia, nem da estrada de ferro transcontinental que ajudou a abrir, como uma monumental rapinagem, pois ela mudou a geografia dos Estados Unidos.
Pelas contas da Forbes, os 30 bilionários brasileiros têm um ervanário de US$ 130,5 bilhões.