domingo, agosto 29, 2010

MÍRIAM LEITÃO


Poço sem fundo

Miriam Leitão
O GLOBO - 29/08/10



Meia dúzia de pessoas está tomando uma decisão no Planalto que vai mexer com o bolso de incontáveis acionistas, grandes e pequenos, da Petrobras.

O preço do barril a ser cedido à empresa vai definir quantos reais cada acionista terá que pôr na companhia. Essa é definitivamente a forma errada de tomar uma decisão dessa importância, e isso pode provocar muitas brigas na Justiça.

Na época da privatização, eram contratadas duas avaliadoras.

Quando havia discrepância de mais de 20%, uma terceira tirava as dúvidas.

Agora, a divergência é de 100%. Dependendo do preço do barril, o minoritário terá que gastar mais ou menos dinheiro para acompanhar o aumento de capital, ou então ser diluído. A decisão afeta desde os minoritários que investiram com seu fundo de garantia até os grandes investidores brasileiros e estrangeiros.

Não pode ser um chute, ou uma conta de chegar feita por um grupinho a portas fechadas, que tem desde gente que não entende nada do tema, como os ministros Erenice Guerra e Guido Mantega, até quem tem interesse direto, como a Petrobras, ou quem já fez manifesto ideológico em torno do preço ideal, como o presidente da ANP. O presidente Lula disse que esses são os técnicos e que depois ele tomará a decisão política. Nem eles são técnicos, nem cabe decisão política numa questão que mexe com as economias de pessoas e empresas.

A empresa perdeu só este ano 27% de valor de mercado.

A consultora de mercado de capitais da Prosper Corretora, Rita Mundim, lembra que muitos acionistas minoritários usaram o Fundo de Garantia para comprar ações da Petrobras.

- A capitalização virou uma novela mexicana com final infeliz para os minoritários.

O governo se esquece que muita gente usou o Fundo de Garantia no anos 90 para comprar Petrobras.

Isso significa que 30% do sonho de muita gente virou água com a queda das ações este ano. Quem quer comprar imóvel pode ter adiado.

Quem fez dívida pode estar em dificuldade. Até agora, só houve trapalhadas e incertezas - afirmou.

O analista da Spinelli Corretora, Max Bueno, que acompanha Petrobras, estima que se o barril de petróleo for cotado a US$ 8, o minoritário terá que fazer um aporte de 30,7% do valor das ações que possui hoje. Por exemplo, quem tem R$ 100 mil de ações da Petrobras, terá que comprar mais R$ 30,7 mil para manter a participação atual.

Se o governo decidir que o petróleo vale US$ 12, esse mesmo acionista terá que desembolsar 36 mil.

O analista-chefe da Prosper corretora, Eduardo Roche, acha que o aporte do minoritário terá que ser ainda maior, em qualquer um dos casos, acima de 50%. Os especialistas têm dúvidas faltando pouco mais de 30 dias para a operação. Imagine o acionista comum. As informações continuam truncadas, as decisões são tomadas de forma equivocada e as incertezas são inúmeras.

Para se ter uma ideia, o campo de Tupi ainda não possui reservas provadas de petróleo 10 anos após a primeira licitação. Já foram feitas oito perfurações para pesquisa e só há estimativas.

No campo de Franco, que será usado na capitalização da Petrobras, foi perfurado um único poço.

- Só com um poço é muito difícil. É natural que as duas certificadoras tenham chegado a valores diferentes porque as incertezas são muito grandes; as informações, muito poucas. A capitalização jamais deveria ter sido planejada por esse processo - afirmou o ex-diretor de exploração e produção da Petrobras, Wagner Freire.

Ele explica que o processo tem que seguir várias etapas.

Com base em dados geológicos e geofísicos, as empresas identificam que áreas são promissoras, e aí se faz a perfuração exploratória. Depois, são feitos poços adicionais para se saber o montante das reservas. Em seguida, a análise econômica sobre custos de exploração, investimentos necessários, volumes recuperáveis. Em Franco, foi feito apenas um "poço estatigráfico". Outro, com a mesma técnica, foi feito em Libra, numa área próxima, e provocou um desmoronamento com milhões de reais perdidos.

Especialistas em petróleo, da área financeira e do setor jurídico estão espantados com o grau de improviso deste processo de capitalização.

Desde o começo, tudo está contaminado pela exploração política. O governo tem pressa porque quer fazer um palanque no dia 7 de setembro sobre a capitalização.

A Petrobras, em quem foi concentrada a exploração do pré-sal, está no limite do seu endividamento e terá que fazer um esforço enorme. Para isso foi imaginado esse tortuoso processo em que o governo cede barris de petróleo a cinco mil metros à empresa e assim se faz a capitalização.

Transfere também títulos da dívida, enquanto os minoritários terão que acompanhar com dinheiro vivo.

Se o processo beneficiar muito os acionistas, haverá transferência de riqueza de todos os brasileiros para alguns - os que são acionistas - porque a Petrobras é uma empresa de capital aberto, que tem 60% de suas ações no mercado. Se prejudicar o minoritário, ele terá perda de patrimônio. A decisão não pode ser tomada por critérios eleitoreiros porque afeta a economia de pessoas e empresas, ou representa transferência de patrimônio público.

A advogada e ex-procuradora da ANP Sonia Agel acredita que após a operação haverá contestações na Justiça.

- O minoritário pode entrar na justiça por se sentir prejudicado. Da forma como está sendo feito, o Ministério Público ou até mesmo uma ação popular pode contestar o processo porque estamos falando de um patrimônio que pertence à União. Uma terceira certificadora deveria ser contratada para definir o valor do barril, e não o próprio governo - explicou.

Essa é uma questão que tinha de estar longe dos palanques.

SERRA PRESIDENTE

PAINEL DA FOLHA

Coisas da vida
RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 29/08/10 

Os primeiros pedidos de socorro de Hélio Costa (PMDB), ameaçado pelo rápido crescimento de Antonio Anastasia (PSDB) nas pesquisas para o governo de Minas, foram recebidos sem grande alvoroço no Planalto, onde agora se diz que "todos sabiam" que a disputa no Estado seria "duríssima", pois Aécio Neves reúne, em tese, condições de fazer por seu pupilo o mesmo que Lula fez por Dilma Rousseff (PT). 
O presidente, que não tem visita a Minas programada para esta semana, aceitou pedido de Costa e deve gravar mais um depoimento para ser apresentado na propaganda de televisão do peemedebista. 

Sem fluxo Na campanha de Hélio Costa, a demanda não é apenas pela presença de Lula. Os peemedebistas queixam-se de falta de recursos. Alegam que haveria um cerco dos tucanos aos financiadores locais. 

Memória Alguém disse a Lula que os eventos da campanha de Dilma têm lembrado os de 1989, quando ele disputou o Planalto pela primeira vez e chegou ao segundo turno contra Fernando Collor. O presidente pensou um pouco e concluiu que, enquanto ali o clima era de "esperança", agora é de "confiança e alegria". 

Não é por aí Em conversa recente, Lula reclamou da ênfase dada por Aloizio Mercadante (PT), em campanha pelo governo de São Paulo, a aumentos salariais para servidores. Acha que se trata de um discurso de risco fiscal. 

Predador Apelidada inicialmente de "Mercamanno", a dobradinha formada pelos candidatos do PT e do PP para fustigar o líder Geraldo Alckmin (PSDB) nos debates ganhou novo nome: "Mano a Mano", pois o petista subiu no Datafolha à custa de votos do parceiro. 

Igual Ao final de agosto de 2006, Mercadante tinha 18% no Datafolha. Hoje, são 20%. Naquele ano, o petista perdeu no primeiro turno com 32% dos votos válidos. 

No limite 1 A despeito da necessidade urgente de José Serra de recuperar terreno em São Paulo, não há planos de aumentar sua presença na propaganda televisiva do aliado Geraldo Alckmin. 

No limite 2 A coordenação da campanha argumenta que Serra já aparece, de um modo ou de outro, em todos os programas de Alckmin, e que isso precisa ser feito de maneira a não caracterizar invasão de horário -motivo de seguidas ações movidas pelo PSDB contra a propaganda de Dilma Rousseff. 

Não mordem Lula nem precisaria se preocupar tanto em aumentar o peso da bancada governista no Senado. A julgar pelo grau de adesismo das campanhas de alguns senadores da oposição, estes, se eleitos, voltarão à Casa bem domesticados. 

Son of Brazil A cinebiografia de Lula, dirigida por Fábio Barreto, abrirá, em 1º de setembro, o Brazilian Film Festival em Londres. O BNDES deverá investir R$ 400 mil no evento. 

Origens Seis jornalistas da Bulgária entraram em contato com o QG dilmista para manifestar interesse em cobrir a reta final da campanha eleitoral brasileira. O pai da ex-ministra, Pedro Rousseff, nasceu naquele país. 

Caneta Acossado por 120 dias de greve de servidores, o presidente do TJ-SP, Antonio Carlos Viana Santos, assumirá o governo entre os dias 2 e 7, quando Alberto Goldman (PSDB) viaja aos EUA para assinar convênios do metrô. Primeiro na linha sucessória, o presidente da Assembleia, Barros Munhoz (PSDB), está impedido por ser candidato. 
com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI 

Tiroteio 

"Anastasia é uma espécie de Dilma do Aécio. Ele sobe nas pesquisas em Minas na esteira do prestígio de seu padrinho." DO CIENTISTA POLÍTICO RUBENS FIGUEIREDO, sobre a ascensão do candidato tucano ao governo a partir do início da propaganda de televisão. 

Contraponto 

Quem liga pra isso? 

Em intervalo do debate das TVs católicas em São Paulo, José Serra e Marina Silva conversavam sobre pesquisas eleitorais. O ex-governador tucano e a senadora verde relativizavam a escalada de Dilma Rousseff (PT), que não compareceu ao evento, quando foram interrompidos por Plinio de Arruda Sampaio (PSOL), traço nos levantamentos mais recentes: 
-Gente, eu também não ligo pra pesquisa. Aliás, se eu fosse técnico de futebol, que depende de resultado pra sobreviver, já teria sido demitido há muito tempo!

GOSTOSA

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA

Brasil vive desindustrialização
LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA
FOLHA DE SÃO PAULO - 29/08/10


Mesmo com economistas negando, fatia da indústria no PIB nacional é bem menor do que há 25 anos


NO FINAL DOS anos 1940, a indústria representava 20% do PIB brasileiro, em 1985 chegou a 36%, em 2008 havia baixado para 16%! Não obstante, ainda existem economistas que negam que o país venha sofrendo desindustrialização.
Argumentam que a desindustrialização não seria apenas brasileira, mas de todos os países. Com o desenvolvimento econômico, a participação dos serviços sofisticados aumenta, e, em consequência, a participação da indústria de transformação cai.
Em 1970, a participação da indústria no PIB mundial era de 25%, em 2007 havia caído para 17%. Mas isto acontece aos países ricos que, a partir de certo ponto, passam a deslocar sua mão de obra da indústria para setores de serviços com valor adicionado per capita maior. Não é o caso do Brasil. Nossa desindustrialização é para produzir mais commodities.
O Brasil está se desindustrializando desde 1992. Foi em dezembro do ano anterior, no quadro de acordo com o FMI, que o Brasil fez a abertura financeira e, assim, perdeu a possibilidade de neutralizar a tendência estrutural à sobreapreciação cíclica da taxa de câmbio.
Em consequência, a moeda nacional se apreciou, as oportunidades de investimentos lucrativos voltados para a exportação diminuíram, a poupança caiu, o mercado interno foi inundado por bens importados, e, assim, muitas empresas nacionais eficientes deixaram de crescer ou mesmo quebraram.
Estava desencadeada a desindustrialização prematura da economia brasileira.
Se a desindustrialização é evidente, por que economistas brasileiros insistem em procurar argumentos para negá-la?
Porque são ortodoxos, porque pensam de acordo com o Consenso de Washington, e, por isso, apoiam a política macroeconômica instaurada desde 1992.
Não obstante critiquem o deficit público (como também eu critico), propõem juros altos (para combater a inflação e atrair capitais), deficit altos em conta-corrente (para "crescer com poupança externa"), deficit público compatível com o deficit em conta-corrente, e câmbio apreciado.
Em outras palavras, em nome da ortodoxia, defendem irresponsabilidade cambial, e, não obstante a retórica, a irresponsabilidade fiscal (considerada a hipótese dos deficits gêmeos). E condenam o país a taxas de poupança e investimento baixas.
Quando a ortodoxia percebe que a taxa resultante do mercado é sobreapreciada, defende-se afirmando que administrar a taxa de câmbio é "impossível".
Não é o que mostra a história. Para administrá-la é necessário (1) impor imposto na exportação de bens que dão origem à doença holandesa; (2) usar os recursos fiscais decorrentes para zerar o deficit público; (3) baixar a taxa de juros real para o nível internacional; e (4) estabelecer barreiras às entradas de capitais não desejados.
Neste quadro, a renda dos exportadores de bens primários será mantida porque o imposto poderá e deverá ser compensado centavo por centavo pela desvalorização.
O Brasil já praticou essa política no passado. Outros países a estão aplicando no presente.
Se a adotarmos, o Brasil poderá voltar a ter taxas de crescimento pelo menos duas vezes maiores do que aquelas que prevaleceram desde 1992.

MÔNICA BERGAMO

Família Muricy
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SÃO PAULO - 29/08/10 


O técnico diz que sofreu ao dizer não para a seleção, afirma que ninguém divide o insucesso e que dá risadas há 30 anos com a mesma mulher 



Nos intervalos de um treino do Fluminense, o técnico Muricy Ramalho checa os recados da família no celular. "Eles ligam direto", diz, sobre a mulher, Roseli, e os filhos Fabíola, 28, Muricy Júnior, 20, e Fábio, 15. Acostumado a discutir em casa todas as decisões da carreira, teve que dar satisfação para eles quando recusou, em julho, o convite para treinar a seleção. Na sala de ginástica do clube, no Rio, onde um retrato de Telê Santana, seu mentor, ocupa toda uma parede, Muricy conversou com o repórter Diógenes Campanha entre goles de chá de camomila com adoçante.




O EXEMPLO DO PAI
Meu pai era muito rígido, um cara que trabalhava no mercado de Pinheiros, acordava às 2h. Filho de português, né? Pô, ele me levava à 1h30 pro Mercadão e me fazia dormir na caixa! Quer castigo maior que isso? Tinha que comer tomate, as verduras que tivessem lá, porque tinha feito coisa errada. Um cara que não tinha dinheiro, mas tinha dignidade. E a criança observa. Vai num almoço, vai numa reunião, ela fica olhando o pai e a mãe. Então, pra mim, o meu pai era um espelho. Um cara que trabalhava pra caramba. Formou um irmão meu médico, quando não tinha a menor possibilidade de formar.

OS FILHOS
Quando o Internacional me contratou, em 2002, tava um desastre, terrível. Eu cheguei pra fazer um tipo de uma recuperação. E todo ano o São Paulo me ligava pra eu ir pra lá. Eu dizia: "Vocês vão me desculpar, sei que é irrecusável, mas não posso. Eu tô formando um novo time, não posso largar no meio. Seria uma puta injustiça". Aí meus filhos, são-paulinos, ligavam loucos: "Porra, cê tá maluco, cara? Não vai vir pro nosso time, pra nossa casa?" Eu moro a 500 m do Morumbi. E eu falava: "Quando você assina, ou não assina, mas dá sua palavra, tem que cumprir. Vocês têm que fazer igual". Quero que eles respeitem as coisas, respeitem as pessoas.

O NÃO PARA A SELEÇÃO
Em princípio, os meus filhos reagiram como sempre: "Mas ficou louco, né?". [Ri] Eu sofri aí uns dois, três dias. Não é fácil abrir mão de um sonho. Tem uma hora em que você fica sozinho e aí pensa: "Será que o que você fez foi certo?". É o caminho que eu escolhi e isso me conforta.

SACRIFÍCIOS DA BOLA
Eu casei com a minha mulher no México [quando jogava naquele país, em 1980]. Pô, a família ficou brava, porque ninguém participou. Segunda coisa, eu conheci minha filha com três meses de idade. Meu irmão era ginecologista e a minha mulher tinha muita confiança nele. No final da gravidez, ela veio pro Brasil. E eu conheci minha filha por fotografia. Porra, minha filha chegou nas cartas! Aí eu tava na semifinal do Campeonato Mexicano e, na hora em que tava jogando, meu pai morreu. Não cheguei pro enterro. Já era técnico, fui pro Náutico. Minha mãe teve um AVC. Cheguei e ela já tava na UTI. Também morreu. O futebol te dá muitas coisas, mas tira demais.

PROFESSOR POY
Pô, o Poy [José Poy, ex-goleiro do São Paulo e treinador de Muricy quando ele jogou no clube] era chato pra caramba. Queria que você comprasse um terreno ou uma casa antes de ter carro. E tinha que mostrar pra ele a escritura. O que os caras faziam? Eles deixavam o carro lá em cima, numa rua escondida, e desciam para o Morumbi a pé. E é longe, hein, meu? Aí um dia, olha só o que é o azar: o [jogador] Serginho Chulapa comprou um Fuscão. E andava com os braços de fora, óculos escuros, chapéu pra trás. Tava na cidade, deu farol vermelho, e quem parou do lado dele? O Poy. Ele gritou: "Que que é isso? Amanhã, vai trazer as escrituras, senão você vai vender a porcaria desse carro!".

Quando o clube foi fazer a renovação do meu contrato, meu pai disse: "Vamos pegar parte da luva [adiantamento] e dar entrada numa casa pra você". Só que o São Paulo, naquele tempo, não é como hoje, que tem dinheiro. Eles me deram um cheque pré-datado pra dois meses. Peguei o cheque e pensei: "Alguém vai ter que me emprestar esse dinheiro. Pô, o Poy vive me enchendo o saco pra comprar casa". Não deu outra. Ele não falava nem bom-dia. Era grande, argentino, bravo. Bati na portinha dele: "O que que foi, moleque?". "Ó, seu Zé, o senhor sempre fala que não é pra comprar carro, roupa. Então, surgiu uma oportunidade. Tem uma casa aí..." Fui preparando o bote. "Mas tem um probleminha, eu tô com o cheque aqui, é do São Paulo, ó, mas é pré-datado pra dois meses. E vou perder o negócio. Então pensei no senhor." Ele me olhou com uma cara, mas não tinha saída, né? Comprei a casa. Isso aí faz 30 anos. E a casa tá lá, é minha ainda.

TELÊ
Os caras falam que eu sou invocado. É porque vocês não viram o Telê [Santana, ex-técnico de quem Muricy foi auxiliar no São Paulo]. Foi um cara que cumpria suas coisas. Palavra dele era palavra dele. Não tinha por que assinar as coisas. Eu não queria ser igual, porque ele era muito chato. Mas queria ter o comportamento dele com os contratos, a seriedade com os jogadores, com os clubes.

RELAÇÃO COM JOGADORES
Eu me imponho, né? Sou muito tranquilo, mas se você fizer sacanagem comigo, você tá morto. Vou te pegar, pisar no seu pé mesmo. Não quero saber se eu vou ter problema, se eu não vou ter problema. Com jogador é a mesma coisa. Esse negócio de paizão, família Muricy, essas coisas, eu não suporto esse negócio. Mas se eu puder melhorar ele como pessoa, melhoro. Converso muito com eles sobre guardar dinheiro, porque a vida é muito curta e o futebol é uma ilusão.

UM NOVO TEMPO
Jogador, no meu tempo, não era muito aceito do lado social. Hoje em dia os caras de boate, dos lugares importantes, fazem questão de ter o jogador lá. No meu tempo, porra, a gente não passava nem perto da porta. Casar com jogador era brincadeira. Hoje todo mundo quer. Ou basta ter filho, né? Mudou demais.

O AMOR
A minha mulher não se casou com jogador. Casou com o namorado de infância. A minha casa era aqui, tinha uma no meio e aqui era a dela. Aquelas coisas de amor de vida, né? Estou há 31 anos casado com a mesma mulher. Dizem que é difícil, mas pra mim é uma maravilha.



No nosso sítio em Ibiúna [a 70 km de SP], tem um quiosque pequenininho e a gente fica embaixo dele, conversando. Eu tô há 30 anos conversando com a mesma mulher e, porra, acho cada dia uma novidade. Antes ela tava meio, assim, receosa de vir para o Rio. Agora ela quer vir toda hora. Eu vou no calçadão andar com ela, paro em algum lugar pra tomar uma cerveja. A gente se diverte, dá risada. Quando você dá risada com a mulher, é porque tá bom o negócio.

VINGANÇA
Quando o time tá numa fase ruim, acaba um jogo, aí você vai pro seu quartinho para ficar sozinho, esfriar a cabeça, tomar banho, antes de ir pra [entrevista] coletiva. E já houve dirigentes do próprio clube dizendo: "Tem que sair, tem que mandar embora!", ligando pra treinador. E não fez uma vez, fez várias e várias vezes. Mas eles deram azar, porque eu atropelei eles com a minha atitude, cara.

MORUMBI
Acho uma maravilha. Tem que ter Copa lá! É um absurdo o Morumbi ficar fora. Eu conheço cada pedacinho. Se você andar por dentro dele, é brincadeira a organização, o que o Juvenal [Juvêncio, presidente do São Paulo] faz. O Morumbi tá um brinco. Outro dia o [canal] ESPN mostrou fotos da África. Não dava pra ver a linha do gol por causa das placas, um monte de defeito, cara! E querem achar ponto cego no Morumbi.

PENDURAR AS CHUTEIRAS
Ah, claro que eu penso! Eu me desgasto demais com o futebol. Porque eu preciso ganhar. O único combustível que me mantém bem, que me dá felicidade, é a vitória. E aí o estresse vai lá pra cima. O treinador tem momentos alegres, mas, nas horas tristes, ele fica muito solitário. No insucesso, ninguém divide, é sempre o cara.

PÉ NO CHÃO
Eu não me entusiasmo com as coisas na vida. Estou muito bem nesse momento, mas e amanhã? Eu não sei, meu, amanhã os caras me dão as costas. Futebol não é confiável, a verdade é essa.

O SENADO DOS SONHOS DO ESGOTO-LULADASILVA

ANA LYDIA SANTIAGO

Nota baixa pode ser reflexo de algum problema pessoal
ANA LYDIA SANTIAGO
FOLHA DE SÃO PAULO - 29/08/10




A mudança de escola no meio do ano é uma decisão tomada a partir de uma previsão dos educadores sobre os resultados finais do aluno.
Os educadores tendem a atribuir o mau rendimento aos modos de vida da família. Os pais, por sua vez, buscam corrigi-lo impondo ao filho novas regras e privações.
O problema, porém, pode não se explicar na relação do jovem com os estudos. Pode ser algo oriundo da subjetividade e que apenas se reflete no desempenho escolar.
Crianças e os jovens demonstram seu mal-estar por meio do corpo e de atuações que vão da apatia à agitação.
Esse mal-estar pode ser a expressão de uma dificuldade ou um sofrimento que o próprio sujeito desconhece, mas que precisa ser tratado.
A indicação é buscar um especialista -um psicanalista.
Para ler os comportamentos "inadequados", é preciso considerar o "não saber" e o "novo" da puberdade.
O "não saber" é o que caracteriza o encontro com o outro sexo. O jovem nada sabe sobre o que o atrai, como namorar, se é desejado...
Ou ele se interessa pelo "não saber" e o busca por intermédio de seus pares, privilegiando os amigos e perdendo interesse pelos estudos.
Ou ele adia o encontro com o outro sexo e, para encobrir seu "não saber", mergulha no estudo, buscando satisfação com outro saber.
O "novo" de cada geração significa romper com o precedente e renovar a autoridade. Por isso, há uma tendência das "velhas" gerações -o professor- a recusá-lo.
Cada escola estabelece normas para conter e disciplinar os corpos. A essa contenção, porém, os corpos respondem. Os desafios são ler suas respostas e refletir sobre como acolher o "não saber" e o "novo", para que a prática não seja a exclusão do aluno.

ANA LYDIA SANTIAGO é coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em Psicanálise e Educação da UFMG

ANCELMO GÓIS

Bruno fora do ar
ANCELMO GÓIS

O GLOBO - 29/08/10 

O longa “De pernas para o ar”, que estreia em janeiro, com Ingrid Guimarães, tinha um personagem que exibia uma camisa com o nome de Bruno, ídolo do Fla na época da filmagem. Na edição, a produção apagou o nome do goleiro. 

Quem é o pai? 

Política não tem bobo — principalmente, em véspera da eleição. A festa já estava pronta para o petista Lula anunciar, terça, o futuro estádio do Corinthians como sede paulista da Copa de 2014. Mas o governador tucano Alberto Goldman e o prefeito Gilberto Kassab pegaram um jatinho e vieram sexta à CBF, no Rio, antecipar a boa nova. 

Fator Odebrecht... 

A Odebrecht, que vai construir o estádio de Itaquera, saiu ganhando. Como quase sempre. 

Até outro dia 

Aos poucos, os sócios da Vinci Partners (Gilberto Sayão, entre outros) estão vendendo na bolsa suas ações na grande incorporadora PDG Realty. 

Marina 2010 

O economista André Lara Rezende anda falando bem, pelas costas, de Marina Silva. 

Ivete globalizada 

Ivete Sangalo, a cantora baiana que fez show ontem em Miami e grava em setembro um DVD em Nova York, está cada vez mais, digamos, globalizada. Foi convidada pelos superstars da Dave Matthews Band, que tocam no Rio dia 8 de outubro, para cantar com eles num show em Dallas, daqui a duas semanas, num dueto metade em inglês, metade em português. 

Nova York 2014 

Só em Nova York, 30 mil brasileiros já procuraram nosso consulado para tirar o título e poder votar para presidente. 

Do próprio bolso 

Raridade no cinema daqui. O filme “Nosso Lar”, inspirado no livro do mesmo nome psicografado por Chico Xavier, quase não tem dinheiro público. Só a Fox Filmes, distribuidora e coprodutora do longa, usou incentivos fiscais. 

Filme que segue... 

Os quase R$ 20 milhões gastos no longa, que estreia sexta em 400 cinemas, foram bancados por investidores privados — entre os quais, o banco BRJ, que montou um fundo de investimento para cinema. 

Sarkozy ataca no Rio 

A política de Nicolas Sarkozy de reduzir os gastos com a educação chegou ao Rio. O Lycée Molière perderá, além de um terço das verbas, as bolsas para alunos carentes. Os professores franceses que decidirem continuar no Rio não terão direito à previdência e à aposentadoria de seu país 

ZONA FRANCA 

O coleguinha Rogério Reis faz projeção de fotos sobre o fim do JB seguida de debate, quarta, às 19h, no Sindicato dos Jornalistas do Rio. 

O 4º Festival CineMúsica de Conservatória homenageará dona Alice Gonzaga e os 80 anos da Cinédia. 

Terça, Oscar Niemeyer participa do lançamento do novo número da revista “Nosso Caminho”, em Copacabana. 

O KKL oferece jantar a empresários judeus no Mr. Lam, amanhã. 

O médico Francisco Barreira recebe amanhã, na Câmara do Rio, a Medalha Albert Sabin. 

A Movementes assina o novo site da grife Prefácio. 

Os Anjos da Lua festejam 9 anos no Democráticos, dia 6, véspera do feriado, com canja de Teresa Cristina. 

Não é só maravilha 

Nem tudo são flores neste projeto Porto Maravilha. Tem professor e aluno da Escola de Magistratura do Rio chateados com a mudança da instituição para o bairro do Santo Cristo. 
Reclamam de falta de segurança, transporte público e de lugar para comer. 

Sinal dos tempos 

A nova montagem de “Orfeu”, o musical de Vinicius de Moraes que reestreia em versão dirigida por Aderbal FreireFilho, dia 9, no Canecão, no Rio, terá um personagem que não aparecia no texto original, de 54 anos atrás. 

Segue... 

Um chefe de polícia. Faz sentido. 

Vovó da bolsa 

Uma vovozinha simpática e insuspeita tem furtado bolsas de outras senhorinhas em restaurantes do Recreio, no Rio. Já é conhecida como “Vovó da bolsa”. Câmeras de três restaurantes já a flagraram. 

Manga madura 

Já está em fase de conclusão a biografia que Sérgio Cabral escreve sobre Carlos Manga, o consagrado diretor. 

Vara de família 

Um deputado federal do PMDB do Rio, candidato ao terceiro mandato, terá uma audiência quinta agora no Fórum da Barra, acusado pela ex-mulher de deixar de pagar pensão, contas de luz e de gás. Atenção: não é o cara em quem você está pensando.