domingo, novembro 08, 2009

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Batman transa com a sogra!

FOLHA DE SÃO PAULO - 08/11/09



E o Rio de Janeiro? Ops, Tiro de Janeiro. Tá precisando de um GPS pra bala perdida!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!
"Papai Noel preso com adolescentes no carro." A cidade? NEVES! E perguntaram pra cantora Stephany no "Esquadrão da Moda", do SBT: "Você é de Áries?". "Não, sou do Piauí." E a biba com o cartaz na Parada Gay do Rio: ERA EX-GAY! E na Bahia tem a barraca BURRALINDA! Não sei se o dono é zoófilo, se tá apaixonado por uma jega, se é homenagem à mulher ou à Carla Perez!
E a Dilma em campanha? Tá dando adeus até pra roupa em varal! E o e-mail que recebi: "Perco o presidente, mas não perco a piada. Só vou assistir ao filme sobre o Lula se ele morrer no final". E a roupa que toda mulher sonha pro verão: vestido tomara que caia, calcinha tomara que tirem e sutiã tomara que sustente!
E o Rio de Janeiro? Ops, Tiro de Janeiro. A declaração do secretário da Bagurança: "O Rio não é violento, tem núcleos de violência". Aí você dá o azar de morar no núcleo, trabalhar no núcleo ou estudar no núcleo e TOMA NO NÚCLEO! E escolas fechadas. Então o Rio não tem ano letivo, tem ano letiro. O Rio tá precisando de um GPS pra bala perdida! E adorei a charge do Marco Aurélio pro Rio 2016. Faixa no Pão de Açúcar: Favor Não Atirar nos Atletas!
E deu na Folha: "Morcegos praticam sexo oral para prolongar a relação". Por isso é que o caso do Batman com o Robin durou tanto.
Morcego é um bicho esquisito. Pra preservar a espécie, transa até com a sogra. Por isso é que transmite raiva. Ainda bem que não nasci morcego. E sabe o que o Batman faz quando se lembra do Robin?
Pega o bat-móvel, vai pra bat-caverna e bat-uma. Rarará!
O que o Lula sugeriu pro Obama melhorar o sistema de saúde nos EUA? Implantar o SUS. E o Obama quase foi internado. De tanto rir!
Esta é a realidade do SUS: um menino entrou na fila pra operar a fimose e esperou tanto que acabou operando a próstata. E o site Eramos6 mudou o nome do filme da Maica Jéssica! De "This Is It" para "This Is Quisito". Criança não paga.
Farta distribuição de pirulito!
E a Ana Maria Brega de visual novo? Tá parecendo a Cruela Cruel. E a Bárbara Paz tá a cara da Linda Blair. Em "O Exorcista". É mole? É mole, mas sobe!
E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Camelo": companheiro que tem dois buchos, um pro churrasco, outro pra cachaça.
O lulês é mais fácil que o ingrêis.
Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO

DORA KRAMER

Tempo de estio

O ESTADO DE SÃO PAULO - 08/11/09


Não chega a ser espantoso, mas é curioso que a análise político-partidária mais precisa sobre o artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, destrinchando o "autoritarismo popular" do governo Luiz Inácio da Silva, tenha partido de um ministro petista.

Os tucanos não vestiram a carapuça do chega para lá naqueles que acham mais confortável fingir que "está tudo bem", evitando questionar "os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei", que levam o País "devagarzinho a amoldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade que pouco tem a ver com nossos ideais democráticos".

Fizeram-se de desentendidos, mas o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, foi ao ponto. Disse que FH com sua capacidade de elaboração mental tenta "suprir a deficiência da oposição", imersa numa "colossal mediocridade".

De fato. Para sorte do governo, e azar do País, a pobreza de espírito grassa. Em todas as searas partidárias, faltou o ministro acrescentar para fazer justiça à precisão do diagnóstico.

Ele mesmo, depois do primeiro tiro certeiro, caiu na vala da banalidade ao comparar Lula a Mozart e FH a Antonio Salieri, a encarnação da inveja na relação dos dois maestros. Nem o atual presidente é um gênio nem o ex é um ente sem talento.

Só para ficar na política: Lula bateu duas vezes o partido de FH nas eleições, mas este ganhou daquele outras duas, ambas no primeiro turno.

Embora tenha perdido a oportunidade de fazer o debate político e preferido se aliar aos companheiros que atribuíram a escrita - confirmando-a pela falta de argumentos e recurso à zombaria - a ciúmes, Paulo Bernardo acertou no enunciado do problema.

O ex-presidente realmente tenta suprir praticamente sozinho um espaço de discussão que normalmente deveria ser ocupado, não só, mas também, pelos partidos de oposição.

Estes não o fazem, pelo menos não de maneira consistente, no Parlamento nem na sociedade. A reação dos correligionários de FH às questões postas por ele comprova a aridez.

O PSDB dividiu-se entre o silêncio sepulcral dos dois pré-candidatos à Presidência da República, os elogios comedidos de alguns que preferiram reduzir as coisas a um exercício de reflexão intelectual do ex-presidente e as críticas veladas dos estrategistas anônimos que acham eleitoralmente inadequado Fernando Henrique se manifestar.

Perde-se a chance de cotejar raciocínio apresentado com a realidade e de qualificar o debate político, porque FH é impopular, aparece nas pesquisas de opinião como um fator de constrangimento ao desejo da oposição de voltar ao poder.

É de se perguntar se é justo que seja subtraída do eleitorado a oportunidade de saber o que pensam a respeito do que se passa no País as pessoas que pretendem voltar a comandá-lo.

O governador José Serra, o principal postulante, está convicto de que só deve assumir a candidatura daqui a cinco meses. É um direito dele.

Serra faz seu tempo, assim como Aécio Neves estipulou o dele quando avisou que espera até dezembro e depois vai "cuidar de Minas". É um direito dele.

Agora, também é direito do cidadão e da cidadã brasileiros que se interessam pelo embate de ideias saber o que pensam aqueles que lhes pedirão votos.

Se o que disse Fernando Henrique é importante para determinado estrato mais informado da população - e pela repercussão do artigo é óbvio que despertou interesse - por que se deve aceitar que as razões táticas e estratégicas dos pré-candidatos e dos respectivos partidos se sobreponham ao indispensável diálogo com a sociedade?

Lula há muito estabeleceu o próprio tempo ao ocupar com a candidatura de Dilma Rousseff o espaço eleitoral que a oposição acreditava reservado para si por ação da lei da gravidade. Fala sozinho, cria fatos, comete equívocos, erra a mais não poder, galvaniza todas as atenções, atenta contra princípios, inverte valores, mas atua.

Já a oposição não pia. Não quer briga com quem é popular. Mas para discutir as questões do País é preciso brigar? É perfeitamente possível fazê-lo com civilidade, elegância, consistência, firmeza e fundamento.

Desde, evidentemente, de que se disponha de tais atributos e não se tenha como eixo de atuação o retraimento travestido de segurança estratégica. Do contrário, é como diz o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, a impressão que dá é de uma "colossal mediocridade".

Bumerangue

O MST tenta fazer o papel de vítima internacional ao denunciar à OEA que está sendo reprimido e tratado como criminoso no Brasil.

Pode obter o efeito oposto caso seja feita uma verificação ou mesmo se alguém se der ao trabalho de contraditar e enviar ao organismo um histórico dos atos dos sem-terra.

É um ato ousado. Típico de quem percebeu que internamente perdeu a batalha com a opinião do público.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Tudo favorece à indisposição do governo para a investigação”
SENADOR ÁLVARO DIAS (PSDB-PR), SOBRE OS VAGAROSOS TRABALHOS DA CPI DA PETROBRAS

“INDENIZAÇÕES”, MIL. TRANSPARÊNCIA, ZERO
A Controladoria-Geral da União diz que “fiscaliza anualmente” as indenizações, muitas vezes milionárias, concedidas a “perseguidos pela ditadura” com 53 anos ou menos, “sem encontrar irregularidades” nos critérios da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Mas o distinto contribuinte só saberá quanto pagou e não a quem, na rubrica “pensões”, sem mais detalhes no Portal da Transparência da CGU.
BLINDAGEM
A transparência também é zero no portal do Ministério da Justiça: não exibe valores e a Comissão tenta “enrolar” quando se trata de petistas.
AOS AMIGOS, TUDO
O MJ tentou driblar a notícia da indenização ao ex-sindicalista aloprado Vladimir Poleto, na quinta (5), noticiada em primeira mão nesta coluna.
PAGA E NÃO BUFA
Os dados detalhados da farra das anistias são registrados no Siafi, o sistema de acompanhamento do governo, mas sem nomes.
MAIS UM
O Tribunal Superior Eleitoral deve julgar nesta semana o caso de mais um governador enrolado na Justiça: Ivo Cassol (PP), de Rondônia.
DF ENFRENTA SURTO DE “DOENÇA” DE PROFESSORES
O governo do DF demitiu uma professora que em apenas um ano letivo obteve 22 atestados médicos para justificar ausências de até três dias. A malandragem não é caso isolado: a Secretaria de Educação abriu dezenas de processos semelhantes. Ou é uma misteriosa epidemia: antes de medidas que dificultam a obtenção de atestados médicos, cerca de 20 mil professores se utilizavam desse expediente por ano.
CASOS CAÍRAM
No DF, cerca de 15% dos professores estavam permanentemente sob licença médica. O número caiu agora para 7.800 casos anuais.
MICROFONES
Para neutralizar a alegação de “dores de garganta”, justificando a falta ao trabalho, no DF foram distribuídos 18 mil microfones a professores.
O GRANDE FILÃO
Com aporte externo de US$ 275 milhões, a ex-consultoria HRT Petroleum virou holding: vai explorar 21 blocos na região amazônica.
A TERRA TREME
Que Lula não saiba, senão vai com Dilma lá: a Petrobras e a UnB analisam o subsolo de uma área no sul do Acre, abalada por frequentes tremores e ruídos. Acreditam que possa haver petróleo.
PROMOTORES VÃO...
A casa de marimbondos estará aberta entre os dias 25 e 28 próximos, em Florianópolis (SC), no 17º Congresso Nacional do Ministério Público, reunindo 1,5 mil promotores de Justiça de todo o País.
...DISCUTIR LICITAÇÕES
O Congresso Nacional do Ministério Público vai discutir sua atuação no controle da improbidade administrativa. Os promotores vão debater os aspectos controvertidos das licitações públicas e os contratos administrativos – fontes de desvios de dinheiro público. Lula já confirmou presença.
RABO DE CAVALO
O Brasil cresce para baixo, segundo o chapa-branca Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada. A nova “classe média” ganha até R$ 465. A turma do Ipea sabe quanto custa um plano de saúde?
AGRADECIMENTO
O vice José Alencar agradeceu, durante cerimônia de lançamento da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), a “prece nacional” por sua saúde. Contou que recebe mensagens de carinho de todo o País e até ervas curandeiras da Amazônia.
HERÓIS ANÔNIMOS
Funcionários da Fundação Nacional de Saúde consideram “uma limusine” o avião da FAB, que caiu semana passada no Amazonas, matando dois deles. Com nível médio, orientaram os militares.
BARREIRA BRASILEIRA
A empresa de alimentos canadense McCain sofre com as restrições brasileiras a produtos argentinos: desde o dia 20 de outubro, a empresa vende menos de 10% do que vendia antes das proibições.
OLHA O NÍVEL
Irritado com as críticas de um blogueiro catarinense, o vereador Asael Pereira (PSB-SC), que é evangélico, usou e-mail da Câmara dos Vereadores para chamá-lo de “filho da puta”. O caso está na polícia.
PENSANDO BEM...
Qualquer dia terá camelô vendendo avião Rafale. Leva três, paga um.

PODER SEM PUDOR
CÂNTICO É PROVOCAÇÃO
Nem o casamento de Vitor, filho do governador baiano Paulo Souto, em Salvador em 2003, escapou dos constrangimentos sempre provocados pela presença de ACM. O babalaô era só um dos 2.500 convidados e o padrinho foi o líder do então PFL (DEM) na Câmara, José Carlos Aleluia, amigo de Souto e um raro baiano que ousa desafiar a truculência do velho. Quando se anunciou o beijo dos recém-casados, ouviu-se o cântico “A-leluia! A-leluia! Aleluiaaaa!”. ACM deve ter achado que era provocação: irritado, retirou-se da igreja.

O IDIOTA

DOMINGO NOS JORNAIS

- Globo: Eleição presidencial deve custar até R$ 500 milhões


- Folha: 89% da madeira do PA vem de área ilegal, diz estudo


- Estadão: Fraude envolve irmão do presidente do TCU


- JB: Compre no cartão, pague com celular


- Correio: Senado - 24 milhões de votos jogados fora

sábado, novembro 07, 2009

ARI CUNHA

Dilma na esquina

CORREIO BRAZILIENSE - 07/11/09


Política entre nós é um saco de gatos. Os partidos são sopas de letrinhas. Ao embalo do vento, vão de um lado a outro como quem muda a cor do cabelo. Cada político pode e deve possuir sua biruta. Pelo menos saberá para onde ir. Getúlio Vargas disse certa vez que “não se vence sem luta; nem se participa da vitória sendo neutro”. Ele sempre foi homem de decisão. Não aceitava ninguém em cima do muro. Dilma Rousseff está a caminho do cadafalso. Esta coluna fez a previsão faz tempo. Ainda hoje está sozinha fazendo o caixa para o futuro. Ela mesma toma cuidado em tudo. Em sabendo que não será candidata, faz seu pé de meia para não viver o seu passado perigoso. Tem família, teve três maridos e só vai ao hospital em companhia de assessores.


A frase que não foi pronunciada

“Quem se apaixona por si mesmo não tem rivais.”
Presidente Lula pensando enquanto traça os passos para 2010.




Escolas
Ensino vive dificuldades no Brasil. Em São Paulo o aumento de mensalidades atinge os 17%. Professores são bem pagos e material escolar é farto. A inadimplência é mantida pelo governo federal. Escolas não recebem ajuda. O cerco está tornando minorias em maioria consolidada.

Bronca
A Agência Nacional de Energia Elétrica está verdadeiro fuzuê. Falta energia, despesas aumentam e não somam nada. Contratos reduzem a baixa verba. Consumidores brasileiros perderam R$ 7 bilhões. Agora é furar a terra com as unhas em busca de dias melhores.

Pré-sal
Ninguém disse quantos barris o Brasil vai retirar do pré-sal. As decisões vão ao bolso dos consumidores de energia com segredos nunca revelados. Sabem os experts que o preço será alto. Não foram determinados. Todos estão pensando apenas na divisão dos lucros. Veja-se que nem os prejuízos são conhecidos.

Cultura
O baixo clero, desde a eleição de Inocêncio Oliveira, mostrou seu valor. A minoria é quem manda. Agora é a política entender do fato e arregaçar as mangas.

Padre Cícero
Morto em 1934, Padre Cícero tem sua vida estudada. Foi cassado de ordem, sofreu. Viveu alegria com amigos e adeptos. Sua história é longa. A Igreja revive seus dias. Em dependendo do Cariri, será o primeiro santo brasileiro.


Em entrevista a Vera Saavedra Durão, Maria da Conceição Tavares aponta, com a lucidez de sempre, o perigo do excesso de otimismo em relação à bolsa de valores. Dá o veredicto sem esconder a admiração pelo presidente Lula.

Alma
Sobre cultura, o senador Cristovam Buarque disse que o corpo não vai mal, mas a nossa alma continua deserta. Os dados sobre bibliotecas e frequência nos cinemas e teatros são de envergonhar o país. Mas bons ventos chegam. Um vale de R$ 50 dará aos trabalhadores um apoio para consumir cultura. Quem garante é o ministro Juca Ferreira.

História
Hoje às 23h30 e amanhã às 10h a TV Senado exibe Saudades do Brasil. O documentário remonta a experiência de Claude Lévi-Strauss pelo Brasil. Quem tiver interesse pode copiar na íntegra o material na página eletrônica do Senado.

Precatório
Só mais um passo para valerem as regras sobre precatórios. A Câmara dos Deputados determina que estados, municípios e Distrito Federal reservem verba para esse fim. A PEC já foi analisada no Senado.


História de Brasília

A nota pitoresca do carnaval de Brasília foi dada pelo porteiro do Iate Clube, que barrou a entrada do Rei Momo. O pior da história é que foram verificar depois e o homem é sócio-proprietário daquele clube. (Publicado em 16/2/1961)

MÍRIAM LEITÃO

Dois pesos medidos

O GLOBO - 07/11/09

O ministro Joaquim Barbosa foi coerente num país onde a moda é usar dois pesos e duas medidas. Por isso, o voto dele é um alívio. O enorme peso que recai sobre suas costas é o de manter o único movimento feito até agora para deter a corrupção na política. O PSDB errou na época e erra agora quando acoberta o seu. Já o PT pode respirar aliviado: o mensalão federal não será julgado antes das eleições.

Os casos são decisivos. Se o Brasil passasse bem por eles, poderia começar a construir um novo padrão de moralidade na política. Mas tanto governo quanto oposição estão passando muito mal no teste. O governo tenta transformar em fumaça o seu mensalão e diz que o noticiário da época foi perseguição da imprensa.

O PSDB se agarra a questões menores para tentar livrar o senador Eduardo Azeredo. O tal recibo sobre o qual o senador diz que recai dúvida de autenticidade foi considerado pelo ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal (STF), como periférico. Ele centrou seu voto em outros indícios.

Além do mais, esta é fase de aceitação da denúncia. No processo, se o voto do relator for seguido pela maioria dos seus colegas, Azeredo poderá se defender usando as contradições deste documento.

Tão incisivo ao condenar o mensalão, o PSDB perdeu a ênfase no caso Eduardo Azeredo.

Na época em que surgiu a denúncia, Azeredo era presidente do partido. A única coisa a fazer era afastá-lo para averiguar a acusação. Mas ele permaneceu até o fim do seu mandato, recebeu a solidariedade do partido e continua sendo apoiado.

Afinal, o que ele fez? Seguiu um caminho conhecido. As empresas SMP&B e DNA, as duas de Marcos Valério, pegaram empréstimos no Banco Rural, que depois foram pagos com dinheiro de estatais mineiras por supostos serviços prestados pelas empresas de Marcos Valério. O governador de Minas, controlador das estatais, era Eduardo Azeredo, concorrendo à reeleição. Há 72 ligações telefônicas entre Azeredo e Marcos Valério. As ordens para que as estatais contratassem os serviços saíram do próprio gabinete do então governador.

Dirigentes destas estatais logo depois se desligaram do governo para trabalharem na campanha. Mesmo após Azeredo sair do governo, Marcos Valério continuava pegando empréstimos seguidos no Banco Rural, e quando eles chegaram a R$ 13 milhões, um dia foram quitados por um valor bem menor. Os indícios são fartos.

O roteiro muito semelhante.

Esse foi exatamente o DNA encontrado na forma de pagar os gastos de campanha do presidente Lula, em 2002. O mesmo Banco Rural, as mesmas empresas, o mesmo Marcos Valério, a mesma prestação de serviços, os mesmos dutos, a mesma sucessão de empréstimo que um dia são quitados por valor bem menor.

Por isso, Barbosa se repetiu.

Ele registrou, no voto, que há enorme similaridade entre os casos: “os dois tratam de corrupção política da mais alta gravidade.” Os valores do mensalão federal foram muito maiores do que os R$ 3,5 milhões que se transformaram no caroço do processo. Há indícios de pagamentos feitos a deputados, prefeitos, prestadores de serviços. Mas no mensalão mineiro, tudo foi exatamente similar ao que foi feito anos depois.

Lula e o PT reescreveram a história. Dizem que todas as acusações do mensalão foram campanha da imprensa, perseguição ao presidente.

E que ele teria vencido a todos porque foi reeleito.

Quem ainda guarda a memória dos fatos sabe que o que se soube chegou à imprensa pelas palavras dos próprios aliados do presidente, como Roberto Jefferson, como Duda Mendonça, como o tesoureiro Delúbio Soares que admitiu ter usado “dinheiro não contabilizado”, ou pelo casal Marcos Valério e Renilda. Tudo foi tornado público por declarações deles mesmos.

O presidente Lula, alegou que não sabia. Isso depois de ter dito que isso era feito “sistematicamente” neste país. Azeredo se apega a isso para tentar desqualificar o voto do relator Joaquim Barbosa, mas a denúncia do procurador-geral da República não cita Lula no processo do mensalão federal, e registra Azeredo como principal beneficiário do próprio esquema. O ministro só pode fazer seu voto a partir do que está registrado na denúncia. Se houve diferença de tratamento no
Ministério Público entre um e outro, que o senador Azeredo use isso na sua defesa em juízo, se virar réu. Mas esse argumento não pode ser usado pelo PSDB. A oposição não pode acusar nos outros o que absolve em si mesma. O caso Azeredo foi um ponto de não retorno para o PSDB.

Ele tomou a trilha errada e persiste nela.

Já não há possibilidade de que o mensalão federal seja julgado antes da campanha eleitoral. Deve ficar para o fim de 2011. As testemunhas foram ouvidas em quase todos os estados, mas em Brasília parou. Políticos usando a prerrogativa de poderem marcar hora e local para o depoimento estão protelando o processo.

No caso mineiro, há o risco de que os outros ministros se apeguem a detalhes para não acompanhar o voto do relator.

Os dois casos são decisivos para a política brasileira.

Se um dia forem julgados com rigor, teremos uma chance de começar a enfrentar esse mal que ameaça minar a confiança dos cidadãos.

Se virarem fumaça, então o país consagrará a corrupção como parte da nossa cena política.

GOSTOSA

RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA
O melhor destino gay do mundo
RUTH DE AQUINO
Revista Época
RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br

O que faz de uma cidade o melhor destino gay do mundo? O Rio de Janeiro ganhou esse título na semana passada, numa eleição entre mais de 100 mil turistas homossexuais estrangeiros – e brasileiros. O critério decisivo é a receptividade. Turistas gays gostam mais das cidades que os recebem bem. Natural. Os héteros e bissexuais, brancos, mulatos e negros também. O ser humano detesta hostilidade e discriminação – por orientação sexual, gênero ou grupo étnico.

Alguns indignados na internet viram o resultado como “primeiro passo para a barbárie, a luxúria” ou “infâmia contra Deus e a família”. Eles não gostaram de saber que moram na cidade mais gay-friendly (amiga dos gays) do mundo. Felizmente, encolhe cada vez mais essa ala que cultiva o ódio à diversidade. Quanto mais homossexuais saírem do armário e conquistarem direitos civis, mais os que detestam gays se tornarão, eles sim, a minoria incorreta.

Se hostilizar negros é racismo punido com prisão, expulsar casal gay de restaurante por demonstração de carinho hoje dá multa ou fecha o estabelecimento. É lei municipal no Rio, criada em 1996 e regulamentada no ano passado. Mas, para fazer valer a lei, é preciso denunciar. Os gays contam com o apoio do governador Sérgio Cabral – ele disse achar “nojento” o preconceito contra pessoas que amam outras do mesmo sexo.

O Rio venceu a disputa com Barcelona, Buenos Aires, Londres, Montreal e Sydney. A eleição foi promovida pelo Logo, canal da MTV, no site TripOutGayTravel.com. Era em inglês, e quem escolheu foi o turista gay de fora, aquele que gasta o pink money (dinheiro rosa) cada vez mais cobiçado. Gays viajam mais, gastam mais por não ter filhos e têm mais tempo para se divertir.

Os números são espantosos. Segundo uma pesquisa encomendada pela prefeitura a uma universidade, os turistas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) permanecem no Rio um tempo 60% superior aos héteros e gastam, em média, o dobro de um turista convencional. Pela pesquisa, 97% dos estrangeiros gays pretendiam voltar ao Rio – uma consagração.

Por que a preferência pelo Rio? “Nosso lifestyle e a profusão
de homens sexy”, me disse Carlos Tufvesson

E por que essa preferência? O estilista Carlos Tufvesson, casado há 15 anos com o arquiteto André Piva, me deu algumas razões: “A beleza da cidade, nosso charmoso lifestyle, a informalidade, poder andar de bermuda num centro cosmopolita. No verão do Rio, quem está de férias vai à praia sem ter ideia de onde e como vai terminar o dia, porque os programas surgem naturalmente. É fácil fazer amizade, o carioca é mais aberto, todo mundo tem amigos gays. E o Rio tem a maior profusão de homens sexy por metro de calçadão. Dá gosto ver a ginga e seu doce balanço a caminho do mar”.

Conversei também com a jornalista Daniela Barbi, que há sete meses vive com outra moça. “O carioca dá papo, indica os bares da moda para quem está acompanhado e sozinho. O turista gay vem por causa da simpatia e porque não sofre constrangimento. Tem sua praia com as bandeiras arco-íris e se sente normal. As lésbicas são um grupo mais fechado, mais discreto. Só em alguns lugares da Zona Sul vemos moças de mãos dadas. E são, sim, muito mais bonitas no Rio do que lá fora.”

Estive no mês passado em São Francisco, nos Estados Unidos. Não conhecia a cidade. Fiquei mais curiosa depois de verMilk, o filme sobre o primeiro político americano a se eleger como homossexual (Harvey Milk, assassinado em 1978) e que rendeu um Oscar a Sean Penn. Fui ao bairro gay, o Castro. Era domingo de Carnaval. Eu me senti entrando num gueto homo – havia pouquíssimos héteros. Casais de lésbicas eram raros. Por ter enfrentado hostilidade e homofobia durante tanto tempo, uma parcela de homossexuais talvez se sinta impelida a ostentar seu orgulho ou a demonstrar uma alegria exagerada ou artificial. Persiste o desejo de afirmação, o Gay Pride. Em alguns, provoca o preconceito às avessas ou o assédio escancarado. Há gays que tentam nos convencer de que todos somos, no fundo, bissexuais enrustidos.

O mundo será melhor quando não precisarmos mais de Paradas Gays. Ou de praias, bares e hotéis só para homossexuais, como em Ipanema, no Rio.

PAINEL DA FOLHA

Mercado futuro

FOLHA DE SÃO PAULO - 07/11/09

Na semana em que os projetos que tratam do pré-sal chegarão ao plenário da Câmara, o governo destinará aos parlamentares R$ 2 bilhões em emendas individuais, alvo de cobiça em todas as bancadas. A portaria que libera os recursos será assinada na segunda-feira por Planejamento e Fazenda.
Insatisfeitos com os valores represados no segundo semestre, deputados da própria base governista davam sinais de que poderiam dificultar a votação do combo que trata do pré-sal caso não fossem contemplados. Na comissão que analisa o Orçamento, também foi imposta uma "greve branca" desde a semana passada como forma de pressão pelas emendas.




Bolso. No governo, parte da equipe econômica torceu o nariz para o acordo que aumenta de R$ 10 mi para R$ 12 mi o limite das emendas dos congressistas para 2010.

Cassino. No auge da discussão, alguns deputados tentaram elevar a cifra para R$ 15 mi. Petistas, então, se animaram em sugerir R$ 13 mi, número do partido. A oposição não topou de jeito nenhum.

Donos. A compra pelo Banco do Brasil de 49,99% do Banco Votorantim, concluída no final de setembro, é objeto de questionamento pelo TCU. Apesar de considerar positiva a aquisição, o tribunal aprovou acórdão dizendo que a negociação pode trazer riscos à União. O motivo seria que o BB não deterá, individualmente, o controle societário.

No telhado. Promessa de campanha da prefeita Luizianne Lins (PT), o Hospital da Mulher de Fortaleza, erguido com verba federal, poderá de ter os recursos suspensos. O TCU identificou 15 possíveis irregularidades na obra, com "fortes indícios de dano ao erário". O hospital atenderia a 1.200 mulheres por dia. "Quem critica o projeto desconhece o que ele representa", disse ela, em 2008.

Pé... A assessores próximos, o presidente Lula demonstra não ter a mesma simpatia da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) em relação ao braço direito desta, a secretária-executiva Erenice Guerra.

...atrás. Na avaliação de mais de um palaciano, Erenice até hoje mais colocou Dilma em "fria" do que tirou. A digital da secretária-executiva apareceu em episódios polêmicos envolvendo a ministra, como o dossiê contra FHC e o caso Lina Vieira.

Trégua. Lula chamou os ministros do TCU e o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), para uma conversa, na quarta, sobre as paralisações das obras do PAC.

Mãozinha. O Planalto pressiona o Ministério da Fazenda para que envie logo ao Congresso o reajuste do valor da compensação paga ao Paraguai pela cessão de energia de Itaipu ao Brasil. A demora causa desgaste ao presidente paraguaio, Fernando Lugo.

Garoto-propaganda. Lojistas de Marília, terra natal de José Antonio Dias Toffoli, trocaram fotos de artistas pelas do novo ministro do Supremo para estampar porta-retratos à venda nas vitrines.

Cerco. O levantamento da situação fiscal dos financiadores das eleições de 2006 continua motivando ações judiciais em todo o país contra empresas e pessoas físicas que fizeram doações acima do permitido em lei. A exemplo de SP, onde o Ministério Público Eleitoral acionou quase 3.000 doadores, Pernambuco levou à Justiça 300 até agora.

Foro. Paulo Maluf (PP-SP) questiona o relatório na Câmara em que Regis de Oliveira (PSC-SP) o lista como campeão de ações no STF em 2008: "O ex-desembargador Regis foi reprovado no exame da OAB: desconhece a diferença entre ação popular, civil pública, penal e recurso".

com LETÍCIA SANDER e RANIER BRAGON

Tiroteio

O governo é cúmplice e complacente com o MST, que avisa com antecedência quando, onde e como irá cometer atos de vandalismo e baderna.

Do senador tucano FLEXA RIBEIRO, sobre a destruição de duas fazendas no Pará, com indícios de participação de integrantes do movimento, e a resistência do governo em iniciar a CPI do MST no Congresso.

Contraponto

Figurino tucano O governador de São Paulo, José Serra, participava do evento de comemoração aos dois anos da Nota Fiscal Paulista, no mês passado, quando os jornalistas perguntaram se o tucano tinha o hábito de pedir a nota quando fazia suas compras.
-Não saio mais para fazer compras...
-Nem para comprar um terno bem cortado?-, insistiu um repórter.
Ao que Serra concluiu:
-Os ternos são antigos. É uma vantagem de campanha, porque compram o terno e depois ele fica para você...

NA BUNDA DOS APOSENTADOS

MERVAL PEREIRA

Protagonistas e coadjuvantes

O GLOBO - 07/11/09


Mais uma vez a compulsão ao golpismo, que parece atávica nas lideranças políticas de Honduras, pode colocar por terra a possibilidade de um acordo que leve o país a ter as eleições presidenciais que podem tirá-lo desta crise, sem permitir que mais um golpe bolivariano se consuma na América Latina.
A decisão do presidente “de fato”, Roberto Micheletti, de continuar à frente do governo de coalizão nacional montado por pressão dos Estados Unidos pode invalidar essa iniciativa, dando pretexto ao presidente deposto, Manuel Zelaya, de alegar que está sendo vítima de novo golpe, quando nem mesmo o primeiro houve.
Naquela ocasião, depois de querer fazer um plebiscito que abriria caminho para a tentativa de mudar uma cláusula pétrea da Constituição hondurenha que proíbe a reeleição, Zelaya foi deposto dentro das normas legais.
Depois de um longo processo, a Suprema Corte acolheu a denúncia formulada pelo Ministério Público, decretando a prisão preventiva do presidente da República.
Com a vacância do cargo, este foi preenchido pelo presidente do Congresso Nacional, Roberto Micheletti, de acordo com o disposto no artigo 242 da Constituição.
Uma análise dos procedimentos mostra que houve respeito ao princípio do devido processo legal, pelo menos quanto ao seu conteúdo mínimo. Mas, como se sabe, Honduras é o país inspirador do termo “República de Bananas”, cunhado pelo escritor americano O. Henry, pseudônimo de William Sydney Porter. No livro de contos curtos “Cabbages and kings” (Repolhos e reis), de 1904, Porter usou pela primeira vez a expressão, que define um país atrasado e dominado por governos corruptos e ditatoriais, geralmente na América Central.
O principal produto desses países, a banana, era explorado pela famosa United Fruit Company, que teve um histórico de intromissões naquela região, especialmente Honduras e Guatemala, para financiar governos que beneficiassem seus interesses econômicos, sempre com apoio do governo dos Estados Unidos.
A c l á u s u l a p é t re a d a Constituição de 1982 de Honduras tinha justamente o objetivo de cortar pela raiz a possibilidade de permanência no poder de um presidente, pondo fim à tradição caudilhesca no país.
Mas a tal “compulsão ao golpismo” falou mais alto e, em vez de prenderem e julgarem Manuel Zelaya, puseramno em um avião de madrugada, ainda vestindo pijamas, e mandaram-no para o exílio forçado, de onde começou sua campanha pela volta, apoiado pelo esquema político de Hugo Chávez, que incluiu até mesmo o governo brasileiro.
Agora, em vez de renunciar, como se comprometera, Micheletti pretende permanecer à frente do governo de unidade nacional, formado sem a presença de seguidores de Zelaya, que rompeu o acordo firmado dias antes.
Acontece que Zelaya contava com sua volta à Presidência à frente do governo de unidade, circunstância que não era obrigatória pelo acordo, mas estava implícita.
A resistência do Congresso em decidir imediatamente a favor do presidente deposto só mostra que ele não tem apoio político, e que seu suposto apoio popular é mais fraco do que ele procurava fazer crer.
Thomas Shannon, futuro embaixador no Brasil e subsecretário de Estado dos Estados Unidos, que costurou o acordo para a formação do governo de unidade nacional, deixou claro, em diversas declarações, que o regresso de Zelaya ao poder e o governo de unidade são coisas distintas, e que uma não depende da outra.
Segundo a visão do novo governo dos Estados Unidos, “nenhum governo de fora” pode decidir o que é melhor para Honduras, e a solução definitiva, inclusive sobre a volta de Zelaya, deverá ser dada pelos organismos constitucionais hondurenhos, ou seja, o Congresso Nacional, o Supremo, a Justiça de Honduras.
O fato de Manuel Zelaya ter desistido de indicar integrantes para o governo de unidade nacional porque o Congresso não decidira sobre sua volta ao poder não desautoriza o governo que foi formado, mas a permanência de Micheletti pode dar pretexto a que Zelaya fale novamente em golpismo.
Não há qualquer indicação, no entanto, de que o governo dos Estados Unidos vá aderir à proposta de Zelaya e do movimento bolivariano de não reconhecer a eleição programada para o fim deste mês.
Na verdade, o desenvolver da crise enfraqueceu Zelaya e os governos que o sustentavam na tentativa canhestra de regressar ao governo nos braços do povo.
Faltaram braços para tirálo do quase autocativeiro em que se meteu na embaixada brasileira, cujo governo perdeu a condição de negociador neutro ao se deixar levar pela estratégia chavista de criar um fato consumado com o retorno clandestino de Zelaya ao país.
O único país que tem importância na região, além do México — que, espertamente, está desaparecido das negociações desde o primeiro momento —, são os Estados Unidos, que, depois de estar junto com Venezuela e Brasil na pressão pelo retorno de Zelaya, convenceu-se das peculiaridades da situação e decidiu entrar na negociação para viabilizar as eleições presidenciais, e não para exigir a volta de um golpista ao poder.
Mesmo que voltasse — e ainda pode ser que volte ao governo até o final de seu mandato —, pelo acordo Zelaya teria perdido qualquer poder que pudesse levá-lo novamente a contestar a Constituição de seu país.
Mais importante do que qualquer solução política negociada é a manutenção das regras democráticas, que permitirão ao futuro governo a ser eleito comandar o país para longe das falsas divisões.
Por isso, o papel de Roberto Micheletti não pode ser o de protagonista, mas o de coadjuvante da democracia.
Que, se for preciso, deve sair de cena para que a eleição seja realizada sob um clima insuspeito.

DIOGO MAINARDI

REVISTA VEJA
Diogo Mainardi

Os moluscos do Brasil

"Aqui, Claude Lévi-Strauss descobriu o homem reduzido
à sua condição de molusco. Perseguido pelo nazismo
na II Guerra Mundial, ele tentou refugiar-se no país,
mas Getúlio Vargas, o molusco que naquele tempo
presidia o Brasil, fechou-lhe as portas"

Claude Lévi-Strauss descobriu o Brasil. O Brasil é assim mesmo: é descoberto e redescoberto continuamente, desde 1500. Se os portugueses, em 1500, descobriram o Brasil seguindo a corrente marinha, Claude Lévi-Strauss, quatro séculos mais tarde, em 1939, descobriu-o seguindo a linha telegráfica do marechal Rondon, em Mato Grosso. Ali, depois de se afastar da "escória de Cuiabá", ele encontrou uma série de aldeias de índios em estado bruto, intocados pelos costumes do homem branco. Em particular, os nambiquaras.

Num de seus ensaios antropológicos, Claude Lévi-Strauss observou a indigência cultural dos nambiquaras e comparou-os a "uma raça gigante de formigas". Eles se caracterizavam por ter orelhas grandes, por embriagar-se com "chicha", por tocar uma música de uma nota só, por entreter-se cuspindo no rosto uns dos outros e por ignorar o estojo peniano devido à sua apatia sexual. Antes de Claude Lévi-Strauss, o geógrafo Edgar Roquette-Pinto já comparara os nambiquaras a "homens da Idade da Pedra", acrescentando que a "pneumatose intestinal fá-los companheiros desagradáveis". E o presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, que passara por lá em 1914, acompanhado pelo marechal Rondon, dissera que os nambiquaras eram "ingênuos e ignorantes como animais domésticos".

O contato com os nambiquaras deprimiu Claude Lévi-Strauss. Ele passou a se perguntar: "O que viemos fazer aqui? Com que esperança? Com que finalidade?". Ele só conseguiu encontrar a resposta alguns anos depois, quando estabeleceu as bases do estruturalismo: "O maior interesse oferecido pelos nambiquaras é que nos defrontamos com uma das formas de organização social e política mais simples que se possam imaginar". E prosseguiu: "A diferente estrutura do aparelho digestivo de homens, bois e moluscos não indica diferentes funções de seus sistemas digestivos. A função é sempre a mesma, podendo ser mais bem estudada e compreendida em suas formas mais simples, como a de um molusco".

No Brasil, Claude Lévi-Strauss descobriu o homem reduzido à sua condição de molusco. Perseguido pelo nazismo na II Guerra Mundial, por ser judeu, ele tentou refugiar-se no país, mas Getúlio Vargas, o molusco que naquele tempo presidia o Brasil, simplesmente lhe fechou as portas. Claude Lévi-Strauss morreu na última semana. Setenta anos depois de seu contato com os nambiquaras, seguindo a linha telegráfica do marechal Rondon, nós ainda nos caracterizamos por tocar música de uma nota só, por cuspir no rosto uns dos outros e por sofrer de pneumatose intestinal. Nós ainda temos uma das formas de organização social e política mais simples que se possam imaginar. E nós ainda procuramos responder às mesmas perguntas: o que viemos fazer aqui? Com que esperança? Com que finalidade?

GOSTOSA

FERNANDO RODRIGUES

A ética e o voto

FOLHA DE SÃO PAULO - 07/11/09

BRASÍLIA - Há um efeito político-eleitoral principal no julgamento do escândalo do mensalão tucano-mineiro. Trata-se do acelerado processo de assemelhação entre os partidos brasileiros.
Já houve o mensalão de Lula, do PT e adjacências. Agora, chegou a vez de o PSDB tomar um calor da Justiça. No Legislativo, mais de 300 congressistas envolveram-se em estripulias e demonstraram falta de compostura neste ano. No Rio Grande do Sul, a governadora tucana, Yeda Crusius, enredou-se num rumoroso episódio cujo desfecho quase redundou em seu impeachment. Vai prevalecendo, portanto, um dos mais nefandos e equivocados axiomas da política: eles são todos iguais.
O discurso da ética nunca deu muito certo no Brasil. O falso moralismo udenista fermentou em 1964. Desembocou em 21 anos de ditadura militar. No retorno à democracia, partidos adeptos da higienização nas práticas públicas sempre fracassaram.
O PT insistiu durante anos com sua plataforma de ética na política.
Ao descolar-se do tema, chegou ao Palácio do Planalto, em 2002. Levou tão a sério a guinada que a administração lulista mais parece um catálogo de desvios morais.
Ainda assim, soa farisaico quando alguns tucanos adotam um discurso de indignação e receio sobre os rumos do governo Lula. FHC, em 1998, aparecia em outdoors alternados em São Paulo abraçado a Mario Covas (PSDB) e a Paulo Maluf (PP). À época, não se falava em aliança com Judas. Em tucanês social-democrata, citava-se Max Weber. Era a necessidade de a ética da responsabilidade preponderar sobre a ética da convicção.
Tudo considerado, defender a moralidade rende poucos votos.
Em 2010, será igual. Até porque a maioria dos eleitores, como mostra a história recente do PT, não está nem aí para essa discussão.

ANCELMO GÓIS

LULA, FILHO DO BARRETÃO

O GLOBO - 07/11/09


Ontem, no Unibanco Arteplex, no Rio, foi exibido a um grupo de convidados o filme Lula, o filho do Brasil”.
O diretor Fábio Barreto estava emocionado, porque, segundo ele, num mesmo dia, haviam nascido sua segunda neta, Olívia, e “um filho”, o filme.
PAULO VIDAL...
À exceção da família de Lula, os demais personagens aparecem com nomes trocados.
É o caso de Paulo Vidal, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC na época em que Lula era só diretor, antes de sucedê-lo no comando. Na tela, Vidal se chama Cláudio Feitosa.
O ALIENADO...
Lula, a princípio, nem queria ser diretor do sindicato.
O filme mostra que, como se dizia na época, ele era um alienado. Lula ainda tentou emplacar o irmão Frei Chico em seu lugar. Mas Vidal não quis, alegando que Chico era comunista.
LÁGRIMAS E PIPOCA...
Lula, o filho do Brasil não é um filme de esquerda.
Está mais para 2 Filhos de Francisco, a história chorosa de Zezé di Camargo e Luciano, que para Eles não usam black-tie, filme que, como o de Fábio, também fala de uma família operária envolvida em greves.
SÓ QUE...
O longa, que estreará em ano eleitoral, 2010, vai funcionar, claro, como propaganda de Lula.
Afinal, é difícil não se emocionar ou não simpatizar com a saga da família de retirantes chefiada Dona Lindu (vivida por Glória Pires). Haja emoção.
AS 18 DE PEDRO
Pedro Bial gravou quinta, no Centro do Rio, algumas cenas para o especial de fim de ano da TV Globo.
O apresentador transpirou muito por causa do calor. Precisou de 18 camisas iguais para gravar.
PETROBRAS NA COPA
No País de Marta, eleita pela Fifa melhor jogadora do mundo em 2006, 2007 e 2008, o futebol feminino não deslancha porque, entre outras coisas, falta apoio.
Agora, a Petrobras, sempre ela, entrou em campo. O campeonato brasileiro de futebol feminino passa a se chamar Copa Petrobras. Vida longa.
RUBINHO MAGOOU
Do nosso Rubens Barrichello em seu twitter, depois do quarto lugar no GP de Abu Dhabi, domingo passado, resultado que lhe tirou o vice-campeonato:
– Pra você que não tem o que fazer e quer tirar sarro do resultado de hoje, dê uma olhadinha na sua vida e veja se é feliz como eu sou.
VIVI PATA
Viviane Araújo, depois de turbinar os seios e afinar a cintura, agora, pôs botox na boca.
A DOR DE UM PAI
Luiz Fernando Prôa, o pai que entregou à polícia o filho de 26 anos viciado em crack por ter matado uma amiga no Rio, vai liderar uma caminhada do Posto 6, em Copacabana, até o Leme, amanhã, às 14 horas.
Sua luta, diz, é pela internação compulsória de viciados e pela criação de “unidades terapêuticas humanas” para recebê-los. Está certo.
DIÁRIO DE JUSTIÇA
Um ano depois, 40 profissionais que trabalharam na campanha derrotada do deputado petista Rodrigo Neves à prefeitura de Niterói, RJ, em 2008, decidiram cobrar na Justiça uma dívida que dizem ser de R$ 700 mil. O grupo já tentou a ajuda até do presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini, mas nada conseguiu.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO

DORA KRAMER

A leite de pato

O ESTADO DE SÃO PAULO - 07/11/09


O Poder Executivo, a julgar pela opinião de seu re presentante maior, o presidente Luiz Inácio da Silva, não gosta do Tribunal de Contas da União. Já o Poder Le gislativo tem motivos de sobra para adorar o tribunal que integra sua estrutura, abriga parlamentares e servidores de longevas carreiras que, quando podem, ainda retribuem a gentileza da indicação ao cargo vitalício.

É o caso da farra das passagens aéreas que sacudiu o Parlamento nos primeiros meses de 2009, fez parecer que dali para frente tudo seria diferente, mas terminou saindo de graça para quem usou e abusou das viagens de avião financiadas pelo Tesouro.

Há cerca de um mês, o TCU aprovou dois acórdãos condenando a prática por infração aos princípios da “moralidade, legalidade e impessoalidade” exigidos da administração pública e cobrando dos farristas a devolução do dinheiro equivalente às passagens distribuídas a parentes, amigos e correligionários.

Tudo muito correto, não fosse a decisão de deixar com o Con gresso a tarefa de tomar as providências: levantar os gastos, apontar os responsáveis e cobrar o ressarcimento.

A resposta veio nesta semana: o arquivamento, pela Mesa Diretora da Câmara, do caso sem uma única punição, nem ao menos reles exigência de satisfação.

Ao contrário, a Câmara – no Senado nem no assunto mais se fala – deu-se por satisfeita com a “medida” que tomara anteriormente de restringir o uso das passagens ao parlamentar, cortar 20% do valor destinado a viagens e divulgar os dados na internet.

Quanto à infração apontada pela área técnica do TCU, ficou tudo por isso mesmo. O ministro-relator, Raimundo Carreiro – por 12 anos secretário-geral da Mesa do Senado –, ainda ressaltou o caráter “moralizador” do procedimento adotado pelo Congresso.

Deixou-se de lado a premissa básica de que o que não é nitidamente permitido em lei é obviamente proibido ao agente público para se adotar, tanto no tribunal como no Parlamento, a legalidade marota em sentido inverso: como nada proibia expressamente o uso das passagens para turismo do parlamentar, familiares e beneficiados de um modo geral, entendeu-se que era permitido.

Os técnicos do TCU não entenderam assim, aludiram em seus relatórios à ilegalidade patente e sugeriram que se fizesse uma auditoria em todos os bilhetes aéreos emitidos pela Câmara e pelo Senado nos últimos 20 anos.

Providência tão básica quanto óbvia se a ideia fosse corrigir a situação que se configurou um evidente desvio de dinheiro público. Mas, não, como estava quase todo o Congresso envolvido na história, incluindo os dois presidentes de ambas as Casas, a malfeitoria ficou na base do leite de pato: não valeu, saiu de graça e com o aval do Tribunal de Con tas da União.

E, pelo menos até agora, sob silêncio reverencial do Ministério Público, cuja atribuição é defender a sociedade.

Malfeito

Não há mérito no recuo do Senado em relação ao cumprimento da ordem do Supremo Tribunal Federal para que fosse cumprida a sentença de cassação do senador Expedito Júnior por abuso do poder econômico na eleição de 2006.

Houve, sim, abissal demérito na decisão da Mesa Diretora em que sete senadores – incluído o presidente José Sarney, que não votou, mas compactuou – consideraram que um ato administrativo poderia se sobrepor a um mandamento da corte constitucional.

Os movimentos posteriores em direção ao contorno da crise, o senador José Sarney poderia, se quisesse, tê-los feito antes para evitar o vexame. Que ficou como marca indelével da ausência de noção de limite – para não dizer do ridículo – que assola a República e atravanca o Brasil.

Tiro ao “Álvaro”

Ainda que não consiga, como é bem provável, criar um novo órgão de fiscalização e legislação mais tolerante com os trâmites das obras governamentais, o presidente Lula já atinge um objetivo só com as reiteradas críticas aos excessivos entraves criados pelo Tribunal de Contas da União.

Elegeu um bode para lá na frente, quando for cobrado na campanha eleitoral, apontar como culpado pelo resultado minguado do PAC.

Avesso do avesso

O líder do PSDB no Senado, Artur Virgílio, corrobora o argumento do senador Eduardo Azeredo que cobra isonomia de tratamento com o presidente Lula em relação às denúncias do mensalão mineiro. “Se Lula pode dizer o famoso eu não sabia, Azeredo tinha de saber?”, indaga o líder, sepultando qualquer possibilidade de o PSDB criticar a desfaçatez do adversário.

O maior partido de oposição avaliza, assim, a tese do governo de que o PT só fez o que todo mundo faz. Com a agravante de que, no caso da cartilha Marcos Valério, o petismo aprendeu na escola em que o tucanato atuou como professor.