sábado, junho 12, 2010

DIOGO MAINARDI

REVISTA VEJA
Diogo Mainardi

A comédia da Copa

"O jogador do Brasil com o qual me identifico é Felipe Melo.
Ele me representa. Vai, Felipe Melo! Mostre ao mundo do que 
é capaz uma pessoa sem talento, sem juízo e sem discernimento"

Susana Vieira e eu na Copa do Mundo. Susana Vieira comentará as partidas na TV. Eu comentarei as partidas no rádio. Por quê? Porque ninguém se interessou em me contratar para comentar a Divina Comédia, de Dante Alighieri. Susana Vieira é minha Beatriz na Cidade do Cabo e em Johannesburgo.
Eu sou um cronista como Nelson Rodrigues. Eu sou um reacionário como Nelson Rodrigues. Eu sou pago para fazer comentários sobre a Copa do Mundo como Nelson Rodrigues. Agora só tenho de me tornar um Nelson Rodrigues.
Eu fui da literatura para a imprensa, da imprensa para o rádio. É por isso que simpatizo com Robinho. Ele tem uma trajetória semelhante à minha: do Real Madrid para o Manchester City, do Manchester City para o Santos. Eu simpatizo também com Kaká. Melhor dizendo: eu o idolatro. Eu gostaria de ganhar um dos maiores salários de todos os tempos para permanecer sentado no banco de reservas, tirando a franja da testa. Eu sou bom em matéria de tirar a franja da testa. Mas o jogador do Brasil com o qual realmente me identifico é Felipe Melo. Sempre que, durante o programa de rádio, Wanderley Nogueira me passa a bola, eu me embanano todo e, como Felipe Melo, acabo recuando para o zagueiro. Na Copa do Mundo, minha torcida será inteirinha para ele. Ele me representa. Vai, Felipe Melo! Mostre ao mundo do que é capaz uma pessoa sem talento, sem juízo e sem discernimento.
O melhor personagem desse time do Brasil, no entanto, é o técnico Dunga. O que me atrai nele – e Nelson Rodrigues seguramente concordaria comigo – é aquele seu aspecto de coronel da Operação Bandeirante. Se Carlos Alberto Parreira, em 2006, perdeu a Copa do Mundo porque convocou apenas jogadores lesados e fora de forma, Dunga, em 2010, resolveu dobrar a aposta, convocando jogadores ainda mais lesados e fora de forma. Num momento como o atual, em que o Brasil é dominado pelo populismo mais ordinário, Dunga ignorou os apelos da arquibancada e repudiou Ganso e Neymar. Ganso e Neymar consagraram-se em partidas contra o Rio Branco e o Guarani. Escalá-los numa Copa do Mundo contra a Espanha e a Inglaterra seria o mesmo que escalar Lula para negociar com o regime genocida iraniano.
Dante Alighieri usou a Divina Comédia para fazer proselitismo contra o papa Bonifácio VIII, colocando-o no Inferno, enterrado num fosso, só com as pernas de fora. Eu uso o rádio para fazer proselitismo contra o PT. Do amistoso com o Zimbábue, um sinal do apoio de Lula a Robert Mugabe, essa mistura de Mussolini com Grande Otelo, aos aloprados da CBF, que se comportam como os aloprados do PT, eu sempre dou um jeito de condenar essa gente ao castigo eterno. Agora só tenho de me tornar um Dante Alighieri. E Susana Vieira me conduzirá à Luz.

GOSTOSA

EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO

Os erros da política externa

EDITORIAL
O Estado de S.Paulo - 12/06/10
O chanceler Celso Amorim usa o argumento da altaneria para explicar o voto brasileiro contra as sanções aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU ao Irã. "Nossa posição foi independente, não foi quixotesca. Dizer não, em vez de se abster, era a única posição honrosa, honesta e justa. Se tivéssemos votado de outra maneira, teríamos perdido totalmente a credibilidade." O problema é que dois erros não fazem um acerto. E o erro original foi o governo brasileiro, tomado por absurda soberba, ter julgado que poderia levar o Irã a abandonar pela via negociada o seu programa nuclear, e que a comunidade internacional, penhorada e agradecida, passaria a acreditar nos bons propósitos de Teerã. Resultou daí o acordo de troca de urânio levemente enriquecido, patrocinado pelo Brasil e pela Turquia ? que só embarcou na aventura na undécima hora ?, que o Itamaraty exaltou como o início de conversações de boa-fé entre as grandes potências mundiais e o Irã, e as ditas grandes potências, calejadas no trato com a república islâmica, consideraram ser apenas mais um expediente para ganhar tempo.
O fato é que o acordo de Teerã reproduziu uma oferta feita pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) um ano antes, e rejeitada pelo Irã - e o presidente Lula achou que essa seria a chave para a afirmação da influência do Brasil no Oriente Médio - melhor dizendo, no mundo muçulmano. Seus assessores deixaram que ele incorresse no erro, ao não alertar que a oferta da AIEA fazia sentido quando foi feita, mas não mais um ano depois, quando o Irã havia praticamente dobrado o seu estoque de urânio enriquecido. Além disso, não há no acordo uma única palavra que sugira que o Irã se submeterá de bom grado às inspeções da AIEA ? e sem isso não se desfarão as suspeitas de que o objetivo do programa nuclear é a construção da bomba.
A diplomacia lulista cometeu mais um grave erro de avaliação quando tentou se imiscuir nos assuntos do Oriente Médio. Primeiro, Lula ofereceu seus bons serviços para obter a paz entre palestinos e israelenses ? oferta que foi recusada com rascante ironia pelas duas partes. Depois, foi a vez do, digamos, equívoco iraniano.
Esses e outros fiascos se devem a uma interpretação enviesada da evolução e da tendência dos acontecimentos mundiais. Em seu antiamericanismo visceral, os assessores internacionais de Lula acreditam que a superpotência está em declínio, que o mundo experimenta uma fase de multipolaridade e que do diretório multipolar fazem parte os países emergentes, com grande destaque do Brasil. E que essas transformações já estão ocorrendo, e em velocidade vertiginosa. Ocorre que, se é verdade que as linhas gerais desse cenário são corretas, o ritmo das transformações é lento, como quase tudo na história.
O declínio dos Estados Unidos é lento e relativo ? o país continua sendo, de longe, a maior potência militar e econômica do mundo ? e o multilateralismo ainda cede às demandas e imposições da política de poder, como comprovam os fatos do dia a dia.
Não bastasse isso, o Brasil não tem condições objetivas de agir em regiões que estão fora de sua área de influência direta. Somente a reconhecida capacidade de articulação dos diplomatas do Itamaraty e o prestígio conferido ao presidente Lula por sua inegável popularidade no exterior não são suficientes para fazer do Brasil o interlocutor universal e o peacemaker à outrance que a propaganda oficial exalta.
Veja-se, a propósito, que o governo Lula nunca pretendeu ? justamente por saber que não dispõe dos instrumentos para esse tipo de tarefa ? resolver, por exemplo, o contencioso entre Argentina e Uruguai, a respeito das papeleras, ou consertar os desarranjos estruturais do Mercosul, ou buscar soluções para a virtual guerra civil colombiana. E tais contenciosos afetam diretamente os interesses brasileiros.
O presidente Lula e o Itamaraty, no entanto, sentiram-se à vontade para querer resolver problemas no outro lado do mundo, e justamente aqueles que, há anos ou décadas, tiram o sono das grandes potências, incapazes de promover a paz nessas regiões. A intromissão no caso palestino-israelense foi apenas patética. Já o envolvimento com o Irã é perigoso porque afeta graves questões de segurança internacional, que o Brasil não está preparado para enfrentar.

PAINEL DA FOLHA

O almoço do patriarca
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 12/06/10

Reunido com integrantes da cúpula do PMDB num almoço na casa do deputado cearense Eunício Oliveira, José Sarney comemorava o cabresto imposto ao PT, obrigado a apoiar a reeleição de sua filha Roseana no Maranhão, quando recebeu um telefonema do próprio Lula, que queria cumprimentá-lo pelo resultado da reunião do Diretório Nacional petista.
Sarney fora informado da decisão num telefonema anterior, recebido do presidente do PT, José Eduardo Dutra. Ao desligar, saiu alardeando a notícia para os correligionários e disse que, a partir dali, podia tudo: encheu a taça de vinho e o prato de bacalhau.



Ligadão Sarney não saiu do telefone na véspera e durante o conclave petista. A um dirigente a quem pediu apoio disse que o governo deve muito à sua atuação no Senado. Citou a votação do pré-sal como exemplo.

Temática 1 A convenção que oficializará amanhã a candidatura do PT será, nas palavras de um dos organizadores, "uma celebração à mulher brasileira, às mães fundadoras do país". Da índia tupinambá Catarina Paraguaçu a Dilma Rousseff.

Temática 2 Já hoje, na convenção em que o PMDB indicará Michel Temer como seu vice, Dilma falará sobre o papel do partido aliado na reconstrução democrática.

Vuvuzela Em meio à reunião do Diretório Nacional, petistas torciam eufóricos pela África do Sul na abertura da Copa. Não era só simpatia pelo país-sede, mas bronca do adversário México, que, na contramão do Brasil, votou a favor das novas sanções ao Irã no Conselho de Segurança da ONU.

Desabafo Almoçando depois da reunião, Patrus Ananias foi abordado por simpatizantes interessados em saber de seu destino eleitoral. Cotado para vice de Hélio Costa (PMDB) em Minas, o ex-ministro respondeu: "Se eu fosse ouvir meu coração, não saía candidato a nada".

After hours Até a noite de ontem, poucos aliados conheciam o teor do discurso que será feito por José Serra hoje na convenção do PSDB, em Salvador. O candidato ainda trabalhava no texto.

A palavra é... Sabe-se que o discurso defenderá valores como "respeito à democracia" e "jogo limpo". Aliados, especialmente do DEM, sugeriram que Serra mencione explicitamente o episódio do dossiê contra ele que teria sido gestado no QG da campanha de Dilma, mas não é certo que a ideia vingue.

140 caracteres Para evitar queixas, o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, não divulgou a lista de oradores. O objetivo é que apenas o candidato faça propriamente um discurso. Os demais fariam "breves saudações". 

Embaralhado Na véspera da convenção em Salvador, os diretórios baianos de PPS, PTB, PRP, PTC, PRTB e PT do B divulgaram manifesto pró-Serra, cobrando mudanças "na maneira de governar o país". Todas essas siglas apoiam a candidatura ao governo de Geddel Vieira Lima (PMDB), embora o palanque do tucano no Estado seja o de Paulo Souto (DEM). 

Autoria O discurso de Marina Silva na convenção do PV, anteontem, foi escrito pela própria candidata. O do vice, Guilherme Leal, por Mauro Lopes, da equipe de comunicação da campanha. 

Pra valer O comando da campanha de Marina não viu problema na escassez de artistas na convenção verde. Apoios são bem-vindos, mas há preocupação de evitar transmitir a ideia de uma candidatura "festiva". 

com SILVIO NAVARRO e LETÍCIA SANDER

tiroteio

Lula, que já pagou até a dívida externa do Brasil, não consegue quitar nunca a sua dívida com o Sarney. 

DO DEPUTADO DOMINGOS DUTRA (PT-MA), protestando contra o presidente por ter obrigado seu partido a apoiar a reeleição de Roseana (PMDB) no Maranhão.

contraponto

Empreendedorismo Durante discurso na convenção que oficializou sua candidatura à Presidência da República, Marina Silva lembrou que o empresário Guilherme Leal, vice da chapa, deu o pontapé inicial nos negócios usando seu Fundo de Garantia e hoje é presidente do Conselho de Administração da Natura. A plateia riu, e a senadora verde cuidou de emendar uma advertência:
-Mas olha, gente, não é para todo mundo sacar o FGTS e montar empresa de cosméticos na garagem!

APOSENTADO NA COPA

MAÍLSON DA NÓBREGA

REVISTA VEJA
Maílson da Nóbrega

A prioridade invertida

"A opção preferencial pelos idosos não se justifica 
sequer pelo lado do combate à pobreza, pois 94,7% dos 
que recebem benefícios previdenciários não são pobres"

A sociedade deve optar pelas crianças ou pelos idosos? Resposta óbvia: pelos dois. Os idosos, de qualquer nível social, merecem uma velhice decente, sejam os que se prepararam para a aposentadoria, sejam os que, sem condições de fazê-lo, recebem uma renda mínima do estado. Uma opção não pode se sobrepor à outra.
No Brasil, todavia, a opção é pelos idosos. A partir da Constituição de 1988, o Congresso e o Executivo, sob pressão de lobbies ou por irresponsabilidade fiscal, se engajaram numa marcha da insensatez que fez dos aposentados um grupo privilegiado da sociedade. Ainda mais privilegiados, muitos servidores públicos recebem aposentadorias mensais de mais de 20 000 reais, sem terem contribuído para tanto.
Um novo passo nessa marcha foi dado pelo Congresso ao aumentar em 7,7% as aposentadorias superiores a um salário mínimo e eliminar o fator previdenciário. Por essas e outras, de 1988 para cá os gastos previdenciários saltaram de 4,5% para 11,2% do PIB. Os do INSS, aí incluídos, subiram de 2,5% para 7,2% do PIB, por conta, sobretudo, dos aumentos reais do salário mínimo, que reajusta dois em cada três de seus benefícios.
Entre 1994 e 2010, descontada a inflação, o mínimo cresceu 125% e os gastos previdenciários passaram de 84 bilhões para 248 bilhões de reais. Tornamo-nos um país jovem que gasta nesse campo como nação madura. Com sobrevida pós-aposentadoria semelhante à dos habitantes dos países ricos, os brasileiros se aposentam precocemente por tempo de serviço: as mulheres aos 51 anos e os homens aos 54. Naqueles países, aposenta-se por idade, entre 60 e 67 anos.
A Coreia do Sul gasta 1,4% do PIB com previdência. A China, 2,7% do PIB. Sua razão de dependência demográfica - população entre 15 e 64 anos dividida pela de 65 anos e mais - é 12,5 e 10,6, respectivamente. Brasil: 9,1. Calcula-se que nossa razão justificaria gastos previdenciários de no máximo 3,5% do PIB.
Há muitos mitos em torno do assunto. Fala-se que o idoso ganha pouco, mas na média se percebe mais na aposentadoria do que no trabalho: 121% do rendimento dos trabalhadores industriais. Nos Estados Unidos, essa relação é de 50%. Na Suécia, é de menos de 70%.
Quem se aposentou com mais de um salário mínimo reclama de perdas nos últimos quinze anos. Estaria recebendo um número menor de mínimos. Outro mito. No período, os reajustes superaram a inflação em 25,2%. Fabio Giambiagi tem um exemplo didático: se esse raciocínio valesse para o aluguel de um imóvel em reais, o proprietário diria que recebe hoje um número menor de mínimos, o que não faz sentido.
A esquerda propaga outro mito: a ausência de déficit no INSS. Contribuições sociais, que integram a "seguridade social", estariam sendo usadas para pagar juros e outras despesas. Sem a tungada, a Previdência teria superávit. Tese furada. Mudar o lugar do déficit não refresca a situação do Tesouro. Mais um mito: há déficit por causa da sonegação, como se a fiscalização não tivesse melhorado.
A opção preferencial pelos idosos não se justifica sequer pelo lado do combate à pobreza, pois 94,7% dos que recebem benefícios previdenciários não são pobres. Enquanto isso, 44% das crianças de até 14 anos são pobres, das quais perto de 20% são extremamente pobres. Per capita, o estado gasta com idosos pobres cerca de trinta vezes o que gasta com crianças pobres. É uma prioridade completamente invertida.
Alheio a tudo isso, o Congresso, por certo considerando que crianças não votam, tem agido persistentemente em favor dos idosos. Sua contrarreforma pode acelerar a ruína previdenciária. A menos que acordemos para a gravidade da situação e elejamos líderes transformadores, o problema pode ficar insolúvel até o desastre final.
Saiu excelente livro sobre o tema, de Fabio Giambiagi e Paulo Tafner: Demografia, a Ameaça Invisível (Editora Campus/Elsevier). Foi a inspiração desta coluna. A obra inclui manifestação favorável de ministros da Fazenda dos últimos seis governos. O diagnóstico e as ideias de reforma - constantes do livro - têm, pois, o apoio de distintas correntes de opinião.
É preciso insistir nas disfunções do sistema previdenciário e na necessidade de reforma, sem a qual o futuro será negro para as próximas gerações.

SERGIO AMARAL

''Itamaraty no improvisa''


SERGIO AMARAL
O ESTADO DE SÃO PAULO - 12/06/10
Por que razão o Brasil decidiu envolver-se num conflito tão complexo e explosivo como o programa nuclear iraniano, numa região tão longe de nós, ao lado de um parceiro tão distante dos valores e dos interesses da sociedade brasileira? Essa é a pergunta que muitos se fazem neste momento e para a qual a diplomacia brasileira ainda não deu uma resposta convincente.
A Turquia até pode ter as suas razões para se solidarizar com o Irã e aceitar o isolamento no Conselho de Segurança da ONU. No momento em que o Egito parece retrair-se da liderança que tradicionalmente exerceu no mundo islâmico, seria até compreensível que a Turquia buscasse aproveitar a oportunidade para ampliar a sua influência na região.
No caso do Brasil, a aventura do Irã é incompreensível, sobretudo quando persistem vários contenciosos perto de nós, em relação aos quais não tentamos ou não logramos, aí, sim, mediar um entendimento. Os exemplos são vários, como a disputa sobre as "papeleras" entre o Uruguai e a Argentina; a virtual paralisia do Mercosul, como resultado das sucessivas medidas protecionistas da Argentina; e um retrocesso na integração sul-americana, pela falta de uma visão compartilhada entre os países da região e, especialmente, em decorrência dos desentendimentos entre vários de nossos vizinhos.
Alguns buscaram ver na iniciativa do Brasil o objetivo de exportar mais, para um mercado que pode apresentar oportunidades para alguns setores da economia brasileira. As estatísticas, no entanto, mostram que, em 2009, as vendas para o Irã representaram apenas 0,80% do total de nossas exportações. Assim, ainda que dobrássemos as exportações, elas continuariam a ser pouco significativas.
Outros mencionaram o argumento político. Ao se apresentar como mediador de um conflito de dimensão mundial, o Brasil estar-se-ia credenciando a um protagonismo global. O fracasso da tentativa de mediação, em decorrência da aprovação de novas sanções contra o Irã, por uma expressiva maioria, de 12 a 2 votos no Conselho de Segurança, mostrou, no entanto, de duas, uma: ou a ingenuidade dos formuladores da política externa ou a falta de informação sobre a postura dos principais atores (como a China). Qualquer dessas hipóteses seria uma falha grave para uma diplomacia competente.
Se o Brasil nada ganhou com o acordo negociado com o Irã, tem muito a perder. Em primeiro lugar, a credibilidade. Quando os diplomatas de minha geração ingressaram no Itamaraty, em meados dos anos 70, ouviam de seus colegas latino-americanos, com um misto de admiração e respeito, o comentário: "Itamaraty no improvisa." Hoje, essa não parece ser a marca da diplomacia brasileira. Em Honduras, sob a indução do venezuelano Hugo Chávez, envolvemo-nos num imbróglio ao abrigar, sem se ter configurado o asilo, um presidente deposto que pregava a insurreição de um terraço da Embaixada do Brasil. Em seguida, no Oriente Médio, a oferta para mediar a crise Israel-Palestina, um dos mais antigos e desafiadores conflitos do mundo contemporâneo, foi rejeitada por ambos. Para não dizer que não alcançou nenhum resultado, logrou unir governo e oposição em Israel contra nós. Por fim, no Irã, colocamo-nos, a contracorrente da comunidade internacional, na esdrúxula posição de fiadores das boas intenções de um governo que se notabilizou por um déficit democrático e por recorrentes violações dos direitos humanos, desta vez, na contramão dos valores da sociedade brasileira.
Tem mais. Muito poderemos perder ao nos associarmos a um país que busca, segundo os fortes indícios coletados pela Agência Internacional de Energia Atômica, a fabricação de artefatos nucleares. Há anos estamos desenvolvendo, legitimamente, o ciclo do combustível nuclear, para utilização pacífica. A comunidade internacional, depois de ter buscado em vão reforçar a inspeção sobre o programa brasileiro, acabou cedendo à evidência de que o Brasil não apresenta nenhum risco de proliferação de armas nucleares. É difícil antecipar se a anuência tácita ao programa nuclear brasileiro será mantida, após o empenho demonstrado pelo Brasil em dar cobertura a um programa que, por um conjunto de evidências, tem intenções militares. Sem falar das possíveis repercussões para outro de nossos interesses legítimos, como é o acesso a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
No momento em que os olhares da comunidade internacional se voltam, com admiração, para a emergência da China, econômica antes, política em seguida, é interessante registrar a evolução notável de sua diplomacia. Aos poucos, a China foi abandonando a visão de um conflito irreconciliável nas relações entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, na linha da retórica do Grupo dos 77, em favor da defesa de uma harmonia entre os povos, na melhor tradição confuciana. Nos foros internacionais, pauta-se pela discrição, frequentemente pela ambiguidade. Sabe que ainda não chegou o momento de assumir a liderança que sua dimensão e sua crescente influência econômica inevitavelmente proporcionarão. Esquiva-se do protagonismo e do ativismo diplomático, exceto quando algum dos seus interesses estratégicos estiver em jogo. Assim, sem alarde, foi aos poucos equacionando alguns de seus desafios mais sérios, como a questão do Tibete, o conflito de Taiwan e mesmo as críticas, em boa medida justificadas, às restrições aos direitos humanos.
Em contraste com a moderação chinesa, a diplomacia brasileira, nos últimos anos, tem associado a exuberância na retórica com a parcimônia nos resultados. Mais do que isso, como diriam hoje nossos amigos latino americanos, "Itamaraty, si, improvisa".
DIPLOMATA, FOI EMBAIXADOR EM LONDRES E PARIS 

RUY CASTRO

Pesadelo cacofônico 

Ruy Castro


FOLHA DE SÃO PAULO - 12/06/10


Começou. Um programa de TV, mostrando a adesão do torcedor à Copa, exibiu um cachorro – um pobre poodle branco_ vestido, calçado, tingido e paramentado de verde-amarelo do rabo às orelhas. Devidamente humilhado, e tendo de fazer jus à sua condição de 'melhor amigo', o poodle não protestou. Mas não parecia levar fé nesta seleção, que é muito mais de Dunga que dos torcedores e cachorros brasileiros.
Basta sair às ruas para ver como o Brasil gosta mais de Copa do Mundo do que de futebol. A desconfiança no rendimento da seleção não impede que prédios e ruas estejam cobertos pelas cores nacionais, com as bandeiras, fitas e bandeirolas dando às metrópoles um quê de arraial junino. E o pior é que, se o Brasil for despachado mais cedo, várias ruas continuarão com o asfalto colorido por anos, como uma memória do vexame.
A overdose de verde-amarelo que nos espera nas próximas semanas será amplificada por elas serem também as cores da anfitriã, África do Sul. E, por mais que a Fifa tente reprimir, não poderá impedir que o comércio e a propaganda deitem e rolem com o chamado 'marketing de emboscada', usando símbolos que lembram a África – um elefante ou uma zebra verde-amarela, por exemplo – para caronear os patrocinadores oficiais e associar seus produtos à Copa.
Mas, por mais massacrante que seja a onipresença das cores, talvez possamos abstrair e fazer de conta que elas não estão em toda parte. Já da poluição sonora provocada pelas vuvuzelas não será possível fugir. Tive essa certeza outro dia, em Recife, onde estava a trabalho: um único marmanjo armado com uma vuvuzela se fez ouvir por 12 horas seguidas e em bairros diferentes. Sei disso porque espiava pela janela do táxi, da van ou do hotel, e era sempre o mesmo pentelho.
O Brasil inteiro soprando aquilo será um pesadelo cacofônico.

GOSTOSA

ANCELMO GÓIS

IED
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 12/06/10
 
aprovado na Urca A Justiça autorizou ontem o início das atividades do IED, centro de pesquisa e ensino de moda, artes e design, no antigo prédio do Cassino da Urca, no Rio.
Pode ser, quem sabe, o fim da novela judicial que se arrasta desde 2007, quando a Associação de Moradores da Urca, por temer tumulto num bairro acanhado, se rebelou contra a instalação da unidade do instituto.

MÉDIA COM A PATROA 
O mulherengo presidente sul-africano Jacob Zuma foi ontem assistir à estreia dos Bafana Bafana levando sua mulher mais velha.
Como a seleção de Parreira ainda joga contra o Uruguai e a França, o femeeiro pode ainda fazer média com as outras duas patroas que ficaram em casa.

MAS...
Se os Bafana Bafana se classificarem para as oitavas? Para evitar o barraco, talvez a escolha tenha que ser na moedinha.
Com todo o respeito.

CALMA, GENTE
Claudia Villafañe, ex-mulher de dom Diego Maradona, ficou retida no Aeroporto de Johannesburgo para “averiguação”. A polícia confundiu o voo dela com outro, que trazia 80 barrabravas, os torcedores arruaceiros da Argentina.
Além dela, estavam filha e neta do treinador. 

AGORA VAI 
Foram encerradas as inscrições do programa “Ideias” da Câmara dos Deputados.
O funcionário que aparecer com a melhor ideia de gestão ganha uma viagem para Roma.

FUMAÇA DE SAIA
Veja essa: nada menos do que 90% das mulheres que fumam desejam abandonar o vício. Eu apoio.
A pesquisa, realizada pela Secretaria municipal de Saúde do Rio, ouviu 300 adeptas do tabagismo.

CLAUDIO DE MOURA CASTRO

REVISTA VEJA
Claudio de Moura Castro

O judeu de Bethesda

"Se livro fosse cultura, os cupins seriam os seres
mais cultos do globo. Só livro lido é cultura"

Último dia de aula na escola Walt Whitman. Situada em Bethesda, um bairro intelectualmente sofisticado da região de Washington (DC), é uma das melhores dos Estados Unidos. O pimpolho volta para casa. Poderia estar sonhando com três meses de vadiagem, longe dos livros. Mas o sonho duraria pouco. Ao fim da tarde, chega o pai judeu, carregando uma sacola de livros recém-comprados. Chama o filho, esparrama os livros na mesa da sala e começa a montar o cronograma de leituras, incluindo a cobrança periódica do que terá sido lido. Ignoro quantos pais judeus passaram também nas livrarias. Mas imagino que não foram poucos.
Ilustração Atômica Studio
Ler livros, glorificar livros, eis uma tradição judaica milenar. Vem de longe e não se buscam muitas explicações científicas para ela. Não obstante, Karl Alexander, da Universidade Johns Hopkins, somando aos 39 estudos sobre o assunto, completou uma pesquisa com alunos do ensino fundamental. Concluiu que, das vantagens acadêmicas acumuladas pelos alunos mais ricos até a 9ª série, dois terços advêm de atividades de leitura mais intensas durante as férias. Segundo a Secretaria de Educação americana, as perdas dos mais pobres nas férias são "devastadoras". Um pai judeu provavelmente diria: ora bolas, é o que sempre pensei. Mas, para a maioria das pessoas, os resultados são surpreendentes. Em matemática, foi possível comprovar que, durante as férias, os alunos esqueceram o equivalente a 2,6 meses de aula. Em outras palavras, somente 2,6 meses depois de recomeçarem as aulas os alunos atingem o nível de competência que tinham no último dia de aula da série anterior. Ou seja, férias são um horror para o aprendizado.
Trata-se de resultados valiosos para países que lutam bravamente para melhorar seu claudicante ensino. É simples, se for possível estancar a sangria do "desaprendizado" – que põe a perder 2,6 meses de estudos –, os ganhos serão enormes. Da ordem de 25%? Que outras intervenções seriam tão poderosas?
Tais ideias abrem caminho para muitas linhas de atividade. Pais interessados e comprometidos com a educação dos seus filhos podem fazer o mesmo que os judeus de Bethesda. Mas, vamos nos lembrar, se livro fosse cultura, os cupins seriam os seres mais cultos do globo. Só livro lido é cultura. Portanto, cobranças sem dó nem piedade. Mas seria só empurrar livros e mais livros goela abaixo dos filhos? Jamais! É preciso desenvolver o prazer da leitura, e o bom exemplo é essencial. À força, pode sair o tiro pela culatra. Que livros? Não adianta comprar Hegel, Spinoza ou Camões, se as leituras favoritas ainda não passaram muito da Turma da Mônica. É fracasso garantido. Os livros devem andar muito próximo do interesse e da capacidade de compreensão dos leitores, sempre puxando um pouco para cima.
Desviando parcialmente do assunto, quero sugerir aos pais que façam manifestações, que acampem em frente à casa dos prefeitos, até que se mude uma situação vergonhosa. Uma pesquisa recente com as bibliotecas públicas brasileiras pôs a descoberto que (além de fecharem às 6 da tarde) apenas 20% delas abrem aos sábados e só 1% aos domingos. Como é possível que, nas horas e dias de folga das escolas, as bibliotecas permaneçam fechadas? No caso das leituras de férias, são os únicos dias em que muitos pais poderiam ir à biblioteca para escolher livros com os filhos.
Para aqueles que cuidam da educação como ofício, as implicações da pesquisa da Johns Hopkins não são menos revolucionárias. Mostram ser preciso fazer alguma coisa, somente para conseguir não andar para trás nas férias. Por exemplo, programas públicos de leitura. Não são programas caros nem complicados, basta criar monitorias para garantir que as leituras sejam feitas.
Em um nível mais ambicioso, sobretudo para alunos mais vulneráveis, poderiam ser criados cursos de férias. Não se trata de fazer a mesma coisa que no período letivo, pois seria repetir um ensino aborrecido e pouco produtivo. Precisamos de projetos intelectualmente desafiadores, atividades que estimulem os miolos, jogos e muitas outras coisas. O que precisa ser aprendido não é muito diferente, mas viria vestido com roupas mais alegres. E, como sabemos que cabeça vazia é oficina do diabo, essas atividades podem até mesmo ter outras consequências benéficas, por evitar rumos pouco recomendáveis em que se deságuam as amplas energias desses jovens.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Em crise: sem discurso político, programa ou alianças”
EX-MINISTRO JOSÉ DIRCEU, AO DESCREVER O ESTADO DA CAMPANHA DE JOSÉ SERRA A PRESIDENTE

ALELUIA VICE
José Serra pode sair da convenção do PSDB em Salvador sem definir o vice, mas o mais cotado é o deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA).

INTERESSE
Até o início da noite de ontem, 163 jornalistas estavam credenciados para cobrir a convenção tucana na capital da Bahia. É pouco.

DO CONTRA
O ex-governador Orestes Quércia, cacique da pajelança do PMDB paulista, rejeita o líder Michel Temer e nem quer ouvir falar de Dilma. 

ABRIGO COMPANHEIRO
O ex-governador Zeca do PT (MS) está no Alvorada com a mulher, a convite de Lula. Volta no domingo, após a convenção do PT. 

TESTEMUNHA DE ESQUADRÃO SOFRE ATENTADO
O comerciante Maximiano Alves entrou dia (9) na estatística de mais de 200 crimes de mando na divisa de Pernambuco com Paraíba, em dez anos: testemunha do processo que investiga a execução do ex-vereador Manoel Mattos, em janeiro de 2009, ele levou um tiro de raspão na cabeça em Itambé (PE). A ONG Justiça Global pede agilidade na investigação do crime, obra do Esquadrão da Morte. 

APELO INÚTIL 
Em 2002, a Organização dos Estados Americanos (OEA) determinou ao Brasil que protegesse Manoel Mattos, autor das denúncias. 

CORPO FECHADO 
Em 2005, uma CPI na Câmara dos Deputados pediu a investigação de delegados, policiais, promotores e até de um deputado nas execuções.

SALTO ALTO 
Candidato tucano ao governo de São Paulo, Geraldo Alckmin foi picado pela mosca azul. Amigos se queixam de que nem celular atende. 

TSE PLANTA DÚVIDA 
O Tribunal Superior Eleitoral não deixou claro, em sua decisão, se a lei do Ficha Limpa se aplica aos que foram ou “que forem” condenados pela Justiça em decisão colegiada. Disso dependem muitos candidatos.

EXEMPLOS DA INCERTEZA
Condenados em tribunais, os ex-governadores Anthony Garotinho (PR-RJ), Ronaldo Lessa (PDT-AL), Paulo Maulf (PP-SP), Jackson Lago 

(PDT-MA)
e Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) podem ficar inelegíveis.

DA PF ARA A CBF?
O presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais, Marcos Wink, fez duras críticas ao diretor-geral da PF, Luiz Fernando Correia, no site da entidade. E dá uma informação surpreendente: após deixar o cargo, Correia iria trabalhar na Confederação Brasileira de Futebol.

LA VITA É BELLA 
O jornal La Repubblica questiona viagens de políticos da Itália de Miami à Lapônia, terra do Papai Noel. Um deputado ficou 122 dias ausente: “Para quê? Quanto custa?”, pergunta. Esses italianos...

BIRUTA DE AEROPORTO
O senador Osmar Dias (PD) ameaça outra vez lançar sua candidatura ao governo do Paraná na próxima semana. Não espantaria se ele recuasse outra vez, tentando afastar Gleisi Hoffman (PT) da disputa.

OLHO NO ÓLEO 
A Agência Nacional de Petróleo desmentiu o jornal Le Monde, que anunciou a contratação de seguro para as plataformas de petróleo offshore da Petrobras. A ANP diz que vai apenas “reforçar a segurança”, após o acidente com a britânica BP, nos EUA, em abril. 

TESTEMUNHA INDISCRETA
Uma terceira paraguaia entrou na justiça contra o presidente do Paraguai e ex-bispo Fernando Lugo, por suposta paternidade. Chamou o chefe de gabinete para testemunhar na investigação da paternidade.

UM SÁBIO 
Do site Live Science: Universidade alemã revelou a crença de muitos na Terra plana. Em 2009, Lula negou a quadratura: “como o mundo gira a gente também passa lá embaixo, onde está mais poluído”.

PERGUNTA SEM DÉFICIT 
Lula vai decidir o aumento dos aposentados nos 45 minutos do segundo tempo de Brasil x Coreia do Norte?

PODER SEM PUDOR
ASSIM NÃO DÁ 
Secretário de Turismo de Belo Oriente (MG), João Hemétrio lembra uma história ocorrida na Câmara Municipal de sua cidade. Durante sessão concorrida, o vereador Ramirim estava sob pressão por causa de uma proposta de aumento diferenciado para servidores públicos, quando desabafou, arrancando gargalhadas:
- Não dá pra agradar gregos e goianos...
REQUIÃO PODE SER HUMILHADO NA CONVENÇÃO 
A cúpula do PMDB, que apoia o governo Lula, resolveu submeter o ex-governador do Paraná Roberto Requião a uma humilhação sem precedentes, neste sábado, na convenção nacional do partido. Já que Requião insiste em disputar a Presidência da República pelo PMDB, sua candidatura foi registrada, assim como a de outro filiado, Antônio Pedreira, que disputarão no voto a opção de apoiar Dilma Rousseff. A direção do PMDB aposta que a votação Requião será um vexame.