sexta-feira, fevereiro 18, 2011

ENCANTADOR

FERNANDO GABEIRA

Complexo do Alemão, Serra Pelada

 FERNANDO GABEIRA

O Estado de S.Paulo - 18/02/11

A tomada do Complexo do Alemão foi uma grande vitória da polícia do Rio de Janeiro contra traficantes de droga. Ela representou uma libertação para os moradores que viviam sob o jugo do crime. E foi conquistada sem carnificina. Dados inegáveis.

Existem uma operação real e uma narrativa. Sem questionar o mérito da operação real, tentamos colocar algumas perguntas no momento da euforia vitoriosa. A história mostra que momentos como esse são péssimos para quem tem o hábito de perguntar. A pessoa aparece como se fosse negativa, ou mesmo invejosa, diante da trajetória resplandecente dos triunfantes. Recomenda-se, nessas ocasiões, a tática oriental contida no exemplo do pequeno arbusto que se curva para que a ventania passe. A ventania passou e é hora de questionar não a tomada do Complexo do Alemão, mas a narrativa que a apresentou como uma vitória da civilização contra a barbárie.

Três das quatro mais importantes quadrilhas da polícia do Rio participaram da tomada do Alemão. A pilhagem dos bens dos traficantes e de moradores foi tão espetacular que um dos policiais bandidos, grampeado pela Polícia Federal, comparou o Complexo do Alemão à Serra Pelada, onde milhares de garimpeiros cavavam o solo em busca de uma pepita de ouro.

A Serra Pelada que conhecemos pessoalmente, ou através das fotos em preto e branco de Sebastião Salgado, não sugere uma operação de rapina, mas a saga de uma parte da população maltrapilha e seminua tentando mudar seu destino.

No Complexo do Alemão ocorreu apenas uma grande operação de rapina. Dezenas de repórteres e cinegrafistas estavam lá, mas isso escapou de seu raio de observação. Era uma operação de guerra, como no Iraque, em que os repórteres, por se escolherem como uma extensão da força ocupante, perdem o potencial crítico. Foi tudo lindo e maravilhoso na narrativa, enquanto no terreno real a pilhagem se desenvolvia na sombra.

Um policial contou-me que em certos momentos teve de apontar o fuzil para deter a fuga de colegas com um caminhão cheio de objetos dos barracos do Complexo.

A própria imprensa se deu conta disso, antes de surgir a imagem de Serra Pelada. O pastor Ronai de Almeida Braga Júnior denunciou que foi assaltado pelos policiais. Sua denúncia demorou a ganhar espaço, sob o argumento de que um caso era estatisticamente desprezível. Mas depois que ele falou surgiram vários outros.

O Exército procurou punir com rapidez um oficial que participou de saques. Mas a instituição é a responsável por manter a ordem no Complexo. Depois da ocupação surgiram artistas, fotógrafos, modelos, inúmeros talentos no Alemão. Até um cinema com filmes em três dimensões foi inaugurado. Mas ainda é difícil, hoje, convencer muitos no Complexo de que foi um triunfo do bem contra o mal.

A narrativa começou falseando as causas da sequência de atentados que culminou com a decisão de ocupar o Complexo. Segundo ela, os carros estavam sendo incendiados porque traficantes não se conformavam com o êxito das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), redutoras de seu espaço. Na época, levantei uma singela pergunta: Se os traficantes queriam questionar as UPPs, por que não o fizeram no momento eleitoral, quando o governo estava mais vulnerável?

Semanas depois da ocupação, uma autoridade me confessou as razões dos atentados. Com as informações obtidas nos presídios de segurança, concluiu-se que os atentados eram uma represália contra ação da polícia entre as famílias dos presos. Desde o princípio do ano passado começou uma operação, comandada pelo chefe da Polícia, Allan Turnowski, para recuperar o dinheiro do tráfico que estava com as famílias. Operação necessária, que usaria o clássico método de comparação entre bens e rendimentos. Segundo os presos, a operação extrapolou seus objetivos legais e virou uma fonte de confisco. Foi esse o estopim.

O que foi revelado até agora é apenas uma parte da história da tomada do Complexo do Alemão. Foram vistos carros de polícia vindos do interior nas vielas do morro. Todos os setores corruptos da instituição entenderam a mensagem. A importância da missão policial e o entusiasmo da imprensa eram uma liga que garantia um metal simbólico para a poderosa blindagem.

Crianças mergulhando nas piscinas dos traficantes eram uma ótima imagem de libertação. Mostravam o contraste entre o conforto dos donos do morro e as dificuldades da vida cotidiana dos moradores. Sugeriam uma socialização, indicavam que aqueles bens agora seriam públicos.

Acontece que esse processo de passagem dos bens dos traficantes para a sociedade depende de um ritual, está previsto em lei, origina inventários. O que ocorreu na verdade, segundo os grampos, foi uma invasão de policiais de todos os batalhões, tentando a sorte: um aparelho de televisão, um lote de pares de tênis, um fuzil. E o garimpo não se detinha nos bens que, legalmente, devem ficar com o governo. O garimpo envolveu o saque de várias casas de cidadãos comuns, perplexos com a fúria e a ganância de seus salvadores.

A operação que desvendou esse lado da tomada do Complexo do Alemão ilumina uma outra narrativa que fascinou os jornalistas: o chamado Choque de Ordem. O delegado Carlos Antônio de Oliveira, um dos principais acusados, caiu para cima: ele deixou a polícia e foi dirigir o Choque de Ordem, carro chefe da propaganda oficial.

O Choque de Ordem, como a tomada do Alemão, era necessário. Deveria, no entanto, ter sido acompanhado de algumas obras de infraestrutura e um trabalho pedagógico. Investido de uma cobertura favorável, foi blindado, apesar de sua intensidade contra os pobres e elegância com os ricos. Foi outra mina de ouro.

Comemorar a libertação do Alemão como a de Paris na 2.ª Guerra Mundial, festejar a prisão de algumas pessoas fazendo pipi na rua como a tomada de Monte Castelo só é possível quando a paixão sequestra o senso crítico. Aves de rapina agradecem.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Valor de fundos imobiliários dobra em um ano
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 18/02/11

O valor consolidado de capitalização de mercado do setor de Fundos de Investimento Imobiliário (FII) duplicou no último ano. Foi de R$ 4,1 bilhões em dezembro de 2009 para R$ 8,1 bilhões no final de 2010, segundo levantamento da Uqbar, empresa especializada em dados sobre securitização.
Em dezembro, quando sete desses fundos passaram a ter suas cotas negociadas no mercado secundário, o valor aumentou em R$ 2,2 bilhões.
O crescimento se deve à emissão de novos fundos e de novas cotas e, de forma complementar, à valorização de preço das cotas, segundo afirma Pedro Junqueira, sócio da Uqbar.
No final de 2010, o valor era composto pela capitalização de 44 fundos imobiliários, 18 a mais que em dezembro do ano anterior.
A maior contribuição individual para o aumento no valor veio do Brazilian Capital Real Estate Fund I, que, depois da emissão secundária, no final de 2010, atingiu a capitalização de R$ 1,1 bilhão.
Cerca de 91% dos fundos são compostos de imóveis e destes, 54,4%, no valor de R$ 4,05 bilhões, investem em prédios de escritório.
Em segundo lugar, dentre os que alocam recursos em imóveis, estão os que focam em lojas de varejo e shopping centers. Eles representam 19,6%, com recursos de R$ 1,46 bilhão.
Há ainda FII dedicados a títulos de renda fixa, com cotas negociadas no mercado secundário, o que não existia até dezembro de 2009.

NOVELO DE TESEU
A subsidiária brasileira da multinacional americana Invista, dona da marca Lycra, amplia sua presença no grupo. O executivo brasileiro Nicésio Cascone, vice-presidente de operações da Invista, assume também uma das fábricas da empresa nos EUA.
A planta, que abriga o centro de pesquisas da Lycra, é sua maior unidade de fibras com inovação.
Cascone já conduzia as unidades do grupo na América do Sul e no México.
Em outro projeto para o Brasil, ainda em fase de aprovação, a Invista estuda expandir a capacidade de produção de fio Lycra no país. A meta é construir uma nova fábrica na planta industrial da empresa, que já opera em Paulínia (SP).
O projeto deve entrar em operação entre o final de 2012 e o início de 2013.
"Aumentaria em 70% a capacidade de produção de fios de Lycra no Brasil."

ALTERNATIVA

Para não perder faturamento nem clientes com a alta do preço da carne bovina, redes de comida rápida e restaurantes estão adaptando seus cardápios.
O grupo de fast food Risotto Mix, com 40 lojas no país, alterou cerca de 20% dos seus pratos nas unidades em bairros populares.
Carnes nobres, como filé mignon e picanha, foram substituídas por opções mais baratas. Com isso, a rede manteve a média de preço dos pratos em R$ 21, enquanto nas lojas para classes A e B o preço médio é de R$ 29.
Nas oito unidades da churrascaria Bovinu's em São Paulo, os bufês passaram a servir mais opções de peixes e frango.
Nos rodízios, por sua vez, "fica difícil substituir a carne", diz Valcir Baldissera, gerente de compras da rede.

DE CARRINHO CHEIO
Os brasileiros costumam ir ao supermercado a cada cinco dias, de acordo com estudo da consultoria Nielsen.
Entre os países analisados pela pesquisa, Porto Rico é o único onde a frequência é maior: a cada quatro dias.
Os porto-riquenhos também são os que mais gastam em cada ida ao supermercado, R$ 37,50, mais que o dobro dos mexicanos, que estão em último lugar no levantamento, com R$ 16,10.
Já o valor médio gasto pelos brasileiros é de R$ 24,80.
As três maiores empresas do setor são responsáveis por 40% das vendas no Brasil. Os mais ricos são os principais consumidores dessas companhias, segundo a Nielsen.
Sábados e domingos são os dias em que as vendas nos supermercados atingem os valores mais altos, de acordo com a consultoria.

Exercício 
A norte-americana My Gym escolheu o brasileiro Leandro Japequino para a presidência da rede na América Latina. O grupo abrirá neste ano franquias no Brasil, na Colômbia, na Argentina, no Uruguai e no Chile.

Oportunidade 
A FGV organiza rodada para startups de todo o país apresentarem seus negócios a fundos de investimentos, como Criatec, DGF, Vox Capital, IdeiasNet e Effectua Capital. As inscrições podem ser feitas até amanhã.

Setor de baixa tecnologia encolhe na indústria
Tradicionais no Brasil, os setores de madeira, couros e calçados, vestuário e têxtil foram os que mais perderam espaço tanto na geração de emprego como na produção da indústria nos últimos anos, segundo a CNI.
Equipamentos de transporte como aeronaves, embarcações e motocicletas tiveram melhor desempenho, assim como veículos automotores e máquinas e equipamentos.
A perda de espaço na indústria se relaciona à intensidade tecnológica, segundo Renato da Fonseca, da CNI.
"Nos setores tradicionais como madeira e calçados, as empresas que estão sobrevivendo são as que conseguiram manter a competitividade com design e pesquisa."
com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK, VITOR SION e ANDRÉA MACIEL

GOSTOSAS

MÍRIAM LEITÃO

Nas asas do Brasil 

MÍRIAM LEITÃO 
O Globo - 18/02/2011

O transporte aéreo de passageiros na China cresceu 15%, em 2010, e no Brasil cresceu 24%. A presidente da Anac, Solange Vieira, me disse ontem que deixará o cargo, entre outras razões, porque é contra reconduções em agências. Para ela, a maior barreira à entrada no transporte aéreo de passageiros no Brasil são os aeroportos. Ela acha que o país tem que privatizar terminais.

Solange Vieira assumiu o cargo de presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) quando a agência estava desacreditada por nomeações políticas, mau comportamento de diretores, caos aéreo e acidentes trágicos. O balanço que ela fez no programa Espaço Aberto, da Globo- News, foi que na questão mais importante, a segurança, ela deixa o cargo sem ter havido um acidente grave. Solange disse que sairá no término do mandato, e que o ministro Nelson Jobim perguntou, quando ela comunicou sua decisão, se haveria reconsideração. Ela respondeu que não.

O governo está fazendo uma mudança na área, com a nomeação do economista Rossano Maranhão, ex-presidente do Banco do Brasil, para a Secretaria de Aviação Civil, e o exdiretor do Banco Central Gustavo do Vale para a presidência da Infraero: — É hora de outra pessoa chegar e dar um novo desenvolvimento ao setor. Acho que para a agência é saudável a alternância de mandato, sou contra reconduções.

Durante sua gestão, continuaram as reclamações de passageiros em relação ao tratamento dado pelas empresas e ao estrangulamento dos aeroportos. Ela disse que tem bons resultados: — Focamos muito na Anac na questão de segurança. Passamos os três anos do meu mandato sem nenhum acidente na aviação regular.

Na aviação em geral, houve queda de 21% nas taxas de acidentes. Sofremos auditoria internacional e ficamos entre os 10 primeiros países nesta área. Foi um trabalho árduo. Os processos foram alterados, mais fiscalização, mais manutenção. Apesar de continuarem as reclamações de passageiros em relação ao tratamento dado pelas empresas aéreas, ela disse que reformulou as normas que trata dos direitos dos passageiros. Solange foi criticada por ter tirado a presença física da agência de dentro dos aeroportos e transferido todo o atendimento para o 0800.

Ela disse que o serviço nos terminais era executado por terceirizados e que as reclamações se perdiam. Para ela, essa centralização aumenta o apoio aos passageiros. Todo mundo que viaja de avião no Brasil sabe que as empresas não respeitam a maioria das normas em casos de atraso ou cancelamento de voos: — Primeiro, é preciso ter a norma. O que fica para a próxima administração é melhorar a eficiência da nossa fiscalização. Uma das ferramentas que a agência têm para punir as empresas é a multa. Em 2007, elas pagaram R$ 800 mil em multas, e em 2010, R$ 17 milhões.

O setor é dominado por um duopólio, mas ela disse que isso não a preocupa.

— É um duopólio decrescendo de tamanho. As cinco empresas pequenas estão aumentando sua presença no mercado. Em 2007, eram 9% do mercado e agora são 19%. Dobrou o tamanho das pequenas. Isso mostra a tendência de mudança no setor. Para ela, o setor não tem barreiras à entrada. Mas pela lei, há sim limitações.

— A barreira que existe é institucional, colocada pelo ambiente regulatório, e o governo está resolvendo isso no Congresso, mudando a barreira de capital que hoje é 20%. Mas a proposta que o Congresso talvez aprove até o meio do ano é que vá para 49%. Isso é importante para as pequenas, que para crescer precisam de capital. Estamos também trabalhando nos acordos bilaterais para ter mais liberdade à presença estrangeira. A verdadeira barreira à entrada é a da infraestrutura.

A Anac apresentou uma proposta no ano passado ao governo de concessão de aeroportos. Tudo o que há até agora é um plano piloto no aeroporto de São Gonçalo do Amarante, em Natal. Solange acha que o Brasil tem que conceder aeroportos ao setor privado:

— O governo tem que tomar a decisão política sobre o que ele pretende na infraestrutura. Nos Estados Unidos, a maioria dos aeroportos é pública, na Europa, existem aeroportos privados, na Ásia, a maioria é de terminais privados e até na China há aeroportos listados em bolsa. Ela acha que na hora de escolher o modelo para o Brasil, deve-se ter em mente que a estatal não consegue ter agilidade necessária para acompanhar o dinamismo do setor.

Disse que a Infraero deve continuar existindo, porque o país tem dimensões continentais, mas sem o monopólio. Perguntei se isso não faria a Infraero ficar só com o osso, e o filé ir para o setor privado. Ela argumenta que se as empresas privadas remunerarem bem pelos bons aeroportos, não há problema com esse modelo:

— Para uma empresa estatal acompanhar um setor que cresceu o ano passado 24% e no ano anterior, 16%, com todas as limitações, é muito difícil. No ano passado, o transporte de passageiros na China cresceu 15%, e nós, 24%. É recorde mundial.

Para Solange Vieira, o maior desafio não é a preparação para a Copa ou as Olimpíadas. — A maior preocupação é com o aqui e agora, com 2011. O tamanho do mercado foi de 150 milhões de embarques e desembarques no ano passado. E a Copa do Mundo vai movimentar a mais apenas três milhões de embarques e desembarques — disse.

Perguntei se ela sentiu muita interferência política na agência. Solange disse que só assumiu o cargo com a garantia de que poderia nomear sua diretoria. Agora, ela volta ao BNDES, do qual é funcionária.

CELSO MING

Bom começo 
CELSO MING 

O Estado de S.Paulo - 18/02/2011 

Não dá para dizer que temos uma dama de ferro no comando do governo. Dá apenas para dizer que a presidente Dilma Rousseff passou com folga na sua primeira queda de braço no Congresso Nacional.

Foi uma importante vitória política ter conseguido a aprovação da proposta do governo para o salário mínimo de R$ 545, mesmo com a feroz oposição dos sindicalistas, que haviam sido atendidos em praticamente todos os seus pleitos nos últimos oito anos.

No entanto, ainda mais importante foi a ampla vantagem obtida (361 votos a favor, 106 votos contra e 11 abstenções) em matéria tão fortemente sujeita a oportunismos de toda espécie.

Duas emendas, a primeira que propunha um salário mínimo de R$ 600 e a segunda, de R$ 560, também foram rejeitadas por larga margem de vantagem. E agora ainda será preciso garantir a aprovação no Senado.

Ao contrário do que sustentou demagogicamente a oposição, R$ 55 ou R$ 15 a mais fazem, sim, enorme diferença. Estados e municípios contam com grande contingente de funcionários públicos que ganham apenas o salário mínimo. Quanto maior for o reajuste tanto maior será o impacto nos orçamentos. E, na Previdência Social, nada menos que 18,7 milhões dos 28,1 milhões de beneficiários, ou 66,5% (dados de dezembro de 2010), recebem salário mínimo. Apenas no Orçamento da União, cada R$ 1 extra no salário mínimo provoca despesas anuais adicionais de R$ 300 milhões. Ou seja, a definição do salário mínimo não é apenas matéria de justiça social. É também grave questão fiscal.

Se a proposta dos R$ 545 fosse derrotada no Congresso, o corte de R$ 50 bilhões no Orçamento a que se comprometera o governo, cuja observância vem sendo objeto de enorme ceticismo, ficaria mais improvável. Agora, ao contrário, Dilma mostrou que está em condições de conduzir as expectativas. Se irá conseguir ou não, saberemos a seu tempo.

A firmeza com que o governo manobrou este episódio ainda não garante cumprimento da promessa de mais austeridade fiscal, mas é um bom começo e mostra que o governo pode ser bem mais do que apenas refém de uma base aliada movida preponderantemente por interesses fisiológicos.

Parece mostrar também que a presidente Dilma lida melhor com conflitos do que seu antecessor. Lula tinha dificuldades com escolhas difíceis. Diante delas, preferia pospor e acochambrar.

A oposição não apresentou apenas desunião, falta de discurso e de rumo. Mostrou também grande propensão ao oportunismo. Votou contra apenas por ser projeto do governo. Em nenhum momento procurou saber onde está o interesse público a ser atendido.

No mais, vejam a surpresa. O ex-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho (PT-SP), que defendeu a proposta apresentada pelo governo, foi estrepitosamente vaiado pelos sindicalistas quando argumentou que trato é trato e tem de ser cumprido. Enquanto isso, o histórico líder da bancada ruralista, Ronaldo Caiado (DEM-GO), que votou a favor de um mínimo mais alto, foi delirantemente aplaudido pelos mesmos sindicalistas. Se este é um sinal dos tempos, afinal que sinal é?

CONFIRA

O deles e o nosso

Os deputados federais acabam de aprovar o reajuste do salário mínimo de 6,9%. Mas em dezembro eles reajustaram o salário deles próprios em 61,8%. Há alguma proporção nisso?

Buraco no pano

Por meses e meses seguidos, o setor têxtil se queixa de déficit comercial no seu negócio. Em janeiro, por exemplo, as importações de produtos têxteis foram US$ 342,3 milhões mais altas do que as exportações, o que produziu um déficit 34,3% maior do que em janeiro de 2010.

Proteger ou não proteger

Como acontece em muitas outras áreas da indústria, este é um setor que, ano após ano, não se entende sobre o que defender. Os produtores de fios, de tecidos e de confecções querem no fundo a mesma coisa: entrada liberada de matérias-primas e proteção alfandegária ao produto acabado. O problema é que a matéria-prima do fio é a fibra; a do tecido é o fio; e a da confecção é o tecido. Cada subsetor fabrica o produto acabado de outro

O CÃO SARNEY

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Esgrima intelectual
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 18/02/11

A demissão dos 278 funcionários da USP pode parar no Ministério Público. Advogados do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade preparam denúncia contra o reitor João Grandino Rodas. E quem está se programando para apresentar o documento ao procurador é Plínio de Arruda Sampaio, ex-adversário de Serra nas eleições e professor aposentado da instituição. Tem cheiro de briga política.

Ringue digital
Também Cauã Reymond prepara ação judicial contra o... Facebook. Seu perfil verdadeiro na rede social, com 5 mil amigos, foi apagado arbitrariamente. O ator foi informado que a rede social não serve para relacionamento com fãs.

Indagada pela coluna, o Facebook no Brasil levanta a hipótese de que o perfil do ator tenha sido confundido com um falso. E por isso, deletado. Enquanto isso, dez perfis falsos do ator permanecem intactos.

Último suspiro
A novela do Cine Belas Artes ganha novo capítulo. Estava programada para ontem à tarde reunião entre André Sturm e o advogado do dono do prédio, Fábio Luchesi Filho. Na intenção de proteger bens culturais da cidade, Maurício Lopes, promotor, convidou a dupla para uma espécie de "audiência de conciliação".

Realeza
O príncipe Albert II, de Mônaco, é o primeiro Chefe de Estado a confirmar sua presença na Conferência Rio+20. Em 2012.

Tela quente
Criado para dar mais transparência a atos da Câmara Municipal por meio de transmissões pela web, projeto recém-aprovado pelos vereadores não inclui reuniões da Corregedoria.

Marco Aurélio Cunha, corregedor do município, justifica: "Não vamos transformar a Corregedoria no Programa do Ratinho. Nada contra ele que, aliás, é meu amigão".

Acelerador
Emerson Fittipaldi terá exposição para chamar de sua. Com criação de Marcello Dantas - idealizador do Museu da Língua Portuguesa -, a mostra fará um paralelo entre o piloto e a história da "aceleração" econômica no Brasil. Em novembro, na Fiesp.

De peso
Em paper só para clientes, a consultoria de Affonso Celso Pastore não é nada otimista em relação à inflação.

Dadas as informações disponíveis, e já conhecendo a magnitude dos "cortes" de gastos, estima que se uma segunda leva de medidas macro prudenciais não funcionar, o juro básico deve aumentar 200 pontos base para trazer a inflação de volta à meta em 2012. Isto é, subiria dos atuais 10,75% para a casa dos 12,75%.

Juventude

Ante os cortes no Orçamento, a UNE se rebelou. Em reunião de diretoria, segunda-feira, bradou que "na educação ninguém vai meter a mão!". E organiza movimento para sair às ruas de 21 a 25 de março pleiteando 10% do PIB e 50% do arrecadado no pré-sal. Simultaneamente, a entidade pretende mobilizar o Congresso em defesa do Plano Nacional de Educação. Batizada de Jornada de Lutas, as manifestações são inspiradas no Abril Vermelho do MST.

Roda
CVC está negociando a venda da sua agência de publicidade GP7. Com a Publicis.

Patrimônio

Ana de Hollanda mandou recado à Irina Bokova, da Unesco. Avisou que o MinC e o Instituto Brasileiro de Museus estão dispostos a colaborar na recuperação dos museus e sítios históricos afetados no Egito.

Alho nelas
Ousada a Arezzo. Depois de Clara da novela Passione, escolheu mais uma vilã para estrelar sua campanha: Glória Pires, a Norma de Insensato Coração. E ainda há quem diga que "maldade" não vende...

Na frente

Chris Willis cantará no Camarote Bar Brahma durante o carnaval de Sampa.

Mario Testino dá um tempo nas fotos e lança, hoje, com Jan Olesen, a filial brasileira da Higher and Higher, agência inglesa de branding. Foco? Mercado de luxo. No Bar Número.

O Instituto de Ensino e Pesquisa inaugura duas salas de aula. Batizadas Sebastião Camargo e Amador Aguiar.

Abre amanhã, na Pinacoteca, a mostra Revolução na Fotografia, de Aleksandr Ródtchenko.

Está, sim, entre nós.

Foi visto jantando no Antiquarius do Rio, anteontem, o ator Lúcio Mauro. Ufa!

ELIANE CANTANHÊDE

Pontapé inicial
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SÃO PAULO - 18/02/11
Brasília - Do jeito que a coisa vai, Dilma pode chegar ao fim do ano mais candidata a unanimidade do que o próprio padrinho Lula. Os bancos estão saciados, os economistas, crédulos, e a população não reclama. A imprensa nacional é cheia de elogios, a internacional já badala até o seu "charme".
A oposição? Os aecistas estão mais ocupados em assumir o comando, e os serristas, mais preocupados com a própria sobrevivência.
E o Congresso? A vitória do salário mínimo de R$ 545 era mais do que previsível. Presidentes aprovam tudo o que bem entendem em início de mandato e os partidos aliados ao Planalto somam 388 dos 513 deputados. Enquanto Dilma continuar com essa bola toda na opinião pública, ninguém se move.
É por isso que a novidade da votação do mínimo foi a volta das centrais sindicais ao campo político, criando a expectativa de que é um aquecimento e que vieram para ficar. O jogo só está começando.
Não que a Força Sindical, a CGT e muito menos a CUT ameacem formar um time contra Dilma, mas tomara que joguem como craques políticos, mantenham as reivindicações tradicionais e saibam fazer pressão, recuperando a musculatura: centrais agem pró-trabalhadores e tensionam governos.
O incrível índice zero de traição do PMDB (nenhum dos seus 77 deputados votou contra o governo) é um recado, ou melhor, um triplo recado: o vice Michel Temer jamais esteve tão forte, o segundo partido da Câmara tem comando e está unido. Unido, frise-se, para o que der e vier. Hoje, com tudo indo bem, são todos a favor. E amanhã, se tudo não estiver mais tão bem?
Aí, é bom mesmo, até para a própria Dilma, que as centrais sindicais estejam em campo. O PMDB é aliado na boa, mas pode se tornar adversário na baixa. As centrais tendem a fazer o caminho inverso. E elas têm tropa, têm rua.
Dilma está firme e forte, mas nunca se sabe o dia de amanhã.

GOSTOSA

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Congresso mínimo (e pelado)
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SÃO PAULO - 18/02/11
São Paulo - "O Legislativo arriou as calças". Foi essa a expressão que um deputado ilustre usou ao comentar comigo a votação do mínimo, anteontem à noite. Não se referia, porém, ao valor do salário ou à vitória acachapante do governo.
Referia-se, antes, à aprovação pela Câmara da lei que fixa regras para o reajuste do mínimo até 2015 (correção pela inflação anual mais o índice de crescimento da economia de dois anos atrás). Com isso, o Congresso abdica de legislar sobre o assunto até o fim deste governo. É uma renúncia escandalosa.
Parece haver uma tendência de esvaziamento do Legislativo em várias partes do mundo democrático. No Brasil isso é muito tangível. Não pode ser bom que um poder já desidratado, além de tão desmoralizado pela ação e inação de seus membros, abra mão de uma das suas prerrogativas constitucionais, entregando-a na prática ao Executivo.
Ao governo convém definir o salário mínimo por decreto. Evita assim o desgaste político anual com data marcada e consegue maior previsibilidade no Orçamento. Trata-se, obviamente, de um passo na direção de um bonapartismo soft.
Estranhamente, houve pouca grita na oposição contra o golpe que o Congresso se auto-aplicou. Foi o quase-nanico PPS quem até agora prometeu ir ao STF. É possível que este seja o próximo capítulo da judicialização da política. Judicialização que tem sido, ela própria, outra causa e sintoma de certa debilidade democrática no país.
O PSDB parece mais ocupado em exibir suas feridas, dividido entre a defesa dos R$ 600 demagógicos do ex-candidato Serra na Câmara e dos R$ 560 pró-forma do futuro candidato Aécio no Senado.
Como o Congresso pelo jeito já não apita mais nada, os tucanos deveriam ter logo encampado a emenda do PSOL -de R$ 700. Cada vez mais decorativos, os socialistas pelo menos têm convicções de verdade: são a favor do acirramento entre as classes e contra a economia de mercado. Tucanos, uni-vos!

CLÁUDIO HUMBERTO

“Os partidos da base [governista] estão insatisfeitos com o PDT”
DEPUTADO PAULO TEIXEIRA (SP), LÍDER DO PT, SOBRE A “TRAIÇÃO” DE PEDETISTAS AO GOVERNO

PARCERIA TRABALHISTA 
Ladeada por Helder Monteiro e João Carlos, respectivamente presidente e tesoureiro da Associação dos Servidores da Justiça do Trabalho, a presidente do TRT 19ª Região, desembargadora Vanda Lustosa assegura a harmonia na corte.

ANAC TEM DESCONTO NAS EMPRESAS QUE FISCALIZA 
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) estabeleceu acordo com as empresas aéreas garantindo a seus dirigentes e servidores uma tarifa especial, obtendo desconto de 75% no preço de passagens. Com esse privilégio, a Anac aceita gentilezas de empresas que tem o dever de fiscalizar. A agência argumenta que “moralizou” essas relações, acabando o “passe livre”. O sindicato das empresas não se pronunciou.

UM “ACORDO” 
A TAM chama de “acordo comercial” o desconto de 75% para diretores e funcionários da Anac, mas não se manifestou oficialmente.

ELAS MANDAM 
A ação condescendente da Anac mantém os brasileiros sujeitos a atrasos, overbooking, serviços de bordo ruins e poltronas apertadas.

DEU NO QUE DEU 
As empresas aéreas do Brasil estão no ranking das mais inseguras do mundo, até pela atuação cosmética da Anac como órgão fiscalizador.

UMA PIRUETA, DUAS PIRUETAS 
O deputado Tiririca (PR-SP) não deu vexame votando errado contra o governo em sua estreia no Congresso. É parte da profissão...

RIO: CABRAL ESCAPA DE IMPEACHMENT POR UM TRIZ 
O governador do Rio, Sérgio Cabral, vive seu inferno astral: após a enchente na região Serrana e grave crise na Polícia Civil do Rio, escapou esta semana de um pedido de impeachment no Tribunal de Justiça: a desembargadora Maria Augusta Vaz, relatora do processo de intervenção no município de Piraí, votou pela remessa das peças ao Ministério Público e à Assembleia, pedindo o impedimento de Cabral.

MAL NA FOTO 
Foi-se o tempo em que deputados que votavam contra “interesses” da CUT apareciam em outdoors como “inimigos da classe trabalhadora”. 

PEGADINHA 
Passageiros das últimas filas dos voos 6725 e 6720 Rio-Curitiba-Rio da Webjet, ficaram terça (15) e quarta (16) sem comida, cara e ruim. 

NOVO SECRETÁRIO 
O deputado estadual André Campos (PT), irmão do ex-senador Carlos Wilson, assume sexta-feira o cargo de secretário de turismo do Recife.

SARNEY DERROTADO 
José Sarney deu uma de João-sem-braço, na reunião com líderes no Senado: para acomodar o amigo Itamar Franco (PPS-MG), propôs que partidos de só um senador fossem titulares em todas as comissões. A rejeição foi unânime, por quebrar o princípio da proporcionalidade.

QUEDA PARA BAIXO 
Enquanto o chefe Nelson Jobim se segura no emprego, o ex-presidente da Infraero Murilo Barboza descolou o cargo de secretário de Produtos de Defesa. Vai ocupar uma salinha no anexo do Ministério da Defesa.

DEDUÇÃO DE IR 
O senador Ciro Nogueira (PP-PI) apresentou um projeto que deduz do imposto de renda gastos com medicamentos de uso controlado. Deduzir gastos com aluguel, que também é bom, por enquanto, nada.

DIREITO DE PASSEAR 
A deputada petista Maria do Rosário, secretária de Direitos Humanos, começa a descobrir as delícias do cargo: entre o dia 26 e 3 de março viajará a Genebra, na Suíça, para um evento da ONU.

ESTÁ FEIA A COISA 
A secretária de Educação do Amapá, Eunice de Paulo, quase foi agredida num protesto de professores, em Macapá. É a dona da casa onde a polícia achou R$ 16 mil e um cadastro de eleitores, na casa do cachorro. Foi o que cassou João e Janete Capiberibe (PSB), em 2002.

SERÁ A BENEDITA 
A ex-ministra Benedita da Silva (Assistência Social) conduzirá, com duas deputadas petistas, o culto da Frente Parlamentar Evangélica no plenário, semana que vem. Será a primeira vez da ala feminina. 

IRONIA 
Analistas disseram à revista Economist, que sem poder cortar programas sociais e infraestrutura, Dilma terá que apelar à privatização em portos e aeroportos – alvo de duras críticas a Serra, na campanha. 

RUMO A MONTREAL 
O embaixador Jorge Taunay, apaixonado botafoguense, foi nomeado pela presidente Dilma, ontem, delegado permanente do Brasil junto à Organização de Aviação Civil Internacional, em Montreal, Canadá.

PENSANDO BEM... 
...o Rio agora tem sua “Miss Polícia”. 

PODER SEM PUDOR
ELEITORADO DIFÍCIL 
Fernando Gabeira era deputado federal pelo PV-RJ quando, certa vez, em visita a Anapu (PA), antes da eleição de 2006, descreveu bem-humorado as agruras de políticos, como ele, que defendem bandeiras, digamos, problemáticas:
– Está difícil: as prostitutas, que votam em mim, traem por profissão. Os maconheiros nem sempre acordam a tempo de votar e, quando fazem isso, esquecem meu número. E os gays só querem saber de Lindbergh Faria, o “lindinho”.

FORA!

SEXTA NOS JORNAIS

Globo: Oposição abre batalha no STF pelo mínimo de 2012

Folha: Conflito mata ao menos 20 na Líbia e sete no Bahrein

Estadão: Fatura do PMDB após apoiar mínimo inclui bancos oficiais

Correio: União adia concurso e GDF revê contratações

Valor: Gestores driblam apatia da bolsa e ganham até 143%

Estado de Minas: Anel terá 18 radares. Motorista que causou tragédia se entrega

Jornal do Commercio: Ousadia sem limite

Zero Hora: Emater projeta safra recorde no Estado

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

CONTARDO CALLIGARIS

 "Bravura Indômita"
CONTARDO CALLIGARIS
FOLHA DE SÃO PAULO - 17/02/11

A liberdade do indivíduo solto no mundo não é abstração nem ficção; ela é nosso passado concreto


PASSEI JULHO e agosto de 1969 no sítio do meu então sogro, Bob Bond, , na periferia de Houston, Texas.
Bob, mestre de obras, estava entre dois empreendimentos, de férias. Eu, vindo da Europa e fascinado pela televisão que emitia a noite toda, não dormia nunca. Bob levantava antes do amanhecer e me puxava de diante da televisão para me enfiar na sua caminhonete e me levar a Galveston, de onde saíamos de lancha; pescávamos na primeira luz da manhã e arrastávamos uma rede pelo fundo arenoso do mar, para juntar camarões para o almoço.
De volta a Houston, cuidávamos de seus cavalos, que viviam soltos. Nos sítios da região, as cercas eram usadas sobretudo ao longo da estrada asfaltada: bichos e humanos circulavam, livres, numa vasta extensão aberta.
No meio de uma noite, Wolfgang, o pastor-alemão da casa, explodiu em latidos. Bob apareceu na sala, tranquilo, de pijama, botas, chapéu Stetson e dois revólveres na mão. Sem falar nada, desligou a televisão e me entregou uma das armas, na escuridão. Logo, ele pegou uma lanterna, que não ligou, e saiu de casa; eu fui atrás dele.
No breu, vinha na nossa direção, com uma lanterna acesa, um homem alto e magro, com um Stetson igual ao de Bob; ele puxava o baio que era o mais lindo dos cavalos de Bob. Wolfgang dava círculos ao redor do intruso, latindo, mas intimidado pela própria calma do homem. Era um vizinho: ele tinha encontrado o baio na estrada e o levava de volta para nós. Bob agradeceu e conversamos; as duas lanternas que, na noite, pareciam um fogo de acampamento, os chapéus, a presença das armas nas nossas mãos, tudo evocava um quadro noturno de Frederic Remington (sei lá,http://migre.me/3SqO6).
Numa tarde de agosto, Bob e eu assistimos a "Bravura Indômita", de H. Hathaway, com John Wayne. As primeiras palavras de Bob, saindo do cinema, foram: Você imagina Rooster Cogburn parando para abrir uma porteira no meio do caminho? Para Bob, o arame farpado era o símbolo de tudo o que impede de "move on", de ir em frente, não apenas geograficamente.
Bob teria amado o novo "Bravura Indômita", dos irmãos Coen, porque o filme (assim como o livro de Charles Portis, Alfaguara), sem perder o humor, é mais soturno que o de 69, mais atento à gravidade das questões que ele levanta.
Bob gostaria de ver levada a sério a ideia de que a vingança privada pode ser toda a justiça da qual precisamos. Ele também gostaria de uma visão do mundo em que os bandidos não sofrem de leis interiorizadas ou culpas e os delegados não são animados por vocações morais, ou seja, em que o conflito entre a lei e o crime é apenas mais um conflito armado.
Foi Bob, na saída daquele cinema de Houston, que me ensinou o ditado pelo qual "a Revolução de 1776 nos deu a liberdade; quem nos deu a igualdade foi Samuel Colt". Incidentemente, os revólveres de Bob eram Colts.
Alguns dirão que é por isso mesmo que, nos EUA, não faltam malucos para sair matando a esmo. Bob apenas notaria que tudo tem um custo. Você quer se vingar? Pode perder um braço. Quer ser livre? Vai encontrar loucos armados por aí.
Talvez os mesmos digam que a liberdade do indivíduo serve só para filmes e romances. No caso, a galopada de Rooster Cogburn seria um mito, que narra (agradavelmente) a transformação da sociedade norte-americana no fim do século 19. Certo; é isso mesmo. Mas a liberdade dos protagonistas de "Bravura Indômita" não é uma abstração nem uma invenção estética, é um passado concreto, que permanece no âmago de nossa ideia de liberdade.
Esse passado começou na Europa da "sociedade cavaleiresca" (livro essencial de Georges Duby, Martins Fontes), quando os poderes instituídos eram sempre distantes, enquanto o bem e o mal estavam nas mãos de homens armados errando e lutando pelas florestas que cobriam o continente.
A invenção dos EUA apenas aprimorou: no meio de um território tão selvagem quanto o da Europa do ano 1000, em vez de cavalheiros e bandidos católicos, foram soltos protestantes insubmissos a qualquer autoridade que lhes dissesse o que pensar.
Pois bem, como Bob, tenho saudade do Velho Oeste.
Uma sugestão. Se você tem uma filha entre dez e 16 anos, assista ao filme com ela e constate: é extraordinário como infantilizamos nossas crianças (e como elas se aproveitam disso para se infantilizar).

LUIZA NAGIB ELUF

Real Parque 
LUIZA NAGIB ELUF
FOLHA DE SÃO PAULO - 17/02/11

O crescimento desordenado da cidade de São Paulo gera o maior tributo que os seus moradores têm que pagar: a má qualidade de vida


O Real Parque é um bairro da zona oeste de São Paulo, habitado por pessoas de classe alta. É um local privilegiado, mas sofre com a ocupação irregular do solo e a existência de favelas que só fazem crescer.
Fruto da omissão do poder público por anos, da indiferença da sociedade e das desigualdades regionais do país, o crescimento desordenado de São Paulo gera o maior tributo que seus moradores têm que pagar: má qualidade de vida.
As lacunas no planejamento urbano e a situação caótica dos bairros são as causas geradoras de trânsito insuportável, sujeira, poluição e insegurança. A criminalidade prolifera onde não há organização.
Por isso, as favelas se prestam de maneira ideal ao tráfico de drogas, aos sequestros e cárceres privados, à receptação, ao estupro, ao homicídio. A boa notícia é que a Prefeitura de São Paulo está iniciando obras de urbanização na região da favela Real Parque.
A ideia é verticalizar as moradias, otimizar o aproveitamento dos terrenos e destinar habitações decentes aos moradores que lá se encontram há anos. A providência trará benefícios a todos os habitantes do distrito e também à cidade de maneira geral.
No entanto, notícias de imprensa dão conta de que moradores de nove condomínios de alto padrão posicionaram-se contrariamente ao projeto apresentado pela prefeitura e buscaram as autoridades pleiteando a paralisação das obras.
Alegam que o número de habitações populares que será construído no local é maior do que o tamanho da favela e que o projeto elaborado não prevê estacionamentos.
A prefeitura, como sempre faz, ouviu os moradores e espera-se que sejam atendidas as reivindicações justas. No mais, é muito importante unir esforços para solucionar os problemas de São Paulo.
Estatísticas apontam que 25% da população da cidade encontra-se favelizada. As novas habitações, ainda que populares, terão um padrão de qualidade evidentemente maior do que as atuais moradias oferecem. Em consequência, a criminalidade local tenderá a cair, o lixo terá destinação mais adequada, e os moradores do bairro poderão usufruir de maior bem-estar.
A situação da população carente é uma responsabilidade de todos nós. Precisamos arregaçar as mangas e ajudar a recuperar a dignidade das áreas degradadas que nos rodeiam. O Plano Diretor recomenda, justamente, que os distritos da cidade, na medida do possível, procurem oferecer moradia e trabalho para a população de todos os níveis de renda, inclusive estabelecendo algumas zonas especiais de interesse social (Zeis).
E os moradores do Real Parque estão vivenciando uma oportunidade interessante de colaborar com seu próprio bairro e com toda a cidade de São Paulo.

LUIZA NAGIB ELUF é procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo. Foi secretária nacional dos Direitos da Cidadania no governo FHC e subprefeita da Lapa na gestão Serra/Kassab. É autora de "A Paixão no Banco dos Réus" e de "Matar ou Morrer - O Caso Euclides da Cunha", entre outros.

JANIO DE FREITAS

O feito das polícias
JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 17/02/11

A percepção da insegurança só pode ser muito localizada; a noção de que crimes violentos e corrupção avançam pelo país fica nebulosa


ENQUANTO A TOMADA do Complexo do Alemão empolgava o país com as glorificações disseminadas pela TV e pela imprensa, muitos dos louvados ocupantes policiais e militares do Exército, sabe-se ou confirma-se agora, tratavam de saquear e assaltar casas e moradores invadidos.
A constatação foi poupada das repercussões merecidas, mas tal fraqueza jornalística teve efeito positivo, ainda que não previsto: evitou que perdessem a confiança da opinião pública as operações de bastante êxito técnico e social, como as realizadas em várias favelas e no Alemão mesmo.
Para complementar o efeito positivo, um adendo contraditório pôs as coisas nos termos devidos: àquela informação negativa, segue-se uma semana que vale como exposição da criminalidade policial, situando o drama da insegurança pública onde de fato está.
No Rio, 30 policiais civis e PMs são presos em uma operação, ainda inconcluída, que precisou da Polícia Federal para efetivar-se; pegou policiais ocupantes de altos cargos na administração pública e, apesar disso, simultaneamente chefões de bandos criminosos; derrubou o próprio chefe de Polícia Civil, e deixou um ambiente muito instável.
Em São Paulo, a par dos assaltos que inquietam, por sua persistente e fácil repetição em centros de comércio e moradias de padrão alto, verifica-se o êxito com que a polícia aderiu ao empreendedorismo que é moda paulista: os melhores preços de máquinas de caça-níqueis e outros jogos, dessas proibidas que a polícia apreende, são oferecidos em uma delegacia de Osasco.
Máquinas usadas, sim, porque apreendidas, mas em ótimo estado, depois de revisadas e reparadas bem junto da delegacia. E vendidas ao preço médio e módico de R$ 400, em lotes, se assim quiser o contraventor. Máquinas expostas para os interessados na própria delegacia.
Em Goiás, a Polícia Federal prendeu o próprio subcomandante da PM, um tenente-coronel e 18 policiais, acusados de integrar um dos mais ferozes grupos de matadores na região de Brasília, inclusive de mulheres sem envolvimento criminal e de crianças.
Visados pela mesma investigação estão ainda dois ex-secretários de Segurança, um deles, Ernesto Roller, ex-candidato a vice-governador e atual procurador-geral de Goiás.
Em Minas, foi identificado um esquadrão da morte composto por policiais. Na Bahia, bem, no Brasil todo, pronto, o dia a dia é o mesmo. Todos os dias. Mas ninguém no Brasil tem ideia do que é esse Brasil, por falta de notícia. Só os casos com alguma peculiaridade, como aqueles acima, tornam-se notícias, e nem sempre. Sem aquela ideia básica, porém, a percepção da insegurança só pode ser muito localizada. A noção de que os crimes violentos e a corrupção avançam pelo país todo fica nebulosa.
E, com isso, tanto as reivindicações como as providências contra a criminalidade violenta e contra a corrupção limitam-se ao circunstancial, episódios localizados respondendo a episódios que, de fato, não são episódicos: são a parte momentaneamente exibida de um todo nacional.
E a verdade é que ninguém sabe o que fazer contra essa realidade vulcânica, por falta até de conhecê-la.

GOSTOSA

DEMÉTRIO MAGNOLI

Culturas e ditaduras

 DEMÉTRIO MAGNOLI

O Estado de S.Paulo - 17/02/11

"Mudamos nosso destino. Foi uma conquista da nossa geração." Em meio ao júbilo que tomou as ruas do Egito, um manifestante explicou que eles se sentiam "acima da Lua". As imagens da explosão de euforia tiveram impacto no Brasil. Naquele dia, por aqui, as pessoas comuns declaravam-se mais felizes. Por meio desse pequeno milagre que é a empatia humana, elas viram a si mesmas nos rostos e nos olhos dos egípcios. Quase todos com idade para isso enxergaram mais longe: viram, na Praça Tahrir, os contornos das multidões de alemães que, mais de duas décadas atrás, derrubaram a golpes de picareta o Muro de Berlim.

Quase todos, mas não todos, pois a ideologia é um ácido capaz de corroer a empatia. "O Egito não está preparado para a democracia", ouviu-se aqui e ali, na transposição do senso comum de um conceito corrente, difundido por respeitáveis analistas, que assevera a incompatibilidade entre a "cultura árabe" e o império da liberdade política. Cultura é uma palavrinha de mil e uma utilidades. A "cultura alemã" ("ocidental"?) seria um fundamento para a revolução democrática de 1989 ou para a revolução nazista de 1933?

A invocação incessante da cultura reflete uma forma singular de cegueira. Alguns viram, na revolução egípcia, não uma expressão amplificada das manifestações democráticas no Irã de 2009, mas a reprodução da trajetória da Revolução Iraniana de 1979. No Egito, não se verificaram cenas comparáveis às das massas que, em Teerã, seguiam estandartes com a imagem do aiatolá Khomeini. Mas eles enxergam apenas aquilo que mostram seus óculos ideológicos - isto é, a "insurreição dos muçulmanos". Árabes aqui; persas acolá - não são todos, no fim das contas, fiéis do Islã? A sentença irrevogável desses analistas expressa a tese dos arautos da "guerra de civilizações": Islã e liberdade política são termos imiscíveis.

"Olhe a cultura!", advertem nossos antiamericanos viscerais, sempre propensos a incensar a ditadura iraniana: "aquilo que é bom para nós não se adapta à sociedade deles." Lula, afinal, não mencionou as diferenças de "costumes" para flertar com o apedrejamento? A "cultura islâmica" figura como argumento oficial da teocracia iraniana na legitimação de seu regime. No mesmo Irã, mas antes de 1979, apelava-se à "cultura persa", pré-islâmica, para justificar a ditadura pró-ocidental do xá Reza Pahlevi. Culturas, tantas culturas...

"Hosni Mubarak ou o caos." O teorema, reiterado pelo ditador do Egito durante 30 anos, repousa sobre a chave mágica da cultura. "Caos", no caso, é o espectro do fundamentalismo islâmico, corporificado na Irmandade Muçulmana. Na incubadora proporcionada pelas ditaduras pró-ocidentais no mundo muçulmano, sob a luz fria do teorema culturalista, nasceram as árvores do jihadismo contemporâneo. Ayman al-Zawahiri, o egípcio que escreve os manifestos da Al-Qaeda, também manipula a chave da cultura - girando-a, porém, no sentido inverso.

"Depois de Mubarak, a Irmandade Muçulmana", alertam os neoconservadores nos Estados Unidos. Islã, fundamentalismo e jihadismo são termos interligados, mas não idênticos. Há quatro décadas, uma cisão separou os seguidores de Sayyd Qutb da corrente principal da Irmandade Muçulmana. Os primeiros fermentaram o caldo do jihadismo, produzindo a Jihad Islâmica, no Egito, e o embrião da Al-Qaeda, na Arábia Saudita. Enquanto isso, proscrita e perseguida, a Irmandade iniciava uma longa jornada de reflexão doutrinária. Uma encruzilhada crucial foi ultrapassada pela condenação inequívoca, sistemática, do terror "islâmico". Hoje, os Irmãos encontram-se no limiar de uma segunda escolha, entre fundamentalismo e democracia.

"O Egito cairá no colo da Irmandade Muçulmana", adverte o Estado de Israel. O Egito é uma sociedade mais complexa do que sugere o quadro bicolor do culturalismo. Durante todo o século 20, correntes liberais e socialistas moldaram uma paisagem política diferenciada, plena de matizes. A Irmandade obteve 20% das cadeiras no Parlamento em 2005, na única oportunidade em que a ditadura lhe permitiu concorrer apresentando candidatos independentes. Ela não representa a maioria dos egípcios, mas expressa a vontade de uma minoria relevante. Obviamente, não haverá no Egito uma democracia digna desse título sem a admissão legal do partido dos Irmãos.

Israel usa o argumento da cultura com a finalidade de prolongar a vigência de uma política insustentável de ocupação da totalidade da Palestina histórica. Para consumo público, seus dirigentes acenam com a ameaça improvável de um Egito aliado ao Hamas, o partido palestino fundamentalista oriundo de uma costela da Irmandade Muçulmana. Entre quatro paredes, contudo, eles temem o desdobramento da revolução árabe na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Como reagirá Israel se os palestinos, que são árabes, desistirem do sonho nacionalista de um Estado soberano e, como os egípcios, tomarem as ruas para reivindicar direitos políticos iguais no conjunto Israel/Palestina?

Turquia, não Irã - eis a pista apropriada para a especulação sobre o futuro do Egito. A Turquia é governada pelo Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), que emanou de sucessivas cisões e revisões do fundamentalismo islâmico turco. Numa via de dupla mão, o AKP nutriu-se da democratização da Turquia e contribuiu para a dissolução do autoritarismo militar que lastreava a república laica fundada por Kemal Ataturk. A facção majoritária da Irmandade Muçulmana interpreta a experiência turca como uma saída possível para o seu dilema. O jihadismo, ao contrário, enxerga na Turquia uma ameaça existencial: a síntese entre a cultura muçulmana e a democracia.

A história multissecular da reforma do Islã conhece uma aceleração no Egito. Os arautos ocidentais da "guerra de civilizações", presos à armadilha culturalista, nada têm de útil a nos dizer sobre isso.

SOCIÓLOGO E DOUTOR EM GEOGRAFIA HUMANA PELA USP.

ROBERTO MACEDO

Trem-bala, trem doido

 ROBERTO MACEDO

O Estado de S.Paulo -17/02/11

Pode parecer estranho que este mineiro seja contrário ao projeto do Trem de Alta Velocidade (TAV) que ligaria Campinas ao Rio de Janeiro via São Paulo, porque sabidamente gostamos de trens. Contudo, esse TAV merece a execração de todos os que se empenham no uso de recursos públicos em projetos que econômica e socialmente se justifiquem. E que também não se conformam em ver um projeto deste alcance - e de nome também apropriado à ligeireza de seu preparo - que se quer empurrar goela abaixo da sociedade sem uma ampla e profunda discussão, provavelmente temida pelo governo pelo que traria de contraditório.

Como economista, sou também alérgico a uma proposta que não passaria pelo exame de um curso de análise econômica e social de projetos, tamanhos os despautérios que apresenta. Em Portugal, 28 economistas de prestígio assinaram em 2009 manifesto contrário a projetos locais desse tipo. Na linguagem típica de seu país, e com fundamentos nessa análise, há um diagnóstico que vejo também aplicável ao Brasil. Assim, afirmam que "...estudos parcelares disponibilizados sobre a sua rentabilidade econômica e social (mesmo se baseados em pressupostos optimistas), mostram que sua contribuição previsível para a essência econômica do País é muito diminuta, e pode ser até amplamente negativa em termos de Rendimento Nacional. E tem elevados custos de oportunidade no que toca aos fundos públicos, aos apoios da União Europeia e aos financiamentos (dívida externa) da Banca Nacional e do Banco Europeu de Investimentos. ...Tais estudos também evidenciam que, pelo menos na primeira década de exploração, não haverá procura suficiente para a rentabilização econômica e social de tão pesados investimentos. Irão originar, por conseguinte, prejuízos de exploração significativos, a serem suportados pelo contribuinte." (www.static.publico.clix.pt/docs/economia/apelo_economistas.pdf).

Transpondo essa avaliação para o projeto do TAV brasileiro, quanto aos fundos públicos eles serão imensos. Estima-se que o valor presente do custo para o erário seria, na hipótese mais otimista, de R$ 14 bilhões e, na mais pessimista, de R$ 36,4 bilhões. Ora, a própria discrepância desses números revela os enormes graus de incerteza e de risco que marcam o projeto, além de a experiência nacional mostrar que hipóteses pessimistas de custo são as mais atingidas, e frequentemente ultrapassadas.

Quanto ao "custo de oportunidade", ou seja, relativamente a projetos alternativos, não é preciso muita ciência para perceber que nessa área de transportes os recursos previstos para o TAV poderiam encontrar retorno econômico e social muito maior. Em particular, se aplicados nas grandes cidades ao transporte de passageiros que nelas gastam várias horas se locomovendo no vaivém de casa para o trabalho, entre outros movimentos.

Não há como resolver esse problema, que exige redes metroviárias entre outros vultosos investimentos, apenas com recursos estaduais e municipais. Supondo que o custo do TAV alcançasse perto de R$ 40 bilhões, isso daria para fazer 100 km de metrôs nessas cidades, a um custo estimado para São Paulo. Contudo, o governo federal, com os muito maiores recursos de que dispõe relativamente a esses outros entes federativos, deixa-os à míngua nessa área, e quer porque quer levar adiante esse TAV baseado em benefícios no plano das miragens.

Quanto à Banca Nacional, no caso o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), prevê-se que este abriria suas torneiras de recursos e subsídios para o financiamento do TAV, a um custo de R$ 4,8 bilhões só no segundo item. E há mais subsídios, pois, para garantir a realização do leilão do TAV, o governo vem estimulando interessados, que não são bobos, por meio de garantia da demanda de passageiros, a um custo que poderá alcançar R$ 5 bilhões.

Em contraponto ao projeto, no Brasil o economista que mais se tem destacado é Marcos Mendes, doutor em Economia pela USP e consultor legislativo do Senado. A última versão de sua importantíssima contribuição, da qual retiramos alguns dos números acima, pode ser consultada em www.senado.gov.br/senado/conleg/textos_discussao/NOVOS%20TEXTOS/Texto82-Marcos%20Mendes.pdf.

Na mais recente cartada para atrair interessados na empreitada, o governo federal novamente forçou a barra e na aventura envolveu tanto os Correios como a Eletrobrás como participantes. O grande mistério do projeto é que forças o levam adiante em Brasília. Transparecem governantes megalomaníacos, políticos inescrupulosos, construtoras e investidores em alvoroço e traços de uma futura grande festa regada a doações para campanhas eleitorais.

De estranhar também a atitude do tradicional lobby ecológico, estimulado também de fora para dentro do País, que se manifesta tão agressivamente contra novas hidrelétricas na Amazônia, mas tem praticamente ignorado o TAV, apesar dos enormes danos ambientais que traria à região de seu trânsito. Ele não admite passagens de nível, exige cercas fortificadas, muitas linhas retas e curvas de grande arco, atropelando assim o que viesse pela frente, como nascentes, córregos, rios, várzeas, mata nativa e tudo o mais. Tampouco as comunidades em torno do trajeto projetado acordaram para esses e outros danos, inclusive a possibilidade de sua divisão em partes.

E mais: com o projeto e seu leilão para abril retomando velocidade, o TAV já segue na contramão fiscal mesmo antes de ser construído. A atitude do governo, que hoje se diz seriamente empenhado em ajustar suas contas a uma grave realidade, inclusive no plano da inflação, não condiz com seu renovado empenho no projeto. Sua tarefa hoje é recuperar a confiança da sociedade na sua política econômica, o que é indispensável à eficácia dela e que um trem doido como esse só pode atrapalhar.

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR ASSOCIADO À FAAP E VICE-PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO.