segunda-feira, junho 07, 2010

ANCELMO GÓIS

Padre boleiro
ANCELMO GÓIS

O GLOBO - 07/06/10

Ontem de manhã cedinho, padre Marcelo Rossi rezou missa em São Paulo e, lá pelas tantas, pediu que quem acreditasse em Deus levantasse a mão.

Todo mundo, claro, atendeu.

O sacerdote, então, perguntou quem acreditava no título do Brasil na Copa. Só sobraram uns 20% com a mão pro alto.

Lula para a ONU

Sábado, um carnaval inédito tomou as ruas de Soweto, o bairrofavela de Johannesburgo. Cerca de 15 mil nativos e imigrantes desfilaram em alas que representaram as nove etnias do país e as comunidades estrangeiras.

Havia até uma ala do Brasil.

Os conterrâneos batucavam um tal de “olosamba”, mistura de Olodum com samba.

Segue...

Os brasileiros desfilaram com camisetas que tinham... a logo “Brasil, um país de todos”.

Parecia campanha de Lula como candidato a secretário-geral da ONU. Com todo o respeito.

Deve ser terrível

Por causa dos muitos furtos de automóveis, os seguranças do shopping Maponya Mall, em Johannesburgo, o único do país da Copa que pertence a um negro, param os carros na saída do estacionamento e checam se a chave está na ignição.

Energia da Copa

Os 300 mil clientes da Ampla no Estado do Rio que têm medição eletrônica de luz receberão energia de graça durante os jogos do Brasil na Copa.

Se a seleção for à final, serão 14 horas na promoção anunciada pela empresa.

Garota de Londres

O cantor brasileiro Rodrigo Lampreia, em turnê por Londres, se apresentava num pub quando Amy Winehouse, a popstar maluquete, subiu no palco e cantou “Garota de Ipanema” com ele.

Dizem até que pintou um clima entre os dois.

Economia em festa

O Ministério da Fazenda prepara festa, com tapete vermelho, para receber amanhã os números oficiais do PIB do primeiro trimestre de 2010.

A expectativa é que a economia esteja bombando e que, no fim do ano, supere a projeção oficial de 5,5% de crescimento.

Versos de Pushkin

O embaixador Dario de Castro Alves, que faleceu ontem aos 83 anos, tinha especial paixão por dois países: Portugal e Rússia.

Foi o primeiro a traduzir diretamente do russo o clássico “Eugênio Onegin”, de Alexander Pushkin (1799-1835).

Viva España!

O governo espanhol prometeu investir R$ 50 milhões até o fim de 2010 em segurança alimentar e nutricional no semiárido do Nordeste, dos quais R$ 19 milhões serão usados para construir 10.210 cisternas.

ZONA FRANCA

É hoje a reinauguração da quadra do Salgueiro, a partir de 21h, com a bateria de Mestre Marcão.

Ney Pecegueiro organiza o VI Congresso Internacional de Artroplastia.

A Winetag lança promoção para o Dia dos Namorados.

A filial do restaurante Lokau, na Av. das Américas, abre ao público dia 10.

A Origens promove coquetel turco, hoje, no Ipanema 2000.

O Nik Sushi criou pratos em taças, em homenagem à Copa.

É hoje a Micareta Sertaneja, na Ilha dos Pescadores.

A grife As Meninas doou roupas em prol da Casa de Apoio à Criança com Câncer Santa Teresa.

Hoje, às 19h, no Garcia & Rodrigues, será lançada a revista “FéRTIL”, sobre reprodução assistida.

Deputado Elymar

Elymar Santos, que deve ser candidato a deputado federal pelo PP, teve de retirar um painel com seu nome da fachada de um clube em Niterói, onde ele fez show na sexta-feira.

A ordem foi da Justiça Eleitoral alegando propaganda fora de época.

Mas...

O cantor não se conforma: — Não estamos nem em período eleitoral. A decisão é abuso de poder. Se eu estiver certo, vou processar a Justiça Eleitoral.

Meu ganha-pão é o show.

Aliás...

Por causa da candidatura de Elymar, o senador Francisco Dornelles, seu correligionário, perguntou ao TSE, se um candidato que exerce a profissão de cantor poderá continuar trabalhando em período eleitoral.

O Tribunal respondeu que sim — desde que não seja showmício.

Barco eleitoral

O MP Eleitoral denunciou o ex-prefeito de Angra Fernando Jordão e o atual, Tuca Jordão (sobrinho do antecessor).

A dupla é acusada de comprar votos, ao bancar, no período eleitoral, transporte de barca de graça para a Ilha Grande.

CD por R$ 5

MV Bill, o rapper, deixou a gravadora Universal e lançou seu novo CD, “Causa e efeito”, com o próprio selo, Chapa Preta, a R$ 5. Em menos de dois meses, vendeu três mil cópias: — O CD nesse valor ajuda a combater a pirataria e os preços abusivos das gravadoras.

Faz sentido.

CONHECE A louraça da foto? É Deborah Bloch, a atriz, que aparecerá assim em “Separação”, a série da TV Globo, disfarçada para que seu marido na trama, vivido por Vladimir Brichta, não a reconheça

PONTO FINAL

No mais

A coluna mata a bola e não mostra o bilau. Veja na foto do nosso Ary Cunha, coleguinha da equipe do GLOBO na África do Sul. Como saiu aqui outro dia, banheiros de hotéis e restaurantes de Johannesburgo apareceram com esta novidade para a Copa.

O golzinho no mictório serve para a rapaziada mirar na bolinha (veja, na parte inferior da foto) e não errar o alvo na hora do pipi. Faz sentido.

COM ANA CLÁUDIA GUIMARÃES, MARCEU VIEIRA, AYDANO ANDRÉ MOTTA, BERNARDO DE LA PEÑA E VIVIAN OSWALD

GOSTOSA

CARLOS APOLINARIO

A ditadura gay
CARLOS APOLINARIO
FOLHA DE SÃO PAULO - 07/06/10

Eu não concordei com a Prefeitura de SP quando ela proibiu as manifestações na avenida Paulista, mas lá manteve a Parada Gay


De alguns anos para cá, muito se tem falado sobre gays e lésbicas. Em todas as Casas Legislativas, e também no Executivo, têm sido aprovadas leis a esse respeito -e ainda existem muitos projetos em tramitação.
A Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou a lei nº 10.948/ 2001, que determina: se alguém for acusado de discriminar um gay em uma empresa, além da multa e do processo penal, o estabelecimento poderá ter cassada a licença de funcionamento. Ou seja, se a empresa tiver 200 funcionários e sua licença for cassada, todos serão punidos com a perda do emprego.
O movimento gay faz um intenso lobby para que o Congresso Nacional altere a lei nº 7.716, que define os crimes de racismo.
O objetivo das lideranças gays é que a legislação passe a punir também aqueles que têm uma opinião divergente das suas.
Se alguém falar contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou disser que não concorda com a adoção de crianças por homossexuais, poderá ser processado.
E mais: caso essa lei seja alterada, não poderei falar da Parada Gay, nem mesmo fazer o discurso contra a instalação da Central de Informação Turística GLS pela Prefeitura de São Paulo, como fiz na Câmara Municipal. E não poderia nem escrever este artigo.
A Constituição Federal assegura o direito à liberdade de expressão.
Podemos criticar divórcio entre héteros, sindicatos, empresários, políticos, católicos, evangélicos, padres e pastores, mas, se falarmos contra o pensamento dos gays, somos considerados homofóbicos e nos ameaçam, até com processos.
Punir alguém por manifestar opinião divergente é próprio das ditaduras. Eu tenho a convicção de que já estamos vivendo numa ditadura gay, pois, na democracia, qualquer pessoa pode discordar.
Eu não concordei com a Prefeitura de São Paulo quando ela proibiu as manifestações na avenida Paulista, mas lá manteve a Parada Gay. A Paulista é uma via de acesso aos principais hospitais da cidade.
Por esse motivo, foi proibida a realização de eventos, entre eles a comemoração do Dia do Trabalho promovida pela CUT e a Marcha para Jesus. Não faz sentido manter a Parada Gay na Paulista.
Por defender essa posição, sou acusado de ser homofóbico.
Também sou acusado de homofobia por me manifestar contrariamente à participação da prefeitura na criação da Central de Informação Turística GLS no Casarão Brasil, sede de uma ONG gay.
Não é correto usar o dinheiro público para dar privilégio a um grupo. O ideal é criar um serviço que atenda a todos os segmentos sociais, já que a Constituição diz que todos somos iguais perante a lei.
Respeito o gay e a lésbica, pois, como cristão, aprendi o significado e o valor do livre-arbítrio, mas discordo da exclusividade que o poder público dá à comunidade gay.
Essas medidas tornam os homossexuais uma categoria especial de pessoas. Do jeito que as coisas vão, daqui a pouco alguém apresentará um projeto transformando São Paulo na capital gay do país.
CARLOS APOLINARIO, vereador em São Paulo pelo DEM, é líder do partido na Câmara Municipal. Foi deputado estadual, presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo e deputado federal.

CLÁUDIO HUMBERTO


Estatal Correios tira o sono de Lula
 

Após despacho com o presidente Lula, a ministra Erenice Guerra (Casa Civil) teve uma conversa dura com o ministro José Artur Filardi (Comunicações) sobre a deterioração da qualidade dos serviços da estatal Empresa de Correios e Telégrafos. Lula já não aguenta receber notícias negativas sobre a ECT. "Por mim, toda a diretoria deveria ser demitida", desabafou o presidente, segundo fontes do Planalto.


Desgaste

O ministro das Comunicações acha que o Governo deveria evitar o desgaste de uma demissão coletiva da diretoria da ECT.



PMDB escolhe
Antes de demitir a diretoria da ECT, o Governo vai consultar os donos dos cargos, Romero Jucá (PMDB-RR) e Renan Calheiros (PMDB-AL).


Mais consulta

Outro do PMDB que participará do processo de substituição da diretoria da ECT é o ex-ministro das Comunicações e senador Hélio Costa (MG).


Vade retro

Lula tinha boa imagem do presidente da ECT, Carlos Henrique Custódio, mas hoje não quer vê-lo nem vestido com camisa do Corinthians.


Supermercado

Em Porto Alegre, uma lei de 2001 impede supermercados com mais de 2,5 mil metros quadrados. Chama-se "Lei Zaffari" por beneficiar uma rede local com este nome. Mas conseguiram piorar a lei, estendendo-a a empresas atacadistas, agora impedidas de se instalarem na cidade. A lei foi aprovada em tempo recorde, menos de um mês. Seu autor, um vereador tucano, tem um programa de tevê patrocinado pela... Zaffari.


Mensaleiro

O ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, escreve um artigo semanal, hoje reproduzido em dois jornais. Quer atingir 50 jornais até o final do ano.


No escurinho

Para a aplicação de películas de controle solar em veículos e áreas envidraçadas, o Senado vai gastar R$ 78 mil.


Eleição

O Tribunal Superior Eleitoral vai gastar mais de R$ 1 milhão para comprar cabines de votação para as 27 unidades da Federação.


Dissabor

Nem tudo são flores para o promotor Diaulas Ribeiro, cotado para chefiar o Ministério Público do DF: há um ano, ele teve seu nome negado pelo Senado para compor o Conselho Nacional do Ministério Público.


Tarja preta

Autor de uma proposta de emenda debilóide, incluindo entre os direitos constitucionais do cidadão o da "busca à felicidade", o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) deveria prestar mais atenção na felicidade dos próprios assessores: nove deles vivem à base de remédios controlados.


Apagão postal

A ministra Erenice Guerra (Casa Civil) quer demitir toda a diretoria dos Correios porque teme um apagão postal em pleno mês de agosto, auge da campanha, com milhões de cartas de candidatos aos eleitores.


Tobogã

Analistas preveem que o Real cairá ainda mais até as eleições - foram quatro desvalorizações em cinco dias - com o que chamam de "cenário de incertezas" nas propostas dos candidatos ao pós-Lula.


Tasso

O coronel e senador Tasso Jereissati antecipou a convenção do PSDB cearense para o dia 19. Quer pressionar o governador Cid Gomes (PSB) a manifestar um "apoio branco" à sua reeleição. Mas está difícil.


FRASE DO DIA


"É um atestado de incompetência administrativa"

PODER SEM PUDOR

Professor aloprado
Professor de Português e Geografia no renomado colégio Dante Alighieri, em São Paulo, Jânio Quadros era muito exigente: queria cadernos sempre em dia e bem cuidados. Certa vez, um estudante apresentou um caderno rabiscado e rasurado. O professor perdeu a paciência:
- Retire-se!
O aluno, embaraçado, fez menção de sair pela porta.
O professor atalhou-o, ríspido:
- Pela janela. O senhor não é digno de cruzar essa porta!

PORRE

SEGUNDA NOS JORNAIS

Globo: Novo código prevê sentença única para casos iguais

Folha: Disputa por universidade pública é o dobro em SP

Estadão: Custo da eletricidade subiu 150% para indústria

JB: R$ 3 bi para salvar o litoral

Correio: Guerra de salários na Esplanada

Valor: Safra terá R$ 100 bi de crédito e mais subsídios

Jornal do Commercio: Alerta vermelho

domingo, junho 06, 2010

AUGUSTO NUNES

 As milícias comandadas pelos generais da banda podre só conseguem matar de rir

AUGUSTO NUNES
VEJA ON-LINE - 6 de junho de 2010

Em junho de 2005, dias depois de despejado da Casa Civil pelo escândalo do mensalão, o deputado José Dirceu incorporou o guerrilheiro de araque num encontro da companheirada em São Paulo e caprichou na discurseira beligerante: ”Vou percorrer o país para mobilizar militantes do PT, dos sindicatos e dos movimentos sociais”, preveniu.  ”Temos de defender o governo de esquerda do presidente Lula do golpe branco tramado pela elite e por conservadores do PSDB e do PFL”. Passou as semanas seguintes mendigando socorro até aos contínuos da Câmara, teve o mandato cassado em dezembro e deixou o Congresso chamando o porteiro de “Vossa Excelência”.
Passados cinco anos, o sessentão que finge perseguir o socialismo enquanto corre atrás de capitalistas com negócios a facilitar tirou do armário a espingarda com balas de festim e declarou-se pronto para mais um combate que não travará. Ao saber da quinta multa aplicada ao presidente fora-da-lei, descobriu que a turma do golpe branco voltou à ativa e já se infiltrou no Tribunal Superior Eleitoral. “A direita está tentando usar o TSE para transformar o presidente Lula em refém, impugnar a candidatura de Dilma Rousseff e recuperar o poder”, informou. “O que os partidos conservadores estão fazendo é golpismo”.
No momento, Dirceu só comanda o regimento de mensaleiros que luta no Supremo Tribunal Federal para livrar-se da cadeia. Mas está preparado para liderar a contra-ofensiva dos milicianos do PT e dos movimentos populares se os adversários continuarem recorrendo à Justiça e se os ministros teimarem em aplicar multas que o multado paga com deboche. Convém ao TSE, portanto, promover o presidente a Primeiro Inimputável, esquecer os crimes que coleciona em parceria com a sucessora que inventou e deixar o casal em campanha delinquindo em paz.
Mas só garantir a candidatura da afilhada do chefe não basta, emendou o deputado Paulo Pereira da Silva, conhecido pela alcunha de “Paulinho da Força”, num encontro de representantes de centrais sindicais. O eleitorado poderá votar em qualquer concorrente, desde que seja Dilma Rousseff, avisou um prontuário que, em vez de abrir o bico em interrogatórios policiais, faz ameaças em comícios ilegais. “Como é que esse sujeito vai ser presidente da República?”, berrou Paulinho da Força. E se a proibição for ignorada por José Serra? “Vamos ter um conflito na sociedade brasileira com esse sujeito lá”, advertiu o orador que enriquece administrando simultaneamente a Força Sindical, o PDT paulista, um gabinete no Congresso e meia dúzia de ONGs malandras.
Ou o Brasil se dobra à vontade do Grande Pastor, estão advertindo os sacerdotes comparsas, ou a seita dos devotos de Lula tornará o país ingovernável. E que ninguém se atreva a acionar os instrumentos de defesa do Estado de Direito. Como informa a novilíngua do stalinismo farofeiro, usar a polícia para conter badernas é “repressão política”. Lembrar que, por determinação constitucional, cumpre às Forças Armadas neutralizar ameaças à ordem democrática é coisa de golpista. Se alguém ousar desafiá-la, a companheirada convulsiona o país.
Convulsiona coisa nenhuma. Os profissionais da fraude estão apenas blefando, convencidos de que o País do Carnaval continua a confundir fato e fantasia. Qualquer torcida organizada mobiliza mais militantes que o PT. As assembleias sindicais são tão concorridas que uma reunião de condomínio. Sem as duplas sertanejas, os brindes e a comida de graça, as comemorações do 1° de Maio juntariam menos gente que quermesse de lugarejo. Os movimentos sociais morreriam de inanição uma semana depois de suprimida a mesada federal. Tropas formadas por milicianos sob o comando de Dirceu, Paulinho da Força e outros generais da banda podre só podem matar de rir.
O que espera o Ministério Público para apanhar a luva atirada pelos farsantes? O que há com o Judiciário que não paga para ver? A tibieza do TSE sugere que o blefe, concebido para que velhos oportunistas e esquerdistas psicóticos ganhem tempo, ganhem força real e vençam pela rendição sem luta, segue seu curso. Os ministros talvez se sintam intimidados pela falácia do “presidente mais popular da história”. Deveriam convidar o colosso de popularidade a aparecer também fora das pesquisas.
Desde a vaia do Maracanã, Lula só se apresenta para plateias domesticadas. Na sexta-feira, foi apupado por uma multidão indignada com o atraso do almoço gratuito. O filme sobre o Filho do Brasil deveria deixar bilionários os autores da ideia. Estão todos correndo atrás do prejuízo. Se Lula e Dilma fossem enquadrados pela Justiça, o brasileiro comum seria tão solidário com os punidos como um auditório de Sílvio Santos com o calouro reprovado pelo júri.
Em 25 de outubro de 1978, quando o resgate do Estado de Direito era apenas um brilho no olhar dos democratas garroteados pelo AI-5, o juiz federal Márcio José de Moraes condenou a União pela morte de Vladimir Herzog, assassinado três anos antes por agentes da ditadura. Mais de 30 anos depois, o sequestro do Estado de Direito ainda é só um brilho no olhar dos liberticidas e o governo não pode, por enquanto, recorrer a instrumentos de exceção, mas não apareceu nenhum juiz disposto a fazer, sem riscos, o que fez Márcio Moraes cercado de perigos reais e imediatos.
Para que fique em frangalhos a fantasia dos assassinos da democracia, só faltam juízes decididos a enfrentar, em nome da lei e da razão, um presidente que zomba dos demais Poderes e afronta a Constituição que jurou proteger.

DANUZA LEÃO

Sexo e batina
DANUZA LEÃO
FOLHA DE SÃO PAULO - 06/06/10


PEDOFILIA, um crime abominável. Será que há mais pedófilos agora do que em outros tempos? Claro que não. Desde que o mundo é mundo, tios seduzem sobrinhas, pais seduzem suas próprias filhas e sempre existiram casos escabrosos no seio da Santa Madre Igreja, só que dessas coisas não se falava.
Quem nunca ouviu contar que numa cidadezinha perdida uma adolescente teve um filho do seu próprio pai? Uma criança que passa por esse tipo de abuso não entende o que está acontecendo, e se entendesse e contasse para a mãe, provavelmente seria chamada de mentirosa.
E contar o quê? Que aquele homem tão respeitado tinha segurado ela no colo e acariciado suas perninhas, de maneira exatamente igual -para ela- à sua própria mãe, sua própria avó?
Pedofilia, para acontecer, costuma ter a ver com poder. Diante de uma criança, o poder de um pai, de um médico, de um adulto conhecido, é imenso; imagina o de um padre. O que é dito num confessionário pode ser muito erótico, sobretudo se o padre puxar pela língua da criança. Mas uma coisa sempre me intrigou: nunca se ouve falar em crime de pedofilia praticado por mulher.
Há alguns anos houve um episódio nos EUA de uma professora que, acusada de manter relações com aluno de 16 anos, foi julgada e condenada. Quando saiu da prisão, ele já era maior de idade; foram morar juntos, tiveram um filho, e só não sei se foram felizes para sempre. Mas sinceramente: achar que um garotão de 16 anos foi seduzido por uma mulher de 28 é apenas ridículo.
Pelo que os fatos têm demonstrado, a pedofilia é doença, e doença incurável. Não adianta achar que a solução é ser tratado por psicólogos. É totalmente irreal imaginar que em um país como o nosso, onde as prisões são jaulas tenebrosas e superpopulosas, um pedófilo vai ser "tratado" e se curar; tanto quanto é delírio pensar em monitorar os presos que saem para passar o Natal com a família, fazendo com que eles usem a pulseirinha que permite o seu rastreamento. Prepare-se: a licitação seria dispensada, as pulseirinhas custariam uma fortuna e pouco tempo depois estariam à venda nos camelôs da cidade, com o manual de instruções ensinando a como driblar a polícia.
Os padres têm sido muito acusados de pedofilia, ultimamente, mas pense um pouco: jogar num seminário um garoto de 16, 17 anos, com os hormônios explodindo, e pretender que ele se mantenha casto para o resto da vida -não, isso não pode dar certo. É contra a natureza, e como é mais difícil para os padres seduzir mulheres, já que não convivem com elas, acaba sobrando para os garotos. Um belo dia, muito tempo depois, um deles resolve contar o que aconteceu na penumbra de uma sacristia e vira um escândalo. E os casos de que nunca vamos saber, que devem ser milhares?
Os padres precisam casar; não é justo deixá-los passar a vida em abstinência. Mas como seria para um padre começar um namoro? Convida para um chopinho, leva a garota para dançar? E motel depois, pode?
Eu conheço uma moça que namorou um padre; tudo começou por telefone, e ela gostou tanto, mas tanto, que dizia, para quem quisesse ouvir, que nada como um padre que tivesse guardado a castidade durante anos para acalmar as tensões, digamos assim, de uma mulher solitária.
A única coisa que ela não me disse (e eu esqueci de perguntar) é se ele usava batina.

GOSTOSA

JOÃO UBALDO RIBEIRO

A Misteriosa Sabedoria Oriental


JOÃO UBALDO RIBEIRO
O ESTADO DE SÃO PAULO - 06/06/10
Por não saber bem do que se trata, já que existe uma infinidade de culturas e subculturas muito diferentes entre si, mas que podem ser chamadas de orientais, sempre procuro evitar contatos mais aprofundados com a Misteriosa Sabedoria Oriental, particularmente em certas circunstâncias como, por exemplo, nas conferências que alguém sempre faz, quando se vai a um restaurante japonês. De modo geral, explica-se que a Misteriosa Sabedoria Oriental chegou à conclusão de que peixe cru é mais sadio por isso, por aquilo e por aquilo mais. Na verdade, a sabedoria oriental envolvida nisso não tem nada de misteriosa. Os japoneses inventaram maneiras atraentes de comer peixe, legumes e algas crus porque moravam e moram num arquipélago sem combustível, onde até lenha sempre foi escassa. Aí, claro, o pessoal aprendeu a comer cru e elogiar, é natural e compreensível. (Sei que tem gente que encara essa afirmação como sacrílega; cartas indignadas para o editor, por caridade.)
O setor indiano dessa grande sabedoria ? que também é variadíssimo, mas os aficionados esquecem isto ? nunca cessou de fornecer farto material, sempre superior ao que temos por aqui. Lembro um amigo maledicente que alega incapacidade para discernir o que há de superior em viver de uma dieta constituída de bosta de vaca guisada e salada de manga verde, sentado numa cadeira de pregos, na companhia de duas cobras bailarinas. Maledicência, claro, para não falar na exploração de estereótipos sem fundamento na realidade. Mas eram mais ou menos esses os ideais de algumas pessoas fascinadas pela versão indiana da Misteriosa Sabedoria Oriental com quem já conversei.
Agora, porém, creio que devo dar a mão à palmatória. A última novidade da Índia está tendo merecido destaque no noticiário. Trata-se, como vocês devem ter visto nos jornais ou na televisão, de um senhor de 83 anos que afirma estar sem comer ou beber nada há mais de 70. Os médicos que o estudam não têm elementos para contestá-lo e com certeza já deve estar havendo reuniões preliminares de pelo menos uns três grupos de interessados, para montar no Brasil centros destinados a aplicar as descobertas recém-divulgadas. Tenho até uma sugestão para o nome de uma das cadeias de jejum público que deverão surgir. Tiro o nome de "fast food". Como "fast", além de rápido, também quer dizer "jejum" em inglês, sugiro que a primeira cadeia se chame "Fast Fast" ? quero somente um porcentual modesto do faturamento. O mercado é amplo e, durante os quatro meses que durar a moda, imagino que teremos botecos transformados em salões de jejum, onde os iniciados poderão não comer nada em ambientes sofisticados e propícios à meditação, assim como não beber nada sentados a mesas em que apenas a conta será material. Engana-se quem duvida, bobeia quem não investir.
Em Itaparica, contudo, a novidade não fez muito sucesso. Na habitual discussão do Bar de Espanha, ela até foi recebida com acentuado ceticismo da parte dos mais velhos. Ainda persistem recordações dos tempos em que havia pequenos circos e alguns deles visitavam Itaparica. É dessa época a controvertida figura de Rama Shanut, o faquir de um circo que passou uma temporada na ilha. (O faquir não era a principal atração do circo. A principal atração era a rumbeira Chiquita Salguero, em cuja homenagem abro estes parênteses, na verdade uma sergipaninha muito simpática chamada Pureza, a cuja lembrança vários velhos corações ilhéus palpitam.) Rama Shanut não deitava em pregos, mas ficava sem comer, numa gaiola com quatro ou cinco jiboiazinhas. Sob a alcunha popular de Charuto, era bastante festejado, mas foi obrigado a retirar-se da ilha com alguma urgência, quando se constatou que, apesar de cobrar quarenta centavos por cabeça a quem queria vê-lo jejuar, ele engordou seis quilos, depois de três meses de inanição.
Além disso, a fome nunca foi bem um problema aqui na ilha, porque sempre se pode dar um jeito de catar a proteína nos mangues ou nos bancos de areia expostos pela vazante. E há certos refinamentos, inspirados, como os da sabedoria japonesa, pela aspereza das condições vigentes. Assim, muitos dos que anseiam por um lanchinho ou café, mas no momento não dispõem de recursos, recorrem à jacuba (também denominada maria lígia, nunca descobri por quê). Para fazer jacuba, prepara-se um "café" de chicória seca, mistura-se com um pedaço de rapadura para adoçar, acrescenta-se farinha, mexe-se bem e bebe-se rápido, para não dar tempo de a farinha se depositar no fundo da caneca. É a extraordinária criatividade do povo brasileiro, imagino eu.
Além disso, tivemos em nossa história exemplos como o do finado Nelsinho do Alto (nome mudado porque os parentes podem não gostar de vê-lo citado), que dedicou a vida, como ele próprio dizia, a comer de tudo um pouco, pelo menos uma vez. Há grandes discussões sobre o que ele efetivamente comeu em toda a sua trajetória, mas é certo que comeu diversos urubus. Não gostava muito, até porque o tempo de cozimento era muito longo, mas comia, creio que por uma questão de princípio. Não duvido que alguns seguidores seus ainda mantenham discretamente a tradição.
Enfim, nada de realmente novo nessa história toda, talvez apenas a reação de Zecamunista. Ao saber da novidade, ele de início não disse nada, mas depois apareceu com o anúncio de que ia entrar em contato com o indiano, a fim de disseminar sua técnica entre nossos conterrâneos e futuramente tornar a ilha um polo para quem não quiser mais comer, notadamente as mulheres preocupadas com suas silhuetas.
- Mas, Zeca, quer dizer que o pessoal aqui vai passar sem comer nada?
- É, mas sem comer ninguém nunca mais.