sábado, abril 10, 2010

RUY CASTRO

Poderosa

FOLHA DE SÃO PAULO - 10/04/10

RIO DE JANEIRO - Uma conhecida minha, ocupando um cargo de certa responsabilidade numa empresa de telefonia, iria submeter-se a um teste de conhecimentos capaz de garantir-lhe uma promoção no emprego. Para certificar-se de que estaria alerta na hora da prova, resolveu tomar o remédio que seu filho começara a usar regularmente para combater o "transtorno de deficit de atenção e hiperatividade" -Ritalina.
Tal transtorno é o diagnóstico contemporâneo para crianças que, no passado, se classificavam como aluadas, que não paravam quietas, de baixo rendimento escolar porque não conseguiam se concentrar em sala. Antigamente esse problema se resolvia com uma conversa com o aluno na presença do pai ou da mãe e, deste, a ameaça de privação do cinema ou praia se o guri não tomasse jeito. Simplório? Hoje se ministra uma droga ao garoto.
A mulher -40 anos, mestrado na Sorbonne, leitora de Barthes e Foucault, mas ignorante em dependência- tomou o remédio, de que não sabia nada. Toimmm!!! Não se sentiu apenas alerta. O medicamento a deixou clarividente, eufórica, confiante, poderosa. Era isso o que seu filho vinha tomando por orientação médica e, pelo visto, com ótimos resultados. Inclusive porque, sendo a aplicação regular, diária, o garoto não se abatia pela abstinência, como aconteceu com ela, assim que passou o efeito da dose única.
Ritalina é um estimulante do sistema nervoso central. Produz o mesmo efeito que a cocaína, as meta-anfetaminas, as "bolinhas" e outras drogas legais e ilegais. A bula adverte sobre a ocorrência de insônia e perda de apetite. Recomenda o uso combinado com antidepressivo e menciona a possibilidade de o "abuso" levar à tolerância e à dependência.
Não parece, mas a bula é a favor do remédio.

CAGANDO

RUBENS RICUPERO


O Brasil deve assinar o Protocolo Adicional ao Tratado de Não Proliferação Nuclear?
FOLHA DE SÃO PAULO - 10/04/10

Adesão não contraria interesse nacional

DA MESMA forma que a democracia, segundo Churchill, é a pior forma de governo, exceto todas as demais, o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) é desigual e injusto, mas superior às alternativas existentes. Durante os 40 anos de sua vigência, renunciaram à arma atômica 11 países que já a possuíam ou desejavam adquiri-la (entre eles Brasil, Argentina e África do Sul).
Dos 4 que se tornaram nucleares, 3 (Índia, Paquistão e Israel) jamais assinaram o TNP, e a Coreia do Norte teve que deixá-lo antes de construir a bomba. O controle das armas de destruição de massa não é impossível, pois desde Hiroshima e Nagasaki o mundo viveu 65 anos sem que a tragédia se repetisse.
Brasil e Argentina tomaram juntos a decisão de abandonar seus programas nucleares rivais, desarmando perigosa corrida armamentista na América Latina e abrindo caminho à integração do Mercosul.
O processo culminou, em 1991, com a assinatura do acordo entre o Brasil, a Argentina, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e a Agência Argentino-Brasileira de Controle, pelo qual os dois países aceitaram as inspeções da agência da ONU.
A adesão ao TNP constituiu a consequência natural, pois a proibição da arma nuclear já constava da Constituição de 1988 e o acordo de 1991 havia criado para o país todas as obrigações que decorreriam do tratado.
Quando a adesão se deu, em 1997-1998, os únicos que não haviam assinado eram Índia, Paquistão e Israel, que tinham para isso uma razão: queriam adquirir a bomba (o quarto era Cuba, que aderiu logo depois). Que sentido teria tido para o Brasil ficar de fora, em companhia dos três belicistas, se já havíamos assumido na prática as obrigações do TNP?
O mesmo argumento se aplica ao Protocolo Adicional, que não é mais que a aceitação de fiscalização reforçada. O Brasil é dos raros países que permitem à agência acesso até a suas instalações militares. O que teríamos a temer se nada temos a esconder?
Alega-se que deveríamos proteger a originalidade de nossa tecnologia. O objetivo é legítimo, mas, segundo especialistas, pode ser perfeitamente assegurado pela negociação com a agência de modalidades que preservem os segredos tecnológicos.
Até agora, a recusa era justificada pelo desinteresse do governo americano de cumprir a obrigação de desarmamento constante do TNP.
A situação mudou totalmente com o advento do governo Obama, o acordo com a Rússia para redução de ogivas nucleares e a nova estratégia dos EUA, que restringe o papel das armas nucleares. Ainda se está longe do desarmamento, mas é mudança construtiva que deve ser encorajada.
Neste momento, a persistência da recusa será vista como obstrução à evolução positiva em curso. A infeliz coincidência com a visita do presidente Lula a Teerã avivará suspeitas sobre nossas intenções.
Cedo ou tarde, o processo de reforço do TNP conduzirá à proibição da exportação ou importação de urânio enriquecido e restrições de acesso tecnológico para os que rejeitam o protocolo. É risco gratuito quando nossa tecnologia pode ser preservada por negociação cautelosa.
Se o real motivo for armamentista, equivale a golpe gravíssimo contra a Constituição. O argumento da soberania não procede, pois a adesão não contraria o interesse nacional.
Que interesse haveria em adquirir a bomba para país que não está sob ameaça ou em zona de conflito, tendo completado 140 anos de paz ininterrupta com seus dez vizinhos?
Na hora lancinante da catástrofe do Rio de Janeiro, só o delírio de grandeza e a perda de contato com a realidade explicam desviar recursos escassos para prioridades erradas e desnecessárias como os desvarios atômicos. A realidade que chega pela tela da TV nos revela aonde estão nossos inimigos: não no exterior, mas aqui dentro.
A corrupção e a incompetência diante da urbanização selvagem, a patética incapacidade de salvar vidas, a falta de dinheiro para dar casa decente aos trabalhadores -são essas as ameaças a enfrentar. E não será com submarinos nucleares e urânio enriquecido que vamos diminuir um só desses perigos reais e imediatos.

RUBENS RICUPERO , 73, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, é colunista da Folha . Foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco)

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Projeto Cocar X
O ESTADO DE SÃO PAULO - 10/04/10


Eike Batista acaba de identificar uma oportunidade na Santos Brasil. O local seria perfeito já que, depois de combinar com Serra a construção de um porto em Peruíbe, ele vê seu desejo ser enterrado por causa dos índios.

Para ter um porto em São Paulo em seu portfólio, ele está achando mais fácil encarar a briga entre Daniel Dantas e Richard Klien, sócios na Santos Brasil, e comprar a empresa, do que enfrentar os lobbies da Funai.
Pelas orelhas
Lula não gostou de saber pela imprensa que Camargo Corrêa e Odebrecht haviam desistido de Belo Monte.

Chamou os empresários para uma conversa.
Frente e verso

Mauro Arce, dos Transportes, avisa: quem levar a concessão do trecho Sul do Rodoanel, cujo edital está em preparação, terá obrigação de construir o trecho  Leste.
Ordem unida
Cesar Peluso, sucessor de Gilmar Mendes no STF e no CNJ, já acertou com o Clube Naval, junto ao lago Paranoá, a festa de sua posse, dia 23.

E, mesmo antes de assumir, ele já impressiona. Além de gente de confiança, está impondo seu ritmo... paulista.
Atalho
Foi uma corretora de seguros de Piracicaba a primeira empresa a fazer seu licenciamento completo pela internet, por meio do Portal Poupatempo do Empreendedor.

Ponto para Guilherme Afif.
Cinquentinha
A festa dos 50 anos de Brasília, dia 21, será um retrato do momento: políticos não serão formalmente convidados. E o único a ser saudado será JK.

Mas falta saber quem representará o Distrito Federal na hora de hastear a bandeira. Wilson Lima é provisório e o sucessor de Arruda, a ser eleito pela Câmara no dia 17, pode ser barrado na Justiça.
Café e saúde
Novas frentes na família Quércia. O ex-governador está abrindo franquias do seu Café Otávio. E seu filho, Fernando, acaba de comprar a operadora de saúde Master, em Campinas.

Low profile

Para evitar que o caso do menino Sean Goldman tome proporções indesejadas, Celso Amorim tem monitorado os acontecimentos... de longe.

O cônsul brasileiro em Nova York mantém contato com a advogada do pai, David Goldman, e com a avó materna, Silvana Bianchi. Não há interesse, dizem os diplomatas, em que o processo "se transforme de novo num embate Brasil-EUA".

Sangue na tela
Chegam a 58% os brasileiros favoráveis à exibição de programas sobre crime e violência na TV.

A pesquisa, do Instituto Millenium, revela ainda que, no Norte e no Centro-Oeste, os fãs do mata-esfola batem nos 70%. Foram ouvidas mil pessoas, em março.
Mercado promissor
A Associação Brasileira de Turismo para Gays, Lésbicas e Simpatizantes fechou acordo com a Embratur. Vão formatar produtos específicos para a classe.

Para quem não sabe, os gays viajam 4 vezes mais e gastam 30% mais que os outros turistas.
Mercado 2
A ideia olha para 2012, quando Florianópolis sediará a maior convenção de turismo gay do mundo. Feito pela International Gay and Lesbian Travel Association.

Na frente

Reatada a parceria Rogério Fasano e Aurelio Martinez Flores. O arquiteto foi contratado para fazer o projeto do Gero em Brasília.

Abre hoje a exposição Puras Misturas, que anuncia a criação do Pavilhão das Culturas Brasileiras. No Parque do Ibirapuera.

Henrique Meirelles debate com Guido Mantega sobre crescimento econômico sustentável. Durante o 9º Fórum Empresarial de Comandatuba, do Lide, dias 21 a 24.

Isabelle Tuchban e Verena Matzen fazem lançamento, na quarta, de edições limitadas de Mulheres e Flores. Na Livraria da Vila dos Jardins.

O espetáculo El Ninõ Judío será encenado hoje, na casa de Bea e Pepe Esteve. Em prol do Programa Einstein da comunidade de Paraisópolis.

O Coro Luther King canta, hoje, no Auditório Ibirapuera.

Os Jardins ficam mais brasileiros na segunda. É a inauguração do bar Ministro 1153. Dos sócios Juscelino Pereira, Renata Loducca, Lu Pereira e Pedro Sant"Anna

Christine Mello, Martin Grosmann, Priscila Arantes e André Mesquita debatem relações históricas. Hoje, na Galeria Luciana Brito.

Na Suíça, o sistema de defesa aérea funciona das 8h às 17 horas. Depois, o problema é dos vizinhos Alemanha e França.

BRASIL S/A

Pós-Lula com Lula
Antonio Machado

CORREIO BRAZILIENSE

Dilma e Serra vão à luta. Ela, extensão de Lula. Ele, o depois de Lula. Ambos terão identidade?


Com o lançamento formal do ex-governador José Serra à sucessão do presidente Lula pela coligação PSDB-DEM-PPS, já estando nas ruas a candidatura de Dilma Rousseff pelo PT, provavelmente o PMDB e mais um punhado de outros partidos, daqui até outubro será só pauleira entre as duas principais forças políticas do país — e ambas contra quem mais chegar querendo melar essa disputa plebiscitária.

Será difícil que outros nomes ameacem a dupla PT-PSDB. A senadora Marina Silva, candidata pelo PV, só tem seu carisma e a mística do ambientalismo, atributos não desprezíveis se pudesse dispor de uma máquina de propaganda forte e estivesse há mais tempo na estrada.

A candidatura de Ciro Gomes depende de o PSB, seu partido, querer investir no futuro, ocupando espaço para um projeto maior, visando 2014, já que não aconteceu a promessa de Lula de apoiar um segundo nome pela base aliada. O PSB, como o PV, estaria só na campanha.

A sua cúpula quer ir com Dilma, enquanto suas bases locais estão com ela ou Serra. O grosso do PSB em São Paulo, onde Lula cogitava lançar Ciro a governador, integra, por exemplo, o bloco do PSDB.

O quadro político nacional tende a uma overdose de Dilma e Serra, à falta de novidades competitivas — e eles terão de suar a camisa para não cansar o eleitor até outubro. Para alívio da torcida, no meio haverá a Copa do Mundo. Mas dura só um mês. Não há como ficar em evidência e prender a atenção sem que produzam fatos novos.

Há riscos também, e não só de enjoar precocemente o eleitor. Eles vão infiltrar-se em blogs e sites de relacionamento, como o Orkut. Se exagerarem, os candidatos acabarão caracterizados como chatos.

A culpa está posta nos marqueteiros de Barack Obama, responsáveis por parte de sua bem-sucedida campanha. O PT contratou a agência e o guru virtual de Obama para assessorar a campanha de Dilma.

Santo de casa não faz milagre. Na eleição de 2002, as assessorias de Lula e Serra já assediavam a web. Voluntários foram acionados — e, com perfis fictícios, entravam em sites com área de comentários para descarregar impropérios cruzados. Agora, será muito pior.

Os partidos estão recrutando pessoas para fazer tal serviço, além de produzir baterias de e-mails. O jeito é deixar para lá os bate-bocas nos blogs, não “dialogar” com estranhos e recusar pedidos de “amizade” nos sites de relacionamento. No limite, cair fora da web até passar a febre eleitoral. Poderá poupar dores de cabeça.

Defeitos comparados
E na velha e boa política de sempre das ideias? Por ora, Serra é quem pode inovar, se Dilma insistir em continuar comparando quem fez mais: os governos Lula ou FHC. Como tática, já funcionou. Como fio condutor de campanha, tenderá a envelhecer, pois lançado cedo.

Ela tornaria Lula muito mais unânime e benquisto, com o risco de chegar a outubro com um paradoxo: reconhecida nacionalmente, mas uma estranha para o eleitor. Só despontariam os seus defeitos.

Já Serra é a reprise das últimas eleições, das quais perdeu a de 2002 para Lula, e venceu as de 2004, para prefeito de São Paulo, e a de 2006, a governador, ambas como desafiante de administrações petistas. Seus defeitos surpreendem menos por serem ainda frescos.

Caixa de surpresas
Por mais que os marqueteiros e estrategistas políticos de PSDB e PT tentem antecipar em laboratório o sentimento do eleitor, sabe-se que eleições dificilmente são estáticas, como se viu no Chile.

Tão popular como Lula, a então presidente Michelle Bachelet não elegeu seu candidato, embora a coalizão de centro-esquerda que ela representasse estivesse dividida na eleição. O vencedor, Sebastián Piñera, de direita, em visita oficial ao país, se disse um modelo para Serra, com quem se encontrou, além de Lula. O que aconteceu?

A tática de cada um
Lá — como cá entre os governos Lula e FHC —, a política econômica pouco mudou entre a fase final da ditadura militar e os vinte anos em que a Concertação, o nome da coalizão de esquerda, governou. Os progressos foram maiores na área social. Piñera teve sucesso em se apresentar mais preparado para melhorar o que o eleitor aprovava.

O repto de Serra será fazer o mesmo, o que implica: 1º, mostrar a sequência entre FHC e Lula; e, 2º, o que e como melhorar. Para ele, os fatos novos pós-Lula são a única campanha viável, o que tende a levar Dilma a contestar, como já fez ao falar de “lobos em pele de cordeiro”, referindo-se a Serra. Quanto mais se revele convincente ao eleitor, mais ela terá de apontar o que avançar sobre o legado de Lula. Aí, a campanha ficará interessante. Ou será um marasmo.

Lula não sai de cena
Lula, de algum modo, já está legislando por Dilma, desenhando uma hipotética continuidade de seu governo depois de 2011, ao lançar o PAC 2, cobrar pressa do projeto do Eximbank Brasil, embrião de um provável Ministério do Comércio Exterior, e, mesmo sem caixa e sem programa maduro, querer anunciar a universalização da internet em banda larga. Pelo teor de suas declarações, ele não se vê de fora.

Depois de já ter dito que quem quiser derrotá-lo terá de acordar cedo, como se fosse ele o candidato, Lula agora diz que não será “instituição”. “Vou gritar mais, perturbar mais, vou arregaçar as mangas para fazer a reforma política”, afirmou em evento no qual o PC do B formalizou apoio a Dilma. E ela faria o quê? Continuará em segundo plano? Vai acabar chamada de candidata laranja.

JOSÉ SIMÃO

Ueba! A Arca de Noé furou o pneu!
folha de são paulo - 10/04/10

O Brasil tá precisando de uma arca! E avisa pra todo mundo que 2012 foi antecipado pra 2010

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!
Adesivo de carro em Porto Alegre: "Cristian MALCORRA: personal trainer". Rarará! E teve uma fuga na Fundação Casa, ex-Febem, ex-Fugabem. E sabe como se chama a diretora da Fundação Casa? Berenice Gianella. Já sei, os menores fugiram pela GIANELLA! Rarará!
E o Brasil tá precisando de uma Arca de Noé. Mas igual a do filme "2012". Porque a do Noé deve tá com um cheiro de mofo! E avisa todo mundo que 2012 foi antecipado pra 2010. E Arca de Noé moderna tem que ter casal de traficantes, casal de corruptos, casal de nerds e casal moderno: ele de bobes e ela de terno!
E sabe o que um amigo meu falou da Dilma? "Ela é dilma ternura e dilma beleza." E os assessores da campanha do Serra? Aleluia e Coruja! Xi, Vampiro, Aleluia e Coruja. Vai dar uma nuvem negra. Sabe aquela nuvem negra que fica em cima da van da Família Adams? Rarará!
E essa é especial para os são-paulinos: "Fifa reprova a maquiagem do Morumbi". O batom tava borrado. Vão ter que mudar de maquiadora! E essa: "Britânica de peito gigante quase mata namorado durante o sexo". Mas não é matar de prazer. Ela quase matou mesmo. Sufocado. Com os peitos gigantes! Duas massas amorfas! Pense em dois bumbuns de elefante te sufocando? E ela: "Ele começou a me bater mas eu achei que ele estava excitado até que ele parou de se mexer". Pra sempre? Tentativa de homicídio. OPs, PEITOCÍDIO!
E eu já falei que programa de paulista é ver a chuva na casa dos amigos. "Ah, vem aqui em casa pra ver a chuva, a gente chama uma pizza." Mas quem vai entregar a pizza? O comandante Hamilton do helicóptero do programa do Datena. Comandante Hamilton Delivery! Rarará! E descobriram que chuva tem vontade própria, livre arbítrio: "Chuva chega antecipada ao sul do Sergipe". Visita que chega antes da hora. É mole? É mole, mas sobe. Ou como disse o outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece.
Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. É que em Vigia do Nazaré, no Pará, tem um inferninho chamado Inferno! É pra lá que eu vou, se continuar debochando do papa. Mais direto, impossível! Viva o antitucanês! Viva o Brasil!
E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Arca de Noé": local de fuga das antas dos companheiros! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

BANDIDOS

MÍRIAM LEITÃO

Na lei ou na marra
O GLOBO - 10/04/10

Ministério Público entra com ação contra o leilão de Belo Monte, e o presidente Lula diz que a usina será feita de qualquer maneira. O TCU aprova relatório mostrando a distribuição desequilibrada de recursos públicos, e o presidente diz que é leviandade. A Justiça Eleitoralmulta o presidente, e ele diz: “Não podemos ficar subordinados ao que um juiz diz que podemos ou não.”

Tudo isso num dia. O chefe do Executivo investe contra o 
Ministério Público, o Tribunal de Contas da União e a Justiça Eleitoral, num ataque serial em apenas 24 horas. A República pressupõe independência dos poderes, portanto, a vontade do Executivo não é soberana; ela é contida pelo Judiciário, ao qual se recorre para revisões das decisões.

O TCU é órgão do Legislativo com pessoas nomeadas pelo governo para fiscalizar o uso do dinheiro público. O 
Ministério Público é independente e é função dele cuidar da legalidade da gestão pública.

Enfim, todos os órgãos estão cumprido seus papéis institucionais. Mas isso tem provocado reações furiosas do presidente da República.

Se fosse um cidadão comum fazendo essas declarações, seria um equívoco, sendo o presidente, com os poderes que tem, é perigoso.

Como remédio para os limites impostos pela legislação eleitoral, ele propõe uma reforma política, pela qual diz que vai lutar, quando estiver fora do governo. Não é para relaxar as regras de uso da máquina que a reforma foi pensada, mas é bom lembrar que como chefe do Executivo, com sua bancada majoritária, ele tinha mais chances de fazer a reforma do que quando for ex-presidente.

Sobre Belo Monte, recaem muitas dúvidas. De toda ordem: financeira, ambiental, de engenharia. Isso é que está assustando investidores.

— Há um canal gigantesco que precisa ser feito, cujo estudo nunca foi feito adequadamente. Não se sabe se esse terreno é 90% pedra e 10% terra, ou o contrário. O custo do canal vai depender da natureza desse terreno — diz Mario Veiga, presidente da PSR.

Portanto, o que assusta os investidores são dúvidas razoáveis.

O pesquisador Francisco Hernandez, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, coordenou um painel com 40 especialistas para estudar a obra. Ele chegou à conclusão de que o projeto não deveria ser feito, por ser ruim e caro. Além disso, a região é considerada de “biodiversidade extrema.” — Normalmente, o impacto ambiental das hidrelétricas acontece com os alagamentos. Em Belo Monte, o impacto será duplo: além do alagamento, será preciso secar outra região, porque o rio terá que ser desviado. Isso nunca aconteceu no país e torna o projeto mais arriscado.

A ideia de construir hidrelétricas no Rio Xingu vem dos anos 80. No início, imaginavase a construção de seis a sete usinas, mas a pressão de ambientalistas, índios e técnicos fez com que os projetos fossem abandonados, restando apenas o de Belo Monte.

Desta vez, as autoridades ambientais disseram que fizeram exigências que a tornariam realizável. Mas as incertezas continuam. A usina será feita em área indígena, que exige legislação própria; continua a haver dúvidas sobre impactos graves; o leilão só pode ser feito depois da Licença de Instalação e só há a Licença Prévia. O 
Ministério Público está apontando uma série de descumprimentos de exigências a serem atendidas antes da licitação. Mesmo assim, o governo está dizendo que ela será feita. Só se reeditar o bordão “na lei ou na marra”, de um triste período do Brasil. A única forma de se fazer qualquer obra no estado de direito é respeitando todos os constrangimentos previstos na lei, todos os limites exercidos pela Justiça.

Na marra, não dá.

Do ponto de vista econômicofinanceiro, é uma temeridade iniciar qualquer obra apenas porque ela é um ícone do PAC, que é o carro-chefe da candidata do governo. A controversa usina de Belo Monte tem assustadores pontos obscuros do ponto de vista da viabilidade financeira também, além de ambiental.

O governo está dizendo que se não houver investidor privado fará com empresas estatais ou com fundos de estatais.

Isso pode acabar gerando mais um rombo para o país enfrentar no futuro.

Belo Monte tem sido apresentada como a terceira maior hidrelétrica do mundo, com capacidade de produzir 11 mil MW de energia, mas isso é o pico. Na média, a usina produziria 4,2 mil MW.

Hernandez explica que a flutuação das águas do rio é enorme: no inverno, a vazão é 40 vezes maior que no verão.

No período de baixa, será impossível ligar as turbinas.

Com isso, o potencial energético do rio será de apenas 39%, um dos mais baixos entre as hidrelétricas do país.

O pesquisador diz que a obra exigirá a construção de grandes represamentos, e isso contraria a recomendação da Comissão Mundial de Barragens (CMB), que chegou à conclusão, em 2002, de que quanto menor, melhor: — Na nossa avaliação, Belo Monte é apenas um convite para novos barramentos. Depois que a usina ficar pronta, se chegará à conclusão de que novas barragens serão necessárias para aumentar a eficiência. Com isso, novas obras serão feitas. Esse projeto é uma reedição da ideia inicial, dos anos 80, só que começando pelo fim.

O projeto é distante do centro consumidor, exigirá obra de grande envergadura, desvio do rio. Não pode ser iniciada apressadamente apenas para constar das obras a serem brandidas nos palanques. Pela nota do 
Ministério Público, alertas de técnicos do próprio governo foram ignorados, na pressa em se conceder a licença prévia para a construção.

Em Belo Monte, se prepara para fazer concessões maiores para atrair investidores a qualquer preço e iniciar a obra em qualquer contexto jurídico, passando por cima de quaisquer dúvidas ambientais.

Isso porque, como disse o presidente: “Belo Monte será construída”. Talvez seja mesmo, mas antes será preciso cumprir a lei. Na marra, não será possível.

J. R. GUZZO

REVISTA VEJA
J. R. Guzzo

Em modo extremo

"Lula não corrige nenhum dos erros que comete, pois acabou 
convencido de que não erra nunca; além disso, é estimulado 
o tempo todo a continuar errando"

O brasileiro comum, do tipo que não pode nomear parentes nem agregados para "cargos em comissão" no serviço público, raramente tem a oportunidade de ser bajulado. Em compensação, passa a vida pagando pelos estragos causados pela bajulação praticada em escala maciça, e todos os dias, nas esferas mais altas do governo – a começar pela esfera mais alta de todas. Não existe uma única alma, ali, capaz de admitir que possa haver algum erro, mesmo de pequeno porte, em qualquer coisa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diga, faça ou pense. O resultado é que Lula não corrige nenhum dos erros que comete, pois acabou convencido de que não erra nunca; além disso, é estimulado o tempo todo a continuar errando. A conta, como de costume, é paga pelo público em geral. Como poderia ser diferente, quando as pessoas com quem Lula fala e convive diariamente estão dispostas a tudo para deixar claro, claríssimo, que ele tem sempre razão, seja lá no que for?
O presidente, por sua própria iniciativa, já se acha a obra mais bem-acabada que a história do Brasil conseguiu produzir até hoje. Fica ainda mais convencido disso, naturalmente, quando é chamado por seus ministros e principais mandarins de "Nosso Mestre", "Nosso Guia" ou "Nossa Luz", e passa o dia inteiro cercado de gente cuja grande preocupação na vida é dar um jeito de dizer só o que ele quer ouvir. Ou então não dizer, de jeito nenhum, o que ele não quer ouvir. Talvez ninguém tenha resumido melhor essa questão do que a ex-ministra Dilma Rousseff, pré-candidata oficial nas próximas eleições presidenciais. Questionada recentemente sobre o que achava da situação dos presos políticos em Cuba, que Lula havia acabado de comparar com "bandidos" de São Paulo, Dilma mostrou que só pensa naquilo – como concordar com o chefe. "Vocês não vão tirar de mim nenhuma crítica ao presidente Lula", respondeu aos jornalistas. "Nem que a vaca tussa." A candidata, em suma, não disse nada sobre a liberdade em Cuba. Ao mesmo tempo, disse tudo sobre o padrão de conduta hoje em vigor no governo.
Até algum tempo atrás, com seus índices de popularidade que não param de subir, Lula parecia satisfeito em ouvir de seus auxiliares, concordando 100% com eles, que é o maior presidente que o país jamais teve. Hoje já começa a dar a impressão de que está se sentindo grande demais para caber nas fronteiras do Brasil. "Eu gostaria que todos os governantes do mundo agissem como eu ajo", disse ele numa de suas recentes viagens ao exterior. Ultimamente deu para achar que o Brasil tem condições de resolver o problema do Oriente Médio, que está aí pelo menos desde 1948, ou de convencer os aiatolás do Irã a utilizar de maneira construtiva a bomba atômica que, segundo se suspeita, estão fabricando. Imagina que a melhor maneira de amansar ditadores é ficar amigo deles, e vive ouvindo de seus colaboradores que é um grande nome para chefiar as Nações Unidas depois que acabar seu mandato presidencial; aparentemente, até agora, vem achando muito natural essa possibilidade.
É óbvio que não se pode esperar nada muito diferente disso; a Presidência da República, aqui ou em qualquer lugar do mundo, é um ecossistema voltado para a sobrevivência dos mais aptos a bajular, obedecer e dissimular o que pensam. Tome-se, por exemplo, o caso da Casa Branca, onde a palavra "transparência" tem um valor quase religioso, pelo menos no discurso oficial da política americana. Ninguém que tenha um gabinete ali dentro sairia de casa de manhã, rumo ao trabalho, prometendo a si próprio: "Hoje eu vou dizer umas boas verdades a esse Obama". Se disser, serão as suas últimas palavras no emprego – o índice de mortalidade na carreira é altíssimo para pessoas que querem, ao mesmo tempo, servir a presidentes da República e manter intacta a sua sinceridade. Na verdade, a história se repete em qualquer lugar, público ou privado, onde alguém manda. O máximo que se consegue nesses ambientes, em matéria de crítica, são comentários do tipo: "O grande defeito do chefe é que ele trabalha demais". Ou é perfeccionista demais, sincero demais, confia demais nas pessoas, e por aí afora.
O problema, nos casos de bajulação em modo extremo como a que existe hoje em torno do Palácio do Planalto, é que o governo já começa a achar que a ausência de aplauso é uma anomalia; algo tão incompreensível que só pode ser má-fé. "Eu inaugurei 2 t000 casas e não vi uma nota no jornal", espantou-se o presidente tempos atrás. É nisso que veio dar essa história de "Nosso Mestre"...

MERVAL PEREIRA

PT: o passado condena
O GLOBO - 10/04/10

Os que especulam sobre o significado da não reação do ex-governador Aécio Neves ao comentário da candidata oficial, Dilma Rousseff, de estímulo à chapa Dilmasia — um voto híbrido nela para presidente da República e no candidato a governador Antonio Anastasia, do PSDB —, querendo perceber uma sutil admissão de Aécio à “cristianização” do candidato tucano, José Serra, em Minas, não perdem por esperar.

O discurso do ex-governador mineiro hoje, no evento que marcará em Brasília o lançamento da candidatura de Serra à Presidência da República, será uma inequívoca tomada de posição.

Mais que isso, será uma definição de linha de ação política do PSDB, um ataque frontal ao passado do PT e um assumido orgulho do passado do partido tucano.

Sobre a passagem de Dilma por Minas, o ex-governador Aécio Neves lembra que seu avô Tancredo dizia que, em uma campanha eleitoral, há lugares em que é melhor não ir do que ir e ter problemas.

Foi o que aconteceu com a candidata oficial, Dilma Rousseff, ao visitar São João Del Rei. Se fosse lá e não visitasse o túmulo de Tancredo, seria acusada de mais uma vez estar desdenhando o grande líder político mineiro.

Indo, provocou a ira dos próprios mineiros, pois o PT não apenas não apoiou Tancredo no Colégio Eleitoral, em 1985, como expulsou os seus três deputados federais que o fizeram à revelia do partido.

Para exemplificar o repúdio mineiro à atitude de Dilma, basta ler o título do artigo semanal que o ex-senador Murilo Badaró escreve: “A profanação do túmulo de Tancredo”.

Dilma já havia confundido anteriormente Governador Valadares com Juiz de Fora, demonstrando que sua mineiridade não está muito em dia.

Quando, desta vez, caiu na armadilha ao defender a chapa Dilmasia, prestou dois serviços aos adversários políticos: desprezou o PT e o PMDB mineiros, que ainda se digladiam para ver quem dará o candidato a governador, e deu a chancela de que a candidatura de Antonio Anastasia é uma opção tão viável que ela admite “cristianizar” seus candidatos para receber o apoio do ex-governador Aécio Neves, o grande líder político atualmente em Minas.

O ex governador não quis reagir pessoalmente à ida de Dilma ao túmulo de seu avô para não dar um cunho meramente pessoal e familiar ao comentário, mas foi consultado pelo senador Sérgio Guerra sobre a nota que os partidos de oposição divulgaram.

Vai aproveitar o discurso de amanhã para “tirar da frente os fantasmas do constrangimento”.

Aécio vai dizer claramente que “nós temos que ter orgulho enorme do que fizemos”, e definirá “com clareza e coragem” o que considera uma verdade política: não teria havido o governo do presidente Lula se não tivesse havido o governo Fernando Henrique.

“Isso é real, é claro, e o maior avalista disto é o próprio Lula, que manteve intacta a política econômica do Fernando Henrique”.

Para Aécio, quem diz da importância do governo de Fernando Henrique é Lula, mais do que qualquer outro. O ex-governador mineiro lembrará que, “apesar das pressões do PT no início do governo, o Palocci, com o aval do Lula, manteve intacta a política econômica”.

Aécio defenderá que o debate na campanha deve ser sobre o futuro e o presente, mas pretende ressaltar que é fundamental que se debata também o passado.

“O PT quer circunscrever o seu passado aos oito anos do governo Lula”, ressalta Aécio, negando validade a essa estratégia. “Sorte nossa que o PT não era um partido expressivo naquela época. Se prevalecessem as ideias do PT, teríamos adiado o processo de redemocratização, poderíamos ter de novo um retrocesso institucional na saída do Collor, com o Itamar sem qualquer apoio, não teríamos uma Constituição”.

O tema central da fala de Aécio será “o passado condena o PT”.

Ele diz que, na campanha, o PSDB vai falar das privatizações, da Lei de Responsabilidade Fiscal, do próprio Plano Real, de tudo o que foi feito com “a raivosa oposição deles”.

O próprio Lula já reconheceu que, se fosse eleito em 1989, seria uma tragédia, pois não estava preparado para governar o país. “E será que a Dilma está preparada? A Dilma hoje não é o Lula de 89?”, pergunta Aécio.

Para o ex-governador mineiro, o governo de Fernando Henrique Cardoso “foi um governo respeitável, mesmo quem não tem saudades respeita, independentemente do que o PT fez com egoísmo durante esses 25 anos”.

Ele define o PT como “beneficiário da nossa responsabilidade e da nossa visão de país, porque, ao contrário da gente, o PT sempre colocou o seu projeto partidário acima do projeto do país em todos esses momentos”.

Aécio Neves relembra que, para o PT, valia sempre a lógica do que era melhor para o partido. “Não era bom se misturar conosco no Colégio Eleitoral, dane-se o resultado; não era bom apoiar o Itamar porque o Lula vem aí, dane-se o Brasil”.

O ex-governador mineiro diz que está na hora de “levantar a cabeça e partir para cima”. Ele vai lembrar que foi candidato a candidato a presidente da República ano passado e sempre dizia que a unidade era a grande força, o mais vigoroso instrumento para ganhar a eleição.

Aécio diz que, no momento em que notou que o partido ia em outra direção, fez “o mais importante gesto a favor da unidade” quando anunciou que seu candidato era o Serra: “Eu tenho compromisso com o partido e com o país, quero encerrar esse ciclo petista. Acho que tenho autoridade moral para dizer isso”, finaliza.

Este é o espírito com que o ex-governador mineiro discursará hoje no lançamento da candidatura de José Serra à Presidência da República.

Uma tomada de posição sem dar margem a dúvidas.

RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA
A omissão que mata
RUTH DE AQUINO
Revista Época
RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br
Quem mora lá no morro já vive pertinho do céu. A canção composta por Herivelto Martins em 1942, “Ave Maria no morro”, é um exemplo da relação romântica entre o Rio de Janeiro e a favela. Um amor com final trágico e previsível. Como todos vimos na semana passada, eram pobres e favelados as vítimas da tempestade no Estado. E quem matou essas famílias não foi a fúria das chuvas. Mas governos negligentes, paternalistas, demagogos e irresponsáveis.
O crime mais revoltante foi cometido pelo prefeito Jorge Roberto Silveira, de Niterói.“Eu sabia do lixão ali, mas nunca tinha havido nenhum incidente.” Foi a declaração inocente do prefeito do PDT. Ele comanda Niterói desde 1989, com alguns intervalos para um prefeito do PT. O Morro do Bumba abrigava uma comunidade inteira, com casas, igreja, pizzaria, bares e creche. Tudo sobre um lixão tóxico, desativado em 1986. A comunidade floresceu sob a vista complacente e amiga de Jorge Roberto. A Cedae colocou ali bica d’água. O então governador Brizola levou ao Bumba o programa “Uma luz na escuridão”. Anos depois, a comunidade ganhou quadra de esportes, creche. Brizola virou nome de rua no Bumba. Não dá para acreditar que alguém instruído resolva urbanizar uma área condenada.
O prefeito Jorge Roberto nunca parou para pensar que estava cavando a sepultura de 150 pessoas ou mais, segundo cálculos de moradores.
Por que o lixão desativado não foi cercado por ele? Não era um morro qualquer. Era um amontoado de matéria orgânica que apodrecia e soltava gás metano, um gás explosivo. Aquilo não era um solo. Era uma bomba-relógio. “Você sabe, num país como o nosso, é muito difícil impedir assentamentos irregulares ou remover moradores de áreas de risco”, disse Jorge Roberto. “Tentei o possível, tentei o máximo.” O máximo.
O Morro do Bumba, com sua lama negra de detritos que desceu de uma altura de 600 metros, é o maior retrato da demagogia que pune os pobres. É o resultado da ausência de uma política habitacional para famílias de baixa renda. É a improvisação do salve-se quem puder. É o retrato de gerações de políticos que jamais pensaram a longo prazo, no bem-estar da população e das cidades.
Quem matou as famílias de favelados não foi a chuva. Foram
governos negligentes, demagogos e irresponsáveis
Mas não são apenas políticos. Muitas vezes, é a esquerda-caviar carioca. Ou os gringos de institutos internacionais que vêm fazer tour exótico e social nas favelas para depois tomar champanhe na piscina do Hotel Fasano, de frente para o mar de Ipanema.
Até os nomes das favelas são poéticos. “O que está acontecendo é resultado de anos de demagogia em relação à favela”, diz a antropóloga carioca Alba Zaluar. “É incrível que essas tragédias ocorram em lugares com nomes como Morro dos Prazeres ou Chácara do Céu. As favelas historicamente eram cenários de sambas lindos, espaços de poesia e criatividade. Com o tráfico de drogas, essa visão romântica foi abalada.”
Um barraco pode ser o único patrimônio de uma família. Mas é preciso que o poder público rompa a ideia de que essa afetividade é sinônimo de segurança, em vez de transformar a favela em seu curral eleitoral. “É a própria política que ajuda a construir a noção de que a casa é própria, mesmo que esteja no meio de um barranco que pode cair a qualquer momento”, diz Alba. “E toda a sociedade é conivente com essa ideia.”
Sonho de qualquer cidadão, a casa própria nasce muitas vezes do tijolo e do ferro doados por políticos – não importa sobre que terreno ou com que engenharia a obra será erguida. “São esses mesmos políticos que, tempos depois, buscarão apoio da Justiça ou organizarão manifestações populares para evitar a desapropriação e a remoção – auxiliados por ONGs e movimentos sociais”, diz Fernando Kerzman, presidente da Associação Brasileira de Geografia e Engenharia Ambiental (ABGE).
“É nesses momentos que a gente se orgulha de ser brasileiro”, disse o prefeito Jorge Roberto, diante da língua negra de lama e lixo apodrecido que soterrou seus eleitores. Não pude acreditar. Ele dizia, na televisão, que tudo estava “sob controle” e se confessava emocionado com a solidariedade do presidente Lula e dos bancos.