segunda-feira, dezembro 14, 2009
RUY CASTRO
Síndrome de Suri
FOLHA DE SÃO PAULO - 14/12/09
Holmes e Cruise devem ter suas razões _despreparo, carreirismo ou deslumbramento_ para permitir tal precocidade na biografia da filha. Nas reportagens sobre Suri, os ortopedistas alertam para o fato de que saltos altos são incompatíveis com uma estrutura óssea cuja formação, segundo eles, só se completará aos 12 ou 13 anos. Além de serem uma garantia de dores, calos e joanetes para Suri e, na vida adulta, de pernas curtas e dificuldade para caminhar. Esses alertas, pelo visto, caem no vazio. O problema não se limita a Hollywood ou a filhos de pais famosos. No Brasil, talvez mais que em outros países, há meninas entre 3 e 10 anos com hora marcada no salão para depilar a sobrancelha, aplicar 'luzes' no cabelo ou fazer tratamento contra celulite. Toda garota quer se parecer com a mãe, é normal. O problema é quando os fabricantes de cosméticos, sutiãs etc. assumem o controle dessa estética infantil e passam a impô-la às crianças com a conivência das mães. O humanista americano Neil Postman (1931-2003) alertou para esse problema num grande livro de 1982, 'O Desaparecimento da Infância' (há versão brasileira, pela editora Graphia). Todas as previsões de Postman se confirmaram: sem saber, estamos gerando crianças-adultos, que dificilmente chegarão à maturidade. Sem saber, mesmo _talvez porque nós próprios, filhos da segunda metade do século 20, já sejamos adultos-crianças.
CARLOS ALBERTO SARDENBERG
Boi verde, boi criminoso
O ESTADO DE SÃO PAULO -14/12/09
Não é exagero dizer que o agronegócio salvou o Brasil. Ao gerar superávits comerciais de US$ 40 bilhões/ano, deixou aqui uma sobra de dólares que foram comprados pelo governo e incorporados às reservas do Banco Central. Isso permitiu ao Brasil superar o velho problema do financiamento da dívida externa. Se não fossem as reservas, em grande parte geradas pelo agronegócio, repito, o Brasil teria quebrado nesta última crise. E quebrado, no caso, significaria recessão, eliminação muito maior de empregos, perda de renda e aumento da pobreza.
Além disso, o agronegócio puxou negócios em toda a economia brasileira. Forneceu alimentos, especialmente a proteína da carne, para populações brasileira e no mundo todo. Ou seja, há razões para dizer que o agronegócio brasileiro é um caso de sucesso.
Há algum tempo era também um sucesso ambiental. Foi no período da "vaca louca", doença adquirida por animais confinados e alimentados com rações. Na ocasião, o boi brasileiro ganhou status de "boi verde", duplamente saudável. Primeiro, porque só comia grama e, segundo, porque crescia caminhando pelos pastos, sendo mais musculoso e menos gordo.
Hoje o Brasil é o maior exportador mundial de carnes e um dos maiores em alimentos em geral. E o agronegócio tornou-se alvo preferencial de boa parte dos ambientalistas, internacionais e nacionais.
Acusações: as pastagens estão no lugar de matas nativas e parte delas se fez com o desmatamento da Amazônia; a atividade é poluente, ao usar máquinas e veículos motorizados, queimando petróleo, fertilizantes, adubos; e o boi e a vaca emitem gases metano com seus arrotos e puns.
Mas o problema maior parece ser a Amazônia, já que todas as pastagens e toda a agricultura do mundo estão no lugar de matas nativas e já que o boi arrota igual em todo mundo. Toda agricultura é uma intervenção na natureza.
O problema na Amazônia é real. Há pecuaristas e assentados da reforma agrária que derrubam árvores para criar bois. Mas há também grileiros e índios que derrubam árvores para vender como madeira. Tudo ilegal e, não raro, violento.
É certo que isso não pode continuar e que o objetivo de desmatamento zero é um bom objetivo. Mas isso não pode condenar a pecuária como um todo, que tem no Brasil graus de eficiência elevada em várias regiões.
Além disso, qual é a ambição, justa, dos povos mais pobres? Ter, por exemplo, um consumo de proteína nos níveis do Primeiro Mundo, com o que serão mais saudáveis, morrerão menos, viverão mais, serão mais altos e... mais gordos. Ou seja, o mundo precisa e quer mais carne - e, especialmente, quer carne barata, como é a brasileira.
Dizer que a carne brasileira seria a mais cara do mundo se incorporasse no seu preço os custos ambientais é um argumento duvidoso. Porque aí seria preciso incorporar esses custos em toda a atividade econômica. Assim, quanto custaria uma passagem de avião Rio-São Paulo? Qual o custo ambiental num aparelho de TV? Num celular? E, nessa sequência, esses produtos seriam acessíveis apenas aos mais ricos.
O.k., há tecnologia para produzir mais carne em menos espaço, no caso brasileiro, nas pastagens já existentes, e com bois e vacas que arrotem menos e soltem menos puns. Mas essa tecnologia precisa ser desenvolvida e implantada, o que custa dinheiro. É preciso financiar essas inovações tecnológicas.
Há teses segundo as quais o esforço de aumentar a produção é inútil, pois não haveria condições de produzir carne para uma humanidade em expansão. Ou, mais amplamente, que a Terra não suporta uma população crescente, com ambições de ter padrões de consumo semelhantes aos do Primeiro Mundo.
Se isso for verdade, qual a consequência? Que os povos mais pobres terão de abrir mão de aumentar seu consumo de tudo, de carnes a celulares e automóveis. Com isso, e convencendo-se os mais ricos a reduzir seu padrão, a coisa estaria resolvida. Agora, quem vai dizer para os pobres que eles não podem comer carne nem ter carro?
Estou fazendo caricatura? Pode ser, mas o ponto é este: precisamos de uma economia mais limpa, sem dúvida, não podemos mais desmatar a Amazônia, mas também precisamos aumentar a produção de alimentos e de bens de consumo.
Não adiantará nada ter uma economia limpa que não forneça alimentos e conforto aos povos. A transição para a economia limpa é, pois, extremamente complexa, porque é preciso manter um tipo de produção atual enquanto se criam e aplicam novas modalidades.
Por que ninguém propõe uma regra mundial do tipo: só se pode vender carro elétrico daqui em diante? Porque seria uma coisa acessível apenas aos mais ricos, exatamente esses que estão bem e cujo nível de consumo deixou poluição por toda parte. E porque os chineses e indianos, para não falar dos brasileiros, continuariam a fazer os seus carrinhos a gasolina ou coisa pior.
Resumindo: o mundo inventou a agricultura, domesticou e criou os novos bois e porcos, aumentou extraordinariamente a produção de alimentos mais baratos, eliminou a fome para bilhões de pessoas. Criou o conforto da sociedade de consumo e... destruiu ambientes, e parte da humanidade ficou rica com isso, outra parte está na classe média e outra continua pobre. E agora?
Concordo com o que disse a revista The Economist: mesmo que haja dúvidas quanto ao processo de aquecimento global, vale a pena combatê-lo no mínimo como um seguro. Mesmo que os céticos tenham razão, ainda assim existiria uma possibilidade de que não tivessem, de modo que seria muito risco não fazer nada desde já.
Agora, seguros são caros e complexos - e não podem ser tão caros que inviabilizem o bem segurado.
Em tempo: não é a primeira vez que cientistas dizem que faltarão alimentos.
PAINEL DA FOLHA
Enquanto o DEM respira algo aliviado após o pedido de desfiliação de José Roberto Arruda, o PSDB se preocupa com o elo entre a Linknet e o neotucano Valdivino Oliveira, secretário da Fazenda que deixou o cargo na esteira do escândalo do Distrito Federal. A empresa, segundo a PF, seria uma das abastecedoras do mensalão candango.
Valdivino chegou ao PSDB neste ano pelas mãos do senador Marconi Perillo, pré-candidato ao governo de Goiás e um dos tucanos mais chegados a Arruda. Perillo é próximo também do dono da empresa, Gilberto Lucena. A Linknet patrocina o Atlético-GO, cujo presidente é... Valdivino Oliveira.
DNA. Valdivino Oliveira estreou na política como vice de Iris Rezende no primeiro mandato do peemedebista na Prefeitura de Goiânia. Era filiado ao PMDB e encarregado informalmente da relação com o empresariado. Depois de romper com Iris, entrou na órbita do tucano Perillo.
Arromba. Recém-saído de uma cirurgia, Iris Rezende (PMDB) vai comemorar o aniversário de 76 anos, no próximo dia 22, em sua fazenda em Guapó. São esperadas cerca de 30 mil pessoas, entre elas ministros e o presidente do BC, Henrique Meirelles.
Rei morto... Em reunião de ministros na semana passada sobre a Copa de 2014, discutia-se a questão de Brasília. Um dos presentes perguntou com quem, à luz da crise no governo Arruda, o Planalto iria negociar os investimentos necessários.
...rei posto. Alguém respondeu: "Acho que vai ser com aquele que veio aqui outro dia". "Aquele", no caso, era Paulo Octávio. O vice havia participado da reunião anterior, enquanto Arruda se recuperava de uma cirurgia.
Conta outra 1. A alegação, feita por integrantes do governo a Michel Temer, de que Lula só falou numa "lista tríplice" de candidatos a vice para não melindrar Edison Lobão embute um aspecto cômico: o ministro de Minas e Energia jamais foi seriamente cogitado para a vaga, nem pelo Planalto nem pelo PMDB.
Conta outra 2. Dos dois lados, entende-se que uma coisa é salvar o pescoço de José Sarney em nome da "governabilidade'; outra, bem diferente, seria expor os fios desencapados do Maranhão -e do setor elétrico- na vitrine da campanha presidencial.
Deu em água. Rendeu quase nada o pesado investimento do PT para dividir o PMDB em São Paulo. Na sexta-feira, Orestes Quércia previa, em tom sereno, que o adversário Francisco Rossi "talvez" chegasse a 20% dos votos na disputa. Rossi alcançou pouco mais de 10%.
Eu? Imagina! Mesmo antes de tomar a invertida da "lista tríplice", Michel Temer teve o cuidado de não bater de frente com Quércia, pró-Serra, na eleição do diretório paulista. Chegou inclusive a colocar representantes na chapa do atual presidente.
Vespeiro. Adesivo posto para circular em São Paulo: "Serra-Aécio: Unidade para o Brasil". Com receio de irritar Aécio, tucanos próximos a Serra fazem questão de dizer que nada têm a ver com a ideia, promovida no Twitter pelo deputado Raul Christiano.
Explosivo. Aqui e ali, detecta-se uma movimentação de Geraldo Alckmin para eventualmente emplacar uma chapa "puro sangue" em São Paulo. Em troca, o PSDB ofereceria ao DEM uma vaga ao Senado. Os "demos" vão gritar.
A conferir. O anúncio da pré-candidatura de José Fogaça (PMDB) ao governo gaúcho animou os tucanos, apesar da anunciada disposição de Yeda Crusius em buscar a reeleição. "A Yeda não é nenhum Arruda. Ela fará o que for melhor para o partido", diz o presidente do PSDB, Sérgio Guerra. Será?
Script. No ano em que Dilma tentará se eleger presidente, a Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência pretende lançar um livro sobre mulheres na ditadura.
com SILVIO NAVARRO e LETÍCIA SANDER
Tiroteio
"Esta estratégia já deu errado antes. O Amorim está tentando tratar o cara como sub do sub do sub. E ele não é."
Do senador ARTHUR VIRGÍLIO (PSDB-AM), sobre a recusa do ministro Celso Amorim em receber hoje o responsável por América Latina de Washington, Arturo Valenzuela, num momento de contenciosos envolvendo o Brasil e os EUA.
Contraponto
Ondas gigantes
Heráclito Fortes (DEM-PI) anunciava voto favorável a um acordo bilateral com a Nova Zelândia na área de turismo, na Comissão de Relações Exteriores do Senado, usando como argumento o fato de brasileiros viajarem àquele país para praticar esportes radicais.
-E qual é mesmo a sua modalidade? Surfe? Asa delta?- brincou o colega Roberto Cavalcanti (PRB-PB).
O "demo" estufou o peito estufado e filosofou:
-Na vida e na política, já não radicalizo mais em nada...
RICARDO NOBLAT
O jardineiro feliz
O GLOBO - 14/12/09
Jamais Lula foi tão franco e direto a respeito do assunto quanto na última quinta-feira em São Luís do Maranhão, reduto político de quem já foi chamado por ele de ladrão: “Não se trata de ter amigos ou não ter amigos. Não se trata de ter afinidade ideológica ou não ter afinidade ideológica. Se trata do pragmatismo da governança”. Perfeito!
Lula poderia ter admitido que existe limite para tudo.
Paulo Maluf estabeleceu o dele em casos onde aflorem os instintos mais primitivos: “Estupra, mas não mata”. Vai ver que não existem limites para Lula. Vai ver que seu índice de popularidade serve antes de tudo para justificar transgressões.
Em 2006, durante comício em Belém, Lula agradeceu o apoio de Jader Barbalho (PMDB) beijando sua mão.
As mãos de Jader — logo aquelas mãos! — haviam sido algemadas anos antes sob a suspeita de ter manuseado dinheiro público desviado irregularmente. Tem voto? Vem para meu jardim você também, vem...
Jader é hoje mais uma flor exuberante no quintal do jardineiro feliz onde estão reunidos Fernando Collor, José Sarney, Romero Jucá, Romeu Tuma, Sandro Mabel, Severino Cavalcanti, e por aí vai. Sem esquecer os mensaleiros. E a maior fatia do PMDB. Se colhidos formariam um belo ramalhete a ser depositado no altar da governança.
Esse não foi o Lula eleito presidente da República em 2002 pela maioria dos brasileiros.
O Lula escolhido batia duro na corrupção e prometia manter segura distância de corruptos.
Mas é fato que sempre existiu o Lula para quem vale tudo quando o poder está em jogo. Apenas havia sido disfarçado por artes da propaganda e do marketing.
A poucos meses de ser eleito presidente pela primeira vez, por exemplo, Lula testemunhou em um apartamento de Brasília a compra do apoio do PL à sua candidatura.
Custou pouco mais de R$ 6 milhões. Foi fechada por José Dirceu, Delúbio Soares e o deputado Valdemar Costa Neto, presidente do partido.
Apontado mais tarde pela CPI dos Correios como um baita mensaleiro, Valdemar renunciou ao mandato para escapar de ser cassado.
Dirceu foi demitido da chefia da Casa Civil — afinal, como Lula não sabia do mensalão, alguém tinha que saber. Cassaram-lhe o mandato de deputado. Delúbio está de volta como aspirante a deputado.
Com o escândalo do mensalão Lula extraiu uma lição perversa: para conservar o poder deveria ceder a todas as exigências dele. No primeiro mandato, por birra ou erro de cálculo, resistira a sentar no colo do PMDB — ou a pô-lo no colo.
No segundo escancarou as porteiras para o PMDB e mais 13 partidos. Sem essa de perder o poder.
Perdera Dirceu, que poderia sucedê-lo. E Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda, pobre vítima do então presidente da Caixa Econômica Federal que, à sua revelia, quebrou o sigilo bancário de Francenildo da Costa, o caseiro que disse ter visto Palocci dezenas de vezes em uma mansão alegre de Brasília.
Não foi esse o entendimento do Supremo Tribunal Federal? Não se trata, por todos os méritos, da mais alta corte de homens sábios, justos e coerentes do país? E então? Puna-se o ex-presidente da Caixa porque Palocci já foi injustamente punido no rastro do escândalo turbinado pela mídia golpista.
Uma vez mandados às favas todos os escrúpulos, Lula olhou para Dilma Rousseff e disse: eis alguém que poderá me suceder para depois ser sucedido por mim. Nem Dilma se julgava tão capaz.
E Lula deve ter pensado: como filho do Brasil e um de muitos de Deus, estou certo.
Se não estivesse, Ele me daria algum sinal.
E Lula viu a oposição. Retificando: Lula não viu porque ela não existe. Viu uma gente medrosa, desarticulada, sem discurso e ao que parece conformada com o desastre que se avizinha. E Lula finalmente concluiu: Vai dar! Anote aí: Lula vencerá em 2010. Salvo se Dilma perder.
Charada? Não. Em 2002, Ciro Gomes perdeu para ele mesmo tantos foram os erros que cometeu. Dilma não está livre disso.
SEGUNDA NOS JORNAIS
- Globo: Berlusconi vai a nocaute
- Folha: União quer controlar as águas do subsolo
- Estadão: Governo brasileiro sobe o tom na COP-15
- JB: Um verão de R$ 3,2 bi para o Rio
- Correio: Dilma cobra a conta dos países ricos
- Valor: Embraer corta de novo previsão de produção
- Estado de Minas: Acordo derruba 85% dos outdoors nas ruas de BH
- Jornal do Commercio: Universidade grátis
domingo, dezembro 13, 2009
DANUZA LEÃO
Qualquer pessoa pode encontrar suas próprias preciosidades. Para isso é preciso ter curiosidade
Houve um tempo em que quase tudo era uma festa. Lembra da felicidade que era ganhar uma barra de Toblerone? Ter uma camiseta importada era o supremo prazer, e fazer uma viagem, uma emoção indescritível. Tudo era raro, e por isso tão especial. Mas as coisas mudaram; os Toblerones agora são vendidos nos sinais de trânsito e as camisetas de grife, nos camelôs. Teoricamente é ótimo, já que não é mais preciso ir a Paris para poder ter na geladeira dois potes de mostarda; tudo está na prateleira do supermercado, da água Perrier ao salmão defumado.
Houve um tempo em que as aeromoças eram escolhidas pela beleza, todos os passageiros tratados como VIPs e os brindes das companhias aéreas -o estojinho com a máscara, um minividrinho de água de colônia e o barbeador (fora a caixinha com tabletes de chocolates suíços)- eram apenas o máximo. Lembra da caneta da Varig?
Hoje você pode comer os mesmos pratos em qualquer lugar do mundo e comprar exatamente as mesmas coisas no Rio, em São Paulo, Nova York, Tóquio ou Cingapura. E quando é tudo igual, acaba a graça.
Os especialistas sabem na ponta da língua o que foi lançado a semana passada nos centros de moda, e para ter acesso às coisas é só comprar uma revista e ter uma conta bancária razoável. É mais democrático? É. E tem graça? Nenhuma.
Mas ainda existem coisas que só alguns poucos conhecem, endereços guardados preciosamente e só divididos com pessoas nas quais se tem total confiança. São segredos de Estado, praticamente, mas você também pode fazer sua agenda, única e pessoal, personalíssima. Um pequeno restaurante que não faz parte de nenhum guia gastronômico pode ser inesquecível, tanto como descobrir numa pequena cidade do interior da Itália, ou do Nordeste, a bordadeira que faz os mais lindos lençóis, de fazer babar uma princesa belga. Ainda existem no mundo coisas e lugares que mexem com nossos corações. É aquele bistrô bem pequeno que nunca vai abrir uma franquia; é a bordadeira que nunca vai vender suas peças para uma cadeia de lojas porque cada jogo de lençóis leva seis meses para ficar pronto.
Sabe que existem pessoas que saem pelo mundo com as reservas dos restaurantes feitas e que já sabem até o que vão comer? Isso é a maior prova da falta de imaginação, que deveria ser crime previsto no Código Penal. E o acaso? E a aventura? E a maravilha do inesperado?
Qualquer pessoa pode encontrar suas próprias preciosidades. Para isso é preciso ter curiosidade, bom gosto -e um pouco de personalidade sempre ajuda. Dá trabalho, mas vale a pena, pois só assim se escapa do tédio do mundo atual.
Faça a sua parte: pesquise, procure e ache aquele tecido -seja ele o mais modesto algodão ou o mais caro brocado- que é único; ou aquele restaurante modesto, numa rua escondida, onde vai encontrar uma deliciosa empada de camarão que poucos conhecem, pois ainda não foi descoberta pelos que fazem os guias. Na sua memória ela será, sempre, a mais especial, por ter sido descoberta por você. E quando isso acontecer, não conte a ninguém, só a quem merece. Faça isso sempre, todos os dias da vida; é esse o verdadeiro luxo.
PARA MINHAS LEITORAS
(Chegou a nossa vez!!!!!!...rsrs)
Depois de tantos e-mails machistas pela net... eis a revanche:
CORAÇÃO DE MULHER É IGUAL A CIRCO:
sempre tem lugar para mais um palhaço..."
O QUE SE DEVE DAR A UM HOMEM QUE PENSA QUE TEM TUDO?
Uma mulher para ensiná-lo como funciona !
POR QUE AS ARANHAS VIÚVAS-NEGRAS MATAM O MACHO DEPOIS DA CÓPULA?
Para acabar com o ronco antes que ele comece.
POR QUE OS HOMENS QUEREM CASAR COM VIRGENS ?
Pq eles não suportam críticas!(ótima!!!)
COMO SE CHAMA UM HOMEM INTERESSANTE NO BRASIL?
Turista .
POR QUE DEUS CRIOU O HOMEM ?
Porque vibradores não cortam grama. (ótima)
O QUE TÊM EM COMUM O CLITÓRIS, OS ANIVERSÁRIOS E O VASO SANITÁRIO?
Os homens sempre erram!
POR QUE APENAS 10% DOS HOMENS VÃO PARA O CÉU?
Porque se todos fossem, seria o inferno !
QUAL A DIFERENÇA ENTRE HOMENS E PORCOS ?
Porcos não viram homens quando bebem ..
QUAL A DIFERENÇA ENTRE UM HOMEM E UM PAPAGAIO?
Você pode ensinar o papagaio a falar cordialmente (ótima) :D
O QUE AS MULHERES MAIS ODEIAM OUVIR QUANDO ESTÃO TENDO SEXO DE BOA
QUALIDADE?
"Querida, cheguei."
POR QUE OS HOMENS NA CAMA SÃO COMO COMIDA DE MICROONDAS?
30 segundos e já está pronto !
QUAL O NOME DA DOENÇA QUE PARALISA AS MULHERES DA CINTURA PRA BAIXO?
Casamento
O QUE ACONTECEU À MULHER QUE CONSEGUIU ENTENDER OS HOMENS?
Ela morreu de tanto rir e não teve tempo de contar a ninguém. (ótima)
POR QUE É QUE OS HOMENS TÊM A CONSCIÊNCIA LIMPA ?
Porque nunca a usam...(perfeito) :cool:
O QUE ACONTECE COM UM HOMEM, QUANDO ENGOLE UMA MOSCA VIVA ?
Fica com mais neurônios ativos no estômago do que no cérebro!!! rs...
POR QUE DEUS CRIOU PRIMEIRO O HOMEM, E DEPOIS A MULHER?
Porque as experiências são feitas primeiro com animais e depois com
humanos!!!
(essa é a melhor revanche)
POR QUE OS HOMENS GOSTAM DE MULHERES INTELIGENTES?
Porque os opostos se atraem!(hahaha)
QUAL O LIVRO MAIS FINO DO MUNDO ?
"Tudo o que os homens sabem sobre as mulheres"
QUAL A DIFERENÇA ENTRE OS HOMENS E AS FRUTAS?
Um dia, as frutas amadurecem... :rolleyes:
POR QUE AS PILHAS SÃO MELHORES QUE OS HOMENS?
Porque elas têm pelo menos um lado positivo..
QUAL A SEMELHANÇA ENTRE O HOMEM E O CARACOL ?
Ambos se arrastam, têm chifres, e acreditam que a "casa" é deles!!!(hahaha) :D
POR QUE UM HOMEM NÃO PODE TER UM BOM CARÁTER E SER INTELIGENTE AO MESMO
TEMPO?
Porque assim seria mulher !!!
O QUE DEUS DISSE DEPOIS DE CRIAR O HOMEM ?
Creio que posso aperfeiçoá-lo...
POR QUE SÃO NECESSÁRIOS MILHÕES DE ESPERMATOZÓIDES PARA FERTILIZAR UM ÚNICO
ÓVULO ?
Porque osespermatozóides são masculinos e se negam a perguntar o caminho
!!!(hahaha)
QUANDO É QUE UM HOMEM PERDE 90% DE SUA INTELIGÊNCIA?
Quando fica viúvo !
E QUANDO É QUE ELE PERDE OS 10% RESTANTES ?
Quando morre o cachorro...
JOÃO UBALDO RIBEIRO
Herculano e o capenguinha – O retorno
Deu-se que Chiquinho de Enedina, depois de anos como sineiro, começou a não escutar mais quase nada, além de padecer de uma cruel zuzuia, onomatopeia que descreve com felicidade uma zumbideira no zuvido. Zuzuia essa que só passou quando ele se pegou com o santo padroeiro dos surdos, por acaso xará dele, o grande São Francisco de Sales. Quanto tempo o santo levou para tomar uma providência, não se sabe. O que se sabe é que foi mais ou menos na época em que Jacob Preto lavou os olhos com água da fonte de Santa Luzia todo dia durante três meses, ao final dos quais a santa apareceu a ele num sonho.
–– Seu Jacob, me compreenda uma coisa – disse a santa –, eu dei grande valor às suas rezas e suas lavagens de olhos na água da minha fonte, de maneira que, de hoje, em diante, o senhor vai ter a melhor vista do mundo, ou não me chamo Luzia.
Dito e feito, porque, alguns dias depois, os dois conterrâneos estavam à beira do cais, apreciando o nascer do sol, quando Jacob apertou os olhos e mirou na direção das torres da igreja do Bonfim, em Salvador, do outro lado da baía de Todos os Santos.
–– Iéguas! – exclamou ele, usando a interjeição mais comum na ilha. –– Iéguas! Quando Santa Luzia fala, pode escrever! Você acredita que daqui eu estou vendo os pombos na torre da igreja? Estou vendo como se fosse aqui, tem um pretinho ali do lado esquerdo, dois cinzentinhos...
–– Bom, ver eu não estou vendo, não, que meu santo é outro – disse Chiquinho. Mas estou ouvindo as pisadinhas deles.
Pois é. Concedo que, no caso, talvez a ação dos santos, já por si mesma poderosa, se robusteça ainda mais com a afamada radioatividade que envolve toda a ilha, nunca se sabe. Lamentavelmente, não posso pedir a ajuda deles, pois suas especialidades não se endereçam a minhas necessidades e não estou mais na ilha. Estou, na verdade, me preparando para, depois de intensa preparação psicológica, durante a qual muitas vezes temi o fracasso, voltar a caminhar no calçadão – é o que estou lhes dizendo, em absoluta primeira mão.
Cumprimento-me por ter persistido em calçar os tênis sozinho. Estive à beira de pedir ajuda e houve um momento em que achei que somente os bombeiros resolveriam o problema, mas terminei por vencer e eis-me agora pronto para o grande reingresso. Mas nem chego perto da rua. Antes de sair, já dá para perceber que o tempo não está colaborando e chove aos potes. O jeito é esperar, talvez ir para a beira do terraço, para pelo menos assistir ao oscilar satisfeito das plantas debaixo da chuva.
Quem vejo lá no canto, impassível e como sempre fazendo pose em cima da cerca? Isso mesmo, Herculano, o gavião que andava sumido havia meses e que já fora dado como finado pelos mais pessimistas. Parecendo que ficou ainda maior do que já era, talvez estivesse voltando de uma excursão recreativa ou tivesse viajado para constituir família. Também como sempre, ignora minha presença, a não ser que eu chegue excessivamente perto. Se eu faço isso, ele me olha como quem diz que só não me dá uma unhada no meio da testa porque está sem saco, abre as asas e decola com desdém.
O regresso dele deve ser um bom sinal. Entre os muitos livros loucos que já li nesta vida airada, estavam alguns que falavam nos augúrios da antiguidade. Mas só me lembro, não sei por quê, dos augúrios com corujas e mochos, nada com gaviões ou águias. Decido então que a presença de Herculano é um bom presságio, tudo de bom acontecerá na minha nova temporada no calçadão. Cumprimento-o à distância, ele parece reconhecer minha saudação, embora não a retribua. É tudo auspicioso, sim, até mesmo a chuva passou. Já em passo acelerado e decidido, tomo o rumo da orla.
Não posso reclamar, quando, ainda antes de chegar à primeira esquina, vem na direção oposta à minha uma senhora que conheço de vista aqui mesmo na rua e estaca, fazendo sinal para que eu também pare. Como ainda não estou oficialmente em caminhada, as normas permitem a interrupção. Ela me dava parabéns, era o primeiro dia da volta, não? E o capenguinha, eu estava pronto para o capenguinha?
O capenguinha, como pude esquecer dele? Meio sem graça, despedi-me dela, andei devagar e pensativo até o calçadão. Já do outro lado da rua, examinei os caminhantes, não havia sinal dele. Sem querer cair na armadilha da pressa e da precipitação, olhei de novo. Não, capenguinha nenhum – e, aliviado, comecei a andar. Mas que é isso que pressinto aqui atrás de mim, esses passinhos, que serão? Não tive tempo de pensar muito e – zupt! – eis que me passa ele, saído de não sei onde, a perninha curta em rápido movimento de compasso apoiado na perna mais comprida e aqui estou eu comendo poeira outra vez. Acho que vou deixar a caminhada para as resoluções de ano novo.
ANNA RAMALHO
Para depois
JORNAL DO BRASIL - 13/12/09
Impossibilitado de comparecer à festa do PT, semana passada, em Brasília, o presidente Lula deve receber sua homenagem como ex-presidente do partido só em fevereiro. A entrega pode ocorrer em um dos quatro dias do congresso pelos 30 anos do PT. Marco Aurélio Garcia, José Genoino, Tarso Genro e Rui Falcão também serão laureados.
No grid de largada O Datafolha está prestes a ir às ruas para pesquisa sobre os candidatos ao governo do estado em 2010. O instituto espera apenas a definição dos concorrentes ao estado de São Paulo. E o Rio?!
Dor de cabeça Uma preocupação ganha força no ninho tucano: o ano chegou ao fim e o partido não tem um nome forte para concorrer, no ano que vem, ao governo do estado.
Nos bicos No PSDB também ganha força a candidatura da vereadora Lucinha a uma vaga na Alerj no ano que vem. Procurada pela coluna, a assessoria da edil faz mistério: – Há voos mais altos nos planos dela.
Rio na cabeça A realização de eventos internacionais no Rio cresceu. Só este ano, segundo levantamento da Secretaria de Turismo, Esporte e Lazer, a cidade recebeu mais de 300 seminários, fóruns e encontros sobre futebol, muitos deles em razão de o Brasil ser, depois da África do Sul, o próximo anfitrião da Copa.
Eu bebo sim! Não será surpresa para a coluna se a boa e velha batida do Osvaldo, na Barrinha, virar patrimônio cultural.
E não é papo de bêbado: o oficio está em análise na Subsecretaria de Patrimônio Cultural.
Prêmio A luta pela justiça, paz e pelos direitos humanos fundamentais será destaque, quarta-feira, na entrega do Prêmio Alceu Amoroso Lima – Direitos Humanos 2009, na Universidade Candido Mendes, Centro. Criado pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, em Petrópolis, na região Serrana, o prêmio é conferido anualmente a pessoas e grupos que se empenham no avanço dos direitos sociais no Brasil.
Premiados Este ano, a premiação será outorgada ao frei Henri Burin des Roziers, coordenador da Comissão Pastoral da Terra da região do Xinguara, no Pará. Na ocasião, também serão entregues as Menções Honrosas ao teólogo Leonardo Boff e à Maria Luiza Marcílio, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Universidade de São Paulo.
Mamãe Noel Com viagem marcada para a Europa, onde ficará 20 dias, Lily Marinho não vai interromper o tratamento estético que faz em uma clínica no Leblon. Primeiro, sondou a própria funcionária, que lamentou não poder atender ao convite por ter uma agenda a cumprir.
Inconformada, Lily não desanimou: foi à dona do espaço e comprou os horários da sortuda profissional, que ainda levará o filho para o Velho Continente.
Fazendo barulho O tal onanista desinibido é, como publicado aqui semana passada, o assunto no TJ. Faltou só dizer que o tal desembargador é do Ministério Público. No mais, cala-te boca!
Palavra final Para falar da tetraplegia de Luciana (Alinne Moraes) em Viver a vida, Manoel Carlos tem um consultor e tanto: Luis Eduardo Carelli, chefe do Centro Raquemedular do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia. Carelli torce inclusive pela plena recuperação da personagem: – No Into, alguns pacientes já voltaram a andar – garante.
Virou point O Andy’s – mais uma bolação de sucesso de André Cunha Lima – já faz moda, às vésperas do verão, no Baixo Leblon. Suas brown bags circulam em mãos descoladíssimas como as de Deborah Colker, Manoel Carlos, André Piva e Carlos Tufvesson, Roberta Sudbrack, José Maurício Machline e Isabela Capetto.
Todo mundo caindo de boca no cachorro-quente.
Nota de falecimento Dois famosos botecos do Centro do Rio vão fechar as portas: o Bico Doce, dia 18, e o Algarves, dia 23. Para tristeza de seus fieis frequentadores.
Dó de peito Aterrissam esta semana no Rio o tenor Georgiy Arivle e o mezzo soprano Oxana Korkievskaya, ambos solistas do Bolshoi. Apresentamse, sábado, no Concerto de Verão, no Morro da Urca. Com o Municipal fechado e a Cidade da Música entregue às moscas e mosquitos da Barra, o ponto turístico será o refúgio para os melômanos.
Pas-de-deux Não ficará restrito às páginas o conteúdo de Corpo estranho, terceira coletânea poética da ótima Rosane Carneiro, que será lançada, quarta, naPrefácio.A convite do Sesc, um recital unindo leitura dos poemas pela própria autora à coreografia criada por Fernando Azevedo foi apresentado na instituição. Diante da aclamação dos 200 espectadores, a dupla quer levar o casamento adiante.
Raspadinhas
O ARQUITETO Índio da Costa ganhou o prêmio Destaques Abece 2009 pelo projeto da Escola Sesc de Ensino Médio, na Barra.
O PÁTIO TROPICAL, restaurante do Rio Othon Palace, recebe, quarta-feira, integrantes do Projeto Uerê, de Yvonne Bezerra de Mello, para uma apresentação de dança e do coral das crianças. O evento é aberto ao público e tem início às 15h.
A PERNOD RICARD BRASIL e a Wines and Roses do Rio lançam a famosa champagne francesa Perrier Jouet nas versões Belle Epoque, Gran Brut e Blason Rose.
O ENGENHEIRO José Pougy lança, amanhã, na estação de trem do Corcovado, livro com histórias sobre o Cosme Velho.
A ORQUESTRA CRIOLA volta para mais uma domingueira, logo mais, no Rio Scenarium.
JANIO DE FREITAS
A ameaça
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/12/09
Temor ligado a publicação ainda desconhecida é a censura prévia baseada no princípio da arbitrariedade
COM ATRASO , ligo a TV na sessão em que o Supremo Tribunal Federal se manifestará sobre um assunto que nos diz respeito a todos, leitores em geral e jornalistas em particular. É a censura, posta outra vez em questão pela reiterada proibição judicial, já vigente há quatro meses e meio, de que "O Estado de S. Paulo" dê sequências a reportagens, com dados de investigações policiais, sobre um cidadão como qualquer outro (Fernando Sarney).
Alívio. Chego no instante exato em que um ministro, dos mais convictos de suas verdades, proclama: "Não há censura". Aí está, viva e vigorosa, a nossa maltratada Constituição, por tudo o que diz já no art. 5º e explicita no 220: "A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição". Liberdade plena? Não. Infrações a outros dispositivos constitucionais sujeitam-se a penalidades diversas.
No caso da censura discutida, não cerceou opinião ou julgamento moral, mas informação: notícia de fatos relacionados pela Polícia Federal, integrante do Ministério da Justiça. Mas "não há censura", logo fica claro, no dizer do ministro do STF, significa que a proibição antecipada à publicação daquelas notícias não é censura. E, apesar de emitida por decisão judicial, "não é censura judicial". Expressão que o ministro repele, porque "o juiz está limitado pela lei, e o censor, não". Por isso, "é descabido falar em censura judicial. Não há censura. Há aplicação da lei".
Façamos ao censor oficial, que parece ser o mencionado pelo ministro, a mínima justiça de que, se o juiz e todos nós estamos limitados, ele está autorizado por "constituição" ditatorial, atos institucionais e, acima da força dessas farsas jurídicas, pela força das armas que a nação põe em mãos de alguns a pretexto de protegê-la, não para dela se apropriarem.
O vernáculo não perdoa, porém. Proibição de divulgar chama-se censura, sem distinção de sua autoria. E, se procedente do Judiciário, a adjetivação cabível é mesmo a de censura judicial. Não há filigranice jurídica que ludibrie a associação de vernáculo e senso comum.
O menos formal e mais substancioso ainda viria, no entanto. E sem surpreender que o fizesse pelas ideias do próprio presidente do STF, Gilmar Mendes. A proteção proporcionada pela lei contra publicações, pensa ele, não pode ser apenas quando já feita a publicação. A seu ver, são necessários dispositivos antecipatórios contra "a ameaça" de violação de direitos.
Ocorre que "a ameaça" relacionada a uma publicação ainda desconhecida é uma presunção -tanto no sentido de suposição como no de pretensão. É, como base de leis, a própria censura prévia baseada no princípio da arbitrariedade: a censura antidemocrática.
Sua defesa no Supremo Tribunal Federal tem muitos precedentes. Mas em outros tempos.
ALBERT FISHLOW
Um mundo menos quente
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/12/09
Combater o aquecimento e o terrorismo tem custos; a melhora econômica dos EUA torna os esforços mais viáveis
O FINAL do ano está se aproximando. Mas o mundo mal percebe. Diversas atividades prosseguem em ritmo frenético. Copenhague aguarda os líderes de mais de cem países, na semana que vem, para que firmem um pré-acordo sobre os princípios de combate ao aquecimento global no período pós-Protocolo de Kyoto. Um documento definitivo terá de aguardar até a reunião de dezembro do ano que vem, no México. Pela primeira vez em uma década, os Estados Unidos voltaram a se envolver nesse processo de maneira profunda.
Quase todo mundo favorece medidas ousadas para evitar as potenciais consequências de uma negligência continuada. O problema, como sempre, está nos muitos detalhes a negociar. Os países apresentam ofertas de futuras reduções tomando como base anos que lhes são vantajosos. Declínios relativos quanto ao que teria sido a norma continuam a ser a prática padrão, desconsiderando os aumentos absolutos que continuarão a ocorrer, como na China e Índia. Os países desenvolvidos ricos estão sendo responsabilizados por sua passada negligência e terão de pagar o preço.
Mas quem vai pagar, e quanto, e quem vai receber? O Greenpeace está apelando por uma transferência da ordem de US$ 140 bilhões, enquanto o projeto de lei para a redução das emissões de carbono que foi aprovado recentemente pela Câmara dos Deputados norte-americana fala em valor próximo a US$ 7 bilhões. A diferença não é trivial.
E tampouco existe uma maneira de garantir que esses acordos internacionais serão cumpridos: os compromissos iniciais assumidos em Kyoto não o foram. Fiscalizar o cumprimento de obrigações multilaterais não é nada fácil. E, além disso, os Estados Unidos jamais ratificaram o Protocolo de Kyoto. Aliás, a Lei do Mar continua a aguardar aprovação formal do Senado, a despeito de esforços anteriores, em 1994, para satisfazer a algumas das objeções.
Esse assunto atraía muita atenção em toda parte, e o mesmo pode ser dito sobre a entrega do Prêmio Nobel da Paz ao presidente Barack Obama. A cerimônia aconteceu pouco depois de ele anunciar a decisão de enviar mais 30 mil soldados norte-americanos ao Afeganistão, uma medida que contraria a opinião das maiorias, não só em seu país como no exterior.
O discurso de Obama em Oslo tratou de forma eloquente a questão central em disputa: "O terrorismo é tática usada há muito; no entanto, a tecnologia moderna permite que alguns poucos homens pequenos, dotados de raiva descomunal, assassinem inocentes em escala horripilante". A parte difícil é determinar quando intervenções militares constituem a resposta adequada. Isso é sempre mais fácil em retrospecto, como no caso do conflito entre hutus e tutsis em Ruanda, na África, em 1994, cujas raízes são ainda mais antigas.
Obama defendeu um papel especial para os Estados Unidos, ainda que enfatizasse a importância de um multilateralismo mais amplo. É dessa dualidade que nasce o problema. Um dos motivos para o envolvimento remonta ao ataque ao World Trade Center em setembro de 2001. O Taleban fornecia refúgio e apoio à Al Qaeda, no Afeganistão. A história faz diferença.
As duas soluções têm custos, e não apenas financeiros. A melhora da situação econômica dos Estados Unidos torna esses esforços muito mais viáveis agora do que teriam sido alguns meses atrás.
Tradução de PAULO MIGLIACCI
Albert Fishlow , 73, é professor emérito da Universidade Columbia e da Universidade Berkeley. Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.
SUELY CALDAS
Previdência e incompreensões
O ESTADO DE SÃO PAULO - 13/12/09
A proposta de dar força de lei à autonomia operacional do Banco Central (BC) avançou poucos passos, na quarta-feira, com a aprovação de relatório favorável pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Tramitando há mais de dois anos, agora o projeto segue para a Comissão de Assuntos Econômicos. Se aprovado, volta para reexame na CCJ para, finalmente, ser votado em plenário. Quando isso ocorrerá? Ninguém sabe, provavelmente em futuro pra lá de remoto - se vier a ocorrer um dia.
A autonomia do BC é desses assuntos que afetam a vida de todos os brasileiros, mas, como não é visível nem sentido no nosso cotidiano, não ganha a prioridade e a importância merecidas, é de complexa compreensão e presa fácil na verborragia demagógica de políticos oportunistas.
A autonomia legal é necessária porque "separa o poder de gastar dinheiro (Executivo e Congresso) do de emitir dinheiro (BC), especialmente em véspera de eleições", define o economista Edmar Bacha. Essa mistura promíscua de poderes ocorreu ao longo da história do País e mais tragicamente no final da década de 80, no governo Sarney, quando a inflação anual ultrapassou 1.000%, arruinou a economia, fez sumir investimentos e suprimiu empregos e salários.
Se a principal missão do BC é controlar a inflação e garantir a estabilidade da moeda, tomar decisões com autonomia e longe dos políticos é o que protege a saúde da economia e o poder de compra do cidadão comum, sobretudo em épocas de gastança de campanha eleitoral.
Não há ideologia nessa questão. John Maynard Keynes, papa do intervencionismo estatal, a defendia, e o neoliberal Milton Friedman a criticava. Na Inglaterra ela chegou com o trabalhista Tony Blair, depois de 18 anos de negativas de governos liberais. No Chile, foi decidida na ditadura de Pinochet e preservada nos governos democráticos. FHC e Lula respeitaram e não interferiram em decisões relevantes do BC. Mas se negaram a formalizar sua autonomia em lei. No Congresso é a oposição que defende a ideia e a base aliada, sobretudo o PT, a bombardeia. Não interessa aos políticos uma lei que impeça sua interferência em decisões sobre taxa de juros, aumento da dívida e emissão de dinheiro. Eles sempre querem gastar mais do que têm e podem. À população interessa o oposto.
Previdência - Sempre que escrevo sobre Previdência, como domingo passado, preparo-me para receber e-mails indignados. É natural. Afinal, cheia de remendos e vícios, nossa Previdência é hoje um monstrengo injusto. Mas, surpreendentemente, desta vez os e-mails estavam mais brandos, reconhecem que a bola de neve do déficit previdenciário pode prejudicar as futuras gerações e alguns apontam soluções para o problema. Abaixo transcrevo um resumo das principais reclamações e propostas de solução contidas nos e-mails:
Há uma revolta geral contra a diferença de regras válidas para funcionários públicos e políticos, que se aposentam mais cedo e com salário integral, enquanto trabalhadores privados têm teto limitado a 10 salários mínimos, que se reduz com a aplicação do fator previdenciário. O leitor Roberto Nolasco diz que a contribuição do militar cobre só 8% do que ele custa e defende um teto único do valor do benefício para funcionários públicos e privados.
Gustavo Veiga diz que a Previdência "é injusta, trata iguais de forma diferente; alguns são mais iguais do que outros" e propõe uma "nova Previdência igual para todos, homens, mulheres, funcionários públicos e da iniciativa privada rural e urbana". Essa foi a primeira proposta de reforma de Lula, mas o governo petista recuou rapidinho diante de pressões políticas de funcionários, deputados e senadores.
Dílson Melo conta que se aposentou com 37,5 anos de contribuição, dos quais 20 anos sobre 20 salários e 17,5 anos sobre 10. Começou ganhando 7 mínimos (R$ 3.255) e agora recebe só 4,7 (R$ 2.185,50). Desde o cruzado, sucessivos planos econômicos encolheram os benefícios pagos pelo INSS.
A revolta se estende contra a aposentadoria rural, que custa quase metade da folha do INSS e nenhum centavo de contribuição. E contra a isenção que privilegia entidades erroneamente chamadas de filantrópicas, mas que na verdade buscam obter lucros financeiros, como clubes de futebol.
Quando se fala de Previdência, todos e ninguém têm razão. Mas há um aspecto positivo: mais de uma década de debate e até os aposentados reconhecem que o problema existe e é preciso encontrar solução.
Suely Caldas, jornalista, é professora de Comunicação da PUC-Rio (sucaldas@terra.com.br)
CARLOS EDUARDO NOVAES
Nação rubro-negra
Sabe quantos habitantes tinha Israel quando da criação de seu Estado em 1948? Pouco mais que a torcida do América! Fosse independente a nação rubronegra teria um PIB maior do que o da Bolívia e do Paraguai juntos. Pelo que se viu domingo no Maracanã, nas comemorações à noite e no espaço que lhe concedeu a mídia dia seguinte, o Flamengo é um fenômeno que transborda as fronteiras do país. Teve flamenguista festejando nas ilhas Papua Nova Guiné! Significa dizer que ao se tornar uma nação independente o Flamengo não terá dificuldades para montar suas embaixadas. Projeções modestas informam que em 2060 a nação rubro-negra terá 100 milhões de habitantes (se o mundo não acabar até lá). Enquanto escrevo penso como seria importante a presença da torcida do Flamengo na Conferencia do Clima em Copenhague. Já imaginou aquela galera gritando por menos CO2 na atmosfera? A grande duvida é quanto à posição do Brasil diante das futuras reivindicações rubro-negras. O Governo brasileiro sabe que a independência do Flamengo vai desequilibrar toda a economia nacional.
Será que o Governo estará disposto a repetir o que fez a Grã-Bretanha com suas colônias? Mais: será que o Brasil cederá um pedaço de terra onde os rubro-negros possam viver em paz e criar seus filhos longe da influencia de vascaínos, tricolores e alvinegros? “Viver em paz” – entenda – é pura força de expressão porque, pelo que se vê, as torcidas flamenguistas brigam tanto entre si quanto as facções palestinas. Meu medo é que os fundamentalistas rubro-negros resolvam criar um movimento separatista , conquistem o Rio e expatriem os outros clubes cariocas para Niterói.
Há rumores de que o Governo estaria procurando um local onde a nação rubro-negra possa instalar a Republica Democrática do Urubu.
Flamenguistas já advertiram que não aceitarão terras no Oriente Médio nem naquelas ilhotas que estão afundando no Pacifico. Sua preferência recaí – é obvio – sobre o bairro do Flamengo onde surgiu há mais de um século a civilização rubro-negra. É dali que o Flamengo pretende expandir seus domínios, inspirado nas conquistas do antigo Império Romano. O clube já tem hino, bandeira e para virar um país basta criar uma moeda nacional.
Sob muitos aspectos a nação rubronegra está mais adiantada do que a nação brasileira. Pelo menos já garantiu uma mulher na presidência!
TOSTÃO
Troca de panetones
JORNAL DO BRASIL - 13/12/09
Mário Sérgio, ex-técnico do Inter, falou, no programa Arena SporTV, que se sentiu ofendido por eu lhe ter chamado de Professor Pardal. Não quis ofendê-lo. Apenas repeti, com ironia, o que tantos dizem, que ele inventa demais.
Já chamei Adílson Batista de Professor Pardal, e ele não se ofendeu. Aliás, foi o próprio técnico quem primeiro falou que agiu como um Professor Pardal, ao fazer uma estranha substituição em um jogo do Cruzeiro. Adílson Batista é hoje um dos principais treinadores brasileiros. De vez em quando, tem uma recaída.
Mário Sérgio, no mesmo programa, disse que me deu apoio quando comecei a trabalhar de comentarista, na TV Bandeirantes. É verdade. Não só ele, como Gérson e Rivellino, companheiros na seleção de 1970, que também me apoiaram.Uma coisa é o técnico que inventa demais, que faz alterações inexplicáveis, que acha que só ele entende de futebol, e que começa e termina a carreira como Professor Pardal. Outra é o treinador inquieto, criativo, que sabe muito, que tenta soluções diferentes, algumas no momento errado. Este, com o tempo, vai se tornar um grande treinador. No início de carreira, é difícil separá-los.
Por termos trabalhado juntos, Mário Sérgio reclamou de minhas críticas e ainda, mesmo sem dizer textualmente, me cobrou uma dívida por ter me tratado bem. Alguns (poucos) treinadores, dirigentes e atletas também já reclamaram. Por eu ter sido um atleta, acham que eu deveria ser menos crítico, mais condescendente, como fazem alguns ex-atletas comentaristas.
Por ter sido um jogador importante da história do Cruzeiro, alguns dirigentes já reclamaram de minhas críticas e de minha ausência em eventos do clube. Não vou a esses e a outros encontros, no Cruzeiro e em outros lugares, porque não quero perder a liberdade e a independência de criticar e elogiar.
Esses jogadores, dirigentes e técnicos que reclamam confundem passado com presente, relações profissionais com corporativismo, o que não faz mais sentido, pois parei de jogar há 37 anos. Tenho outra atividade e a obrigação de ser imparcial. De minha carreira de jogador, muitos atletas atuais só sabem que atuei ao lado de Pelé.
As mesmas duras críticas, feitas por comentaristas que não foram atletas, são geralmente mais aceitas e toleradas que as minhas.
O mundo do futebol é parecido com o da política e de parte da sociedade. O Brasil é o país da troca de favores, do “é dando que se recebe”, das patotas, do corporativismo e do nepotismo.
Cada vez mais, as pessoas não se preocupam em ter amigos, ser amadas e ter bons relacionamentos pessoais. Querem ser admiradas, bajuladas e ter ótimas relações profissionais. Só pensam na carreira e no sucesso.
A troca interesseira de favores é caminho para a corrupção, outra praga nacional. O corrupto se relaciona muito bem com outro corrupto. Adoram trocar panetones. O corrupto costuma ser tão social, tão gentil, que até parece ser sério. Para diminuir bastante a corrupção, não bastam duras leis. É necessário também diminuir a promiscuidade social.
CELSO MING
A China turbina o consumo
O ESTADO DE SÃO PAULO - 13/12/09
Aqui tem um "pibinho", lá tem um "pibão". A China não está apenas informando que vai crescer mais de 8% neste ano de crise. Está revelando uma importante mudança na direção de sua economia, agora também voltada para o mercado interno.
Os números apresentados sexta-feira pelo National Bureau of Statistics of China (agência oficial) mostram que o produto industrializado cresceu 19,2% em novembro (em relação ao mesmo mês do ano passado) e que as vendas no varejo tiveram um salto de 15,8% também em novembro, mais do que o dobro do que ocorre hoje na economia global.
Há mais um punhado de surpreendentes novidades. Pela primeira vez na história, ao longo deste ano os chineses comprarão mais automóveis (cerca de 12,8 milhões) do que os americanos (que ficarão com 10,3 milhões), como registra o New York Times. Nos computadores de mesa (desktops), eles também estão à frente: no terceiro trimestre do ano, compraram 7,2 milhões de unidades, enquanto os americanos não passaram dos 6,6 milhões. E praticamente não há item de consumo com desempenho divergente desses, de aparelhos domésticos a roupas e sapatos; de móveis a instrumentos musicais; de joias a obras de arte.
A eclosão da crise global parece ter sido o pretexto para que o governo chinês mudasse a orientação de sua política econômica. Até recentemente, seu sistema produtivo estava essencialmente voltado ao atendimento das exportações. Diante da perspectiva de encolhimento do mercado mundial em consequência da recessão, o governo estimulou o consumo interno por meio do aumento das despesas públicas (políticas anticíclicas) e da expansão do crédito bancário.
Nada menos que 25% dos veículos vendidos neste ano (cerca de 40% a mais do que no ano passado), a uma média de US$ 17 mil cada um, foram financiados pelo sistema bancário chinês. Neste ano (dados até setembro), o movimento dos cartões de crédito havia se expandido perto dos 50%.
É cedo para concluir que a guinada em direção ao mercado interno seja definitiva. O que se pode dizer é que não tem sustentação a longo prazo o arranjo prevalecente até aqui, em que os Estados Unidos entraram como país consumidor e importador de mercadorias e de poupança; e a China como supridora de manufaturados baratos e financiadora do consumo americano (por meio da compra de títulos do Tesouro dos Estados Unidos). Entre as explicações para isso está a de que nem a China terá condições de empilhar reservas indefinidamente nem os Estados Unidos de se endividarem como estão se endividando.
O impressionante aumento da produção e do consumo na China (deverá voltar a crescer ao redor de 12% ao ano em 2010 e 2011) é boa notícia para o Brasil, grande fornecedor global de commodities. Mas traz de volta à mesa de discussões uma questão inquietante. O consumo chinês segue de perto o modelo americano. A indústria que está vendendo ao mercado interno é basicamente a mesma que foi montada para atender ao mercado dos Estados Unidos e do mundo rico. E, já no início desta década, o biólogo americano Edward Osborne Wilson advertia: "Precisaríamos de mais quatro planetas Terra para sustentar toda a população do mundo nos padrões de consumo dos Estados Unidos."






