domingo, outubro 04, 2020

Dias sombrios - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

ESTADÃO - 03/10

É melhor que chova logo, antes que as trovoadas se tornem tempestades


Os dias andam sombrios. A pandemia tolda o horizonte e os corações. Cansa ficar em casa, isso para quem tem casa e pode trabalhar nela. Imagine-se para os mais desafortunados: é fácil dizer “fiquem em casa”, impossível é ficar nela quando não se a tem ou quando as pessoas vivem amontoadas, crianças, velhos e adultos, todos juntos. Pior, muitos de nós nos desacostumamos de “ver” as diferenças e as tomamos como naturais. Não são.

Eu moro num bairro de classe média alta, Higienópolis. Não preciso andar muito para ver quem não tem casa: numa escadaria que liga minha rua a outra, há uma pessoa que a habita. Sei até como se chama. Sei não porque eu tenha ido falar com ela, mas porque minha mulher se comove e de vez em quando leva algo para que coma. Assim, ilusoriamente, tenho a impressão de “solidariedade cumprida”, não por mim, mas por ela, que atua...

Mesmo quando vou trabalhar, na Rua Formosa esquina com o Vale do Anhangabaú, é fácil ver quanta gente “perambula” e à noite dorme na rua. Agora, com as obras de renovação, fazem-se chafarizes, que serão coloridos. Pergunto: será que os moradores de rua vão se banhar nas águas azuladas das fontes luminosas?

Não há que desesperar, contudo. Conheci Nova York e mesmo São Francisco em épocas passadas, quando as ruas também eram habitadas por pessoas “sem teto”. Elas não aparecem mais onde antes estavam e eram vistas. Terão melhorado de vida ou foram “enxotadas” para mais longe? Também em Paris havia os clochards. Que destino tiveram: o crescimento da economia absorveu-os ou simplesmente foram “deslocados”, pelo menos da vista dos mais bem situados? Crueldade, mas corriqueira.

É certo que o vírus da covid parece começar a ser vencido no Brasil, como os jornais disseram ainda na semana passada. Mas continuamos numa zona de risco. A incerteza perdura. Comportamentos responsáveis salvam vidas. Os países europeus que tinham controlado uma primeira onde se veem às voltas com novo surto de contaminações e hospitais no ponto de saturação. Qual de nós não perdeu uma pessoa querida? Essa dor não se esquece nem se apaga.

Mas, e depois? O desemprego não desaparece de repente. Para que a situação melhore não basta haver investimentos, é preciso melhorar as escolas, a formação das pessoas. Sem falar na saúde. E os governos precisarão ser mais ativos, olhando para as necessidades dos que mais requerem apoio.

É por isso que, mesmo teimando em ser otimista, vejo o horizonte carregado. Para retomar o crescimento, criar empregos (sem falar da distribuição de rendas) e manter a estabilidade política necessária para os investidores confiarem na economia é preciso algum descortino. Os que nos lideram foram eleitos, têm legitimidade, mas nem por isso têm sempre a lucidez necessária.

Não desejo nem posso precipitar o andamento do processo político. É melhor esperar que se escoe o tempo de duração constitucional dos mandatos e, principalmente, que apareçam “bons candidatos”. Para tal não é suficiente ser “bom de voto” e de palavras. Precisamos de líderes que entendam melhor o que acontece na produção e no mercado de trabalho, daqui e do mundo. Mais ainda que sejam capazes de falar à população, passar confiança e esperança em dias melhores. Voz e mensagem movem montanhas. Mobilizam energias e vontades.

Enquanto isso... Sei que não há fórmulas mágicas e acho necessário dar meios de vida aos que precisam. Sei que foi o Congresso, mais do que o Executivo, quem cuidou de dá-los. O presidente atual vai trombetear que fez o que os parlamentares fizeram; não importa, está feito e teria de o ser. Não tenhamos dúvidas, contudo: o nível do endividamento público, que já é elevado, vai piorar.

Compreendo as aflições do governo: quer logo um plano para aliviar o sofrimento popular e não quer cortar gastos. É difícil mesmo.

Mas assim não dá: ou bem se ajusta o orçamento aos tempos bicudos que vivemos ou, pior, voltarão a inflação e o endividamento, e, quem sabe, as taxas de juros de longo prazo continuarão a subir... Melhor nem falar.

Que teremos nuvens carregadas pela frente, isso parece certo. Mas é melhor que chova logo, antes que as trovoadas se transformem em tempestades.

O presidente parece querer, ao mesmo tempo, coisas que não são compatíveis. A única saída razoável para esse dilema é apostar numa reforma administrativa que valha para os atuais servidores, acompanhada de algumas medidas de desindexação de despesas. Juntamente com a reforma, o governo poderia mexer na regra do teto, para, ao mesmo tempo, abrir espaço orçamentário para o gasto e não provocar uma reação muito negativa do mercado.

Governar é escolher. O problema é que o presidente não quer arcar com o custo das escolhas possíveis. Melhor seria arcar com a perda de popularidade no momento, desde que mais adiante se veja o céu menos carregado. Para isso é preciso ser líder, de corpo e alma. Não basta pensar que se é “mito”.

SOCIÓLOGO, FOI PRESIDENTE DA REPÚBLICA

sábado, setembro 26, 2020

A inflação do espaguete à carbonara - MARCOS NOGUEIRA

FOLHA DE SP - 26/09


Um montão se falou sobre os preços do arroz e do óleo de soja, mas… e a inflação da carbonara?

O espaguete à carbonara, na última década, se tornou um clichê da classe média gourmetizada brasileira. Todo playboy que vê “MasterChef” comprava uma faca da grife, uma coifa top para o fogão e se metia a preparar a tal da carbonara.

Ela nasceu como comida de pobre, na Itália: leva macarrão, ovos, uma quantidade miserável de carne de porco e queijo ralado. Como é um inferno acertar a textura dos ovos –ora eles passam do ponto, ora ficam crus–, a receita se tornou um desafio para os cozinheiros de fim de semana.

Vejamos quanto saía a lista de compras, ontem (25), para uma carbonara autêntica.

A melhor massa seca italiana é a de Gragnano, perto de Nápoles. Dentre os produtores locais, a marca Afeltra tem reputação especialmente positiva. Na importadora Ravin, um pacote de 500 gramas de espaguete Afeltra saía por R$ 32.

Ovos são baratos, né? Melhor comprar orgânicos, pois o minimalismo da carbonara exige ingredientes de qualidade. Na Casa Santa Luzia, supermercado favorito dos foodies, meia dúzia de ovos caipiras orgânicos da marca Label Rouge custava, ontem, R$ 12,70.

Para fazer como os romanos, a carbonara deve levar guanciale (papada suína curada com sal e especiarias) e pecorino romano (queijo duro de leite de ovelha).

A Del Veneto, charcutaria de São José dos Campos, vendia a peça de 600 gramas de guanciale a R$ 64,90. No Carrefour, supermercado mais mainstream do mundo, o preço de uma fatia de 150 gramas do pecorino Pinna, importado da Itália, era R$ 45,49.

Na ponta do lápis: uma macarronada de R$ 155,09.


Ain, mas e aqueles que só comem farinha? E os pobres que nem sabem o que é Itália?

Calma, tigrada! Daqui a pouco eu volto a vestir a capa de cruzado da justiça social. Hoje vou escrever sobre gastronomia, assunto fútil por natureza –mas foi para isso que o jornal me contratou.

A inflação dos alimentos empurra a classe média de volta para os anos 1980, quando apenas os ricos desfrutavam de queijos e vinhos importados, entre outros acepipes.

A explosão da cotação do dólar foi finalmente repassada por inteiro na gôndola do mercado. Artigos compráveis no ano passado viraram sonho de consumo. Para arrematar a lambança, os importados puxaram para cima o preço dos similares nacionais.

Bacon vendido a R$ 106 o quilo no site do Pão de Açúcar

Digamos que a gente dê um downgrade naquela carbonara: o quilo do bacon Sadia, no Pão de Açúcar, custava ontem R$ 106. Qualquer parmesão ordinário está saindo por 80 contos o quilo.

Os restaurantes, sufocados pela pandemia, ainda entubam o repasse para não perder o que sobrou da clientela. A mídia especializada em gastronomia –não a chamemos de jornalismo– ignora o monstro, pois subsiste de cortesias das fontes.

Só que a conta não fecha, e a bolha fatalmente vai estourar.

Do jeito que a coisa vai, a classe média terá que almoçar e jantar arroz puro… não, espera!

quinta-feira, setembro 24, 2020

AGU virou uma tribo 92% composta de caciques - JOSIAS DE SOUZA

UOL -24/09


A Advocacia-Geral da União pulverizou o artigo da Lei Complementar 173 que congelava os salários do funcionalismo até o final de 2021. Fez isso ao conceder promoções em massa aos advogados do seu quadro. Por antiguidade ou merecimento, foram guindados ao topo da carreira 606 advogados.

Com esse mimo coletivo, a corporação tornou-se uma tribo sui generis, 92% feita de caciques. Dos 3.738 advogados dos quadros da AGU, 3.489 atingiram o ápice da carreira, com contracheque mensal de R$ 27,3 mil.

Alega-se que está tudo dentro da lei. Subverte-se até o brocardo latino. Nada de dura lex, sed lex (a lei é dura, mas é a lei). Vigora o dura lex, sed látex (a lei é dura, mas estica). A AGU abriu uma porteira por onde passarão boiadas.

Em termos estritamente fiscais, o bonde da alegria da AGU é um despautério. Do ponto de vista administrativo, o excesso de pajés é um convite à acomodação. Sob a ótica dos brasileiros que pagam a conta é um tapa na cara.

De quem é a culpa - WILLIAM WAACK

ESTADÃO - 24/09

Por não entender o que acontece lá fora, governo perde guerra da comunicação


A situação internacional que o Brasil enfrenta em relação às políticas ambientais de Jair Bolsonaro é séria e perigosa. Vamos olhar o que acontece do ponto de vista da comunicação, deixando para especialistas dos vários outros setores o mérito de questões específicas.

Existe desinformação no que se diz e se publica sobre o que acontece na Amazônia e no Pantanal? Sim. Existem interesses de competidores comerciais incomodados com a capacidade brasileira de produzir grãos e proteínas? Sim. Existem organizações (partidos, ONGs, instituições religiosas) com agenda político-ideológica atacando um governo (o brasileiro) por considerá-lo seu adversário? Sim.

Nada disso é novidade nem começou com Bolsonaro. Mas o governo está sabendo enfrentar essa batalha da comunicação? Não. Faltam aos que tomam esse tipo de decisões em Brasília dois elementos fundamentais que ajudam a entender a natureza deste que é um dos maiores desastres de comunicação em escala internacional.

O primeiro elemento é a falta de compreensão do fenômeno lá fora, mas não só. Por incrível que pareça, o governo brasileiro não entendeu a abrangência, a profundidade e o peso da questão climática e ambiental na sua escala planetária. Se isto era, nos idos da Rio 92 (quando o Brasil se preparou muito bem para o que viria), uma agenda de instituições multilaterais e de governos, empurrados em parte por ONGs, hoje a questão ambiental molda nosso “Zeitgeist”, o espírito de uma época, e condiciona a percepção da realidade de gerações inteiras de atores políticos, instituições, governos, consumidores, empresários, grandes corporações no mundo inteiro.

Há um notável apego de ocupantes de gabinetes no Planalto, especialmente generais estrelados, em enxergar no tsunami negativo lá fora em relação ao Brasil articulações contra a nossa soberania em geral e nosso governo em particular – um esquema mental diretamente transferido dos anos setenta para uma realidade muito mais complexa do que conspirações geopolíticas para negar ao Brasil seu direito manifesto de ser uma grande potência. Em outras palavras, embarcaram na guerra de ontem.

O segundo elemento que ajuda a entender o desastre de comunicação é o apego a táticas político-eleitorais – como a negação de fatos, o “deixa que eu chuto”, o xingamento do adversário, a efervescência nas redes sociais – que funcionam no ambiente polarizado de eleições. Mas que tem se mostrado inócuas em escala internacional. O “enfrentamento” duro do adversário, real ou percebido, até aqui não avançou os interesses do Brasil.

Ao contrário, se há algo que o “altivo” discurso de Bolsonaro evidencia quanto à “estratégia” de lidar com a crise internacional de imagem brasileira é a de que ele não tem nenhuma – além de satisfazer seus seguidores domésticos. E não estamos falando de danos subjetivos ou de “percepções” deste ou daquele dirigente ou personagem do debate ambiente versus economia (totalmente superado até na China): estamos falando de danos concretos à capacidade do Brasil de competir nos mercados que interessam.

O extraordinário de tudo isso é que o Brasil tem, de fato, lições a dar em matéria de meio ambiente e de como aumentar a produção de grãos e proteínas de forma sustentável e socialmente responsável. Tem lições a dar em matéria de matrizes energéticas. Dispõe de sólida tradição diplomática (hoje abandonada) na busca de decisões por consenso e cooperação multilaterais. E uma imagem (ainda que cada vez mais distante da realidade social) de um país aberto, simpático, tolerante e bonito.

São ativos desprezados na batalha da comunicação. Enfrentar o que estamos enfrentando lá fora em termos de imagem não é culpa dos outros, dos insidiosos adversários. É nossa, mesmo.

*JORNALISTA E APRESENTADOR DO JORNAL DA CNN

quinta-feira, agosto 13, 2020

Bolsonaro é o Brasil de sempre - WILLIAM WAACK

O Estado de S.Paulo - 13/08

A debandada da equipe econômica sinaliza a perda de ênfase em reformas


A derrota do projeto eleitoral de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes para a economia brasileira é um fato que se pode aplaudir ou lamentar, mas é incontestável. Definido em linhas gerais como uma ampla e profunda transformação do Estado brasileiro, e a consequente “libertação” da economia para gerar aumento de produtividade e crescimento, era um conjunto de intenções aplaudidas por boa parte da sociedade, antes de ser um plano.

Ficou até aqui muito aquém do pretendido (de novo, pode-se saudar ou lamentar essa constatação) e agora não há mais condições políticas, tempo e, ao que parece, intenção de realizá-lo. Grosso modo, a derrota deve ser atribuída a dois grandes fatores. O primeiro é o fato de que não havia uma estratégia, entendida como adequação dos meios (sobretudo políticos) aos fins (reforma do Estado) dentro de um período de tempo. Perdeu-se tempo precioso elaborando o que seria “nova” política, além da dedicação de Bolsonaro ao que se chama na linguagem militar de “teatros secundários”.

Como consequência, para o “projeto” acabou sendo ainda mais violenta a devastação trazida pelo segundo grande fator: o imponderável da pandemia da covid-19, que destruiu qualquer outro cálculo que não fosse o da sobrevivência política. A brutal crise de saúde pública agravou os males que já existiam: escancarou a incompetência do governo central, aprofundou a miséria, a crise fiscal e abalou uma economia que ensaiava uma recuperação apenas tímida, presa aos limites estruturais de sempre.

Para todos os efeitos o presidente é hoje um personagem político diminuído em seus poderes e com escassa capacidade de liderança, obcecado com a situação pessoal, gradativamente abandonado pelas elites econômicas que apostaram nele e agora fascinado pelas recompensas político-eleitoreiras trazidas pelo assistencialismo emergencial. Como se antecipava, a economia definiria os rumos de Bolsonaro, que agora precisa gastar o que não tem.

Surge com razoável nitidez o caminho após a derrota do “projeto”, e é bem a cara do Brasil “velho” (aquele que nunca deixou de ser). A premente ampla reforma tributária esbarra na incapacidade política de se proceder à eliminação de distorções tais como renúncias fiscais que atendem a vários interesses setoriais antagônicos, além da dificuldade política de coordenar os vários entes da Federação. O Brasilzão de sempre, esse que continua aí, indica que o caminho do menor esforço político nos levará a mais e não menos impostos.

A pretendida reforma do Estado dependia de uma reforma administrativa que atacasse gastos públicos – aumentá-los muito além da capacidade de financiá-los foi um claro consenso da nossa sociedade, como assinalou o ex-secretário do Tesouro Mansueto Almeida. Reforma que sumiu no horizonte. Há um compromisso verbal com a manutenção da âncora fiscal além do período de emergência, mas as nuvens da política sugerem que esse período será estendido para o ano que vem.

Furar o teto de gastos é uma contingência política criada no plano imediato pela convergência entre os “desenvolvimentistas” no Planalto, entre eles os saudosistas do período militar (que convenientemente se esquecem de como aquilo acabou), e a massa do Centrão que enxerga uma oportunidade nos cofres públicos sem fundos. Juros baixos e inflação bem comportada permitirão que essa “estratégia” se mantenha por um tempo razoável, que é o tempo para se programar para uma reeleição. As ambiciosas privatizações e a propalada diminuição do Estado ficam para depois.

Bolsonaro deve ser ajudado por um conjunto de concessões e obras de infraestrutura que movimentarão setores como construção e atrairão investidores, ainda que preocupados com a eterna insegurança jurídica que paira como sempre sobre os negócios. Vai ser indiretamente ajudado também pelos setores modernos do agro negócio que desprezam como o governo fala sobre questões ambientais, mas acham que bem ou mal sobreviverão às pressões internacionais, e seguirão crescendo.

Com a perspectiva real de vacinas que ajudem a controlar o vírus, a tragédia dos milhares e milhares de mortos vagarosamente se acomoda na psicologia coletiva. No jeitão do Brasil de sempre, aquele que Bolsonaro prometeu mudar, sonhando com o que poderia vir a ser, sem conseguir deixar de ser o que é.

quarta-feira, agosto 12, 2020

Com debandada, Guedes assume condição de corpo estranho no governo - BRUNO BOGHOSSIAN

FOLHA DE SP - 12/08

Ministro corre risco de se tornar bibelô liberal, na contramão de interesses do presidente



Paulo Guedes nem tentou pintar com tons pastéis a demissão simultânea de dois secretários de sua equipe. Ao anunciar a saída dos auxiliares, o ministro foi obrigado a admitir que duas das propostas mais emblemáticas de sua agenda liberal estão politicamente interditadas.

O chefe da equipe econômica quis distribuir a culpa e lançou dúvidas sobre as motivações do que chamou de “debandada”, mas foi obrigado a reconhecer uma das razões desse bloqueio tem as chaves do Palácio do Planalto.

A demissão dos secretários responsáveis pelo programa de privatizações (Salim Mattar) e pela reforma da máquina administrativa (Paulo Uebel) atira Guedes na condição de corpo estranho no governo de um presidente que se livra das vestes que usou como figurino de campanha.


Em 2018, Jair Bolsonaro (sem partido) recitou os sonetos liberais sussurrados pelo economista e conquistou a boa vontade de investidores e empresários. Guedes foi recompensado com superpoderes na montagem do governo, mas jamais recebeu do chefe um apoio genuíno aos projetos que pretendia implantar.

No primeiro ano de mandato, o ministro precisou arrancar do presidente um compromisso pela reforma da Previdência. Bolsonaro cedeu, mas vetou a proposta inicial de Guedes para estabelecer uma idade mínima de aposentadoria igual para homens e mulheres.

A vitória suada deu ilusões de grandeza à equipe do ministro, que preferiu não enxergar a cara feia do presidente para o remédio amargo das reformas econômicas. Embalado pela mudança na Previdência, Guedes orientou seu time a preparar uma reforma ousada da máquina estatal, com regras novas e austeras para o serviço público.

Ainda em novembro, veio o primeiro baile. Bolsonaro foi à portaria do Palácio da Alvorada, anunciou que o projeto estava em elaboração, mas pisou no freio: disse que a proposta seria “a mais suave possível”. O texto foi prometido meia dúzia de vezes para a “semana que vem”. Em junho, o presidente avisou que a ideia estava engavetada até 2021.

Paulo Uebel levou dois meses para perceber que sua razão de permanecer no cargo não existia mais. O secretário pediu demissão, segundo Guedes, em sinal de “insatisfação” com o comportamento do próprio governo.

“Se o presidente da República quiser mandar uma reforma, ela é mandada. Se ele não quiser, não é mandada”, disse o ministro, nesta terça (11). “O outro [o presidente] está dizendo: ‘Vai no ritmo que eu quiser. Eu sou o presidente da República, eu tive o voto. Se você quiser, você sai.”

O secretário decidiu sair, explicitando um projeto econômico cada vez mais desgastado. Bolsonaro resiste à reforma administrativa para evitar problemas com a bancada do funcionalismo no Congresso. Guedes, por outro lado, é o economista ultraliberal que chegou a comparar servidores a “parasitas”.

As resistências ao programa de privatizações também ficam na conta de Bolsonaro. Guedes gostava de anunciar que venderia mais de R$ 1 trilhão em ativos, mas nunca recebeu apoio político para engordar o caixa do governo.

O ministro pode ter acreditado que havia conseguido instalar um verdadeiro apologista dessa agenda na Presidência da República, mas todos os sinais em contrário estavam visíveis.

Em janeiro deste ano, ao falar sobre a proposta de venda dos Correios, Bolsonaro mostrou o que pensava sobre o assunto. “A gente pretende [privatizar ainda em 2020]. Se pudesse privatizar hoje, privatizaria, mas não posso prejudicar o servidor dos Correios”, declarou.

Quando anunciou a saída de Salim Mattar do cargo, nesta terça, Guedes disse que o ex-auxiliar atribuiu sua demissão à dificuldade de tocar esse plano. “O establishment não deixa haver a privatização”, afirmou.

Guedes queria jogar a responsabilidade para a classe política de maneira geral, mas cometeu um excesso de sinceridade e incluiu o governo no bolo.

“O secretário especial vai dizer: ‘Olha, o governo não está me ajudando’. O governo pode dizer: ‘Olha, você tem que se empenhar mais’. Os dois juntos podem reclamar e dizer: ‘Puxa, o Congresso pode nos ajudar mais’. São narrativas, cada um vai ter uma”, justificou.

O ministro que emprestava credenciais econômicas para um presidente sem planos claros nessa área corre o risco de se transformar num bibelô, um objeto decorativo de valor simbólico.

Bolsonaro nunca absorveu a agenda vendida por Guedes e passou se sentir cada vez mais confortável para definir suas posições de acordo com interesses políticos. Em pouco tempo, ele percebeu que a pauta impopular defendida pelo ministro poderia criar embaraços para a reeleição e para sua própria preservação no cargo.

Já a sobrevivência de Guedes será um produto dessas pressões. Além das privatizações e da reforma administrativa, o ministro trava uma batalha pela conservação do limite de despesas públicas, na contramão de outros auxiliares de Bolsonaro.

Antes de confirmar a debandada na pasta, ele avisou que jamais apoiará a flexibilização do teto de gastos. “Se tiver ministro fura-teto, eu vou brigar com ministro fura-teto”, afirmou. O aviso tem cara de ultimato. O próprio Bolsonaro, afinal, sonha em arrumar mais dinheiro para financiar seus planos políticos.

Liberalismo é uma loja de conveniência do governo, não um posto Ipiranga - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 12/08

Debandada é sintoma de que Guedes e reformas fraquejam sob Bolsonaro


A debandada no ministério da Economia vai dar a impressão de que Paulo Guedes está se desmilinguindo, pelo menos em um primeiro momento. Pode ser que, a seguir, o governo dê algum indício de que o ministro está firme, a fim de evitar salseiro imediato no mercado financeiro. Afinal, donos do dinheiro acreditam que, mal e mal, Guedes é por ora a garantia de que Jair Bolsonaro não vai rasgar o contrato do produto que compraram na eleição: o teto de gastos e algumas “reformas”.

Talvez até seja assim. Talvez o ministro venha a ser “prestigiado” nos próximos dias, mas o pessoal do dinheiro vai ter de fazer algumas provisões extras para perdas, para um calote, embora um estelionato eleitoral pareça ainda fora do radar, no caso do programa econômico. Mas Guedes se enfraquece.

No fundo, fundo raso, Bolsonaro é indiferente ou avesso à ideia de reformas liberais ou a qualquer ideia propriamente dita, por falar nisso. Guedes é uma conveniência. Se outro valor mais alto se alevantar, como um plano amalucado para dar sobrevida a Bolsonaro, o ministro pode até ser rifado, embora o mais provável é que seja levado na conversa, amaciado, podado; que continue largado à própria sorte.

Boa parte do ministério de Bolsonaro e vários de seus velhos e renovados amigos do centrão querem dar uma furada no teto de gastos, como tem ficado cada vez mais claro. Parte do centrão não gosta de privatizações em geral e menos ainda quando se pode cavar uma boquinha em estatais. Bolsonaro não quer bulir com servidores públicos. Desgosta de qualquer ideia de Guedes que possa lhe dar dor de cabeça política, tanto faz a relevância (ou não) do plano.

Ameaças ao teto, às privatizações e à reforma administrativa foram alguns dos motivos da debandada no ministério da Economia, embora não apenas. Alguns desses assessores de Guedes que vêm se demitindo desde julho dizem que o ministério é uma confusão, que é muito grande, que falta coordenação e que tem muita fofoca, “tem gente se matando lá dentro”.

O próprio ministro comentou a saída de alguns de seus principais auxiliares como se não soubesse o que se passa na sua cozinha. Algo na linha “ah, eles dizem que estão com dificuldades para privatizar”; “ah, tem de perguntar para eles o motivo da demissão”. Guedes parece de resto desorientado, perdido em negociações “ad hoc”, de varejo, meio maníacas (como a CPMF), sem um plano geral organizado. Começa a cair na boca do povo, como o ministro do “vem aí”, do ministro da “semana que vem”, da piada do “imposto Ipiranga”.

Mais importante, no entanto, é notar que o ministério da Economia sobrevive como um corpo algo estranho no governo, um protetorado provisório de Guedes, uma repartição que trata de assuntos de que Bolsonaro não entende e dos quais em geral não quer saber. Sustenta-se em parte devido ao interesse da atual liderança da Câmara de tocar as “reformas”, ao apoio de Rodrigo Maia. O programa do “parlamentarismo branco”, ora meio encardido e moribundo, é o das “reformas”. Quanto vai durar?

Sim, caso Guedes caísse ou se tornasse um dois de paus, o sururu econômico-financeiro poderia colocar em risco o mandato de Bolsonaro. Logo, o ministro não pode ser rifado sem mais. Pelo menos em tese, de uma perspectiva racional interesseira, não pode ser posto para fora enquanto o governo se reorganiza (isto é, faz a campanha da reeleição) e a economia está ainda entre o buraco e o pântano. Mas o bolsonarismo não frequenta o universo da razão, talvez nem mesmo a interesseira.

Quando Sérgio Moro foi expelido do ministério da Justiça, em abril, muita gente escreveu que o governo perdia um pilar e que estaria meio arruinado. Hum. Como ficou mais claro deste então, Moro era um outdoor da campanha eleitoral, agora apenas um cartaz desbotado e rasgado. No mais, o expurgo do lavajatismo foi uma decorrência de Jair Bolsonaro, de seu plano real de governo, de seu desejo de interferir em órgãos de controle, do Coaf à Procuradoria-Geral da República, passando pela Polícia Federal e pela reorganização de serviços de espionagem.

Guedes e “as reformas” são algo mais do que mera fantasia econômica liberal do governo, pois rebuliços nessa área podem ter consequências materiais muito imediatas. Mas são também uma conveniência, como Moro, na verdade uma loja de conveniência no posto Ipiranga. O combustível do governo Bolsonaro é outro, é a guerra cultural autoritária. O resto é acessório.

Vinicius Torres Freire
Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA).

domingo, agosto 09, 2020

A luta do nosso bravo Jair contra os moinhos de vento - BOLÍVAR LAMOUNIER

ESTADÃO - 09/08

Tão inútil quanto combater a esquerda marxista, a esta altura do campeonato


Na última terça-feira, 4/8, o presidente Jair Bolsonaro declarou que seu sonho é livrar o Brasil da esquerda. Minha primeira reação foi tentar saber o que ele entende por esquerda.

Nas redes sociais, a resposta mais comum, quase única, foi a de que esquerdistas são os adeptos do marxismo. Ora, se é isso, o presidente não terá muito trabalho. Comecemos com uma distinção: os marxistas que pegaram em armas e os que vêm os escritos de Karl Marx como uma filosofia, uma teoria da História ou mesmo uma teoria econômica rigorosa. No Brasil, grupos comunistas pegaram em armas duas vezes, evidenciando em ambas uma patética fragilidade. Nos anos 1930, quando o Partido Comunista era dirigido por Luís Carlos Prestes, o levante que se tornou conhecido como a Intentona, anterior à implantação da ditadura getulista, facilmente desbaratado pelo governo da época. Depois de 1964, a luta armada encetada contra o regime militar por Lamarca e Marighella, principalmente. Teve consequências mais profundas, levando os militares a arrochar ainda mais o regime, notadamente no período que ficou conhecido como os “anos de chumbo”.

Atualmente, nada faz crer que existam grupos comunistas inclinados a pegar em armas. Lula e alguns satélites de seu PT, o melhor exemplo sendo João Pedro Stédile, recorreram ocasionalmente a uma retórica beligerante, apresentaram-se como admiradores do chavismo e do regime cubano, mas não foram além disso. Aliás, definir o lulismo não é tarefa para principiantes. Para mim, Lula é uma variante do nosso velho populismo, uma cepa de políticos que acreditam mais no gogó social, prometendo paraísos terrestres (e de vez em quando metendo a mão em algum, que ninguém é de ferro), do que em aprimorar a economia e a administração pública. Aprimorar a economia, nem pensar; o próprio Lula declarou diversas vezes (talvez invocando Noel Rosa) que bons governos nascem é do coração. Esse singelo aparato é suficiente para enganar os incautos – acenando-lhes com um “socialismo por construir” – que proliferam nas universidades, no clero e até certo ponto na imprensa e nos corpos legislativos.

Voltar um pouco no tempo pode tornar mais proveitosa esta nossa inquirição. Jair Bolsonaro estaria empenhado em “livrar o Brasil da esquerda” quando alguns dos maiores símbolos dela desfrutavam imenso prestígio nacional. Oscar Niemeyer, por exemplo, morreu aos 103 anos sem jamais abdicar de sua devoção ao tirano russo Joseph Stalin. Foi, como todos sabemos, o arquiteto de Brasília e quem lhe conferiu tal encargo foi o mineiríssimo e conservadoríssimo presidente Juscelino Kubitschek. Bolsonaro incluiria JK em sua lista dos que, ao ver dele, precisam ser afastados? E Jorge Amado, o grande escritor baiano, consagrado e cultuado em todo o mundo como um de nossos maiores romancistas?

Os casos citados devem ser suficientes para evidenciar que combater a esquerda marxista, a esta altura do campeonato, é uma atividade quase tão inútil quanto arremessar o bravo corcel do Estado contra algum moinho de vento. O enredo melhora bastante se, em vez de circunscrever o conceito de esquerda ao marxismo, fizermos dele uma base mais ampla para um reexame sério dos programas de crescimento econômico que pusemos em prática desde a 2.ª Guerra Mundial. Aqui estaremos falando do nacional-desenvolvimentismo, do horror à economia de mercado, da burocracia pública e da inflação como demiurgos do progresso, da resistência ao investimento estrangeiro, e por aí afora. Ou seja, estaremos nos referindo ao modelo que se tornou conhecido como ISI – de industrialização por substituição de importações –, que de fato acelerou o crescimento enquanto era fácil fazê-lo e depois nos legou a prolongada estagnação de que, salvo melhor juízo, tão cedo não nos conseguiremos livrar. Livrar o Brasil dessa linha de esquerda seria uma excelente ideia, mas salta aos olhos que o presidente Bolsonaro dificilmente conseguirá fazê-lo. Embora se tenha afastado do Exército no posto de capitão, Jair Bolsonaro deve ter ciência de que o modelo a que me refiro sempre contou com ampla simpatia no meio militar. No vídeo da reunião ministerial realizada no Planalto em 22 de abril, vimos o ministro-chefe da Casa Civil, general Walter Braga Netto, sugerindo um retorno ao nacional-estatismo, no que foi prontamente contestado pelo ministro da Fazenda, que parece ser no atual governo o único consciente da arapuca em que a ISI nos meteu.

A visão do futuro brasileiro corporificada no nacional-desenvolvimentismo remonta, como sabemos, ao debate de 1944 entre o economista Eugênio Gudin, favorável a uma economia balanceada, com maior atenção à agricultura, e o historiador Roberto Simonsen, adepto da industrialização a qualquer preço. Decorridos três quartos de século, o panorama é meridianamente claro: temos uma agricultura moderna, pujante, internacionalmente competitiva, e um setor industrial em escombros, não obstante todas as “bondades” de que se beneficiou durante quase todo esse período.

CIENTISTA POLÍTICO, SÓCIO-DIRETOR DA AUGURIUM CONSULTORIA, É MEMBRO DAS ACADEMIAS PAULISTA DE LETRAS E BRASILEIRA DE CIÊNCIAS

sábado, agosto 08, 2020

Luto - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 08/08

Mortos pelo vírus chegam aos 100 mil, e Bolsonaro segue indiferente à tragédia


Aos poucos o país vai voltando ao normal ­—um normal de incúria diante do sofrimento da população. Alcançamos a marca de 100 mil mortos por Covid-19, e por toda parte se vê o abandono progressivo do distanciamento social.

Cem mil mortos em cinco meses. Nessa marcha, o novo coronavírus terminará 2020 como terceira maior causa de morte no país, atrás somente das doenças cardiovasculares e do câncer.

Governadores e prefeitos que se jactavam de sucesso, a exemplo de estados da região Sul, assistem impotentes à alta descontrolada de casos, já nos 3 milhões, e óbitos.

O Brasil ocupa a segunda posição em número absoluto de contaminados e mortos, após os EUA, que chegam a 160 mil falecimentos (em proporção populacional, já os alcançamos). Não é improvável que os ultrapassemos, pois aqui ainda se testa pouco e mal, e a epidemia segue fora de controle em várias localidades.

A cada sete mortos no mundo, um é brasileiro. A média diária de mais de mil mortos por dia se repete por dois meses inteiros. Não é, não deveria ser normal.

O péssimo desempenho do poder público no enfrentamento da pandemia se mostra tanto mais revoltante por evitável. Afinal, o primeiro caso no país se registrou dois meses após o vírus começar a grassar na China; na primeira morte, em meados de março, a Covid-19 já tinha prostrado a Itália.

Os governos tiveram tempo e tinham o Sistema Único de Saúde a postos para uma reação coordenada. Não foi tampouco falta de recursos, em que pese a crise orçamentária, porque agora se despejam dezenas de bilhões em ajuda emergencial sem que se tenha visto prevenção mais eficiente.

O maior responsável pela tragédia se chama Jair Bolsonaro. Em vez de liderar uma ação nacional, negou a gravidade da emergência de saúde pública, promoveu aglomerações e falsas terapias, como a cloroquina, e colheu oito casos de ministros infectados (outro provável recorde mundial), além de si próprio e da primeira-dama.

Alguns comemoram, no presente, o suposto advento de uma imunidade coletiva como chamado para arrebanhar clientes desgarrados de bares, restaurantes, academias e centros de compras —não das escolas, paradoxalmente. Epidemiologistas, entretanto, descartam que se tenha alcançado tal limiar.

Não há panaceia nem vacina por ora. Infeliz a nação que tem necessidade de heróis, disse Bertolt Brecht; mais que infelicidade, a desdita do Brasil é nem mesmo poder contar com um presidente e um ministro da Saúde efetivo neste momento de luto.

terça-feira, julho 28, 2020

Saio em férias para tentar evitar o fim do mundo - JOSIAS DE SOUZA

UOL - 25/07

Nos próximos 15 dias desfrutarei de férias. Nada a ver com descanso. Saio em missão especial. Tentarei deter o Apocalipse. Soube de fonte segura que o mundo começou a acabar pelo Brasil. Você talvez não tenha notado, mas já está acontecendo.

De acordo com o mapa que obtive com exclusividade, a sala fica numa área erma do Além. Na porta, abaixo do número 2020, lê-se: "DJF - Divisão do Juízo Final". Por alguma razão, o primeiro botão pressionado no painel de descontrole foi o do Brasil. Tudo transcorre como planejado.

Se nada for feito, coisas esquisitas começarão a acontecer dentro de duas semanas. Já se sabe o seguinte:

A escuridão apagará a luz do céu de Brasília. O chão se repartirá sob o Palácio da Alvorada, cuspindo das profundezas um ser estranho. Bolsonaro identificará algo de familiar na aparência do visitante. O Apocalipse do capitão terá a cara do Olavo de Carvalho.

"Elegi você pra virar a mesa, não pra ficar embaixo dela, dizendo amém pros milicos e sorrindo pros vagabundos do STF", dirá o ser de aparência olavista, em timbre cavernoso. "Eu te destituo. Condeno-te a mastigar três vezes por dia a cloroquina que Asmodeu amassou. Por toda a eternidade".

Uma chuva de comprimidos cairá sobre os escombros do palácio residencial. E Bolsonaro começará a deglutição. As pílulas lhe perfurarão o cérebro. Seu inferno será engolir toda a cloroquina que o Exército for capaz de fabricar.

Antes de ser sorvido pelo solo, Bolsonaro gritará por socorro. Dois homens descerão do horizonte cavalgando um par de emas. Por um segundo, o presidente se imaginará salvo. Mas logo notará que um sujeito se parece com Rodrigo Maia. O outro tem a calva do Alexandre de Moraes. O gordinho sorri de modo estranho e balbucia: "Deixa que eu chuto". Uma das emas assume a dianteira: "Só depois que eu bicar."

Mourão se apossará do trono. Informado de que um general assumiu o controle do governo civil mais militar da história, o brasileiro se convencerá de que está mesmo diante do fim dos tempos.

De repente, tudo começará a desandar. Paola Oliveira envelhecerá instantaneamente. Silvio Santos acordará com a voz do Lombardi. Paulo Guedes se converterá ao socialismo. William Bonner apresentará o Jornal Nacional de sunga...

Uma onda de suicídios em massa se seguirá ao pronunciamento em que Mourão anunciará em rede nacional suas primeiras quatro decisões:

1) Transformar o Brasil numa monarquia.

2) Conceder ao Zero Um, ao Zero Dois e ao Zero três o título de príncipes honorários.

3) Reconduzir o Weintraub ao posto de ministro da Educação.

4) Entregar a alma ao centrão.

Se tudo correr conforme o planejado, o Brasil amanhecerá deserto numa determinada segunda-feira. O país terá morrido na véspera. Sobrarão apenas duas pessoas: uma jovem militante petista e um blogueiro bolsonarista de meia-idade.

Ela se esconderá no sítio de um amigo, em Atibaia. Ele, na casa de um advogado, também em Atibaia. Ambos serão salvos para poupar trabalho à Divisão do Juízo Final. Avalia-se na sala 2020 que não haverá risco de o Brasil renascer do cruzamento de uma petista com um bolsonarista. Dá-se de barato que os dois brigarão até a morte no instante em que se encontrarem.

Tentarei abortar o Apocalipse, desapertando o botão no painel de descontrole. Se eu não voltar em 15 dias, é porque não consegui evitar que o fim do mundo começasse pelo Brasil.

quinta-feira, julho 23, 2020

Bolsonaro trata Waterloo do Fundeb como vitória - JOSIAS DE SOUZA

UOL - 23/07


"Alguém quer saber sobre Fundeb aí?", indagou Jair Bolsonaro às margens do espelho d'água do Alvorada. Postados na borda oposta, os devotos do mito tinham várias demandas. Mas ninguém, exceto Bolsonaro, parecia interessado em conversar sobre o fundo de financiamento da educação básica, que a Câmara aperfeiçoara na véspera. "O governo conseguiu ontem mais uma vitória, aprovamos o Fundeb", ele insistiu. "O Senado deve seguir o mesmo caminho."

Para sorte de Bolsonaro, seus adoradores não estavam informados sobre a surra que o governo levara no plenário da Câmara. Do contrário, poderiam imaginar que o vírus lhe tivesse subido à cabeça.

"Uma negociação que levou anos", disse o confinado aos visitantes. De fato, a discussão sobre o Fundeb arrastava-se desde 2015. Intensificara-se no ano passado, no alvorecer da gestão Bolsonaro. Durante um ano e meio, o governo tratou o debate como parte da guerra ideológica que instalou na Educação.

A certa altura, Bolsonaro soou como uma espécie de anti-Napoleão, um imperador se descoroando: "Foi uma votação quase unânime." Ele se queixava desde cedo de ter sido chamado de "derrotado" pela "maldita imprensa".

Bolsonaro esticou a prosa: "Seis ou sete votaram contra." Absteve-se de mencionar que os gatos pingados que se opuseram ao aperfeiçoamento do Fundeb na votação da Câmara são justamente os bolsonaristas mais fieis.

"Se votaram contra devem ter seus motivos", afirmou o capitão, antes de condenar os proto-bolsonaristas a um inusitado isolamento social: "Precisa perguntar pra eles por que votaram contra. Alguns dizem que a minha bancada votou contra. A minha bancada não tem seis ou sete. A minha bancada é bem maior do que isso daí."

A deputada Bia Kicis (PSL-DF), uma das vozes ultra-bolsonaristas que votaram contra a emenda constitucional que vitaminou o Fundeb, foi destituída do posto de vice-líder do governo na Câmara. Não é a primeira destituição. Não será a última.

Bolsonaro vem renovando seu quadro de vice-líderes. Troca aliados de primeira hora por soldados do centrão, tratados como heróis da resistência. Na votação do Fundeb, o deputado Arthur Lira (PP-AL), principal voz do centrão e novo líder informal do governo, tentou adiar a sessão. Foi ignorado pelos próprios pares.

Ficou entendido que a bancada fisiológica pró-Bolsonaro, embora seja potencialmente "bem maior do que isso daí", está acorrentada aos interesses do Planalto por grilhões de barbante.

"A verdade vos libertará", anota o versículo preferido do capitão, extraído do evangelho de João. "A esquerda não engole mais uma derrota", disse Bolsonaro na encenação do Alvorada, vinculando-se a uma mentira.

A emenda constitucional aprovada pela Câmara tornou o Fundeb permanente, elevando de 10% para 23% a fatia da União no fundo. O governo tentou adiar para 2022 a vigência das novas regras. Foi derrotado. Quis transferir 5% do fundo para um novo Bolsa Família, em fase de gestação. Não colou.

Pleiteou a destinação de 5% do fundo turbinado para o ensino infantil. Para conseguir, teve de pagar um pedágio, elevando de 20% para 23% a fatia da União no novo Fundeb. Propôs que a verba do salário dos professores fosse desviada para o pagamento de aposentadorias. Foi ignorado.

"Eu queria dar 200%, mas não tem dinheiro", afirmou o anti-Napoleão do Alvorada. "Então, foi negociado. Passou para 23%, de comum acordo. (...) O PT passou 14 anos no poder e não fez nada..."

A ficha de Bolsonaro demora a cair. Mas a lição a ser extraída pelo presidente da votação que revitalizou o Fundeb é a seguinte: a maneira mais rápida de acabar com a guerra ideológica na Educação é perdê-la.

Juntaram-se no plenário da Câmara para derrotar o governo: o presidente da Casa, Rodrigo Maia, os neo-aliados do centrão e toda a oposição. Ao tentar converter em vitória uma derrota tão acachapante, Bolsonaro transformou os jardins do Alvorada numa Waterloo de hospício, ornamentada por emas.

O ‘lavajatismo’ está órfão - WILLIAM WAACK

ESTADÃO - 23/07

Com os heróis da Lava Jato encurralados, um fenômeno político perde força


A frase que ressoa com força no topo da Procuradoria-Geral da República e entre vários ministros do STF é a seguinte: “A Lava Jato não vai acabar, mas vai acabar o lavajatismo”. Como toda encarniçada luta política, também nesta briga-se, em primeiro lugar, por impor uma narrativa.

A que vigora entre quem tem força política ou posição institucional para enfrentar a “Lava Jato” é a de que a força-tarefa de Curitiba se desenvolveu como grupo político com agenda própria e capacidade de dominar decisões das esferas políticas, nisto incluindo Executivo e Legislativo. Mas, para sorte do País, o grupo de procuradores, juízes e policiais da Lava Jato se perdeu no meio do caminho, e cabe agora dar um jeito nisso.

Os principais expoentes da força-tarefa enxergam exatamente o contrário. Em especial a decisão de terça-feira do presidente do STF de impedir buscas no gabinete do senador José Serra em Brasília – atendendo à queixa do próprio presidente do Senado – foi por eles qualificada como tentativa de “dificultar a investigação de poderosos contra quem pesam evidências de crimes” (Deltan Dallagnol, procurador da força-tarefa).

Era algo já previsto na literatura que consumiram: deixados entregues a si mesmos, sem controles externos (como o do Ministério Público), os políticos só produziriam medidas para se proteger e garantir seus interesses (lícitos ou ilícitos). Desnecessário dizer que, para o grupo da Lava Jato, o STF sempre foi visto como parcialmente entrelaçado aos diversos interesses políticos, incluindo ilícitos.

O grupo de Curitiba faz questão hoje de se distanciar do “lavajatismo”, uma denominação que, no seu mínimo denominador comum, expressa um anseio punitivista que ignora consagrados princípios legais contanto que se peguem corruptos. É difícil entender a eleição de Jair Bolsonaro sem a repercussão social e política do “lavajatismo”, mas seu potencial eleitoral para 2022 é um ponto de interrogação cujo tamanho aumenta à medida que transcorre o tempo desde que o ex-juiz Sérgio Moro – de longe a maior expressão da Lava Jato – deixou o Ministério da Justiça.

Moro embarcou na política aparentemente sem um plano claro. Deixou-se levar pelas circunstâncias de um jogo que ele não dominava e elas o obrigaram ao famoso “salto no escuro” – que foi a saída do governo, uma atitude que hoje parece muito mais de preservação do que de ataque. As armas de Moro para atingir Bolsonaro até o momento revelaram-se pouco contundentes, enquanto as do STF contra ele (onde se arguirá a suspeição do então juiz) ainda surgirão.

Ocorre que as circunstâncias estão fazendo com que ele desenvolva um discurso de candidato, postura que não quer (ainda ?) assumir. Onde é convidado a se pronunciar, Moro começa hoje falando de economia, de melhoria do ambiente de negócios, de segurança jurídica e de reformas estruturantes. Evita qualquer postura que o possa associar a radicalismos do espectro político. Defende “união”, “harmonia” e um por enquanto vagamente definido “centro democrático” como linha de atuação.

Não parece disposto de forma alguma a assumir a herança do “lavajatismo”, na medida em que seus heróis de ontem são hoje figuras encurraladas do ponto de vista político e institucional, e na linha do tempo estão longe ainda de um novo teste das urnas. Parece intuir que só o combate à corrupção e o apego à lei e à ordem não trarão vitória eleitoral, diante de um momento político no qual as profundas consequências da dupla crise econômica e de saúde pública estão apenas começando.

A Lava Jato ainda produz ações de repercussão, como a deflagrada contra o senador José Serra, mas que surgem como eco de um passado tornado rapidamente longínquo diante da percepção de quais são os piores problemas da atualidade. O “lavajatismo”, que era também um ânimo de mudança, está perdendo sua principal referência.

Afundando na armadilha da renda média - ZEINA LATIF

ESTADÃO ´23/07

A educação de qualidade é variável-chave para um país sair da armadilha da renda média


É mais fácil um país pobre tornar-se um país de renda média do que este se tornar rico. Os economistas Homi Kharas e Indermit Gill, do Banco Mundial, identificaram essa dificuldade e a denominaram como “armadilha da renda média” em 2007.

Muitos países conseguiram sair da pobreza por meio de políticas governamentais para elevar o estoque de capital da economia. Foi o caso do Brasil. No entanto, o mesmo receituário não seria suficiente para tornar o país rico, independentemente das restrições fiscais. No século 21 ainda menos, por conta do avanço tecnológico.

As dificuldades são de duas naturezas. A primeira é mais técnica: o investimento em infraestrutura e capital instalado gera crescimento do PIB, mas em intensidade decrescente ao longo do tempo. Ficar rico exige passos além: ganhos de produtividade, o que depende de muitas variáveis.

A segunda dificuldade é política. É necessário um arranjo institucional mais sofisticado – envolvendo a academia, imprensa, órgãos públicos e privados – para se construir consensos sobre políticas pró-crescimento. Boa vontade dos governantes é essencial, mas não basta.

Há um grande consenso entre economistas mundo afora de que a educação de qualidade é variável-chave para um país sair da armadilha da renda média. No entanto, em países de renda média não se nota mobilização de atores políticos nessa direção e tampouco envolvimento da sociedade. No Brasil não é diferente e, para piorar, o debate técnico ainda não está suficientemente maduro.

Nesses países, o setor produtivo é, grosso modo, pouco sofisticado, sendo menos penalizado com a falta de mão de obra qualificada em comparação ao que ocorre em países ricos, que produzem tecnologia e buscam inovação. O que o mobiliza não é a cobrança por educação de qualidade, mas sim benefícios diretos. É o que se vê agora no Brasil com a reação contrária de muitos ao fim da desoneração da folha e à reforma tributária. A elite, que não depende da escola pública, também pouco exerce pressão política.

Como resultado, o desenho de políticas públicas de educação acaba sendo mais influenciado por sindicatos e políticos de viés populista.

É nesse contexto, agravado pela omissão do governo, que foi a aprovado o novo Fundeb. O foco principal do expressivo aumento de recursos foram os gastos com a folha, deixando pouca flexibilidade para gestores escolherem a melhor forma para elevar a qualidade do ensino. Esse tema, por sua vez, ficou praticamente de fora.

Em países pobres, com baixo acesso à escola, é crucial elevar os gastos com educação. O Brasil percorreu esse primeiro percurso, mas não de forma eficaz. Há maior inclusão, mas temos o dobro de taxa de evasão escolar em relação a países parecidos. E não seria correto apontar os salários dos professores como explicação para esse resultado. Segundo o Banco Mundial, o piso salarial dos professores está em linha ao de países com renda per capita similar, havendo evolução bem mais rápida na carreira devido a promoções automáticas, além de a previdência ser mais generosa.

Direcionar mais recursos para abrir vagas e aumentar salários é tarefa fácil e traz resultados e dividendos políticos rapidamente. Difícil mesmo é pular para um segundo estágio de elevar a qualidade do ensino, como fizeram os países ricos, para manter os jovens motivados na escola e prepará-los para a vida. Especialistas apontam a necessidade de afastar professores pouco eficientes, enfrentar sindicatos, treinar professores, revisar currículos e adequar as escolas para a nova realidade tecnológica.

Perdemos a chance de um debate político amparado tecnicamente sobre como melhorar a educação, aprendendo com os casos de sucesso. Nos agarramos a fórmulas fáceis e que deveriam estar superadas.

Será que teremos de esperar o problema educacional começar a prejudicar investimentos de forma visível, como ocorre na questão ambiental, para o debate ficar mais maduro? Por ora, o que estamos fazendo é nos afundar na armadilha.

CONSULTORA E DOUTORA EM ECONOMIA PELA USP

sexta-feira, julho 17, 2020

E o governo militar falha outra vez - REINALDO AZEVEDO

Folha de S. Paulo - 17/07

Voltem para os quartéis e peçam desculpas aos brasileiros e às tropas


A representação à PGR de Fernando Azevedo e Silva, da Defesa, contra o ministro Gilmar Mendes, do STF, apelando à Lei de Segurança Nacional e ao Código Penal Militar, tem o odor inequívoco de república bananeira. É o general que sobrevoou a Praça dos Três Poderes num helicóptero de combate quando, em solo, fascistoides pregavam o fechamento do Congresso e do Supremo.

Os militares decidiram sair dos quartéis para colonizar o governo. A janela se abriu com a eleição de Jair Bolsonaro à esteira da razia provocada pelos desmandos da Lava Jato. O resultado é um desastre de proporções amazônicas. A institucionalidade trincada nos conduziu à terra dos mortos --desmatada e queimada. Já fiz neste espaço, no dia 10 de maio, uma exortação: voltem para os quartéis, soldados! Agora outro convite: chega de autoengano, colegas analistas!

Muitos de nós cometeram o erro de imaginar que os militares graúdos da reserva e da ativa estão com Bolsonaro para conter sua criatividade destruidora. Os fatos desmentem a esperança, que, nesse governo, deve sempre ficar de fora.

Luiz Eduardo Ramos, o general (!) da coordenação política que só agora pede passagem para a reserva, afirmou em entrevista que especular sobre golpe é "ultrajante". Mas fez uma advertência: convém não "esticar a corda". E o que seria esticá-la? Respondeu: "Um julgamento casuístico".

Em nota, presidente, vice e ministro da Defesa alertaram: "As FFAA do Brasil não cumprem ordens absurdas" e "não aceitam (...) a tomada de poder (...) por conta de julgamentos políticos". Nos dois casos, os fardados se colocam como juízes dos juízes. Isso é ultrajante.

Acabou a tutela! A democracia não é uma concessão que militares fazem a civis. A força armada existe para nos proteger, não para nos ameaçar.

Mendes teve a serena ousadia de chamar pelo nome, ainda que num exercício hiperbólico, aquilo a que se assiste no país, segundo o que define o Estatuto de Roma, que orienta os julgamentos do Tribunal Penal Internacional: genocídio.

E o Exército "se associa", verbo empregado pelo ministro, à tragédia porque à frente da Saúde está um general da ativa --Eduardo Pazuello-- cuja incompetência se conta em cadáveres: quase 80 mil.

Para os muitos exigentes em matéria de genocídio: o morticínio em massa tem cor e classe majoritárias: preta e pobre.

E lá veio a voz surda da ameaça em notas e cochichos, a exemplo do malfadado tuíte de 3 de abril de 2018, quando o então comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, ameaçou o STF caso concedesse o habeas corpus a Lula, o que, por 6 a 5, não aconteceu, contrariando a Constituição. Os militares ganharam balda. Conseguiram, por exemplo, um dos planos de aposentadoria mais generosos do mundo mesmo nesta terra devastada, do genocídio cordial sem hipérbole.

Mendes, na verdade, defendeu a honra do Exército, que não é propriedade dessa geração do oficialato. Como instituição permanente e regular, pertence ao povo. É preciso, se for o caso, preservá-lo do erro de alguns generais que confundem sua pantomima pessoal com a história da Força.

Não haverá golpe, não é mesmo, senhores? A tragédia da Covid-19 e a crise ambiental, que tem a Amazônia como epicentro, são, antes de tudo, desastres da gestão militar. Tornam o país pária no mundo. Golpe em nome do quê? Condecorem Mendes, que não acusou o Exército de praticar genocídio. Ele cobrou que a Força não se associe ao desastre.

Só para lembrar: Mark Milley, chefe do Estado Maior das Forças Armadas dos Estados Unidos e da máquina de guerra mais poderosa da Terra, teve a humildade de se desculpar com o povo americano por ter sido flagrado numa foto ao lado de Donald Trump, em situação política incômoda.

Quem pode se impor militarmente ao mundo se desculpa com seu povo por um ato errado. Quem é ignorado por este mesmo mundo se impõe militarmente a seu próprio povo.

Descolonizem o governo, senhores! Voltem para os quartéis e peçam desculpas aos brasileiros e às respectivas tropas. Como se nota, governo militar não funciona. Com ou sem eleição.

quinta-feira, julho 16, 2020

Desastre anunciado - WILLIAM WAACK

O Estado de S.Paulo - 16/07

O quadro eleitoral americano parece confirmar as previsões para nossa política externa


Profissional de carreira que é, pode-se assumir que o embaixador brasileiro em Washington já cultive contatos com os democratas que provavelmente vão assumir junto com Joe Biden. Talvez áreas do governo como Economia, Infraestrutura, Agricultura, Minas e Energia, além das pastas militares, possam ajudá-lo. O pessoal da área internacional “pura” do atual governo só tem os números da turma ligada a Trump.

Se as eleições fossem hoje Trump estaria fora, e as relações do Brasil com Washington em precária situação. A opção preferencial pela pessoa do Trump feita por Jair Bolsonaro configura-se um desastre de proporções inéditas na história da nossa política externa. Não há exemplo de “alinhamento automático” tão mal conduzido. Mesmo na Guerra Fria o regime militar brasileiro levou nossos negócios em relação aos EUA de forma mais autônoma.

Cristalizaram-se nos últimos dias dois dilemas geopolíticos que se tornaram ainda piores devido ao apego de Planalto a Trump. O primeiro é o fato de que Joe Biden, o candidato democrata que hoje derrotaria Trump apresentou um ambicioso programa de recuperação econômica dos Estados Unidos baseado na “economia verde”, o que inclui a volta dos Estados Unidos ao Acordo de Paris (que o Brasil, macaqueando Trump, maltratou).

Procura jogar a ainda maior economia do mundo numa larga avenida de investimento em energias renováveis, novas tecnologias e provavelmente exercendo ainda maior pressão política e comercial sobre o Brasil e suas políticas ambientais. Biden não vai conseguir fazer o relógio voltar para trás, mas promete retomar muito do “multilateralismo” (“globalismo”, como preferem dizer os bolsonaristas) e restituir parte da importância de agências que Trump fez questão de tentar destruir, como as da ONU (em alguns casos, com implícita colaboração brasileira).

A outra questão geopolítica é a participação da gigante de telecomunicações chinesa Huawei na infraestrutura brasileira do 5G, uma decisão que se aproxima para legisladores e governantes brasileiros, e que já causa notável angústia. O ministro Paulo Guedes resumiu há pouco o problema: “o ideal seria deixar a competição progredir, americanos contra chineses, mas surgiu essa questão geopolítica”. Trata-se da cobrança para o Brasil seguir o mesmo caminho que o Reino Unido, que foi banir a gigante chinesa de telecomunicações.

O 5G vai colocar também a cúpula militar brasileira contra a parede. Nossos militares no momento celebram, e com razão, um entendimento com os americanos que promete aplainar o acesso a tecnologias de ponta na área de defesa. Mas os sinais vindos de Washington são inequívocos: parcerias estratégicas no campo de defesa vão depender do comportamento do Brasil em relação ao uso de tecnologia e equipamentos chineses.

Conter a China é um consenso entre republicanos e democratas nos EUA, com a diferença do mau humor em relação ao Brasil que se pressupõe inicialmente de uma administração democrata – que ainda por cima tem boas chances de conquistar nas urnas em novembro também o Senado. Boa parte do nosso governo acredita que a China precisa comer e não vai retaliar o Brasil, um de seus principais fornecedores de commodities agrícolas. É uma perigosa zona de conforto mental. A China tem condições de nos causar muita dor.

Na figura do general Hamilton Mourão, vice presidente e coordenador das políticas para a Amazônia, o governo brasileiro admitiu no Senado esta semana que a guerra das narrativas está perdida para nós, que o Brasil está na defensiva, e que precisa apresentar resultados ao mundo para “sair das cordas” (Mourão). O que deixa Bolsonaro diante de um problemão formidável de política externa pelo qual só pode culpar a si mesmo.

Fogo na Amazônia e o governo deixa queimar CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 16/07

Não há um plano integrado de desenvolvimento para a Amazônia e é muito pouco apenas aumentar o monitoramento, como quer Mourão


Não dá ainda para admitir que o governo Bolsonaro mudou sua postura diante do alastramento das queimadas na Amazônia.

O que há é o reconhecimento tardio e flácido do descontrole sobre o que se passa por lá. O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, coordenador de um organismo inoperante chamado Conselho da Amazônia, reconhece que “nossos mecanismos de monitoramento são péssimos”, mas não diz como nem sob que condições nem com que objetivo é preciso passar do péssimo para algo aceitável.

Em todo caso, essa é uma postura diferente porque até agora o governo se limitava a repelir as denúncias internacionais que condenavam a destruição por não passarem, como vem afirmando o presidente Bolsonaro, de tentativas de atropelar a soberania nacional na região ou de justificar práticas de chantagem destinadas a solapar as exportações brasileiras de produtos agropecuários.

Pelo levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Amazônia teve 20% a mais de focos de queimada em junho deste ano em relação ao mesmo período de 2019 (veja o gráfico). A devastação beneficia grupos que se apropriam do patrimônio nacional e que quase nada acrescentam à renda dos brasileiros.

Depois de ter repelido o quanto pôde as denúncias dos especialistas brasileiros e das autoridades internacionais, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, agora afirma que é preciso “ouvir as críticas” que vêm do exterior, como se não as conhecesse ou como se entendesse que bastará fingir que as ouve para fazê-las cessar.

Até agora, a única política ativa do governo Bolsonaro para a Amazônia se limitou a mobilizar o corpo diplomático para responder às críticas que provêm de todos os quadrantes e, assim, reduzir o desgaste da imagem do País. O resto é deixar rolar e deixar queimar.

A destruição da Amazônia começou a prejudicar os investimentos estrangeiros no Brasil. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e o próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, vêm advertindo que a omissão do governo não está apenas corroendo a imagem do País lá fora, mas também cancelando exportações e bloqueando projetos de desenvolvimento por aqui. Também por isso, a aprovação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia corre sério risco de não se confirmar. O presidente da França, Emmanuel Macron, acaba de manifestar sua oposição à assinatura do acordo.

O pleito do “desmate zero”, como está no manifesto dos ex-ministros da Economia e dos ex-presidentes do Banco Central, deve ser visto como a definição de um ponto de partida. Mas até mesmo para isso é preciso saber o que queremos e para onde queremos ir.

Nos últimos 50 anos, as políticas de governo para a Amazônia se limitaram a objetivos de defesa e de ocupação das áreas fronteiriças, como definidos pelo Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam) e pelo projeto da Calha Norte.

Planos de desenvolvimento da região foram insuficientes ou tiveram graves desvios de finalidade. A Sudam, o sistema de incentivos para investimentos, por exemplo, se transformou em foco de corrupção e em cemitério de iniciativas inviáveis. A Zona Franca de Manaus, que hoje oferece pouco mais de 60 mil empregos diretos e indiretos, carrega o vício original de dar prioridade a investimentos em indústrias, muitas delas artificiais, e de desdenhar de polos mais promissores de desenvolvimento, como o turismo e o aproveitamento racional e sustentável de minérios e demais recursos naturais. Hoje, Manaus é uma cidade em degradação acelerada, como vem denunciando com dor no coração um dos seus mais lúcidos filhos, o escritor Milton Hatoum.

Não há um plano integrado de desenvolvimento para a Amazônia. E, sem saber o que fazer, é muito pouco apenas aumentar o monitoramento, como quer o general Mourão.

Mudanças do vento - ZEINA LATIF

O Estado de S. Paulo - 16/07

Haverá o recrudescimento da atual tendência nacionalista ou uma mudança de rumo?



Como será a ordem econômica mundial no pós-pandemia: haverá o recrudescimento da atual tendência nacionalista ou uma mudança de rumo? Há razões para acreditar no segundo cenário. Afinal, como diz Delfim Netto, “a história é escrita por acidentes”. Acidentes causam inflexões.

A crise global de 2008, fruto de erros de governantes, trouxe muito descontentamento social e despertou sentimentos nacionalistas e antidemocráticos, alimentando políticos de perfil populista.

Nos EUA, como aponta Luigi Zingales, a bronca veio dos que se sentiram deixados para trás, penalizados por desemprego e execução de hipotecas, em meio à visão de que o mercado financeiro, o causador da crise, saíra ileso. Não foi diferente na Europa.

O descontentamento se espalhou entre os países emergentes com maior fragilidade interna, conforme a perda de ímpeto do comércio mundial e o fim do ciclo de commodities reduziram seu ritmo de crescimento. O maior símbolo foi a Primavera Árabe.

Não se pode negar a influência do quadro internacional no Brasil, mas a insatisfação e o apelo ao populismo foram muito mais frutos de nossos erros – a corrupção e a política econômica que causaram a recessão passada.

A crise de 2008 aumentou nos países desenvolvidos o sentimento contra a globalização, apesar do seu impulso a ganhos de produtividade e crescimento mundial. A desigualdade, em trajetória ascendente mesmo antes da crise, por conta da perda de empregos em favor de pares nos países emergentes, se agravou. E da pior forma: a queda da renda dos mais pobres.

Foram os emergentes que mais ganharam com a globalização, principalmente pelo forte crescimento do comércio mundial após a entrada da China na OMC em 2001. A redução da pobreza e o surgimento da nova classe média não foram exclusividades do Brasil.

Alguns acreditam que a pandemia irá exacerbar a antiglobalização, pela busca dos países em reduzir a dependência externa de produtos estratégicos. Algo preocupante, inclusive para a geopolítica, pois o comércio mundial promove a cooperação entre as nações.

No entanto, poderá haver correção de rumo. A falha de populistas em lidar com a pandemia, em contraposição ao sucesso de lideranças liberal-democráticas, poderá enfraquecer a pauta antiglobalização.

Nesse contexto, as eleições nos EUA ganham maior importância. Mesmo sendo a guerra comercial China-EUA um assunto de Estado, e não de governo, a saída de Trump poderá facilitar as negociações. Mais importante, uma postura mais agregadora do próximo presidente poderá ajudar na composição de países avançados com vistas a conter excessos da China.

Não sem razão esses países são críticos à OMC, pois foi dado à China o acesso a mercados do Ocidente, sem cobrar medidas para proteger a propriedade intelectual, fortalecer o estado de direito e dar tratamento equivalente a empresas estrangeiras em seu território.

Uma maior coalizão dos países, incluindo emergentes que desejam a globalização, irá significar um saudável contraponto à China, que expande sua influência.

Enquanto isso, Xi Jinping, a 7 anos no poder, enfrenta questionamentos por conta da forma omissa com que lidou com a pandemia. Desgastado, o líder chinês poderá enfrentar dificuldades para um terceiro mandato em 2022, ainda que a economia se recupere rapidamente.

Os EUA terão oportunidade de retomar a ordem mundial liberal, mas promovendo o compromisso com políticas sociais. Os benefícios do liberalismo precisam ser melhor compartilhados com a sociedade.

Novos ventos poderão trazer uma maior integração de parceiros comerciais tradicionais, afastando o cenário de isolamento e conflito entre as grandes nações.

No Brasil, a captura desses (possíveis) ventos dependerá do surgimento de lideranças políticas de perfil liberal-democrático com capacidade de competir em 2022. Até lá, teremos de lidar com o isolamento político do País na arena mundial e as crescentes pressões externas diante das falhas em lidar com a saúde e o meio ambiente.

Mundo mais complexo, mas não inexoravelmente pior.

Consultora e doutora em economia pela USP

segunda-feira, julho 13, 2020

Lava Jato, que elegeu um presidente, inventa conspiração para eleger outro - REINALDO AZEVEDO

UOL - 13/07


Atenção, leitores!

É mentira que o confronto em curso entre a Procuradoria Geral da República e a Lava Jato faça parte de um esforço do governo Bolsonaro para controlar a força-tarefa. Essa é a versão conveniente que integrantes desta marca publicitária — Lava Jato — inventaram para que ela continue a atuar como ente autônomo, que não presta contas a ninguém.

É mentira que a eventual criação da Unidade Nacional de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado (Unac), que centralizaria forças-tarefa, poderia resultar num órgão com superpoderes policiais, que atuaria ao arrepio de qualquer controle institucional. A verdade está no exato oposto: essa é a realidade que vivemos agora. Hoje em dia, a força-tarefa faz o que lhe dá na telha. Na sua ousadia sem limites, acredita ter autonomia até para doar dinheiro decorrente de multas e acordos de delação a seu bel-prazer, como se os recursos lhe pertencessem.

Estamos diante de uma soma de aberrações. E, mais uma vez, a imprensa — ou setores — pode ter um papel decisivo para que se encontre o bom caminho ou para que se aprofunde o poço um pouco mais.

E que se note: a rapaziada é boa de lobby. A imprensa já está coalhada de artigos — inclusive de esquerdistas (!?) — alertando para o grave risco que estaria correndo o país nesta que seria uma terrível conspiração para o governo Bolsonaro acabar com a independência do Ministério Público Federal. O PT, como maior partido de oposição, está longe do debate, pensando sabe-se lá em quais substantivos celestes...

Vamos ver.

A Lava Jato foi o principal cabo eleitoral de Jair Bolsonaro. A Vaza Jato revelou diálogos de procuradores muito preocupados, por exemplo, com a possibilidade de que o PT vencesse a eleição. A maior estrela do lavajatismo — Sergio Moro — aceitou o cargo de ministro da Justiça, e se considerou, o que já é um absurdo em si, que se tratava do empoderamento da operação. E ninguém se deu conta de um absurdo, entre tantos: um juiz não poderia se confundir com a força-tarefa, é claro!, ou estaria evidenciado que não tinha independência para julgar. E não tinha! Condenou, por exemplo, Lula sem provas. Segue vivo o desafio para que digam em que página da sentença de Moro ela aparece.

A receita desandou. E agora os protagonistas da Lava Jato pularam fora do barco bolsonarista, junto com Moro, cujas ações evidenciam a pretensão de se candidatar à Presidência, o que ele nega, é evidente, para crença de ninguém. Como a relação entre Bolsonaro e a imprensa não é a melhor possível e como a Vaza Jato minou a credibilidade burra e impensada que tinha a operação junto a esta mesma imprensa, então é preciso jogar um fantasma no mercado da política e das ideias.

E qual é? Ao tentar obter os "dados estruturados e não estruturados" de posse das seções da Lava Jato (Curitiba, São Paulo e Rio), o braço da operação na PGR estaria cometendo uma ilegalidade -- é mentira! -- para subordinar a investigação aos interesses do governo Bolsonaro: mentira ainda mais cabeluda. Efeito esperado:
1 - refazer os canais e comunicação entre setores da imprensa e a Lava Jato. Neste fim de semana, assistimos a um verdadeiro festival de boatarias contra o ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo;
2 - descolar-se do bolsonarismo, numa espécie, então, de aliança informal com o jornalismo. Já que Bolsonaro bate muito da imprensa, é preciso deixar claro que a Lava Jato, agora, quer voltar a exibir a sua feição anti-establishment. Também quer fazer parte da frente ampla em favor da democracia, depois de ter ajudado a degradá-la.

Não peçam que os partidários da tese de que a criação da Unidade Nacional de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado subordinaria as forças-tarefa ao governo porque eles não saberão demonstrar sem atravessar a linha que separa a realidade da teoria conspiratória.

Os procuradores continuariam livres para fazer seu trabalho. Por definição, não haveria como o governo meter a mão grande em tal unidade porque seriam muitos os olhos a vigiar a relação. Sujeitas a pressões políticas, convenham, as investigações estão hoje, ou tudo o que a Vaza Jato trouxe a público não bastou para evidenciar a pornográfica intimidade havida entre juiz e procuradores e os procedimentos heterodoxos dos próprios membros da força-tarefa? Diálogos que vieram à luz evidenciaram que os senhores procuradores firmaram parceria, por exemplo, com o FBI ao arrepio das disposições legais. Dallagnol anunciou a um colega que ele mesmo se encarregaria de encaminhar um pedido de extradição sem comunicação prévia ao Ministério da Justiça.

Não caiam nessa conversa. O bolsonarismo nada tem a ver com a necessária reorganização de um modo de combater a corrupção que destrói institucionalidade, empresas e empregos e só fortalece projetos de poder. Como se pode ver. A Lava Jato achou que poderia usar Bolsonaro como barriga de aluguel, e Bolsonaro tentou instrumentalizá-la a serviço de seu próprio projeto autoritário.

Como a coisa não prosperou, agora a Lava Jato ataca o antigo hospedeiro para tentar se manter à margem da lei, conservando o enorme poder que isso implica. Já elegeu um presidente. Agora quer eleger outro.

Talvez a China ajude os EUA a saírem de seu transe psicótico - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 13/07

Depois da queda da URSS, os americanos piraram e o país se transformou num parque temático de tolos


Há algum tempo, Vladimir Putin, presidente da Rússia, disse, com razão, que o fim da União Soviética (URSS) foi uma catástrofe para o mundo.

A URSS equilibrava a geopolítica, mantendo os EUA lúcidos. Depois da queda da URSS, os EUA piraram. Transformaram-se num parque temático de tolos. Hollywood não passaria em nenhum teste de QI. Trump e seus retardados tampouco. Torquemada reina na América.
Ilustração - Ricardo Cammarota

A esquerda soviética era muito melhor do que a americana. Sabia que não há transformação social sem violência política. A esquerda americana é uma forma de neurose obsessiva temática. Gira como uma louca ao redor de gênero, raça e classe social. Nada mais existe além dessa tríade.

O que ela quer é ganhar dinheiro com essa histeria. E os ingênuos são tão alienados que não entenderam algo básico: se as empresas abraçam uma ideia é porque ela é uma mercadoria, se virou publicidade é porque perdeu os dentes, se virou super-herói é porque virou Disney. A esquerda americana é um brinquedo de riquinhos. Um novo “life style”. Orna com horta na varanda.

A “culpa” é da moçada de maio de 1968, os entediados na rive gauche de Paris. Quando descobriram que a revolução bolchevique matava, fizeram xixi nas calças e gritaram: mamãe! Queriam “mudar o mundo”, mas sem sujar as mãozinhas de sangue. Marx diria: humanismo burguês.

Sem a URSS, os EUA se tornaram o grande exportador de todo tipo de obsessão cultural. E de lixo político à direita e à esquerda. Americanos não sabem criticar o capitalismo sem criar algum produto de consumo.

Mas não é válido combater preconceitos? Claro que sim. Mas quem disse que o problema central do capitalismo seja combater preconceitos? O problema central do capitalismo, dito numa linguagem “family friendly”, é ter transformado o mundo numa ópera de tolos.

Se a direita é um bando de gente grossa, racista e burra, a esquerda (sempre mais chique) é um fetiche de jovens ricos e entediados que resolveram mudar o mundo com uma ideia na cabeça e uma câmera na mão. E têm ao seu lado a indústria cinematográfica mundial.

Mas o que isso tudo tem a ver com torcer pela China? Porque espero que ela se transforme na principal economia até 2025. E com isso, quem sabe, talvez a China ajude os EUA a saírem do transe psicótico no qual se encontram. E assim, quem sabe, ajude as democracias a recuperarem sua sanidade mental, descobrindo que a maior parte da população mundial não está nem aí pra democracia, contanto que tenha janta a noite.

A leitura de “Capitalismo sem Rivais, o Futuro do Sistema que Domina o Mundo” (Todavia) de Branko Milanovic, é capital. Para ele muitos países podem seguir o modelo chinês de capitalismo, que ele chama de capitalismo político, por oposição ao capitalismo meritocrático liberal dos americanos e europeus, simplesmente porque o modelo chinês dá conta do recado de tirar gente da pobreza, aparentemente, mais rápido.

Se o capitalismo não tem rivais, a pergunta que faço é: como salvar o mundo da pandemia de tolices que caracteriza o mundo contemporâneo?

Para os fanáticos pela ideia de “novo normal”, diria que a normalidade da geopolítica daqui pra frente será ter um novo ator capaz de mandar os EUA calarem a boca, como os soviéticos faziam no passado.

Não se trata de desprezar a democracia, mas sim de lembrar a ela que a China pode vir a provar que para produzir riqueza não se faz necessário que as pessoas votem nos seus líderes ou tenham múltiplos partidos.

E não se prova a falsidade desta hipótese apenas evocando argumentos deontológicos (isto é, argumentos que lidam com o modo como as coisas deveriam ser eticamente e não como elas de fato são).

As pessoas negociam o direito ao voto se sentirem que outro modo de organizar a política pode melhorar a vida delas. O equívoco comum nas elites das democracias ocidentais é que todo mundo vive numa Dinamarca imaginária.

A China está tirando sua população de uma miséria ancestral na velocidade da luz. E os chineses sabem que não vivem na Dinamarca. Permanecem lúcidos, sabendo o preço das coisas e sem tolices.

Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

domingo, julho 12, 2020

Sobre aqueles que não mudaram - LEANDRO KARNAL

ESTADÃO - 12/07

Mesmo ante milhares de mortos, há os que insistem que a covid-19 não foi nada, apenas histeria


Opinar é pensar de improviso, baseado em dados por vezes escassos, ora abundantes. Sei algo sobre um assunto, penso (quando o faço) e emito uma sentença sobre aquilo. Isso é minha opinião, ou seja, isso é o que acho verdade diante de algo sobre o qual sei pouco ou mais do que nada.

Mudar de opinião é sinal ambíguo. Pode ser símbolo de quem não tem firmeza ou convicções. Jô Soares desenvolveu, décadas atrás, uma personagem maravilhosa que era a encarnação desse tipo: Múcio. Para quem não se lembra, era daqueles que não querem desagradar a ninguém, logo... concordava com tudo o que lhe diziam. O quadro sempre se passava diante de um diálogo em que opiniões divergentes se cruzavam. De um lado, alguém dizia: vinho tinto, definitivamente! Do outro, a réplica vinha: melhor o branco, sempre! Passando despercebido, Múcio era sempre chamado para funcionar como um fiel da balança e asseverar com quem estava a razão. Pobre coitado! Começava ouvindo os argumentos do defensor dos tintos, que falava sobre taninos, corpo, robustez, inigualável para carnes. Ao fim, concordava com aquilo: “Sim! Tintos, claro. Tintos”. E, quando ameaçava retomar sua marcha, era segurado pelo colarinho pelo outro lado, que, então, lhe explicava o valor de um branco, seu frescor, leveza, acompanhamento inigualável para peixes e pratos suaves. Ao fim da peroração, anuía: “Claro, claro, brancos são superiores!”. Irritando ambos os lados, pressionado para se decidir, buscava o consenso: “Tomemos rosé”.

Na outra ponta de Múcio, está o cabeça-dura, o teimoso. Gente que, diante de evidências concretas, se apega a sua opinião já pronta. Não cede, não muda. Há quem louve seres assim, e chamam a dureza de resolução ou firmeza. De fato, há quem por teimosia tenha ganhado guerras ou acertado na loteria. Mas, para cada vitorioso dessa cepa, há milhões de exemplos de gente chata e recalcada apenas, disposta a morrer em navio com casco furado, jurando que aquilo pode e será consertado com um pouco de breu e de obstinação.

Vivemos a era da opinião. Redes sociais ao alcance de nossos dedos fazem com que eu queira opinar sobre tudo e todos. Sobre a pandemia que nos assolou, não foi diferente. Cansamos de ver Múcios querendo agradar à – olhem a ironia – opinião pública, trocando de convicção sobre o que fazer e como fazer com a frequência com que passamos álcool em gel nas mãos. Ao mesmo tempo, lá estão os que, diante de curvas exponenciais, dados sobre falência de sistemas de saúde e colapso de sistemas funerários, diante de corpos padecendo e milhares de outros sem vida, insistiam que a covid-19 não foi nada, apenas histeria, tempestade em copo d’água.

Não estou demonizando a nossa capacidade de opinar, tampouco reduzindo o mundo a dois tipos de pessoa: Múcios e anti-Múcios.

Porém, argumento que o bom senso nos impele a mudar diante das evidências, que isso é sinal de inteligência. Múcio era carente e apenas desejava se livrar de enrascadas, de falsas diatribes. O acordo, contudo, era, para ele, sobrevivência emocional, não política pública. Anti-Múcios têm, no geral, zero de inteligência emocional e, igualmente, ausência de sabedoria prática.

No começo das notícias do coronavírus, tudo parecia longe e distante, talvez fosse contido ali mesmo na China. Depois, novidades vieram de contaminados em países vizinhos. Tudo bem pensar que estivéssemos sãos e salvos. O vírus já estava na Califórnia nessa época, mas ninguém sabia. Ele então tomou de assalto a Europa e, de lá, importamos o problema. Um caso em São Paulo e foi curado. Problema menor. Eu escrevi um texto bem mais otimista antes de março de 2020. Depois outro, e mais outro, a primeira morte. As evidências estavam ali. Chegamos ao patamar de milhares de mortes por dia. Em uma semana, pereciam mais pessoas da nova doença do que de gripe comum em um ano todo. Só os EUA perderam um, depois dois Vietnãs de americanos.

Mesmo diante disso tudo, houve aqueles que não mudaram. Aqueles que continuaram sua vida, praguejando. Aqueles que não se abalaram. Mantiveram sua opinião sobre o vírus, sobre a ciência, sobre a economia, sobre a política. Diante dessas pessoas, aqueles que não mudaram, escrevo hoje pensando se existe um jeito de convencer quem não se abre a argumentos. Boa semana para 
todos.

As crianças na pandemia - ROSELY SAYÃO

ESTADÃO - 12/07

Diariamente lemos, ouvimos, falamos, assistimos a reportagens e trocamos ideias a respeito da doença provocada pelo covid-19, da gravidade dela e da morte


Nunca a morte – bem como a ideia dela – esteve tão em evidência para nós quanto nestes tempos de pandemia. Diariamente lemos, ouvimos, falamos, assistimos a reportagens e trocamos ideias a respeito da doença provocada pelo covid-19, da gravidade dela e da morte.

Sofrimento e morte: eis os temas que têm ocupado lugar privilegiado em nossos pensamentos. Muitos perderam pessoas próximas, com quem tinham laços de parentesco ou de vínculo de afeto. O sofrimento decorrente dessas perdas tem sido muito intenso e o luto, nada fácil. Afinal, quase todos foram privados do funeral e do enterro, rituais que ajudam a organizar o luto das pessoas. Mesmo quem não perdeu alguém conhecido ou próximo sofre por empatia.

Já lemos opiniões e análises de que as notícias sobre o número de infectados e mortes poderia desumanizar a dor da perda de tantos brasileiros, já que se as informações acabam se transformando em números e estatísticas. Entretanto, nossa humanidade não permite que ignoremos por completo o fato de que o sofrimento, a angústia, a ansiedade e o medo, entre outros, nos rondam neste período de pandemia e não há vacina tampouco tratamento efetivo para a doença.

Nesse panorama, é importante perguntar: como ficam as crianças e os adolescentes nesse contexto? Vale lembrar que todos eles estão com acesso a todas as informações do mundo adulto. Como será que entendem e elaboram essas questões? Como a ideia de morte é percebida? Como responder às perguntas que nos fazem?

Primeiramente, é preciso lembrar que a ideia da morte varia de acordo com o estágio de desenvolvimento da criança, bem como com as experiências já vivenciadas. Por exemplo: uma criança de 4 anos pode não entender a morte no seu real significado, e outra, da mesma idade e mesmo estágio de desenvolvimento, por viver em locais de extrema violência, pode ter um entendimento mais pleno da finitude humana.

Vamos lembrar que a aceitação da morte é difícil até para adultos e que, a partir dessa ideia, as crianças passaram a ser poupadas da ideia da morte, como se isso fosse possível! Muitas famílias não contam aos filhos pequenos sobre a morte de um parente próximo e até criam mentiras para explicar a ausência das pessoas que morreram. Em vez de dizer, por exemplo, “o vovô morreu”, dizem: “o vovô viajou”. No geral, devemos sempre respeitar a criança e dizer-lhe a verdade. Ocultar a morte para evitar sofrimento não ajuda em nada: a criança percebe que há pessoas tristes ao redor e a relação de confiança sofre, então, uma quebra.

Dizer a verdade à criança a respeito da morte pode sofrer variações de acordo com a idade dela. Para as que estão na primeira infância pode ser útil recorrer a alguns mitos. Por exemplo: “vovô morreu e agora está no céu, com as estrelas”, uma fantasia que ajuda a criança a elaborar o conceito.

Crianças maiores já entendem o significado da morte quase como um adulto: “É o fim”, me disse uma garota de 10 anos. E quando essa compreensão chega, em geral chega acompanhada de medo – medo de perder os pais, medo da morte.

Acolher amorosamente esse medo, sem falsas promessas, é o melhor que podemos ofertar. Não podemos garantir que ela não morrerá, mas podemos aquietar o quanto possível essa angústia: “Irei sempre cuidar de você e de sua saúde, da minha também”. Isso dá segurança à criança. E quando eles perguntam o que não sabemos? “Por que as pessoas morrem?”é uma curiosidade frequente. Responder que é “porque toda a vida acaba” é um modo delicado de apontar a finitude da vida.

E os adolescentes? Com eles, a questão é mais complexa porque, em tempos de pandemia, de isolamento físico, de quebra do acesso ao mundo adulto que eles vinham conquistando, a ideia de morte pode acrescentar à ansiedade e à tristeza deles um fator perigoso. Muitos amigos psiquiatras têm relatado a procura de pais de adolescentes que têm falado de ideias suicidas. Nesses casos, é preciso procurar rapidamente um profissional.

No geral, devemos incentivar no adolescente o amor à vida e o cuidado com ela, em qualquer situação, e nunca o desafio da morte.

É PSICÓLOGA

Cloroquina é inútil contra o desgoverno - ROLF KUNTZ

O Estado de S.Paulo - 12/07

Desprezando o direito à vida, Bolsonaro busca reeleição sem nunca ter governado


Não tentem curar despreparo, ignorância, incompetência ou irresponsabilidade com cloroquina. Não vai dar certo, como já foi comprovado no Brasil e nos Estados Unidos. Consumidor, defensor e propagandista desse medicamento, o presidente Jair Bolsonaro já testou positivo para o novo coronavírus, mas continuou testando negativo para as funções de governo. No meio de uma pandemia, o Brasil completou na última sexta-feira quase dois meses sem titular no Ministério da Saúde. No mesmo dia, um novo ministro da Educação, o quarto em pouco mais de um ano meio, poderia ser anunciado. Na véspera, numa de suas lives, o presidente havia tentado mostrar otimismo. “A economia vai pegar”, disse ele, atribuindo a profecia ao ministro da Economia. “Se a economia não pegar, fica complicado. Mas acredito no Paulo Guedes”, acrescentou. Acredita mesmo?

Confiando no ministro, mas nem tanto, na mesma live o presidente voltou a cobrar a reabertura mais pronta das atividades. “Há sinais de retomada na economia, mas precisamos de governadores e prefeitos que comecem a abrir o comércio, caso contrário as consequências vão ser danosas para todo mundo no Brasil”, disse Bolsonaro. A insistência contrasta com seu desinteresse, exibido até recentemente, pelos assuntos econômicos. Como explicar a mudança? Uma súbita iluminação?

Bolsonaro completou seu primeiro ano de mandato com a economia em pior estado do que em 2018. O produto interno bruto (PIB) cresceu apenas 1,1% em 2019, menos que em qualquer dos dois anos precedentes.

No começo deste ano o desemprego, superior a 11%, era pouco menor que o de um ano antes e mais que o dobro da média (5,2%) da OCDE, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. A indústria, depois de alguma retomada em 2017 e 2018, emperrou de novo. Entre novembro de 2019 e março de 2020, a produção industrial de cada mês foi sempre menor que a de um ano antes.

O presidente nunca se mostrou preocupado com esses números – até a pandemia bater no Brasil e começar a discussão sobre como enfrentar os novos problemas. A gravidade da crise sanitária foi reconhecida com algum atraso pelo Executivo federal, mas em seguida houve ações importantes. A política de saúde foi reforçada com mais dinheiro. Além disso, medidas emergenciais foram anunciadas para ajudar empresas pequenas e médias, defender o emprego e socorrer famílias mais vulneráveis. O governo cuidou de realçar os próprios feitos, como se resultassem de iniciativas excepcionais. O autoelogio, porém, foi um tanto exagerado.

As ações anticrise foram positivas, sem dúvida, mas muito parecidas, em aspectos essenciais, com as implantadas em dezenas de países. Dados da OCDE divulgados mostram amplo recurso a medidas fiscais e monetárias de apoio à atividade econômica, ao emprego e às populações mais necessitadas. Com algumas variações, políticas desse tipo foram lançadas em países tão diferentes quanto Noruega, Alemanha, Tanzânia, Costa Rica, Estados Unidos, Indonésia, Argentina, França, Japão, Vietnã, Coreia do Sul, Uganda, República Dominicana, Colômbia, Peru, Paraguai, Malásia, Austrália, Tunísia, México, Índia, Israel e Nova Zelândia.

Com ou sem Bolsonaro teria prevalecido orientação semelhante. Isso em nada reduz o mérito das políticas. Simplesmente as situa numa perspectiva realista. Mas, ainda assim, suas ações têm algumas características particulares.

Em primeiro lugar, é evidente o destaque dado por Bolsonaro a seus objetivos eleitorais. O Brasil teve, nos últimos meses, um presidente em guerra contra os governadores João Doria, de São Paulo, e Wilson Witzel, do Rio de Janeiro, tratados como prováveis adversários na eleição presidencial de 2022. A preocupação política explica também, de modo muito claro, o empenho de Bolsonaro em apressar a reabertura do maior número possível de atividades.

Em segundo lugar, é notória a prevalência dos objetivos políticos sobre as preocupações com a segurança dos cidadãos. Mesmo depois do teste positivo, Bolsonaro continuou minimizando o perigo do coronavírus e, mais que isso, menosprezando o direito à vida. Ele age como se alguns milhares de mortos a mais fossem um preço razoável para apressar a retomada econômica e facilitar sua reeleição. Não se distingue, quanto a isso, de seu líder Donald Trump. Em Tulsa, Oklahoma, mais de 200 casos diários de covid-19 foram registrados duas semanas depois do famigerado comício do presidente americano. Eram menos de 100 por dia antes do evento, segundo o governo local.

Qualquer presidente, dirão boas almas, tem o direito de cuidar de seus objetivos políticos, incluída a reeleição. É verdade. Mas no começo do segundo ano de mandato? E sem ter governado? Desde janeiro de 2019 Bolsonaro cuidou de assuntos como posse de armas, atrapalhou a discussão dos grandes temas, como a reforma da Previdência, deu prioridade a interesses pessoais e familiares. Além disso, tem prestigiado manifestações golpistas. Não se pode, enfim, acusá-lo de ter governado mal. De governo ele jamais cuidou.

Entre dois vazios - BOLÍVAR LAMOUNIER

O Estado de S.Paulo - 12/07

O presidente quer extravasar impulsos narcisistas que não consegue controlar?


Na tradição liberal, a atividade política é entendida como a arte de equacionar os problemas da sociedade com o mínimo possível de confronto e violência. Uma arte que pressupõe o uso do poder do Estado, mas de forma comedida, guiada por um sentimento de proporção.

Em seu primeiro ano de governo, Jair Bolsonaro ignorou solenemente esse ensinamento fundamental da história política ocidental. Orientado, segundo se diz, pelo sábio da Virgínia, ele adotou uma linguagem radical, como se as urnas lhe houvessem conferido autoridade para mudar as próprias bases da sociedade e do sistema político. Como se a maioria eleitoral lhe tivesse outorgado autoridade para fazer o que lhe aprouvesse. Para refazer os fundamentos da economia e liquidar o que denominou “velha política”. Não hesitaria sequer em intervir no campo dos valores e comportamentos, implantando uma nova moralidade.

Por mais críticos que sejamos das estruturas e práticas públicas vigentes em nosso país, salta aos olhos que o bolsonarismo da primeira fase não se deixava pautar por uma perspectiva de comedimento e proporção. Em vez de se acomodar à distribuição de forças e objetivos corporificada na Constituição e nas leis, não disfarçava sua preferência por uma linha de terra arrasada, bem próxima do que o filósofo Bernard Yack denominou o mito da revolução total.

Nem de longe advogo uma opção pelo status quo. Sabemos todos que o Estado brasileiro está desde há muito corroído por interesses patrimonialistas e corporativistas, e pela corrupção sistêmica. Que nossa economia está travada, desprovida de dinamismo, excessivamente fechada e, portanto, incapaz de superar a chamada “armadilha do crescimento médio”. Que nossas desigualdades sociais, em si inaceitáveis, são diariamente reforçadas por um sistema educacional calamitoso. Que nosso sistema político é manifestamente disfuncional. Não há como ignorar ou subestimar a gravidade de tais desafios, mas o imperativo de superá-los terá de ser compatibilizado com o regime democrático, cujos pilares são, como antes argumentei, o comedimento e um sentimento de proporção.

É óbvio que o projeto inicial do bolsonarismo – se assim pode ser denominado – não poderia dar certo. Nenhuma sociedade, e em particular as regidas por regimes democráticos, se deixa dobrar com a facilidade que ele pressuponha. Ele haveria de esbarrar, como esbarrou, na diversidade corporificada nas instituições do Estado e na miríade de grupos e associações existentes no País. Se tais restrições em alguma medida sempre se impõem, mais dramaticamente ainda se impuseram a partir do momento em que o Brasil e o mundo inteiro sofreram o tremendo impacto da covid-19. Incapaz de levar avante o esforço (sem dúvida, louvável) de ajuste nas contas públicas, o governo viu-se forçado a trilhar o caminho inverso, destinando cifras consideráveis ao combate à doença.

Foi assim, forçado pelos equívocos intrínsecos de sua fantasia inicial e pela chegada da pandemia, que o presidente Bolsonaro se viu obrigado a retroceder. Obrigado não só a desistir do combate ao que vagamente denominava “velha política”, mas a trazer uma parte concreta dela – o chamado Centrão – para dentro do Estado. Não só a desistir do combate à corrupção, mas a aliar-se aos que se empenhavam em deter seu ímpeto, levando de roldão os avanços logrados pela Lava Jato. A opção que lhe restou para conservar certa similitude com o personagem fantasioso que inicialmente quis encarnar foi assumir uma conduta irresponsável em relação à pandemia, solapando abertamente a ação dos agentes médicos que lhe fazem frente nos níveis estadual e municipal.

Quanto ao projeto inicial, o passar do tempo não deixa dúvidas. Era um vazio, um oco total. Um buraco negro que só poderia perdurar engolindo toda a luz que em volta dele restasse. Seu fracasso nos arremessou de volta não ao ponto onde nos encontrávamos, uma vez que, bem ou mal, tínhamos uma agenda de reformas razoavelmente bem delineada. Arremessou-nos a um ponto anterior, a uma molécula nefasta na qual o populismo e a irresponsabilidade do presidente se sobrepuseram ao desafio das reformas que cedo ou tarde teremos de enfrentar.

Sabemos todos que, enquanto não dispusermos de um remédio ou de uma vacina eficaz, milhares de vidas continuarão a ser diariamente ceifadas. Que, por ora, o que podemos fazer é observar estritamente o distanciamento e o uso de máscaras. Isolado em suas crenças, na contramão do resto do mundo, Bolsonaro insiste em fazer o oposto: sai à rua sem máscara, aglomera-se com correligionários e chega mesmo a abraçar crianças e bebês. Cria esse espetáculo para propagandear o remédio milagroso que julga ter descoberto. Com que objetivo? Essa pergunta não parece comportar uma resposta racional. Pretende manter-se na crista da onda, de olhos fitos na eleição de 2022? Despreparado para a vida pública e para o cargo que ocupa, quer extravasar impulsos narcisistas que não consegue controlar?

Só Deus sabe.

Cientista político, é sócio-diretor da Augurium Consultoria e membro das Academias Paulista de Letras e Brasileira de Ciências

Bolsonaro e o sonho americano - BRUNO BOGHOSSIAN

Folha de S. Paulo - 12/07

Pandemia pode isolar o Brasil e deixar mais distante o ingênuo sonho americano do Planalto


Há um mês, Donald Trump citou o Brasil como exemplo negativo na pandemia. O americano errou tudo o que podia no combate ao coronavírus, mas disse que o país governado por Jair Bolsonaro enfrentava “um momento bem difícil” devido às suas escolhas durante a crise.

A reação do brasileiro ilustrou perfeitamente a postura de um país que escolheu a bajulação como pilar de sua política externa. Bolsonaro mandou um abraço para Trump, afirmou que gostaria de aprofundar as relações com os EUA e disse torcer pela reeleição do colega.

O Planalto recebeu, nas últimas semanas, algumas amostras dos efeitos de sua ingenuidade. O impacto econômico da pandemia, as barbeiragens do governo brasileiro na crise e sua negligência ambiental tornaram a subserviência aos americanos uma ferramenta diplomática inútil.

A torcida de Bolsonaro pelo sucesso de Trump nas urnas em novembro, que já era um erro político, passou a ser uma aposta de risco. Embora o cenário continue incerto, o democrata Joe Biden abriu vantagem nas pesquisas.

Seu partido, que é maioria na Câmara, já deu recados amargos ao brasileiro.

Em junho, o comitê tributário daquela casa, dominado pelos democratas, assinou uma carta em que dizia se opor a “qualquer tipo de acordo comercial com o governo Bolsonaro” devido a seu desrespeito aos direitos humanos e ao meio ambiente. Se o partido levar a Casa Branca, o sonho americano do presidente brasileiro ficará distante.

Mesmo uma vitória de Trump não garante um reforço nessa parceria. Ao mirar a retomada pós-pandemia, o americano retomou seu tom nacionalista, que pode restringir o acesso brasileiro à economia americana.

Em entrevista na última semana, ele disse que “terras estrangeiras roubaram nossos empregos com acordos comerciais horríveis”.

O Brasil pode sair da crise mais isolado. A União Europeia já freou negociações com o Brasil. Até o lunático Rodrigo Duterte, das Filipinas, tenta se distanciar de Bolsonaro.

sábado, julho 11, 2020

Bolsonaro arrasta tornozeleira junto com Queiroz - JOSIAS DE SOUZA

UOL - 11/07


Imagem: Reprodução/Instagram

Quando escreveu sobre seu sonho de ir embora para Pasárgada, onde era amigo do Rei, Manoel Bandeira imaginou que traduzia o desejo de todos. Não poderia supor que, sob Jair Bolsonaro, a proximidade com o Rei viraria suplício. Amigo do monarca há mais de três décadas, Fabrício Queiroz vive numa anti-Pasárgada.

Queiroz teve de trocar todos os atrativos da terra desejada pelo poeta —ginástica, bicicleta, burro brabo, pau-de-sebo, banho de mar, beira de rio e até a mulher desejada na cama escolhida— por um apetrecho sem nenhum glamour: a tornozeleira eletrônica.

A Pasárgada comandada por Bolsonaro virou uma monarquia sui generis. Nela, reina o medo. Seminus, o Rei e o príncipe Zero Um temem a nudez que seria provocada por uma delação. É esse medo que atenua o drama de Queiroz.

O consolo do amigo tóxico, transferido de uma cela em Bangu 8 para a reclusão domiciliar, é a certeza de nunca estar realmente sozinho. Ainda que sua mulher Márcia não se juntasse a ele, Queiroz estaria com Deus, consigo mesmo e com as sombras de Jair e Flávio Bolsonaro. Dá até para jogar pôquer.

Juridicamente, a liminar que retirou Queiroz da cadeia e ofereceu à mulher dele a opção de interromper a fuga retirou momentaneamente do baralho a carta da delação premiada. Politicamente, o despacho redentor do presidente do Superior Tribunal de Justiça, João Otávio Noronha, acorrentou a Presidência de Bolsonaro na língua de Queiroz.

É como se o presidente arrastasse a tornozeleira junto com o amigo, recitando seu novo slogan: "Silêncio acima de tudo, Centrão acima de todos." Na Pasárgada de Bolsonaro, a perversão inverte posições. O Rei está sujeito à condição humana. Cheio de medo, é solidário nos bastidores.

O risco de delação faz de Queiroz o soberano, não o súdito. Seu silêncio é o privilégio ao contrário. O Rei recebe a graça de não ser desnudado, se for um amigo zeloso.