quarta-feira, janeiro 19, 2011

JOSÉ NÊUMANNE

O marketing cínico do dilúvio anunciado
José Nêumanne 
O Estado de S.Paulo - 19/01/11

Os números assustadores da tragédia provocada pelas enxurradas que se seguiram aos temporais na serra fluminense (o dobro dos mortos das similares em 1967, quando a área atingida ficou restrita apenas a Petrópolis) fazem emergir da lama que deslizou montanha abaixo, destruindo tudo e enlutando famílias, constatações e reflexões que, mesmo inúteis e inócuas, não podem deixar de fluir.

A primeira pergunta sem resposta é a que estabelece uma conexão entre a ameaça à camada de ozônio pelo aquecimento global e fenômenos meteorológicos como esses. Chove desde que o mundo é mundo e chuvas como as que desabaram sobre a formosa área acontecem desde o tempo em que o calor das fogueiras de nossos ancestrais caçadores certamente não ameaçava a camada de ozônio nem alterava o rumo ou o volume de correntes marítimas e tampouco causava tempestades. Não dá para garantir nem para negar que aguaceiros de tal porte possam ter caído no tempo das cavernas e desabrigado algumas famílias de habitantes primitivos daquelas plagas. Mas não se podem comparar esses eventos na Pré-História com este num planeta superpovoado, onde aquele privilegiado conjunto de morros e vales é disputado por qualquer apreciador de uma bela vista - o pobretão da favela ou o ricaço capaz de construir sua mansão na encosta. Para o primeiro vale a advertência que começou a ser feita desde que os refugiados da Guerra de Canudos, não tendo onde morar, fincaram suas choças nos morros que ornam a Baía de Guanabara, que encantou Cole Porter, e chamaram seus arruados de "favelas", em homenagem a um arbusto do sertão.

É claro que a ocupação de áreas de risco pelos carentes de moradia é um drama que se amplia na proporção em que aumentam as famílias que não têm onde morar e mínguam as habitações que elas podem adquirir ou construir. Em metrópoles como Rio e São Paulo, restam-lhe poucas alternativas às encostas sobre as quais a ganância da indústria imobiliária ainda não depositou suas ambições de enriquecimento. Em regiões aprazíveis e próximas de um grande centro, caso da preferida pela família imperial para se refugiar da canícula litorânea, não há escolha para os pobres de Jó que improvisam seus tetos ou a burguesia endinheirada em busca de paz, conforto e ar puro. Em Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo e adjacências, barracos ou palacetes não podem ser construídos em planuras, porque planuras não há. Há, sim, montanhas que sobem para o céu e descem para o vale. E vales que, debaixo das encostas, aguentam o peso do lodaçal que desliza quando a vegetação não consegue conter o desbarrancamento e desce a avalanche.

Sob o peso monumental dessa lama desmoronam barracos de lata e sólidas construções centenárias. Reclamar da ocupação indiscriminada de mananciais e áreas de risco com a cumplicidade da politicagem demagógica é chover no molhado, mas necessário. Porque não há tragédia coletiva que mobilize um homem público brasileiro em posto de mando a desafiar os carimbadores de fatos consumados e os grileiros da boa-fé do populacho sem teto.

No caso da serra fluminense, o buraco fica bem mais embaixo e o lamaçal vem de muito mais acima. Esta tragédia de proporções ainda não totalmente conhecidas mostra que não há áreas sem risco no território atingido. A serra só não é arriscada em sítios selvagens onde não existam prédios, pessoas, bens ou animais. Essa evidência não inutiliza a necessidade da responsabilização com nome, endereço, cargo e eventual pena em caso de culpa para os homens públicos que compram seus mandatos ao custo da mortandade nas tragédias das chuvas de verão. Mas torna relativa a justificativa única da permissão de construir em lugar impróprio, pois ali, como esta chuva mostrou, nenhum é apropriado.

Então, que fazer? Adquirir aparelhos de previsão meteorológica para permitir que cidades sejam evacuadas antes que o céu desabe sobre as montanhas? A tecnologia salva vidas, mas seu poder de fazê-lo é limitado. A constatação sazonal de que as autoridades locais foram avisadas pelos técnicos de que choveria é aleivosa, porque não há prefeito capaz de evacuar uma cidade do tamanho de Petrópolis cada vez que a meteorologia previr não o dilúvio universal, mas "chuvas de moderadas a fortes". Se muitos habitantes da região se recusam a deixar casas dependuradas no abismo e isoladas pela lama, como imaginar que alguém, de sã consciência, possa convencer almas contadas aos milhares a abandonarem seus lares? E irem, aliás, para onde? Para o sambódromo? Para o Maracanã? Ora, essa!

O que revolta é ler a promessa de Dilma agora, que, feita por Lula há cinco anos, nunca foi cumprida, de instalar um infalível sistema de alerta para prevenir tragédias como esta. Pois se trata de marketing improvisado que escarnece da dor das vítimas. E saber que aquela região não dispõe de um plano B similar ao treinamento que os bombeiros fazem para prevenir incêndios em prédios. Pior: União, Estados e municípios apelidam de defesa civil algo que não defende ninguém de nada, e sempre termina sobrando para militares destreinados que correm feito baratas tontas de um lado para outro, ajudando heroicamente alguns, mas sem organização capaz de promover uma eventual evacuação improvável ou de socorrer as vítimas do dilúvio anunciado.

O Estado brasileiro é incompetente para prevenir e para remediar porque não estuda, não trabalha, não treina e não aprende com as tragédias pretéritas para evitar que as futuras sejam ainda maiores. Militares e civis limitam-se a garantir a própria impunidade no discurso vago e impessoal, repetido e pluripartidário dos mandatários de plantão. É uma situação vergonhosa que só poderia ser amenizada se esses maganões fossem identificados e punidos na forma da lei. Mas como fazê-lo, se são eles que fazem as leis?

TETAS

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Avanço da internet no celular esbarra em pré-pago
MARIA CRISTINA FRIAS

FOLHA DE SÃO PAULO - 19/01/11

A expansão dos serviços de internet e o uso de aplicativos em celulares encontra obstáculos para se adaptar ao volumoso mercado de telefones pré-pagos do Brasil.
Com cerca de 160 milhões de aparelhos no país, os pré-pagos representam aproximadamente 80% do mercado brasileiro -nos EUA a penetração deles é só de 20%.
"O massivo uso de dados por pré-pagos é uma preocupação na área", diz Maurício Falck, da Amdocs, multinacional de tecnologia do setor.
O modelo de cobrança e a comunicação com o usuário são alguns aspectos que precisam ser aprimorados, segundo Erasmo Rojas, da 4G Americas (associação que reúne o setor).
Outra dificuldade é a renda, segundo Eduardo Tude, da consultoria Teleco.
"O gasto mensal desse cliente é baixo, assim como seu poder aquisitivo para comprar o aparelho smartphone. As operadoras vão privilegiar primeiro o pós, enquanto ampliam a capacidade das redes ", diz Tude.
O ideal seria que o mercado se revertesse em majoritariamente pós-pago, para facilitar a cobrança. Mas a inversão levaria muitos anos, segundo Rojas. Sistemas híbridos de cobrança, que aliam pagamentos anteriores e posteriores ao uso, são uma opção, segundo Falck.
Mais de 70% das empresas do setor dizem que querem incluir novos serviços de pacote de dados e conteúdo segundo pesquisa da Amdocs.
O modelo híbrido deve ser oferecido por 63% delas.
A pesquisa aponta que os sistemas de cobrança e infraestrutura atuais estão defasados. Quase 50% das empresas dizem ser necessárias mudanças em plataformas.

Confiança em pequenas e médias cresce no Brasil

O HSBC lança amanhã o Índice de Confiança das Pequenas Empresas SBCM (Small Business Confidence Monitor), uma pesquisa semestral desenvolvida pela subsidiária do banco em Hong Kong.
O principal resultado da pesquisa é a continuidade do aumento da confiança nos negócios das pequenas empresas dos mercados emergentes, que passou de 122 pontos para 126 pontos de julho a dezembro de 2010.
O índice varia de 0 a 200 pontos, o maior nível de confiança. Abaixo de 100, o indicador aponta área negativa.
A América Latina e um conjunto de quatro países árabes (Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes e Qatar) registram o maior aumento no indicador.
O Brasil, com 129 pontos e alta de nove pontos em relação a julho de 2010, está em sétimo lugar dentre os países que mais subiram no índice.
Quase um terço das pequenas e médias empresas pesquisadas na América Latina planejam se tornar internacionais, segundo o banco.
O índice de confiança na Ásia quase retomou o nível anterior ao da crise financeira, conforme a pesquisa.
Quedas de confiança foram registradas no indicador global (118 pontos para 114 pontos) e no dos países desenvolvidos (115 para 105).

PÉ NO ASFALTO

O grupo português Auto Sueco amplia presença no Brasil. A empresa comprou em junho passado a Vocal, revendedora de caminhões e ônibus da Volvo, e agora inicia a expansão da rede.
Com investimentos de R$ 16 milhões, o grupo vai inaugurar em fevereiro uma concessionária em Guarulhos (SP). Será a oitava unidade da rede no Estado de São Paulo.
A concessionária será instalada em uma área de 20 mil m2, dos quais 5.000 m2 serão de área construída.
"Para 2011, a missão será consolidar a presença em território paulista", diz Mário Oliveira, responsável pela Vocal no Brasil.
O grupo Auto Sueco está presente em 12 países, na Europa, na África e nas Américas, e atua na comercialização de automóveis e caminhões, no setor de reparação de vidros, reciclagem de pneus, entre outros.
"Pelo potencial de crescimento da economia e pelos investimentos em infraestrutura, o Brasil terá, cada vez mais, papel de destaque para o grupo", diz Oliveira.

Medicamento... 
A Furp (Fundação para o Remédio Popular), laboratório oficial da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, teve em 2010 o melhor semestre da história e superou em 30% a média de anos anteriores.

...popular 

Mais de 1,3 bilhão de unidades farmacêuticas foram fabricadas de julho a dezembro. O número é resultado de ações de modernização do processo fabril. A Furp se prepara para iniciar as atividades da fábrica em Américo Brasiliense, que está em fase de certificação pela Anvisa.

Desistência 

Quase 30% das pessoas que visitaram o varejo no final do ano deixaram de gastar uma média de US$ 132 por problemas relacionados ao atendimento, falta de produto e de atendente e longas filas, segundo pesquisa mundial da Motorola Solutions com a Research Now.

Viajante...
 
A Bradesco Saúde lança o serviço Bradesco Saúde Concierge, as Vacinas do Viajante. O cliente pode solicitar vacinas recomendadas para seu destino, seja no Brasil ou no exterior.

...vacinado 

O serviço pode ser feito em domicílio ou em clínicas selecionadas do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Belo Horizonte.

Tecido 

O polo têxtil e confeccionista de Santa Catarina fechou 2010 responsável por 21% do volume produzido no país, segundo o Iemi (Instituto de Estudos e Marketing Industrial). A região registrou, nos últimos três anos, crescimento de 12,5% em seu parque fabril.

NORDESTE ATACADISTA
O Nordeste dobrou a sua participação no comércio brasileiro no atacado nos últimos dois anos, segundo estudo da consultoria Nielsen.
A região passou a ser responsável por 26% dos gastos do setor em 2010.
Com isso, o Nordeste é o principal responsável por compras no atacado, de acordo com a pesquisa.
Até 2009, a liderança era da Grande São Paulo, cuja participação atual é de 23%.
Desde 2008, o mercado atacadista cresce no Brasil. A consultoria estima que, desde então, 3,1 milhões de residências passaram a realizar suas compras dessa maneira.
No que diz respeito aos supermercados, as compras no atacado subiram de 18% para 26% em dois anos.
O aumento do gasto médio da população brasileira é o principal motivo para a ocorrência desse fenômeno.
No período, cada extrato social passou a gastar ao menos 12% a mais com compras, diz a Nielsen.
A frequência com que as pessoas das classes média e baixa vão ao supermercado cresceu, desde 2008, 14% e 16%, respectivamente, afirma a consultoria.

Com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK e VITOR SION

TONY VOLPON

Quem está perdendo a guerra cambial?
Tony Volpon

VALOR ECONÔMICO - 19/01/11

Como vai o Brasil na guerra cambial? Olhando somente para o dólar, parece que não muito bem: afinal, ele está perto dos níveis vistos no fim de outubro, quando o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou a imposição de um IOF de 6% sobre os investimentos estrangeiros em renda fixa, apesar das fortes intervenções recentes e da volta do swap reverso. Mas olhar somente para o dólar não é o suficiente para julgar o sucesso das políticas aprendidas para lutar essa guerra. Afinal, o fato de o câmbio se encontrar hoje perto dos níveis de outubro pode ser usado para concluir tanto que o uso de controle de capitais foi um fracasso, como o oposto, que precisamos de mais controles.

De fato, o ministro da Fazenda, Guido Mantega tem argumentado insistentemente que o dólar estaria muito mais baixo não fossem as medidas tomadas. Isso parece ser com certeza verdade: o governo tem tido sucesso em segurar a taxa nominal do dólar. Mas a que custo?

Precisamos ver um conjunto maior de dados para julgar a eficácia das medidas tomadas pelo governo nesse momento conturbado da economia internacional. Para definir quais, tomamos como definição de "guerra cambial" a tentativa dos Estados Unidos de usar a prerrogativa de deter a moeda reserva mundial para desvalorizar o dólar em termos reais e, dessa maneira, transferir demanda agregada para sua economia.

Desde a segunda metade do ano passado, com o anúncio de novas medidas quantitativas pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano), o principal canal de transmissão para as economias emergentes tem sido os mercados de commodities. De junho 2010 até o final do ano, o índice Commodity Research Bureau (CRB) subiu 28%, causando forte impulso inflacionário.

Nesse caso, economias emergentes, como o Brasil, sofrem pressão sobre suas taxas de câmbio por dois mecanismos. Primeiro, por ter índices de preços com forte participação das commodities, as economias emergentes registram mais acentuadamente altas nos seus preços. Segundo, no caso de serem exportadoras de commodities, a alta nos preços causa o aumento da renda real, que leva à apreciação da moeda local.

Para julgar então quem está perdendo a guerra cambial (já que os EUA, detentor da moeda reserva mundial, por definição é quem "ganha"), temos que olhar um conjunto de dados de inflação, câmbio e juros. Um país pode tentar impedir a apreciação da sua moeda, mas se isso resultar em forte aumento na inflação local, a moeda vai valorizar em termos reais de qualquer maneira, danificando a competitividade. Olhar somente para a mudança da moeda em termos nominais não basta.

Por isso, recente estudo abrangendo sete países emergentes - Brasil, China, Índia, México, Turquia, Coreia do Sul e África do Sul - avaliou as mudanças causadas no desempenho da inflação, juros e câmbio durante a segunda metade de 2010 como também as mudanças nas expectativas para 2011.

A inflação média nos sete países subiu 1,15% entre os períodos de agosto-novembro de 2010 e o início do ano, com a Turquia mostrando o maior aumento. Em termos de mudança de expectativa de inflação para 2010 como um todo, o Brasil teve o pior desempenho, mas a Turquia ficou pior na previsão para 2011.

No câmbio, a África do Sul registrou a maior valorização nominal de sua moeda entre junho e dezembro de 2010; e o Brasil ficou em segundo lugar. Em termos reais (isto é, levando em consideração o diferencial entre a inflação local e a do EUA), mais uma vez a África do Sul ficou em primeiro lugar, seguida pela Turquia e pelo Brasil.

Em termos da política monetária, levou-se em conta tanto as mudanças nas expectativas para 2010 e 2011 como os juros praticados no mercado (vértice de um ano). Nesse quesito, a Índia e o Brasil tiveram o pior desempenho.

A conclusão do estudo é que o Brasil, dos sete países, apresentou o pior resultado total, com maior inflação, câmbio mais apreciado e juros maiores. A Índia junto com a China chegaram atrás, mas com boa distância do Brasil. Apesar das insistentes afirmações do governo, o Brasil é o maior perdedor da guerra cambial, mesmo sem se levar em conta o custo fiscal da guerra cambial, o que sem dúvida ampliaria as perdas do Brasil.

Por que o Brasil esta perdendo a guerra cambial? Isso se deve à inconsistência da política econômica. Com a imposição do IOF e a ação do BC no mercado de câmbio, a partir de outubro, o governo impediu que o dólar caísse. Mas isso levou a um maior repasse da alta das commodities na inflação interna, em um ambiente econômico de demanda aquecida.

Agora, a partir do último relatório de inflação, o Banco Central (BC) parece indicar o início de mais um ciclo de alta da Selic, o que tem elevado os juros e ajudado a derrubar o dólar, que volta aos níveis de outubro 2010, acabando com o temporário efeito positivo com a imposição do IOF. A mudança de ênfase do câmbio para a inflação tem levado o Brasil a ter o pior desempenho dos países pesquisados.

Se tivesse deixado o dólar cair com a alta de commodities, teríamos hoje menos inflação e provavelmente poderíamos limitar, se não totalmente evitar, a alta de juros que o Banco Central parece pronto para iniciar. A inflação vai acabar sendo a maior vítima da guerra cambial deflagrada pelo governo brasileiro, exatamente como deseja os estados Unidos. Diferente da Turquia, que tem perseguido uma política consistente, embora também arriscada, de proteger sua moeda e baixar os juros apesar dos riscos inflacionários, o Brasil tenta atingir metas implícitas incompatíveis, perdendo nas duas.

Tony Volpon é chefe da área de pesquisas de mercados emergentes da Nomura Securities International, Inc.

GOSTOSAS

ELIO GASPARI

O aviso de Priscila, de Friburgo
ELIO GASPARI

O GLOBO - 19/01/11

Como diria Sérgio Cabral, o que houve na serra fluminense foi a "crônica da morte anunciada"


ESTE ARTIGO é um caso de apropriação indébita. Deveria ser assinado pela repórter Priscila de Lima, do site "Nova Imprensa" (novaimprensa.com.br), de Friburgo. Adiante vai seu texto, publicado no dia 25 de novembro do ano passado. Do signatário, são só as observações entre parênteses.
"Após 8 horas de chuva constante na madrugada do dia 21, a população de Nova Friburgo está apreensiva em relação ao início do período de chuvas. (...) O ponto de alagamento mais crítico no município continua sendo o distrito de São Geraldo que, apesar das obras do Programa de Aceleração do Crescimento estarem em andamento, em várias ruas ainda sofre com as inundações."
(Com a enchente de janeiro, os córregos de São Geraldo transformaram-se em cachoeiras, e as áreas planas, em igarapés. Casas foram cobertas pela água e moradores ilhados pediam comida. Os desabrigados reuniram-se na 5ª Igreja Batista, junto com 13 mortos.)
"Em algumas áreas, os bueiros não suportaram o volume de água, e as ruas ficaram alagadas. (...) O centro e os bairros de Duas Pedras, Solares e Amparo também tiveram ocorrências de deslizamentos, estragos e alagamentos em pequenas áreas."
(O pedreiro Leandro perdeu a casa, a mulher, a mãe e o filho de dois anos, mas juntou-se às equipes de resgate, orientando pilotos de helicópteros. Ele tinha água na cintura quando chegou a Duas Pedras. Está no YouTube.)
"De acordo com dados divulgados pela Defesa Civil de Nova Friburgo, de domingo a quinta-feira foram feitas 97 solicitações de vistoria. No domingo, 21 [de novembro], foram registrados mais de 60 mm de chuva das 6h às 8h30. Em outro ponto da cidade, o nível de água atingiu 80 mm no mesmo período.
O distrito de Campo do Coelho foi o que apresentou o maior índice do município, chegando a 90 mm."
(Em janeiro, os bombeiros só conseguiram chegar ao Campo do Coelho três dias depois da enchente. Moradores se mobilizaram e resgataram cerca de 110 pessoas. Quarenta morreram.)
"O subsecretário de Defesa Civil, tenente-coronel bombeiro militar Roberto Robadey, disse que, para evitar transtornos, a população deve tomar medidas simples:
"É fundamental que as pessoas não joguem lixo ou qualquer outro tipo de resíduo nas ruas (...). A Defesa Civil tem trabalhado também na divulgação do uso do pluviômetro caseiro, que consiste em uma garrafa pet com uma régua.
Esse material capta a chuva e permite que o próprio morador observe o nível de água que representa risco para ele, ou seja, o registro de até 40 mm não consiste em perigo de deslizamento de um barranco, por exemplo. A partir dessa medição o morador pode tomar a decisão de sair de sua casa para um local mais seguro"."
(Conclusão: o povo joga lixo onde não deve e, quando o pluviômetro caseiro ultrapassa 40 mm, continua em casa. Ir para onde, ninguém diz. Nem a Defesa Civil de Friburgo ou a do Estado tomaram providências em novembro, muito menos em dezembro, até que, em janeiro, quando veio a água, ninguém sabia o que fazer, onde fazer, nem como fazer.
No dia 29 de dezembro, a turma do site Nova Imprensa informou que tentou ouvir o secretário de obras de Friburgo, Hélio Gonçalves, mas ele não estava na cidade. No início do ano, o governador Sérgio Cabral estava no exterior.)

EDITORIAL - FOLHA DE SÃO PAULO

A volta do tesoureiro
EDITORIAL
FOLHA DE SÃO PAULO - 19/01/11


A nova tentativa de Delúbio Soares de reintegrar-se aos quadros do Partido dos Trabalhadores concatena-se com o intuito declarado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de desmontar a "farsa do mensalão".
Único expulso do PT, em 2005, por "gestão temerária" das finanças da agremiação, Delúbio permaneceu calado nos momentos mais difíceis, em obediência que seria exemplar em qualquer organização stalinista. Quando falou, foi para jurar fidelidade à sigla. "O PT não é um partido", disse ainda em 2005, "é meu projeto de vida".
À medida que o julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal se aproxima, os petistas movimentam-se para receber de volta o homem que arcou sozinho com boa parte da culpa para reduzir danos no governo e proteger autoridades mais altas.
A campanha eleitoral, que impediu a mais recente tentativa do ex-tesoureiro de reingressar no PT, em 2009, terminou com a vitória de Dilma Rousseff. Agora, só uma intervenção dela, na avaliação dos quadros do partido, impediria a reintegração.
Transcorridos cinco anos e meio das revelações sobre o mensalão, o discurso de Lula de que tudo não passou de uma "tentativa de golpe" para apeá-lo do poder encontra ressonância no petismo e em setores da esquerda.
Mas a fantasia se esvanece à simples leitura da denúncia do procurador-geral da República. Formação de quadrilha, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e outros crimes -segundo a peça de acusação- tiveram o intuito de "garantir a continuidade do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores mediante a compra de suporte político de outros partidos e do financiamento futuro e pretérito de suas próprias campanhas eleitorais".
O possível retorno de Delúbio Soares objetiva fornecer certo amparo partidário ao ex-dirigente. Abandonado na estrada, ele poderia pôr em risco o plano lulista de reescrever a história.
"Nenhuma pena é eterna", afirmou o líder do PT na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza, um dos entusiastas da reabilitação do ex-tesoureiro. A frase é tanto mais verdadeira para os apaniguados do petismo, sempre agraciados pela mão acalentadora de Lula.

MERDA

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Rebuliço
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 19/01/11

O STJ deve concluir no mês que vem julgamento, já em fase de recurso, de um caso que pode inverter a jurisprudência relativa a ações de fraude de execução fiscal. Depois de cerca de 20 anos de precedência, a Fazenda Pública está conseguindo mudar o entendimento sobre bem penhorado, mas adquirido por comprador de boa-fé.

Se mantida a decisão, quando o indivíduo obter um bem, mesmo sem saber que o vendedor deve à União, corre risco de vê-lo ser tomado pela Fazenda.

Rebuliço 2

O argumento é que o interesse público deva prevalecer em relação ao privado. O caso modelo, que pode deixar muito investidor temeroso, é o de uma moto, já no terceiro dono.

Irmãos coragem

Geddel Vieira Lima, ex-ministro da Integração Nacional de Lula, quer emplacar na Câmara dos Deputados projeto para coibir moradores de ocupar áreas de risco: não disponibilizando fornecimento de água e luz. Sugerirá também o corte do recolhimento de IPTU nessas áreas? "Ainda não pensei sobre isso, mas é um tema para se levar ao debate." Se Geddel está sem cargo, como fará o projeto avançar? "Pelo meu irmão, o Lúcio, que é deputado federal", afirma. Os dois são do PMDB baiano.

Porta de entrada
Silvio Torres, secretário da Habitação, convidou Marcos Penido, homem forte de Kassab, para ser seu adjunto. Penido aceitou prontamente.

Psiu

As mães da Maternidade São Luiz andam sofrendo. E não tem nada a ver com efeito pós-parto. É que a lanchonete está sendo reformada e fica... bem ao lado de um dos berçários. Segundo relatos, há barulho de serra elétrica aos domingos. E a partir das 8h30.

Psiu 2

O hospital afirma que a reforma é parte de expansão da ala e pede desculpas pelo desconforto gerado. Adianta, ainda, que as obras já estão quase concluídas.

Avanço
Pedro Hertz se prepara para anunciar a abertura de novas livrarias Cultura fora do Estado. Onde? Ele não abre nem por um autógrafo de Shakespeare.


Caça-talentos

Agnès Wildenstein, do comitê de seleção do Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça, vem à mostra de Tiradentes com missão: entrar em contato com a produção de jovens cineastas. "Será importante no preparo da seleção da nossa próxima edição, que acontece em agosto", avisa. O evento mineiro começa sexta e tem mais de 130 filmes.

Silêncio dos inocentes
Para quem estranha o silêncio de Andrea Matarazzo sobre o caso Cine Belas Artes, a explicação: é que ele emprega na Secretaria de Cultura uma parte interessada.

André Sturm, dono das salas, é coordenador de Difusão Cultural.

A vida é bela
Sturm, aliás, continua a todo vapor. A Pandora, sua produtora, comprou os direitos para lançar Happy Family no Brasil.

O novo longa do italiano Gabriele Salvatores, que levou o Oscar por Mediterrâneo, foi visto por 1 milhão de pessoas na Itália. Estreia por aqui em abril.

Na frenteMarcelo Tas, âncora do CQC, ataca de dublador. Sua voz estará no longa A Floresta É Nossa, de Paulo Munhoz.[17 E 18/12] [/17 E 18/12]

Ada Yonath, Nobel de Química, desembarca hoje na Hebraica. Faz palestra sobre o futuro dos antibióticos.

Carlos Alberto Ferreira Martins foi nomeado diretor do recém-criado Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP de São Carlos.

Chiara Gadaleta comanda o curso Moda Sustentável: Agregando Estilo à Sustentabilidade. Na Escola São Paulo, em fevereiro.

O curso Pró-Ser, de desinibição, está com inscrições abertas no Teatro Escola Macunaíma. No Shopping Eldorado, a partir do dia 4.

Marco Peruzzi comanda as carrapetas no Clube Disco hoje. Em prol das vítimas das chuvas no RJ.

Fernanda do Amaral Gurgel e Bento Kardos são os novos sócios da VML Advogados.

Sabe a calcinha vibratória, que faz a personagem de Ingrid Guimarães "sofrer" no longa De Pernas Para o Ar? Já está à disposição de interessadas. Na Revelateurs.

ANDRÉ MELONI NASSAR

O MDA maior que o Mapa?
André Meloni Nassar 
O Estado de S.Paulo - 19/01/11

Em tempos em que aloprados defendem que tese de que a reforma do Código Florestal ampliará o risco de desastres em encostas, não é muito inteligente colocar na parede quem está do lado dos não aloprados. No entanto, a proliferação de argumentos sem conhecimento de causa sobre o setor agrícola, infelizmente, tem que ver com um comodismo de dentro do setor.

O ministro Wagner Rossi adotou como discurso a modernização do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Ainda é cedo para tirar conclusões sobre como essa modernização será feita, embora a indicação pareça bastante razoável. Mas não é cedo para identificar os desafios que o Mapa tem pela frente para se manter como o Ministério que representa o setor produtivo agropecuário.

Enquanto no Mapa não houve desgaste político para a escolha do ministro, no Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) a escolha foi marcada por disputa interna no PT. O Ministério foi reduto dos representantes do Sul do País, onde nasceu o movimento da agricultura familiar, mas seu crescimento passou a interessar aos representantes do Nordeste, onde se concentra grande parte dos beneficiários dos programas do MDA. Ao contrário do Mapa, o MDA é objeto de disputa de poder político e, como ninguém disputa poder político à toa, fica claro que existe um descompasso entre os dois Ministérios. Muito embora ambos, excluindo as políticas de reforma agrária, executem políticas de natureza similar, diferenciando-se apenas o público-alvo - todos agricultores, é verdade, mas forçosamente classificados em familiares e não familiares.

O primeiro ganha espaço a olhos vistos, tendo sido capaz de implementar diversas novas políticas nos anos recentes. O segundo, com boas ideias e tendo lançado um programa de seguro agrícola, que ainda é muito pequeno, assiste a o primeiro tomar conta de áreas que tradicionalmente eram suas. Na realidade, a política agrícola ainda é responsabilidade do Mapa, mas o MDA vai dia a dia puxando a Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM) para o seu lado e com isso direciona a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) a executar cada vez mais políticas orientadas para os agricultores familiares.

Enquanto o orçamento do Mapa (sem incluir Conab e Embrapa, que operam para os dois, e o Fundo de Defesa do Café) cresceu 80% de 2004 a 2010, o do MDA (excluindo o Incra) cresceu 680%. Vale lembrar que o orçamento do MDA ainda é apenas 25% do do Mapa. O orçamento da Conab cresceu 180% (se fosse até 2009, o crescimento seria de 317%). Boa parte desse crescimento resulta das políticas de apoio aos agricultores familiares e abastecimento da população pobre a partir de produtos comprados desses agricultores.

Agricultores familiares são agricultores como outros quaisquer e, no frigir dos ovos, o que interessa é ter boas políticas para eles, independentemente do Ministério. Mas não há dúvida que o MDA está tomando espaço em áreas tradicionalmente do Mapa.

A menção neste artigo à expansão do MDA não tem caráter ideológico. O MDA está crescendo legitimamente. Seus técnicos souberam aproveitar as lacunas deixadas pelo Mapa em áreas ligadas ao setor agrícola e no meio rural, mas que fugiam da expertise do Ministério: políticas agrícola e de crédito rural com foco em públicos-alvo específicos, política de microcrédito para agricultores de baixa renda, políticas de distribuição de alimentos operadas em conjunto com outros Ministérios e políticas para públicos do meio rural antes negligenciados, entre outras. Mesclando políticas orientadas para o setor agrícola com as de cunho social - muito bem recebidas e alinhadas com dois mandatos de governo do PT -, o MDA vem conseguindo crescer.

O recado deste artigo é, na verdade, para o Mapa. A meu ver, o Ministério tem algumas escolhas que deveria fazer imediatamente para retomar seu papel de liderança. A primeira é buscar excelência nas áreas em que o Ministério tem por função atuar. É o caso da defesa agropecuária e - por que não? - de puxar para si algumas funções da área sanitária e inocuidade de alimentos, que estão em outros órgãos do governo federal. Se operasse nessa área com competência, o Mapa garantiria seu papel de liderança, até porque ela traz consequências para o desempenho exportador do setor agropecuário brasileiro. No entanto, atuando apenas nessa área com competência o Mapa se transformaria, no futuro, no Ministério da Defesa e Sanidade Agropecuária. Parece-me pouco para o histórico do Mapa.

Na área de política agrícola, caberia ao Ministério batalhar pela unificação dos programas hoje executados em separado pelo Mapa e pelo MDA, mesmo que com algum custo político para o primeiro. O que não faz sentido é dois Ministérios brigando por recursos para programas semelhantes só porque, supostamente, os instrumentos têm públicos-alvo diferentes. Não existe racionalidade alguma, exceto de ordem política, para que a PGPM seja executada por uma pasta (Mapa) e o Programa de Garantia de Preços para a Agricultura Familiar (PGPAF) esteja a cargo de outra (MDA).

Existem duas áreas em que o Mapa precisa tomar uma decisão sobre que tipo de inserção pretende ter (se é que pretende ter alguma): políticas que promovam ganho de competitividade internacional para o setor produtivo - e aqui cabe a área de relações internacionais, já existente no Ministério - e questões ambientais e de sustentabilidade relacionadas à produção agrícola.

É hora de o Mapa sair da defensiva no tema ambiental e puxar a responsabilidade para si. Tanto para fechar os espaços tomados pelos aloprados e mal-intencionados quanto para dialogar com o setor produtivo sobre os avanços na área ambiental que precisam ser feitos. Tirando o acrônimo, que não sairia amigável, gosto da ideia do Ministério da Sanidade, Competitividade e Meio Ambiente para a Agropecuária.

DIRETOR-GERAL DO ICONE.

GOSTOSA

MARCELO COUTINHO

Inflação em países emergentes

Marcelo Coutinho 

O Estado de S.Paulo - 19/01/11

Após duas décadas, voltamos a observar uma nova inflação global, agora com origem nos países emergentes. Os sinais desse processo já aparecem inclusive na China. A fonte da inflação são as commodities, elevadas pela crescente demanda asiática e dificuldades locais na produção de alimentos.

A situação dos países em desenvolvimento hoje é completamente diferente da do passado. A crise de 1929, por exemplo, partiu de uma superprodução de alimentos que provocou depressão mundial. O café no Brasil chegou a ser queimado com a queda nas cotações internacionais. Havia uma forte deterioração nos termos de troca que prejudicava a América Latina, enquanto agora se verifica exatamente o oposto.

O aumento do valor de commodities já é objeto de queixas na Europa e entra na agenda do G-20 este ano. O projeto do governo francês de regulação desses mercados é a prova de uma inversão política internacional que resvalará para outras discussões na OMC. Também reside aí o tema da guerra das moedas. Depois de reivindicações de países emergentes, ante a crise nos países ricos, agora os reclamantes se invertem.

Com a saturação das políticas anticíclicas, iniciadas com a crise de 2008, os países estão se lançando para as exportações, o que pode gerar um processo agudo de queda nos preços dos manufaturados. Isso criaria um fenômeno tão curioso quanto imprevisível nas relações econômicas internacionais, com duas situações polares: inflação de alimentos e deflação industrial.

No caso do duplo efeito do aumento no preço do petróleo sobre a economia internacional - nas crises dos anos 1970 - preponderou a força inflacionária. No entanto, a atual realidade desafia a pensar dentro de parâmetros mais profundos de integração dos mercados.

O sistema político internacional deve sofrer mudanças de tendências se a virada nos preços perdurar. As certezas quanto à troca de guarda na ordem mundial a favor dos emergentes ficam abaladas com tantas contradições. Embora seja exportador de produtos básicos, o Brasil tem baixa poupança e depende dos capitais de fora. Tais investimentos se deterioram com o aumento da inflação, fragilizando a estabilidade que fortalece a política externa.

O governo brasileiro se colocou em uma encruzilhada. A valorização do real ajuda a administrar a inflação com importados, destruindo parte da indústria nacional. O aumento dos juros para diminuir a inflação atrai mais capital especulativo e aumenta a pressão monetária. O controle dos fluxos financeiros é útil, mas coloca em risco o balanço de pagamentos quando acumulamos déficits externos elevados. O crescimento cai, restando saber o que acontece com a inserção internacional do País.

Na busca pela sua reeleição nos EUA, em 1973, Nixon mandou para o espaço o equilíbrio orçamentário e a estabilidade dos preços, numa era de grandes incertezas globais, agravadas pela crise orquestrada pelos países exportadores de petróleo. Em 2010, foi Lula quem ampliou demais os gastos do governo para eleger sua sucessora, descuidando-se da inflação quando o mundo apresentava grandes dúvidas. Ambos os presidentes foram bem-sucedidos nos seus objetivos eleitorais imediatos, mas a história sempre dá prosseguimento, frequentemente por caminhos imprevistos.

Não é impossível que uma queda dos preços industriais anule o aumento nos alimentos, gerando um novo equilíbrio inflacionário no mundo. Em um cenário otimista, afinal, o revés pode ser momentâneo e gerar apenas um ajuste em 2011, com redução significativa no ritmo do crescimento da economia, mas nada que represente uma crise.

Seja como for, a volta da inflação no País se dá em um contexto em que alguns vizinhos sul-americanos já batem taxas de 25% na elevação dos preços. Os países emergentes têm em um velho mal um novo desafio: preservar a estabilidade econômica para transformar não apenas a si, mas todo o mundo.

PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA UFRJ E COORDENADOR DO LABORATÓRIO DE ESTUDOS DA AMÉRICA LATINA (LEAL)

CLÁUDIO HUMBERTO

“O presidente deveria decidir nos termos do tratado de extradição”
MINISTRO CESAR PELUZO, PRESIDENTE DO STF, E A PROTEÇÃO DE LULA AO BANDIDÃO BATTISTI

FHC ORIENTA PROGRAMA TUCANO MAIS “AGRESSIVO” 
O ex-presidente Fernando Henrique assumiu a coordenação do programa de TV do PSDB, a ser levado ao ar no próximo dia 3 em rede nacional. Após Nizan Guanaes declinar do convite, FHC chamou um desafeto do marqueteiro, Marcelo Serpa, da agência Almap, para dirigir o programa. A intenção é adotar um tom mais agressivo, fazendo o PSDB assumir uma nova atitude em relação ao governo Dilma.

REGRESSO 
Presidente duas vezes, FHC não aguentou o quase ostracismo e agora tenta voltar à cena, reunindo o que sobra do PSDB.

CAFÉ X LEITE 
FHC faz mediação da briga, pela liderança tucana, entre os senadores eleitos Aloísio Nunes (SP), ligado a José Serra, e Aécio Neves (MG).

DAQUI NÃO SAIO 
Desautorizado por Dilma, no caso da compra dos jatos de combate da FAB, muitos achavam que Nelson Jobim pediria o boné. Ledo engano.

ELE ESTÁ NO CÉU 
O ministro da Defesa é muito apegado às delícias do cargo para tomar atitudes radicais de “indignação”.

DOCUMENTO PROVA ORDEM PARA “LARGAR” BRASÍLIA 
Documento em poder desta coluna prova a ordem do ex-governo de Rogério Rosso, no DF, para paralisar os serviços de limpeza de jardins, corte de grama e poda de árvores, no auge das chuvas. A ordem, que deixou Brasília com aspecto sujo, matagal alto, entrou em vigor no dia seguinte ao segundo turno das eleições, e teria sido “vingança” contra os cidadãos que elegeram Agnelo Queiroz (PT) com 66% dos votos. A existência do documento foi revelada nesta coluna, no último dia 11.

PERNAS CURTAS 
Rosso divulgou nota afirmando ser “mentira” a ordem para paralisar a limpeza da cidade, mas o documento mostra quem é o mentiroso.

CONTRA A LEI 
Circula abaixo-assinado no Amapá pedindo a posse do senador João e a deputada Janete Capiberibe (PSB), barrados pela Lei Ficha Limpa. 

FUI! 
Lula, ex-presidente, também não é mais brasileiro? Até hoje, ele não assinou nem uma nota oficial sobre a tragédia no Rio de Janeiro. 

DÉJÀ VU 
As ações da Dassault Aviation caíram 1,60 na manhã de ontem (18), após a presidente Dilma Rousseff anunciar que reanalisará a compra dos caças Rafale. A notícia, antecipada aqui, foi destaque na imprensa francesa.

INCORRIGÍVEL 
A seis meses dos seus 80 anos, FHC continua galante. Há dias ele passou a noite jogando lero para cima da ex-Patrícia de Ciro Gomes, durante a festa de casamento de uma filha de Tasso Jereissati.

POLÍTICOS GO HOME 
Carta é um assunto muito importante para ser tratado nas rodas de rateio do governo, por isso a presidenta Dilma decidiu: as duas novas diretorias dos Correios serão declaradas áreas livres de políticos. 

PEIXE MORTO 
A farra dos aumentos no Congresso custará R$ 860 milhões a mais na folha de 2011, incluindo aposentadorias, segundo a ONG Contas Abertas. Daí, as excelências passarem ao largo do horror no Rio. 

IN VINO VERITAS 
O ex-chanceler Celso Amorim deixou na adega do Itamaraty 24 mil garrafas de vinho nacional, com ao menos três prêmios internacionais, conforme licitação realizada pouco antes de deixar o cargo. 

“PRIMOS” DA FRIBURGO SUÍÇA 
O cantão e a cidade de Friburgo (Suíça) vão doar cerca de R$ 226 mil para os “primos” de Nova Friburgo (RJ), como informam jornais locais, para reconstrução de escolas e hospitais. Vão supervisionar in loco. Três experts em ajuda humanitária chegam domingo à Região Serrana. 

CHUVA, URGENTE 
Deu tudo tão errado na tragédia do Rio, que até o radar metereológico de R$ 2,5 milhões da prefeitura, inaugurado em 20 de dezembro, não previu a enxurrada. Foi comprado em “caráter emergencial”, claro. 

A ÁGUA AVANÇA 
Alentado estudo do governo do Rio de Janeiro, com apoio da Alemanha, mostrava em 2001 a urgência de gerenciar os recursos hídricos e conter ocupações irregulares. Integrava o programa Avança Brasil, de FHC. 

PENSANDO BEM... 
A bancada federal do Rio também submergiu. No recesso. 

PODER SEM PUDOR
TUDO A DECLARAR 
Certa vez, o então presidente Lula criticou aqueles que “acordam e confundem barbeador com microfone”, políticos que têm sempre tudo a declarar para ocupar espaço na mídia. Deve ter falando sobre os próprios hábitos. Ou tem memória fraca. Anos antes, exatamente em 19 de dezembro de 2002, ao anunciar na sede da OAB que Márcio Thomaz Bastos seria o seu ministro da Justiça, Lula confessou:
– Eu não posso ver um microfone. Quando eu era pequeno, era doido por uma tapioca, agora sou doido por um microfone...

MALUCO

QUARTA NOS JORNAIS

O Globo: Rio instala sistema de alerta contra catástrofe

Folha de S. Paulo: Anatel terá acesso a sigilo das ligações telefônicas

O Estado de S. Paulo: Mortos no Rio já passam de 700

Jornal do Brasil: Bolso vazio, coração cheio

Correio Braziliense: GDF estuda ampliar corte de gastos

Valor Econômico: Lei facilita encerramento de liquidações de bancos

terça-feira, janeiro 18, 2011

BENJAMIN STEINBRUCH

Podia ser diferente
BENJAMIN STEINBRUCH
FOLHA DE SÃO PAULO - 18/01/11

OS CULPADOS PELAS OCUPAÇÕES IRREGULARES NÃO SÃO OS OCUPANTES, E SIM A AUTORIDADE PÚBLICA

Passados mais de 40 anos, ainda estão em minha memória imagens que vi nos jornais e na televisão da tragédia do deslizamento de morros de Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo. Em 1967, morreram ali 436 pessoas, uma catástrofe para o país e um episódio aterrador para meus olhos de 14 anos.
Infelizmente, nesses anos todos que se passaram desde o deslizamento em Caraguatatuba, tragédias semelhantes se repetiram em vários pontos do país, culminando com a da semana passada na região serrana do Rio de Janeiro, com mais de 600 mortos até agora em quatro municípios.
A memória mais recente nos leva a Blumenau e outros municípios de Santa Catarina, em novembro de 2008; a Angra do Reis, no Réveillon de 2009/2010; a Pernambuco e Alagoas, em junho de 2010; ao Morro do Bumba, Niterói, em abril de 2010; ao Jardim Pantanal, bairro localizado na várzea do rio Tietê, em São Paulo, e a recorrentes enchentes nas marginais de São Paulo, as últimas há duas semanas, que já se tornaram um triste espetáculo para a mídia mundial pelos congestionamentos espetaculares que provocam.
Todos esses eventos terríveis deixaram milhares de desabrigados e centenas de mortos. Em todos ou quase todos há uma marca: o homem ocupando irregularmente espaço que deveria ser preservado para a natureza. Ou seja, pessoas morando em áreas de risco. Só na região metropolitana da Grande São Paulo estima-se que existam mais de 400 dessas áreas com moradias.
Os culpados pelas ocupações irregulares não são os ocupantes, e sim a autoridade pública que permite as construções.
Para administradores de cidades, é politicamente mais interessante -rende mais votos- incentivar obras irregulares, às vezes até fornecendo tijolos e cimento, do que impedi-las. Quando sobrevêm as catástrofes, em geral, os responsáveis pela negligência que levou à tragédia já estão fora da administração.
O país precisa, portanto, de um megaprograma nacional para estimular, ensinar e obrigar as autoridades municipais a cuidar desse problema.
Essa é a atitude que se espera para o futuro a partir de agora, além do uso de tecnologias para sistemas de alerta à população que, em muitas cidades, já estão até instalados, mas muitas vezes não são usados na forma desejada por desleixo ou falta de pessoal qualificado.
De outra parte, será preciso também corrigir erros do passado. Milhares e milhares de residências terão de ser interditadas e as pessoas removidas para habitações seguras.
Trata-se de uma tarefa extraordinariamente difícil, especialmente nas grandes metrópoles, porém necessária em praticamente todas as cidades do país, a cargo das administrações municipais, com apoio estadual e federal.
Perdas de pessoas provocam traumas familiares e não podem ser reparadas. Mas perdas materiais podem. A TV e os jornais mostraram, nos últimos dias, depoimentos dramáticos de pessoas que levaram até 40 anos construindo sua casa, agora aniquilada pela tromba d'água junto com móveis, eletrodomésticos e demais pertences da família.
O Brasil, pela sua performance macroeconômica, vai aos poucos adquirindo status de novo rico na esfera internacional. E, como membro aspirante a essa comunidade, também começa a receber duras cobranças.
Uma consultora da ONU, por exemplo, observou que o Brasil não pode alegar desconhecimento desse problema, que se torna cada vez mais frequente. Não pode ser surpreendido por chuvas que, a despeito de sua virulência tropical, são previsíveis. Lembrou, ainda, que o país tem dinheiro para fazer o que é preciso nessa área. É preciso admitir: a consultora tem razão.
Uma das imagens mais marcantes da tragédia da semana passada na região serrana do Rio saiu no caderno Cotidiano da Folha, mostrando um trator abrindo valas no cemitério municipal de Petrópolis. O país chora e enterra seus mortos. Dava para ser diferente. Desastres naturais e tempestades tropicais não podem ser evitados. Tragédias podem.
BENJAMIN STEINBRUCH, 57, empresário, é diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de administração da empresa e primeiro vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

VINICIUS TORRES FREIRE

Alerta de mortes estúpidas
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SÃO PAULO - 18/01/11

Governo quer sistema de aviso de desastres naturais, mas precisa melhorar a prevenção dos sociais


O MASSACRE do Rio ao que parece vai induzir a criação de um "sistema nacional de prevenção e alerta" contra desastres naturais. Segundo o governo federal, deve levar uns quatro anos para ficar pronto. É um negócio mesmo complicado. Depende de satélites, supercomputadores, radares e outros equipamentos meteorológicos. Depende de mapear áreas de risco. Depende de haver gente treinada. Cientistas e outros.
Se a coisa passar da licitação mais ou menos corrupta de equipamentos, se os equipamentos forem postos em uso etc., o sistema apenas funcionará se houver um plano e meios logísticos de retirar as pessoas do alvo da fúria da natureza. Quer dizer, pessoal treinado para agir em pequenas prefeituras, meios de transporte, estradas, lugares de acolhida, comida e água para as pessoas deslocadas.
Uhm: estradas e transportes públicos? Temos plano para isso também?
Sim, é um avanço da civilização criar um sistema de evitar mortes estúpidas. Mas a descrição breve das condições de funcionamento do programa dá o que pensar, não apenas sobre o alerta de chuvas assassinas mas sobre os sistemas de prevenção de violências várias no Brasil.
Considere-se uma notícia de ontem desta Folha, um relato recorrente sobre mais suspeitas de desvios brutais de dinheiro da Funasa. Essa Fundação Nacional da Saúde é um órgão de "prevenção e alerta" contra desastres sanitários, como mortes devidas à saneamento primitivo, malária, dengue, mal de Chagas e outros assassinos primitivos.
Bem, para dar um exemplo curto e pop, no ano passado morreram mais de 500 pessoas de dengue. As mortes anuais devidas a picadas de bichos e saneamento medieval passam da casa dos dezenas de milhares. Não causam muita sensação. Mas o "sistema de prevenção de desastres" sanitários até existe, embora a prevenção verdadeira seria civilizar o país de fato, tirando as pessoas da vida em favelas (e similares) ultrajantes. Favela é parte da natureza brasileira, a gente aceita na boa. É mais natural que chuvas de verão.
Verdade que há progressos. Fazemos vacinação direito -logo, temos capacidade de sermos menos bárbaros. Mas, por falar em mortes em massa, passada década e pouco do novo código de trânsito, ainda é raro ver gente perder a carteira de motorista por excesso de selvageria no volante. Morrem umas três dezenas de milhares de pessoas no trânsito, por ano.
E o "sistema de prevenção" de mortes por tiro? A gente se acostumou a ver selvagens carregando fuzis e pistolões em bairros populares de Rio, São Paulo, Recife etc. Morte a bala é uma das piores endemias brasileiras. Onde está o sistema de prevenção dessa catástrofe que é o contrabando de armas? Alguém já ouviu falar da prisão de um grande contrabandista de armas?
Lembrar esses outros horrores não é, por favor, pouco-caso com as vítimas do massacre do Rio. Porém, o tamanho concentrado do desastre nas serras fluminenses suscita indignações igualmente concentradas no tempo, que duram enquanto não sobrevém o tédio da falta de "recordes de mortos" e de "novas histórias humanas". Mas o nosso modo de produção de mortes estúpidas está por toda a parte, o ano inteiro, matando ainda mais gente, de modo tão ou mais cruel.