domingo, abril 18, 2010

SABOROSA

CELSO LAFER

O Brasil e a nuclearização do Irã

CELSO LAFER 

O Estado de S.Paulo - 18/04/10


O campo das relações internacionais opera à sombra da situação-limite da guerra. Esta é, como disse Aron inspirado por Clausewitz, um camaleão: assume sempre novas formas. A capacidade destrutiva das armas nucleares produziu uma mutação qualitativa do camaleão da guerra, ao tornar viável o completo extermínio de grandes coletividades. É por esse motivo que o desarmamento nuclear e a não-proliferação nuclear de cunho militar são um grande e não resolvido tema global da agenda de segurança da vida internacional. É neste horizonte que se situam o tema da nuclearização crescente do Irã, as medidas que estão sendo negociadas no âmbito do Conselho de Segurança da ONU e as discussões sobre o papel da diplomacia brasileira neste assunto.
Na análise das relações internacionais, é usual a distinção entre idealistas e realistas. As correntes idealistas, empenhadas na paz, surgiram em razão dos horrores da guerra propiciados pela destrutividade técnica das armas. Adquiriram ressonância em razão do advento da bomba atômica. Levam em conta a indivisibilidade da paz num mundo unificado pela economia, pelas comunicações e pela técnica e partem de uma kantiana ideia reguladora da razão: no século 21 a guerra nos aponta o que é preciso temer e a paz nos indica o que temos o direito de almejar.
Maquiavel é uma das matrizes inspiradoras das correntes realistas. Estas têm o seu foco nos fatos do poder e na sua desigual distribuição entre os Estados. Realçam a preponderância do papel do conflito e da lógica da polarização num sistema internacional que retém componentes de um anárquico estado de natureza. Por isso, os realistas são críticos das ilusões idealistas e chamam a atenção para o papel estratégico da "razão de Estado" que contempla o uso da força.
Raymond Aron, em Paz e Guerra entre as Nações, examinou o papel dessas duas correntes na ação diplomática concreta. Observou que essa ação lida com a indeterminação que é fruto dos elementos singulares de cada conjuntura e da pluralidade dos objetivos das políticas externas dos Estados. Apontou que os responsáveis por uma conduta estratégico-diplomática, na sua atuação, se veem simultaneamente confrontados, na sua práxis, tanto pelo problema maquiavélico quanto pelo kantiano. O primeiro diz respeito ao realismo dos meios necessários para assegurar a independência e a sobrevivência de um Estado. O segundo está voltado para o empenho em assegurar a paz.
A Constituição brasileira, no seu artigo 4.º, ao tratar dos princípios que regem as relações internacionais do Brasil, consagra a concomitância do realismo e do idealismo. Com efeito, o inciso I afirma o realismo do valor da independência nacional e os incisos VI e VII, os valores da defesa da paz e da solução pacífica dos conflitos, cabendo acrescentar que o art. 20 (XXIII) determina que toda atividade nuclear brasileira terá, exclusivamente, fins pacíficos, excluindo, assim, as armas nucleares do escopo da conduta estratégico-diplomática brasileira.
O Brasil redemocratizado da Nova República seguiu com sucesso a vis directiva da Constituição de 1988. Terminou com o desnecessário potencial desagregador de uma corrida armamentista nuclear com a Argentina e institucionalizou a confiança mútua de controles recíprocos (Abacc). Celebrou, com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), os mecanismos de verificação comprovadores dos fins pacíficos dos projetos brasileiros na área nuclear. Contribuiu para pôr em vigor o Tratado de Tlatelolco, que proscreve as armas nucleares na América Latina. Aderiu ao Tratado de Não-Proliferação (TNP). Nenhuma dessas ações, em defesa da paz, pôs em risco a independência nacional. Esta o Brasil vem aprofundando com o investimento no soft power da credibilidade, proveniente da estabilidade econômica, da responsabilidade fiscal, das redes de proteção social, do empenho democrático, da afirmação dos direitos humanos, dos mecanismos de cooperação com os nossos muitos vizinhos e de uma consistente ação multilateral econômica na política. Isso tudo vem conferindo adensada proeminência ao nosso país no cenário internacional. Nesse contexto pergunta-se: O empenho diplomático brasileiro de abrir espaço para o Irã, cujo processo de nuclearização suscita generalizadas inquietações, faz sentido?
Realço, em primeiro lugar, que não cabe evocar como justificativas da atual posição brasileira o que se passou no Iraque em 2003. Não cabe a analogia, pois não há semelhança relevante. O Iraque de Saddam Hussein não tinha armas nucleares graças aos controles da AIEA e à eficácia das prévias sanções autorizadas pelo Conselho de Segurança; não estava desestabilizando a região e o mundo; e a intervenção militar liderada pelos EUA foi feita unilateralmente, com uma justificativa falsa, criando novas tensões que ainda não encontraram adequado encaminhamento.
No momento atual o Irã está levando a uma difusa e significativa tensão internacional. Há uma percepção generalizada - e a percepção da realidade é um componente da realidade - de que o seu programa nuclear tem ameaçadores componentes militares e que pode, assim, induzir à nuclearização militar de outros países da vizinhança; desestabilizar o precário equilíbrio geopolítico do Oriente Médio; encorajar o terrorismo internacional; subverter os regimes políticos de países vizinhos; desencadear uma nova e complexa dinâmica entre xiitas e sunitas; e tornar mais difícil a paz entre palestinos e israelenses.
Daí a óbvia pergunta: seja do ponto de vista realista, seja do ponto de vista idealista, qual é a vantagem do Brasil em alinhar-se ao Irã e legitimar as ambiguidades da sua conduta? No meu entender, nenhuma, pois essa postura está descapitalizando a credibilidade brasileira na precária busca de um ilusório prestígio, fruto de um inconsequente protagonismo internacional.
PROFESSOR TITULAR DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS E DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, FOI MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES NO GOVERNO FHC

ARI CUNHA

Livro de Jarbas Passarinho
ARI CUNHA 

CORREIO BRAZILIENSE - 18/04/10


Amazônia, patrimônio universal?, é o título. Vê-se preocupação legítima sobre o destino da Amazônia, onde há quem pense em administração internacional. Espanhóis não se interessavam por descer dos Andes e penetrar na floresta inóspita. Um índio brasileiro chega aos espanhóis no sopé dos Andes portando pepitas de ouro. Abriu os olhos dos espanhóis. Encontraram um índio besuntado em óleos aromáticos com o corpo coberto de fina poeira aurífera. Mergulhava nas águas do rio imenso cantando e levando oferenda aos deuses. Capitão Fawry, da Marinha americana, defendia a polêmica abertura do Rio Amazonas à navegação estrangeira. O capitão tinha memorando destinado à descolonização do Brasil. Era o ano de 1816. No final das operações, a América do Sul estaria redesenhada. Os vice-reinados hispânicos dariam lugar a nações republicanas. A Venezuela seria incorporada à Grã-Colômbia. Não existiria mais a Bolívia anexada ao Peru vizinho ao Chile e Paraguai. O Amapá seria destinado à ocupação da França por extensão da Guiana Francesa. A Ilha do Marajó seria base naval americana. Ilha de Catarina, hoje Florianópolis, passava a ser ocupação britânica, assim como Caplatina (Uruguai) protetora do britânico. Há histórias fantásticas no livro. Jarbas Passarinho, que sempre foi observador, revela anotações de suas leituras da história. Amazônia, patrimônio universal? traz a história de como eram o Brasil e o universo sedento de poderes.


A frase que não foi pronunciada

“Dá para voltar à natureza sem ir para trás?”
Resposta que será pronunciada pela candidata Marina Silva.



Novo nome
No Hospital Sarah há um texto dando conta de que agora se chama Centro Internacional de Neurociência e Reabilitação. Verdade é que hospitais Sarah não descansam nunca. E acompanham o que há de modernidade na medicina. Sob a presidência da dra. Lúcia Willadino Braga e com o dr. Campos da Paz como cirurgião-chefe, a casa está sempre acompanhando o que de moderno surge na profissão de ambos.

Buraco
Na avenida do Lago Norte surgiu a Quituarte. Houve progresso e se projetou na comunidade. A planta da nova sede não foi aprovada. A obra não contou com os limites do gabarito. Está na Justiça. Em havendo posterior decisão da Justiça, o vão da construção seria posto à disposição dos proprietários. Pior é o buraco em exposição. Mal falado, não cai no gosto de quem melhor pensa.

Valverde I
Uma estação ecológica passa às mãos do governo de Rondônia. Além da preservação, a União autoriza atividades científicas na área, que fica na fronteira. Forças Armadas e Polícia Federal têm livre trânsito. O deputado Eduardo Valverde foi o relator do projeto.

Valverde II
Vale muito mais manter as infrações e pagar indenizações e acordos do que deixar de receber cobranças ilegais. Assim agem as campeãs de reclamação no Procom. O juiz Hector Valverde quer acabar com as facilidades da prática abusiva contra o consumidor, aprimorando o Código de Defesa.

Riquezas
Pesquisas estimuladas em acordo entre Botsuana e Brasil. O intercâmbio entre os dois países, com ênfase na educação, foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara. Gaborone é a capital de Botsuana, na África. Botsuana é conhecida no exterior como um dos maiores extratores de riquezas minerais como diamantes, níquel e cobre.

Mudanças
Pedofilia e crimes contra a vida terão penas mais duras. Não tem sentido agentes de crimes hediondos serem agraciados com indulto, anistia, fiança ou progressão do regime de cumprimento de pena. A decisão foi tomada pelo mesmo STF que hoje questiona o sistema que libertou o maníaco de Luziânia. O deputado Sabino Castelo Branco defende a prisão perpétua para esse tipo de condenado.

Estúpido
Hoje, o que acontece é que o contribuinte banca a hospedagem dos criminosos irrecuperáveis que fogem com o consentimento da Justiça em datas comemorativas ou passam o dia passeando para voltar à cadeia à noite.

Bigode
Senador José Sarney fez cirurgia no lábio superior. Tornava-se necessário raspar o bigode. Sarney pôs pé firme. Indagado por um chargista sobre a razão de tanto cuidado, Sarney pensou rápido na resposta: “Eu sempre alimento suas charges”.

BIP

ELIO GASPARI

Trem-bala virou uma coisa muito estranha
ELIO GASPARI
FOLHA DE SÃO PAULO - 18/04/10

O comissariado quer fechar um negócio de R$ 34,6 bilhões durante a campanha eleitoral, em fim de governo

NOSSO GUIA precisa congelar as iniciativas destinadas a apressar a concorrência para a construção de um trem-bala ligando o Rio de Janeiro a São Paulo e Campinas. Deve fazê-lo porque não fica bem para um presidente com poucos meses de mandato decidir a contratação de uma obra de R$ 34,6 bilhões. Trata-se de um ervanário equivalente à construção de 170 quilômetros de metrô, sabendo-se que as malhas de São Paulo e do Rio somam apenas 104 quilômetros. Se o Grande Mestre persistir, criará a última encrenca de seu governo, ou a primeira do mandato seguinte.
O projeto do trem-bala poderia ter sido uma joia da coroa da política de investimentos do atual governo, mas transformou-se num almanaque de má gestão, improvisações e leviandades.
Em 2007 o Tribunal de Contas recebeu um projeto que quase certamente concederia a obra ao consórcio italiano Italplan. Ele prometia entregar o trem sem pedir um tostão à Viúva. A obra começaria no ano seguinte, estaria pronta em 2016 e custaria em torno de R$ 9 bilhões. O TCU estudou a matemática do projeto e salvou a Viúva, chutando a bola para fora. Estava tudo errado, da estimativa dos custos à previsão da demanda.
Pior: o trem sairia do Rio e, 90 minutos depois, chegaria a São Paulo, sem qualquer parada. Não há no mundo trem de alta velocidade que faça um percurso de 400 quilômetros sem estações intermediárias.
O governo passou o assunto ao BNDES, e os estudos recomeçaram do zero. Mesmo assim, o voluntarismo do Planalto incluiu o trem-bala no PAC. Se o BNDES estava estudando a viabilidade da obra, a cautela sugeria que se esperasse a conclusão da análise. A esta altura, felizmente, a linha havia sido estendida a Campinas.
No início de 2009 a estimativa do custo do trem-bala pulou para R$ 11 bilhões, prevendo oito paradas, uma delas em São José dos Campos. A linha ficaria pronta a tempo de transportar as torcidas da Copa de 20014. Lorota total.
O Tribunal de Contas recebeu há pouco um novo projeto, no qual o custo está em R$ 34,6 bilhões. Desfez-se a fantasia do financiamento privado. Os empreiteiros e fornecedores de equipamentos entram com 30% dos recursos, e a Viúva fica com 70% da conta, quase toda financiada pelo BNDES, com recursos do Tesouro. Os interessados também querem que haja uma garantia da demanda de passageiros por meio de subsídios ou de mágicas financeiras. A tarifa, que começou em R$ 103 e agora está liberada, sob um teto de R$ 206 na classe econômica do trecho Rio-SP.
Técnicos do BNDES que estudaram o projeto viram que um trem para o percurso Rio-São Paulo-Campinas, consumindo R$ 11 bilhões em túneis, é obra de prioridade discutível. Pelas contas de hoje, o trem-bala seria um bom negócio no eixo Campinas-São Paulo-São José dos Campos, mas a prioridade de uma obra dessas poderia ser discutida com o arquiteto Hemiunu, aquele que construiu a pirâmide de Quéops.
Num governo com oito meses de vida e com um candidato oposicionista que não acredita no trem-bala, soa estrondosa a revelação feita à repórter Maria Cristina Frias por Dilma Rousseff, sob cuja coordenação está o projeto: "A primeira fase vai até São José dos Campos, que tem um aeroporto de porte internacional. (...) Além disso, você revitaliza Viracopos". Ou seja, um trem-bala que iria do Rio a São Paulo irá de Campinas e São José dos Campos. Como esse será o trecho barato da obra física (noves fora a compra bilionária de trens e equipamentos), sobrará para o futuro o caroço dos túneis e das pontes na Serra do Mar.
O governo levou dois anos para desfazer a lambança do projeto de 2007. Agora, quer apressar o Tribunal de Contas para iniciar a licitação em maio, em plena campanha eleitoral, com todas as ansiedades e promessas típicas desses períodos. Quem achar que há algo de estranho nisso pode ter certeza: há algo muito estranho nisso.

EXEMPLO
A propósito do texto "O apagão moral da Febraban durou 24 horas", publicado aqui na semana passada, o presidente da Federação Brasileira de Bancos e seus dois vice-presidentes enviaram a seguinte correspondência ao signatário:
"A Febraban lamenta profundamente e pede desculpas pela nota distribuída na terça-feira da semana passada (dia 6 de abril), quando da tragédia ocorrida no Rio de Janeiro. Foi observado apenas o lado contratual da cobrança de contas de terceiros, quando a dimensão da tragédia requeria maior clareza sobre nosso apoio em momento tão difícil.
Sua crítica foi correta e tenha certeza de que nos empenharemos em impedir que o episódio se repita, persistindo em nosso compromisso com a transparência, o diálogo e o comprometimento com a sociedade
Fabio C. Barbosa, presidente; José Luiz Acar Pedro, vice-presidente;
Marcos de Barros Lisboa, vice-presidente"
EFEITO MARINA
Quando Lula diz que espera eleger Dilma Rousseff no primeiro turno está informando o seguinte: no segundo turno, um apoio de Marina Silva a José Serra poderá decidir a disputa.
CIRO SABE
Em seu desabafo contra o PSB, cujo comando negaceia o apoio a sua candidatura a presidente, Ciro Gomes disse o seguinte: "O que é o PSB? Um ajuntamento como tantos outros ou a expressão de um pensar audacioso e idealista sobre o Brasil?" O Partido Socialista Brasileiro é aquele que tem como filiado e candidato ao governo de São Paulo (com o apoio de Ciro) o empresário Paulo Skaf, presidente da Fiesp.
NO PÁREO
Por mais que seja conhecida a preferência de Nosso Guia pelos caças Rafale, o governo americano passou a acreditar na possibilidade vender seus modelos da Boeing.
LULA E DEUS
Durante os piores dias da inundação do Rio, Nosso Guia pediu a Deus que tirasse as chuvas do Rio e as levasse para o Nordeste seco. Ainda bem que não se pode garantir que o Grande Mestre tem linha direta com o Padre Eterno. Se tivesse, poderiam responsabilizá-lo pela enchente de Salvador e de 40 municípios do Recôncavo.
PERIGO REAL
Para quem suspeita que terrorismo nuclear é coisa séria:
Osama Bin Laden encontrou-se em 2001 com o cientista paquistanês Sultan Bashiruddin Mahmood, um homem de fortes convicções religiosas. Os americanos foram atrás dele e conseguiram interrogá-lo em segredo. Na conversa com Mahmood, Osama disse-lhe que tinha conseguido (possivelmente no Uzbequistão) uma pequena quantidade de urânio enriquecido. De fato, em 1993 a Al Qaeda pagou US$ 1,5 milhão por um cilindro que continha urânio. Levou algum tempo para descobrir que caíra num conto-do-vigário, ou num conto-da-CIA. Em 2003, a CIA pôs a mão em 170 gramas de urânio enriquecido a 93% (puro para uma bomba, mas em quantidade insuficiente para uma explosão). O combustível saíra de um depósito russo e chegara à Geórgia. Três anos depois, na mesma rota, apareceu mais uma carga, vinda da mesma rede de contrabandistas.
A boa notícia: entre a posse de algo como 20 quilos de urânio enriquecido e uma explosão, vai enorme distância.

ELIANE CANTANHÊDE

Enquanto a TV não vem
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SÃO PAULO - 18/04/10


BRASÍLIA - Serra fez uma aposta arriscada ao empurrar até o último minuto o lançamento de sua candidatura à Presidência, para desespero e/ou irritação de tucanos, demos e do pessoal do PPS. Mas, aparentemente, sua estratégia estava correta. Foi na hora certa.
Depois do susto da oposição em fevereiro, quando Dilma encostou em Serra, com apenas quatro pontos de diferença, a sensação entre os serristas é a de que o pior já passou. Ao menos nesta fase da campanha.
Com tempestades, alagamentos e mortes em São Paulo e a consequente perda de pontos de Serra, Planalto, PT e Dilma imaginavam -na mesma proporção que PSDB e Serra temiam- um cruzamento nas curvas das pesquisas, com a petista avançando para a dianteira e o tucano escorregando para o segundo lugar em março ou abril.
Já imaginou o clima de enterro na festa de Serra se ele tivesse caído do patamar de 30% e ficado atrás da adversária? Mas isso não se concretizou, e o novo Datafolha de certa forma cristaliza a posição dos dois favoritos, que disputam pau a pau.
Mudanças, se houver, só depois da Copa e com o início da TV.
O pessoal da Dilma não deve estar dando pulos de alegria, mas a situação deve estar feia mesmo é numa outra seara: na de Ciro Gomes, que vai sendo sugado para a vaga de lanterninha, enquanto Marina Silva vai caminhando muito devagar, mas devagar e sempre.
Não erra, distingue-se dos opositores com elegância, provoca na hora certa. Deixa um rastro de possibilidades: no final, quem não engole Serra ou Dilma, mas não chegar a se encantar com o adversário direto de um ou da outra, sempre terá essa saída, digamos, honrosa.
Desde o início, parece claro que Marina não é para ganhar, mas para ocupar um vácuo, fazer bonito. E o que está cada vez mais evidente é que Ciro não tem vez: nem no governo, nem na oposição, nem no próprio partido. Quis ser tudo, corre o risco de não ser nada.

WALCYR CARRASCO


O silêncio dos pais

Walcyr Carrasco 

REVISTA VEJA SÃO PAULO - 21/04/2010

O silêncio dos pais-
Há pouco tempo, recebi a visita de um amigo acompanhado por um casal com um filho pequeno. O garoto, inquieto, se remexia no colo da mãe e gritava, enquanto conversávamos. Sem me pedir, a mãe pegou um tamborzinho hindu que estava dependurado na parede e deu para o filho brincar. O menino se acalmou. Continuei a conversa com um olho nas visitas, outro no tambor. Tratava-se de um presente enviado por uma grande amiga que vive na Inglaterra. Na despedida, o garoto continuava com o tambor. Sorridente, a mãe declarou:
— Agora não dá mais para tirar dele! Vai ter de levar!
— Sinto muito, mas é de estimação — respondi.
Brava, a mulher convenceu o filho a me devolver o tamborzinho. Soube mais tarde que me achou um “mal-educado”. Pensei: e o garoto? Vai crescer achando que pode entrar na casa alheia e pegar o que quiser!
Certa vez recebi a visita de um casal de amigos com o filho de 6 anos. O pimpolho começou a pular no meu pufe de camurça, sem parar, como se fosse uma cama elástica. A mãe olhou e sorriu. O pai nem prestou atenção. As botinhas sujavam o tecido. Fico sem jeito diante da falta de educação alheia. Timidamente, pedi:
— Pare de pular, senão vai estragar o pufe.
Ofendida, a mãe disse não gostar que dessem ordens a seu filho. Meu pufe ficou cheio de marcas. Tive de trocar o tecido! Em restaurantes, então, nem se fala. Em um sábado, eu e um amigo fomos almoçar em uma cantina italiana. Mesas adiante, um garotinho saltou da cadeira. Correu pelo salão aos gritos. Os pais comiam calmamente enquanto ele infernizava o restaurante inteiro. De vez em quando, a mãe o chamava com voz fraca:
— Vem cá...
O menino não obedecia. Trombou nas pernas de um garçom e caiu no chão. Gritou tão alto quanto um personagem de filme de terror. O pai dispôs-se a abandonar o prato de lasanha para pegá-lo no colo. Ele gritou ainda mais alto. Logo passou. Em minutos, o garoto voltou a se comportar como se estivesse no playground de seu prédio.
É injusto dizer que isso é coisa de brasileiro. Recentemente, em uma viagem a Edimburgo, na Escócia, tomei um ônibus turístico, que percorria a cidade com uma guia explicando seus principais pontos. No primeiro banco se sentava uma mulher com uma menininha linda, de uns 2 anos. A garota não parava de gritar. O passeio se tornou torturante. A guia de meia-idade tentava delicadamente conter a garota. A mãe não dizia uma palavra. Finalmente, a guia pediu:
— Por favor, fique quieta. Deixe os outros passageiros aproveitarem!
A menina não entendeu. A mãe continuou muda. Ausente.
Pior é quando acontece em viagem de avião. Sei que é exaustiva para uma criança, mas também é desesperador ouvir gritinhos ou choros horas a fio sem que os pais nem tentem resolver a situação.
Quando criança, eu tinha uma boa ideia de como devia me comportar. Minha mãe avisava ao sair de casa:
— Não vá fazer manha!
Cresci com a noção de que se deve respeito ao próximo. Os pais podem evitar atividades cansativas que alterem o humor da criança. Já vi uma jovem em um museu com o filho de colo. Obviamente, o menino se irritou. Também existem situações inevitáveis, como viagens. Sinto uma solidariedade instintiva diante de pais que viajam com crianças pequenas. Terrível é quando deixam os filhos tripudiarem sem um gesto sequer.
Definir limites é importante. Que educação é essa que não ensina o respeito ao próximo? Mas talvez certos pais modernos achem que também podem tudo. Esse é o problema.

CLÓVIS ROSSI

O Bric e a fraude
CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SÃO PAULO - 18/04/10


SÃO PAULO - O grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) cobrou pela enésima vez, na cúpula de quinta-feira, em Brasília, a reforma da governança global. Justo, muito justo. Mas deveria começar pela própria sigla.
Trata-se de uma invenção da Goldman Sachs, essa empresa que agora está sendo investigada nos Estados Unidos por suspeita de fraude com um dos incontáveis mecanismos opacos de investimento que os corsários do sistema financeiro criaram nos últimos anos e foram em boa medida responsáveis pela crise global.
Em 2001, um economista do grupo decretou que os quatro países logo seriam potências mundiais. Não estou dizendo que é uma fraude, mas a própria Goldman Sachs, ao se defender agora, produziu um argumento que se aplica perfeitamente ao Bric.
Disse que "certamente" não sabia se o valor dos instrumentos que vendeu "iria subir ou cair".
O acrônimo Bric era também um instrumento vendido pela firma: destinava-se a projetar um futuro radioso para tais países de forma a atrair investimentos.
Tanto no Bric como no CDO (o instrumento usado na suposta fraude) aplica-se idêntico raciocínio: não dá para saber se o valor deles vai subir ou cair.
Não obstante, os governos dos quatro países "compraram" o instrumento e criaram o primeiro grupo de países que não tem origem político-diplomática, mas é fruto de uma invenção de um dos banqueiros de olhos azuis que o presidente de um dos quatro culpou pela crise.
Tudo somado, parece claro que, se é necessário reformular a governança global -e é-, um bom começo seria barrar a possibilidade de a pátria financeira decidir quem deve subir e quem deve cair (a Goldman Sachs está envolvida também na fraude que facilitou à Grécia endividar-se demais).

JAPONESA SABOROSA

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Tamanho ideal
LUIS FERNANDO VERÍSSIMO
O GLOBO - 18/04/10


Velha questão: que tamanho deve ter um jogador de futebol? Resposta óbvia, sujeita a desmentidos notórios: depende da posição. Jogador de defesa deve ser alto, mas um dos melhores zagueiros que já vi jogar, o Gamarra, era baixo. Goleiro quanto maior melhor, mas goleiro pequeno, segundo uma teoria não muito séria, tem a vantagem de estar mais perto do chão pra pegar a bola rasteira e ter menos peso pra carregar quando pula no ângulo. Meio-campista ideal é o que tem massa física para trombar com o adversário e altura para descortinar o campo todo. Pode-se até batizá-lo de Meia Descortinador. Mas os melhores da função em ação no futebol brasileiro hoje, o Hernanes do São Paulo e o Arouca do Santos, não têm nem massa nem altura. Já o Sandro do Internacional tem a massa e a altura mas não descortina bem.
O fim dos pontas no futebol também significou o fim de uma estirpe, a dos ponteirinhos ciscadores. Aqueles baixinhos elétricos que passavam por baixo das pernas do seu marcador mas voltavam para passar de novo, fiéis ao seu destino de inconsequentes. O futebol moderno que dispensou os ponteirinhos também determinou que os outros atacantes tivessem pelo menos tamanho de atletas. Faz parte da história, ou talvez apenas do folclore, do bem-sucedido técnico Rubens Minelli o portal de uma certa altura que mandava instalar quando chegava num clube. Jogador que não precisasse se abaixar para passar pelo portal não entrava no seu time. Mas de todos os atacantes de grande sucesso dos últimos anos, começando pelo Pelé – Zico, Maradona, etc – poucos, como o Kaká e o Riquelme, teriam que se encolher para passar pelo hipotético portal do Minelli. Nem a obviedade que centroavante precisa ser alto e forte resiste a exceções como Romário e Nilmar, por exemplo.
Os dois jogadores mais em evidência no nosso noticiário esportivo do momento, Neymar e Messi, são os mais recentes desafios a qualquer ortodoxia sobre tamanho de jogador de futebol. Neymar é um fiapo, um tísico de romance antigo, e Messi, a julgar pelo físico, encontraria sua verdadeira vocação varrendo gelo no curling, aquele outro esporte apaixonante. E os dois estão aí, estraçalhando defesas. 

CLÁUDIO HUMBERTO

“A Procuradoria sugere que se restrinja a pauta”
PARECER DA PGR, SOBRE A INTERVENÇÃO NA CÂMARA LEGISLATIVA DO DISTRITO FEDERAL

TEMENDO EXTINÇÃO, DEPUTADOS RACHAM O DEM 
Deputados do DEM, entre os quais Onyx Lorenzoni (RS), Alberto Fraga (DF) e Ronaldo Caiado (GO), articulam um movimento para renovar a direção do partido. O grupo pretende destronar os veteranos, como o ex-senador Jorge Bornhausen, que continuam mandando mesmo após sua presidência ter sido entregue ao jovem deputado Rodrigo Maia (RJ). O grupo concluiu que o DEM deve se renovar ou desaparecerá.

EM BAIXA 
Adesivo que circula nos para-brisas no Rio, em letras garrafais: “Fora, Cabral”. Não é referência a Pedro Álvares, com certeza.

O RETORNO 
Praticamente empatados nas pesquisas, os alagoanos Heloisa Helena (PSOL) e Renan Calheiros (PMDB) podem voltar ao Senado, em 2011.

EL CARA 
ONGs gays do Brasil estão en-can-ta-das com o presidente do Chile, Sebastián Piñera, que apoia a criminalização da homofobia.

DE MULHER PARA MULHER
A Secretaria Especial para Mulheres entra renovada na campanha da companheira Dilma: renovará sua rede de informática por R$ 492 mil. 

LULA X JUÍZES: ‘NO LIMITE DA RESPONSABILIDADE’
O presidente Lula disse que foi “mal interpretado”, mas a frase, semana passada, sugerindo insubordinação aos juízes, “raspou” no crime de responsabilidade, segundo os artigos 85 e 86 da Constituição, que prevê impeachment no caso de “opor-se diretamente e por fatos ao livre exercício do Poder Judiciário”. Quase esbarrou também no “cumprimento das leis e decisões judiciais”, ironizando multas do TSE. 

AH, SIM 
Lula recuou dizendo que criticou “os partidos políticos” e não “o juiz que a cada eleição diga o que a gente pode ou não pode fazer”. 

POR UM TRIZ
Para muitos juízes, revoltados, a frase foi “uma opinião”, mas qualquer cidadão poderia representar contra Lula na Câmara dos Deputados. 

SÓ EM 2011
O setor pecuarista de Rondônia vai solicitar, apenas em 2011, ao Ministério da Agricultura o status de área livre de febre aftosa. 

EM CIMA DO MURO
O comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, não confirma nem nega que os caças Rafale têm a preferência do governo, como garantiu o ministro Nelson Jobim (Defesa) na Câmara, dia 7. A opção técnica da FAB é secreta, e pode ficar entre o F-18 americano e o sueco Gripen.

CAMPANHA DE PULSO
Depois da “pulseira do sexo”, a coluna sugere aos fashionistas a criação da “pulseira ficha-suja”, um brinde do eleitor à espera das longínquas algemas. Rosa, caixa2; amarela, peculato; azul, fraude; lilás, formação de quadrilha, e preta, homicídio. 

AVISO PRÉVIO
Em liberdade após dois meses preso, ex-governador José Roberto Arruda não está muito satisfeito com sua defesa. Acha que poderia ter sido solto antes. Procura sugestões de escritórios de advocacia.

NA BATALHA
Chamado de “engavetador-geral da República” no governo FHC, Geraldo Brindeiro, 61, continua no batente atuando como procurador. Pode ficar na ativa até 2018, ao completar a idade-limite de 70 anos.

TROÇA MINEIRA
Placa em um bar em Bichinho, perto de São João del Rey (MG), pergunta à freguesia: “O que é que coaxa e tem o rei na barriga?” A resposta na placa está de cabeça para baixo: “Sapo barbudo”.

NEM MORTO
O jornal britânico Daily Telegraph destaca o caso de uma jovem da Croácia, que despertou do coma de 24 horas falando alemão fluente, em lições de iniciante pela TV. Tem candidato nestas eleições que ainda não fala sequer o português. 

NOVO VESPEIRO
Após a denúncia de que o escritório da mulher do governador do Rio, Sérgio Cabral, advoga para o metrô, vem aí nova encrenca: contratar “em casos excepcionais” advogados particulares em causas do Estado.

QUEDA LIVRE
Primeira faculdade privada de Brasília, a UDF parece perder qualidade, depois de ser vendida a um grupo paulista. No mais recente exame da Ordem, da OAB, caiu do primeiro para terceiro lugar em aprovação.

PENSANDO BEM...
... a guerrilha da candidata Dilma agora é com as palavras. 

PODER SEM PUDOR 
VOTOS À DISTÂNCIA
Como prometeu, Joaquim Francisco concluiu em 1994 o mandato de governador de Pernambuco, sem se candidatar a qualquer cargo. Preferiu aceitar uma assessoria no Banco Mundial, em Washington. Seu pai, José Francisco, político à antiga, não conseguia compreender o que Joaquim faria num lugar tão distante, logo ele, que ganhava a vida fazendo política:
– Meu filho, lá nessa tal de Washington tem voto?