domingo, abril 11, 2010

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Brasil precisa de Arca de Noé!
FOLHA DE SÃO PAULO - 11/04/10

Mas tem que ser uma arca nova, porque a do Noé deve estar com um cheiro de mofo horrível


BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!
"Kate Moss faz topless no Peru!" Ué, mudou de lugar? Agora é top no Peru? E sabe como se chama topless em Portugal? Tetas ao léu!
"Britânica de peito gigante quase mata namorado durante o sexo." Mas não de prazer. Ela quase matou mesmo. Sufocado pelos peitos! Pense em dois bumbuns de elefante te sufocando. E ela: "Ele começou a me bater, mas eu achei que ele estivesse excitado, até que ele parou de se mexer". Pra sempre? Tentativa de homicídio. Ops, PEITOCÍDIO!
E o Brasil tá precisando de uma Arca de Noé! Mas nova. Porque a do Noé deve estar com um cheiro de mofo horrível. E eu ouvi uma evangélica berrando no rádio: "Mofo? Vazamento? Dor no corpo? É ENCOSTO". O planeta tá com encosto.
E o Rio? Olha essa: "Querido Noé, quando a arca estiver pronta, não se esqueça do par de antas. Assinado: Paes e Cabral". O Rio descobriu o Cabral. O Rio se acabando e o Lula, Paes e Cabral falando do PAC: OS TRÊS PACTETAS!
E programa de paulista é convidar os amigos pra ver a chuva pela janela. "Ah, vem ver a chuva aqui em casa que a gente chama uma pizza". E quem vai entregar a pizza? O comandante Hamilton do helicóptero do programa do Datena.E no meio da tragédia, a ironia: Rio Boat Show adiado! E não se esqueça: não pode jogar lixo e nem votar em lixo! Eu já tô ficando com cara de ácaro!
E outra do Peru: "Peru isenta o papa Bento 16". A recíproca é verdadeira. O papa Bento 16 isenta o peru! Continua a sacranagem. A PADREFOLIA! E pegaram um padre com quatro menores no motel. Aí não é mais pedofilia, é gulodice!
E os quatro "não pode" das enchentes: 1) Não pode sair de casa; 2) Não pode sair de casa. Senão a capota aparece boiando no "Jornal Nacional"; 3) Não pode jogar lixo e NEM VOTAR EM LIXO; 4) Não pode chapinha. Devido às chuvas, as chapinhas estão suspensas.
E é sempre assim. Congonhas opera por instrumentos. Pandeiro, cuíca, reco-reco e tamborim. E Rodoanel é todo mundo de rodo na mão!
Ereções 2010! A agenda das inaugurações. O Serra Vampiro Anêmico vai inaugurar o metrô Trans Vampiro, das 3 às 6h da manhã. Aliás, com aquele astral, devia lançar o vale-cemitério. Se ele ganhar, você já tem onde cair morto! E a Dilma vai inaugurar o puxadinho do bar do Zé Peidão, em Maragogipe. E o novo slogan da Dilma: Vote em Dilma! Pra acabar com o Brasil, DILMA VEZ. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. E vai indo que eu não vou!

SERRA PRESIDENTE

ANCELMO GÓIS

Ferro do Brasil
O GLOBO - 11/04/10
 
O aumento do preço do minério de ferro no mercado internacional vai ajudar mais uma vez as contas externas do governo Lula.

Ano passado, as vendas da Vale atingiram US$ 12 bilhões (90% com exportação). Este ano, devem saltar para US$ 22 bilhões.

Bola no peito
Rodrigo Santoro está tendo aulas de futebol com o ex-artilheiro Cláudio Adão.

O ator vai interpretar nas telas o craque-galã dos anos 1940 Heleno de Freitas, num filme dirigido por José Henrique Fonseca.

Atenção, Dunga 
Adão, que é genro do senhor cinema Barretão, diz que Santoro tem sido um aluno aplicado: — Treinamos muito bola no peito, que era a especialidade de Heleno.

Cassetas na telona
Depois do documentário sobre Simonal, dirigido por Cláudio Manoel (com Micael Langer e Calvito Leal), o pessoal do Casseta só pensa em cinema. Começa a ser rodado em setembro “Agamenon — o filme”, sobre o “colunista” do GLOBO criado por Marcelo Madureira e Hubert.

Já Beto Silva fechou com a TV Zero a produção de um longa de ficção baseado no seu livro “Julio sumiu

Aliás... 
Cláudio Manoel também voltará às telonas.

Começou a escrever o roteiro de um, acredite, drama.

No mais 
Do economista Sérgio Besserman, sempre gaiato, depois de olhar fotos de Dilma e Dunga: — Estou achando que os dois são a mesma pessoa.

Têm o mesmo estilo, a mesma personalidade...

Faz sentido

DOMINGO É DE 
Débora Falabella, de 31 anos, a talentosa atriz que volta à TV a partir de amanhã, em “Escrito nas estrelas”, a nova novela das 18h da TV Globo, para interpretar sua primeira vilã. Ela será a fútil Beatriz, que segue todos os planos da mãe, Sofia, vivida por Zezé Polessa, para conquistar a fortuna da família Aguillar. Na vida real, Débora vai se revezar entre o Rio, endereço das gravações, e São Paulo, onde vive com a filha pequena.


Namorado para Luiza 
De Luiza Brunet sobre a sua declaração, à repórter Melina Dalboni, de que estava “há dois anos e pouquinho sem sexo”: — As pessoas acharam maravilhoso, e algumas mulheres disseram que fui corajosa. Parece que quando você diz que não faz sexo comete um pecado, um delito.

Você pode ficar sem sexo

Lenda urbana
Só que depois da revelação, cresceu na internet o boato de que ela estaria namorando um figurão de Brasília. A modelo, que excede em beleza e simpatia, não fugiu do tema: — Vi as notícias no Google, mas não sei de onde veio. Tenho a impressão de que foi inventado em Brasília, deve ter partido de alguma mulher

Em tempo 
Desde que a entrevista saiu, O GLOBO já recebeu uns 150 e-mails de candidatos a namorado da nossa eterna musa

ZONA FRANCA

O chef Volkmar Wendlinger, da Casa da Suíça, festeja o título de Cidadão Honorário do Rio.

Leda Nagle festeja a nova temporada do “Sem censura” amanhã.

A psicóloga Jurema Bedin (sboscardin@terra.com.br) fez cursos com Leslie Temple na África e na Oneness University, na Índia.

O cirurgião Ribamar Azevedo aceitou convite para dar aula em congresso mundial em Washington.

Anna e Hermann Baeta festejam aniversário de casamento com a família, em Alagoas.

O Assim Saúde participa da Campanha Nacional da Voz.

Hoje, o senador Dornelles está no “Deles e delas”. Entre os entrevistadores, Júlio Lopes.

Sinuca de bamba

Nas rodas de samba carioca não se fala em outra coisa. Aldir Blanc, o grande poeta (na foto), vai leiloar sua mesa de sinuca com direito, a gosto do freguês, a uma dedicatória do compositor no pano verde. Cedeu aos argumentos da mulher, Mari Lúcia.

— A mesa tem uns 25 anos. O fabricante pediu um jingle ao Aldir e não teve dinheiro para pagar.

Acabou nos dando a mesa.

Vamos leiloá-la — conta Mari

Saco plástico 
Em julho, Carrefour, Pão de Açúcar, Walmart e outros supermercados no Rio vão abolir as sacolas de plástico, que ajudam a entupir bueiros e ralos.

A lei que obriga a trocar o saco plástico por bolsas retornáveis entra em vigor em julho para supermercados maiores. Os de porte médio terão mais um ano, e as microempresas, dois para cumprir a determinação.

Sem negociação
Um empresário ofereceu R$ 20 milhões pela cobertura de Ronaldo Fenômeno no Leblon.

Mas o craque, de bem com a vida e com o bolso, recusou.

Humor na tragédia 
Sexta, na Saara, no Rio, um vendedor oferecia as “galochas de Noé — é botar e dar no pé!” Outro, sobre um banquinho, vendia boias para adultos: “Boia inflável — mais barata e mais segura do que guarda-chuva.”

O temporal do Twitter

Foi uma semana medonha, daquelas que a gente não vai se esquecer. Entre tanta miséria, salvou-se — quem diria — a reputação do Twitter. Por aqui, nunca o microblog (veja o símbolo da rede, abaixo) foi tão útil para tanta gente ao mesmo tempo. No temporal de segunda e terça, twitteiros aliviaram a preocupação de muitos cidadãos perdidos na grande bagunça daqueles dias. Alertaram para riscos, indicaram ruas a evitar, sugeriram melhores caminhos, retransmitiram notícias de todas as fontes.

À sua maneira, boa parte da twittagem do país interrompeu sua “programação normal” — tão afeita a inutilidades — e tentou organizar o caos. Assim foi no Rio, em Niterói, em Salvador... O Twitter redimiu-se da má fama (de resto, infundada) e começou a ser levado a sério. Foi infinitamente mais útil do que o site da Cet-Rio, por exemplo.

Enfim, os twitteiros contribuíram com sua agilidade e sua boa vontade. Lembraram a turma dos bravos radioamadores — que, merece registro aqui, também andaram trabalhando muito na última semana.

Chico Xavier, os livros

Com o sucesso do filme “Chico Xavier” (na foto, Nelson Xavier, em cena, como o médium), os dois livros do escritor e jornalista Marcel Souto Maior, “As vidas de Chico Xavier”, no qual o filme é baseado, e “Chico Xavier — A história do filme de Daniel Filho”, inspirado na produção do longa, estão faturando como a obra cinematográfica.

O livro sobre o filme está no topo da lista dos mais vendidos, categoria não ficção, do GLOBO. O outro é o segundo.

COM ANA CLÁUDIA GUIMARÃES, MARCEU VIEIRA, AYDANO ANDRÉ MOTTA E BERNARDO DE LA PEÑA

ELIO GASPARI

A Febraban teve um apagão moral de 24 horas
FOLHA DE SÃO PAULO - 11/04/10

O Rio estava de joelhos e a banca informou aos cariocas que cobraria a multa-inundação


O PRESIDENTE da Federação Brasileira de Bancos, Fábio Barbosa (Santander), e seus dois vice-presidentes, José Luiz Acar (Bradesco) e Marcos Lisboa (Itaú Unibanco), deveriam marcar um almoço para responder à seguinte pergunta: "Que tal fecharmos nossa quitanda?"
O Rio estava de joelhos (a sede da guilda fica em São Paulo), os mortos já beiravam a centena, os desabrigados eram milhares, e a Febraban emitiu uma nota oficial informando o seguinte:
"Somente em caso de decretação de calamidade pública é que os bancos poderão receber contas atrasadas sem cobrar os juros de mora estabelecidos pelas empresas que emitiram os títulos e boletos de cobrança." (Havia a calamidade, mas faltava o decreto.)
Nenhuma palavra de pesar, muito menos misericórdia. Recomendavam aos clientes que usassem o telefone, a internet ou recorressem aos caixas eletrônicos, sem explicar como chegar a eles. Centenas de agências bancárias estavam fechadas.
Exatas 24 horas depois, a Febraban voltou atrás. Aliviou as multas, os juros e ofereceu os serviços dos bancos para orientar as vítimas que porventura já tivessem sido mordidas.
Recuou com a mesma arrogância da véspera. Nenhuma palavra de pesar. Ao contrário. Em tom professoral, a guilda dos banqueiros ensinou: "Cabe lembrar que a cobrança é um serviço que os bancos, sob contrato, prestam às empresas titulares dos valores a serem pagos". Se é assim, por que recuou?
A Febraban deve ser fechada porque, tendo sido criada para defender os interesses de uma banca que gostava da sombra, tornou-se um ativo tóxico. Numa época em que as grandes casas de crédito gastam fortunas para divulgar seus compromissos com a sociedade, a Febraban arrastou-as para um apagão moral.
Há uma diferença entre banqueiro e usurário. Amadeo Giannini, por exemplo, era banqueiro. Em 1906, logo depois do terremoto e do incêndio de San Francisco (3.000 mortos), ele foi ao cofre de sua pequena casa bancária, tirou cerca de US$ 40 milhões (em dinheiro de hoje) e montou uma bancada no meio da rua. Enquanto os magnatas de colarinho engomado fechavam suas agências, Giannini concedia empréstimos, pedindo apenas a garantia de um aperto de mão. Ele morreu em 1949, rico, famoso e respeitado, dono do Bank of America. Pelas suas memórias, recebeu de volta até o último centavo. Na terça-feira, não havia banqueiro na Febraban.
DINHEIRO, HÁ
O prefeito Eduardo Paes pediu R$ 270 milhões ao governo federal para acabar com o alagamento da praça da Bandeira.
Faria melhor destinando à prevenção de enchentes os R$ 120 milhões que separou para gastar em publicidade. Depois, pediria ao governador Sérgio Cabral que lhe desse R$ 150 milhões do ervanário de R$ 180 milhões que pretende encharcar em propaganda. Secaria a praça e sobrariam R$ 30 milhões.
COTAS
Um novo manifesto defendendo as cotas nas universidades públicas brasileiras. No gênero, é inovador. Em vez de partir de um texto coletivo, subscreve o parecer apresentado pelo historiador Luiz Felipe de Alencastro na audiência pública realizada no Supremo Tribunal Federal, em cuja pauta está a discussão da constitucionalidade da iniciativa. Até agora o manifesto recebeu a adesão de 103 professores de universidades, na sua maioria especialistas em história da escravidão e do período posterior à abolição. Entre eles: João José Reis ("Rebelião Escrava no Brasil"), Manuela Carneiro da Cunha ("Negros, Estrangeiros: Os Escravos Libertos e sua Volta à África"), Lilian Schwarcz ("O Espetáculo das Raças"), Flávio Gomes ("A Hidra e os Pântanos") e Sidney Chalhoub ("Machado de Assis, Historiador").
É um texto longo, com 3.600 palavras. Alencastro, que leciona na Sorbonne, descreve o aparelho da escravidão e a estrutura do contrabando em que se assentou o tráfico a partir de 1818. Na segunda metade do trabalho, contesta a arguição de inconstitucionalidade das cotas, interposta pelo DEM. Vale mais lê-lo na internet do que resumi-lo.
DESFEITO O MISTÉRIO, MAXWELL ESTAVA CERTO
A turma do National Security Archive, instituição dedicada à pesquisa de documentos do governo americano, encontrou o elo perdido para entender a conduta do então secretário de Estado Henry Kissinger diante da Operação Condor, às vésperas do assassinato do ex-chanceler chileno Orlando Letelier, em setembro de 1976.
Letelier vivia em Washington e foi morto a poucos quilômetros da Casa Branca, quando seu carro explodiu. A bomba foi colocada por um agente do serviço secreto chileno, mas restava um mistério: o crime poderia ter sido impedido?
A CIA descobrira a Operação Condor e informara ao Departamento de Estado que se tratava de um esquadrão da morte montado por ditaduras latino-americanas para exterminar oposicionistas que viviam no exílio.
O secretário-assistente de Estado para a América Latina, Harry Shlaudeman (que mais tarde viria a ser embaixador no Brasil), levou o caso a Kissinger e, no dia 18 de agosto, ele determinou que os embaixadores americanos no Chile, no Uruguai e na Argentina buscassem um contato "no mais alto nível" para denunciar e condenar a organização. Dois embaixadores refugaram. Shlaudeman queria insistir, mas, inexplicavelmente, no dia 20, uma segunda-feira, ele próprio cancelou as gestões. Na terça, o carro de Letelier explodiu.
Em 2004, o professor Kenneth Maxwell, autor de "A Devassa da Devassa", obra clássica sobre a Inconfidência Mineira, publicou na revista "Foreign Affairs" uma resenha do livro "O Dossiê Pinochet", de Peter Kornbluh, mencionando a intimidade de Kissinger com as ditaduras latino-americanas. Maxwell dirigia o programa latino-americano do Council on Foreign Relations, que publica a revista, e foi contestado por uma carta. Como não lhe foi dado o direito de réplica, demitiu-se do Council, indo para Harvard.
O mistério persistia. Os amigos de Kissinger defendiam-no, argumentando que ele "não teve nada a ver" com o telegrama de Shlaudeman de 20 de agosto. Maxwell sustentou por seis anos que o embaixador jamais revogaria uma ordem de Kissinger a seu bel-prazer. Pedia, sem sucesso, que o ex-secretário de Estado esclarecesse a questão.
O elo perdido foi achado no meio de dezenas de milhares de telegramas oficiais. Datado de 16 de setembro e expedido pela embaixada em Zâmbia, onde estava Kissinger, foi curto: "A respeito desse assunto não devemos tomar novas iniciativas".
Foi Kissinger quem cancelou as gestões. Agora a dúvida será outra, eterna: se Pinochet tivesse recebido o recado americano, a bomba teria explodido?

PEDRO S. MALAN

Confiança e credibilidade
O Estado de S.Paulo - 11/04/10

O saber simular (parecer aquilo que não é) e o saber dissimular (não parecer aquilo que é) há séculos são considerados expressões de sabedoria política. São três as grandes vantagens da simulação e da dissimulação - escreveu Bacon há 400 anos. "Primeiramente, fingir uma oposição adormecida, e surpreender. Pois se as intenções de um homem são anunciadas, segue-se um toque de alarme para reunir todos os que a elas se opõem. A segunda é resguardar para a própria pessoa um refúgio satisfatório. Pois se um homem se compromete com alguma declaração, ou bem ele avança ou cai. A terceira é descobrir o que se passa na mente do outro."

Há também três desvantagens - nota o mesmo autor. "A primeira, que a simulação e a dissimulação costumam ter um aspecto de receio, que costuma estragar o encaminhamento de qualquer negócio. A segunda, que ambas confundem e desorientam a disposição de muitos, que talvez se dispusessem a cooperar. A terceira desvantagem, e a maior de todas, é que elas privam o homem de um dos principais instrumentos de ação, isto é, confiança e credibilidade."

Na verdade, Bacon sintetizou uma tradição milenar do realismo político, muito anterior a Maquiavel, que sempre considerou que ao governante fosse lícito aquilo que Bodin denominou "a mentira útil, como se faz com as crianças e os doentes". Todavia, como notou Bobbio, "a comparação de súditos (ou eleitores) com crianças e doentes fala por si só: as duas imagens mais frequentes nas quais se reconhece o governante autocrático (ou de instintos e propensões a tal), são aquelas do pai e do médico: os súditos (ou eleitores) não são cidadãos livres, saudáveis e responsáveis. São ou menores de idade que devem ser cuidados e educados, ou doentes que devem ser curados e cuidados." Esse tipo de político - continua Bobbio - pode simular e dissimular, "tanto mais impunemente quanto mais os (eleitores) não têm à sua disposição os meios necessários para controlar a veracidade daquilo que lhes foi dito".

Essas observações abriram um artigo que publiquei neste espaço já lá se vão alguns anos (Descolamentos Preocupantes, 8/7/2007). Volto a elas por duas razões. A primeira, porque, relendo recentemente os Analects de Confúcio, fiquei mais impressionado do que na primeira leitura, décadas atrás, com a recorrência e o papel central, no confucionismo, da importância de uma pessoa ser confiável naquilo que diz, viver de acordo com suas palavras e de ser mais rápida e eficaz nas ações que realiza que no uso do seu palavreado - que não deveria variar conforme a audiência e as circunstâncias do momento.

A segunda razão tem que ver com o fato de que faltam apenas seis meses para uma eleição de crucial importância para nosso futuro. Uma eleição que não será disputada por um ex-presidente e por um quase ex-presidente (ambos respeitáveis e aos quais o País tanto deve), mas por candidatos (também respeitáveis) que se apresentam ao eleitorado como alternativas para governar o País no futuro, mirando os próximos quatro anos. É sobre esses últimos - nomes, biografias, experiências, propostas, pessoas e forças que os apoiam - que deveria estar o foco do eleitor e dos meios de comunicação. Tentando avaliar quem poderia, governando, fazer mais - e melhor - na prática, não na quantidade de promessas de campanha.

Não se trata tanto da tradicional demanda por um "programa de governo". Mas de claras definições, não genéricas, sobre a natureza dos desafios a enfrentar e das prioridades da hora e para o próximo quadriênio - de maneira que possam ser percebidas, pelo leitor, como algo que lhe diga respeito, que para ele faça sentido, que o ajude a avaliar e refletir sobre sua circunstância, sua comunidade, seu país, seu mundo e seu futuro.

Não deveria ser impossível apresentar ao eleitorado uma visão mais ou menos coerente sobre o muito que há por fazer para tentar assegurar o desenvolvimento econômico, social e tecnológico de forma sustentada. O que exige a consolidação de avanços na área macro, uma visão fiscal de médio e de longo prazos, além de muitos avanços adicionais em infraestrutura, bem como nas áreas micro, regulatória, educacional, de reformas e de meio ambiente.

Não é fácil fazê-lo. Nunca foi e nunca será, mas o debate talvez pudesse ajudar a separar discussões e propostas sérias de charlatanismos e demagogias. A distinguir ações efetivas de voluntarismos que se dissolvem no ar. A avaliar a consistência dos IGPPr"s (como citou Elio Gaspari) os "índices gerais de promessas presidenciais" nas suas versões A, de ampliadas, e E, de expurgadas de promessas não cumpridas ou simplesmente esquecidas, porque não eram mesmo destinadas a sobreviver o curto espaço de uma campanha.

Afinal, "ninguém mais hoje acredita que dois mais dois podem ser cinco desde que haja vontade política". Como disse o ilustre ex-ministro Delfim Netto ao se referir ao aparente abandono das ilusões voluntaristas que tanto marcaram o debate econômico e político no Brasil. O próprio ministro acha que seu "ninguém mais" talvez seja um exagero. Mas o fato é que os brasileiros, hoje (talvez em sua maioria), não acreditam mais em mágicas, messianismos, rupturas e bravatas. Graças em larga medida a um quarto de século de democracia e, particularmente, a uma grande imprensa livre e independente que permite o diálogo do País consigo mesmo, o Brasil, quero crer (espero que não ingenuamente), acredita hoje mais em trabalho sério, persistência, coerência, continuidade do que deva ser preservado, mudança pensada do que deva ser mudado, mais ação operacional consequente, resultados efetivos, mais ética na política. E em candidatos que tenham o dom "confuciano" de parecerem, e serem, "confiáveis naquilo que dizem" - e se propõem a fazer.

ECONOMISTA, FOI MINISTRO DA FAZENDA NO GOVERNO FHC

ELIANE CANTANHÊDE

O partido das massas cheirosas

FOLHA DE SÃO PAULO - 11/04/10

BRASÍLIA - "Estarei a seu lado, governador José Serra, onde quer que eu seja convocado", discursou Aécio, saudado aos gritos de "vice, vice, vice" no lançamento de Serra à Presidência ontem.
PSDB, DEM e PPS deliraram, mas a alegria durou pouco, até Aécio, curiosamente, explicar que disse uma coisa querendo dizer outra. Primeira leitura: se convocado, ele aceitaria ser vice. Explicação posterior do próprio: se convocado, vai desfilar pelo país com Serra. Típica tucanice, que reacende a suspeita de que Aécio vá lavar as mãos mais uma vez para o candidato tucano.
Afora isso, a festa de Serra foi surpreendente. Quem está acostumado a comparar a energia petista e a chocha elegância tucana nesse tipo de encontro ficou impressionado com a inversão. O lançamento de Dilma Rousseff foi um show protocolar; o de Serra foi uma bagunça, com pessoas aos berros por espaço, suadas, espremidas e animadas.
Pode nem ser, mas o PSDB evidentemente se esforçou para parecer um partido de massas. Para não deixar dúvidas, porém, um velho assessor ironizou: "Mas de massas cheirosas..." De fato, até os ônibus que carregaram a militância eram novinhos em folha.
Outro dado: se nos bastidores a cúpula tucana chegou a discutir se FHC deveria ou não discursar, o que equivale a questionar se devem ou não escondê-lo, na convenção ocorreu o contrário: ele foi um dos mais ovacionados.
Serra, contido, fez comparações com Lula e com o PT. Usou verbos no plural para elencar os avanços brasileiros, que não são de hoje, mas dos últimos 25 anos, condenou "bravatas" e defendeu que governos devem "unir nações", "não estimular disputas de pobres contra ricos" nem "jogar governo contra oposição". Devem "servir ao povo, não a partidos e a corporações".
Ao dizer que os êxitos "não são de um só homem [Lula] ou de um só governo", lançou a marca de sua campanha: "O Brasil pode mais".

SERRA PRESIDENTE

PAINEL DA FOLHA

Discurso da inclusão
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 11/04/10

"Não aceito o raciocínio do nós contra eles." "Lutamos pela união dos brasileiros e não pela sua divisão." "Jamais rotularemos os adversários como inimigos da pátria ou do povo." Repetidas vezes no discurso com que se lançou candidato à Presidência, José Serra martelou a tecla da inclusão. Com ela, quer rebater a narrativa desenhada pela campanha de Dilma Rousseff, que aposta numa divisão na qual o lado "ruim" é o PSDB, cuja volta ao poder seria necessário evitar.
Não houve combinado prévio, mas Aécio Neves foi na mesma linha ao criticar os petistas por terem sempre "priorizado o partido", colocando-se contra avanços da história recente do país como a eleição de Tancredo, a Constituição de 1988 e o Plano Real.


Tá vendo? Louca para acreditar na possibilidade de Aécio aceitar ser vice, a plateia se agarrou especialmente na seguinte frase do discurso do ex-governador, que se dirigia a Serra: "Estarei a seu lado onde eu for convocado".
Convincente. Petistas que assistiram ao discurso engajado de Aécio passaram a duvidar um pouco da ideia de que o mineiro vá "lavar as mãos" na campanha presidencial.
Para o brejo. De um petista maldoso, sobre o momento do discurso em que Aécio dá os louros do Plano Real a FHC: "Ih, agora eles perderam o Itamar de vez..."
Aprovado. Já Fernando Henrique gostou. Nessa hora da fala de Aécio, comentou baixinho: "Ele é bom".
Hino nacional. "Olê, olê, olê, olá", grito de guerra histórico das campanhas de Lula, virou suprapartidário na eleição deste ano. Depois de ser adaptado para Dilma, ontem ganhou versão tucana, terminando com "Serra, Serra".
Casual. Foi por recomendação do marqueteiro Luiz Gonzalez que Serra se apresentou ontem de camisa esporte. No palco, apenas o presidente do PPS, Roberto Freire, surgiu de terno e gravata.
Deu pau. A transmissão via internet pelo site do PSDB perdeu feio para a que o PT fez no lançamento de Dilma Rousseff, no final de fevereiro. Caía o tempo todo, além de "mastigar" as imagens -de baixa resolução, aliás.
Longo alcance. Nesta primeira semana pós-anúncio da candidatura, Serra fará uma bateria de entrevistas para emissoras de rádio do interior do país. Haverá um núcleo específico para cuidar de rádio.
Orelha quente 1. Em jantar dias atrás na casa de Nelson Jobim (Defesa) do qual participaram quatro ministros do Supremo e/ou do TSE, rolaram duras críticas ao descaso público de Lula para com as multas que lhe foram aplicadas pela Justiça Eleitoral por fazer campanha antecipada para Dilma Rousseff.
Orelha quente 2. Presente à mesa, o ministro do Supremo José Antonio Toffoli ouviu tudo um tanto embaraçado. Em dado momento, lembrou que não era mais o advogado-geral da União.
Minha casa... Dilma gostou tanto do imóvel alugado pelo marqueteiro João Santana em Brasília que acabou por "desalojá-lo". O endereço passará a servir de escritório à pré-candidata petista.
...minha vida. O site pessoal de Dilma, ativo a partir desta semana, mesclará textos em primeira pessoa, notícias e agenda da campanha. Trará ainda biografia alentada da ex-ministra. Os posts serão abertos a comentários, numa tentativa de criar comunicação direta com ela.
Batalha naval. Inaugurada em 24 de março passado por Dilma e pelo então ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento (PR), a rampa flutuante do porto de Humaitá (AM), obra de R$ 15 milhões no rio Madeira, cedeu e está afundando.
Avatar. O presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, Giovani Cherini (PDT), viajou à Bahia para ter aulas de "transmutação da consciência", o que lhe permitiria "estar em vários lugares ao mesmo tempo". De acordo com a Casa, o curso de mago e a viagem foram pagos pelo próprio deputado.

com SILVIO NAVARRO e LETÍCIA SANDER
Tiroteio 
Dilma ainda está muito verde. Sonhar com os votos do adversário todo mundo sonha. Mas o que ela falou em Minas não é coisa que se fale. 

Do deputado ACM NETO (DEM-BA), sobre a declaração da candidata do PT sugerindo que o eleitor mineiro vote nela para presidente e no tucano Antonio Anastasia para o governo.
Contraponto 
Mão Santa, o breve Mão Santa (PSC-PI) chegava na quarta ao plenário do Senado quando soube que, em razão da viagem de Lula hoje aos EUA, José Sarney assumiria interinamente a cadeira que ocupou entre 1985 e 1990 -o que acabará não ocorrendo, pois na sexta o vice José Alencar resolveu tomar posse, mesmo sabendo que isso o tornará inelegível em outubro.
Ao cruzar com Sarney, Mão Santa, conhecido pelos longos discursos contra "Luiz Inácio", pediu:
-Por que o sr. não me faz líder do governo por dois dias?

GAUDÊNCIO TORQUATO

PSDB e PT, olhos da mesma cara

O ESTADO DE SÃO PAULO - 11/04/10

Nos ciclos eleitorais, o verbo costuma jorrar solto. Lembrar erros de adversários, principalmente na esfera da ética e da moral, costuma fazer parte de perorações de candidatos. O reino da fantasia acaba se instalando na arena. E, não raro, expressões fortes, denúncias associando atores e histórias escabrosas e até termos chulos, pensados para obter eco, passam a frequentar as falas de palanques. A despedida de José Serra e Dilma Rousseff de seus afazeres administrativos para começarem a pré-campanha presidencial pareceu um aperitivo da aspereza verborrágica que virá. O ex-governador pinçou a questão do caráter e da honra como coluna de seu estilo de governar. Verberou contra "escândalos, malfeitos e roubalheiras". A ex-ministra acusou tucanos de serem "lobos em pele de cordeiros". O fato é que os dois principais competidores tentam fixar fronteiras entre seus territórios e marcar diferenciais. Donde emerge a questão que permeará o pleito: há diferença entre pontos de vista de ambos sobre a maneira de governar o País?
À primeira vista, imagina-se uma distância oceânica entre PT e PSDB. Ledo engano. São mais próximos do que aparentam. A acusação de Rousseff de que o governo "neoliberal", comandado por FHC, mantinha um Estado "omisso" é um chamamento à base partidária que carece de motivação para enfrentar nova batalha. O PT não faz (nem fará) a "revolução socialista", tão apregoada nas cartilhas doutrinárias, não somente porque a promessa encalhou no calendário da história, mas por participar da vida de um país cuja índole abomina modelos importados, principalmente os de viés autoritário. Na década de 80, Darcy Ribeiro, senador e antropólogo, chegou até a pintar o conceito com a tinta verde-amarela, oferecendo a Leonel Brizola um "socialismo moreno" como doutrina do PDT. O achado linguístico foi esquecido. Já a recente insinuação de Fernando Henrique sobre o "autoritarismo burocrático com poder econômico-financeiro" ou, noutros termos, "o DNA do autoritarismo popular, que vai minando o espírito da democracia constitucional", carga jogada sobre o governo Lula, abriga também retórica eleitoreira. O ex-presidente, na verdade, denuncia o excessivo domínio petista sobre os fundos de pensão, enxergando nas castas partidárias que manobram grandes recursos ameaça à saúde do Estado. Sob esse prisma, a crítica tem fundamento.
As gramáticas escritas por tucanos e petistas, porém, quando expurgados exageros, descrevem abordagens semelhantes na forma de conceber o papel do Estado e a administração do governo. As duas siglas, como se poderá constatar, conservam parentesco. Mais ainda: a estrada em que correm seus trens tem o nome de social-democracia. Em 1989 o tucanato delineou seu primeiro traçado com o documento Os desafios do Brasil e o PSDB, em que pôs, lado a lado, densa pauta definindo o papel do Estado na condução de programas econômicos e sociais. O PT, fundado em 1980, repudiou, no primeiro momento, a social-democracia, considerando-a inepta para vencer o "capitalismo imperialista". Passou bom tempo, mesmo após a queda do Muro de Berlim, cultivando a velha utopia, até aceitar, não sem resistências internas, a realidade imposta por novos paradigmas. O mundo deu uma guinada ideológica, integrando escopos do reformismo democrático, do realismo econômico e dos avanços do capitalismo. Sob esse pano de fundo, o PT produziu, em junho de 2002, a Carta ao Povo Brasileiro, peça-chave para a vitória de Lula, pavimentando, assim, sua entrada no território da social-democracia.
O documento foi decisivo no processo de descarte de dogmas que não resistiram aos ventos da modernidade. Vejamos. A revolução marxista permanece viva apenas no campo da literatura. O socialismo utópico evapora-se nos ares da abstração. As ideologias cedem lugar aos ismos da modernidade: pragmatismo, capitalismo (mesmo sob um Estado controlador) e liberalismo social. Os modelos alternativos, de economias assentadas na solidariedade, cedem lugar a programas reformistas, voltados para atender a demandas pontuais e urgentes. As autonomias nacionais passam a se impregnar de ares globalizados. O crescimento desordenado e a qualquer preço é balizado por metas de inflação. Os programas de privatização (combatidos pelo PT no ciclo FHC) integram a pauta dos contextos econômicos. O nacionalismo, bandeira recorrente na América Latina, abre espaço para ingresso de capitais internacionais. Gastos a fundo perdido são, agora, regrados por normas de responsabilidade fiscal. Ações radicais, como programas reformistas no campo, nos termos que exige o MST, são substituídas por ações racionais com foco na agricultura familiar. O respeito aos contratos, princípio fundamental para a credibilidade de um país, ganha força, retirando da parede a corroída moldura da moratória. (Em fevereiro de 1987, no governo Sarney, o Brasil anunciava a suspensão do pagamento de sua dívida interna. Tempos insanos.)
O que significam tais reconfigurações de padrões? Nada mais que a implantação de um modelo de gestão responsável e eficaz, comprometido com crescimento, preservação da estabilidade macroeconômica, atendimento às demandas sociais, enfim, administração equilibrada das relações entre Estado, mercado (capital) e sociedade. Esse é o eixo que a social-democracia vem tentando aprofundar em seu berço, o continente europeu, e que por essas bandas é visto com simpatia tanto pelo PSDB quanto pelo PT. Portanto, a distância oceânica que ambos procuram demonstrar é a mesma entre o olho esquerdo e o olho direito. Um olho pode até querer enxergar o norte e o outro, o sul. Ambos, porém, habitam a mesma cara. Estão próximos. Vez ou outra os olhares se cruzam.

AUGUSTO NUNES

A oposição tem discurso de sobra

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Seis discursos, três dos quais de improviso, e nenhum plural exterminado, nenhum pontapé na gramática, nenhum raciocínio esganado pelo cérebro baldio, nenhum frase perdida no deserto de neurônios - nenhuma agressão à lógica e ao idioma. Tanto bastaria para que se saudasse com fanfarras e fogos de artifício a festa de lançamento da candidatura presidencial de José Serra. Mas o conteúdo superou a forma, e a celebração política ocorrida em Brasília neste sábado excitou o Brasil que pensa com a sensação de que pode estar perto do fim a Era da Mediocridade instituída há mais de sete anos.
O presidente Lula atravessou o verão com Dilma Rousseff no colo e um par de certezas na cabeça: a oposição iria passar a campanha sem discurso e tentando esconder Fernando Henrique Cardoso. Acaba de descobrir que flutuou na estratosfera. Aplaudido de pé pela multidão, FHC foi louvado por todos os oradores, finalmente despertados para a evidência de que o ex-presidente só é impopular entre milicianos petistas e cabeças contaminadas por versões companheiras da história do Brasil. A segunda fantasia foi rasgada ao longo do encontro e ficou em frangalhos com o pronunciamento de José Serra. A oposição tem discurso de sobra.
Quem não tem é Dilma, reafirmou a fala de Serra, radiografada com brilho e precisão por Reinaldo Azevedo no seu blog em VEJA.com. Na convenção do PT, a sucessora que Lula inventou produziu só mais um capítulo do Discurso sobre o Nada. Reverenciou seu Senhor particular mais de 60 vezes e prometeu que, se virar presidente, vai seguir disciplinadamente o caminho que ele ensinou — sejam quais forem o traçado e o destino. Neste sábado, em menos de uma hora, Serra escancarou o abismo que separa um político com história pessoal, biografia política e currículo administrativo de uma principiante de passado fosco, presente bisonho e futuro escurecido pelo perigo.
Desprovida de ideias próprias ou expropriadas, estreante em disputas eleitorais, Dilma anda produzindo platitudes, obviedades ou maluquices em quantidade suficiente para matar de tédio a mais gentil das plateias. Reduzida a apêndice de Lula, terá de enfrentar um adversário com sólida formação política, ampla autonomia de voo, larga milhagem em comícios, testado em muitas disputas eleitorais e capaz de dizer o que pretende com clareza e consistência.
Não é um panorama alentador para quem só precisou de uma viagem a Minas para oferecer a Aécio Neves a provocação que faltava para cimentar a parceria eleitoral com Serra com um discurso que, simultaneamente, implodiu outro equívoco de Lula. Convencido de que Aécio reprisaria a performance ambígua das eleições presidenciais anteriores, o Grande Estrategista decidiu que Dilma visitaria o túmulo de Tancredo Neves em São João del Rey e, no meio de alguma entrevista, proporia ao neto do homenageado a aliança promíscua.
Deu tudo errado, deixou claro Aécio neste sábado. Incisivo, contundente, lendo na memória o texto com requintes mineiríssimos, o melhor orador da festa lembrou os piores momentos da feroz oposição feita pela companheirada a Tancredo Neves, Itamar Franco e Fernando Henrique. Depois de cumprimentar Lula por ter mantido as linhas gerais da política econômica do antecessor, informou que o PT sempre colocou os interesses partidários acima dos interesses do país. Cumpre à oposição fazer o contrário.
Foi um discurso sem volta. Ainda que insista em disputar o Senado, Aécio vai comandar a campanha de Serra em Minas com a energia que faltou em 2002 e 2006. O neto de Tancredo aparentemente compreendeu que, desta vez, o triunfo individual talvez seja insuficiente para preservar o sonho de chegar ao cargo que o avô não pôde assumir.