domingo, dezembro 21, 2008

JOÃO UBALDO RIBEIRO

Somos todos ladrões?


O Globo - 21/12/2008
 

Não, sério mesmo, somos todos ladrões? Gostamos muito de criticar "o brasileiro", como se não fôssemos brasileiros também. Mas somos e, portanto, o certo não é perguntar se o brasileiro é ladrão, mas se podemos ser descritos como um povo constituído basicamente de larápios, aí compreendidos os corruptos de toda sorte, até mesmo os que recebem um "por fora" com a expressão honrada de que não estão fazendo nada de errado, estão fazendo o que há séculos vem sendo feito. Foi a primeira coisa, por exemplo, que o presidente Lula disse, quando começou a revelação de irregularidades no financiamento de sua campanha política - é assim que sempre se fez neste país. 

Ele tinha razão, claro. É assim que sempre se fez e assim se continua fazendo, em todos os setores. E é interessante esse negócio de "o brasileiro" nunca incluir quem está fazendo a crítica. Ele pessoalmente é honestíssimo, mas o brasileiro é desonesto por natureza. Os políticos ladrões, por exemplo, são uma espécie extraterrestre vinda não se sabe donde, não são gente como nós, com a mesma língua, os mesmos costumes e a mesma cultura. Observação igual pode ser feita em relação a juízes e desembargadores ladrões, policiais e fiscais idem e assim por diante. Tudo "brasileiro", é impressionante. 

Não me esqueço de uma festinha a que fui, faz muitos anos. O dono da casa era sogro de um amigo meu e nos conhecemos nessa noite. Bem-falante, articulado e espirituoso, iniciou, quando soube que eu era jornalista, uma longa palestra sobre a desonestidade do brasileiro. Com toda a certeza a razão principal era que descendíamos do que de pior havia em Portugal, degredados, criminosos de toda espécie, a escória mesmo. Daí estar no sangue a desonestidade do brasileiro, políticos e autoridades eram de enojar, de causar asco invencível. Ele, em sua longa carreira de funcionário da alfândega (ou coisa semelhante, foi mesmo há muito tempo e não lembro direito), já tinha visto de tudo, não acreditava em mais nada, o brasileiro era preguiçoso, lerdo, descarado e ladrão, a verdade era essa. 

Isso se passava numa casa muito ampla e confortável, entre doses generosas de uísque escocês e outras bebidas estrangeiras, com fundo musical saindo de um esplêndido aparelho americano. Num dos intervalos da palestra, o genro dele e meu amigo comentou que, bebendo daquele uísque, estávamos a salvo de falsificações, era tudo legítimo, apreendido como contrabando. Isso mesmo. Aquele Catão cuja voz tornava a reverberar de indignação moral contra gatunos e corruptos estava servindo uísque contrabandeado, ouvindo uma eletrola (naquela época, aparelho de som se chamava assim) contrabandeada, numa casa que seu salário não permitiria etc. etc. Naquela época, ainda muito jovem, achei que ele era exceção, mas um diabinho aqui insiste em que é a regra, a qual, quanto mais vivemos, mais se comprova. Podia haver catadura mais austera e severa do que a do juiz Lalau? 

E vocês já notaram como o brasileiro (nunca nós, nós não, nós estamos fora dessa), se bem observado, fala no político ladrão com um ar meio cúmplice, quase admirando a esperteza do indigitado? Quando é do tipo rouba-mas-faz, a admiração às vezes até se manifesta abertamente. São raras a indignação, a raiva ou a revolta. Mesmo os que o chamam de ladrão safado dizem isso muitas vezes quase carinhosa e compreensivamente. Em outras culturas, o furto de dinheiro público é mais grave do que o furto de um bem particular. Não sei se devem existir gradações nesse caso, mas, entre nós (perdão, leia, em vez de "entre nós", "para o brasileiro"), há bastante mais compreensão ou mesmo simpatia para com o ladrão do dinheiro público. 

Além disso, ninguém é punido, a não ser o pobre mesmo. São raríssimos os casos em que o ladrão rico vai para a cadeia. Quando vai, demora pouco e não devolve o dinheiro afanado. O provérbio está com a conjunção errada, é uma aditiva, não uma adversativa. Não é "a justiça tarda, mas não falta"; é "a justiça tarda e falta". Em toda parte, em qualquer setor de atividade, todo dia se revela mais um caso de roubalheira ou maracutaia. Mas ninguém que tenha poder, seja econômico ou político, é punido. Suspeito que o brasileiro presta mais atenção no que as pessoas fazem e não no que elas dizem e aí fica patenteado que roubar pouco é que é burrice. Roubar muito é o certo e o brasileiro é esperto e malandro. Cada um procura suas melhoras e fala mal quem tem inveja, ou não teve coragem e competência para se locupletar. 

O brasileiro é tão irremediavelmente safado, que nós, outros, temos até dificuldade em ajudar o próximo. Diante da tragédia em Santa Catarina, nós demonstramos solidariedade e fraternidade. De todo o país seguiram doações, inclusive dinheiro, e apresentaram-se voluntários para ajudar de alguma forma, o país se mobilizou. Mas o brasileiro, sabe como é, o brasileiro não tem jeito. E lá foram pilhados diversos brasileiros furtando as doações, a ponto de aqueles entre nós que mandaram dinheiro desconfiarem que a grana foi parar no bolso de algum deles. 

Bem, tudo isso já foi dito e redito e nunca adiantou nada. Claro que não somos ladrões, ninguém aqui é ladrão, ladrão é o brasileiro. Temos de mudar a mentalidade e os valores do brasileiro e, verdade seja dita, estamos aperfeiçoando o regime aos poucos. Agora mesmo, o Senado aprovou a recriação de mais de sete mil vagas de vereador, que haviam sido extintas. Os senadores garantem que não haverá aumento nos gastos federais, porque há um limite constitucional para o repasse de verbas, que permanece inalterado. Menos mal. Só falta agora que os vereadores não sejam brasileiros, porque o brasileiro é realmente sabidíssimo e começa a carreira de ladrão no município mesmo. 

ÉLIO GASPARI

O exame do Ipea reprova seu comissariado


O Globo - 21/12/2008
 

Os doutores que zelam pela doutrina da fé econômica do governo fazem inveja aos bons tempos do cardeal Ratzinger. Em 2000, o Banco Central armou um concurso para 300 analistas e, na prova de títulos, desqualificou a Unicamp, considerada um ninho de pensamento crítico da ekipekonômica tucana. Felizmente a armação foi desfeita. Agora, o comissariado do Ipea foi por um caminho parecido e piorado. Abriu um concurso para 62 vagas de técnico de planejamento (R$11 mil mensais) e submeteu os candidatos a uma prova que ofendeu o idioma, banalizou a qualificação dos candidatos e beneficiou conhecimentos de almanaque. 

Exemplificando, primeiro pela agressão ao idioma, numa pérola pinçada por Madame Natasha: "Considerando aspectos da configuração das redes urbanas regionais no Brasil e do imbricamento dessa morfologia com a economia produtivista nacional, julgue os itens que se seguem (...)." 

A prova agrediu a complexidade do pensamento do sociólogo Francisco de Oliveira ao atribuir-lhe a afirmação de "não haver capitalismo monopolista sem o Estado". Tudo bem, mas Dadá Maravilha poderia ter dito a mesma coisa. (Nunca é demais lembrar que em 2003 Nosso Guia mandou tirar um texto de Oliveira de um livro publicado pelo Instituto da Cidadania.) 

Uma questão mostra a opção por conhecimentos inúteis: "Uma política de conservação dos cavalos-marinhos deve ser voltada para o Gerenciamento Costeiro e Marinho e a Fiscalização Contra o Comércio Ilegal, dispensando uma articulação com a Política Nacional de Recursos Hídricos e as práticas agrícolas no Continente." Certo ou errado? 

Esse concurso atraiu 8 mil jovens que estudaram a sério e querem servir ao Estado. Não deveriam ser testados por examinadores rudimentares, até mesmo desleixados. Acusar os comissários de terem produzido um teste de conhecimento esquerdista é elogio impossível. A prova é apenas burra. Durante a ditadura, foi o rigor acadêmico do Ipea, associado a uma certa tolerância com o pensamento dissidente, que preservou o acervo intelectual de uma geração de economistas como Pedro Malan. 

A Petrobras poderá aliviar a crise coreana 

A Petrobras atendeu ao apelo de Nosso Guia para estimular a economia. Na Coréia. No primeiro semestre, a empresa resolveu contratar doze unidades de perfuração. Anunciou seu interesse ao mundo, apareceram cerca de 15 interessados e a indústria brasileira arrematou dez das doze empreitadas. Um negócio de US$18 bilhões ao longo de mais de dez anos. 

Agora, o comissariado da empresa quer contratar uma unidade de perfuração para águas profundas em área internacional. Há uma certa corrida contra o tempo para fazer o negócio com a empresa Vantage, que está construindo um equipamento na Coréia. A companhia é uma sociedade de americanos, taiwaneses e noruegueses. 

Trata-se de um contrato que pode chegar a US$1 bilhão em cinco anos. 

Como a unidade será usada fora do Brasil (talvez na Líbia, Turquia ou Angola), a Petrobras não está obrigada a cumprir as exigências da legislação brasileira. A contratação poderá ser justificada pela pressa que a Petrobras tem de receber a unidade. Não deixa de ser esquisito que ela conduza o negócio sem uma comunicação formal e pública ao mercado. 

Bastaria anunciar à praça o interesse pelo equipamento. Se de fato não houvesse no mundo um fornecedor capaz de concordar com o preço e o prazo, a escolha seria natural como o nascer do sol. 

Papai Noel 


É falta de educação puxar conversa sobre o tombo do fundo Fairfield Greenwich em rodas do andar de cima de Pindorama. 

Seu dono, o investidor Walter Noel, tinha excelentes relações com famílias notáveis do Rio de Janeiro. Pode-se especular que as aplicações de brasileiros com Noel tenham passado do bilhão de dólares. 

Coisa parecida, em ponto muito menor, só aconteceu em 1995, quando quebrou a casa de câmbio do banqueiro Jorge Piano. 

Aos 72 anos, Noel viveu a reapresentação da Belle Époque. Há alguns anos comprou uma mansão de US$9 milhões perto do Lago Agawan, em Nova York. Não era uma casa qualquer, pois fora projetada pelo arquiteto Stanford White, o quindim da plutocracia americana no início do século passado. É de White o palácio do filme "O grande Gatsby". 

Stanford White foi assassinado por um corno em 1906. A cena está no filme "Ragtime", com o escritor Norman Mailer no papel do arquiteto. 


Sábios da banca 


Nos últimos meses, os sábios do banco de investimentos Morgan Stanley previram em duas ocasiões que o Brasil corre o risco de entrar numa recessão a partir do mês que vem. 

Nada contra previsões, até porque essa possibilidade é real. O que não se entende é que esses mesmos sábios jamais façam previsões sobre o desempenho das casas onde trabalham. 

O Morgan Stanley fechou o ano com um prejuízo de US$2,2 bilhões. 

Somado ao buraco de 2007, o prejuízo dos acionistas ficou em quase US$6 bilhões. 

Se os sábios da banca tivessem previsto os seus próprios desastres, a conta da geléia financeira de 2008 teria sido menor. 

Eremildo, o Idiota 


Eremildo é um idiota e estava na Praia de Sauípe quando chegaram os governantes de 31 países da América Latina e do Caribe para discutir a integração política e econômica da região. 

Ele decidiu que em abril irá à reunião da Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago, para propor a criação, para ele, do cargo de integrador de todos os organismos de integração americana. 

Pela conta do idiota, as Américas e o Caribe têm 35 nações, e os organismos integradores, globais ou setoriais, executivos ou consultivos, existentes ou projetados, são 17. A saber: 

OEA, Mercosul, Unasul, Alba, Aladi, ACS, BID, Caricom, Cepal, Comunidade Andina, Cúpula das Américas, Grupo do Rio, Nafta, SIC e, no forno, o projeto americano da Alca, a proposta do FuSul, do presidente do Equador, e a última novidade, a OEA do B, sem os Estados Unidos. 


Zé Emanuel 


No início de novembro, quando Barack Obama anunciou a escolha de Rahm Emanuel para a chefia da Casa Civil de seu governo, o jornalista Tutty Vasques escreveu: 

"Guardem bem este nome: Rahm Emanuel. É o Zé Dirceu do Obama. Depois não digam que não avisei." 

De arrecadador de fundos para Bill Clinton em 1992, passou a operador político de seu governo. Saiu da Casa Branca e associou-se a uma boutique de investimentos, onde juntou US$18 milhões em dois anos e meio. Com amparo da turma do papelório, elegeu-se deputado. 

Obama ainda não tomou posse e o nome de Emanuel já queimou um filme. 

Apareceu no radar das conversações com o governador do Illinois, que leiloava a cadeira de senador de Obama.

ANCELMO GOIS

Fator Mão Santa


O Globo - 21/12/2008
 

Um experiente político brasileiro explicou a um amigo por que reluta em aceitar ser candidato a presidente do Senado: 

- Não tenho mais idade nem disposição para ficar sentado na presidência, ouvindo o Mão Santa falar. 

Fala pelos cotovelos... 

Segundo levantamento do Instituto DataGois, com base em dados do Congresso, o peemedebista do Piauí já usou a palavra 2.478 vezes em seis anos de mandato. 

Mão Santa fala dia sim, outro também. Já proferiu algo em torno de 10.167.234 palavras nos microfones do Senado. Acaba no "Guiness". 

Segura o leão 

Lula pediu a Raúl Castro, na visita ao Brasil, que ajude a segurar Hugo Chávez para evitar certos radicalismos verbais. 

Aliás... 

Raúl não tem o carisma do irmão, Fidel. Mas foi aprovado no quesito simpatia nesta visita ao Brasil. 

Antes de sair de Havana, o cubano ouviu uma aula de duas horas de Brasil, ministrada pelo amigo Frei Betto. 

Os alienígenas 

O produtor Luiz Carlos Barreto, espécie de guardião-mor do cinema brasileiro, não se conforma com a decisão da mexicana Embratel e a da espanhola Telefônica de excluir o Canal Brasil de suas grades de TV a cabo: 

- Os dois grupos estrangeiros demonstram que não estão preocupados em valorizar os conteúdos brasileiros 

Segue... 

Barretão acha que o governo e a sociedade brasileira têm de cobrar da Embratel e da Telefônica um compromisso maior com o país onde operam. 

Em tempo... 

A Anatel, ao aprovar semana passada a compra da Brasil Telecom pela Oi, exigiu que o grupo ofereça, até 31 de março de 2010, um canal de conteúdo nacional e independente nas suas grades de DTH e cabo.

INFORME JB

Começa a batalha da Escola de Guerra

 Leandro Mazzini
Jornal do Brasil - 21/12/2008
 

 Começou sexta-feira, num restaurante do Rio, a batalha no campo político para evitar a transferência da Escola Superior de Guerra para Brasília ano que vem, conforme pretende o ministro da Defesa, Nelson Jobim. O deputado federal Marcelo Itagiba (PMDB) encontrou-se com o comandante da ESG, almirante-de-esquadra Luiz Humberto Mendonça. Os dois partiram para o contra-ataque. Itagiba enviou telegramas para a bancada federal do Rio, o governador Sérgio Cabral e o prefeito eleito Eduardo Paes. Quer formar uma força-tarefa a fim de cobrar de Lula um recuo. "Será preciso construir um prédio novo, com alojamentos. Aqui já temos a ESG e outras escolas, como a Naval, além da proximidade com centros tecnológicos de São Paulo".

Outro front

Por outro lado, na capital federal, sede do Quartel General, um grupo forte de militares quer nova sede em Brasília. E têm lobby político. Vai ser dura a batalha.

Outro front 2

O general Alberto Cardoso, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência no governo FHC, dá sua opinião: "Parece-me que a transferência visa a aproximá-la fisicamente da sede do ministério para facilitar contatos, assessoramentos e inserção no ambiente-fonte da grande política e estratégia nacional".

Tô aqui ainda

O prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT), prestes a deixar o cargo, mandou um recado para o Palácio do Planalto. Espera convite do presidente Lula para assumir um ministério. Sonha com Previdência ou Turismo.

Paparazzo

O delegado da PF Protógenes Queiroz, que se notabilizou ao prender Daniel Dantas, usou sua máquina fotográfica para registrar suspeitos que o seguiram nos últimos meses. Acha que é gente da Abin e da própria PF.

Relatório extra

Protógenes encaminhou todos os registros para o Ministério Público Federal. E mandou esta: vai cobrar satisfações do governo, algum dia, sobre o quanto se gastou para monitorá-lo com dinheiro público.

Na telinha

O Ministério das Cidades faz licitação para contratar três agências de publicidade. A conta é boa: coisa de R$ 125 milhões para campanhas de educação no trânsito e socioeducativas a respeito de meio ambiente e saneamento.

Dilma na folia

A foto acima é de Dilma Rousseff vestida de Carmen Miranda num Carnaval? Não. Mas parece. O registro é de uma sósia anônima, num baile de... 1920. A foto faz parte de exposição permanente da História de Muriaé, em Minas, no centro administrativo da cidade.

Cadê você?

O deputado federal Jader Barbalho (PMDB-PA) sumiu da Câmara. Seu índice de faltas é de 43%. E não aparece nem nos encontros semanais da Comissão de Ciência e Tecnologia, da qual é titular.

O avião sumiu

O MP Federal em Roraima protocolou ação civil pública contra a TAM e a Gol, para que operem quatro vôos diários de Boa Vista para outras capitais. As empresas suspenderam dois. Alegam pouca demanda.

Caos no saguão

O saguão tem registrado tumultos. O cidadão só tem duas opções de vôo: uma de madrugada e outra ao meio da tarde.

Até tu?

O TCU encontrou irregularidades graves em licitações do Ministério das Relações Exteriores para contratar empresa de prestação de serviços de copa, apoio administrativo e de motorista. Multou duas em R$ 10 mil, cada.

AUGUSTO NUNES

Guerra Fria recomeça na Bahia


Jornal do Brasil - 21/12/2008
 

 

Viagem rumo ao passado 

Nenhum país sabe perder uma guerra como a Bolívia: com os muitos milhares de mortos, vai-se também um pedaço do território nacional. Perdeu o trecho de litoral para o Chile em 1879, o Acre para o Brasil no começo do século passado e a região do Chaco para o Paraguai em 1935. Depois dos três confrontos, ficou com apenas 1 milhão dos 2,5 milhões de km² que tinha ao tornar-se independente da Espanha em 1825. É demais, parece achar o presidente Evo Morales. Inconformado com a vitória na Batalha da Petrobrás, que deixou a Bolívia do mesmo tamanho, ele agora anda sonhando com uma derrota tremenda para os Estados Unidos.

À caça de saídas para as enrascadas em que George Bush meteu os americanos, Barack Obama soube do perigo ao Sul na sessão de encerramento da Cúpula da América Latina e do Caribe (Calc), que agitou por três dias a Costa do Sauípe. Ou o novo presidente marca logo a data em que será suspenso o embargo econômico a Cuba, propôs Morales, ou os embaixadores dos 32 países que integram a Calc são retirados de Washington. "É um ato de rebeldia", explicou. Para sorte de Obama, Lula estava lá.

"Eu sou mais cuidadoso", apartou a briga o anfitrião. É preciso dar tempo ao colega às voltas com as guerras no Iraque e no Afeganistão, bateu no cravo. Mas não muito, deu na ferradura: "A região não pode esperar que um belo dia seja chamada para conversar com o Obama". É bom que o alvo do ultimato se apresse. A Bolívia não está só.

Morales é apenas o mais belicoso passageiro da viagem de volta à Guerra Fria que acaba de fazer uma barulhenta escala no litoral baiano. Começou na montagem da lista de participantes da festa do clube dos cucarachas. Além dos EUA, ficaram fora o Canadá, a Espanha e Portugal. O cubano Raúl Castro foi o convidado de honra.

"Pela primeira vez em 200 anos, todos os países da região estão juntos", entusiasmou-se Lula. Os caribenhos entraram mudos e saíram calados. Os presidentes do Peru e da Colômbia tinham mais o que fazer e mandaram representantes. Sobrou tempo para as apresentações individuais e coletivas dos chefes de governo da América bolivariana.

Só faltou Fidel Castro para que ficasse completo o elenco da comédia de época encenada à beira do Atlântico. Se a má saúde não o obrigasse a trocar o uniforme de comandante pela farda da Adidas, e promover o irmão Raúl a ditador interino, Fidel retribuiria com um discurso de sete horas as homenagens prestadas a Cuba. Coube ao caçula receber a carteirinha de sócio de uma espécie de OEA do B prometida para 2010 e a autorização para manter a democracia na cova. Cada país escolhe livremente o sistema de governo, diz o documento assinado por toda a turma. Os cubanos, por exemplo, escolheram a ditadura.

Fidel gostou de saber que Lula e os companheiros responsabilizaram o imperialismo ianque pela crise econômica e por todos os problemas passados, presentes ou futuros. Mas o abuso vai acabar, informou o venezuelano Hugo Chávez. "O capitalismo, que é o diabo, está morto", matou dois satãs de uma vez. "O que está mais vivo que nunca é o socialismo revolucionário".

Obama conseguiu uma trégua. Os fuzileiros navais americanos só se livrarão da insônia quando Morales garantir que não terão de enfrentar a Marinha boliviana no Lago Titicaca.

 A abulia dos que sustentam a gastança

Fora a diminuta bancada dos que não perderam a vergonha de vez, o Congresso acha muito bem-vinda a Proposta de Emenda Constitucional (podem chamar pela nome de guerra de PEC que ela atende) que aumenta dos atuais 51.924 para 59.267 o número de vereadores em ação no Brasil. A diferença é que os senadores resolveram praticar na sala cheia de crianças o mesmo pecado que os deputados preferem cometer no quarto – não por decoro, mas por malandragem. Só por isso não foi aprovada já na madrugada de quinta-feira a criação de mais 7.343 vagas nas câmaras de vereadores. Serão 7.343 cabos eleitorais em 2010.

O pretexto para a devolução da PEC ao Senado foi a supressão do trecho que proibia o aumento da verba repassada à Câmara pela prefeitura. Como a redução de salários é inconstitucional, a engorda da folha de pagamentos deve ser a bancada pelo corte de outras despesas. Nesse caso, os vereadores andam desperdiçando dinheiro. Se pensassem no país em crise, os parlamentares deveriam exigir a diminuição na gastança e engavetar a PEC ultrajante.

Brasileiro só sai da abulia quando soldados e voluntários roubam flagelados. Não são piores que pais da pátria que surfam na marolinha sob a mansidão do rebanho que paga a conta.

Um tricampeão e o anão da Bahia

O colunista pede perdão aos leitores por dois erros publicados na seção Coisas da Política de quarta-feira passada. O grande Nelson Piquet venceu três vezes (e não duas) o campeonato da F1 (1981, 83 e 87). E o pequeno João Alves, um dos anões do Orçamento, não nasceu em Pernambuco. "A Bahia não se renderá jamais a um engano tão expressivo", diz a mensagem bem-humorada de um amigo. "Vimos requerer uma correção: o deputado João Alves é baiano, sim, de nascimento e de política. A Bahia não merece um esquecimento desse tamanho".

Os culpados exigem mais que o perdão

Antes da roubalheira do mensalão, figurões com culpa no cartório guardavam alguma discrição até que o processo desse em nada. Instaurada a Era da Impunidade, descobriram que já podiam aparecer em público sem virarem alvos de vaias e palavrões. Agora já não basta o direito de ir e vir em paz enquanto esperam o perdão. Exigem também homenagens que sirvam de consolo para os arranhões na imagem. O deputado federal Antonio Palocci, por exemplo, ganhou a presidência da Comissão da Reforma Tributária da Câmara para livrar-se da depressão que o afligiu quando teve de trocar o ministério pelo banco dos réus.

Na semana passada, Palocci foi dispensado de perder de novo a alegria de viver. Como o Supremo Tribunal Federal resolveu adiar o julgamento do processo sobre o estupro da conta bancária do caseiro Francenildo Costa, só no ano que vem o ex-ministro será absolvido "por falta de provas". Depois de contar que Palocci vivia aparecendo na casa suspeitíssima que jurara nem conhecer, Francenildo perdeu o emprego e a chance de encontrar trabalho. Poderia perder até a liberdade se julgado pelo STF, sob a acusação de violar o próprio sigilo só para deixar o ministro mal no retrato. Ainda bem que o caseiro não tem direito a foro especial.

EMPREGOS


DOMINGO NOS JORNAIS

Globo: Projetos na Câmara criam 37 mil cargos por R$ 1,3 bi

Folha: Em meio à crise, gás para indústria em SP subirá 19%

Estadão: Governo tenta evitar que calote afete bancos

JB: Um feliz Natal, apesar da crise

Correio: Uso do cheque especial aumenta com a crise

Valor: Petrobras confirma plano de US$ 31 bi para refinarias

Gazeta Mercantil: Autopeças recebem R$ 3 bilhões do BB

sábado, dezembro 20, 2008

AJUDA PARA DESABRIGADAS



A Varanda está recebendo doações para minhas desabrigadas, peço somente doação em dinheiro, afinal, elas não estão precisando de roupas.

LYA LUFT

REVISTA VEJA
Acreditar no Natal

"Acreditar em Papai Noel, em anjos, em famílias amorosas ou amigos fiéis, em governantes mais justos e líderes mais capazes – em alguma coisa a gente acaba sempre acreditando"

Acreditei em Papai Noel por muitos anos. Menina do interior com a fantasia sempre a mil, ele fazia parte das minhas histórias encantadas. Até uns 7 anos de idade, eu também acreditava na cegonha e no coelho da Páscoa. Quando o pôr-do-sol tingia o céu, diziam-me que os anjinhos começavam a assar aqueles biscoitos de Natal que se faziam em todas as casas da pequena cidade. Trovoadas de começo de verão eram São Pedro arrastando os móveis para a fábrica de brinquedos ter mais espaço.

Na antevéspera de Natal, um recanto da sala era ocultado por lençóis estendidos, e ali atrás ocorria o milagre: na noite de 24, com o coração saltando de ansiedade, a gente escutava sininhos como que de prata: era hora. Levada pela mão da mãe ou do pai, eu entrava na sala, de onde os lençóis tinham sido removidos, e lá estava ela: a árvore de Natal, toda luz de velas, toda cor de esferas, e embaixo os presentes. Muitíssimo menos dos que se dão hoje às crianças, mas havia presentes. Cantávamos canções natalinas, todo mundo se abraçava, depois abríamos os pacotes e comíamos a ceia. No dia seguinte, chegavam tios, primos, alguns amigos. Era só isso, sem alarde, mas com emoção. Guardei a sensação de que Natal é fraternidade, é reconciliação, é alegria de estar junto, é a chegada de pessoas queridas, é o tempo da família. Para quem não a tem, é o tempo dos amores especiais. Não éramos particularmente religiosos, mas uma de minhas avós, luterana convicta, na manhã seguinte me levava à igrejinha, onde eu gostava de cantar. Algo de muito bom se comemorava nesse tempo, o nascimento de Cristo e a esperança dos povos. Nem tudo seria guerra e perseguição, pobreza, crueldade, injustiça.

Ilustração Atómica Studio

As pessoas se queixam muito de que o Natal hoje é só comércio. Depende de quem o comemora. Se me endivido por todo o próximo ano comprando presentes além de minhas possibilidades, pois no fundo acho que assim compro amor, estou transformando o meu Natal num comércio, e dos ruins. Se entro nesses dias frustrado porque não pude comprar (ou trocar) carro, televisão, geladeira, estou fazendo um péssimo negócio para minha alma. E, se não consigo nem pensar em receber aquela sogra sempre crítica, aquele cunhado cínico, aquele sobrinho malcriado, abraçar o detestado chefe ou sorrir para o colega que invejo, estou transformando meu Natal num momento amargo. Então, depende de nós. Claro que há as tragédias, as fatalidades, doença, morte, desemprego, alguma maldade – essas não faltam por aí. Um avô meu morreu de doença muito dolorosa, na véspera de Natal. Foi a primeira vez que vi um adulto, minha avó, chorando. Há poucos anos, minha mãe morreu na antevéspera de Natal, depois de longuíssimo tempo de uma enfermidade maldita. Mas foram também ocasiões de conforto e consolo, abraço, amor e entendimento.

Na medida em que não se podem dar muitos e caríssimos presentes, talvez até se apreciem mais coisas delicadas como a ceia, o brinde, o carinho, os votos, a reunião da família, o contato emotivo com os amigos, mensagens pelo correio ou e-mail, música menos barulhenta e aroma de velas acesas. Mais que tudo isso, o perfume de uma esperança ainda que realista. A crise nas finanças pode incrementar a valorização dos afetos. Se não pudermos viajar, curtiremos mais nossa casa. Se não há como trocar velhos objetos, vamos cuidar mais dos que temos. Se não podemos comprar o primeiro carro, vamos olhar melhor nossos companheiros no metrô. Vamos curtir mais nossos ganhos em afeto.

Não é preciso ser original para escrever sobre o Natal. A gente só quer que ele seja tranqüilo e gostoso, e que nos faça acreditar: em Papai Noel, em anjos, em famílias amorosas ou amigos fiéis, em governantes mais justos e líderes mais capazes, em um povo mais respeitado – em alguma coisa a gente acaba sempre acreditando. Porque, afinal de contas, é a ocasião de ser menos amargo, menos crítico, menos lamurioso e mais aberto ao sinal deste momento singular, que tanto falta no mundo: a possível alegria, e o necessário amor.

REVISTA VEJA

Humor
Só faltou "Esteban"

Chefes de estado latino-americanos produziram muitas piadas
na Costa do Sauípe e nenhuma proposta de interesse dos seus
povos. Foi uma homenagem a Fidel, o "Comediante en Jefe"

Celso Junior/AE
Surdos que não enxergam
Chávez, Castro, "Doctor Evo" e Lula: concurso de piadas

Líderes de 33 países da América Latina e do Caribe reuniram-se na Costa do Sauípe, na semana passada, para sessões de banhos de mar e relaxamento em que o ponto forte foi um concurso de piadas. Como manda a boa etiqueta, o nível do humor foi ditado pelo anfitrião. O presidente Lula colocou a barra lá em cima. "Gente, por favor. Ninguém tire o sapato porque, aqui, como é muito calor, a gente vai perceber antes de alguém decidir jogá-lo, por causa do chulé", disse o presidente brasileiro, divertindo-se à custa do episódio recente em que George W. Bush, presidente dos Estados Unidos, numa visita a Bagdá, teve de se desviar de um sapato arremessado por um jornalista iraquiano. Na tentativa de manter o nível, Evo Morales, presidente da Bolívia, saiu-se com uma finíssima, ao melhor estilo Austin Powers: "Vamos dar um prazo ao novo governo dos EUA para suspender o bloqueio econômico a Cuba... Se não fizer isso... retiraremos os embaixadores", ameaçou o "Doctor Evo" do altiplano. Em gesto de estadista, diga-se a seu favor que ele nem cogitou acionar a marinha de guerra boliviana, preferindo, por enquanto, exercer apenas pressão diplomática sobre Washington. Evitou, assim, que uma piadinha pudesse dar origem a uma crise militar entre as duas potências.

Pena que não valia piada velha. "Doctor Evo" certamente teria repetido uma que sempre faz enorme sucesso. Ela envolve também os Estados Unidos, mas exige especial domínio de economia para ser entendida: "A queda do preço do petróleo foi um golpe do império contra Hugo Chávez". Falando no venezuelano Chávez, é claro que ele não poderia deixar Lula e Morales dominarem a cena em uma especialidade que, todos sabem, é dele. Não senhor! Bolivariano que se preze não perde concurso de piada. Chávez, então, disparou: "Cuba é a essência do coração e da dignidade dos povos da América Latina e do Caribe...". A piada só tem efeito cômico, claro, quando se esquece que a atual dupla de anciãos ditadores, Fidel e Raúl Castro, há meio século no poder, matou quase 100 000 cubanos – sem falar nos mortos de fome, de raiva e de tédio. Mas a platéia na Costa do Sauípe era bem selecionada, entendeu o espírito da coisa e Chávez saiu se até bem. Uma pena que só os ditadores cubanos e seus cupinchas podem sair da ilha. Se as pessoas comuns do povo cubano pudessem viajar, mais gente saberia que Fidel era chamado de "Comediante en Jefe". Mais gente saberia por que o apelido predileto dos cubanos para Fidel é "Esteban"... Nenhum cubano vai se arriscar a vir ao Brasil para ser preso pela polícia petista e repatriado, como aqueles pobres pugilistas dos Jogos Pan-Americanos, então nós contamos: "Esteban" é a abreviatura de "este bandido...!".

Mas isso é piada de povo... Voltemos aos profissionais. Com a liderança ameaçada por Evo Morales e Chávez, Lula deu sua cartada final. Referindo-se à América Latina, o presidente brasileiro disse: "Éramos um continente de surdos, que não nos enxergávamos". Não tem graça? Leia de novo. É uma variante bem mais inteligente, sutil e burilada da piada clássica do Napoleão de hospício que se dependura no lustre e se recusa a descer para não deixar o quarto às escuras. Foi nesse momento que Rafael Correa, presidente do Equador, vislumbrou uma oportunidade. Correa escolheu como tema o calote que deu no Brasil e atacou: "Foi um problema comercial e econômico lamentavelmente transformado em problema diplomático". Em outro ambiente, teria levado uma sapatada... Mas a Bahia não é Bagdá, Correa não é Bush e todo mundo estava ali mesmo é para relaxar e se divertir. Parecia que o encontro caminharia para seu fim sem um vencedor inconteste. Não contavam com a astúcia de Chávez. Sua piada vencedora era algo reciclada, mas levou a platéia ao delírio: "O socialismo não está morto. Está mais vivo do que nunca. O que está morto é o capitalismo". Alguém jura ter ouvido de um concorrente inconformado com a derrota um lamento inaudível: "Vai sifu...!".

J.R. GUZZO


REVISTA VEJA
O vento leva

"O chefe do governo dá a impressão de ser 
o primeiro a não ter respeito por suas próprias 
palavras, ou de não estar interessado em saber
se elas são respeitadas ou não"

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai chegando ao fim do seu sexto ano de governo com mais uma arrancada de declarações prodigiosas. "Tenho certeza de que vou fazer a minha sucessão", afirmou, numa das últimas ocasiões em que subiu ao palanque. Como a sucessão vai ser feita de qualquer jeito, o que Lula quis dizer, segundo se imagina, é que vai fazer o seu sucessor – ou seja, o homem já sabe, desde hoje, que o vencedor da eleição presidencial de 2010 será o candidato escolhido por ele. É o tipo de coisa que não deveria estar dizendo, tão antes da hora e tão pouco tempo depois de ter jurado que Marta Suplicy, a candidata na qual jogava todas as fichas nas últimas eleições municipais, seria eleita para a prefeitura de São Paulo. "Podem escrever: a Marta vai ganhar esta eleição", garantiu Lula alguns dias antes de sua preferida levar uma das maiores surras que os eleitores da cidade já aplicaram em alguém nos últimos anos. Com que cara ficaria quem tivesse escrito isso? Problema de quem acreditou; garantias dadas três meses atrás já são, para o presidente, material enterrado no fundo do arquivo morto. Lá vai ele de novo pela mesma trilha, sem mudar de idéia e sem mudar de assunto.

Adiantaria alguma coisa as pessoas acreditarem ou não naquilo que diz o presidente da República? Talvez não faça grande diferença, pois os fatos continuam sendo os fatos, não importa o que Lula diga sobre eles. Mas vai ficando claro que em geral faz papel de bobo, ou perde o seu tempo, quem leva a sério o que o presidente diz. Lula, com certeza, desrespeita o público quando insiste em dizer qualquer disparate que lhe passe pela cabeça. E o público, por sua vez, também não precisa mais respeitar o presidente, quanto se torna inútil prestar atenção nos seus discursos. Por que haveria de respeitar, se não é respeitado? Na verdade, o chefe do governo dá a impressão, freqüentemente, de ser o primeiro a não ter respeito por suas próprias palavras, ou de não estar interessado em saber se elas são respeitadas ou não.

O que se pode pensar de diferente, por exemplo, diante da última tirada de Lula sobre as semelhanças entre a Presidência da República e a medicina? O presidente, neste seu embalo de fim de ano, ensinou que um bom médico deve dizer a verdade ao seu paciente, mas ao mesmo tempo precisa animá-lo com a perspectiva de novos remédios e avanços científicos; não pode, diante de uma doença séria, simplesmente lhe dizer "sifu". Está certo, não pode mesmo, mas por que falar desse jeito? A desculpa dada pelo mundo oficial é que Lula, no caso, estava falando na "linguagem do trabalhador". Conversa. O trabalhador de verdade, quase sempre, faz justamente o contrário: fora da sua intimidade, toma muito cuidado com as palavras que emprega, e presta muita atenção para não parecer mal-educado diante de quem as ouve. Lula não disse "sifu" porque queria entrar em comunhão com o povo, mas porque não pensou no que estava falando – só isso e nada mais. Palavras, para o presidente, são coisas baratas, que vêm com o vento e vão embora com ele. Podem até ser apagadas das transcrições oficiais, como aconteceu com a expressão usada nesse episódio, sob a extraordinária justificativa de que ela ficou "inaudível"; um caso de alucinação em que todo mundo ouve exatamente a mesma coisa, salvo o funcionário encarregado de colocar por escrito a fala do chefe.

O palavreado ao acaso de Lula fica menos engraçado quando deixa sua função de animar auditório e passa a ser utilizado, como vive acontecendo, para envenenar o debate público e ocultar deliberadamente a verdade. Há um método aí. Mais uma vez, dias atrás, o presidente repetiu que "tem gente torcendo" para o Brasil quebrar. "Tem gente que vai deitar rezando: ‘Tomara que a crise pegue o Brasil, para esse Lula se lascar’ ", afirmou. Nunca diz quem é essa "gente"; deveria dizer, é claro, para o público se defender das pessoas que pretendem quebrar o país. Mas o que Lula quer é outra coisa – é passar a idéia de que quem se opõe a ele e ao seu governo é inimigo do Brasil. Da mesma forma, partiu para cima dos "empresários que na primeira diarréia" correm atrás do governo pedindo dinheiro. Quem são eles? Lula não deu o nome de nenhum. O grande nome que se sabe, nessa história de receber favores do governo, é o de uma empresa chamada Telemar, com a qual está acontecendo exatamente o que Lula faz de conta que condena – na verdade, briga como um leão por ela, mesmo se para ajudá-la for preciso mudar a lei. Fato, por enquanto, é só esse.

DIOGO MAINARDI


REVISTA VEJA
Deus mudou de idéia

"O pré-sal é igual ao poço Caraminguá nº 1, do Sítio do
Picapau Amarelo,
 que Monteiro Lobato definiu como ‘o 
primeiro poço de petróleo de mentira aberto no Brasil’"

Em 1º de julho de 1961, alguns engenheiros da Petrobras encaminharam à diretoria da empresa um documento sigiloso que dizia:

"Tomando conhecimento de uma chocante observação feita pelo Sr. Robert M. Sanford, em data de hoje, vimos pela presente lamentar profundamente o acontecido, uma vez que, pelo que entendemos, o acima citado cidadão estrangeiro atingiu gravemente e gratuitamente a Nação Brasileira, quando sugeriu, a um subalterno desprevenido, a eleição de um macaco para próximo Presidente da República".

Robert M. Sanford era supervisor de Sub-Superfície da Petrobras. Ele fazia parte da equipe de geólogos de Walter Link, o americano contratado para descobrir petróleo no Brasil. Depois de anos de buscas frustradas, Walter Link concluíra que era inútil continuar procurando petróleo nas bacias terrestres brasileiras, e que era melhor procurá-lo no mar. A politicalha jingoísta, entoando "O Petróleo é Nosso", acusou-o de ser um agente estrangeiro e afastou-o da Petrobras.

Fast Forward. Data: 2 de setembro de 2008. Contrariando o apelo de Robert M. Sanford, desprezamos a possibilidade de eleger um macaco. Em vez disso, o presidente da República é Lula. Ele está numa plataforma da Petrobras, no campo de Jubarte, no litoral do Espírito Santo. A tese de Walter Link e de seu supervisor de Sub-Superfície acabou se confirmando: nosso petróleo está localizado no mar. No caso, no pré-sal. O jingoísmo petrolífero, seis décadas depois de ser empunhado pelo caudilhismo getulista, ainda rende votos. Lula esfrega óleo no macacão – mais um macaco nessa história – e, em meio à promessa de usar o dinheiro do pré-sal no combate à pobreza, declara orgulhoso: "Eu tenho tanta sorte que acho que Deus passou por aqui e resolveu ficar. Porque a sorte aumenta a cada dia".

Deus, cinco dias mais tarde, mudou repentinamente de idéia. Fannie Mae e Freddie Mac, as duas paraestatais imobiliárias dos Estados Unidos, foram para o beleléu, dando a largada ao processo de derretimento da economia mundial. O pré-sal, de uma hora para a outra, transformou-se no engodo do ano. Em maio, José Gabrielli, presidente da Petrobras, garantira que, nos cinco anos seguintes, o barril do petróleo custaria entre 80 e 120 dólares, acrescentando: "É uma realidade definitiva". O barril de petróleo já está em 45 dólares, e continuando a cair. No mesmo período, Lula declarou que o Brasil ingressaria na Opep, e que o presidente poderia usar "aquele pano na cabeça, como se fosse um xeique". A Opep acaba de cortar 8% de sua produção, porque há petróleo em demasia no mundo. Em setembro, Dilma Rousseff comparou o Brasil ao Sítio do Picapau Amarelo, onde jorrou petróleo atrás do galinheiro. Ela está certa. O pré-sal é igual ao poço Caraminguá nº 1, que Monteiro Lobato definiu como "o primeiro poço de petróleo de mentira aberto no Brasil".

sexta-feira, dezembro 19, 2008

DORA KRAMER

Um elogio à divergência


O Estado de S. Paulo - 19/12/2008

Se o PMDB estivesse nessa história à vera, primeiro não teria feito a escolha mais polêmica, legal e politicamente falando; segundo, teria sacramentado a candidatura de Garibaldi Alves à reeleição na presidência do Senado muito antes, como fez o PT com o senador Tião Viana e o PMDB na Câmara, com Michel Temer.


Logo, vale a velha norma: em matéria de partidos (especialmente o PMDB), de políticos, de eleições e dos três juntos, duvide do que os olhos vêem, desconfie dos que os ouvidos ouvem. Quando uma coisa não combina com a outra e nenhuma delas bate com a lógica, é mentira na certa.

Nessa apresentação do nome do senador Garibaldi como a solução do PMDB para a presidência do Senado, nada combina com nada.

O partido é, junto com o PT, o maior aliado do governo Luiz Inácio da Silva, cujo apreço pelo escolhido é zero menos 20; entre várias possibilidades, escolhe-se logo a única passível de contestação na Justiça; ninguém no PMDB nunca deu a menor pelota para o desejo de Garibaldi de se reeleger.

De repente, ele que vinha se escorando em pareceres de juristas amigos - entre outros motivos para não pagar uma fortuna - aparece com três opiniões técnicas diferentes, uma delas pelo menos de profissional sabidamente caro e reconhecidamente enfronhado no mundo político. 

Garibaldi Alves saiu-se bem melhor que a encomenda nesse um ano na presidência do Senado, em substituição a Renan Calheiros. Se se fizer uma enquete na rua é possível que seja citado como um dos mais - se não o mais - bem avaliados dos parlamentares. 

Mas a mola do Congresso não são os gestos de grandeza, as ações ousadas, os atos admirados. Lá o critério é o do acerto, do arranjo, cuja matéria-prima base é a convergência.

Pois a candidatura de Garibaldi, noves fora a legitimidade do desejo pessoal de cada um, é um verdadeiro elogio à divergência. 

O governo é contra, o PT avisa que vai contestar na Justiça, a oposição não fecha toda com Garibaldi e nem no PMDB há unanimidade. Ao contrário, também nessa questão o partido está a léguas de distância da unanimidade.

Isso, deixando de lado o questionamento jurídico.

Está tudo muito esquisito. Muito mais com cara de manobra do que com jeito de solução. A dúvida é: o PMDB manobra para quê?

Por enquanto, muito se suspeita, mas pouco se sabe. No momento, o partido parece mais interessado em embaralhar as peças e confundir quem assiste ao jogo.

Da forma sinuosa de quem quis uma coisa querendo outra, o partido explicita um problema qualquer. É nítida a existência de intenções subjacentes, mas a vista não consegue distinguir exatamente quais sejam.

No máximo vislumbra-se a vontade do PMDB de ter uma conversa com o presidente Luiz Inácio da Silva. Dá para perceber também que a idéia é que o interlocutor direto seja o senador José Sarney.

Além desse ponto, porém, não é possível ver mais nada com clareza: é fisiologismo misturado com briga interna, junto com movimentos antecipados de 2010, associados a interesses individuais, acoplados a planos mais ou menos coletivos, tudo envolto em gestos, palavras e atos fictícios, pérfidos e traiçoeiros.

Trata-se por ora de pura embromação, pois o desfecho mesmo só começa a se desenhar no horizonte lá por meados de janeiro quando a proximidade da escolha (início de fevereiro) dos novos comandantes do Congresso obrigar os interessados a deixar de lado a problemática para tratar da solucionática.

Cru e quente

A recusa da Mesa da Câmara em aceitar a emenda constitucional que aumenta em 7.343 as vagas de vereadores em todo o País, aprovada pelo Senado, não foi “hostil” como qualificou o presidente da Casa, Garibaldi Alves.

A Câmara simplesmente não tinha outra saída. Se o Senado alterou a proposta - e alterou ao retirar um artigo que reduzia os porcentuais de receitas dos municípios para as Câmaras Municipais -, a emenda não poderia mesmo ser promulgada.

O Senado atropelou-se na pressa de atender à pressão dos vereadores e a Câmara cumpriu o regimento. Nada além disso. 

Trama

O ex-deputado Walter Brito foi eleito por um partido de oposição, mudou para a situação, uma vez desembarcado em Brasília - vindo da Paraíba -, fez isso depois do prazo estipulado pela Justiça para mudanças injustificadas de partido, confrontou as decisões de dois tribunais superiores, mas se acha vítima de uma insidiosa conspiração.

Urdida nas entranhas do Supremo, naturalmente, dada a comparação que ele faz da cassação de seu mandato por infidelidade partidária com julgamentos do caso Daniel Dantas. “Vale a pena uma reflexão a respeito”, diz o rapaz, cuja suspeita é a de que tenha “contrariado interesses”. Poderosíssimos, claro.

Mais ridículo impossível.

ANCELMO GOIS

Assim na terra...


O Globo - 19/12/2008
 

Não se faz mais comunista como antigamente. 

Raúl Castro saiu do almoço no Itamaraty de braços dados com o núncio apostólico Dom Lorenzo Baldisseri. 

Toca "Travessia"? 

Quem tem soltado a voz nas festas de fim de ano em Brasília é Dilma Rousseff. 

Já virou piada entre petistas: a superministra de Lula, dizem os gaiatos, não pode ver alguém com um violãozinho que já quer cantar. 

Aliás... 

As preferidas da pré-candidata do PT à Presidência em 2010 são as de Roberto Carlos. 

Fez sucesso um dueto dela com o ministro José Múcio em "Debaixo dos caracóis", homenagem do Rei a Caetano Veloso, gravada depois pelo baiano.

Dinheiro ao mar 

Há horas em que a Petrobras parece gostar de jogar dinheiro no mar. Está fundeado no Porto de Pecém, no Ceará, desde 22 de julho, um navio carregado de GNL (Gás Natural Liquefeito). 

Pela conta de gente do setor, por dia parado, a estatal perde uns US$100 mil. No caso, a conta do preju estaria na casa de uns US$15 milhões.

Parque Bossa Nova 

Rendeu novo fruto o chamego de Sérgio Cabral com Lula. O ministro do Turismo, Luiz Barreto, ligou quarta para o governador e liberou os primeiros R$2 milhões da construção do Parque da Bossa Nova, no Leblon, onde hoje está o 23º Batalhão da PM. 

A obra vai custar R$10 milhões, mas Cabral só entrará com R$2 milhões. Os demais R$8 milhões serão federais 

Caixa no Rio 

Eduardo Paes esteve com Maria Fernanda Ramos Coelho, presidente da Caixa. 

O prefeito eleito atua para que o banco de investimento que a CEF está criando tenha sede no Rio

ILIMAR FRANCO

Ano ruim

Panorama Político

O Globo - 19/12/2008
 

O Congresso não tem o que comemorar, de acordo com o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar. O Diap fez uma avaliação da produção legislativa, neste ano, e concluiu: "grande quantidade, baixa qualidade". Ao dizer que "a produção legislativa ficou a desejar em termos de qualidade", cita os fracassos na votação das reformas política e tributária e da lei que dá nova regulamentação à edição de medidas provisórias. 

O alvo é a opinião pública 

Apesar do fraco desempenho do Legislativo, os presidentes do Senado e da Câmara procuraram salvar suas imagens na reta final do mandato. O presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), devolveu a Medida Provisória das Filantrópicas depois de ela ter sido admitida. Arrancou aplausos da oposição e da sociedade. Ontem foi a vez da operação resgate da imagem do presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP). Ele negou-se a promulgar a lei que aumenta o número de vereadores no país. Os dois gestos foram bombásticos. Garibaldi é candidato à reeleição no Senado e dizem que Chinaglia é candidato a ministro. 

O fundo ficou sem fundos" - Sérgio Guerra, presidente do PSDB, ironizando a não aprovação de crédito suplementar de R$14 bilhões para o Fundo Soberano 

O DOM DA PALAVRA. Em audiência pública, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) chamou ontem o presidente do BC, Henrique Meirelles, de senador. Ao se desculpar, o petista se justificou, dizendo que Meirelles foi eleito deputado federal, mas agora tinha se acostumado ao Senado. "É a diferença entre o aeroporto e a rodoviária", disse o petista. Pegou mal. Mais tarde, ele tentou consertar dizendo que comparava o Congresso (rodoviária) ao BC (aeroporto), e não a Câmara ao Senado. 

Promessas 

Osmar Serraglio (PMDB-PR) lança hoje sua candidatura à presidência da Câmara. Entre as suas propostas: construção de um novo prédio para ampliar os gabinetes dos deputados e plano de saúde para os funcionários comissionados.

Atarantada 

Depois da queda do Fundo Soberano e da PEC dos Vereadores, a senadora Ideli Salvatti (PT-SC) deu um ataque ontem com um lobista: "Não dá! Estou com uma bomba estourando atrás da outra! Estou sem dormir! Não vou te ouvir!" 

Pegou mal e ele vai assumir 

Diante da repercussão negativa, o deputado Frank Aguiar (PTB-SP) recuou e vai assumir a vice-prefeitura de São Bernardo. Ele pretendia ficar na Câmara e concorrer ao Senado pelo Piauí em 2010. "Não posso trair a confiança de um povo. Não sou eu quem vai deixar essa história manchada. Agradeço ao presidente Lula e ao prefeito (Luiz Marinho), que achavam que eu ajudaria mais a cidade ficando na Câmara", disse ele. 

PÉROLA do senador Mão Santa (PMDB-PI) ao defender a PEC dos Vereadores: "Um vereador para mim é um senador municipal, e um senador é um vereador federal". Que tal, hein!? 

ASSEDIADO por um suplente de vereador, o líder do PT, Maurício Rands (PE), não agüentou: "Não resmunga para mim. Resmunga com o Arlindo (Chinaglia)". 

OS PETISTAS definiram seus nomes para a Mesa da Câmara: Marco Maia (RS) na primeira vice-presidência e Odair Cunha (MG) na terceira secretaria.

ESPOSA PERFEITA, AGORA ELA EXISTE

Programador constrói esposa robótica no Canadá



da Folha Online

Seu corpo é de pin-up, seu rosto é bonito e seus cabelos, sedosos. Além disso, é boa na matemática, fala dois idiomas, é ótima dona-de-casa e sempre está feliz ao servir drinques para seu companheiro. Não dorme e não come. Aiko, 2, é uma robô que foi criada pelo seu "marido", o programador canadense Lê Trung, 33, que nunca encontrava tempo para relacionamentos reais.

Durante os dois anos em que trabalhou em Aiko, Trung gastou por volta de 14 mil euros criando a sua garota dos sonhos. A robô foi gerada a partir de silicone e genuína tecnologia de inteligência artificial. "Aiko é a concretização da ciência encontrando a beleza", disse o programador ao tablóide inglês "The Sun".

Barcroft Media
Le Trung, 33, mostra sua "esposa" à sociedade; mulher robótica, feita de silicone e tecnologia artificial, sente toques e fala dois idiomas
Le Trung, 33, mostra sua "esposa" à sociedade; mulher robótica, feita de silicone, sente toques, serve drinques e fala dois idiomas

Ela também identifica rostos, aromas e fala 13 mil palavras. Aiko "sente" quando é tocada, e produz reações ao toque --e pode se "irritar" quando alguém é brusco. "Como uma mulher de verdade, ela terá reações quando tocada, em certas situações. Se você a tocar com força, ela dá um tapa em você".

A mulher robótica de Trung começa o dia lendo as manchetes dos jornais para ele, em inglês ou japonês. O casal passeia de carro, e Aiko geralmente dita as direções a seguir. Sempre jantam juntos --Aiko não tem muito apetite, mas acompanha o marido todas as noites.

O programador diz que seu relacionamento com Aiko ainda não se estende ao leito nupcial, mas é tudo uma questão de um "pequeno ajuste" para que ela se torne a sua esposa por completo. "Seu software pode ser redesenhado para que ela simule que está tendo um orgasmo", afirma Trung.

Sobre como a sociedade encara o relacionamento, Trung disse ao jornal "Daily Mail" que "as pessoas têm reações distintas quando conhecem Aiko. Alguns a amam, outros a odeiam. Algumas pessoas ficam com raiva, e me acusam de brincar de Deus. Outros querem tacar pedras nela. Mas muitas pessoas ficam fascinadas", conta.

Barcroft Media
Mulher-robô Aiko, 2, faz limpeza e orienta passeios de automóvel
Mulher-robô Aiko, 2, faz limpeza; seu "marido" diz que um "pequeno ajuste" permitirá as núpcias do "casal"

SEXTA NOS JORNAIS

Globo: Senado ignora a crise e aprova na madrugada pacote de gastos

Folha: Lula não vê motivos para demissões nas empresas

Estadão: Orçamento corta R$ 4,8 bi do PAC

JB: Maia é obrigado a cancelar sua festa

Correio: Condomínios entram na lei

Valor: Petrobras confirma plano de US$ 31 bi para refinarias

Gazeta Mercantil: Autopeças recebem R$ 3 bilhões do BB

Estado de Minas: Farra termina antes de começar

Jornal do Commercio: HR sem solução

quinta-feira, dezembro 18, 2008

D.EUZÉBIA MG


ALGUMAS IMAGENS DA TRAGÉDIA EM DONA EUZÉBIA MG

CLIQUE NAS FOTOS PARA AMPLIAR
FOTOS DE ALINE







MG:TRAGÉDIA EM D. EUZÉBIA E CATAGUASES


Em Cataguases, na Zona da Mata, só é possível entrar ou sair de barco. A água encobriu carros e quase atingiu o telhado das casas. Móveis e eletrodomésticos foram arrastados. Famílias se arriscavam para salvar o que restou. 

“Perdi guarda-roupa, estante nova... Eu perdi todas as minhas coisas”, lamenta Marisfátima Ferreira, dona de casa. 

Sem poder voltar para casa, muitos ficaram na rua. “Tivemos que sair correndo, largar tudo, mas não tem jeito a gente tem que enfrentar a situação de frente”, fala Edvaldo Coelho, vigia. 

A enxurrada formou uma corredeira nesta avenida do município de dona euzébia, também na Zona da Mata. No fim da tarde, o Rio Pomba já ameaçava encobrir esta ponte. 

DONA EUZÉBIA MG:TRAGÉDIA EM MINAS

PARA VER ENCHENTE DE 2012 CLIQUE AQUI

A cidade mineira de Dona Euzébia, zona da mata, encontra-se debaixo d'água. Os moradores foram retirados de suas residências em barcos. O rio Pomba que corta a cidade, atingiu, segundo moradores, o seu maior volume. No momento a cidade encontra-se sem água e sem enérgia. Mais detalhes logo mais aqui no blog.
vejam abaixo algumas fotos da tragédia.



ELIANE CANTANHÊDE

Voltas que o mundo dá


Folha de S. Paulo - 18/12/2008
 

Enquanto Bush leva sapatadas no Iraque e é excluído da Cúpula da América Latina e do Caribe na Bahia, Raúl Castro vira a estrela do megaencontro de 33 países e é recebido com tapete vermelho por Lula hoje em Brasília. São as voltas que o mundo dá.
Jornalista deve ser imparcial, apartidário e todas essas coisas, mas, se o regime é de exceção, o jornalismo também é. Bush mandou tropas e levou sapatos, legando para a história uma imagem contundente da sua saída da Casa Branca, no rastro de duas guerras e de uma crise internacional jamais vista.
Já os presidentes sul-americanos estão cada vez mais parciais, partidários e todas essas coisas contra os EUA, com ou sem Bush, e a favor de Cuba, com Fidel e agora mais ainda com o moderado Raúl, que promete abrir a ilha. Só não se sabe como.
Segundo Raúl, seu desejo é transformar o Brasil no sócio "número um" de Cuba, mas ele fez questão de passar em Caracas antes de chegar à Bahia e a Brasília na sua primeira viagem depois de assumir o cargo.
Se o Brasil e Lula são o número um, Chávez vem antes do um. E a competição passa pelo petróleo.
Chávez faz jorrar petrodólares em Cuba, e a Petrobras anunciou investimentos de US$ 8 milhões para prospecção na ilha. Isso é só o começo, e os negócios bilaterais cresceram cerca de 60%. São decisões objetivas, ao contrário do lero-lero démodé da Venezuela, da Bolívia e cia. contra Washington, e bem mais produtivas do que as sapatadas que, vira e mexe, Evo Morales e Rafael Correa dão, e outros ameaçam dar, no Brasil.
Ao criar o Conselho Sul-Americano de Defesa, o Cone Sul começa a enterrar a JID (Junta Interamericana de Defesa). Com a Cúpula da América Latina e do Caribe e a volta de Cuba, a região começa a enterrar a OEA. A diferença? É que os EUA fazem parte da JID e da OEA, mas estão fora do Conselho e da Calc.
Tomara que seja uma estratégia adulta, não uma birra infantil.