sexta-feira, abril 30, 2010

LUIZ GARCIA

Dormindo na gaveta
LUIZ GARCIA
O GLOBO - 30/04/10

Articulista, como se sabe, não apura fatos: comenta-os. A única exceção conhecida neste alto de página é o Zuenir, mas a gente perdoa. São entusiasmos comuns nos mais jovens. E o Zu até hoje recusase a envelhecer.

Isto posto, aproveitemos um irônico levantamento do pessoal do “Congresso em Foco” sobre o entusiasmo legiferante do nossos senadores e deputados, estes mais do que aqueles. Juntos, são responsáveis por 2.472 projetos que dormem o sono dos esquecidos na Câmara e no Senado.

A maioria, com justa causa. Por exemplo, uma proposta do deputado Jair Bolsonaro, que aguarda decisão do plenário há nove anos. Ele determina como deve se portar quem ouve o Hino Nacional.

Não pede apenas uma atitude, digamos, genérica de respeito. Exige “mão direita espalmada, dedos unidos sobre o peito até os acordes finais.” Por quê? Porque é assim que ele gosta.

É ridículo, mas também denuncia uma mentalidade, digamos, autoritária: o cidadão não pode escolher a sua própria atitude de patriótico respeito pelos intermináveis versos de Duque Estrada. Teria de ser como o deputado acha mais bonito.

Outras propostas foram atropeladas pelo calendário. Exemplos: a que designava 2002 como Ano do Educador e outra que fazia de 2007 o Ano de Combate à Mortalidade Materna. Os anos escolhidos começaram e acabaram sem que fossem votadas.

No rol dos projetos esquecidos há também temas respeitáveis. Como o daquele que desapropria terras de fazendeiros que contrataram lavradores em condições degradantes: passou no Senado, chegou a ser aprovado em primeira votação na Câmara, e daí foi para a gaveta, onde dorme até hoje o sono inquieto dos injustiçados. Ou a proposta de taxação mais severa das grandes fortunas, de ninguém menos do que Fernando Henrique Cardoso; o Senado aprovou, a Câmara embalsamou.

Outras ideias são pelo menos originais.

Como a que determina que cidadãos idosos tenham o direito de morar no andar térreo de conjuntos habitacionais.

Ou a que estabelece o direito de comissários de bordo a poltronas e beliches em voos noturnos.

Esta dorme — mal acomodada, certamente — desde 1989.

Essa situação indica duas coisas. Primeiro, que há senadores e deputados quer sofrem de fúria legiferante. Depois, que o processo legislativo é bem menos ágil do que poderia ser. E a sua morosidade é, por assim dizer, democrática: tanto prejudica propostas bizarras como ideias dignas de atenção, caso do projeto de Fernando Henrique.

A TERRORISTA MENTIROSA

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Depenando a Globo 
Sonia Racy 

O Estado de S.Paulo - 30/04/2010

Depois de tirar do ar sua mensagem de 45 anos - que um assessor de Dilma considerou serrista - a Globo está sendo "convidada", em texto na internet, a tirar de sua grade qualquer resquício de tucanagem. Algumas sugestões:


* O Mais Você, de Ana Maria Braga, passa a se chamar Manhãs Edificantes e o "Louro José" vira "Louro João".

* Drauzio Varella sai do Fantástico e só retorna após as eleições, por ser muito parecido com Serra.

* Fica proibido o uso, nas trilhas sonoras das novelas, do Opus 45 de Chopin.

* A reserva Raposa Serra do Sol será chamada, no JN, apenas de Raposa do Sol.
Os lembrados
Portadores de deficiência agradecem. A Ultragás, a Cargill e a Kitchens não cumpriram as cotas de deficientes físicos em seus quadros e foram punidos pelo Ministério Público do Trabalho.

Vão doar bens, instrumentos e serviços a instituições que atendem a esse público.
Em família
Até para escolher fotógrafo Dilma anda colada em Lula.

Sua equipe de campanha convidou Roberto Stuckert, cujo irmão, Ricardo, trabalha para a Presidência. O pai da dupla, Roberto "Stuckão", acompanhou Figueiredo entre 1979 e 1985.
Pai da criança
Em cima do muro, mesmo, quem está é a estatística. Das 266.400 vagas de trabalho de março, diz o Observatório do Emprego e do Trabalho, 47% surgiram em São Paulo.

Sucesso de Lula ou de Serra?
Flash-lights
Cobrado, na festa do Oba Oba, anteontem, por falar mais que seus entrevistados, Lobão teve ataque de sinceridade: "Se eu me visse na TV ficaria constrangidíssimo. Preciso de um psiquiatra."

E Mallu Magalhães mostrou que joga no time de Neymar: "Não acompanho política, nem título tenho..."
Sem quartel
Confirmado. A rodovia Milton Tavares de Souza, entre Campinas e Conchal, será rebatizada para Professor Zeferino Vaz. Projeto do deputado Milton Flávio.

Mais 365 dias?
Na mesa da assembleia geral da Febraban, hoje, será colocada em votação a prorrogação, por mais um ano, do mandato de Fabio Barbosa e equipe.

Um tempo a mais para que se encontre um executivo profissional para sucedê-lo no cargo.
Zero bala
Marta Suplicy fez um check-up. Está tudo em ordem para enfrentar a campanha para o Senado.

Educação
Cite cinco metas que adotaria para levar a educação brasileira aos níveis do Primeiro Mundo. A demanda será feita a Claudio de Moura e Castro, Eduardo Giannetti da Fonseca, Guiomar de Mello e outros oito especialistas, pela ONG Parceiros da Educação e a Casa do Saber.

Que debaterão. dia 25 de maio, concluindo documento a ser entregue aos candidatos.

Na frente
A TAM e Star Alliance celebram a integração com solenidade em Congonhas e depois festa no Morro da Urca, no Rio. Tudo no dia 13.

Silvana Tinelli lança seu livro Primeira Chance no Museu da Casa Brasileira. Dia 12.
A série Família Soprano chega à TV aberta. Em breve, entra no ar pela Band.
Está prestes a sair a caravana de Zé Celso, que se apresentará em sete capitais brasleiras, com mais de 60 artistas. A volta está marcada para o fim do ano. De hoje até dia 9, as peças do grupo, no Oficina, serão de graça.

Lolita Zurita Hannud inaugurou sua Flagship. Anteontem, nos Jardins.

Sergio Ricardo, o cantor que ficou famoso, nos festivais dos anos 60, por ter atirado o seu violão na plateia, terá seus 60 anos de carreira contados em livro. Canto Vadio será lançado dia 10, na Casa das Rosas.

Nando Reis, que faz show no Citibank Hall, preparou uma surpresa especial: a participação, hoje, nmo palco, da cantora Ana Cañas.

Arte concentrada

Essa, Lula perdeu. Se tivesse vindo para a abertura da SP-Arte, anteontem, no prédio da Bienal, saberia que nunca antes na história deste País a arte brasileira esteve tão valorizada. E líquida.

Fato comprovado por conhecido colecionador que, ao perguntar - em três galerias diferentes - sobre obras de que gostou, recebeu a informação de que já estavam vendidas. "Não teriam por que mentir, fazer o número "já vendeu" para mim, que sou comprador assíduo", conta ele.

É comum, entre os galeristas, valorizar obras dizendo estarem vendidas quando, na realidade, estão é reservadas. Não parece ser o caso dessa feira. Na quarta, às 21 horas, não se conseguia sequer andar pelos largos corredores da Bienal, nos quais chamava a atenção a presença da importante galeria londrina Stephen Friedman - além de outras menores, também internacionais.

Entre os visitantes, cerca de 20 curadores passeavam espantados - um deles era Paul Jenkins, da galeria internacional Gagosian. Esses curadores cumprem programa extenso. Na terça, começaram na Pinacoteca, passaram pelo IAC, onde viram a coleção de Almeida Braga, visitaram a coleção de Andrea e Zé Olympio Pereira. Ontem, foi a vez da coleção de Suzana e Ricardo Steinbruch e, depois, Helio Oiticica na veia no Itaú Cultural. Hoje tem visita ao MAC e depois passagem pelo Atelier Fidalga.

WASHINGTON NOVAES

Os ônus a cargo de quem os gera
Washington Novaes 
O Estado de S.Paulo - 30/04/10

Merece ser acompanhado com atenção o projeto de lei enviado pela Prefeitura paulistana à Câmara de Vereadores, que autoriza cobrar de novos empreendimentos comerciais e condomínios residenciais até 5% de seu valor, para financiar melhorias no sistema residencial da área circundante, que será afetada pelo adensamento humano (Estado, 16/4). É uma iniciativa na direção contrária à prática generalizada de transferir para o poder público ? e para a sociedade ? os ônus de qualquer empreendimento, enquanto as vantagens se circunscrevem a poucas pessoas ou grupos. A "privatização do lucro e socialização do prejuízo", no dizer do falecido ministro Roberto Campos (que nem por isso deixou de privatizar tantos lucros).

Mas o fato é que, segundo o noticiário deste jornal, será possível, pelo caminho proposto, cobrar até 5% do valor da obra para melhorias no sistema viário, que será afetado pela maior densidade populacional ou de usuários. O exemplo dado é de um shopping center no valor de R$ 300 milhões que, aprovado o projeto, terá de aplicar R$ 15 milhões em iniciativas que "amenizem o impacto no entorno". Ou um condomínio que tenha 50 vagas nas garagens. Já um pequeno empreendimento teria de contribuir, por exemplo, para implantar faixas de pedestres. O exemplo mencionado de área afetada pelo aumento da ocupação ? sem nenhuma compensação ? é o da Avenida Francisco Matarazzo, onde em uma década foram implantadas 17 torres residenciais, um hipermercado, duas casas noturnas e uma universidade para 20 mil alunos ? sem exigência de contrapartida.

É uma visão que precisa ser estendida a qualquer empreendimento na área urbana, para que cesse a transferência de ônus para o poder público e para a sociedade. Em um novo loteamento nas cidades brasileiras, por exemplo, a regra é que o incorporador imobiliário apenas demarque os lotes e os entregue aos usuários ? frequentemente até sem redes de esgotos, de drenagem e pavimentação. Nesses lugares, caberá ao poder público ? com o dinheiro proveniente dos impostos pagos por todos os cidadãos, não beneficiários da iniciativa ? implantar tudo o que falta: rede de energia, transporte, saneamento, drenagem, equipamentos de saúde, educação, segurança, lazer, etc. Isso também ocorre onde há aumento da densidade populacional. É ainda o caso em que se permitiu a implantação de habitações em áreas de risco ? como nos 30 lugares de São Paulo onde há residências construídas em áreas de antigos aterros de lixo (Folha de S.Paulo, 15/4), que desde 2007 estão para ser retiradas e agora exigem urgência.

E tudo isso acontece no momento em que faltam recursos para atender às necessidades mais elementares da população, principalmente das faixas mais pobres. É o caso, por exemplo, da área do saneamento, em que continuamos com metade dos brasileiros morando em casas sem ligação com as redes de esgotos. Ou os quase 10% sem água tratada em suas residências. E com a própria Secretaria Nacional de Saneamento admitindo (Estado, 16/3) que levaremos pelo menos uma década para universalizar o atendimento nessa área e, ainda assim, se o poder público conseguir destinar R$ 20 bilhões por ano para o saneamento ? do que estamos longe. Mas nesse passo continuaremos tendo milhões de brasileiros a engrossar a assustadora estatística da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) de que há perto de 1 bilhão de pessoas sem saneamento em suas residências. E outras tantas que defecam ao ar livre.

Nesse quadro, também é muito importante a notícia que o autor destas linhas recebeu numa discussão sobre o setor no Recife, há poucos dias, de que o BNDES já está financiando projetos para reparação, conservação e manutenção de redes urbanas de água. Não é novidade que as redes de abastecimento das maiores cidades brasileiras perdem mais de 40% da água que sai das estações de tratamento por causa de rompimentos, vazamentos e furos ? até mesmo furtos. E até há pouco não havia, em nenhuma instituição, financiamentos para projetos de reparo e manutenção das redes, embora se saiba que custa de cinco a sete vezes menos recuperar um litro de água do que produzir um litro "novo", com a implantação de novas barragens, novas adutoras e novas estações de tratamento ? estas, produto da visão de administradores que só dão valor a grandes obras acima do solo, bem visíveis, fáceis de serem exibidas em campanhas eleitorais. E fazendo a delícia das construtoras.

A cidade de São Paulo é das poucas que nos últimos anos conseguiu reduzir as perdas de água, inclusive com o uso de tecnologia japonesa que permite detectar os locais de vazamento sem ter de romper o asfalto em toda parte. Antes, também tivera bons resultados reduzindo a pressão nas redes de água nas áreas onde havia indicação de vazamentos.

Esse tema fica ainda mais importante quando se lembra estudo da Agência Nacional de Águas, mostrando que 1.896 dos 2.965 municípios por ela pesquisados sofrerão com falta de água nestes próximos seis anos. Pode ser também o caso da própria capital paulista, que já tem dificuldade de continuar abastecida em grande parte pela água da bacia do Piracicaba/Capivari/Jundiaí, disputada pelos municípios da região de origem. E buscar água em outras bacias ? como no Vale do Ribeira ? exigirá investimentos e preço muito altos para os usuários que terão de incluir a energia para fazer a água captada subir centenas de metros.

Enfim, já passou da hora de, em qualquer empreendimento, fazer todas as contas e atribuir os ônus a quem os gera ou deles se beneficia. Na área urbana, em qualquer ocupação, é preciso exigir também a manutenção de área permeável para infiltração de água; sistemas de eficiência energética; descargas sanitárias com menor uso de água; retenção de água de chuva (contribuindo para evitar inundações) e reúso posterior. Tudo o que ajude a enfrentar os novos tempos de escassez de recursos. E os dramas climáticos.

GOSTOSA

LOURDES SOLA

O Brasil pode mais?
Lourdes Sola 
O Estado de S.Paulo - 30/04/10

O mote da campanha de José Serra ? "O Brasil pode mais" ? tem suscitado reações intensas. Contrastam com a carência de análises coerentes de seu discurso, feito na mesma ocasião, quando do lançamento de sua candidatura à Presidência pelo PSDB. O contraste é compreensível. É mais fácil se posicionar ante um mote de apelo eleitoral, necessariamente abstrato, contra ou a favor do qual cada um mobiliza as suas próprias razões, valores e emoções. Mas há algo mais.

Começo por uma constatação. Os comentários sobre o discurso de Serra se agrupam em duas vertentes. Por um lado, a crítica, explícita ou velada, da suposta ausência de propostas substantivas, que alguns estendem também ao discurso de lançamento da ministra Dilma Rousseff. Por outro, a ênfase nos pontos de convergência entre ambos, com destaque para a "política industrial", para uma suposta "inspiração cepalina", para o "desenvolvimentismo". Comum a ambas as vertentes, é uma atitude até há pouco frequente entre os analistas de mercado, financeiro ou eleitoral. Tem que ver com as incertezas de um quadro sem precedentes, não só pela ausência de Lula como candidato, mas também porque o risco eleitoral é comparativamente baixo, e com a relativa continuidade da política econômica. Nesse quadro, é racional assinalar as convergências, mesmo ao preço de diluir as diferenças.

Além disso, há a força do hábito. O foco no ativismo de Estado como inseparável do bom desempenho da economia e da justiça distributiva sempre frequentou nossas disputas políticas. O que intriga é que essa equação seja retirada do fundo do baú e exposta tal qual, alheia às mudanças na geografia política e econômica internacional e às novas formas de inserção do País nesse novo cenário ? que inclui também novas responsabilidades políticas.

O discurso de Serra rompeu com essa e outras formas de habitualidade e desarranjou o cenário intelectual esperado, lá, cá e acolá. Obriga a uns e outros a fazer vários ajustamentos. Uma razão é que não se presta a carimbos, ao contrário, obriga à reflexão e convida ao debate. Por isso desconcerta as mentes e os corações habituados aos rótulos, como substitutos da análise. Embora indispensáveis em todo tipo de marketing, não há como negar o peso da habitualidade: os carimbos foram erigidos no recurso retórico mais elevado da disputa política, com funções de poderoso anestésico intelectual.

Outra razão, substantiva, é que o discurso do pré-candidato representa um ponto de inflexão pertinente. É acessível, despojado da retórica técnico-econômica a que fomos habituados quando se trata de legitimar uma filosofia de governo. Ao mesmo tempo, tem apelo programático, porque ancorado num sistema de valores que serve de eixo a uma visão abrangente e de longo prazo de nossa democracia: como um processo de construção social ? sem dono, portanto, mas sob a batuta dos líderes citados desde Tancredo Neves, com destaque para FHC. Discorde-se ou não dessa narrativa, ela aponta para uma dupla mudança histórica: no estilo de fazer política de oposição e como correção de rumos nos padrões de concorrência eleitoral.

Mas em que sentidos o Brasil pode mais? Há vários, e aqui apenas um deles será abordado. Antes, porém, é bom reconhecer que a resposta não se esgota na cobrança de um programa aos pré-candidatos e aos partidos. Faz-se necessário um mapeamento dos avanços e desafios, concebido como atividade cívica, ou seja, como construção de uma agenda pública, envolvendo analistas, consultores, acadêmicos e lideranças do terceiro setor, com capacidade propositiva em suas respectivas áreas.

Nessa linha, vale a pena retomar a noção de Estado em outro registro, para além de seu papel como agente de transformação econômica e como protagonista-mor de justiça distributiva. É o registro do Estado como poder público, cuja forma mais alta é o Estado como Lei, portanto inseparável do constitucionalismo liberal. É aquele que melhor evidencia a vocação democrática de um país. É nessa dimensão que se situam as conquistas que nos distinguem de uma parte da América Latina e para as quais o presidente Lula deu sua contribuição, mas entre outros. É dessa perspectiva, também, que melhor se observam os focos da tentação autoritária, típicos da cultura política da região.

Três tendências características nos assombram, em contraste com os regimes democráticos plenamente institucionalizados. Nestes, os conflitos se encerram com as decisões das cortes mais altas, aceitas como finais pelos interesses contrariados, porque introjetaram os procedimentos preestabelecidos como um valor, ou seja, como um princípio, e se ajustam a essa lei, internalizada. Na trajetória dos países onde prevalece a tentação autoritária, ao contrário, os perdedores se empenham em rediscutir, a cada vez, os fundamentos da Lei, e a redefini-la. Por outro lado, em sua forma mais extrema, os vencedores se empenham em reconstitucionalizar o país, da perspectiva dos seus interesses. Daí a instabilidade intrínseca desses regimes e também o segundo movimento. A possibilidade de exercer influência efetiva fora dos canais processuais estabelecidos permite que o espaço e as arenas decisórias em que se dá a formação das políticas públicas sejam recriados a cada oportunidade, a cada decisão. A eficácia do processo decisório e a continuidade das políticas públicas ficam comprometidas e afetam a "capacidade de gestão". A terceira característica é a resistência dos próprios governantes em fazer valer a Lei, quando contraria seus objetivos políticos. Se isso ocorre, veem-se obrigados a justificar suas ações em termos de suas consequências políticas (supostamente benignas) e abdicam da condição de autoridade constituída. O que abre espaço para um novo ciclo do "Estado politizado" típico da América Latina.

PROFESSORA DA USP, DIRETORA DO GLOBAL DEVELOPMENT NETWORK, DO INTERNATIONAL INSTITUTE FOR DEMOCRACY E DO CONSELHO INTERNACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS, FOI PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE CIÊNCIA POLÍTICA

DORA KRAMER

Em nome da História 
Dora Kramer 

O Estado de S.Paulo - 30/04/2010

No debate dos ministros do Supremo Tribunal Federal que manteve a Lei de Anistia destacou-se um aspecto para o qual não se costuma conferir relevância: as dificuldades do exercício da democracia.


Cheio de nuances, o sistema de liberdade não se presta facilmente a maniqueísmos. Nem sempre a tese de aparência mais justa é a mais correta com a História.

O ministro relator Eros Grau foi ao ponto essencial no primeiro voto do julgamento: os termos da lei foram intensa e detalhadamente negociados para dar início ao processo de transição democrática e por isso não podem ser julgados por parâmetros atuais e sim examinados com a lógica da época.

A vontade - e mesmo a necessidade - de punir torturadores, argumento central dos adeptos da revisão, é legítima, defensável e compreensível.

Mas não pode sobrepor-se ao amplo acordo negociado por lideranças políticas, sociais, religiosas, aprovado pelo Congresso que permitiu a volta ao Brasil dos exilados e deu início à redemocratização do País que agora em 2010 completa 25 anos.

E não foi um acordo de cúpulas. O movimento pró-anistia começou nas ruas, com gente correndo risco para atender à convocação para lutar por "anistia ampla, geral e irrestrita".

Pedia-se o mais para se conseguir o possível. Assim foi feito, negociado, acertado, aprovado.

Não se trata, como a confusão de argumentos em alguns momentos dá a entender, de esconder a História do Brasil, de negar alento a famílias de mortos ou aos torturados nas mãos dos bárbaros a serviço do arbítrio.

A abertura dos arquivos da ditadura é outra questão diferente da proposta ao exame do STF.

Mudar uma lei elaborada de acordo com os parâmetros e as razões de uma determinada época face uma circunstância específica, como argumentou o ministro Eros Grau, não se justifica 31 anos depois quando a ótica e a lógica são outras.

A menos que se reabrisse a discussão não da interpretação da lei existente, mas talvez da elaboração de uma nova Lei de Anistia caso os representantes políticos, sociais, religiosos assim entendessem necessário.

Do contrário, a releitura unilateral considerando excluídos na anistia os crimes cometidos apenas por agentes do Estado, recende a vingança e foge à ideia do desarmamento de espíritos da época só porque a correlação de forças agora favorece a parte que na ocasião precisou ceder para sobreviver.

É o caminho mais curto, na democracia o mais fácil. Mas não é o mais correto do ponto de vista da regra estabelecida e pelos signatários, bem entendida.

Duas frentes. Vestido no figurino de estadista, o pré-candidato do PSDB, José Serra, correu para o Twitter para parabenizar o presidente Luiz Inácio da Silva pelo prêmio da revista Time, como um dos líderes mais influentes do mundo.

Enquanto isso, deputados de oposição saiam de pau e pedras criticando a premiação. Moral da história: Serra procura não dar oportunidade para o contra-ataque deixando a tarefa do combate mais pesado para a soldadesca com quem Lula e Dilma não podem debater.

A estratégia inicial da oposição pegou o PT de surpresa, mas evidentemente que essa moleza uma hora há de acabar.

Fábulas. Tem tucano dizendo que é até melhor que Aécio Neves não seja mesmo o vice de José Serra.

Donde ficam muitas dúvidas. Primeiro: se isso agora é soberba, despeito ou despiste.

Segundo: se aquela sangria desatada em prenúncio de fim do mundo caso a chapa presidencial não reunisse os presumidos "donos" dos dois maiores colégios eleitorais do País era cena, insegurança ou precipitação.

Amigo urso. Dilma Rousseff não perde nem ganha votos com a manifestação de apoio de Hugo Chávez. Mas na atual fase o afago de ditadores não favorece o conjunto da obra.

JAPA GOSTOSA

ANCELMO GÓIS

O relógio marca 
Ancelmo Góis 

O Globo - 30/04/2010

A paciência deve se esgotar até o fim da Copa da África do Sul, no máximo. Mas a Fifa e a CBF estão muito preocupadas com alguns atrasos nos projetos da Copa de 2014.

O desejo maior das duas entidades é manter os mesmos 12 estádios e as mesmas 12 cidades subsedes escolhidas em maio do ano passado. Mas avisam que, se for preciso trocar um ou outro, isto será feito.

Conta do hotel...

A CBF depositou ontem na conta do The Fairway Hotel and Spa, de Johannesburgo, US$ 472 mil.

O valor corresponde a 50% da despesa de hospedagem do Brasil na Copa da África do Sul.

Limpeza no Nove Um movimento de jovens chamado Nove (Nova Organização Voluntária Estudantil) vai se concentrar domingo agora no Posto 9, em Ipanema, às 9h, para defender a aprovação do projeto Ficha Limpa, que deve ser votado na próxima semana na Câmara dos Deputados.

Nas livrarias Quem está deixando o grupo Ediouro é o editor e coleguinha Paulo Roberto Pires.

Esta a caminho do Instituto Moreira Salles.

Pintor alemão O que se diz no mercado de artes é que pertence a Marcos de Moraes, filho do ex-rei da soja Olacyr de Moraes, o quadro do alemão Gerhard Richter apreendido pela polícia em São Paulo.

Para fugir do fisco, o quadro, de uns R$ 3 milhões, foi declarado por R$ 2 mil. A conferir.

Eleição no Twitter Serra foi rápido e, logo depois do meio-dia, parabenizou Lula, em seu Twitter, pela inclusão do nome do presidente numa lista de 25 líderes mundiais publicada pela revista “Time”.

No Twitter de Dilma, até 21h, não havia nada sobre o tema.

Livros na rede Veja só: 45% das 4.763 bibliotecas públicas municipais do Brasil têm acesso à internet, mas só 29% delas oferecem este serviço ao público.

Os dados fazem parte de censo feito pela FGV, a pedido do Ministério da Cultura, a ser divulgado hoje. O ministro Juca Ferreira anunciará também investimentos de R$ 30,6 milhões em 300 bibliotecas públicas.

Gravata é o cacete Quarta, Sérgio Rezende, o cineasta, foi barrado quase já dentro de um avião da United para os EUA, onde seu filme “Salve geral” foi exibido ontem no Los Angeles Brazilian Festival. Motivo, acredite: usava jeans e tênis.

Seu bilhete era cortesia do festival. Disseram que, para ir de cortesia na classe executiva, só de... terno e gravata: “Se pagar, pode até bermuda e chinelo.”

No mais...

Parece babaquice. E é.

Tonico e Stepan Ontem, o ator campista Tonico Pereira, um fofo, estava na Câmara Municipal do Rio quando viu Stepan Nercessian na presidência da sessão.

Aí parou o que fazia para tirar fotos do amigo. Aos jornalistas que estavam na casa, Tonico brincava: “Prazer, sou repórter do ‘Monitor Campista’.” O jornal deixou de circular recentemente após 175 de história.

Achaque Quarta, por volta de 20h, um carro com quatro rapazes que vinham de São Paulo para o Rio assistir a Corinthians e Flamengo, no Maracanã, foi parado por PMs na Linha Vermelha, perto da Favela do Lixão.

Terminaram achacados em R$ 1.500.

Henfil em campanha Ivan Cosenza de Souza, filho do Henfil, liberou os direitos das obras do pai para a campanha da OAB do Rio pela abertura dos arquivos da ditadura.

A campanha pede também o esclarecimento do destino dos desaparecidos políticos.

Alô, Cedae! As delegacias do Rio que funcionam no prédio da Polícia Civil na Praça Mauá estão sem água há quase um mês.

Gays, uni-vos ONGs gays farão hoje, às 10h, uma manifestação em frente ao Consulado de Angola no Rio, na Av. Rio Branco.

O ato é em repúdio à violação dos direitos da comunidade LGBT em países como Irã, Iraque e Uganda, onde um projeto de pena de morte para homossexuais está em discussão.

A LAPA ACORDOU ontem com o barulho de britadeira. Para o susto da turma que, há 12 anos, iniciou a revitalização do bairro boêmio sem ajuda do poder público, este calçadão recuperado na Rua do Lavradio, batizado de Praça Braguinha, começou a ser destruído para dar lugar a uma... baia para ônibus, feita pela CET-Rio. A rua estreita, corredor da boemia local e endereço de uma feira de artes nos fins de semana, parece desaconselhar a obra. Mas a britadeira foi impiedosa. “As pedras portuguesas e os fradinhos foram retirados”, lamenta Plínio Fróes, da Associação Polo Novo Rio Antigo e dono do Rio Scenarium, casa de samba da Lapa. “É justa a destruição? Será que, na calada da noite, as seis árvores dali também irão ao chão? Porque, para fazer baia de ônibus, as árvores teriam de sair.” Numa sociedade ideal, seria recomendável que uma mudança assim fosse debatida antes. Não foi o que ocorreu. Com todo o respeito
Ponto Final

Sei não. Pareceu ato de homofobia proibir a entrada destes seis travestis “Ronaldetes” no Maracanã, quarta, no Flamengo 1 x 0 Corinthians.

Aliás... Mengooooooooo!

CLÁUDIO HUMBERTO

“Não dá para levar a sério”
PRESIDENTE DO PPS, ROBERTO FREIRE, PELA ELEIÇÃO DE LULA COMO O ‘LÍDER MAIS INFLUENTE’

DELEGADA DIZ QUE “VIDENTE” REVELOU “SUSPEITOS” 
Afastada pela Polícia Civil do DF, a delegada Martha Vargas, que investigou o brutal assassinato do ex-ministro do TSE José Guilherme Vilella, de sua mulher e da empregada, revelou aos superiores que se baseou em uma “vidente” para chegar à casa de “suspeitos”, onde diz que encontrou as chaves do apartamento das vítimas, local do crime. A polícia acha que as chaves foram “plantadas” na casa dos “suspeitos.

CHAVE DE CADEIA
O Instituto de Criminalística da Polícia Civil constatou que as chaves do apartamento haviam sido fotografadas pela polícia na cena do crime.

QUEM “PLANTOU”? 
Como as chaves não foram levadas pelos assassinos, como mostram as fotos, a dúvida é quem tentou incriminar dois “suspeitos de sempre”.

PERNAS CURTAS
Fotos mostrando as chaves na cena do crime haviam sido desprezadas pelo inquérito, mas os peritos as recuperaram, desmontando a farsa.

INTRIGANTE 
Martha Vargas contou que a “vidente” a levou à casa dos dois homens, mas pediu que a polícia aguardasse dois dias para revistar o local.

MEDALHAS DO GOVERNO LULA, UM DEBOCHE ANTIGO
Não foi o primeiro vexame do governo dar a medalha da Ordem de Rio Branco à primeira-dama d. Marisa e à mulher do chanceler Celso Amorim. Em 2007, três dias após o acidente da TAM em São Paulo, o então presidente Milton Zuanazzi e diretores da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) ganharam a medalha Santos Dumont. Dois pilotos protestaram, devolvendo medalhas que haviam recebido. Por mérito. 

VAI ENCARAR? 
Lula acredita que convencerá o Irã a desistir da bomba nuclear. É fácil: se não emplacar a candidata Dilma, vai nomeá-la embaixadora por lá. 

PENSANDO BEM...
...Lula, “um dos mais influentes do mundo” da revista Time, ainda não influenciou nos índices de pesquisa de sua candidata. 

GRANDE MOMENTO 
A GloboNews reapresentou ontem a saborosa entrevista que Alfred Hitchcock, mestre do suspense, concedeu a Hélio Costa há décadas.

ESPORTE ESPETACULAR
O Ministério Público Federal investiga convênio do Ministério do Esporte com a Gaia Produções (SP) e a ONG Instituto Terceiro Setor (RJ) para produzir um documentário do Pan de 2007, que deveria ser realizado por servidores do ministério. 

RESISTÊNCIA
No DF, o acordo PT-PMDB enfrenta resistências. O deputado petista Chico Leite tascou em seu twitter: “O presidente Lula recomendou que conversemos com o PMDB, e não com a Caixa de Pandora”.

DEMBOQUINHAS
O novo governador do DF, Rogério Rosso, é do PMDB e deve apoiar a candidatura de Agnelo Queiroz (PT) à sua sucessão, mas continua mantendo representantes do DEM em cargos importantes do governo.

MENOS UM
A presidenciável petista Dilma Rousseff perdeu o apoio do PSB e um palanque importante no Paraná. O diretório nacional aprovou o apoio ao prefeito tucano Beto Richa, candidato ao governo.

DEFINIÇÃO
Do ministro Carlos Ayres Britto (STF), no julgamento da Lei de Anistia: “O torturador é um monstro, um desnaturado, é um tarado. A lei poderia anistiar os torturadores, mas que o Congresso fizesse claramente”.

“BURROCRACIA” PREJUDICIAL 
A Infraero demora tanto para liberar cargas que lesa o polo de Manaus. O vice-presidente da Federação das Indústrias do Amazonas, Wilson Périco, prevê perdas de aproximadamente US$ 50 milhões no Dia das Mães e na Copa do Mundo.

TELA QUENTE PAULISTA 
Dono da TV Oeste Paulista, o ex-deputado Paulo Lima (PMDB-SP) ganhou a concorrência de tevê aberta em Marília, contra o grupo J. Havilla, da TV TEM. Lima foi alvo de CPI no governo Rosinha, no Rio, por supostamente vender livros didáticos e não entregar.

MINERAL ON THE ROCKS 
Além de tentar convencer o porralouca Mahmoud Ahmadinejad a desistir da bomba, Lula passará outra aflição em Teerã: o consumo de álcool dá cadeia. Mas uma “mineral” que passarinho não bebe e não deixa bafo, tipo vodca, e em sendo ele “o cara”, quem sabe...

PERGUNTA ESOTÉRICA
Será que o carisma que sobra em Lula, em Dilma virou carma? 

PODER SEM PUDOR 
SACO DE PANCADAS
O senador Aloizio Mercadante (PT-SP) já era alvo preferencial da antipatia do presidente no primeiro governo Lula. Em uma reunião, Lula observou:
– É por isso que as pessoas detestam tanto você, Mercadante: você chegou e não cumprimentou ninguém...
– É que eu cheguei atrasado, presidente - respondeu ele, encabulado.
– Então errou duas vezes – tripudiou Lula – primeiro porque chegou atrasado, depois porque não cumprimentou ninguém!

BEIRA MAR

SEXTA NOS JORNAIS

Globo: Supremo confirma que anistia vale também para torturador

Folha: Lei da Anistia fica como está, diz STF

Estadão: Revisão da Lei de Anistia é rejeitada pelo Supremo

JB: Do euro para o ouro

Correio: Crime da 113 Sul: Investigação de araque

Valor: Disputa entre fornecedores baixa custos de Belo Monte

Jornal do Commercio: Ladrões de remédio na cadeia

quinta-feira, abril 29, 2010

JOSÉ SIMÃO

Hipertensão! Queremos Bolsa Perereca!
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SÃO PAULO - 29/04/10

Combata a hipertensão e tenha um filho TEMPORÃO! E chama o ministro para padrinho

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!
"Carro usado em ataque a senador paraguaio é brasileiro." E por acaso no Paraguai tem carro que não seja brasileiro? Diz que foi o PCC. PCC é um amigo meu: Pendurado, Cansado e Corintiano. E o ministro Temporão? O Ministro do Hipertesão! "Ministro da Saúde recomenda sexo contra hipertensão." Já disse que isso se chama hipertesão! E já foi lançado o plano de saúde para hipertensão: o UNIMETE! Rarará! Temporão e hipertesão, a zona é a solução!
E não se fala mais: vamos dar uma bimbada? Agora é: vamos dar uma controlada na pressão? E até em Imperatriz, no Maranhão, o Bordel da Dona Nega mudou de nome pra Clínica de Combate à Hipertensão! Rarará. A Dona Nega é credenciada no SUS! Combata a hipertensão e tenha um filho TEMPORÃO! E ainda chama o ministro para padrinho! Mas com a mulher dos outros o SUS não cobre. Não?! Então prefiro ficar hipertenso!
E pedido dos brasileiros ao ministro: "Temporão, DESCOLA UMA GATA!". Rarará. O Lula vai lançar mais dois programas sociais: Bolsa Motel e Bolsa Viagra! Ou melhor, BOLSA PERERECA!
Adorei a charge do Marco Aurélio: "Ministério da Saúde aconselha: para combater a pressão, pratique sexo cinco vezes. Caso os sintomas persistam, procure A OUTRA!". Rarará!
E a Susan Boyle que vai cantar para o papa? Eu já disse que ela não é uma mulher, mas uma IPP: Indivídua Portadora de Perereca. Mas eu acho que ela tá mais pra IPAPP! Indivídua Portadora de Algo Parecido com Perereca. Rarará. Perereca tem a Grazi, a Giselle! E olha a traseira de um caminhão: "Deus é fiel, eu é que sou sem vergonha!". Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece.
Antitucanês Reloaded, a Missão.
Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. É que em Passos, Minas, tem um inferninho cujo nome é o apelido da dona: Recanto da Tira Gosto! Ueba! Mais direto impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil!
E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. Hoje não tem. O Lula está em recesso. Há 60 anos! Rarará!
O lulês é mais fácil que o ingrêis.
Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
E vai indo que eu não vou!

GOSTOSA COM MUITO COLESTEROL

DEMÉTRIO MAGNOLI

Lula celebra Geisel em Belo Monte
DEMÉTRIO MAGNOLI 
O Estado de S.Paulo - 29/04/10

Belo Monte lembra Itaipu, de muitas formas. O estudo de viabilidade da usina, então batizada Kararaô, começou em 1980, durante a construção de Itaipu. O nome do general-presidente Ernesto Geisel está ligado às duas obras. Itaipu nasceu do consórcio binacional firmado um ano antes de sua posse, mas tornou-se um ícone do modelo de desenvolvimento que ele personificou. O conceito original de Kararaô foi elaborado durante o seu quinquênio, como parte de um grandioso plano de exploração do potencial hidrelétrico da Amazônia. De Kararaô a Belo Monte, mudou a abordagem dos impactos sociais e ambientais do projeto. Por outro lado, a engenharia financeira da hidrelétrica, tal como exposta no seu leilão, evidencia a restauração da visão geiseliana sobre o Brasil.

Lula definiu Geisel como "o presidente que comandou o último grande período desenvolvimentista do País". A crítica ao desenvolvimentismo geiseliano não partiu dos liberais, então um tanto calados, mas da esquerda. As grandes obras de infraestrutura de sua época foram financiadas à custa do endividamento estrutural do Estado e pagas ao longo de mais de uma década de inflação. No preço oculto das variadas Itaipus, esses objetos do encantamento de Lula, deve-se contar a crise política crônica que destruiu o regime militar e envenenou os governos Sarney e Collor tanto quanto a impotência do Estado para investir em serviços públicos de saúde e educação. Tais lições, aprendidas na transição política que viu nascer o PT, são hoje renegadas, no discurso e na prática, por um presidente embriagado de soberba.

Geisel ofereceu energia barata para a indústria, subsidiando-a pela via da exclusão social de milhões de brasileiros. Uma ditadura comum pode fazer isso por algum tempo, mas é preciso uma ditadura à chinesa para sustentar tal estratégia de desenvolvimento. Kararaô não seguiu adiante pois esgotara-se o fôlego financeiro e político do modelo de Geisel. Desde a redemocratização, sob pressão dos eleitores, os governos iniciaram um redirecionamento dos fundos públicos para as finalidades sociais. O leilão de Belo Monte representa uma inflexão nessa curva virtuosa.

A engenharia financeira da usina se subordina ao dogma geiseliano da tarifa barata. O suposto benefício não passa de um subsídio indireto aos empresários industriais e comerciais, que consomem juntos quase 70% da oferta total de eletricidade. A tarifa comprimida afugentou os investidores privados, convertendo o Estado no financiador principal da obra. O BNDES entrará com 80% dos recursos, a juros subsidiados e prazo de pagamento de 30 anos. Como o BNDES não dispõe desse capital, o Tesouro pagará a conta, emitindo dívida pública.

O preço real da eletricidade que será produzida, escondido atrás da tarifa de mentira, corresponde à remuneração do capital investido na obra, mais os custos e lucros da concessionária. A diferença entre o preço real e a tarifa recairá sobre os brasileiros de todas as faixas de renda, inclusive sobre a geração que ainda não vota. Itaipu, segunda versão: apesar daquilo que dirá a candidata governista no carnaval eleitoral, o povo fica condenado a subsidiar a energia consumida pelo setor empresarial.

Lula celebra Geisel no templo profano do capitalismo de Estado. Contudo, se o general confinava as empresas parceiras à lucrativa função de empreiteiras, o presidente que o admira prefere o sistema de aliança no consórcio concessionário. O jogo, mais complexo, assumiu a forma de uma contenda entre aliados pela distribuição de poder e benesses financeiras. À sombra da regra da tarifa subsidiada, manejando os recursos públicos e o capital dos fundos de pensão, que trata como se fossem públicos, o governo impôs o controle estatal sobre o consórcio.

A Eletrobrás, imaginada como uma Petrobrás do setor elétrico, terá a hegemonia na operação da usina, pela via da participação de 49,98% da Chesf no consórcio vencedor. À meia luz, no ambiente propício aos acertos heterodoxos, desenvolve-se o processo de domesticação dos parceiros privados, que aceitarão posições subordinadas em troca de generosas isenções tributárias e da almejada participação como empreiteiros. O leilão foi apenas o ponto de partida da negociata multibilionária, que seguirá seu curso longe dos olhos da opinião pública.

A nova Itaipu custará estimados R$ 30 bilhões. Na sequência, vem aí o leilão do trem-bala, com custo similar, também financiado essencialmente por meio de emissão de dívida pública. O PT nasceu no ano da concepção de Kararaô e no rastro da crítica de esquerda ao peculiar nacionalismo geiseliano, com a sua aliança entre o Estado-empresário e uma coleção de grandes grupos privados associados ao poder. Três décadas depois, é no capitalismo de Estado que ele busca um substituto para a descartada utopia socialista.

"No Brasil dos generais, quem quisesse crescer tinha de ter uma relação de dependência absoluta com o setor público", explicou um alto executivo da construtora Norberto Odebrecht, que participou da fase derradeira da construção de Itaipu. O fundador da empresa mantinha relações estreitas com Geisel. Seu neto, Marcelo, atual presidente da Odebrecht, conserva uma coerência de fundo com as ideias do avô. É essa coerência que o levou a afirmar, três meses atrás: "O Chávez tem vários méritos que o pessoal precisa reconhecer. Antes dele, a Venezuela estava de costas para a América do Sul e de frente para os EUA. Vocês podem questionar o que quiserem, mas é inequívoca a contribuição que Chávez deu à integração do continente americano. É inequívoco, também, que os objetivos são nobres."

Marcelo Odebrecht pode ou não ter objetivos "nobres", mas não é ingênuo nos negócios - nem em política. A Odebrecht negocia a sua incorporação ao consórcio de Belo Monte. Ela tem bilhões de motivos para gostar do capitalismo de Estado.

É SOCIÓLOGO E DOUTOR EM GEOGRAFIA HUMANA PELA USP

ANTÔNIO CLÁUDIO MARIZ DE OLIVEIRA

Advocacia agredida
ANTÔNIO CLÁUDIO MARIZ DE OLIVEIRA 
O Estado de S.Paulo - 29/04/10

Há poucos dias, assistimos estarrecidos à violência cometida contra o advogado Roberto Podval, defensor do casal Nardoni. Com destemor, competência e altivez ele exerceu o sagrado direito de defesa, em nome de acusados que já estavam condenados pela mídia e pela opinião pública. Foi alvo de agressão física e de inúmeras outras de natureza moral, que não o alcançaram por ser ele portador de inatingível dignidade pessoal.

A incompreensão histórica que nos acompanha, e que agora recrudesceu, faz com que os advogados sejam vistos como cúmplices do cliente.

Consideram-nos advogados do crime, e não porta-vozes dos direitos constitucionais e processuais do acusado, que, diga-se, são direitos e garantias de todos e de cada qual. Portanto, violados quaisquer deles num caso concreto, mesmo se tratando de acusado notoriamente culpado, a próxima violação poderá atingir qualquer cidadão, ainda que inocente. Vale repetir à exaustão: nós, advogados, não somos defensores do crime, defendemos a obediência aos direitos e às garantias individuais.

Na atualidade o desprestígio da advocacia atingiu níveis inimagináveis. Pode-se afirmar a ocorrência de algo inédito em nosso país: a advocacia está sendo hostilizada.

Um Estado repressor e policialesco em franca formação, de um lado, e, de outro, uma mídia sedenta de escândalo e tragédia, especializada na teatralização do crime, têm contribuído para a construção de uma imagem negativa da advocacia e, o que é mais grave, têm contribuído para apequenar o próprio direito de defesa. Passou ele a ser considerado como desnecessário, inconveniente, instrumento de chicanas e de ganho para os advogados.

É estranho que a advocacia esteja sendo criticada em aspectos absolutamente comuns a outras profissões, que, no entanto, ficam impunes.

Fala-se que os pobres não podem contratar bons advogados por não poderem pagar os honorários, ficando carentes de assistência jurídica. Admitindo-se como correta a afirmação, também é correto dizer que os pobres são carentes de boa saúde, de adequada educação e de habitação digna. A culpa não é dos advogados, dos médicos ou dos engenheiros, mas sim da trágica desigualdade social que reina no País. Note-se que, no caso da advocacia, os carentes de recursos são assistidos ou pelos não poucos advogados que lhes atendem gratuitamente, ou pelos que, conveniados pelo Estado, lhes prestam assistência e recebem irrisórios honorários do Estado, ou ainda pelos competentes e dedicados defensores públicos.

Verbera-se, ainda, que advogados cobram honorários elevados. Trata-se de uma assertiva que, se verdadeira, não pode ser generalizada, pois a maioria esmagadora dos profissionais (200 mil só em São Paulo) enfrenta grandes dificuldades no mercado de trabalho. De qualquer forma, ela causa espécie. A contratação de honorários é ato bilateral - há quem cobre e há quem aceite e pague. Qual o motivo de estranheza ou de crítica? Para uma sociedade que supervaloriza o ganhar e o ter, em detrimento do ser, tal observação é ridícula, para não dizer hipócrita. Podem ganhar os jogadores de futebol, os artistas, os grandes médicos, cirurgiões plásticos, os arquitetos e decoradores, os empresários, os banqueiros, os jornalistas e apresentadores de TV, etc., etc. No entanto, dos advogados se parece querer exigir trabalho não remunerado.

Antes mesmo de o Estado se organizar tal como o conhecemos hoje havia aqueles que "eram chamados" para emprestar a sua voz - os chamados "boqueiros" - em prol dos que careciam de defesa. É verdade o que se diz: o primeiro advogado foi o primeiro homem que com a sua palavra defendeu um semelhante contra uma injustiça. Sempre fomos e seremos os "boqueiros" daqueles que não têm voz e não têm vez.

Qualquer cidadão, inocente ou culpado, ou titular de uma pretensão, procedente ou improcedente, tem o direito de recorrer ao Poder Judiciário para se defender e para deduzir a sua postulação. E nós, advogados, somos os agentes do exercício desses direitos perante quaisquer juízos e tribunais, pois exercemos com exclusividade a chamada capacidade postulatória. Somente nós, advogados, temos o poder de movimentar o Judiciário, que é originariamente inerte. No juízo criminal exercemos o direito de defesa, sem o qual o processo nem sequer pode ser instaurado. Somos, pois, o elo entre o povo e a Justiça.

A propósito da defesa no processo penal, mesmo os mais furiosos adeptos de punição contra os acusados deveriam respeitar e defender o direito de defesa, pois sem ele os seus instintos sanguinários nunca poderiam ser satisfeitos, a não ser pela vingança privada.

Nos momentos de ruptura institucional ou de obscurantismo social, os advogados sempre foram desrespeitados e agredidos. Napoleão Bonaparte desejou cortar a língua dos advogados. Durante a Revolução Francesa, Robespierre e o promotor Fouquier-Tinville impediram a atuação dos advogados na defesa dos acusados. Em menos de uma semana houve mais de mil condenações e decapitações. E, durante a Revolução, Malesherbes e Nicolas Barrier foram guilhotinados por exercerem a defesa.

A história recente do Brasil registra a heroica epopeia dos advogados que se opuseram com rara coragem e desprendimento às ditaduras getulista e militar.

Não estamos vivendo hoje um período de ruptura institucional, mas atravessamos triste período de verdadeiro obscurantismo, representado por uma cultura repressiva que se instalou no seio da sociedade e que reflete a intolerância raivosa, a insensatez, o ódio e o desejo de expiação e de vingança. Tais sentimentos não raras vezes atingem a advocacia.

Embora o caminhar seja árduo, e sempre o foi, continuaremos a seguir a nossa saga. Continuaremos a exercer o nosso glorioso ministério de postular pelo direito e pelo justo em nome de terceiros, em benefício da cidadania e da democracia.
ANTÔNIO CLÁUDIO MARIZ DE OLIVEIRA É ADVOGADO CRIMINAL

JAPA GOSTOSA

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

A Grécia será o que, amanhã? 
Sonia Racy 

O Estado de S.Paulo - 29/04/2010

A Grécia pode ser a Lehman Brothers da Europa? Segundo o brasileiro José Alexandre Scheinkman, da Princeton University, há poucas chances de isso acontecer.

E se, nesse vai e vem, a Grécia quebrar, quantos bancos franceses (que são os maiores credores do País) ela levaria junto e como isso contaminaria o sistema internacional? "Essa é outra questão", desconversa o economista.

Pelo que se apurou, para salvar a Grécia, a banca faz pressão sobre governos e entidades multilaterais usando como justificativa a desastrosa quebra do LB e suas consequências.
Grécia 2

Scheinkman é contra ou favor de salvar a Grécia? O economista acha que opções para a zona do euro são complicadas. "Salvar a Grécia significa salvar políticas fiscais perigosas."

No caso dos EUA, a constituição americana é clara. O governo federal não é responsável pelas dívidas de Estados e municípios. "Se a Comunidade Europeia tivesse algo semelhante, não sucumbiria às pressões bancárias."

Voto na tela

Dilma teve 5% de audiência no programa de Datena para a Band, dia 21. Na semana seguinte, Serra chegou a 5,4%.

Se o Ibope considera aqui também margem de erro de 2 pontos, deu empate técnico.
Ser ou não ser A única pessoa do governo que pode esclarecer se é Dilma ou "La" Bengell no site da candidata é o chanceler Celso Amorim. Afinal, ele foi continuísta de Ruy Guerra no filme Os Cafajestes. Teve a chance de vê-la por inteiro. Literalmente.

Minha casa

O PSDB confirmou o Joelma como sede de seus escritórios de campanha. Serão dois andares para Serra, dois para Alckmin e meio destinado, no momento, a Aloysio Nunes, que tenta a vaga ao Senado.

Carimbadas

O vão do Masp está virando ponto de encontro de desconhecidos apaixonados. A turma que troca figurinhas da Copa. Aos fins de semana.

O direito de ver

Silvana Bianchi, avó do menino Sean, impedida de vê-lo há dois meses, pela justiça americana, pediu ao Tribunal de Justiça do Rio que se manifeste sobre o assunto. Afinal, os juízes americanos não estariam cumprindo o acertado com a parte brasileira.

Será que se caminha para mais um embate internacional?

Big Jorge

Ainda não se sabe se isso vai para frente ou não.

Mas que Jorge Paulo Lemann está olhando, lá fora, a operação da Burger King, lá isso está. Com a intenção de montar um pool para comprá-la.
Padrão Barbie

Ana Paula Padrão, quem diria, será a primeira brasileira a se transformar em... Barbie.

Ideia da Matell do Brasil.
Pão de malte

A Brahma será a nova patrocinadora da Portuguesa. O anúncio sai na semana que vem.
De filho para pai

O pessoal do PMDB reparou. José Serra não é o pai da ideia de criar um Ministério da Segurança Pública. Ela vem sendo defendida por Marcelo Itagiba há pelo menos cinco anos.
Na frente

Acontece hoje o Fashion Day do Shopping Cidade Jardim com desfiles da coleção outono-inverno. Fernanda Lima e Ana Claudia Michels na passarela.

O Teatro São Pedro abre hoje a temporada com a Tosca, de Giacomo Puccini.

José Eduardo Agualusa vem a SP para o III Festival da Mantiqueira. Em maio.

Peter Lax, prêmio Abel 2005 - o Nobel da Matemática - está no Brasil Para seminário no Instituto de Matemática da USP. Sexta.

Marcos Gouvea volta ao mercado imobiliário.

Lindsay Lohan recebeu proposta para entrar no Celebrity Rehab, reality americano com famosos em clínica de recuperação. Declinou. Avisa que não tem problemas.

Nem jurídica, nem técnica: Temas do Seguro é uma obra prática. Antonio Penteado de Mendonça relança seu livro pela Roncarati.

Tem gente que vê maldade em tudo. A sugestão de José Temporão, para fazer sexo cinco vezes por semana está sendo vista como lobby para quebrar licença do Viagra. E usuários.

MERVAL PEREIRA

Direitos humanos
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 29/04/10

Em várias palestras aqui na Universidade de Córdoba, onde se realiza a Conferência da Academia da Latinidade com o tema central de busca de condições para o diálogo entre as culturas, um ponto recorrente foram os direitos humanos que, como ressaltou o secretário-geral Candido Mendes, não podem ser encarados como instrumentos de dominação ocidental e devem ter caráter universal

A limitação cultural do entendimento do que sejam os direitos humanos, porém, é uma realidade destacada por vários palestrantes. Enrique Larreta, diretor do Instituto de Pluralismo Cultural da Universidade Candido Mendes ressaltou que os direitos humanos têm ainda um tipo de aplicação regional.

“Na Europa, fica claro que a prioridade são os direitos individuais. Por exemplo, o passaporte para os perseguidos por estados, ou os direitos da mulher”.

Segundo ele, a União Europeia foi construída em boa medida em conflito com o totalitarismo soviético, e aí se afirmou a ideologia dos direitos humanos.

Há diferenças regionais importantes.

A morte recente do dissidente cubano na prisão só teve uma crítica formal de um governo da América Latina, que foi o México.

“O presidente da Bolívia, Evo Morales, chegou a dizer, com base em informações oficiais cubanas, que o morto era um delinquente comum.

Lula disse coisa parecida.” Isso demonstraria, segundo Larreta, que não existe uma cultura dos direitos humanos na América Latina, embora a esquerda latinoamericana tenha se aproveitado da política de direitos humanos ocidental para se proteger das ditaduras.

Na Ásia, lembra Enrique Larreta, que está envolvido em uma profunda pesquisa sobre os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China, os quatro países emergentes que serão potências mundiais preponderantes nos próximos 20 anos, segundo a Goldman Sachs), a China tem uma posição muito forte de soberania nacional que rejeita uma suposta interferência internacional, mesma posição dos governos militares latinoamericanos.

Larreta deixou claro em sua palestra que considera não ser admissível que uma visão culturalmente diversa sobre direitos humanos impeça o entendimento entre Ocidente e Oriente.

“Se os chineses assimilaram o marxismo, criado por dois escritores alemães, não há nenhuma razão para não assimilarem a democracia ocidental, da qual os direitos humanos fazem parte inseparável”, frisou.

O sinólogo francês François Julien, diretor do Instituto do Pensamento Contemporâneo, argumentou na sua palestra com a especificidade do pensamento chinês, mas se manteve em uma posição bastante universalista no sentido de que um horizonte de direitos humanos pode ser incorporado perfeitamente pela China.

Uma ideia prevaleceu nos debates, a de que todas as culturas se transformam.

A discussão sobre o uso da burca na França, por exemplo, que o presidente Nicolas Sarkozy quer banir em todas as situações, gerou diversos comentários.

O sociólogo Alain Touraine acha que não pode haver proibição através de uma nova legislação, que seria inconstitucional.

O professor da USP Renato Janine Ribeiro ressaltou em sua palestra que pesquisas mostram que a maioria dos franceses é a favor de proibir a burca, mas também favorável a manter o crucifixo nas paredes, o que indicaria que a burca é vista mais como um elemento de constrangimento dos direitos da mulher do que como símbolo religioso.

Já Enrique Larreta diz que o Estado francês é “laicoreligioso”, pretende que a cidadania seja um conceito místico. Ele também considera que os direitos humanos individuais são universalizáveis.

Como exemplo, lembrou que hoje em dia, em distintas sociedades como o Brasil e a China, cresce o número de indivíduos que vivem sozinhos, porque os meios tecnológicos permitem que se comuniquem na sua individualidade: pela internet, pelo celular.

Mas essas pessoas exigem seus próprios direitos.

“A individualização da sociedade cria condições para que de alguma maneira seus direitos sejam coletivos”, comentou Larreta.

Renato Janine Ribeiro chamou a atenção para o fato de que a necessidade de pertencimento a um grupo está muito presente no mundo atual, e, mais do que significar uma escolha individual, significa que existe uma identidade coletiva que precede toda forma de liberdade.

Em vez do cartesiano “penso, logo existo”, a definição seria “nós somos, logo eu sou”. Ou “eu pertenço a esse determinado grupo porque livremente o escolhi”.

O renovado conceito de relações sociais trazido pelos novos meios de comunicação foi também debatido em diversas sessões, com visões distintas de sua repercussão na sociedade.

Janine Ribeiro lembrou que um dos módulos do Linux, o sistema operacional aberto da internet, chamase “ubuntu”, que, num dialeto tribal da África do Sul, significa “sou o que sou por que pertenço a um grupo”.

Candido Mendes referiu-se à nova tecnologia da informação como a “agora eletrônica”, numa referência ao espaço de debate da antiga Grécia, mas mostrou-se pessimista com relação à possibilidade de controle das informações de sistemas de buscas como o Google.

Citou um julgamento nos Estados Unidos sobre o controle de tempo para determinadas informações que indicaria que o sistema está sendo manipulado para facilitar alguns tipos de informações e dificultar outras, o que sugere que esse novo mundo tecnológico da informação pode reservar novas formas de totalitarismos.

Jorge Sampaio, ex-presidente de Portugal e Alto Representante da ONU para a Aliança das Civilizações, resumiu a preocupação geral em sua fala na abertura do seminário: disse que o crescente apoio da extrema-direita e atitudes etnocêntricas em certas partes do mundo têm que ser combatidas porque não se pode permitir, citando a filósofa Anna Arendt, que a “banalidade do mal” se torne realidade.