domingo, maio 09, 2010

MÃE GOSTOSA

ANCELMO GÓIS

O R$ 1 de Lula
ANCELMO GÓIS

O GLOBO - 09/05/10

Pelas contas do ministro Temporão, o pobre já pode comprar por R$ 1 uma caixa de 10 comprimidos de remédio de combate a colesterol.

É que os genéricos da família sinvastatina foram incluídos no programa Farmácia Popular, de Lula. A rede popular tem hoje 539 unidades próprias, e outras 11.880 conveniadas país afora.

Depois do Viagra...

Remédio anticolesterol pesa no bolso. Uma caixa de 10 comprimidos do Lipitor 10mg, um dos mais vendidos, custa R$ 45.

Mas, como o Viagra, o Lipitor deve perder a patente este ano.

Temporão lembra que males cardiovasculares são as principais causas de mortes no país.

O fim do silêncio

Ingrid Betancourt, a senadora colombiana que ficou seis anos em poder das Farc, entre 2002 e 2008, entregou à Companhia das Letras os originais de seu livro de memórias do cárcere.

“Não há silêncio que nunca termine” sai em setembro.

Data vênia, Carol

Quinta, numa audiência na 4aVara Cível do Rio, uma das estagiárias de direito era a boazuda (com todo o respeito) Carolini Honório, a ex-Big Brother.

De repente, o juiz parou e perguntou: “Acho que conheço você. Você não posou para a ‘Playboy’?”. A “big boa”, toda tímida, tadinha, disse que sim.

Coleguinha

A Associação dos Cronistas Esportivos do Rio negou registro ao ex-jogador Edmundo como coleguinha. É que o Animal agora é comentarista da TV Band.

Não é fofo?

Do embaixador americano Thomas Shannon, sobre a falta de intercâmbio de congressistas de seu país com o Brasil: — É difícil explicar aos eleitores de lá que os políticos vêm trabalhar, e não passear. Afinal, o Rio é cheio de belezas.

O DOMINGO É de Alinne Moraes, 27 anos. Na reta final de “Viver a vida”, a novela da TV Globo, a atriz brilha cada vez mais no papel de Luciana, personagem que se tornou sinônimo de orgulho para deficientes físicos no Brasil. A torcida da bela é para que Luciana não volte a andar, pois, assim, “mostrará que é possível ser feliz, independentemente de limitações físicas”.

Esta foto foi feita no Castelo de Courances, na França, durante as gravações da lua de mel da personagem com Miguel, vivido por Mateus Solano. Viva Luciana! Viva Alinne!

Licença da Juju

Juliana Paes, mamãe do ano e musa da coluna, ganhou na semana que passou um presente adiantado de Dia das Mães.

A TV Globo anunciou às funcionárias que adotou o programa de 180 dias de licença-maternidade.

Cerca de 3 mil mulheres trabalham na emissora, e umas 100 dão à luz por ano.

‘Bolço’ é o cacete

Um anúncio na internet do minidicionário de inglês “Michaelis”, da editora Melhoramentos, diz, acredite: “Esta versão de... bolço (aaaaiiiii)... traz mais de 26.899 verbetes...” Bolso com “ç” nem no inglês.

Faz sentido

Do músico Bruno Gouveia, do grupo Biquini Cavadão, no seu Twitter: — A Grécia agora deu para quebrar bolsas. Gostava mais quando eles quebravam pratos.

CLÓVIS ROSSI

A confissão que falta
CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SÃO PAULO - 09/05/10

LONDRES - Introduzo, na polêmica sobre a Lei de Anistia e a Comissão da Verdade, contribuição de um colunista não convidado, chamado Dmitri Medvedev, que vem a ser presidente da Rússia.
Em discurso comemorativo dos 65 anos da vitória sobre o nazismo na Segunda Guerra Mundial, obtida quando Josef Stálin ocupava o cargo hoje de Medvedev, o atual presidente disse: "Stálin cometeu crimes maciços contra seu próprio povo e, apesar de que trabalhou muito, apesar de que, sob sua direção, o país logrou êxitos, o que fez com seu povo é imperdoável."
Mais: "O regime que se formou na União Soviética só pode qualificar-se como totalitário, e nele se sufocavam os direitos e as liberdades elementares".
Medvedev advogou pela abertura dos arquivos históricos, incluídos os da guerra, e até defendeu a criação de arquivos eletrônicos.
Justificou: "Nós permitimos a falsificação da história, e a verdade deve, ao fim e ao cabo, ser apresentada à nossa gente e aos cidadãos estrangeiros que estejam interessados". Completou: "Quanto mais material seja de livre acesso, tanto melhor".
Não estou comparando o regime militar brasileiro com o estalinismo, até porque são raras as situações comparáveis em países tão diversos como Rússia e Brasil.
Feita a ressalva, é importante observar que, em matéria de direitos humanos, ocultação da verdade e liberdades públicas, as coisas não podem se medir por quilo, na base de ali foi mais, aqui foi menos.
Se houve violações e ocultações -e houve, tanto no Brasil como na URSS-, cabe prestar contas, expor a verdade, fazer mea-culpa como Medvedev está fazendo, ainda que ele seja jovem demais para poder ser responsabilizado pelos crimes do estalinismo.
Ainda assim, ousou usar o "nós" para falar do passado.

DORA KRAMER

Sem fantasia
DORA KRAMER 
O Estado de S.Paulo - 09/05/10

Pela enésima vez nesses anos em que prevalece na política brasileira a dicotomia entre PT e PSDB, o assunto voltou à cena no primeiro encontro dos pré-candidatos à Presidência da República, na última quinta-feira em Minas Gerais.

Pela enésima vez com a mesma abordagem inconsistente. Bem intencionada até, mas fundada no pressuposto de que as duas legendas detenham o monopólio da excelência dos quadros e, uma vez dirimidas as divergências mútuas, governando juntas resolveriam com altivez ética, competência técnica, e por que não dizer, esmero estético, os problemas do País.

Claro, trata-se de uma caricatura simplificada, mas não está muito longe daquilo que petistas e tucanos dizem sonhar enquanto no plano prático brigam de se rasgar.

Desta vez quem levantou o tema foi Marina Silva, do PV. Ela falava como sempre bem articulada, sobre questão interessante: a ética conjuntural adotada pelos partidos de acordo com seus interesses, em contraposição à ética dos valores firmes que deveria valer sempre independentemente da circunstância.

Citou a título de exemplo: "O PSDB tentou governar sozinho e ficou refém do que havia de pior no Democratas; o PT tentou governar sozinho e ficou refém do que havia pior no PMDB".

Sem discordar de evidentes malefícios de alianças de ocasião e da existência realmente de áreas deterioradas nos partidos referidos, há que se estabelecer o seguinte: quando PSDB e PT envolveram-se em confusões que levaram tucanos e petistas - estes ainda com maior gravidade por atingir a direção do partido - a se transformarem em réus de processos no Supremo Tribunal Federal não precisaram de assessoria do DEM ou do PMDB.

Não consta também que tenham sido forçados com armas no pescoço a buscarem parceria nesses partidos. Fizeram-no porque quiseram. Como se dizia antigamente: são maiores e vacinados.

E, sobretudo, politicamente adversários inconciliáveis. Disputam o mesmo espaço. Querem o poder como protagonistas e não deixam por menos, não aceitam ser coadjuvantes uns dos outros.

E aqui podemos passar à resposta que o pré-candidato do PSDB, José Serra, deu àquela explanação de Marina.

"Se eu for eleito, pode parecer uma heresia, vou querer o PT e o PV no governo, em função de objetivos comuns, com base no programa".

Nada mais inadequado para ser dito em pleno curso da disputa eleitoral. Ainda mais uma disputa em que, tirando os candidatos que procuram se comportar com a maior fidalguia, os oponentes estão com as facas nos dentes.

Na mesma hora aliados de Dilma fizeram ironias com a oferta do tucano e 24 horas depois, já devidamente orientada, ela reagiu com "estranheza" à proposta dizendo que PT e PSDB "têm projetos distintos".

De fato. Não há como ignorar a evidência. É possível que a intenção de Serra tenha sido manter sua linha estratégica de conciliação. Mas, aos olhos do inimigo a mão estendida certamente é vista como o anzol da cooptação lá na frente, caso seja eleito, ou pretensão de conquistar a unanimidade como candidato.

Por mais que no plano ideal seja uma proposta lhana, no real recende a dificuldade de convivência com a oposição. Se o PT perder, será porque o eleitor quer o partido na oposição. Se o PSDB for derrotado, será porque o eleitorado não o quer de novo no governo.

Ao menos por enquanto é assim que as coisas estão postas. Podem mudar? Podem. Mas seriam preciso um pouco mais de trabalho do que simplesmente abertura de "diálogo" ou convites para participação no governo do partido adversário.

Seria necessário redefinir o quadro de correntes políticas. Quem faria oposição? Os novos protagonistas estariam dispostos a abrir mão das maiorias de ocasião? Daqueles que servem para lhes dar sustentação, mas não servem para ser apresentados às visitas? Ou o projeto seria varrê-los do cenário assegurando lugar apenas aos bons? Quem faria o julgamento?

Alguns discursos são bonitos de serem ditos, mas ficam mais complicados de serem aplicados quando precisam ser transformados em compromissos que impliquem concessões de todos os lados. De vencedores e vencidos.

BANDIDOS

PAINEL DA FOLHA

Estados desunidos
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 09/05/10

Ainda que muito se fale nos tropeços das primeiras aparições públicas de Dilma Rousseff como candidata, o que mais preocupa o comando da campanha do PT neste momento é a situação mal parada dos palanques nos Estados. Na semana que passou, o caso mais notável foi o do Rio Grande do Sul, onde uma visita de dois dias de José Serra serviu para esquentar o namoro PSDB-PP -este último com um dote de um minuto e meio de tempo de televisão- e, principalmente, para produzir cenas explícitas de proximidade entre o tucano e o candidato ao governo José Fogaça, cujo PMDB deveria estar, em tese, com Dilma. Pela primeira vez, Fogaça disse que fará o que a seção gaúcha do partido determinar. E esta é pró-Serra.

com LETÍCIA SANDER e GABRIELA GUERREIRO
Balança... Além do Rio Grande do Sul, a estrutura do palanque de Dilma também inspira cuidados no Paraná, onde foi para o brejo uma aliança PT-PDT costurada pessoalmente por Lula, e no Pará, onde resultaram frustradas todas as tentativas feitas pelo Planalto de mediar o conflito entra a governadora petista Ana Júlia e o peemedebista Jader Barbalho.
...balança... Em Santa Catarina, a líder nas pesquisas, Ângela Amin (PP), outrora computada como pró-Dilma, passou a flertar com Serra. Diz que a eventual presença do tucano fortalecerá seu palanque. "Quem vier nos ajudar será nosso parceiro."
...mas não cai. Petistas argumentam, porém, que embora Serra tenha resolvido mais pendências, suas alianças são mais restritas que as de Dilma. Citam como exemplo Pernambuco e Ceará.
Vai sonhando. Ainda que a semana tenha se encerrado com a iminência de um acerto pró-Hélio Costa em Minas, há gente no PT dizendo que, antevendo dificuldade para se eleger, o peemedebista ainda pode desistir e optar pela reeleição ao Senado, abrindo caminho para Fernando Pimentel. O PMDB zomba da ideia.
Custo-benefício. Não obstante a aliança fechada com o PSC, a campanha de Serra quer mantê-lo o mais distante possível do Distrito Federal, onde o único palanque disponível é o do encrencado Joaquim Roriz. Um dirigente tucano resume: "É 1% do eleitorado e 99% de problema".
Quem diria. Do Twitter de Cesar Maia (DEM): "Serra deve ter poder de premonição. O início da campanha da Dilma deu razão a ele em não preanunciar a candidatura". O ex-prefeito do Rio foi crítico ácido da demora do tucano.
Precisava... Com certeza ninguém criticará Lula em público, mas, na campanha de Dilma, houve quem não gostasse de ouvir o presidente da República afirmar, durante evento público na sexta-feira em Pernambuco, que a ex-ministra não cresceu tudo o que pode nas pesquisas porque "eu ainda não subi ao palanque com ela para pedir votos".
...dizer? Mesmo que o diagnóstico seja verdadeiro, ponderam os descontentes, explicitá-lo agora em nada contribui com o esforço para apresentar Dilma como uma candidata que pode andar com as próprias pernas, sem prejuízo do padrinho poderoso.
Contralto. Em recente almoço com a direção da Rede TV!, Fernando Henrique Cardoso fez observações críticas ao desempenho de Dilma nas primeiras entrevistas de campanha, mas com uma ressalva galante: "A voz dela é bonita".
Sei não 1. Ainda que os ministros Paulo Bernardo (Planejamento) e Alexandre Padilha (Relações Institucionais) tenham vindo a público para garantir que Lula vetará o reajuste de 7,7% para os aposentados se esse percentual for referendado pelo Senado, no entorno do presidente a certeza não é assim tão peremptória.
Sei não 2. Ali se diz apenas que Lula não fará "nenhuma loucura", sem precisar qual seria a alternativa "sã".
Tiroteio 
Qual é o Serra que quer o apoio do PT? O do ajuste fiscal ou o que saiu candidato e de cara prometeu criar mais dois ministérios? 


Do deputado ANDRÉ VARGAS (PR), secretário de Comunicação do PT, em resposta ao candidato tucano, que, durante debate em Belo Horizonte, disse que gostaria de contar com a participação do partido em seu eventual governo.
Contraponto
Cinema novo
Numa das várias ocasiões em que veio a público defender o terceiro mandato, Devanir Ribeiro (PT-SP), amigo de longa data de Lula, foi chamado para se explicar.
-Que confusão você está arranjando, Devanir! Que história é essa de terceiro mandato?- indagou o presidente.
-Lembra do Glauber Rocha?- devolveu o deputado.
-E o que ele tem a ver com a nossa conversa?
-Não era ele quem dizia para trabalhar com "uma ideia na cabeça e uma câmera na mão"?
-E você lá tem câmera, Devanir?
-Bom, presidente, eu tenho a ideia. Câmera quem tem é a Globo, a Record, o SBT...

MERVAL PEREIRA

Ficha Limpa avança
Merval Pereira
O GLOBO - 09/05/10

Até mesmo o experiente secretário-geral da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, Mozart Vianna, acompanhando as votações em Brasília há cerca de 20 anos, está espantado: vai se reduzindo a cada votação a capacidade de mobilização da bancada contrária ao projeto de iniciativa popular conhecido como Ficha Limpa, que torna inelegíveis por oito anos políticos com condenação por um colegiado na Justiça em função de crimes dolosos.

O deputado Chico Alencar, do PSOL do Rio, um dos primeiros a aderir à proposta, atribui essa mudança a uma mistura explosiva: a pressão da opinião pública, principalmente através da internet, e a proximidade das eleições.

As resistências ao projeto, quando ele chegou à Câmara, há sete meses, eram “imensas e claramente majoritárias”, lembra.

É interessante relembrar a trajetória desse projeto, que encarna com perfeição a capacidade de atuação da sociedade civil sobre os chamados “representantes do povo”.

Maria Aparecida Fenizola, vice-presidente do Instituto de Desenvolvimento de Estudos Político-Sociais e professora aposentada de 78 anos, esteve no centro da iniciativa popular que chegou ao Congresso com cerca de 1,3 milhão de assinaturas recolhidas nas ruas do país.

A questão colocada pelo projeto de lei de iniciativa popular, figura criada na Constituinte de 1988, é: por que uma pessoa é impedida de fazer concurso público se tiver antecedentes criminais de alguma espécie, mesmo sem trânsito em julgado, e pode se candidatar e assumir um mandato eletivo? Várias tentativas já foram feitas para impedir candidatos que respondem a processos de participarem das eleições, mas esbarram sempre na exigência da lei complementar das inelegibilidades de que todos os recursos tenham sido esgotados para que o candidato seja impedido de concorrer ou mesmo de tomar posse.

Em dezembro do ano passado, participei de um debate no auditório do GLOBO sobre corrupção, em que o projeto Ficha L i m p a e r a o d e s t a q u e , pois acabara de ser enviado à Câmara.

Rosangela Giembinsky, Coordenadora da ONG Voto Consciente, e Maria Aparecida Fenizola estavam muito esperançosas de que ele tivesse efetividade, ao contrário dos outros debatedores, inclusive o senador Pedro Simon, que chegou a dizer uma frase desanimadora, que registrei na ocasião aqui na coluna: “Depende mesmo de vocês a mudança na política, a pressão dos movimentos é imprescindível, porque do Congresso é que não virá a solução. De onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo.” Foram citados diversos exemplos de processos pelo país que estão em curso, impedindo que centenas de vereadores e prefeitos continuem em atividade, e a s d u a s j o g a v a m s u a s apostas nos avanços tecnológicos que estão permitindo que o processo de informação do cidadão aconteça hoje com muito mais rapidez e eficiência.

O projeto de lei do Ficha Limpa incomoda, sem dúvida, a maioria dos deputados, inclusive parte grande dos que se dizem de esquerda.

O deputado petista José Genoino, envolvido no escândalo do mensalão, por exemplo, é dos que o classificam como sintoma da “judicialização da política” e veem nele um “viés autoritário”.

A pressão que os deputados estão recebendo já fez com que muitos deles, inclusive Genoino, passass e m a v o t a r c o n t r a a s emendas que tentam desfigurar o projeto.

As caixas postais dos deputados recebem cerca de mil postagens/dia em defesa do projeto, junto com o aviso sobre as eleições que estão chegando.

Ainda assim, tanto na Comissão de Constituição e Justiça quanto em plenário, os partidos de bancadas fortes (PMDB, PP, PTB e PR) tentam resistir.

Para surpresa dos apoiadores da proposta, que se julgavam minoria, a cada votação nominal o grupo dos “contra”, lutando pelos interesses corporativos, está desidratando.

Deputados que se dizem a favor do projeto a p re s e n t a m a l t e r a ç õ e s que, a pretexto de aperfeiçoálo, objetivam na verdade inviabilizá-lo sem expor as reais intenções de seus defensores.

Mas diversas organizações da sociedade civil estão atentas às atividades dessas “excelências”, e seus nomes estão sendo expostos na internet.

Várias emendas desse tipo estão sendo derrubadas, uma a uma. Ainda faltam sete, e todas as votações são nomimais. A quem defende a proposta cabe assegurar 257 votos a favor em cada aferição, o que não é fácil.

O mais recente obstáculo, que desfigurava o projeto Ficha Limpa, foi derrubado na quarta-feira na Câmara dos Deputados por 377 votos a 2.

O destaque, apresentado pela bancada do PTB, retirava do texto a exigência de condenação por colegiado e valeria apenas para os condenados em instâncias superiores.

O Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) propõe a derrubada de todos destaques e está intensificando a pressão para esta semana final de votações.

Uma emenda que tem a simpatia dos ruralistas suprime a inelegibilidade derivada de crimes ambientais.

A batalha que se trava na Câmara vai se transferir para o Senado, em seguida, e uma questão relevante é que, na interpretação da OAB, o projeto precisa ser aprovado até 5 de junho para ser aplicado na eleição deste ano.

Os políticos que são favoráveis a uma reforma política estão vendo sinais de que talvez seja possível pressionar com os mesmos instrumentos a próxima legislatura, a ser eleita na esteira da sucessão presidencial.

JOÃO UBALDO RIBEIRO

No tempo do livro
JOÃO UBALDO RIBEIRO

O GLOBO - 09/05/1O

Ah, nem conto a vocês como era, fico com medo de acharem que estou mentindo. Mas sei que não estou, quando lembro o dia começando a se esgueirar por entre as frestas dos grandes janelões do casarão térreo em que morávamos, e eu, menino de oito ou nove anos, pulando afobado da cama, para mais uma vez me embarafustar pelo meio dos livros. Quase febril, ansioso como se o mundo fosse acabar daí a pouco, eu nem sabia com quem ia me encontrar e aonde viajaria, em nova manhã encantada. Não havia problemas para eu me embolar com os livros, porque eles não só estavam junto à minha cama, mas espalhados da cozinha ao banheiro, em estantes para mim altas como torres, algumas das quais tão pejadas que volta e meia estouravam, viravam cachoeiras de papel e vinham abaixo, dando a impressão de que as paredes e o chão se dissolviam em livros.

Problema havia na escolha, porque nenhum deles era proibido por meu pai, a não ser, como muito depois ele me contou, os que ele queria que eu lesse, me escondendo sem saber que tinha caído num ardil. Podia ser mais um volume da coleção de Tarzan que eu já tinha lido praticamente toda e não acabava nunca, porque repetia os favoritos. Não, talvez o Dom Quixote, em dois tomos imponentes que eu mal conseguia sopesar e cheio de palavras portentosas que eu não compreendia e não ousava me esclarecer com o velho, porque já conhecia a resposta.

- Dicionário, jumento bípede - respondia ele. - E copie o verbete para me mostrar depois.

- O que é verbete?

- Dicionário, miolo ralo. E copie esse também.

As gravuras de Gustave Doré que ilustravam as desditas do engenhoso fidalgo, em imagens cheias de sombras e figuras desconhecidas, me metiam medo mas eram irresistíveis e, mesmo sem entender direito o que aquele livro tremendo me contava, eu sempre voltava a ele e muitas vezes me pilhei devaneando em meio a um descampado e diante de cata-ventos, na companhia de um magrelo em seu cavalo ainda mais magro e de um gordo em seu burrico. Mas eu podia preferir ingressar na Legião Estrangeira, relendo Beau Geste ou Beau Sabreur, que me deixavam com sonhos de me alistar assim que completasse vinte anos, para ir viver entre os lendários tuaregues e conquistar o amor da mais linda princesa do deserto.

Ou podia ir para o Sítio do Picapau Amarelo. Quando Monteiro Lobato, ainda hoje, para mim, um dos maiores escritores de todos os tempos, em qualquer lugar, morreu e seu enterro foi mostrado pela revista O Cruzeiro, demorei muito para acreditar. O sítio continuou a existir, do mesmo jeito que o pó de pirlimpimpim, a viagem ao céu, o saci-pererê e toda a mágica que o grande Lobato criou. Tanto assim que peguei um caderno e comecei a escrever novas aventuras de Narizinho, Emília e Pedrinho, até que meu pai olhou minha produção, disse que estava mal escrita, me chamou de plagiário e me mandou ver no dicionário o que isso queria dizer.

Desisti da empreitada, mas persisti em escrever, para desgosto do velho, que até morrer lamentou que eu não fosse tabelião, como ele com toda a razão queria.

Os outros meninos do bairro podiam não morar num mar de livros como eu ou, ainda menos, ter um pai igual ao meu, mas não eram muito diferentes. Jogávamos bola (eu, hoje craque do passado, era fominha), brincávamos de médico com as meninas, fazíamos tudo o que as crianças daquela época podiam fazer, mas todo mundo gostava de ler, porque ler representava a liberdade e a fantasia. Comentávamos nossos heróis, organizávamos empréstimos de livros e gibis e mentíamos esplendidamente, em tertúlias em que acreditávamos nas histórias dos outros, contanto que acreditassem nas nossas - era tudo a verdade de nossas imaginações. A vã memória não distingue mais entre o que eu contava e os outros contavam, mas isso não tem importância. Todos nós, afinal, voávamos com Peter Pan e Sininho e alguns de nós namoraram com a Wendy. Não houve um que não tivesse enfrentado piratas, descido ao fundo do mar, ficado invulnerável a qualquer arma ou invisível à vontade, decifrado códigos secretos, falado todas as línguas e vencido todas as guerras e batalhas. Para isso, não tínhamos mais que os livros, não precisávamos de mais que eles.

Mas isso era naquele tempo. Hoje, como nos informam a toda hora, os livros estão mudando, aperfeiçoam-se cada vez mais. Para ler modernamente, dever-se-á usar um dos muitos leitores eletrônicos que já existem no mercado e que ainda vão surgir. Segundo uma notícia, um desses aparelhos possibilita que seu usuário (não é mais leitor, é usuário) interaja com as chamadas redes sociais na Internet. Suponho que se lê um pedacinho e se manda um comentário via Twitter. Também estarão disponíveis, em breve, livros com trilha sonora e com trechos narrados por voz. Os romances e peças virão com clipes dos cenários descritos pela narrativa, entrevistas com o autor, facilidade em substituir palavras difíceis por sinônimos acessíveis, interatividade com o usuário ("faça seu final, case Romeu com Julieta") - o céu é o limite.

Acredito que, em relação a isso, vale uma comparação com o celular, o qual começou como telefone, mas hoje é máquina fotográfica, batedeira de bolos e ferro de passar e desconfio que está substituindo o(a) parceiro(a) sexual. Admirável livro novo, que faz uma maravilha atrás da outra e nem puxa pela imaginação, tudo já vem imaginado para você. Espero que, tão famosamente equipado, o usuário ainda encontre um tempinho para ler.

MÃE GOSTOSA

LUIS FERNANDO VERISSIMO

Contra-ataque
LUIS FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 09/05/10


No outro dia escrevi que a humanidade não tem defesa contra cataclismos naturais como terremotos, tsunamis e erupções de vulcões, mas a verdade é que temos, sim, meios para contra-atacar. Eles só permanecem hipotéticos porque nunca foram testados. Há anos se especula o que aconteceria se toda a população da China pulasse ao mesmo tempo, por exemplo. Nada demais, só um pulinho – mas todos juntos. O possível efeito de um salto coletivo de um bilhão de chineses seria um deslocamento do eixo da Terra, com consequências imprevisíveis. 
O Leitor Mais Racional, que é um chato, deve estar se perguntando se deslocar a Terra do seu eixo não causaria desastres naturais ainda mais terríveis. O Leitor Mais Racional não pegou o espírito da coisa. O pulo dos chineses não visaria intimidar a Terra ou simplesmente retaliar os seus ataques. Seria uma demonstração do que a humanidade é capaz, se juntar as suas forças. Um gesto desafiador, para a Terra saber com quem está tratando. Para a Terra saber que não seremos varridos da sua superfície sem uma luta, nem que seja simbólica.
A China seria escolhida para nos vingar porque é o lugar onde tem mais gente no mundo, e porque historicamente sabe arregimentar a sua gente. Como na piada do Millôr sobre a construção de túneis na China: dez mil chineses começam a cavar um túnel num lado da montanha, dez mil chineses começam a cavar do outro lado da montanha. Se eles se encontrarem no meio, fazem um túnel. Se não se encontrarem, fazem dois túneis. Recentemente o governo da China determinou que todo o país seria capitalista e só o governo seria comunista – e deu certo! Perto disso, conseguir que toda a população pule ao mesmo tempo a um sinal de Pequim é barbada. 
E se depois do susto a Terra continuasse a nos aterrorizar, não nos entregaríamos. O próximo passo seria as populações da China e da Índia pularem ao mesmo tempo. Mesmo que o globo terrestre, descontrolado com o golpe duplo, saísse da sua órbita e se chocasse contra o Sol, nos levando juntos, seria um fim glorioso e uma vitória moral. Teríamos mostrado que não somos apenas uma praga de piolhos em breve passagem por um dos planetas menores, esperando, sem ação, a creolina.
Somos gente, gente.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Vá à luta, meu companheiro”
PRESIDENTE LULA, REPRODUZINDO A RECOMENDAÇÃO DE FAZER SEXO PARA MELHORAR A SAÚDE

CARTÕES: GOVERNO LULA GASTA R$ 108 MIL POR DIA
Desde o primeiro dia, em 2003, o governo Lula torrou mais de R$ 290 milhões usando cartões corporativos. A farra resultou no escândalo que revelou o uso do cartão de crédito do governo para comprar tapiocas, pagar hotéis de luxo, uísque em freeshop de aeroportos, etc. Até agora, foram gastos com cartão corporativo, em média, R$ 108,5 mil todo santo dia. Mais da metade das despesas é considerada “sigilosa”. 

ELES GASTAM, NÓS PAGAMOS 
Gastos com as mordomias da família Lula, em Brasília e São Paulo, são classificadas de “secretas”, a pretexto de “segurança nacional”.

A CONTA É NOSSA
Também as despesas com a manutenção e segurança de Lurian, filha de Lula que vive em Florianópolis, são mantidas sob
segredo.

CONTRAÇÃO
Sugestão de campanha de um leitor do Rio para a identificação rápida da candidata petista com seu padrinho, na ausência dele: Dilmula.

QUE DELÍCIA DE GREVE
Nossas embaixadas avisaram aos alunos estrangeiros da Universidade de Brasília que, aulas, só após as férias. Aos brasileiros, nem e-mail.

CRIA DA “BEZERRA DE OURO” VENDIDA POR R$ 640 MIL 
O ex-governador do DF Joaquim Roriz está contente com o leilão da ExpoZebu 2010 de Uberaba (MG). Quarta à noite, ele vendeu por R$ 640 mil, em 20 prestações de R$ 32 mil, uma bezerra nelore de um ano de idade. Seria mais um negócio se a bezerra não fosse uma das seis crias da célebre “bezerra de ouro”, comprada em 2006 e que assustou pelo preço – R$ 300 mil – aqueles que não conhecem o agronegócio.

RECORDE BATIDO 
Em Uberaba foi superado o recorde brasileiro: vaca nelore “Parla” foi vendida por R$ 2,7 milhões a João Carlos Di Gênio e dois sócios.

ONDE ESTOU? 
A Embratur ignora a invenção do GPS. Gastou R$ 702 mil com milhares de Guia Quatro Rodas, da Abril, para não se perder Brasil afora. 

DE GREGO 
Doando US$ 286 milhões à Grécia, o presidente Lula nos deu um presente de grego. 

DUELO DE “IMBATÍVEIS”
Advertência de experiente raposa a Lula: se ele jogar pesado em Minas Gerais, com chapa majoritária forte demais, acabará fazendo de Aécio Neves o vice de José Serra. Nesse caso, quem será
imbatível?

VOU, MAS NÃO VOU A 
senadora Patrícia Saboya (PDT) diz ter “restrições”, mas vai votar em Dilma Rousseff, avisando que “não confia” no PT. Ela não apoia José Serra, mas fará dobradinha com Tasso Jereissati (PSDB) no Ceará.

IMAGEM DO PARAÍSO
Na sala de reuniões da sede provisória da Presidência da República, no Centro Cultural Banco do Brasil, uma foto enorme da estonteante praia da Barra de São Miguel (AL) deixa todo mundo embasbacado.

SEM O PAPEL INSTITUCIONAL 
A escolha do ex-ministro Márcio Thomaz Bastos para defender Lula no TSE foi mal recebida na Advocacia-Geral da União pelo ministro Luís Adams e a procuradora-geral. Até hoje a AGU defende FHC na Justiça.

PRIMEIRO MUNDO 
Quem diz que o governo Lula não se preocupa com a ciência? O Centro de Referência Hélio Fraga, da Fiocruz, no Rio de Janeiro, tem 862 cargos em comissão. Fora as cobaias, aqueles ratinhos que nada ganham. 

TOP SECRET O
general Jorge Félix, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, arrochou o controle da Agência Brasileira de Inteligência. Os agentes terão de assinar “termo de responsabilidade” para conter vazamentos.

LOROTA BOA
Com duas pré-candidatas à Presidência e o blablablá do “chegou a hora delas”, Lula mandou representantes à posse da presidente da Costa Rica, Laura Chinchilla. Se ela fosse mulher do Chávez...

NEW YORK, NEW YORK 
O presidente do Senado, José Sarney, passa sete dias com assessor em Nova York, para o prêmio “Pessoa da Ano 2010” ao presidente do Banco Central Henrique Meirelles, na Câmara de Comércio Brasil-EUA.

PENSANDO BEM... 
Será pizza o almoço dos fichas-sujas com suas mamães, neste domingo. 


PODER SEM PUDOR
O SEQUESTRO DO GOVERNADOR 
Roberto Magalhães sucedeu a Marco Maciel criticando seu principal projeto, o Porto de Suape, sem nunca ter ido lá. Nomeado para o cargo, Eliezer Meneses aguentou um ano a falta de apoio e as críticas, até pôr em prática um plano ousado: sequestrou o governador, literalmente, com ajuda da segurança. Eliezer não se impressionou com o furioso chefe:
– O senhor pode me demitir, mas não vai falar mais de Suape sem conhecimento de causa.
O governador foi ao cais, viu e gostou. Nunca mais falou mal de Suape.