domingo, fevereiro 20, 2011

JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS

O crescimento é um processo de longo prazo
JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS

O ESTADO DE SÃO PAULO - 20/02/11


Em nosso último encontro, discutimos que o crescimento é, antes de tudo, um processo de longo prazo. Em todo o mundo, as regiões e países sempre vivem surtos de expansão, nem sempre duráveis. Entretanto, são poucos os lugares onde uma tendência sustentada de crescimento emerge entre as flutuações de prazo mais curto. Entender quais são as causas do sucesso, não apenas econômico, mas também social, tem exigido grande esforço dos economistas e de outros cientistas sociais.

Chamamos a atenção que o crescimento econômico resulta de causas comuns a todos os países, como a acumulação de máquinas e instalações, a incorporação de novos trabalhadores e a expansão do conhecimento de todas as formas. Entretanto, os casos bem-sucedidos também dependem de causas específicas, como a dotação de recursos naturais, a natureza das instituições, as questões culturais e a política econômica. Como resultado, não existe uma regra geral; ao contrário, o processo de crescimento nos países é construído penosamente ao longo do tempo, e resulta de uma peculiar combinação de processos e políticas gerais e específicas.

Queremos hoje chamar a atenção para uma coisa simples, porém fundamental: o sucesso passado não garante o sucesso futuro, isto é, países podem perder vantagens comparativas, vitalidade e até, viabilidade.

Para tanto, continuaremos a usar a mesma metodologia já usada no artigo anterior: o indicador de crescimento de longo prazo é apresentado como a proporção (%) do PIB per capita de cada região em relação ao dado americano para o mesmo ano. O período coberto vai de 1870 a 2008, último dado da série. A utilização do PIB americano como padrão reflete simplesmente o fato de que, neste período, a economia americana se tornou a maior do mundo. Os dados utilizados são os coletados pelo economista Angus Maddison e estão em dólares de 1990, no conceito da Paridade do Poder de Compra.

No gráfico 1, selecionamos três países latino-americanos: Argentina, Uruguai e Venezuela. Os dois primeiros países são casos clássicos, como Canadá e Austrália, de crescimento muito rápido a partir de meados do século XIX, tendo como motor a produção agropecuária destinada ao abastecimento europeu. O crescimento da renda gerado por esse processo, além dos investimentos em infraestrutura e educação, resultou num PIB per capita muito elevado, que se situou entre 70% e 80% do americano no começo do século XX.

É fartamente conhecido, por exemplo, que a cidade de Buenos Aires se tornou uma das cinco melhores do mundo por volta de 1910-20. Entretanto, a partir da Grande Depressão dos anos 30, esses dois países conheceram um longo processo de recuo na produção per capita até o início do século atual. A pesquisa disponível sugere, sem sombra de dúvida, que o persistente fechamento ao resto do mundo, a inflação e as recorrentes crises políticas retiraram todo o dinamismo do sistema, levando a vários colapsos externos. No caso argentino, o gráfico mostra que a recuperação econômica pós-moratória, tão admirada por alguns colegas, foi totalmente incapaz de recolocar o país numa trajetória mais sustentada de recuperação. As instituições, como educação e Judiciário, e até sua fantástica agropecuária estão encolhendo. O mundo do casal Kirchner começa em Santa Cruz e termina em Buenos Aires. O horizonte do país é cada vez mais estreito.

O Uruguai, entretanto, está se movendo, ligando-se cada vez mais ao dinamismo dos mercados brasileiros, buscando um grande salto educacional (creio que é o primeiro país do mundo a entregar um computador para cada criança na escola) e maiores laços com o resto do mundo, quebrando seu fechamento. Penosamente, pode voltar a crescer mais.

Do nosso terceiro caso falamos neste espaço em julho passado, num artigo denominado "A Venezuela rumo ao desastre".

O país nunca soube aproveitar adequadamente a bonança de seus recursos naturais, sendo um bom exemplo da maldição do petróleo. O que Chávez está fazendo é completar o serviço, e ainda terá tempo para destruir o que resta da economia e da democracia no país.

Em resumo, é sempre possível perder as chances de chegar lá e voltar para trás.

No outro extremo, mas igualmente perturbador, é o que parece começar a acontecer em outros lugares, onde um processo muito rápido e bem-sucedido de crescimento, a ponto de ser chamado de milagre e colocar certos países no rol dos desenvolvidos, perde a energia e é sucedido por uma estagnação sem horizonte para terminar.

Os casos mais vistosos dessa situação são o Japão e a Itália. É certo que a riqueza acumulada permite viver a estagnação com certa dignidade. Como me disse o dono de um restaurante em Verona, "a vida aqui ainda é muito boa". Entretanto, isso vai apenas até um certo ponto, pois as oportunidades para os jovens vão rareando e as tensões se acumulando, especialmente na área do emprego e do conflito regional. Em ambos os países, recorrentes crises políticas são causa e efeito da estagnação.

Como pode ser visto no gráfico 2, Japão e Itália sofreram muito com a Segunda Guerra. Entretanto, a partir de 1950, o crescimento disparou e o PIB atingiu níveis elevados.

No caso do Japão, a crise se instala com o estouro da bolha imobiliária e da Bolsa, em 1989. Desde então, um cenário deflacionário impera no país, com todos os problemas decorrentes dessa situação, como retração no consumo e no investimento. Uma queda recorrente no tamanho da população, seu envelhecimento (com o consequente déficit estrutural da previdência) e a resistência social à imigração só complicam o quadro. Sem ter onde investir, as empresas acumulam caixa (US$ 2,5 trilhões) e, num país onde a taxa de juros é zero, mais da metade das grandes corporações não tem dívidas!

Na Itália, o PIB per capita (como proporção do americano) já começa a cair a partir de 1980-85, queda que se acentua de 1995 em diante. Desde então, a produtividade da economia parou de crescer (em termos técnicos, a produtividade total dos fatores tem crescimento zero, desde então). Também nesse país, a dinâmica populacional é perversa e os imigrantes são discriminados. Assim como no Japão, reformas que poderiam dar mais dinamismo à economia não avançam. O sistema político não ajuda de forma alguma: basta pensar nos problemas recorrentes do primeiro-ministro e no fato de que o partido que mais cresce (Liga Norte) quer dividir o país em dois.

Encerro dizendo mais uma vez que crescimento é um processo de longo prazo e o desafio de transformar o país de forma sustentável ao longo do tempo é formidável, de todos e de mais de uma geração. Ademais, riscos e novas demandas, como equidade e meio ambiente, estão sempre a aparecer.

Para que se transformem em oportunidades, é preciso, antes de tudo, a vontade e a capacidade de mudar constantemente. Finalmente, é preciso ficar esperto, pois o crescimento nunca está garantido. Em qualquer ponto do processo, é sempre possível estagnar e até retroceder.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Dilma, fase 2
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 20/02/11

Com a votação do salário mínimo prestes a ser concluída e os cortes orçamentários já em fase de detalhamento, Dilma Rousseff vai inaugurar nova etapa de sua Presidência. Encerrado o "ciclo de organização", como define um auxiliar, ela deverá "aparecer mais". Reuniões internas perderão parte de seu espaço na agenda para eventos públicos, viagens e entrevistas.
Além do Fórum de Governadores do Nordeste, amanhã, Dilma irá a Salvador no início de março. Os políticos, que começavam a reclamar da reclusão da presidente, ganharão um pouco mais de atenção. No horizonte, os cem dias no cargo, que devem coincidir com as primeiras pesquisas de popularidade.


A hora da estrela 

O PT fechará nos próximos dias um novo contrato com João Santana. O marqueteiro da campanha eleitoral de Dilma assinará as inserções da sigla que irão ao ar a partir de 30 de abril e terão a presidente como protagonista.

DDD 
Dilma permanece em contato com Lula. Nos dias que antecederam a votação do mínimo, falou com o ex-presidente por telefone.

Abaixo de zero 
De um deputado petista sobre os colegas Fernando Ferro (PE), Edson Santos (RJ) e Weliton Prado (MG), que viajaram à Antártida em vez de votar a favor dos R$ 545 e agora enfrentam a ira do Planalto: "Esses fugiram de uma fria e entraram numa gelada".

Para começar 
Quem pergunta a petistas de São Paulo qual será o nome do partido na eleição para a prefeitura da capital ouve, antes de outras considerações, uma resposta-padrão: "Primeiro precisa ver como vai acabar a novela do Serra".

Convicções 
Nove entre dez petistas locais acreditam que o tucano, não obstante a falta de desejo e as reiteradas negativas, acabará sendo candidato a prefeito em 2012. Já Serra está convencido de que Lula será candidato a presidente em 2014.

Água... De início crítico à nomeação de Aloizio Mercadante, pois Ciência e Tecnologia não deveria "virar prêmio de consolação para quem perdeu a eleição", o neurocientista Miguel Nicolelis mudou de tom depois de aceitar convite do ministro para presidir a Comissão do Futuro. No Twitter, além de elogiá-lo, passou a torpedear o governo tucano de São Paulo, alvo do petista na campanha de 2010.

...e vinho 
De Nicolelis, sobre as chuvas na capital: "Os desmandos dos últimos 20 anos estão levando SP ao limite! Até quando?".

Marronzinhos 1 
A Aeronáutica acaba de implantar no Rio sua Junta de Julgamentos, responsável por fiscalizar infrações de tráfego aéreo. Cabe ao colegiado multar e apreciar recursos de pilotos que transgridam as normas de segurança. A tarefa era da Anac até o ano passado, mas decreto de Lula transferiu a atribuição ao Decea (Departamento de Controle do Espaço Aéreo).

Marronzinhos 2 
O grupo já se reuniu duas vezes e continua amanhã a analisar o primeiro pacote de irregularidades relatadas. Vizinhos dos aeroportos que flagrarem manobras de risco podem denunciá-las à base de operação local. Pelos prontuários de voos é possível identificar responsáveis.

Psiu 
O novo presidente dos Correios, Wagner Pinheiro, proibiu os diretores de transmitir informações à imprensa sem seu conhecimento prévio. Qualquer demanda deve ser encaminhada à assessoria da empresa, que só pode atender depois do sinal verde de Pinheiro.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

Tiroteio

"Se havia alguma dúvida sobre seu destino político, Kassab mostra que já tomou partido: está do lado da truculência e cada vez mais distante da população."
DO VEREADOR PAULISTANO CHICO MACENA (PT), sobre a reação da prefeitura e da Polícia Militar às manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus.

Contraponto

Na galeria

Em visita à Prefeitura de São Bernardo, onde voltou a morar, Lula observou sua foto oficial de presidente na parede do gabinete do correligionário Luiz Marinho, que administra a cidade desde 2009. Dando pela ausência de outra foto, reclamou:
-Ué, cadê a Dilma?
Constrangido, Marinho tratou de explicar:
-Ainda não recebi a foto oficial. Mas, quando chegar, preciso verificar onde vai ficar. Porque o lugar do seu retrato aqui é cativo e "imexível".

PLANO PARAÍSO

MERVAL PEREIRA

Que tipo de voto?
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 20/02/11
A partir de terça-feira vai começar uma nova batalha entre PT e PMDB no Congresso, na Comissão do Senado presidida pelo senador Francisco Dornelles, do PP do Rio, que vai debater a reforma política. A disputa básica é entre o voto em lista, com financiamento público de campanha, defendido pelo PT, e a adoção de uma espécie nativa de voto distrital, o "distritão", que tem o apoio do vice-presidente Michel Temer.

No voto em lista, o partido escolhe os candidatos, os coloca em uma ordem de preferência, e o eleitor vota na legenda partidária. Serão eleitos os primeiros da lista, até preencher o número de cadeiras a que o partido tem direito pelo quociente eleitoral.

Já no "distritão", cada estado transforma-se em um imenso distrito eleitoral. Se um estado tem direito a eleger 40 deputados, os 40 mais votados entram na Câmara.

Com mais de 3 mil projetos de reforma política já apresentados, e cerca de 5 mil pareceres, o problema dos senadores será chegar com objetividade a até 10 tópicos relacionados com a reforma política, e discutir quais são os pontos em que é possível chegar-se a uma proposta.

Dornelles presidirá a comissão com uma certeza: "a única coisa que é impossível na política brasileira é prever o que vai acontecer".

Voto majoritário para deputado é a grande novidade que está em discussão, o chamado "distritão", uma ideia antiga do senador Dornelles, que foi encampada pelo vice-presidente Michel Temer.

Os defensores da mudança consideram que a maioria das distorções do sistema político-eleitoral brasileiro pode ser atribuída ao voto proporcional, e o temor é que se não for aprovado o voto majoritário, cada partido na próxima eleição vai ter que escolher um Tiririca.

A origem do "distritão" já mostra como é difícil chegar-se a um consenso: a impossibilidade de se chegar a um acordo para a definição dos distritos para a adoção do voto distrital, sistema eleitoral considerado o ideal, na teoria, pela maioria dos políticos.

Já houve época em que a solução para tentar aprovar o voto distrital era a adoção da modalidade mista, onde metade dos deputados seria eleita por distritos, e outra pelo sistema proporcional que hoje vigora.

A mudança sempre empacou na definição do critério: divisão geográfica ou populacional?

A impressão generalizada é de que os senadores não sairiam do lugar tão cedo.

Quais seriam as vantagens do "distritão"? Primeiro, acabaria com a possibilidade de o eleitor votar em um candidato e eleger outro, a grande crítica ao sistema proporcional em vigor.

Também não haveria mais a necessidade de escolha do que chamam de "figuras atípicas", que os partidos colocam na chapa para ganhar votos de legenda e assim terem mais chances de eleger mais candidatos.

Como é que hoje se faz na prática uma campanha eleitoral? Um partido tem que apresentar 70 candidatos, e começa a juntar pessoas que tenham dois, três mil votos para compor o voto de legenda.

Foi assim que os "evangélicos" e radialistas começaram a ser requisitados pelos partidos, e ganharam importância na política brasileira.

Tiririca é um fenômeno decorrente dessa situação, na esteira dos Enéas da vida.

Há também a figura do "dono" de um partido pequeno, que geralmente tem uns 20 mil votos e não deixa entrar no "seu" partido candidato que tenha mais voto do que ele.

Enche a legenda de candidatos de dois, três mil votos e se elege com aqueles 20 mil votos, enquanto um candidato com 90 mil votos é derrotado.

Os defeitos que podem ser vistos no "distritão" existem hoje também no sistema proporcional, como a perda do conceito partidário, o que o voto em lista teoricamente resgataria.

Mas hoje, alegam os defensores do "distritão", o voto já é dado mais na pessoa do que no partido. Além do mais, no "distritão", é possível haver fidelidade partidária para garantir que aquele candidato não vai deixar a legenda pela qual concorreu.

O PT defende o voto em lista, mas se continuar prevalecendo o sistema proporcional para a eleição do deputado, ele não evitará o que existe hoje.

Um partido pode colocar um Tiririca na cabeça da chapa e sair fazendo campanha: "Tiririca é 11".

O voto majoritário para deputado prevalece nas grandes democracias do mundo - Estados Unidos, Inglaterra, França - onde a eleição é pelo sistema distrital.

Michel Temer está querendo que o PMDB apoie o "distritão", o PTB e o DEM já fecharam, o PSDB defende o distrital puro e pode se aproximar do "distritão" como um primeiro passo até que se consiga um consenso sobre a divisão dos distritos em cada Estado.

A questão do PT é que eles têm muito voto de legenda, e o voto em lista o beneficiaria em tese. Mas os defensores do "distritão" estão tentando convencer os dirigentes petistas de que a implantação do "distritão" não prejudicaria o PT, mas sim os partidos nanicos.

O fim do voto proporcional também ajudaria na seleção dos partidos que funcionam no Congresso, reduzindo seu número.

O voto em lista tem uma dificuldade básica para ser aprovado: ele retira do eleitor a possibilidade de votar diretamente no seu candidato preferido.

Há no Congresso a suspeita de que tamanho ardor da direção petista para aprovar o voto em lista está ligado a um interesse maior, que seria o de aprovar o financiamento público de campanha, também outro assunto impopular.

Como a defesa do PT no processo do mensalão que está para ser julgado pelo Supremo se baseia na tese de que o que houve mesmo foi a utilização do caixa 2 na campanha eleitoral, o PT, com a aprovação do financiamento público, estaria na verdade enviando ao STF o recado de que o problema já estaria resolvido, sem necessidade de punição por um erro que teria sido causado pela própria legislação eleitoral em vigor.

Outro assunto importante para a comissão é a reeleição. Já existe um consenso: ela só pode acabar para o candidato eleito em 2014, porque não pode ter efeito retroativo. Assim, a presidente Dilma Rousseff teria condições de se candidatar à reeleição, assim como os atuais governadores e prefeitos no primeiro mandato.

Os mandatos do presidente, dos governadores e prefeitos seriam de cinco anos, mas o problema é o mandato de deputado e senador. Há a sugestão de acabar com a coincidência de mandatos, separando eleição federal da estadual: uma para presidente da República, senador e deputado federal e outra de governador, prefeito, deputado estadual e vereador.

SUELY CALDAS


O modelo BC nas agências

SUELY CALDAS
O ESTADO DE SÃO PAULO - 20/02/11
Mais dois funcionários de carreira foram escolhidos para a diretoria do Banco Central (BC). O economista Altamir Lopes e o contador Sidnei Corrêa Marques juntam-se a Alexandre Tombini para compor a nova diretoria colegiada da gestão Dilma Rousseff, até agora integrada unicamente por funcionários experientes, de longa trajetória no BC. A escolha obedeceu a critérios exclusivamente profissionais, técnicos e meritórios. Nenhum dos três foi apadrinhado por caciques do PMDB ou do PT, tampouco alvos de disputa político-partidária.

Como, de resto, deveria acontecer com todo o segundo escalão da administração pública. Mas não é essa a realidade, e quem passou pelos governos de Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva argumenta ser impossível governar e conseguir apoio dos partidos políticos em matérias votadas no Congresso sem, em troca, conceder favores, emendas ao orçamento e nomear apadrinhados. Se alguém imagina que a conduta do PMDB na votação do salário mínimo, na quarta-feira, desmente essa sentença, espere a (salgada) conta quando Dilma Rousseff reabrir a temporada de indicações para as estatais.

Até certo ponto a sentença é verdadeira e é seguida em outros países democráticos com regimes de representação política. Mas, no Brasil, ela é aplicada com enorme exagero, sem nenhum cuidado de proteger a boa gestão pública - focada na população, no cidadão comum -, em contraposição a outra, voltada a atender interesses partidários. Ao receber o apoio e a confiança de mais de 55 milhões de eleitores (caso da eleição de Dilma Rousseff), o presidente da República passa a ter a obrigação de zelar por essa boa gestão, trazer pessoas capacitadas, criativas, com qualidades de honradez e caráter. Mas, infelizmente, a cada troca de governo o País presencia o deplorável espetáculo do loteamento político de cargos, protagonizado pelos caciques de sempre brilhando na ribalta, indicando seus protegidos e dando a eles a missão de operar em favor do partido e contra o País.

O isolamento do BC da mesquinha disputa por cargos começou no governo FHC, numa conjuntura em que era absolutamente imprescindível proteger o Plano Real e a nova moeda da fúria da inflação descontrolada que, por mais de três décadas, arruinou nossa economia. Primeiro presidente do BC de FHC, o economista Pérsio Arida argumentou com o então presidente ser absolutamente indispensável isolar a diretoria do BC do jogo político e dar a ela autonomia de ação e gestão para fazer o que fosse preciso para preservar o real. Não conseguiu a autonomia em lei, mas, em seus oito anos de governo, FHC respeitou o trato com Arida e não interferiu nem na composição da diretoria nem em suas decisões. Nem quando o BC decretou intervenção no Banco Nacional, em 1995, que resultou em inquérito policial e bloqueio dos bens dos proprietários (a família Magalhães Pinto), o que prejudicou diretamente sua nora, herdeira do Nacional.

Ao assumir a Presidência, em 2003, Lula ouviu de seu presidente do BC, Henrique Meirelles, o mesmo trato de Arida. Concordou, respeitou, manteve diretores nomeados por FHC, não influenciou na escolha dos novos e não interferiu nem quando sua sagrada popularidade dependia da queda dos juros. Mas, como FHC, não enviou projeto ao Congresso formalizando autonomia do BC em lei.

Agências reguladoras. O BC é parte de um conjunto de agências reguladoras às quais os governos delegam a função de regular e fiscalizar empresas privadas e estatais de setores que prestam serviços ao público. O BC atua no setor financeiro como a Aneel, em energia elétrica; a ANP, no setor petrolífero; a Anatel, em telecomunicações; a ANA, em recursos hídricos; a ANTT, em transportes terrestres; a ANS, em saúde; a ANAC, em aviação civil; a Anvisa, em vigilância sanitária; e a Ancine, em cinema. Para exercer sua função com a competência que a regulação desses setores requer, a agência precisa ter autonomia de ação e decisão e seus diretores, mandatos que os protejam contra retaliações de natureza política. É essa a receita para diretores da agência não temerem punições ao tomarem decisões que contrariem pedidos e recomendações de ministros, governadores e parlamentares. Assim funciona em todos os países que levam a sério a democracia.

Mas no Brasil este modelo só é aplicado no BC. As demais agências sofrem interferências indevidas de toda a classe política. Da escolha de seus diretores, sempre disputada pelos partidos, até corriqueiras decisões em favor de determinada empresa amiga de um governador, parlamentar ou prefeito. Ao BC, a autonomia foi concedida em clima de vida ou morte à inflação, que antes sempre voltava em seguida a cada plano de estabilização. Para destruir a inflação, o Plano Real precisava provar ao mercado financeiro que a decisão de isolar o BC de influências políticas era pra valer, não tinha volta. Foi assim que o governo FHC neutralizou as especulações que nascem de dúvidas. E o mercado vive aproveitando cada brecha de dúvida ou falta de seriedade do governo para especular e ganhar dinheiro com oscilação de preços de ativos. Agora mesmo, não acreditou no corte de gastos de R$ 50 bilhões, porque não viu seriedade no seu cumprimento. Assim é no mundo inteiro. Cabe aos governos saberem se defender, não deixar brechas e criar antídotos contra ataques do mercado.

Manter o BC longe de influências políticas foi extremamente positivo para o Brasil e seu povo. Passados 16 anos, é hoje uma prática consolidada. Políticos poderosos - governadores, presidentes do Senado, da Câmara ou de partidos - não se aventuram mais a indicar esse ou outro nome para o BC. Nem mesmo o presidente da República, a quem cabe a escolha, ousa entregar o cargo a um amigo, alguém que não seja respeitado e reconhecido como competente e sério no mercado. Como fez o ex-presidente José Sarney, que nomeou e foi obrigado a demitir o amigo Elmo Camões, envolvido em escândalo financeiro no caso do especulador Naji Nahas.

Ao reiniciar as nomeações do segundo escalão, se Dilma Rousseff conseguir levar a ferro e fogo a experiência do BC para as demais agências e despolitizá-las, torná-las autônomas, nomear diretores por critérios de seriedade, competência técnica e probidade e mantê-las longe da troca de favores da classe política, ela dará um salto de enorme avanço político ao País e à democracia.

GOSTOSA

ALBERTO TAMER

Há mais petróleo, mas não se sabe quanto
ALBERTO TAMER
O ESTADO DE SÃO PAULO - 20/02/11
Notícias promissoras no pré-sal surgem quase todos os dias. Poços revelam maior potencial, novas reservas são descobertas, mais investimentos chegam do exterior, cresce a produção, que bate recordes. É uma série de informações isoladas que revelam um cenário petrolífero que jamais teria sido imaginado há alguns anos.

Atendendo à sugestão de leitores, muitos dos quais empresários, estudantes de economia, finanças e até mesmo de geologia, a coluna resume dados oficiais ou não, que revelam estarmos apenas no início de um processo que levará o Brasil, em dois ou três anos, à autossuficiência no abastecimento do petróleo e derivados, com a entrada em operação de novas refinarias.

São dados que a coluna promete ir atualizando à medida em que forem confirmados e permanece à disposição dos leitores para mais informações.

Pré-sal e pós sal. Com a produção do primeiro sistema definitivo, que começou no fim de 2010 com 15 mi barris por dia, a produção do pré-sal chegou a 65 mil barris diários, considerando a fase de testes de longa duração. Esse primeiro sistema vai atingir 100 mil barris por dia até o fim do ano.

Pelas descobertas feitas até hoje, as reservas recuperáveis em barris equivalentes de petróleo e gás, nessa área, estão estimadas em 16 bilhões de barris, o que significa dobrar as reservas atuais da Petrobrás. É o começo porque, da área total do pré-sal, de 149 mil km², apenas 28% estão sob concessão em fase de exploração. Pode-se projetar o que espera em termos de descobertas quando forem prospectados os 107 mil km² que ainda não estão sendo explorados. Provavelmente, serão muito mais de 50 bilhões de barris.

Autossuficiência parcial. Ela de fato não existe. O Brasil já é autossuficiente na extração de petróleo, produz 2 milhões de barris por dia e consome 1,9 milhão. Mesmo assim, hoje ainda precisa importar alguns derivados, como diesel, GLP e nafta química que as refinarias existentes no país não destilam. Foram construídas para refinar petróleo leve que só agora se descobriu na Bacia de Santos.

A autossuficiência deverá vir nos próximos dois anos, quando duas refinarias, uma no Rio de Janeiro (Comperj) e outra em Pernambuco (Abreu e Lima) começarão a produzir aqueles derivados que o País importa hoje.

Mais consumo e produção. Nas análises de mercado, que constam do Plano de Negócios, a Petrobrás prevê que o consumo interno de derivados deverá aumentar em torno de 5% ao ano. Isso significa uma demanda de 2.354.000 barris por dia em 2014 e 2.794.000 em 2020. Se for mantido o atual comportamento do mercado, que vai depender das taxas de crescimento do PIB, esse consumo será atendido pela produção da Petrobrás de 2.980.000 barris por dia em 2014. É importante assinalar que, desse total, 241 mil barris por dia virão da exploração inicial do pré-sal.

Dependendo de ajustes técnicos, condições do mercado petrolífero internacional e da evolução da produção interna - que pode surpreender positivamente -, o Brasil poderá aumentar as suas exportações de petróleo ao mesmo tempo em que reduz a de derivados.

Será um resultado altamente positivo, principalmente porque está sendo conquistado em apenas 5 anos. Isso tem levado o presidente da empresa, Sergio Gabrielli, a dizer que a Petrobrás está fazendo em 5 anos o que não pode fazer em 56 de existência em produção e reservas. Isso decorre de uma nova estratégia dos investimentos.

O que mudou? Tudo. Absolutamente tudo, com destaque especial aos investimentos. Uma quase revolução. Vejamos.

Em 1997, quando se quebrou o monopólio, a empresa investiu R$ 4 bilhões. Em 2010, foram quase R$ 90 bilhões e, até 2014, serão mais de R$ 400 bilhões. Em 2010, nada menos que R$ 244 bilhões. Mais da metade dos investimentos por parte desses novos investimentos está se concentrando em exploração e produção. Como resultado, houve o aumento da produção e foram descobertas novas reservas que compensam o aumento do consumo sem onerá-las. É uma situação especial no cenário petrolífero mundial, no qual a maioria das grandes empresas privadas ou de capital aberto vem sofrendo queda de produção e reservas.

Tributos, R$ 600 bilhões. O desenvolvimento do setor nos últimos anos, após o período de mercado aberto, elevou em 100% o pagamento de tributos da estatal para a União. Proporcionou um aumento superior a 100% no pagamento de tributos, entre 1998 e 2010. Excluindo os encargos sociais, foram arrecadados pela União, Estados e municípios, nesse período, cerca de R$ 600 bilhões. Soma-se a este valor a distribuição de royalties sobre a produção aos Estados e municípios, que superou os R$ 100 bilhões, desde 1998. Vai ser mais, muito mais, quando o pré-sal aumentar sua produção.

Desafios? Os tecnológicos estão sendo bem enfrentados de forma a reduzir os custos e riscos ambientais. Os financeiros, também. Se existe um desafio é o de persistir nessa linha, que o novo governo já aprovou. Antes de só pensar, como no passado, em vender derivados porque dá lucro e não apresenta risco, é investir em pesquisa, tecnologia e produção. É o que está dando certo. É só fazer mais porque ninguém sabe quanto há de petróleo ainda por descobrir nas costa do Brasil. Um segredo que só se desvenda investindo intensamente. A Petrobrás e as empresas privadas já estão fazendo isso, com sucesso. Mas é só o começo.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Funcef investe R$ 170 milhões em imóvel e negocia fundo com Petrobras
MARIA CRISTINA FRIAS

FOLHA DE SÃO PAULO - 20/02/11

A Funcef (fundo de pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal), o terceiro maior do país, vai investir em mais um empreendimento imobiliário em São Paulo.
O projeto, que deverá ter um investimento de R$ 170 milhões, englobará duas torres comerciais na Chácara Santo Antônio (zona sul).
"Alocamos cerca de 8% dos recursos em imóveis, o que tem dado excelente resultado. Nossa carteira de imóveis fechou o ano com R$ 3,2 bilhões", diz o presidente da Funcef, Guilherme Lacerda. Cerca de 35% dos investimentos no setor estão em 16 shopping centers.
A Funcef, que tem participação em 140 empresas e mais de 30 fundos, negocia com a Petrobras e a Petros (fundo de pensão da companhia), a criação de um FIP (Fundo de Investimento em Participações) para comprar e alugar sondas.
"Serão sete sondas, um investimento de R$ 4,6 bilhões", segundo Lacerda.
A Funcef também atua na área de reflorestamento. Negocia a fusão da Eldorado Florestal, produtora de celulose, da holding da JBS Friboi e do empresário Mário Celso Lopes, com a Florestal Brasil, de reflorestamento. Nesta, a Funcef é acionista juntamente com a Petros e o fundo Vitória Asset Management, além dos dois sócios da Eldorado Florestal.
"Há ainda uma negociação que envolve Vale Florestal, Funcef, Petros e BNDESPar, um negócio de cerca de R$ 600 milhões", afirma.

O QUE ESTOU LENDO

Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente

"Indignez-vous!" ("Indignai-vos"), de Stéphane Hessel, é um dos livros que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) lê atualmente. "É uma espécie de manifesto ao despertar da consciência em prol da luta pela democracia e pelos direitos humanos, em especial, a questão palestina", diz. "É ainda mais admirável pelo fato de ter como autor o diplomata franco-alemão Stéphane Hessel, que lutou contra os nazistas, foi coautor da Declaração Universal dos Direitos Humanos e, apesar de seus 93 anos, mantém um ânimo inabalável na defesa de seus ideais."

INDIGNEZ-VOUS!
de Stéphane Hessel
EDITORA Indigène Editions
NÚMERO DE PÁGINAS 32
QUANTO R$11,58
GÊNERO Ensaio

"INTERVENÇÃO" NO BC


O governo federal pretende fazer uma "intervenção" no Banco Central. Nada a ver com a política monetária, diga-se logo.
A ideia é levar quadros do BC para fazer uma grande exposição comemorativa do Dia da Mulher, em março A mostra, na qual a presidente Dilma Rousseff tem demonstrado interesse pessoal, terá apenas obras de mulheres como Tarsila do Amaral, Djanira e Lygia Clark.
O Banco Central tem, pelo menos, quatro quadros de Tarsila do Amaral que poderiam ser cedidos.
O Executivo brasileiro quer também uma das telas mais conhecidas da modernista, "Abaporu" (1928), que está no Museo Malba, de Buenos Aires. Segundo a assessoria da instituição argentina, "o governo brasileiro solicitou informações sobre como fazer o pedido de empréstimo formal do quadro".
O interesse no importante acervo do Banco Central vai além da exposição.
A presidente gostaria que algumas obras fossem transferidas de vez para o Palácio da Alvorada, onde teriam maior visibilidade.


com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK, VITOR SION e ANDRÉA MACIEL

BRAZIU: O PUTEIRO

CELSO MING


Descomplicar a reciclagem

CELSO MING
O ESTADO DE SÃO PAULO - 20/02/11
Quando se fala em reciclar o lixo, logo vem à cabeça aquela fileira de lixeiras coloridas. Tem verde, vermelha, a azul e amarela, e ninguém sabe ao certo em qual colocar o quê. Em qual delas vai papel usado?

Esse sistema está sendo fortemente questionado. A novidade é que em boa parte dos países avançados a separação se faz em apenas dois tipos de lixo: o que é reciclável e o que não é; o lixo seco e o lixo molhado.

Não faz mais sentido separar os resíduos por tipo de material. Isto é, ter uma lixeira para o plástico, outra para o papel, mais uma para o vidro, outra mais para as latinhas de alumínio, sem falar no recipiente para colocar os restos de comida.

"A separação por materiais é uma bobagem. Não sei quem inventou essa história de cor pra lá, cor pra cá", avisa Maurício Waldman, autor do livro Lixo: cenários e desafios. Um grande número de embalagens, como a TetraPak, é um conglomerado de vários materiais: plástico, cartolina, alumínio. Para onde vai isso? E será que vale a pena lavar garrafas e recipientes de suco de frutas quando se sabe que é preciso pelo menos dois copos de água tratada para se limpar um copo sujo? Ou economizar água também não é procedimento ecológico?

Para Waldman, o correto seria juntar tudo que é reciclável num mesmo balaio. A separação deve ser processada nos centros de triagem, onde haverá mais conhecimento e recursos para separar os resíduos. Só em papéis e papelões, a triagem deve prever 14 tipos diferentes. Não há dúvidas de que a simplificação do processo incentivaria mais gente a separar o lixo.

O Brasil produz cerca de 154 mil toneladas de lixo por dia, das quais somente 12% são reaproveitados - três vezes menos do que na Alemanha e na Suécia, referências no tema. Levantamento do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre) mostra que apenas 443 municípios (8% do total) têm algum programa de coleta seletiva de resíduos (veja gráfico).

Apesar dos números inexpressivos, o momento nunca foi tão promissor. Em agosto passado foi sancionada a lei que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Ela cria um marco regulatório e trabalha com o conceito de responsabilidade compartilhada.

Isso significa que todas as unidades da cadeia produtiva são responsáveis pelo lixo que produzem: sociedade, empresas, prefeituras e governos estaduais e federal. A lei define também que até 2014 os municípios estão obrigados a trabalhar com coleta seletiva e acabar com os lixões, onde os resíduos são despejados sem nenhuma triagem anterior.

"A perspectiva agora é de que o setor se profissionalize e comece a ser visto como uma oportunidade de negócio", explica Carlos Silva Filho, diretor executivo da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Segundo um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o País perde R$ 8 bilhões por ano quando deixa de aproveitar os resíduos recicláveis que estão disponíveis.

Mas, para que a coisa avance, parece indispensável acabar com a excessiva separação doméstica e adotar o mais rapidamente possível a divisão em apenas dois tipos de lixo. /COLABOROU ISADORA PERON

São os catadores

Não dá para falar em reciclagem de lixo sem mencionar o trabalho dos catadores. Apesar de muitas vezes só serem notados quando "atrapalham" o trânsito com seus carrinhos, eles desempenham papel importante nesse processo.

Trabalho notável

Hoje há mais de 800 mil pessoas exercendo essa atividade no Brasil. Estima-se que cada um deles recolha por dia 500 quilos de materiais. De acordo com Carlos Silva Filho, diretor executivo da Abrelpe, entre 60% e 70% do lixo no País só é reciclado graças ao trabalho realizado pelos catadores.

Parte da história

A Política Nacional de Resíduos Sólidos faz 11 referências à participação dos catadores no País. A intenção é integrá-los ao sistema e oferecer condições mais dignas de trabalho. "A lei nos dedicou um capítulo inteiro. Isso quer dizer que fazemos parte desta história", diz Roberto Laureano, presidente do Movimento Nacional dos Catadores de Resíduos.

ILIMAR FRANCO

Polêmica à vista 

ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 20/02/11

A revisão do fator previdenciário, implantado no governo Fernando Henrique, é uma das metas da gestão do ministro Garibaldi Alves (Previdência). Apesar disso, não há consenso no governo Dilma sobre o tema. No governo Lula, o senador Paulo Paim (PT-RS) aprovou projeto extinguindo o fator, que adia as aposentadorias e amplia o período de contribuição dos segurados, mas os petistas seguram até hoje a sua votação na Câmara. 

O objetivo é tirar Dilma do castelo


Os ministros que integram o núcleo duro da presidente Dilma Rousseff estão impressionados com sua obstinação pela gestão. Ela passa o dia inteiroacionando ministros e funcionários graduados, das mais diversas áreas, à medida que recebe demandas, nas audiências e reuniões. Os governadores que já estiveram com ela confirmam seu método. Todos concordam que gerenciar é a praia da presidente.Mas seus assessores diretos relatam que estão encontrando dificuldade para convencê- la de que é preciso programar
eventos públicos onde possa ter contato com a população. Dilma não se sensibilizou com os apelos.

"Se tiver mais uma eleição proporcional no Brasil, cada partido vai atrás do seu Tiririca. Ele não é o problema, mas os que se elegem no rastro dele” — Francisco Dornelles, senador (RJ) e presidente do PP

DIVIDIDO. O governador Eduardo Campos (na foto) conseguiu seduzir o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Ele está inclinado a se filiar ao PSB. Essa é a preferência da presidente Dilma Rousseff. Mas o PMDB não desistiu e sustenta que os socialistas vão implodir sua candidatura ao governo paulista, como fizeram com Ciro Gomes na eleição presidencial. Por questões legais, Kassab avalia criar um novo partido que, em um segundo momento, se fundiria com a sigla escolhida.

No caderninho
Depois da divisão da bancada do PDT na votação do salário mínimo e do corpo mole do ministro Carlos Lupi, o partido perde força para emplacar o ex-senador Osmar Dias no segundo escalão e o ex-deputado Dagoberto no Denatran.

As centrais
Os governistas estão tentando cooptar as centrais sindicais na votação do mínimo no Senado. Estão propondo que, em vez de apenas serem contra os R$ 545, também se manifestem a favor da política para o mínimo com vigência até 2015.

Mais participação da sociedade
As conferências nacionais temáticas inauguradas no governo Lula serão mantidas no governo Dilma. Mas, além de ouvir os segmentos organizados, a presidente quer que sejam criados canais para a participação daqueles setores sociais que não participam de sindicatos e associações. A equipe de um dos ministros palacianos está quebrando a cabeça para descobrir formas novas de participação social no governo. 

Quando o PMDB adere aos tucanos

À revelia do partido, dois peemedebistas assumiram secretarias em governos tucanos. Em Goiás, o deputado federal Thiago Peixoto virou secretário de Educação de Marconi Perillo, que derrotou o peemedebista Íris Rezende. E no Paraná, o deputado estadual Luiz Claudio Romanelli assumiu a secretaria do Trabalho de Beto Richa. Em Sergipe, o problema é outro: o deputado Almeida Lima quer a presidência do diretório, controlado pelo vice-governador Jackson Barreto.

 O SECRETÁRIO de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, Helvécio Magalhães, anda dizendo que, embora sua pasta tenha sido preservada dos cortes, tem gordura para tirar de seu orçamento de custeio. 

 APERTANDO O CINTO. Diante do corte de R$ 50 bi no Orçamento da União e das perspectivas conservadoras para a economia, o governo da Bahia bloqueou R$ 1,6 bi dos R$ 26 bi de seu orçamento.

 PARA evitar novo problema como o do salário mínimo, a presidente Dilma Rousseff orientou o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, a fazer reuniões mensais com as centrais sindicais.

GOSTOSA

ELIO GASPARI

Lula e seu "populismo racional"
ELIO GASPARI

O GLOBO - 20/02/11

Nosso Guia ficou bem numa obra de exaltação de um personagem de quem finge não gostar: o burguês


A POLÍTICA DA "metamorfose ambulante" ganhou um novo rótulo. Num trabalho monumental de exaltação da burguesia, a economista americana Deirdre McCloskey faz uma breve referência a Lula, classificando seu governo como "populismo racional" e arriscando o palpite de que, dentre os Brics, o Brasil tem a melhor base política para sustentar seu desenvolvimento.
McCloskey publicou o segundo volume de uma série de seis, para demonstrar a seguinte tese: a partir do século 18, o mundo entrou num espetacular e inédito ciclo de progresso porque foi nessa época que os burgueses empreendedores e inovadores começaram a livrar-se das cangas do Estado e dos preconceitos.
Comércio internacional e poupança tiveram alguma importância, mas não foram novidades, muito menos decisivos. (A taxa de poupança da Inglaterra em 1800 era baixa.)
Segundo McCloskey, depois do fracasso das revoluções de 1848, os bem-pensantes passaram a achar que "burguês" é quase um insulto. (O próprio Lula, ao saber que um menino da favela de Manguinhos jogava tênis, disse-lhe que esse é um "esporte de burguês".)
A professora sobrevoou a história e as correntes do pensamento econômico. Ela é sempre gentil, frequentemente malvada e devastadora nos exemplos. Um deles: as casas da classe média no Brasil e na África do Sul estão sempre limpas porque nelas há empregadas.
"Se explorar a gente pobre de cor fosse uma boa ideia", os brancos brasileiros e sul-africanos de hoje viveriam melhor que portugueses, alemães e holandeses que estão nos países de onde saíram seus ancestrais.
Ex-professora da Universidade de Chicago, onde foi assistente de Milton Friedman, McCloskey é uma mulher de coragem. Até 1995, ela foi Donald McCloskey, casado e pai de dois filhos. Aos 53 anos, trocou de sexo.

O e-book de "Bourgeois Dignity" ("Dignidade Burguesa - Como a economia não pode explicar o mundo moderno") custa US$ 9,99 no Kindle. Vários textos de McCloskey estão em sua página na internet, de graça.

LORD LULA

Há poucos meses, um plutocrata carioca foi procurado por um empresário-companheiro que o convidou a aderir a uma lista de financiadores para a compra do palacete francês dos Paula Machado, em Botafogo. A conta ficaria em R$ 10 milhões e ele seria a sede do Instituto Lula.
O plutocrata perguntou em quanto ficaria a sua parte e respondeu: "Dou o dobro para vocês não pensarem mais nisso. Esse negócio deixará o presidente muito mal."
Na primeira metade do século passado, quando foi construída, a linda casa simbolizava o fausto da família Guinle, dona do Copacabana Palace e do porto de Santos. Há pouco, os herdeiros tentaram empurrar o negócio para a Viúva, mas o negócio não prosperou.
Uma informação para os comissários petistas:
Quando Bill Clinton deixou a Casa Branca, alugou mil metros quadrados num edifício na rua 125, em pleno Harlem.

E-BOOKS

Estima-se que ao final deste ano o número de iPads vendidos no Brasil chegue a 300 mil. Admitindo-se que sejam compradas outras 100 mil tabuletas de outras marcas, o mercado nacional de livros traduzidos passará por um abalo.
Se 20% das pessoas que compram tabuletas lê em inglês, chega-se a um mercado de 80 mil fregueses que poderão comprar edições eletrônicas. Eles pagarão menos da metade do que custariam as traduções (às vezes medíocres, por conta da má remuneração de maus tradutores). Além disso, podem baixar o livro no dia do lançamento da edição americana, livrando-se de uma espera que às vezes passa de um ano.
A loja da Apple não aceita cartões brasileiros, mas a Amazon aceita.

GRAMPOS-RJ

A briga de facções policiais do Rio de Janeiro pode transbordar da área da segurança, entrando firme na política.
Seria uma entrada triunfal, em áudio.

PASSO ATRÁS
Depois que o controle do Instituto de Resseguros do Brasil foi apanhado na nascente dos conflitos do mensalão, o governo resolveu desregular o mercado de repasse de seguros, abrindo-o para o exterior.
Assim como os banqueiros de bicho descarregam apostas feitas num milhar quando percebem que muita gente apostou nele, as seguradoras diluem seus riscos pelo mundo afora. Desde o Estado Novo, o resseguro era monopolizado pelo IRB, com seu círculo de bons amigos. Metade do instituto era do governo (que mandava em tudo) e a outra metade pertencia a um mercado dócil.
Retirada a intermediação monopolista, o custo de um resseguro brasileiro caiu em 30%. Metade do IRB continuou com o governo e a outra metade foi quase toda comprada pelas seguradoras da grande banca nacional. Parecia o fim do engessamento dos seguros.
Duas instruções recentes da Superintendência de Seguros Privados (224 e 225) mudaram as regras do jogo, transformando em permanente uma reserva de mercado provisória e inibindo as operações de filiais brasileiras com suas matrizes. O monopólio do Estado virou uma comandita do governo com um cartel.
Quem fez a mudança garante que ela visa o bem de todos e a felicidade geral da nação. Tudo bem. Se daqui a seis meses o custo do resseguro brasileiro encarecer, ficará entendido que as resoluções visavam o bem e a felicidade de poucos.

O MODELO LUANDA DOS ELETROTECAS
O secretário de Energia de São Paulo, doutor José Aníbal, propôs que conjuntos residenciais, shopping centers e empreendimentos comerciais comprem geradores de energia para consumi-la nos horários de pico e para protegerem-se dos apagões. É o "macrogato". Pode-se estimar que existam 20 mil geradores particulares em São Paulo. No Rio, devem ser 5.000 e a redundância está disseminada no Nordeste.
A secretaria sustenta que, se há 20 mil geradores ligados em São Paulo durante o horário de pico, quando a energia é mais cara, eles "enfatizam o custo-benefício e a racionalidade da ideia". Falso.
A racionalidade desses eletrotecas tucanos não vale para o andar de baixo, que não tem como gastar R$ 20 mil num gerador para livrá-lo dos apagões. Esse é o preço de um equipamento que garante a iluminação das áreas comuns de um edifício e o funcionamento de um elevador.
A secretaria informa também que o doutor Aníbal "propõe a cogeração somente para geradores a gás natural ou etanol", que não ofendem o meio ambiente. Promessa.
O PSDB governa São Paulo há 15 anos e o número de geradores a gás ou etanol operando no Estado é desprezível. Eles queimam óleo diesel e a Cetesb só exige licença para equipamentos de grande potência.
As políticas geradoras de apagões das privatarias tucana e petista infiltraram no Brasil a matriz de Luanda, onde uma parte da população é obrigada a recorrer à redundância para se proteger da escuridão. Em Nova York ou Paris ainda não apareceu quem defendesse "macrogatos". Lá, cogeração de energia é outra coisa, séria.

HÉLIO SCHWARTSMAN

Apesar de solapar a base da ciência, plágio corre solto em escolas e universidades
HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SÃO PAULO - 20/02/11
O plágio na academia é um problema grave, porque é a confiança que cimenta as bases do conhecimento científico. Se um pesquisador omite até a real autoria de um trabalho citado, como acreditar nos dados que ele reporta?
A teoria, porém, funciona melhor no papel do que no mundo real. Apesar de a desonestidade intelectual em princípio solapar as bases da ciência, ela corre solta nas escolas e universidades.
Pesquisa feita nos EUA pela revista "Education Week" revela que 54% dos estudantes reconhecem ter plagiado textos da internet. Uma outra sondagem, da "Psychological record", mostra que 36% dos alunos de graduação admitem a prática. Como muitos preferem esconder as coisas erradas, os números reais devem ser ainda maiores.
Como conciliar a forte carga moral contra o plágio e sua alta prevalência? Como diversas outras modalidades de mentira, o plágio faz escola porque compensa. Apenas pequena parte das ocorrências é detectada, das quais só uma fração gera punições.
Para 47% dos alunos entrevistados pela "Education Week", os professores preferem ignorar os casos de trapaça que descobrem.
Outra possível explicação é que o plágio entrou há pouco tempo para o rol das práticas condenáveis. Como ensina Jack Lynch, da Universidade Rutgers, até os séculos 17 e 18, a ordem era copiar os mestres tão fielmente quanto possível. A originalidade era vista como presunção, e dar nome à fonte não era absolutamente necessário.
Hoje, autores do calibre de Benjamin Franklin e Lawrence Sterne seriam considerados plagiadores seriais.
A situação só começou a mudar depois da querela dos antigos e dos modernos (século 17) e da explosão da indústria editorial (século 16).
Com a ascensão da burguesia, a originalidade e a invenção passam a ter valor. O primeiro direito estabelecido na Constituição dos EUA é o autoral e de patente. A ideia é que o progresso dependeria do reconhecimento dessas virtudes burguesas.