terça-feira, março 01, 2011

GOSTOSA

ARNALDO JABOR

O cafajeste do smoking impecável
ARNALDO JABOR
O Estado de S.Paulo - 01/03/11

Um amigo chegou e me disse: "Pare de ser conspícuo e seja mais perfunctório..." Humilhado, resmunguei de cara limpa: "Claro, claro...". Corri ao Aurélio: "conspícuo" me parecia coisa de sexo, "concupiscência", mas não é; quer dizer "grave, sério, buscando a profundidade". Já "perfunctório" eu sempre desprezei; palavra feia, lembrando supositório, "perfunctórios de glicerina". Designa algo raso, rotineiro, óbvio.

Já contei que na internet rolam artigos que nunca escrevi sobre mulheres. São textos piegas, adocicados, com patéticos elogios à "mulherzinha objeto". Atribuíram-me uma crônica chamada "bunda dura", onde o falso eu fala que mulher pode ser bela com celulite e ter nádegas flácidas... Na rua, fui abordado por uma senhora fina que me declarou arquejante de orgulho: "Eu tenho bunda mole!" E saiu andando, em doce contentamento. Sou amado pelo que não escrevi. Por isso, por vingança e falta de assunto, hoje serei perfunctório sobre mulheres, neste texto apócrifo por mim mesmo.

Começo dizendo que é preciso muita atenção para saber se a mulher te ama mesmo ou se quer saber se é amada. Para o teste, Nelson Rodrigues criou a fórmula: "Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada, não há amor possível." Isso. A mulher está sempre atenta para saber se é amada ou não. Uma frase mal colocada, um olhar distraído para outra mulher podem deflagrar um drama de cinco atos. Tom Jobim sintetizou essa verdade universal, quando disse: "É... mulher enguiça!.." Essa frase é luminosa. Por exemplo, você foi jantar com ela, champanhe, flores, uma noite feliz e, de repente, você olha para o lado e ela está imóvel, olhando fixo para o nada, rosto duro. Pronto, enguiçou - igual a automóvel. Você implora uma explicação: "Que foi que eu fiz? Olhei para alguém?" Ela te fita com desprezo em lívido silêncio.

O pior é que isso te arremessa ao desesperante labirinto da D.R. (a "discussão da relação"). Nisso, elas nos dão banhos de dez a zero. Na D.R., elas fazem revelações terríveis, ódios secretos e fraquezas de menina. A mulher é mais verdadeira no ódio. Você fica emaranhado numa teia de acusações, lamentos, escárnio e é paralisado até a sentença final, como os machos de gafanhotos: "Eu sou boa e você é mau!"

Se você for realmente mau, saiba que isso é bom e lhe faz respeitado de forma oblíqua, sub-reptícia. "Meu marido é um canalha!" - geme a mulher para as amigas, com um tênue sorriso de orgulho. E as amigas suspiram, invejando-a pelo adorável canalha que a maltrata. Como são amados os malandros...

O fiel não tem graça. É tedioso, está ali para sempre, enjoado, sem drama. O canalha é aventureiro, malvado, encarna um sonho intangível para a mulher. Todo galã é impalpável. Uma mulher me falou: "Quando um cara me diz "eu te amo", perco o interesse na hora!"

Mulher desconfia de homem bom; o bondoso perde a aura de perigo, o bondoso humilha o favorecido - nada ofende mais que o benefício, nada agride mais que a bondade explícita.

Este texto está muito rodriguiano; aliás, Nelson me contou uma vez a parábola do "cafajeste do smoking impecável". A mulher insultava o amante aos berros; ele imóvel, num smoking perfeito, fumando de piteira, indiferente às ofensas que ela atirava, de dedo espetado e olho em brasa. Aí, ela arriscou: "Você não é homem!" O cafajeste jogou o cigarro fora, guardou a piteira com discreta elegância e assestou uma bofetada rutilante na mulher. Pronto! Banhada em lágrimas de paixão, ela agarrou-se às suas pernas. Era o amor, enfim.

Alguém disse que o desejo dos homens e mulheres é serem desejados. Ninguém ama um "sujeito". É impossível comer um "sujeito". O sexo exige objetos. Os homens pensam que são "sujeitos", donos de seu desejo; a mulher finge que acredita e se faz de "objeto" para ocultar o que realmente quer ser - toda mulher quer ser objeto, mas isso não as faz menos objetivas. Mesmo apaixonadas, as mulheres são pragmáticas; cada beijo tem a estratégia de um projeto de vida. Manipulam o galalau apaixonado, mais romântico e bobo que elas, que não entende que ela tem múltiplos sentidos e está sempre nos equivocando; não porque sejam "móbiles", frívolas, mas porque funcionam assim, como raízes buscando vida. A mulher não é linear e sucessiva; ela é constelada.

Por isso é que todas querem casar, para prender numa moldura a insuportável liberdade que pensam querer.

E muitas têm a secreta inveja da prostituta - pela coragem de viver uma vertigem de pecado e liberdade. "Por isso, certas esposas precisam trair para não apodrecer. Na mais degradada das prostitutas sobrevive algo de intacto, de intangível, de eterno. Esse mínimo de inocência sempre a salva." (N.R.)

E por aí vamos, baixando o nível para enxergar a verdade do óbvio.

O maior mistério que vivemos é a diferença entre sexos. Talvez o único mistério. Por mais que queiramos, nunca chegaremos lá. Há alguns exploradores: os veados, sapatões, travestis, que mergulham nesse mar e voltam de mãos vazias, pois nunca saberemos quem é aquele ser com útero, seios, vagina, aquele ser maternal, bom, terrível quando contrariado no "ponto g" da alma. Por outro lado, elas nunca saberão o que é um pênis pendurado, a porrada num jogo do Flamengo, nunca saberão do desamparo do macho em sua frágil grossura. Elas jamais saberão como somos.

A mulher se santifica quando é traída. A amante do marido sempre é uma "vaca ou vagabunda"...sempre. A mulher traída triunfa em sua dor e muitas não acreditam no abandono: "Ele me ama; não sabe, mas ama...".

E quando ela trai, sempre invoca o motivo mais alto: a paixão. A paixão da adúltera a justifica e absolve. Ela é conspícua; só o corno é perfunctório.

As mulheres são imprevisíveis como a natureza. O homem se crê acima, mas as mulheres estão dentro.

Elas ventam, chovem, sangram, elas têm inverno, verão, "TPMs", raiam com a luz da manhã ou brilham à noite, elas derrubam homens com terremotos, elas nos fazem apaixonados porque nelas buscamos um sentido que não chega jamais.

MÔNICA BERGAMO

NAVALHA VERDE
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SÃO PAULO - 01/03/11

O presidente do Palmeiras, Arnaldo Tirone, quer fazer um pente-fino nas contas do clube. O alviverde tem um orçamento de R$ 120 milhões para o ano, mas gastos maiores do que isso -fechou fevereiro com deficit de R$ 5 milhões. Ele diz que 80% do montante para 2011 já está comprometido, o que deve afetar principalmente o esporte amador. O tenista Flávio Saretta, por exemplo, que comanda a modalidade no clube, ganha R$ 16 mil por mês.

SINAL VERDE

Em meio à reformulação do departamento de marketing do Palmeiras, Arnaldo Tirone pediu que a Traffic elabore um projeto para assumir essa área no Verdão. Mas conversa também com outras empresas.

SINAL VERMELHO
Ainda o Palmeiras: à procura de um centroavante, o clube rejeitou o meia Marcelinho Paraíba, que estava no São Paulo. Antes de assinar com o Sport, ele foi oferecido ao time do Palestra Itália.

ZERO A ZERO
O presidente do Cade, Fernando Furlan, que recebe hoje o presidente do Clube dos 13, Fábio Koff, para discutir o racha na entidade por causa dos direitos de transmissão do Brasileirão, tem mais dúvidas do que respostas sobre o imbróglio. "Se alguns times saírem, até que ponto vão poder contratar a Globo com exclusividade? Eles estão ainda submetidos [ao acordo do C13 com o Cade]? E se não, vamos ter que fazer nova investigação, por conduta anticompetitiva?"

MARTELO
Volta à pauta hoje mais um caso polêmico analisado pelo Conselho Nacional de Justiça: as denúncias contra o desembargador Carlos Prudêncio, de Santa Catarina. Ele é acusado de acobertar um caso de exploração sexual de uma menor.

NOTÓRIO SABER
O Tribunal Regional do Trabalho julgou improcedente a ação em que o jornalista Salomão Schvartzman cobra verbas trabalhistas e danos morais por ter sido demitido, sem explicações, da rádio Cultura, em 2007. A corte admitiu que seu contrato deveria ser anulado porque ele não foi aprovado em concurso público para entrar na emissora. "Foram buscar o Salomão no mercado. Queriam este profissional, não poderiam achar outro num concurso", diz o advogado dele, José Guilherme Mauger, que vai recorrer ao Tribunal Superior do Trabalho.

TV CONCURSO

"Se prevalecer essa esdrúxula concepção, haverá necessidade de obrigar a prestar concurso os atuais contratados da Fundação Padre Anchieta [que controla a rádio e TV Cultura], como Marília Gabriela, Inezita Barroso, Rolando Boldrin, Julio Medaglia, Antonio Abujamra e outros, correndo o perigo de terem seus contratos trabalhistas considerados ilegais", diz Salomão Schvartzman.

Adriana Lima

A top Adriana Lima, que mora nos EUA, foi a madrinha do Baile "Vogue" de Carnaval. "Adoraria ser convidada para madrinha de bateria de alguma escola", diz. Entre as fantasias mais vistas pelos salões do hotel Unique estava a da bailarina interpretada por Natalie Portman no filme "Cisne Negro". As socialites Bethy Lagardère e Ana Paula Junqueira, a produtora Julia Petit e o estilista Walério Araújo circularam pela festa.

CHUVA, SUOR...
A chuva não intimidou o desfile, anteontem, do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta. Wilson Simoninha, puxador do bloco, levou o filho, Gabriel. A cantora Pitty, o empresário Alexandre Youssef e a atriz Leandra Leal chegaram para a concentração, no bar Sonique.

A VIDA DO LOBO
A vida de Lobão vai virar filme. Os direitos da biografia do cantor, "50 Anos a Mil", de Claudio Tognolli, foram vendidos para o produtor Rodrigo Teixeira.

DONO DA SAPUCAÍ
Além de dois camarotes na Sapucaí, Roberto Carlos também comprou frisas para seus convidados na segunda de Carnaval, quando desfila na Beija-Flor. E o Rei oferecerá transporte aos convidados, a partir do hotel Sofitel.

CURTO-CIRCUITO

O Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira recebeu da Fundação Vanzolini a certificação de nível máximo da ONA (Organização Nacional de Acreditação).

A banda Projeto Coisa Fina se apresenta hoje, às 22h, no Studio SP. 18 anos.

A grife Morena Rosa lança sua campanha com almoço para convidados no Manioca.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

O DISCURSO DO ESGOTO

VINICIUS TORRES FREIRE

"Eu acredito em duendes"
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SÃO PAULO - 01/03/11
Corte de R$ 50 bi na despesa federal viria de passagens aéreas, gasto irregular com salário, INSS e coisas assim

O GOVERNO ATÉ que tentou. Mas ainda não foi ontem que conseguiu convencer observadores mais atentos das contas públicas de que vai conseguir reduzir em R$ 50 bilhões os gastos autorizados pelo Orçamento de 2011.
Tanto nos papéis que distribuiu como na entrevista aos jornalistas, os ministérios da Fazenda e do Planejamento foram ainda vagos demais. Ainda pior, os ministros responsáveis, Guido Mantega e Miriam Belchior, deram a impressão de que estavam nervosos e não sabiam explicar muito bem o motivo do talho.
Do corte de R$ 50,087 bilhões, R$ 15,7 bilhões viriam da redução de despesas obrigatórias. Se são obrigatórias, como seriam reduzidas? O governo espera gastar menos com salários de servidores, seguro-desemprego, Previdência e subsídios. Espera. Pode ser que esteja muito bem informado a respeito do futuro dessas despesas. Quem está de fora (do governo) levantou o sobrolho.
O governo diz que vai fazer auditoria dos gastos com salários e criar um sistema de alerta e controle de despesas indevidas, se deu para entender. Ainda haverá auditorias nos gastos de universidades federais, checagem de aposentadorias e pagamentos de seguro-desemprego indevidos. Ou seja, o governo espera encontrar gastos irregulares.
No caso de benefícios previdenciários, o "corte" virá da tentativa de empurrar para o ano seguinte algumas ordens de pagamento derivadas de decisões judiciais.
A ideia não soa lá muito bem.
Sugere que:
1) Havia gastos irregulares aos montes, aos bilhões, e os governos do petismo, Lula 1 e Lula 2, não estavam nem aí para o descalabro;
2) Pode haver gastos irregulares, como infelizmente ocorre em qualquer administração, mas em montante insuficiente para encher o chapéu do ajuste, do corte de gastos.
Enfim: a coisa toda apenas será boa se for ruim: o governo praticamente está dizendo que vai ter como reduzir despesas porque estava jogando dinheiro no lixo aos bilhões. Ou não vai reduzir despesas.
O governo diz ainda que vai cortar muita despesa com a redução de subsídios e de subvenções. Pode ser boa coisa. Mas seria preciso ver a lista dos subsídios. Não vimos.
Mas as vaguezas não param por aí. O governo diz que vai cortar muita despesa "discricionária" (não obrigatória, grosso modo), R$ 36,2 bilhões. Como? Fazendo também "choque de gestão".
Muito bem. Mas como mesmo será o corte? Limitando despesa com passagens e diárias de viagem. De aluguel e compra de imóveis, máquinas e equipamentos. Uhm.
Em suma, o corte mais visível virá das emendas parlamentares absurdas e da desistência em aumentar muito mais o dinheiro para o Minha Casa, Minha Vida (tanto um programa social como de investimento). Noutros casos fica difícil ver como os ministérios vão funcionar se cumprirem as metas de corte e também mantiverem os investimentos. Vai faltar dinheiro de custeio básico.
O governo disse que os cortes não visam o controle da inflação. Mas não era isso o que o governo dizia em dezembro, janeiro. O pessoal do governo disse também que a política econômica não está se tornando "ortodoxa". Tanta palavra grande só para colocar ordem mínima nas contas? Pode dar certo, ok. Mas está difícil de acreditar no duende.

ILIMAR FRANCO

Dominado 
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 01/03/11

Depois de emplacar o ministro do Desenvolvimento Agrário, Afonso Florence, a corrente Democracia Socialista, do PT, deve fazer também o presidente do Incra. O nome é Cássio Alves Pereira, ex-secretário de Agricultura do governo Ana Júlia Carepa (PA). O MST queria no cargo Celso de Lacerda, atual diretor de Obtenção de Terras e Implantação de Projetos de Assentamento. 

Mão dupla
Além da deputada Luiza Erundina (SP), o deputado Gabriel Chalita (SP) também pretende deixar o PSB se for concretizada a fusão
com o PDB, partido a ser criado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Para não perder o mandato, alegariam mudança na orientação partidária. O plano de Chalita é disputar a prefeitura de São Paulo no ano que vem, o que seria inviabilizado com o ingresso de Kassab, seu desafeto. Na tentativa de segurá-lo, o vice- presidente do PSB, Roberto Amaral, prometeu a Chalita que ele é a prioridade do partido. Já Erundina está incomodada desde que o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, entrou no PSB.

"Eu ficarei no DEM. Fundei o partido e vou permanecer lá” — Jorge Bornhausen, negando que deixará a sigla junto com o prefeito Gilberto Kassab (SP)

MISSÃO. O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), disse que a proposta da presidente Dilma Rousseff de dar missões
externas aos ex-presidentes da República é um sinal de amadurecimento da democracia brasileira. “Isso tem sido evitado porque a política brasileira é muito personalista. É muito importante que o Brasil alcance a mentalidade de colocar expresidentes
a serviço de sua diplomacia”, disse ele.

Sem obstrução

 O prazo para o Congresso votar a medida provisória que cria a Autoridade Pública Olímpica expira hoje. Apesar da presidente Dilma Rousseff poder editar outra MP, a avaliação no Planalto é que seria uma sinalização muito ruim para o COI.

Ó vida, ó azar
 Um dos principais atingidos pelo corte no Orçamento, o ministro Mário Negromonte (Cidades) estava resignado ontem: “Todo início de governo é assim”. Ele ainda ia tentar convencer o Planejamento a não cortar definitivamente sua parte.

Fritura
 A cúpula do PMDB não vai comprar briga para manter a indicação do ex-governador José Maranhão (PB) para a vice-presidência de Loterias da Caixa Econômica. Só quer manter o cargo. Estão sendo desenterradas denúncias contra Maranhão de contratação de servidores fantasmas e de suposto rombo nas contas do estado. E a presidente Dilma Rousseff prefere a nomeação de técnicos para os bancos.

Mais polêmica
Sai do forno neste semestre o livro de Amaury Ribeiro Jr. sobre supostas irregularidades nas privatizações do governo FH. Amaury foi o pivô de crise na campanha de Dilma Rousseff, acusada de montar um dossiê contra o adversário José Serra. O livro será lançado pela Geração Editorial. Nos originais, o repórter também conta bastidores da disputa entre os tucanos José Serra e Aécio Neves na pré-campanha. Amaury já planeja um segundo livro, sobre o mesmo assunto.
 

 LOBBY. Novo presidente da Comissão de Minas e Energia da Câmara, o deputado Luiz Fernando Faria (PP-MG) teve 25% de sua campanha bancada por empresas de mineração. Ao todo, foram R$ 585 mil. 

 GUERRA. O prefeito de BH, Marcio Lacerda (PSB), tentou despejar seu vice, Roberto Carvalho (PT), do prédio da prefeitura. Aliados puseram panos quentes. Ambos querem comandar a cidade a partir de 2013. 

 PRATO ÚNICO. Na pré-campanha, a então ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) também fez uma omelete no programa de Luciana Gimenez. Ontem, ela repetiu o prato na gravação da Ana Maria Braga. 

FERNANDA KRAKOVICS com Fábio Fabrini, sucursais e correspondentes.

GOSTOSA

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Sede ao pote
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 01/02/11

Pelo menos um dos quase 20 funcionários da Vale se apavorou durante o fim de semana, no acampamento da empresa perto da cidade de Kerouane, na Guiné. Algo como 150 locais cercaram o que ainda serão as instalações da mineradora exigindo emprego. E para provar que queriam isso de verdade, mataram os... búfalos que circulavam no local. Pudera. O índice de desemprego no país africano está na casa dos 70%. Indagada, a assessoria da Vale confirma o incidente, mas ressalta que eles não chegaram a fechar passagens. E que ontem tudo voltou à normalidade. A ex-estatal comprou no ano passado 51% da BSG Resources Guiné - que detém concessões de minério de ferro na Guiné. Por US$ 2,5 bilhões.

Dia agitado
Corre pelo meio televisivo que a Ongoing desistiu de comprar a parte de Marcelo de Carvalho na RedeTV!

Ídolo inconteste
Antes de sentir saudades, os fãs de Ronaldo tentaram garantir sua camisa 9. Nas últimas duas semanas, a rede de lojas Centauro correu para conseguir suprir a o aumento da demanda calculado em mais de 70%, em suas 189 lojas distribuídas pelo Brasil. É, imaginar que antes de anunciar sua decisão de deixar de jogar, Ronaldo estava mais próximo da história da Geni.

Reforma agráriaO último canto disponível para patrocinadores no uniforme do Santos está sendo disputado a tapa. O clube negocia espaço no calção com dois laboratórios farmacêuticos e empresa de telefonia. Uma soma que pode chegar a... R$ 5 milhões por ano.

Musas alvinegras
Neymar perdeu a vez. Foram as Sereias da Vila as escolhidas para ilustrar o calendário do centenário do Santos, que sai em abril.
As fotos devem revelar as qualidades escondidas por trás dos uniformes das meninas.

Sem secos

Marisa Orth foi o desfalque no desfile de anteontem da Acadêmicos do Baixo Augusta. Dalua, seu namorado, avisou que a "rainha da bateria" ficou presa trabalhando. Restou aos foliões cair na "água" ante a tempestade sobre SP. Acompanhando a música mais tocada... Chove, Chuva. Na voz de Simoninha.

Ainda doce
Até agora, a turbulência no Oriente Médio não afetou as exportações de açúcar do Brasil. "Trata-se de uma commodity de primeira necessidade e, portanto, a última coisa que cortam", contou ontem Rubens Ometto, da Cosan/Raízen. Para quem não sabe, 35% das exportações de açúcar brasileiro têm como destino a região.

Peteca alta
Mesmo sem Lixo Extraordinário ter levado o Oscar, a comunidade de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, não perdeu o rebolado. A festa, com 2.500 pessoas, durou toda a madrugada.

Faz tudo

Gloria Coelho ataca agora de designer de... objetos. A estilista foi convidada pela Bertolucci para criar luminárias inspiradas em suas peças de moda. O resultado será visto no dia 23 de março.

Tapete vermelho
Paula Barreto, produtora de Lula, o Filho do Brasil, quer o ex-presidente na estreia do filme em Nova York, dia 13 de maio. Tem encontro marcado essa semana para fazer o convite a Lula.

Do peito
Latino, atração principal do Camarote Recife Antigo, exigiu nada menos que... 29 passagens aéreas de São Paulo para Pernambuco. Além da equipe, levará sua turma para a folia. É, quem tem amigo tem tudo.

Na frente

Vik Muniz abre hoje sua exposição Relicário. No Instituto Tomie Ohtake.

Jorge Takla não pôde atender ao convite de Andrew Lloyd Weber para a estreia do musical O Mágico de Oz, hoje, em Londres. Perderá o reencontro do compositor com seu parceiro de longa data, Tim Rice.

O Unique Garden acaba de ser citado pelo guia inglês Condé Nast Johansens Luxury.

A equipe da produtora Sala 12, que dirige O Último Discurso, sobre dissidentes em Cuba, embarca agora, no começo do mês, para Miami. Lá, entrevistam cubanos que deixaram a ilha e concluem o documentário.

Iain Canning, um dos produtores de O Discurso do Rei, fez discurso, ao receber o Oscar, que agradou muito à militância gay. Ele agradeceu convictamente "ao namorado Ben" em alto e bom som.

ELIANE CANTANHÊDE

Ingleses e inglesas

ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SÃO PAULO - 01/03/11
Brasília - Além herdar o mesmo marqueteiro, João Santana, Dilma Rousseff está seguindo no mínimo uma lição do seu antecessor e padrinho: mantém um olho esperto no mercado e outro nos milhões de eleitores miseráveis que ainda habitam esse Brasil tão varonil e que está estreando a primeira mulher na Presidência da sua história.
Ontem, foi a vez de agradar aos tais mercados, ou seja, bancos, investidores e produtores. Foi para eles, às vésperas da reunião do Copom (o comitê definidor dos juros), que Guido Mantega (Fazenda) e Miriam Belchior (Planejamento) ratificaram os cortes inéditos de R$ 50 bilhões. A Bovespa subiu.
As piores tesouradas são, nominalmente, nos ministérios das Cidades (R$ 8,6 bi) e da Defesa (R$ 4,4 bi) e, proporcionalmente, nos do Turismo (R$ 3,1 bi) e dos Esportes (R$ 1.5 bi). As emendas parlamentares foram comidas em 70%.
A tesoura não perdoou o "Minha Casa, Minha Vida", carro-chefe do marketing de Dilma na campanha do ano passado. Serão cortados R$ 5,1 bi -40% do total previsto.
A oposição reage dizendo que os cortes são para pagar a "conta da campanha" de Dilma em 2010. Ou seja, para compensar a gastança de Lula para eleger a sucessora.
Segundo o PSDB, os cortes foram só virtuais, "para inglês ver". E o DEM insiste: nada poderia confirmar tão cabalmente a "farra" fiscal dos últimos anos do governo Lula.
Mas, se Dilma tentou mostrar ontem para os "ingleses" e mercados que é uma moça durona e rigorosa com as contas públicas, ela hoje vai assumir um outro papel: a de "presidenta" boazinha, "mãe dos pobres" -ou melhor, "das pobres".
Preste atenção nas fotos. Em Brasília, delegou aos ministros o pacote de maldades. Na Bahia, é ela, em carne e osso, quem anuncia um saco de bondades e o aumento do Bolsa Família para comemorar o dia da Mulher, 8 de março.
É ou não é o mesmo pacote lulista de popularidade?

MULÉ

ILAN GOLDFAJN

O discurso da presidente
ILAN GOLDFAJN

O Estado de S.Paulo - 01/03/11
O Discurso do Rei ganhou quatro estatuetas do Oscar, merecidas. O Rei George VI precisava discursar para preparar o Reino Unido para a 2.ª Guerra Mundial. Mas era gago, o que dificultava a tarefa. O filme soube transmitir magistralmente o drama do rei que não conseguia se comunicar. Em tempos difíceis é preciso se comunicar, não há escolha. Que o diga o governo brasileiro, que enfrenta um legado difícil - inflação crescente e vastas contas a pagar - e precisa desacelerar a economia para evitar o pior. O governo vai conseguir? Quanto esforço ele está fazendo de fato? Após dois anos de excessos, os analistas têm dúvidas. Cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça.

A inflação alcançou quase 6% no ano passado e caminha para ultrapassar o teto da meta 6,5% em algum momento deste ano. A subida vertiginosa dos preços de commodities no mundo atingiu a inflação no Brasil, que já vinha pressionada por um descompasso entre oferta e demanda mantido desnecessariamente por um período prolongado. O resultado é uma inflação que já está corroendo a renda dos trabalhadores. Como sabe bem o brasileiro, a inflação é um imposto regressivo, atinge de forma desproporcional os mais pobres.

Em economia não há almoço grátis. A bonança dos últimos dois anos será paga em pelo menos dois anos de esforço desinflacionário, no ritmo atual. Para quem tem ainda ilusões, dificilmente a inflação convergirá para a meta ainda este ano. Há a inércia da inflação do ano passado, que se transmite via reajustes indexados formal ou informalmente ao passado, e uma economia que vai demorar a desaquecer, pelo menos no setor de serviços, e vai continuar pressionando os custos e preços por algum tempo. A essa conjuntura doméstica se soma o aumento de preço de commodities, que ainda não se refletiu inteiramente nos preços ao consumidor (IPCA). Com esforço, a inflação recua para em torno de 6% ao final deste ano. Para 2012, mantendo o mesmo esforço, a inflação deve continuar recuando, mas não o suficiente para atingir plenamente o centro da meta, ficando um pouco acima, entre 4,5%, 5%.

Quanto maior o esforço inicial de combate à inflação, menos prolongado será o período de ajuste. Há um trade-off entre ajuste mais forte e mais prolongado. A dúvida é se haverá suporte prolongado para medidas impopulares (corte de gastos, salário mínimo, juros mais altos, menos crédito, etc.). A sociedade está preparada para o gosto amargo do período de ajuste (desemprego subindo, por um tempo)?

Apesar das dúvidas dos analistas, o governo tem tomado diversas medidas que visam a reequilibrar o crescimento entre oferta e demanda e a combater a inflação. Em primeiro lugar, a aprovação de um reajuste do salário mínimo para R$ 545, mantendo a regra previamente acordada para o salário mínimo, mostra disposição para evitar excessos e controlar seu impacto fiscal (principalmente via gastos maiores da Previdência). Isso vai durar pouco; no ano que vem a regra já resulta num aumento em torno de 14%.

Em segundo lugar, o anúncio do pacote de congelamento de R$ 50 bilhões do Orçamento mostrou determinação. Não será o suficiente para atingir a meta de superávit fiscal este ano (estimo 2,5% do PIB, abaixo da meta de 2,9%). Nem será suficiente para evitar que parte dos investimentos seja postergada. Contudo, gera a possibilidade de reduzir o crescimento dos gastos para cerca de 3% em termos reais, comparado com uma expansão média anual em torno de 9% nos últimos anos. É uma desaceleração considerável. Atualmente, considero a desaceleração da demanda e o combate à inflação as contribuições mais importantes da política fiscal para a economia brasileira.

Em terceiro lugar, há esforços no âmbito monetário. O Banco Central (BC) do Brasil já subiu a taxa de juros Selic, na primeira reunião do Copom, e sinaliza que deve continuar neste processo, inclusive nesta semana. O consenso era de um ritmo de 50 pontos-base de aumentos, mas há questionamentos se não é necessário acelerar o ritmo para 0,75 para assegurar que o processo inflacionário seja debelado sem se alongar em demasia e correr o risco de ser interrompido por fadiga do processo. A esse esforço monetário têm-se adicionado medidas macroprudenciais (leia-se aumentos de compulsório e requerimentos de capital) que retiram recursos do sistema e encarecem o crédito. O BC argumenta que essas medidas potencializam o impacto do aumento de juros, ao atingir a prestação mensal do indivíduo e incentivar a redução do consumo. Mas muitos temem que as medidas macroprudenciais sejam utilizadas como substitutas do aumento de juros, o que aumenta a incerteza do processo de combate à inflação (as medidas serão suficientes?). Além disso, tais medidas também têm seu custo, sob a forma de diminuição da intermediação e da postergação da convergência dos juros reais no Brasil para níveis internacionais. De qualquer forma, o esforço no âmbito monetário está em curso.

Apesar das medidas acima, permanecem dúvidas e sinais ambíguos. Há a desconfiança herdada do passado recente de descumprimentos fiscais e manobras contábeis, reforçada pelo crescimento considerável dos gastos no mês de janeiro deste ano. Além disso, o anúncio de capitalizações recentes de bancos oficiais chama à memória o expansionismo recente e pode pôr em xeque todo o esforço de contenção.

O governo precisa uniformizar sua atuação e seu discurso. Não há espaço para medidas expansionistas compensando medidas restritivas. É necessário que todas as medidas apontem para a mesma direção, a fim de conseguir debelar o sério problema inflacionário e permitir a volta de um crescimento sustentado. O governo tem de estar alinhado para comunicar claramente a direção. Não há espaço para cacofonia nem discursos conciliatórios com o expansionismo próprio de outrora. Tem de ser único o discurso da presidente.

ARNALDO NISKIER

O drama da avaliação
ARNALDO NISKIER
FOLHA DE SÃO PAULO - 01/03/11
O Ministério da Educação não tem estrutura adequada para efetivar uma fiscalização competente, que abranja as 27 unidades da Federação

Durante séculos, deixamos de considerar a avaliação como um fenômeno necessário na educação brasileira. De 20 anos para cá, no entanto, como pudemos verificar durante o tempo em que estivemos no Conselho de Educação, passamos a dar relevo à matéria, a começar pelo ensino superior.
Temos lembrança de um denso trabalho feito pelo então conselheiro Ib Gatto Falcão, sob o título "Avaliação continuada do ensino superior brasileiro", aprovado por unanimidade pela Câmara de Ensino Superior e pelo plenário do órgão normativo, que acabou depois dormindo nas gavetas do Ministério da Educação, como era hábito.
O assunto voltou com força, sobretudo nos últimos anos, na gestão do ministro Haddad, com a generalização dos procedimentos em todos os níveis de ensino.
Nesse assunto, o que tem acontecido é uma série de falhas (não é falta de sorte) na condução dos vários exames, com destaque para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que envolve mais de 3 milhões de jovens de ensino médio, o Enade (para o ensino superior) e o ProUni, hoje com mais de 1 milhão de inscrições no país inteiro.
Erros conceituais, além de um precário sistema de utilização dos recursos da informática.
Tudo isso tem gerado uma grande insatisfação por parte de usuários do sistema, alunos e professores, colocando em risco a sua necessária continuidade.
Entidades com a credibilidade de sindicatos patronais, como as confederações nacionais, vêm se debruçando sobre esses problemas -e disso resultou uma série de sugestões ao governo, de que daremos exemplos a seguir, para permitir o seu aperfeiçoamento.
Antes, convém frisar que o tema foi exaustivamente debatido em reuniões coordenadas pelo ex-ministro Ernane Galvêas, com sua imensa experiência de homem público. Está mesmo a merecer os reparos indicados: 1. O Ministério da Educação, num país de 190 milhões de habitantes, não tem estrutura adequada para efetivar uma fiscalização competente, que abranja as 27 unidades da Federação e um universo de quase 60 milhões de estudantes;
2. As provas do Enem demonstram que não há infraestrutura que isente o processo de erros lamentáveis e que não existe a conveniente inteligência tecnológica e logística;
3. Os exames devem ter menor periodicidade, e não serem feitos de forma anual;
4. A aventada ideia da criação da "Concursobras" é profundamente negativa, pois ativa a burocratização sem a garantia de resultados compatíveis com as nossas esperanças, além de envolver custos desnecessários;
5. Se a execução deve ser descentralizada, a elaboração das provas poderia ficar sob responsabilidade do Ministério da Educação;
6. Poder-se-ia acreditar uma universidade pública em cada unidade federativa como polo para aplicação das provas, como ocorre nos Estados Unidos da América. Dessa maneira se garantiria a necessária descentralização.

ARNALDO NISKIER, doutor em educação, é membro da Academia Brasileira de Letras e presidente do Ciee (Centro de Integração Empresa-Escola)/Rio de Janeiro.

GOSTOSA

EROS ROBERTO GRAU

Um panfleto anticlerical
EROS ROBERTO GRAU

O Estado de S.Paulo - 01/03/11
A crítica a certos atos não é necessariamente expressiva de repúdio a quem os tenha praticado. Ainda que a Procuradoria-Geral da República (PGR) inspire respeito enquanto instituição, a ação direta de inconstitucionalidade contra o ensino religioso, por ela patrocinada, é simplesmente imperdoável. Proposta em agosto de 2010, essa ação, imperdoável, está para ser julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Em novembro de 2008 o Brasil e a Santa Sé celebraram um Acordo Bilateral cujo artigo 11 estabeleceu que a República Federativa do Brasil deve respeitar a importância do ensino religioso, tendo em vista a formação integral da pessoa. Deve fazê-lo observando o direito de liberdade religiosa, a diversidade cultural e a pluralidade confessional do País. Além disso, o acordo afirma que o ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil.

Não há absolutamente nada de novo aí. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996, já definira que o ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental. E, mais, assegurava o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil e vedava quaisquer formas de proselitismo.

Daí que, para que a Procuradoria-Geral da República pudesse ir ao STF sustentar a inconstitucionalidade do acordo celebrado entre o Brasil e a Santa Sé, teria de, por imposição de coerência, sustentar a inconstitucionalidade da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Situação delicada, pois, embora tenha deixado passarem 14 anos de vigência dessa lei sem nenhum questionamento, a Procuradoria-Geral da República foi compelida, ao propor a ação direta de inconstitucionalidade, a contra ela investir. Não o fizesse, e resultaria injustificada a impugnação do acordo. Situação delicada. Bastou a sua celebração entre o Brasil e a Santa Sé para que à Procuradoria-Geral da República o ensino religioso passasse a parecer incompatível com a Constituição...

Assim, após 14 anos de inércia, a PGR pretende que o STF declare "que o ensino religioso em escolas públicas só pode ser de natureza não confessional, com proibição de admissão de professores na qualidade de representantes das confissões religiosas". Alternativamente, se o tribunal não concordar com isso, pede que seja declarada a inconstitucionalidade do trecho "católico e de outras confissões religiosas", no parágrafo 1.º do artigo 11 do acordo bilateral.

A Procuradora-Geral da República admite o ensino da religião como formação cultural. Mas a religião há de ser ensinada nas escolas, segundo ela, por professores "não confessionais", ou seja, por professores não vinculados a qualquer religião, sem religião.

A ação proposta pela Procuradoria-Geral da República aponta contra o acordo Brasil/Santa Sé e é, de fato, um panfleto anticlerical. Um panfleto no mínimo anticatólico.

Pois não há dúvida nenhuma de que a Constituição do Brasil garante em sentido amplo a liberdade de ensino religioso. Leia-se o parágrafo 1.º do seu artigo 210: "o ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental".

Essa liberdade é, como se vê, entre nós plenamente assegurada: a frequência é facultativa - os pais decidem a esse respeito, possibilitando, ou não, aos filhos formação espiritual - mas a disciplina é obrigatoriamente oferecida a todos os alunos.

Isso é muito próprio à cultura nacional, que a Constituição, para ser legítima, há de refletir. Somos plasmados, os brasileiros, também por uma religiosidade bem nossa, ao ponto de Deus ser brasileiro e os que aqui se proclamam materialistas em maioria não professarem o ateísmo. A laicidade do Estado não significa inimizade com a fé.

A Constituição do Brasil garante amplamente a liberdade de ensino religioso. É francamente avessa ao anticlericalismo. Promulgada "sob a proteção de Deus", como o seu preâmbulo afirma, não reduz a laicidade estatal a ateísmo. Proíbe ao poder público, é verdade, estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança - ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público (artigo 19, I). Mas seu artigo 213 autoriza expressamente o poder público a encaminhar recursos públicos a escolas comunitárias, confessionais ou filantrópicas. Seu artigo 150, inciso IV, b, assegura a imunidade dos templos de qualquer culto à instituição de impostos e o parágrafo 2.º do seu artigo 226 atribui efeitos civis ao casamento religioso, nos termos da lei.

Nossa Constituição, como se vê, recusa o anticlericalismo e, no parágrafo 1.º do seu artigo 210, garante a todos acesso ao ensino religioso. Ensino religioso é ensino ministrado por professores confessionais, observada a pluralidade confessional do País.

Não me excedo, por certo, ao insistir em que a Constituição torna obrigatório o ensino confessional, que, não obstante, será facultativo. A formação humana se completa na formação religiosa por livre opção dos pais. A liberdade de escolher é plena: filhos a cujos pais espiritualidade e religião nada significam não frequentarão a disciplina; aos demais o acesso a ela é assegurado pelo Estado. Insisto, sim, em que a liberdade de ensino confessional é aqui, em todos os sentidos, ampla.

A ação promovida pela Procuradoria-Geral da República é não apenas um panfleto anticlerical. Agride a própria liberdade, além de pressupor que um preceito da Constituição - o parágrafo 1.º do artigo 210 - seja inconstitucional...


PROFESSOR TITULAR APOSENTADO DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, FOI MINISTRO DO STF

CLÁUDIO HUMBERTO

“Não temos previsões para a aquisição de caças neste ano”
GUIDO MANTEGA, CONFIRMANDO NOTÍCIA DESTA COLUNA, DO DIA 15, NEGADA POR NELSON JOBIM

TEMER, O JURISTA, É AUTOR DO MÍNIMO POR DECRETO 
Especialista em Direito Constitucional, o vice-presidente Michel Temer foi o autor da ideia de incluir na lei que fixa a política para salário mínimo, o decreto da presidente Dilma Rousseff, que apenas a regulamentará. O valor do mínimo será a combinação do aumento do Produto Interno Bruto dos últimos dois anos com a inflação do ano anterior. Ele acha um equívoco a oposição contestar a lei no Supremo Tribunal Federal.

PARECER DEFINITIVO 
Deu segurança a Dilma, no auge da polêmica, um parecer de 47 linhas – ao qual esta coluna teve acesso– do constitucionalista Michel Temer.

NÃO HÁ USURPAÇÃO 
Para Temer, a lei do mínimo não usurpa atribuições do Legislativo: um projeto de deputado, por exemplo, pode modificá-la a qualquer tempo.

DECRETO, O CAMINHO 
Em seu parecer, Temer sustenta que se outra lei for implantada, o valor do salário mínimo (mero calculo aritmético) deve dar-se por decreto.

SEM ‘CUMPANHÊRO’ 
Pelo rol de “amigos” ditadores caindo pelo mundo, vai faltar convidado ilustre na inauguração do futuro Instituto Lula, em
São Paulo. 

TCU DECIDE ‘PRIVATIZAÇÃO BRANCA’ DOS PORTOS 
O Tribunal de Contas da União deve decidir nesta quarta se permitirá que continue a “privatização branca” dos portos, ao apreciar denúncia da Federação dos Portuários da omissão da Agência Nacional de Tansportes Aquaviários. A Antaq “fecha os olhos” enquanto portos privativos, de grandes empresas, faturam alto com cargas de terceiros, ilegalmente, estabelecendo concorrência desleal com portos públicos.

ABSURDO 
Os ministros Aroldo Cedraz e Raimundo Carrero tentam alterar o parecer do órgão técnico do TCU, que é contra a privatização branca. 

VIGILÂNCIA 
Portuários se mobilizam para assistir a sessão do TCU que vai julgar o do parecer que defende o respeito aos portos públicos.

NA MARRA 
Grandes empresas, como a Odebrecht, utilizam portos sem passar por licitações para funcionamento, como exige a legislação.

COMO MINEIRO 
Trabalha com o ministro Antônio Palocci (Casa Civil), com a discrição que o chefe aprecia, o provável sucessor de Solange Vieira na presidência da Agência Nacional de Aviação Civil: Marcelo Pacheco dos Guaranys, economista que já foi diretor da mesma Anac.

FRAQUINHO 
Até o Planalto ficou intrigado com a decepcionante estreia do senador Aécio Neves (PSDB-MG) como opositor, no “teste de fogo” da votação do novo salário mínimo. Ficou na bancada do “baixo clero” do Senado.

BELAS APOSENTADORIAS 
Os aposentados do Senado são mais iguais que os pobres aposentados brasileiros, esfolados pela Previdência: Jader Barbalho (PMDB-PA) embolsará R$ 19.240,65, Marco Maciel (DEM-PE) R$ 24.432,58 e Gerson Camata (PMDB-ES) R$ 26.723,13.

NOTÍCIA VELHA 
Como a coluna antecipou dia 15, os caças Rafale foram para o espaço com o corte de R$ 50 bilhões, confirmou o ministro Guido Mantega (Fazenda). Agora falta o “naufrágio” do projeto do submarino nuclear.

MICROAGENDA 
Sumido após o “gelo” da presidenta Dilma na tumultuada novela dos Rafale, o ministro Nelson Jobim (Defesa) deu ontem aula magna no Rio para futuros oficiais. Foi o único compromisso oficial na agenda. 

LULA NO JEGUE 
O bloco carnavalesco Jegue Empacado, de Ponta Negra, Natal (RN), convidou Lula para desfilar. Se não aparecer, ele será representado por um sósia fantasiado de macacão, faixa presidencial com a palavra “desempregado”, escudo do Corinthians e propaganda de cachaça.

FEITIÇO DO TEMPO 
É cruel ironia que o célebre autor de “tanto ver triunfar as nulidades” tenha agora sua Casa de Rui Barbosa, no Rio, presidida pelo sociólogo petista-stalinista Emir Sader, bajulador emérito do governo Lula. 

FAROESTE CARIOCA 
Projeto da vereadora Andrea Gouvêa Vieira (PSB) quer afastamento, suspensão do salário de preso por mais de 30 dias, e convocação do suplente em quatro meses. Deve ter suplente ouriçado com a ideia...

PENSANDO BEM... 
é de hospício, não de exílio, o problema de Gaddafi. 

PODER SEM PUDOR 
É GRANDE DEMAIS 
Certa vez, o falecido ex-deputado Luís Eduardo Magalhães mostrou-se irritado quando soube que o então deputado Heráclito Fortes (PFL), peso pesado do Piauí, fora destacado para o programa do partido na tevê. “Por que a irritação?”, indagou o senador José Jorge (PFL-PE).
– O povo brasileiro só tem televisão de 20 polegadas – explicou Luís Eduardo – e Heráclito só cabe nas de 29 polegadas...

BRAZIU: O PUTEIRO

TERÇA NOS JORNAIS

Globo: Os cortes de Dilma - Habitação popular perde quase metade das verbas
Folha: Funcionário do Estado negocia dados sigilosos
Estadão: EUA ameaçam usar a força e dizem que Kadafi deve sair já
Correio: Cortes atingem concursos de 2011 e moradia
Valor: BTG terá R$ 2,5 bi em crédito fiscal do PanAmericano
Estado de Minas: Serpentina fatal
Jornal do Commercio: Dilma suspende concursos e reajustes
Zero Hora: Governo federal suspende concursos até o final do ano

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

GUSTAVO CERBASI

O Estado mostra suas garras
GUSTAVO CERBASI
FOLHA DE SÃO PAULO - 28/02/11

Se o Brasil quer crescer, o Estado tem de encolher; na teoria, somos ricos; só falta colocar isso em prática


COMPLETADOS dois meses de um governo que se autorrotula como austero, as coisas andam como era de esperar. O debate do momento é sobre a volta da CPMF (o antigo tributo do cheque), supostamente justificada pela necessidade de arrecadação. Nas últimas semanas, o foco das atenções estava na contenção do aumento do salário mínimo e da correção da tabela para desconto do Imposto de Renda na fonte.
Dos debates já encerrados, a conta ficou para o contribuinte. Tanto o simbólico salário mínimo quanto a tabela do IR foram corrigidos abaixo da inflação, diminuindo o poder de consumo da população.
Não seria incoerente, se não vivêssemos um período de recordes na arrecadação de tributos, de formação de reservas e de autonomia dos cidadãos que nunca estiveram tão empregados quanto agora. Este deveria ser o momento de garantir o aumento definitivo do bem-estar da população, mas estamos sendo chicoteados pela incompetência. Agora, não é o caso de debater se a CPMF é justa ou não.
Ela seria justíssima, incidindo proporcionalmente ao volume de riqueza manipulado pelos cidadãos, não fosse a carga tributária geral tão elevada e a aplicação dos recursos tão ineficiente.
Gostaria de pagar 1% de CPMF em lugar dos tributos estaduais e federais que incidem em cascata e que saem muito mais caro. Gostaria de ser tributado em 50% de minha renda se pudesse matricular meu filho em qualquer escola pública sem preocupação, se pudesse ser atendido no SUS (Sistema Único de Saúde) sem risco de morrer na fila ou se pudesse andar em ruas seguras sem me disfarçar por trás das películas ilegais do meu carro.
O pior dessa situação é que não falta dinheiro. Ele sobra, mas é muito mal usado. Aliás, nunca poderá ser bem usado se não houver mudanças profundas na lógica de uso de recursos do Estado.
Empresas públicas e autarquias que ousam ser eficientes em suas contas são punidas com corte das dotações orçamentárias nos anos seguintes. O segredo para o gestor público ter dinheiro é ser ineficiente, gerar deficit, para poder pleitear aumento da mesada. É por isso que, por exemplo, por mais que se enterre dinheiro nos aeroportos, eles sempre serão essa vergonha.
Conversei com pessoas que se sentiram alarmadas ao ouvir dizer que o serviço aeroportuário funcionará com anexos improvisados para a Copa de 2014. Não entendi. Alguma vez os aeroportos deixaram de funcionar de improviso?
Quando o governo alega que está investindo a arrecadação em obras e infraestrutura, ele está abusando de nossa ignorância. Para projetos com prazo definido, o mecanismo de captação recomendado é a emissão de títulos públicos, com prazos de vencimento compatíveis com os prazos de obras -e não faltam investidores interessados em financiar as obras necessárias.
A arrecadação de tributos tem como objetivo custear os gastos do dia a dia do governo, e é aqui que o Brasil mais peca. Falta qualidade, faltam atendimento digno e tecnologia no serviço público, mas o número de servidores não para de crescer.
Onde eles estão? Mal alocados em serviços burocráticos e ineficientes, drenando nossos recursos sem muito agregar ao bem-estar da sociedade. Não defendo a demissão em massa de servidores, mas creio que um enxugamento de funções e a realocação de mão de obra para os serviços realmente necessários à população ajudariam a reduzir a necessidade de tributos.
Estamos sedados pelo hábito de aceitar a ineficiente condução do Estado mas, se o governo realmente se apresenta como austero, o momento é de mudança. A CPMF não é necessária. O aumento do salário mínimo não foi justo. A correção da tabela do IR também não será. Se o Brasil pensa em crescer, está na hora de o Estado encolher.
A sociedade civil está madura o suficiente para administrar bem os recursos que são desperdiçados pela má gestão pública. Na teoria, já somos ricos; só falta colocar isso em prática e lidar inteligentemente com o dinheiro que a economia gera.

LUIZ FELIPE PONDÉ

A ganância da honra

LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SÃO PAULO - 28/02/11

Que Deus me proteja de cair na tentação da ganância da honra. Aristóteles já dizia que a honra é uma virtude pública sedutora, mas impossível para quem a busca por si mesmo.

Sobre isso, revi o grande filme de Stanley Kubrick "Glória Feita de Sangue" (1957). Outro filme que recomendo é "A Cruz de Ferro" (1977), de Sam Peckinpah.

Ambos tratam da relação entre elite (oficiais) e plebe (soldado) -Kubrick na Primeira Guerra Mundial, Exército francês nas trincheiras, Peckinpah na Segunda Guerra, força armada alemã na frente russa.

No primeiro filme, o herói, o coronel Dax (Kirk Douglas), membro da elite francesa, se vê diante de uma trama na qual três de seus soldados são condenados injustamente à corte marcial e ao fuzilamento.

São acusados de covardia quando a missão para a qual tinham sido mandados era impossível. Não foram covardes, ficaram detidos pelas condições insuperáveis da batalha.

Mas a hierarquia queria mesmo era o sangue "do gado" para animar a moral das tropas, mostrando o valor da disciplina. O desprezo do coronel Dax pela elite do Exército é evidente, apesar de ser parte dela. O general em comando apenas queria uma promoção.

Segundo o general, o "povo francês" clamava pela sua dignidade, que deveria ser honrada com o sangue dos "covardes". "Povo francês" aqui nada mais é do que a retórica da opinião pública como instrumento de pressão. Confiar no "povo francês", como em sua elite, soará ridículo neste cenário.

No segundo filme, o herói, cabo Steiner (James Coburn), vindo da plebe, ganha várias cruzes de ferro por coragem sem dar valor a nenhuma delas ("só um pedaço de metal"), enquanto um capitão de família nobre prussiana, Stransky (Maximilian Schell), um covarde oportunista, cria situações para ganhar a cruz de ferro sem correr riscos.

O desprezo do cabo Steiner pela elite é também evidente, mas não é membro dela.

Em ambos os filmes, lembramos da tese do escritor russo Tolstói (em "Guerra e Paz") sobre guerras e batalhas (que fala da vida como um todo): um caos sem ordem, sem sentido, violência gratuita, a partir do qual, após a batalha, "reconstruímos o sentido" a fim de satisfazer qualquer ponto de vista, e, assim, contarmos "a" história.

Nutro profunda simpatia por esta teoria da história de Tolstói.

Os filmes seguem cursos diferentes. De certa forma, o filme de Kubrick vai mais longe do que o de Peckinpah na crítica ao modo como o mundo se organiza (sendo a guerra e o Exército em ambos apenas o cenário ideal para demonstrar suas teses).

Enquanto em "Cruz de Ferro" a coragem tem seu lugar (a medalha, apesar de o corajoso não dar valor a ela), em "Glória Feita de Sangue" a coragem é "invisível" para a hierarquia, que trata o herói Dax como um bobo idealista.

Onde está a coragem neste caso? Está na recusa do herói Dax da promoção que receberia como forma de acomodação ao status quo.

No filme de Peckinpah, ao final, Steiner arrasta o oportunista Stransky para o campo de batalha (já arrasado pelos russos), dizendo: "Vou mostrar a você onde crescem as cruzes de ferro" (isto é, diante do inimigo).

Já no filme de Kubrick não há espaço para essa ode última à coragem nas guerras, mas sim algo mais sutil: Dax, observando seus soldados à distância, quando urram num bar diante de uma "cantora" alemã (prisioneira de guerra), percebe como, de uma horda de bárbaros, eles passam à condição de homens tocados pela fragilidade da moça e pela beleza da música que ela canta, em meio às suas lágrimas de medo. Um dos maiores momentos do cinema.

Em ambos, vemos a ruína da ordem do mundo e seus mecanismos de produção da honra (representados pela hierarquia do Exército e seus sistemas oficiais de reconhecimento da coragem e da covardia).

Neste campo devastado, sobra a coragem de um homem solitário (Steiner) e a capacidade de um idealista aristocrático (Dax) de perceber um instante efêmero no qual feras se tornam homens. Ambos impermeáveis à ganância das honras.

Pouco importa a classe social -o que conta, ao final, é a virtude de cada um como modo de ação num mundo sem honra.