ESTADÃO - 31/05
Reagir ao desgoverno é preciso. Reação pacífica, na hora precisa. E parece ser esta a hora
Os bacharéis em Direito, no curso da nossa História, sempre se destacaram na vanguarda das lutas cívicas e nativistas, em prol dos anseios de liberdade e de democracia do nosso povo. Os estudantes, por seu turno, jamais se ocultaram em salas de aula.
Os acadêmicos das Arcadas transformaram o pátio e o púlpito em frente à faculdade, no território livre do Largo de São Francisco. Também nas ruas, nas praças, em todo e qualquer lugar onde houvesse pessoas, suas vozes eram ouvidas e acatadas.
No final dos anos 30 até 1945, os estudantes pugnaram com ardor e denodo pela queda de Getúlio Vargas, o que aconteceu nesse mesmo ano. Primorosos oradores pregavam a construção de uma sociedade livre e solidária com respeito aos direitos da pessoa humana, à liberdade de opinião e às garantias democráticas. Entre muitos se destacaram Waldir Troncoso Peres, Germinal Feijó e Arrobas Martins.
Proclamavam eles, dentre outras questões, a chocante contradição da convocação dos jovens para lutar na Itália em prol da liberdade, enquanto no Brasil ela nos faltava. Falava-se que a convocação de estudantes era uma retaliação contra aqueles que tantos embaraços criavam ao governo.
Anualmente, uma festa mobilizava todos os estudantes da Faculdade de Direito, com intensa repercussão na sociedade paulistana. Era o Baile das Américas. Em 1943 ele foi realizado no Hotel Esplanada.
Durante o baile, entre uma música e outra, eram ouvidos sonoros “abaixo a ditadura!”. Oradores de tempo em tempo interrompiam as danças e davam contundentes recados contra o governo. Em determinado momento houve absoluto silêncio, para que uma quadra fosse recitada: “Oh! Valente legionário do Corpo Expedicionário,/ por que vais lutar a esmo,/ se a luta cruenta e fria é pela democracia?/ Vamos travá-la aqui mesmo”.
Tais manifestações provocaram a prisão de vários estudantes, incluída a de Hélio Mota, presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto.
Nos dias seguintes São Paulo assistiu a uma chocante demonstração de truculência policial, comandada pelo secretário de Segurança, Coriolano de Gois, e executada pelo major Anísio Miranda, contra os acadêmicos de Direito. Três professores, Luiz Soares de Melo, Waldemar Ferreira e Ernesto Leme, tiveram decretada a sua prisão domiciliar.
A repressão policial continuou com maior intensidade. Na madrugada de 2 de novembro a faculdade foi invadida e numerosos acadêmicos foram presos, literalmente debaixo de cacetadas e de coronhadas.
Entre os primeiros detidos estavam Haroldo Santos Abreu e Waldemar Mariz de Oliveira Júnior, meu pai. Ambos foram agredidos nas costas e na cabeça. Haroldo, ao ver a viatura descendo a Rua do Riachuelo, onde eles foram detidos, pensou tratar-se do entregador de pão. Foi contestado por meu pai, que disse: “É a polícia, melhor não correr”. Não tiveram tempo sequer de se abrigar na sede do Centro Acadêmico.
Talvez como efeito da pancada que levou, Haroldo teve uma crise não de choro, mas de riso. Ria sem parar, deixando meu pai em pânico. Os policiais poderiam estar se sentindo alvo de gozação. Sua reação era imprevisível. Estavam armados com metralhadoras. No entanto, nada fizeram. Divertiam-se com a inusitada conduta do detido.
Nessa madrugada a faculdade foi vítima de vandalismo policial. Quadros, estátuas, livros, móveis e outros bens foram danificados. Uma pintura de dom Pedro II foi danificada por um golpe de baioneta.
No dia 9 de novembro os estudantes organizaram uma grande passeata para verberar as violências praticadas. Saíram todos pelo centro da cidade de São Paulo com uma mordaça negra a cobrir-lhes a boca, como símbolo do silêncio imposto pelas armas. O povo nas ruas ia aderindo à passeata.
O luto que se abateu sobre toda a academia foi evidenciado pelas tarjas negras colocadas em vários dos seus espaços externos e internos.
Nas imediações do Largo de São Francisco a polícia disparou contra os estudantes. Uma senhora que estava na porta da igreja e o jovem Jaime da Silva Teles, que não era estudante de Direito, foram mortos.
Vários estudantes tiveram ferimentos graves. Dentre eles, João Brasil Vita carregou durante os seus quase 70 anos seguintes de vida uma bala alojada no tórax. Ali foi deixada porque a extração poria sua vida em risco.
Na História do País, essa não foi a única nem a última mobilização de estudantes e da sociedade como um todo em prol de valores superiores que informam uma sociedade que se pretende democrática e justa.
Os fatos narrados acima e outros semelhantes, anteriores e posteriores a 1943, retratam a reação histórica dos estudantes e da própria sociedade sempre que se tornou necessária, em face do autoritarismo instalado ou prestes a sê-lo e em face do desgoverno que deixa o povo desnorteado, intranquilo, sem rumo e à beira do caos.
Reagir é preciso, inadmissível é a inércia, pois ela nos torna cúmplices. Reação pacífica, na hora precisa. E parece ser esta a hora.
ADVOGADO CRIMINALISTA
domingo, maio 31, 2020
A tripartição dos Poderes e a democracia - EROS ROBERTO GRAU
ESTADÃO - 31/05
Qualquer insurgência contra o STF é afronta à ordem e à paz social, prenuncia autoritarismo
Os momentos que estamos a viver cá no Brasil, a Terra da Santa Cruz, levam-me a breve reflexão em torno do tema da separação entre Legislativo, Executivo e Judiciário. Separação resultante de tripartição de um todo. Todo que, no entanto, não pode ser despedaçado, pois o Estado é um só, a chamada separação dos Poderes prestando-se unicamente a permitir que atue em plena coerência com os princípios e regras da democracia.
A pequena frase de Charles de Gaulle tudo diz: a autoridade do Estado é indivisível! Antes dele, Hegel, ao afirmar que o Estado distribui sua atividade entre vários Poderes, porém de modo que cada um deles seja, em si mesmo, uma porção da totalidade, de um todo único. O Estado é uma totalidade. Quando se fala da diversidade de eficácia dos Poderes, de sua ação e sua eficiência – diz ele –, é necessário não incorrermos no erro de considerar as coisas como se cada Poder estivesse lá abstratamente, por si próprio. Os três são momentos do conceito de Estado. É primorosa a lição de Carlos Maximiliano ao afirmar que – como no corpo do homem – no Estado não há isolamento de órgãos, mas especialização de funções.
Permito-me ir além, recorrendo ao que Kelsen ensina: o que se refere sob o nome de “poder estatal” é a validez de uma ordem jurídica. Daí que a ideia de uma partição dessa validez é absurda, a suposição do funcionamento isolado de três Poderes sendo insustentável. Não é possível supormos que essa trindade – Legislativo, Executivo e Judiciário – não constitua uma unidade.
A organização estatal em funções torna viável, aprimorando-o, seu funcionamento. O Legislativo produz as leis, o Executivo as aplica e o Judiciário decide. Todos como que vestem um manto de autoridade não porque detenham poderes. Autoridade é o saber o que se deve fazer, serenamente. Os romanos chamavam-na de auctoritas. Por isso todos nós a eles devemos respeito e acatamento. Uma das tarefas primordiais do Estado moderno é a produção de uma ordem jurídica que garanta certeza e segurança jurídicas. Sem elas não haverá como vivermos em liberdade.
Ontem interrompi o que até este ponto vinha escrevendo e agora, 24 de maio, leio no Estadão das minhas manhãs a primeira das Notas & Informações, O Estado paralelo de Bolsonaro. Lá estão afirmados pontos que tenho como extremamente relevantes, incluído o de que, em reunião no mês de abril, ministros defenderam a prisão de magistrados que, em obediência à Constituição, tomaram decisões contra o governo. Mais, investiram contra atos de prefeitos e governadores que, seguindo recomendações de autoridades de saúde, impuseram quarentena contra a pandemia de covid-19. Delinquentes seriam os que respeitam a lei e o bom senso, o que resulta da concepção de que este ou aquele dos três Poderes não seria de todo conformado pela Constituição. Um deles, o Executivo – pasmem! – estaria acima de tudo e de todos! O que, na ponta de tudo, conduz à criação de um Estado paralelo ao Brasil que cá está onde estamos. Estado paralelo que investe contra isso e aquilo, até mesmo contra governadores que impõem quarentena em defesa da vida e ministros do Supremo Tribunal Federal.
Ainda que tudo o que desejava afirmar em defesa do Estado Democrático de Direito lá esteja, na primeira das Notas & Informações da edição de 24 de maio do Estadão, enquanto e como membro aposentado do Poder Judiciário insisto em que, se pretendermos viver honestamente, contribuindo para o bem de todos, será indispensável acatarmos, com dignidade, suas decisões. Não porque elas façam justiça. Pois é certo que, como dizia Kelsen e tenho reiteradamente repetido, a justiça absoluta só pode emanar de uma autoridade transcendente, só pode emanar de Deus. Temos de nos contentar, na Terra, com alguma justiça simplesmente relativa, que deve ser vislumbrada em cada ordem jurídica positiva e na situação de paz e segurança por esta mais ou menos assegurada. Os juízes são servos da Constituição e das leis, servos de um sistema de normas jurídicas que se presta a assegurar um mínimo de calculabilidade e previsibilidade na prática das relações sociais.
Qualquer insurgência contra essa face do Estado que o Supremo Tribunal Federal é afronta a ordem e a paz social, prenuncia vocação de autoritarismo, questiona a democracia, desmente-a, pretende golpeá-la. Por isso é necessário afirmarmos, em alto e bom som, o quanto de respeito e acatamento devemos ao Poder Judiciário e em especial, hoje e sempre, ao Supremo Tribunal Federal. Sobretudo porque – repito – ele não surpreende por sua independência. O Estado é indivisível.
A soberania popular, força que o constitui, permite apenas que ele distribua dentro de si as suas funções. Por conta disso quaisquer ações deste ou daquele dos três Poderes, avançando sobre outro, afronta não apenas sua tripartição, mas a democracia. Ao fim de tudo, se chegarem aonde pretendem, seremos vistos como pobres, tristes, coitados habitantes da Terra da Cruz!
ADVOGADO, PROFESSOR TITULAR APOSENTADO DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, FOI MINISTRO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Qualquer insurgência contra o STF é afronta à ordem e à paz social, prenuncia autoritarismo
Os momentos que estamos a viver cá no Brasil, a Terra da Santa Cruz, levam-me a breve reflexão em torno do tema da separação entre Legislativo, Executivo e Judiciário. Separação resultante de tripartição de um todo. Todo que, no entanto, não pode ser despedaçado, pois o Estado é um só, a chamada separação dos Poderes prestando-se unicamente a permitir que atue em plena coerência com os princípios e regras da democracia.
A pequena frase de Charles de Gaulle tudo diz: a autoridade do Estado é indivisível! Antes dele, Hegel, ao afirmar que o Estado distribui sua atividade entre vários Poderes, porém de modo que cada um deles seja, em si mesmo, uma porção da totalidade, de um todo único. O Estado é uma totalidade. Quando se fala da diversidade de eficácia dos Poderes, de sua ação e sua eficiência – diz ele –, é necessário não incorrermos no erro de considerar as coisas como se cada Poder estivesse lá abstratamente, por si próprio. Os três são momentos do conceito de Estado. É primorosa a lição de Carlos Maximiliano ao afirmar que – como no corpo do homem – no Estado não há isolamento de órgãos, mas especialização de funções.
Permito-me ir além, recorrendo ao que Kelsen ensina: o que se refere sob o nome de “poder estatal” é a validez de uma ordem jurídica. Daí que a ideia de uma partição dessa validez é absurda, a suposição do funcionamento isolado de três Poderes sendo insustentável. Não é possível supormos que essa trindade – Legislativo, Executivo e Judiciário – não constitua uma unidade.
A organização estatal em funções torna viável, aprimorando-o, seu funcionamento. O Legislativo produz as leis, o Executivo as aplica e o Judiciário decide. Todos como que vestem um manto de autoridade não porque detenham poderes. Autoridade é o saber o que se deve fazer, serenamente. Os romanos chamavam-na de auctoritas. Por isso todos nós a eles devemos respeito e acatamento. Uma das tarefas primordiais do Estado moderno é a produção de uma ordem jurídica que garanta certeza e segurança jurídicas. Sem elas não haverá como vivermos em liberdade.
Ontem interrompi o que até este ponto vinha escrevendo e agora, 24 de maio, leio no Estadão das minhas manhãs a primeira das Notas & Informações, O Estado paralelo de Bolsonaro. Lá estão afirmados pontos que tenho como extremamente relevantes, incluído o de que, em reunião no mês de abril, ministros defenderam a prisão de magistrados que, em obediência à Constituição, tomaram decisões contra o governo. Mais, investiram contra atos de prefeitos e governadores que, seguindo recomendações de autoridades de saúde, impuseram quarentena contra a pandemia de covid-19. Delinquentes seriam os que respeitam a lei e o bom senso, o que resulta da concepção de que este ou aquele dos três Poderes não seria de todo conformado pela Constituição. Um deles, o Executivo – pasmem! – estaria acima de tudo e de todos! O que, na ponta de tudo, conduz à criação de um Estado paralelo ao Brasil que cá está onde estamos. Estado paralelo que investe contra isso e aquilo, até mesmo contra governadores que impõem quarentena em defesa da vida e ministros do Supremo Tribunal Federal.
Ainda que tudo o que desejava afirmar em defesa do Estado Democrático de Direito lá esteja, na primeira das Notas & Informações da edição de 24 de maio do Estadão, enquanto e como membro aposentado do Poder Judiciário insisto em que, se pretendermos viver honestamente, contribuindo para o bem de todos, será indispensável acatarmos, com dignidade, suas decisões. Não porque elas façam justiça. Pois é certo que, como dizia Kelsen e tenho reiteradamente repetido, a justiça absoluta só pode emanar de uma autoridade transcendente, só pode emanar de Deus. Temos de nos contentar, na Terra, com alguma justiça simplesmente relativa, que deve ser vislumbrada em cada ordem jurídica positiva e na situação de paz e segurança por esta mais ou menos assegurada. Os juízes são servos da Constituição e das leis, servos de um sistema de normas jurídicas que se presta a assegurar um mínimo de calculabilidade e previsibilidade na prática das relações sociais.
Qualquer insurgência contra essa face do Estado que o Supremo Tribunal Federal é afronta a ordem e a paz social, prenuncia vocação de autoritarismo, questiona a democracia, desmente-a, pretende golpeá-la. Por isso é necessário afirmarmos, em alto e bom som, o quanto de respeito e acatamento devemos ao Poder Judiciário e em especial, hoje e sempre, ao Supremo Tribunal Federal. Sobretudo porque – repito – ele não surpreende por sua independência. O Estado é indivisível.
A soberania popular, força que o constitui, permite apenas que ele distribua dentro de si as suas funções. Por conta disso quaisquer ações deste ou daquele dos três Poderes, avançando sobre outro, afronta não apenas sua tripartição, mas a democracia. Ao fim de tudo, se chegarem aonde pretendem, seremos vistos como pobres, tristes, coitados habitantes da Terra da Cruz!
ADVOGADO, PROFESSOR TITULAR APOSENTADO DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, FOI MINISTRO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Ser solidário é bom, mas não basta - EDITORIAL O ESTADÃO
ESTADÃO - 31/05
Está na hora de lutar para que a sociedade se transforme, de tal maneira que todos os que aqui vivem sejam tratados com um mínimo de dignidade
As doações de empresas e indivíduos para financiar o esforço no combate à pandemia de covid-19 já superaram R$ 3 bilhões. É uma cifra formidável – equivale a mais de um ano de investimento privado em filantropia no Brasil, segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Dessa forma, a elite nacional exibe notável senso de solidariedade em relação aos milhões de cidadãos brasileiros que viram sua renda, já muito baixa, desaparecer em razão dos efeitos econômicos da pandemia e que por isso dependem de ajuda para sobreviver, não só ao coronavírus, mas à miséria.
O problema é que, passada a pandemia e em algum momento no futuro próximo, essa tragédia passará, a elite hoje solidária retomará seus afazeres privados – a “volta ao normal” tão desejada –, mas nada da duríssima realidade de seus miseráveis compatriotas terá mudado. Ao contrário, é bem provável que, ante o derretimento da economia, essa parcela da população retroceda décadas em qualidade de vida, que já hoje é desoladora.
Assim, a solidariedade ante o padecimento desses desafortunados, embora obviamente seja louvável e absolutamente necessária neste ou em qualquer outro momento, não é suficiente. É preciso que a sociedade, em especial sua elite política e econômica, considere inaceitável, de uma vez por todas, que a maioria de seus conterrâneos seja condenada a viver apartada daquilo a que damos o nome de civilização.
Em outras palavras, é preciso que haja consciência social – isto é, a capacidade de entender as vicissitudes dos outros, em especial dos menos favorecidos e, a partir disso, estimular a cooperação política e social para que as necessidades básicas desses cidadãos sejam de alguma forma atendidas, para que eles se eduquem e se preparem para que, a partir de certo ponto, possam sustentar-se e às suas famílias pelo esforço próprio.
Adentramos o século 21, quando as maravilhas das tecnologias digitais multiplicam o conforto e a sofisticação das sociedades, mas há uma parte significativa dos brasileiros que vive como se ainda estivéssemos no século 19 – sem acesso a equipamentos públicos que a esta altura já deveriam ser universais.
Não se pode considerar aceitável, para começar, que 100 milhões de brasileiros ainda não tenham acesso a esgoto tratado ou que falte água potável para 35 milhões, como se todas essas pessoas fossem cidadãs de segunda classe. O novo marco regulatório do saneamento básico, que tem potencial para mitigar esse vergonhoso quadro, continua parado no Congresso – ou seja, os deputados e senadores não se sentem motivados para tratar o assunto com a urgência necessária. Se a eles falta consciência social, é porque tem faltado também a seus eleitores – em especial os que fazem parte da elite nacional. Não surpreende que seja assim: afinal, se até o presidente da República faz piada sobre o assunto, dizendo que “o brasileiro tem que ser estudado” porque “pula e mergulha no esgoto” e “não acontece nada com ele”, é sinal de que muitos achem graça nessa tragédia.
Do mesmo modo, devemos considerar vergonhoso viver em um dos países mais desiguais do mundo em múltiplos sentidos, não somente de renda – indicador que é brutal: em 2019, os 10% mais pobres ficavam com 0,8% da renda média mensal domiciliar per capita, enquanto os 10% mais ricos possuíam 42,9%, segundo o IBGE.
Em razão de tamanho abismo, 6% dos brasileiros vivem em favelas – chamadas eufemisticamente de “comunidades”, forma pouco sutil de dizer que é natural o que é escandaloso. Seus moradores, destituídos de quase tudo, nem sequer têm direito à titularidade de seus barracos – nas “comunidades”, a propriedade é determinada pelos narcotraficantes, verdadeiro Estado paralelo.
E essa é apenas uma amostra do drama de milhões de brasileiros, ao qual se soma agora a pandemia de covid-19, que devastará empregos e renda – a começar, obviamente, pela camada mais pobre da população.
Assim, já não se trata mais de uma crise social. É uma crise vital. Para enfrentá-la, não basta ser solidário. Está na hora de lutar para que a sociedade se transforme, de tal maneira que todos os que aqui vivem, sem exceção, sejam afinal tratados com um mínimo de dignidade – como está inscrito na Constituição e como deveria estar inscrito na consciência coletiva da Nação.
Está na hora de lutar para que a sociedade se transforme, de tal maneira que todos os que aqui vivem sejam tratados com um mínimo de dignidade
As doações de empresas e indivíduos para financiar o esforço no combate à pandemia de covid-19 já superaram R$ 3 bilhões. É uma cifra formidável – equivale a mais de um ano de investimento privado em filantropia no Brasil, segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Dessa forma, a elite nacional exibe notável senso de solidariedade em relação aos milhões de cidadãos brasileiros que viram sua renda, já muito baixa, desaparecer em razão dos efeitos econômicos da pandemia e que por isso dependem de ajuda para sobreviver, não só ao coronavírus, mas à miséria.
O problema é que, passada a pandemia e em algum momento no futuro próximo, essa tragédia passará, a elite hoje solidária retomará seus afazeres privados – a “volta ao normal” tão desejada –, mas nada da duríssima realidade de seus miseráveis compatriotas terá mudado. Ao contrário, é bem provável que, ante o derretimento da economia, essa parcela da população retroceda décadas em qualidade de vida, que já hoje é desoladora.
Assim, a solidariedade ante o padecimento desses desafortunados, embora obviamente seja louvável e absolutamente necessária neste ou em qualquer outro momento, não é suficiente. É preciso que a sociedade, em especial sua elite política e econômica, considere inaceitável, de uma vez por todas, que a maioria de seus conterrâneos seja condenada a viver apartada daquilo a que damos o nome de civilização.
Em outras palavras, é preciso que haja consciência social – isto é, a capacidade de entender as vicissitudes dos outros, em especial dos menos favorecidos e, a partir disso, estimular a cooperação política e social para que as necessidades básicas desses cidadãos sejam de alguma forma atendidas, para que eles se eduquem e se preparem para que, a partir de certo ponto, possam sustentar-se e às suas famílias pelo esforço próprio.
Adentramos o século 21, quando as maravilhas das tecnologias digitais multiplicam o conforto e a sofisticação das sociedades, mas há uma parte significativa dos brasileiros que vive como se ainda estivéssemos no século 19 – sem acesso a equipamentos públicos que a esta altura já deveriam ser universais.
Não se pode considerar aceitável, para começar, que 100 milhões de brasileiros ainda não tenham acesso a esgoto tratado ou que falte água potável para 35 milhões, como se todas essas pessoas fossem cidadãs de segunda classe. O novo marco regulatório do saneamento básico, que tem potencial para mitigar esse vergonhoso quadro, continua parado no Congresso – ou seja, os deputados e senadores não se sentem motivados para tratar o assunto com a urgência necessária. Se a eles falta consciência social, é porque tem faltado também a seus eleitores – em especial os que fazem parte da elite nacional. Não surpreende que seja assim: afinal, se até o presidente da República faz piada sobre o assunto, dizendo que “o brasileiro tem que ser estudado” porque “pula e mergulha no esgoto” e “não acontece nada com ele”, é sinal de que muitos achem graça nessa tragédia.
Do mesmo modo, devemos considerar vergonhoso viver em um dos países mais desiguais do mundo em múltiplos sentidos, não somente de renda – indicador que é brutal: em 2019, os 10% mais pobres ficavam com 0,8% da renda média mensal domiciliar per capita, enquanto os 10% mais ricos possuíam 42,9%, segundo o IBGE.
Em razão de tamanho abismo, 6% dos brasileiros vivem em favelas – chamadas eufemisticamente de “comunidades”, forma pouco sutil de dizer que é natural o que é escandaloso. Seus moradores, destituídos de quase tudo, nem sequer têm direito à titularidade de seus barracos – nas “comunidades”, a propriedade é determinada pelos narcotraficantes, verdadeiro Estado paralelo.
E essa é apenas uma amostra do drama de milhões de brasileiros, ao qual se soma agora a pandemia de covid-19, que devastará empregos e renda – a começar, obviamente, pela camada mais pobre da população.
Assim, já não se trata mais de uma crise social. É uma crise vital. Para enfrentá-la, não basta ser solidário. Está na hora de lutar para que a sociedade se transforme, de tal maneira que todos os que aqui vivem, sem exceção, sejam afinal tratados com um mínimo de dignidade – como está inscrito na Constituição e como deveria estar inscrito na consciência coletiva da Nação.
Entre o vírus e o poder - BRUNO BOGHOSSIAN
FOLHA DE SP - 31/05
Bolsonaro teme que crise econômica favoreça políticos de oposição
Ao negligenciar combate ao coronavírus, presidente fala em 'luta pelo poder'
Para entender por que o país continua sem ministro da Saúde no auge de uma pandemia, basta assistir a um trecho da infame reunião ministerial de 22 de abril. Antes de anunciar seu plano para armar a população, Jair Bolsonaro explicou o que o incomoda de verdade.
"A luta pelo poder continua, a todo vapor. E sem neurose da minha parte. O campo fértil para aparecer uns porcarias aí, levantando aquela bandeira do 'povo ao meu lado', não custa nada. E o terreno fértil é esse: desemprego, caos, miséria, desordem social e outras coisas mais. Então essa é a preocupação que todos devem ter", disse a seus auxiliares.
Em dois minutos, o presidente expôs as razões da negligência do governo diante do coronavírus. Bolsonaro orientou sua equipe a trabalhar contra as ações para frear a disseminação da doença por acreditar que os efeitos econômicos da crise podem favorecer políticos de oposição.
Numa ironia do destino, o presidente se mostra atormentado pela ameaça de um salvador da pátria.Ele teme que os eleitores enxerguem em outros campos, em especial na esquerda, soluções que seu governo foi incapaz de oferecer para amortecer os prejuízos com a pandemia ("essa trozoba", no léxico palaciano).
Bolsonaro assumiu o poder abraçado a uma agenda de corte de despesas e revisão de gastos sociais. Quando a renda de parte da população entrou em colapso, foi preciso arrancar à força da equipe econômica um pacote emergencial razoável.
O auxílio de R$ 600 retarda os impactos que afligem Bolsonaro. Tudo indica que a manutenção desse pagamento, criado para ser temporário, será alvo de novas pressões políticas por parte do presidente.
O presidente desdenha dos riscos à saúde da população desde a chegada do coronavírus ao país. O avanço das inevitáveis consequências econômicas dessa crise devem aprofundar ainda mais sua insensibilidade. O discurso gravado em vídeo mostra que a preocupação de Bolsonaro com o bem-estar dos mais pobres está ligada à tal "luta pelo poder".
Bruno Boghossian
Jornalista, foi repórter da Sucursal de Brasília. É mestre em ciência política pela Universidade Columbia (EUA).
Bolsonaro teme que crise econômica favoreça políticos de oposição
Ao negligenciar combate ao coronavírus, presidente fala em 'luta pelo poder'
Para entender por que o país continua sem ministro da Saúde no auge de uma pandemia, basta assistir a um trecho da infame reunião ministerial de 22 de abril. Antes de anunciar seu plano para armar a população, Jair Bolsonaro explicou o que o incomoda de verdade.
"A luta pelo poder continua, a todo vapor. E sem neurose da minha parte. O campo fértil para aparecer uns porcarias aí, levantando aquela bandeira do 'povo ao meu lado', não custa nada. E o terreno fértil é esse: desemprego, caos, miséria, desordem social e outras coisas mais. Então essa é a preocupação que todos devem ter", disse a seus auxiliares.
Em dois minutos, o presidente expôs as razões da negligência do governo diante do coronavírus. Bolsonaro orientou sua equipe a trabalhar contra as ações para frear a disseminação da doença por acreditar que os efeitos econômicos da crise podem favorecer políticos de oposição.
Numa ironia do destino, o presidente se mostra atormentado pela ameaça de um salvador da pátria.Ele teme que os eleitores enxerguem em outros campos, em especial na esquerda, soluções que seu governo foi incapaz de oferecer para amortecer os prejuízos com a pandemia ("essa trozoba", no léxico palaciano).
Bolsonaro assumiu o poder abraçado a uma agenda de corte de despesas e revisão de gastos sociais. Quando a renda de parte da população entrou em colapso, foi preciso arrancar à força da equipe econômica um pacote emergencial razoável.
O auxílio de R$ 600 retarda os impactos que afligem Bolsonaro. Tudo indica que a manutenção desse pagamento, criado para ser temporário, será alvo de novas pressões políticas por parte do presidente.
O presidente desdenha dos riscos à saúde da população desde a chegada do coronavírus ao país. O avanço das inevitáveis consequências econômicas dessa crise devem aprofundar ainda mais sua insensibilidade. O discurso gravado em vídeo mostra que a preocupação de Bolsonaro com o bem-estar dos mais pobres está ligada à tal "luta pelo poder".
Bruno Boghossian
Jornalista, foi repórter da Sucursal de Brasília. É mestre em ciência política pela Universidade Columbia (EUA).
Livre expressão - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 31/05
Apesar de equívocos e risco de excessos, inquérito das fake news deve prosseguir
Se há um ponto em que democracias caminham sobre o fio da navalha, é a regulação da liberdade de expressão. Autorizar qualquer discurso em qualquer situação implica ofender outros direitos fundamentais, como aqueles à segurança, à propriedade, à privacidade, à autoimagem e outros.
Ademais, o advento da internet e das redes sociais ampliou enormemente o potencial de estrago que palavras tóxicas podem causar.
Blindar outros direitos contra discursos que os coloquem em risco tampouco é solução. A liberdade de expressão não apenas está no DNA das democracias liberais como tem valor instrumental.
Pelo menos no Ocidente, os grandes avanços científicos e institucionais obtidos nos últimos séculos estão intimamente associados à livre circulação de ideias, especialmente aquelas que, em algum ponto da história, pareceram blasfemas e mesmo perigosas.
É nesse contexto que se faz necessário entender a discussão em torno das fake news, que se materializa em frentes tão diversas quanto o inquérito que o Supremo Tribunal Federal move para investigar aliados do presidente Jair Bolsonaro, projetos de lei para regular as redes e até em iniciativas de grandes empresas da internet.
Esta Folha, até por ser um órgão de imprensa, defende noção bastante robusta de liberdade de expressão, muito mais próxima do paradigma americano, que se sustenta em autores como John Milton (“Aeropagitica”) e John Stuart Mill (“On Liberty”), que do europeu. E, de fato, as duas tradições, tanto no arcabouço teórico como nas decisões, são muito diferentes.
Na Europa, vários países, embora inequivocamente democráticos, criminalizam o discurso de ódio, a incitação a delitos e mesmo a publicação de informações técnicas que possam ser usadas por terroristas. Ali, alguém pode ser preso até por negar certos fatos históricos, como o Holocausto.
Já os EUA são provavelmente o país que leva mais a sério a liberdade de expressão, permitindo que qualquer grupo exponha qualquer ideia e mobilize seus simpatizantes para defendê-la. É lícito empunhar suásticas, queimar a bandeira nacional e dizer quase tudo, desde que não se coloque em risco iminente a integridade física ou o patrimônio de outras pessoas.
O Brasil fica no meio do caminho. A Constituição traz dispositivos fortes de proteção à liberdade de expressão, mas a legislação infraconstitucional é generosa em proibições. Elas normalmente vêm na forma de veto ao incitamento ou à apologia de crime e de combate ao preconceito e ao racismo.
Embora o STF costume promover a liberdade de imprensa e de expressão com muito mais frequência do que cortes inferiores, não chega a ser muito consistente nessa matéria. Para citar um único exemplo, o ministro Alexandre de Moraes chegou recentemente a censurar duas publicações no âmbito do inquérito das fake news, decisão felizmente revista.
O corolário dessa posição é que, por mais desagradável, cumpre defender o direito de manifestação de bolsonaristas que pedem o AI-5 ou o fechamento do Congresso e do STF. Como disse Mill, é preciso que as más ideias circulem para que as boas possam triunfar.
E o que dizer de autoridades que participam dessas manifestações? Elas são, como qualquer cidadão, livres para dizer o que pensam. No caso de congressistas, a proteção constitucional é ainda mais forte do que a destinada aos demais cidadãos. Mas palavras e atitudes têm consequências políticas.
Se um parlamentar se meter em manifestações contra a democracia, seus pares podem —e deveriam— entender que ele violou o juramento de respeitar a Constituição e cassar seu mandato. Algo parecido vale para integrantes do Executivo, sujeitos à lei que tipifica os crimes de responsabilidade.
A liberdade de expressão, mesmo em sua forma robusta, não significa cheque em branco. Há circunstâncias em que discursos perfeitamente toleráveis em outras situações se tornam delito. Cabe a analogia com o espectador que grita “fogo” numa sessão de cinema sabendo tratar-se de uma mentira. A liberdade dele de expressar-se não se sobrepõe ao direito de terceiros de não correrem risco de vida.
Indivíduos e grupos que fazem uso de palavras exaltadas e notícias falsas podem legitimamente ser investigados para verificar se não incorrem em crimes como calúnia, ameaça, infrações eleitorais e até mesmo formação de organização criminosa com vistas a promover mudança de regime.
Nesse contexto, o famigerado inquérito das fake news encontra chance de redenção. O procedimento, embora dentro da lei (o STF, afinal, define o que é ou não legal), nasceu equivocado. Nunca convém que um mesmo órgão investigue, acuse e julgue. Ainda assim, esta Folha sustenta que o inquérito precisa prosseguir.
Parte das teratogenias iniciais foi resolvida depois que a Procuradoria-Geral da República passou a atuar como acusador no inquérito; falta ainda o endosso do plenário. Ele pode livrar-se de outros inconvenientes se investigar apenas crimes conexos à propagação de notícias fraudulentas, sem tentar coibir a circulação de ideias.
Algo parecido pode ser dito de dois projetos que visam combater fake news a serem votados em breve. Ainda que bem intencionados, podem resultar em censura inaceitável. Como se sabe desde os filósofos iluministas, não se pode regular a priori os conteúdos de mensagens, como fazem as propostas.
Seria mais sensato deixar a cargo das empresas responsáveis apenas marcar como duvidosas as postagens que tenham sido impulsionadas por robôs ou tragam outras marcas da indústria de fake news.
Apesar de equívocos e risco de excessos, inquérito das fake news deve prosseguir
Se há um ponto em que democracias caminham sobre o fio da navalha, é a regulação da liberdade de expressão. Autorizar qualquer discurso em qualquer situação implica ofender outros direitos fundamentais, como aqueles à segurança, à propriedade, à privacidade, à autoimagem e outros.
Ademais, o advento da internet e das redes sociais ampliou enormemente o potencial de estrago que palavras tóxicas podem causar.
Blindar outros direitos contra discursos que os coloquem em risco tampouco é solução. A liberdade de expressão não apenas está no DNA das democracias liberais como tem valor instrumental.
Pelo menos no Ocidente, os grandes avanços científicos e institucionais obtidos nos últimos séculos estão intimamente associados à livre circulação de ideias, especialmente aquelas que, em algum ponto da história, pareceram blasfemas e mesmo perigosas.
É nesse contexto que se faz necessário entender a discussão em torno das fake news, que se materializa em frentes tão diversas quanto o inquérito que o Supremo Tribunal Federal move para investigar aliados do presidente Jair Bolsonaro, projetos de lei para regular as redes e até em iniciativas de grandes empresas da internet.
Esta Folha, até por ser um órgão de imprensa, defende noção bastante robusta de liberdade de expressão, muito mais próxima do paradigma americano, que se sustenta em autores como John Milton (“Aeropagitica”) e John Stuart Mill (“On Liberty”), que do europeu. E, de fato, as duas tradições, tanto no arcabouço teórico como nas decisões, são muito diferentes.
Na Europa, vários países, embora inequivocamente democráticos, criminalizam o discurso de ódio, a incitação a delitos e mesmo a publicação de informações técnicas que possam ser usadas por terroristas. Ali, alguém pode ser preso até por negar certos fatos históricos, como o Holocausto.
Já os EUA são provavelmente o país que leva mais a sério a liberdade de expressão, permitindo que qualquer grupo exponha qualquer ideia e mobilize seus simpatizantes para defendê-la. É lícito empunhar suásticas, queimar a bandeira nacional e dizer quase tudo, desde que não se coloque em risco iminente a integridade física ou o patrimônio de outras pessoas.
O Brasil fica no meio do caminho. A Constituição traz dispositivos fortes de proteção à liberdade de expressão, mas a legislação infraconstitucional é generosa em proibições. Elas normalmente vêm na forma de veto ao incitamento ou à apologia de crime e de combate ao preconceito e ao racismo.
Embora o STF costume promover a liberdade de imprensa e de expressão com muito mais frequência do que cortes inferiores, não chega a ser muito consistente nessa matéria. Para citar um único exemplo, o ministro Alexandre de Moraes chegou recentemente a censurar duas publicações no âmbito do inquérito das fake news, decisão felizmente revista.
O corolário dessa posição é que, por mais desagradável, cumpre defender o direito de manifestação de bolsonaristas que pedem o AI-5 ou o fechamento do Congresso e do STF. Como disse Mill, é preciso que as más ideias circulem para que as boas possam triunfar.
E o que dizer de autoridades que participam dessas manifestações? Elas são, como qualquer cidadão, livres para dizer o que pensam. No caso de congressistas, a proteção constitucional é ainda mais forte do que a destinada aos demais cidadãos. Mas palavras e atitudes têm consequências políticas.
Se um parlamentar se meter em manifestações contra a democracia, seus pares podem —e deveriam— entender que ele violou o juramento de respeitar a Constituição e cassar seu mandato. Algo parecido vale para integrantes do Executivo, sujeitos à lei que tipifica os crimes de responsabilidade.
A liberdade de expressão, mesmo em sua forma robusta, não significa cheque em branco. Há circunstâncias em que discursos perfeitamente toleráveis em outras situações se tornam delito. Cabe a analogia com o espectador que grita “fogo” numa sessão de cinema sabendo tratar-se de uma mentira. A liberdade dele de expressar-se não se sobrepõe ao direito de terceiros de não correrem risco de vida.
Indivíduos e grupos que fazem uso de palavras exaltadas e notícias falsas podem legitimamente ser investigados para verificar se não incorrem em crimes como calúnia, ameaça, infrações eleitorais e até mesmo formação de organização criminosa com vistas a promover mudança de regime.
Nesse contexto, o famigerado inquérito das fake news encontra chance de redenção. O procedimento, embora dentro da lei (o STF, afinal, define o que é ou não legal), nasceu equivocado. Nunca convém que um mesmo órgão investigue, acuse e julgue. Ainda assim, esta Folha sustenta que o inquérito precisa prosseguir.
Parte das teratogenias iniciais foi resolvida depois que a Procuradoria-Geral da República passou a atuar como acusador no inquérito; falta ainda o endosso do plenário. Ele pode livrar-se de outros inconvenientes se investigar apenas crimes conexos à propagação de notícias fraudulentas, sem tentar coibir a circulação de ideias.
Algo parecido pode ser dito de dois projetos que visam combater fake news a serem votados em breve. Ainda que bem intencionados, podem resultar em censura inaceitável. Como se sabe desde os filósofos iluministas, não se pode regular a priori os conteúdos de mensagens, como fazem as propostas.
Seria mais sensato deixar a cargo das empresas responsáveis apenas marcar como duvidosas as postagens que tenham sido impulsionadas por robôs ou tragam outras marcas da indústria de fake news.
Reunião de horrores - CRISTOVAM BUARQUE
O GLOBO - 31/05
Ministro da Educação de Hitler sentia horror às simples expressões ‘povo judaico’ ou ‘povo cigano’ ou ‘comunista’
Bernhard Rust foi ministro de Hitler para a Educação. Nomeado no primeiro dia do governo nazista, foi fiel até a morte, por suicídio, na rendição da Alemanha. Não se pode dizer que Rust era culpado pela situação da educação alemã em 1933. Apesar de muito melhor que a nossa hoje, a educação alemã sofria consequências da Primeira Guerra e dos fortes constrangimentos impostos pelo acordo de paz que comprometeu as finanças públicas. Tudo isso agravado por hiperinflação e caos político ao longo da década de 1920.
Rust não era o culpado da herança que recebeu, mas, em vez de montar um sistema educacional competitivo na Europa, concentrou-se na ideologia para desarticular o que chamava de cultura comunista e influência de judeus na vida intelectual da Alemanha. Ele via a universidade como antro do marxismo cultural. Einstein era recusado como judeu e a teoria da relatividade vista como parte da conspiração internacional comunista.
Rust não fez parte da engenharia do Holocausto, mas foi um dos criadores do pensamento que serviu de base à execução da solução final para extinguir povos não arianos que faziam parte da Alemanha, especialmente judeus. Ele sentia horror às simples expressões “povo judaico” ou “povo cigano” ou “comunista”. Seu tipo de patriotismo achava que na Alemanha havia um único povo, palavra que só se aplicava aos alemães. Para isso, demitiu professores, impediu escolha de reitores pela comunidade, vetou ideias incompatíveis com a tradição cristã.
Lembrei de Rust ao ouvir a participação do ministro da Educação do Brasil, na reunião de gabinete de 22 de abril. Ele não incentivou solução final para nossos índios, mas lançou a base para que isso ocorra. Não por morte em câmaras de gás, mas por morte lenta devido à negação dos direitos básicos de cada povo indígena. Ao sentir horror, sua cara passou a sensação de nojo ao povo indígena, passou a ideia de que o conceito de povo brasileiro nega permissão para a convivência fraterna com outros povos dentro do Brasil.
Ao dizer que tinha horror ao conceito de povo indígena, e manifestar que apenas o povo brasileiro com sua aparente identidade ocidental e cristã lhe interessa, ele repete o que dizia o ministro nazista para os judeus. Quase 100 anos depois, o ministro da Educação do Brasil senta a base ideológica para a ideia da pureza, se não racial, ao menos cultural, do povo brasileiro cristão e ocidental.
Não é por acaso que, logo após, o ministro do Meio Ambiente declarou que o governo deve aproveitar a atenção da mídia voltada aos mortos pela epidemia, para simplificar procedimentos que permitirão ocupar terras e destruir florestas onde vivem o que seu colega considerou “não povo” indígena. Dizimar as florestas onde vivem os índios é como colocá-los em “câmara de gás” que mata lentamente. Foi isso o que os dois ministros combinaram ser feito sem grandes dificuldades burocráticas, um sentando base ideológica pelo horror ao povo indígena e o outro definindo os meios administrativos para o genocídio. Diga-se a favor deles que talvez não tivessem consciência do que diziam, sem saberem quem foi Rust.
Por isso, nenhum outro ministro, nem o presidente, nem o vice, chamaram a atenção deles para o horror do que tinham dito. Acharam natural os sentimentos de horror com o conceito de povo indígena e com as amarras burocráticas que impedem derrubar florestas.
A reunião de 22 de abril passa a sensação de um ministério unido no uso de palavrões e na concepção de Bernhard Rust. Igualmente triste é imaginar que depois de nossos “Rusts”, dificilmente teremos um presidente com a visão do chanceler Adenauer, que, na primeira reunião para definir as prioridades do Plano Marshall, afirmou que a prioridade na reconstrução da Alemanha seria a educação, para recuperar o tempo perdido em décadas anteriores e corrigir o desastre nos anos nazistas.
Cristovam Buarque é professor emérito da Universidade de Brasília
Ministro da Educação de Hitler sentia horror às simples expressões ‘povo judaico’ ou ‘povo cigano’ ou ‘comunista’
Bernhard Rust foi ministro de Hitler para a Educação. Nomeado no primeiro dia do governo nazista, foi fiel até a morte, por suicídio, na rendição da Alemanha. Não se pode dizer que Rust era culpado pela situação da educação alemã em 1933. Apesar de muito melhor que a nossa hoje, a educação alemã sofria consequências da Primeira Guerra e dos fortes constrangimentos impostos pelo acordo de paz que comprometeu as finanças públicas. Tudo isso agravado por hiperinflação e caos político ao longo da década de 1920.
Rust não era o culpado da herança que recebeu, mas, em vez de montar um sistema educacional competitivo na Europa, concentrou-se na ideologia para desarticular o que chamava de cultura comunista e influência de judeus na vida intelectual da Alemanha. Ele via a universidade como antro do marxismo cultural. Einstein era recusado como judeu e a teoria da relatividade vista como parte da conspiração internacional comunista.
Rust não fez parte da engenharia do Holocausto, mas foi um dos criadores do pensamento que serviu de base à execução da solução final para extinguir povos não arianos que faziam parte da Alemanha, especialmente judeus. Ele sentia horror às simples expressões “povo judaico” ou “povo cigano” ou “comunista”. Seu tipo de patriotismo achava que na Alemanha havia um único povo, palavra que só se aplicava aos alemães. Para isso, demitiu professores, impediu escolha de reitores pela comunidade, vetou ideias incompatíveis com a tradição cristã.
Lembrei de Rust ao ouvir a participação do ministro da Educação do Brasil, na reunião de gabinete de 22 de abril. Ele não incentivou solução final para nossos índios, mas lançou a base para que isso ocorra. Não por morte em câmaras de gás, mas por morte lenta devido à negação dos direitos básicos de cada povo indígena. Ao sentir horror, sua cara passou a sensação de nojo ao povo indígena, passou a ideia de que o conceito de povo brasileiro nega permissão para a convivência fraterna com outros povos dentro do Brasil.
Ao dizer que tinha horror ao conceito de povo indígena, e manifestar que apenas o povo brasileiro com sua aparente identidade ocidental e cristã lhe interessa, ele repete o que dizia o ministro nazista para os judeus. Quase 100 anos depois, o ministro da Educação do Brasil senta a base ideológica para a ideia da pureza, se não racial, ao menos cultural, do povo brasileiro cristão e ocidental.
Não é por acaso que, logo após, o ministro do Meio Ambiente declarou que o governo deve aproveitar a atenção da mídia voltada aos mortos pela epidemia, para simplificar procedimentos que permitirão ocupar terras e destruir florestas onde vivem o que seu colega considerou “não povo” indígena. Dizimar as florestas onde vivem os índios é como colocá-los em “câmara de gás” que mata lentamente. Foi isso o que os dois ministros combinaram ser feito sem grandes dificuldades burocráticas, um sentando base ideológica pelo horror ao povo indígena e o outro definindo os meios administrativos para o genocídio. Diga-se a favor deles que talvez não tivessem consciência do que diziam, sem saberem quem foi Rust.
Por isso, nenhum outro ministro, nem o presidente, nem o vice, chamaram a atenção deles para o horror do que tinham dito. Acharam natural os sentimentos de horror com o conceito de povo indígena e com as amarras burocráticas que impedem derrubar florestas.
A reunião de 22 de abril passa a sensação de um ministério unido no uso de palavrões e na concepção de Bernhard Rust. Igualmente triste é imaginar que depois de nossos “Rusts”, dificilmente teremos um presidente com a visão do chanceler Adenauer, que, na primeira reunião para definir as prioridades do Plano Marshall, afirmou que a prioridade na reconstrução da Alemanha seria a educação, para recuperar o tempo perdido em décadas anteriores e corrigir o desastre nos anos nazistas.
Cristovam Buarque é professor emérito da Universidade de Brasília
Os democratas precisam conversar - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 31/05
Forças políticas que têm suas diferenças, mas compartilham a defesa das liberdades, devem se reaproximar
Nestes 32 anos de vigência da Constituição de 1988 e nos 35 da saída dos militares do Planalto, não houve momentos em que a estabilidade democrática parecesse estar por um fio. A morte de Tancredo antes da posse foi uma tragédia mitigada aos poucos, à medida que o vice, José Sarney, com a habilidade dos velhos políticos conservadores, foi conduzindo o país até a primeira eleição direta pós-ditadura para presidente, em 1989. Os acidentes no percurso da renascida democracia continuaram. Fernando Collor de Mello sucumbiu ao impeachment, em uma crise acompanhada com adequada distância pelos militares. Nem a perspectiva da subida do PT pela rampa do Planalto causou temores. Transcorreram sem sustos 13 anos com a esquerda no Executivo, vencendo-se ainda mais um impeachment, de Dilma Rousseff.
Mas Jair Bolsonaro e o que pensa, quem o cerca e a conjuntura histórica em que país e mundo se encontram passaram a ser a maior ameaça à democracia brasileira neste período de uma geração. Ter a extrema direita no Planalto, na democracia, é uma experiência nova que gera enormes pressões sobre todos os poderes republicanos. Seria o mesmo se fosse a extrema esquerda. Num mundo digitalizado, os ataques a pessoas e a instituições se multiplicam, há muito ruído, agitação, e o que cabe fazer é aplicar a Constituição sem recuos.
O Congresso, mesmo com a limitação das sessões remotas, cumpre sua pauta, e o Judiciário trabalha. Mas a grave crise política exige mais. Bolsonaro, quem diria, usa o método chavista de cooptar militares — alguns da ativa —, para comprometê-los com seu projeto de poder. Finja-se de desentendido quem quiser, mas a estratégia é clara. O uso desta fórmula da experiência bolivariana acrescenta mais tensão ao momento.
A sociedade precisa encontrar a saída de uma situação em que crises provocadas pelo presidente se sucedem e são amplificadas por manifestações, concentradas em Brasília nas últimas semanas, nada expressivas, mas causadoras de intranquilidades, pois são potencializadas por milícias digitais. Tudo transcorre numa séria crise humanitária, social e de saúde pública, em que o número de mortes já se aproxima dos 30 mil, e dentro de uma hecatombe econômica. São ingredientes que favorecem a quem deseja criar o caos para dele se aproveitar.
Durante a semana, ministros do Supremo e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, fizeram o que se espera deles. Defenderam as instituições, frisaram o papel vital da democracia, enalteceram a necessidade do diálogo. Mas falta para todas essas acertadas intenções uma via política, que só será construída se os democratas dos diversos matizes se entenderem. Forças políticas que têm diferenças no campo da economia, na área social e outras, mas compartilham zonas de intercessão na defesa das liberdades, têm de se reaproximar.
Esta via política não deve excluir Bolsonaro, que, por sua vez, precisa fazer um gesto pelo entendimento, a melhor alternativa também para ele e seu governo. Com a pacificação, o presidente abrirá espaços de negociação no Congresso, para além do centrão, a fim de executar sua agenda, paralisada, como tudo, devido à crise política. E continuará assim com o fim da epidemia, se este momento não for superado.
O Brasil republicano já venceu fases difíceis, e conseguiu superá-las com a ajuda de alianças entre segmentos políticos que aceitaram deixar de lado diferenças e se unir em torno de interesses compartilhados contra o inimigo comum que ameaçava a todos com a supressão da democracia. Foi assim na resistência ao Estado Novo getulista (1937-45), na ditadura militar (1964-1985/88), e em ambas as transições para a democracia.
Fechada a saída inviável da luta armada, após a decretação do AI-5, e deixada para trás a fase do “milagre econômico”, esgotado na insolvência do modelo, a memória ainda está viva de como liberais, a chamada esquerda democrática e mesmo frações mais à esquerda se entenderam sobre o melhor caminho para a abertura democrática, que não passava pela violência. E numa negociação bem-sucedida entre experientes políticos de direita e de esquerda, incluindo egressos do velho regime, teceu-se um entendimento sobre a abertura com militares geiselistas que venceram o confronto com falanges de extrema direita nos porões da ditadura. São os herdeiros ideológicos daqueles comandos radicais criados nos subterrâneos do regime militar que chegaram ao poder com Bolsonaro. Importa que o país tem de contornar a atual crise da melhor maneira, dentro da lei e pelo diálogo.
É preciso reaprender com a História e voltar a costurar o entendimento entre forças democráticas — mesmo com nuances —, como na década de 70 e início dos anos 1980, desta vez para proteger a Constituição de 1988, que tem garantido anos de estabilidade, sem a qual o Brasil se tornará um pária no mundo. As pressões bolsonaristas contra o Supremo são um ataque à Carta. Mas o país tem a vantagem de contar com instituições edificadas. Não se trata mais de enfrentar a ditadura de Getúlio nem a dos generais. Trata-se de sustentar a democracia, na qual há espaço para todos.
Forças políticas que têm suas diferenças, mas compartilham a defesa das liberdades, devem se reaproximar
Nestes 32 anos de vigência da Constituição de 1988 e nos 35 da saída dos militares do Planalto, não houve momentos em que a estabilidade democrática parecesse estar por um fio. A morte de Tancredo antes da posse foi uma tragédia mitigada aos poucos, à medida que o vice, José Sarney, com a habilidade dos velhos políticos conservadores, foi conduzindo o país até a primeira eleição direta pós-ditadura para presidente, em 1989. Os acidentes no percurso da renascida democracia continuaram. Fernando Collor de Mello sucumbiu ao impeachment, em uma crise acompanhada com adequada distância pelos militares. Nem a perspectiva da subida do PT pela rampa do Planalto causou temores. Transcorreram sem sustos 13 anos com a esquerda no Executivo, vencendo-se ainda mais um impeachment, de Dilma Rousseff.
Mas Jair Bolsonaro e o que pensa, quem o cerca e a conjuntura histórica em que país e mundo se encontram passaram a ser a maior ameaça à democracia brasileira neste período de uma geração. Ter a extrema direita no Planalto, na democracia, é uma experiência nova que gera enormes pressões sobre todos os poderes republicanos. Seria o mesmo se fosse a extrema esquerda. Num mundo digitalizado, os ataques a pessoas e a instituições se multiplicam, há muito ruído, agitação, e o que cabe fazer é aplicar a Constituição sem recuos.
O Congresso, mesmo com a limitação das sessões remotas, cumpre sua pauta, e o Judiciário trabalha. Mas a grave crise política exige mais. Bolsonaro, quem diria, usa o método chavista de cooptar militares — alguns da ativa —, para comprometê-los com seu projeto de poder. Finja-se de desentendido quem quiser, mas a estratégia é clara. O uso desta fórmula da experiência bolivariana acrescenta mais tensão ao momento.
A sociedade precisa encontrar a saída de uma situação em que crises provocadas pelo presidente se sucedem e são amplificadas por manifestações, concentradas em Brasília nas últimas semanas, nada expressivas, mas causadoras de intranquilidades, pois são potencializadas por milícias digitais. Tudo transcorre numa séria crise humanitária, social e de saúde pública, em que o número de mortes já se aproxima dos 30 mil, e dentro de uma hecatombe econômica. São ingredientes que favorecem a quem deseja criar o caos para dele se aproveitar.
Durante a semana, ministros do Supremo e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, fizeram o que se espera deles. Defenderam as instituições, frisaram o papel vital da democracia, enalteceram a necessidade do diálogo. Mas falta para todas essas acertadas intenções uma via política, que só será construída se os democratas dos diversos matizes se entenderem. Forças políticas que têm diferenças no campo da economia, na área social e outras, mas compartilham zonas de intercessão na defesa das liberdades, têm de se reaproximar.
Esta via política não deve excluir Bolsonaro, que, por sua vez, precisa fazer um gesto pelo entendimento, a melhor alternativa também para ele e seu governo. Com a pacificação, o presidente abrirá espaços de negociação no Congresso, para além do centrão, a fim de executar sua agenda, paralisada, como tudo, devido à crise política. E continuará assim com o fim da epidemia, se este momento não for superado.
O Brasil republicano já venceu fases difíceis, e conseguiu superá-las com a ajuda de alianças entre segmentos políticos que aceitaram deixar de lado diferenças e se unir em torno de interesses compartilhados contra o inimigo comum que ameaçava a todos com a supressão da democracia. Foi assim na resistência ao Estado Novo getulista (1937-45), na ditadura militar (1964-1985/88), e em ambas as transições para a democracia.
Fechada a saída inviável da luta armada, após a decretação do AI-5, e deixada para trás a fase do “milagre econômico”, esgotado na insolvência do modelo, a memória ainda está viva de como liberais, a chamada esquerda democrática e mesmo frações mais à esquerda se entenderam sobre o melhor caminho para a abertura democrática, que não passava pela violência. E numa negociação bem-sucedida entre experientes políticos de direita e de esquerda, incluindo egressos do velho regime, teceu-se um entendimento sobre a abertura com militares geiselistas que venceram o confronto com falanges de extrema direita nos porões da ditadura. São os herdeiros ideológicos daqueles comandos radicais criados nos subterrâneos do regime militar que chegaram ao poder com Bolsonaro. Importa que o país tem de contornar a atual crise da melhor maneira, dentro da lei e pelo diálogo.
É preciso reaprender com a História e voltar a costurar o entendimento entre forças democráticas — mesmo com nuances —, como na década de 70 e início dos anos 1980, desta vez para proteger a Constituição de 1988, que tem garantido anos de estabilidade, sem a qual o Brasil se tornará um pária no mundo. As pressões bolsonaristas contra o Supremo são um ataque à Carta. Mas o país tem a vantagem de contar com instituições edificadas. Não se trata mais de enfrentar a ditadura de Getúlio nem a dos generais. Trata-se de sustentar a democracia, na qual há espaço para todos.
sábado, maio 30, 2020
Camiseta do Carluxo! I Love Odiar! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 30/05
Quando acabar a pandemia vou levar minhas mãos para os Alcoólicos Anônimos
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
Quando acabar essa pandemia vou ter que levar minhas mãos para os Alcoólicos Anônimos! Não saia de casa, se você morrer, seu marido casa com outra e ela vai usar seus tupperwares. Nunca! Tudo, menos isso! Rarará!
E avisa o Doria que eu só vou pro shoppping para ouvir “débito ou crédito?”. Saudades de ouvir isso! Grito de guerra do Bozo: reabre tudo e fecha o Supremo! Bafo da Fake News! Véio da Havan Fake: a loja é brasileira, a estátua é americana e os produtos são chineses. E o financiador de fake news e dono da Smart Fit se chama Edgar Corona! Rarará!
E o que me deixou mais atônito foi saber que o Roberto Jefferson tá solto. Ops, tá vivo. E a camiseta pro Carluxo: “I LOVE ODIAR”. Já imaginou o astral no gabinete do ódio? Aquele monte de louco babando no teclado: “Vamos foder com a reputação de quem hoje?”. O Carluxo devia tomar uma injeção antirrábica! Rarará!
E esta: “General Heleno diz que não vai haver golpe”. E precisa? Já tem uns 380 militares no Planalto. E hoje pro general Heleno é 30 de maio de 1964! Rarará! E o Weintraub tá desesperado. Não consegue entender o despacho do Celso de Mello contra ele: “Essa gravíssima aleivosia perpretada por referido ministro, consubstanciada em discurso contumelioso”. Tradução: quem mandou me chamar de filho da puta! E o Ingnorante da Inducação escreveu Celso com ç: Çelso. E Demição! Rarará! Parece macaco em foguete da Nasa! Só aperta o botão errado!
E a Carla Zambelli vai morrer pela boca! A Carla Zambelli é uma língua de sogra de óculos. E erra nos brincos! Rarará! Burra e exibida! Não basta ser parça da Polícia Federal, tem que avisar! E já estão falando que ela sabe os números da Mega! Só que ela não é vidente, é informada! E o Doria pretende abrir os shoppings. Estouro da boiada.
Todo mundo correndo pra comprar o que não precisa.
E a charge do Cellus com dois vírus: “Já tá melhorando, até no shopping eu fui ontem”. Comprar uma Nhá Benta. E vai abrir concessionária. Carro eu só compro do Queiroz! Rarará! E o Aras da Pizzaria Geral da República parece o Daddy Pig. O pai da Peppa Pig!
E amanhã vai ter manifestanta pró-Bolsonaro?! Os manifestantas são sempre os mesmos. Eu até já conheço. Olha aquela loira de carreata! Gritando: “Eu não quero ser escrava da China”. Olha aquele senhor grisalho de boina e bandeira de Israel! E olha aquele menino gritando Globolixo! Mito! Jumito! Vomito! Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza.
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
José Simão
Jornalista, precursor do humor jornalístico.
Quando acabar a pandemia vou levar minhas mãos para os Alcoólicos Anônimos
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
Quando acabar essa pandemia vou ter que levar minhas mãos para os Alcoólicos Anônimos! Não saia de casa, se você morrer, seu marido casa com outra e ela vai usar seus tupperwares. Nunca! Tudo, menos isso! Rarará!
E avisa o Doria que eu só vou pro shoppping para ouvir “débito ou crédito?”. Saudades de ouvir isso! Grito de guerra do Bozo: reabre tudo e fecha o Supremo! Bafo da Fake News! Véio da Havan Fake: a loja é brasileira, a estátua é americana e os produtos são chineses. E o financiador de fake news e dono da Smart Fit se chama Edgar Corona! Rarará!
E o que me deixou mais atônito foi saber que o Roberto Jefferson tá solto. Ops, tá vivo. E a camiseta pro Carluxo: “I LOVE ODIAR”. Já imaginou o astral no gabinete do ódio? Aquele monte de louco babando no teclado: “Vamos foder com a reputação de quem hoje?”. O Carluxo devia tomar uma injeção antirrábica! Rarará!
E esta: “General Heleno diz que não vai haver golpe”. E precisa? Já tem uns 380 militares no Planalto. E hoje pro general Heleno é 30 de maio de 1964! Rarará! E o Weintraub tá desesperado. Não consegue entender o despacho do Celso de Mello contra ele: “Essa gravíssima aleivosia perpretada por referido ministro, consubstanciada em discurso contumelioso”. Tradução: quem mandou me chamar de filho da puta! E o Ingnorante da Inducação escreveu Celso com ç: Çelso. E Demição! Rarará! Parece macaco em foguete da Nasa! Só aperta o botão errado!
E a Carla Zambelli vai morrer pela boca! A Carla Zambelli é uma língua de sogra de óculos. E erra nos brincos! Rarará! Burra e exibida! Não basta ser parça da Polícia Federal, tem que avisar! E já estão falando que ela sabe os números da Mega! Só que ela não é vidente, é informada! E o Doria pretende abrir os shoppings. Estouro da boiada.
Todo mundo correndo pra comprar o que não precisa.
E a charge do Cellus com dois vírus: “Já tá melhorando, até no shopping eu fui ontem”. Comprar uma Nhá Benta. E vai abrir concessionária. Carro eu só compro do Queiroz! Rarará! E o Aras da Pizzaria Geral da República parece o Daddy Pig. O pai da Peppa Pig!
E amanhã vai ter manifestanta pró-Bolsonaro?! Os manifestantas são sempre os mesmos. Eu até já conheço. Olha aquela loira de carreata! Gritando: “Eu não quero ser escrava da China”. Olha aquele senhor grisalho de boina e bandeira de Israel! E olha aquele menino gritando Globolixo! Mito! Jumito! Vomito! Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza.
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
José Simão
Jornalista, precursor do humor jornalístico.
Nem é pibinho. É o início do desastre. - CELSO MING
ESTADÃO - 30/05
A marcha à ré no crescimento da renda pega só a pontinha da forte queda do consumo e produção; a destruição vai ser registrada nos trimestres seguintes
Aqui vão algumas observações sobre o resultado do PIB do primeiro trimestre divulgado nesta sexta-feira: um recuo de 1,5% sobre o PIB do trimestre anterior.
É só o começo. Essa forte marcha à ré no crescimento da renda já era esperada, mas isso não alivia. Pega só uma pontinha da forte queda do consumo e da produção que veio depois, porque o isolamento social só foi adotado no Brasil na última semana de março. A destruição do tsunami que veio em seguida vai ser registrada nos trimestres seguintes, especialmente no segundo e no terceiro. E vai ser um desastre avassalador que, no entanto, já está sendo previsto ou já está no preço, como se diz no mercado financeiro, embora não se saiba ainda em que proporções.
Iniciou lá fora. Os números negativos do primeiro trimestre refletem tanto as incertezas que já vinham se avolumando quanto os graves problemas nos principais países que já estavam atolados na pandemia, especialmente China e Europa. E contou, também, a prostração que atingiu a Argentina. O consumo interno já vinha baqueando bem antes do início da quarentena, na medida em que o desemprego começou a crescer em janeiro, porque as empresas anteviram o que já estava a caminho e se anteciparam nas dispensas de pessoal e, pior, no adiamento de novas contratações. As estatísticas do Caged e da Pnad, divulgadas na semana que passou, já mostravam esse estrago.
O baque nos serviços. Assim como o uso do cachimbo deixa a boca torta, há certo desvio na percepção do brasileiro de que PIB por aqui é principalmente comportamento da indústria. Por isso, tende a ver tudo o que de ruim acontece no PIB como reflexo do mal das pernas que atinge em cheio o setor industrial. É preciso não perder de vista as proporções. Pelos dados das Contas Nacionais de 2019, o setor de serviços tem um peso de 74% no tamanho do PIB do Brasil: são transportes, comércio, turismo, ensino, serviços de saúde, setor financeiro, comunicações, informática, correios, serviços pessoais, etc. A indústria de transformação entra com 11% e a agropecuária, com apenas 5,2%. Por isso, para o bem ou para o mal, o impacto maior no PIB vem do setor de serviços. No primeiro trimestre, essa fatia caiu mais do que a indústria, 1,6% ante 1,4%. Desta vez, o comportamento pior refletiu a retração do consumidor que apenas se acentuou com as perdas de salário e renda.
Sem repeteco. As estatísticas de investimento e poupança do primeiro trimestre (ver gráfico abaixo) foram a maior surpresa do PIB. A poupança avançou de 12,2% do PIB para 14,1% do PIB. E o investimento subiu de 15,0% para 15,8%. Em boa parte tem a ver com efeitos estatísticos e, também, com aumento de importações de equipamentos de petróleo. Mas esse avanço não se repetirá tão cedo.
Tentativa e erro. O que há são apostas e não propriamente previsões. Quem disser que tem certeza sobre o tamanho da queda do PIB deste ano ou está desinformado ou desregulado. Uma das chaves é a retomada da atividade econômica, variável incerta. As autoridades estavam no escuro quando determinaram o início do distanciamento social e continuam no escuro neste início de flexibilização, quando o País vai batendo recordes de contaminação e de mortes pelo novo coronavírus e, ainda assim, os números chegam com indícios de subnotificação.
Mas há outra variável que pode piorar tudo: a política. Os desencontros entre os poderes institucionais são graves e recorrentes, de desfecho também imprevisível, neste ano de eleições municipais. A última estimativa feita por 73 analistas de economia, tal como relatada pelo Boletim Focus, do Banco Central, é de queda do PIB de 5,1% em 2020. É projeção sujeita a constantes revisões porque não passa de exercício de tentativa e erro.
A marcha à ré no crescimento da renda pega só a pontinha da forte queda do consumo e produção; a destruição vai ser registrada nos trimestres seguintes
Aqui vão algumas observações sobre o resultado do PIB do primeiro trimestre divulgado nesta sexta-feira: um recuo de 1,5% sobre o PIB do trimestre anterior.
É só o começo. Essa forte marcha à ré no crescimento da renda já era esperada, mas isso não alivia. Pega só uma pontinha da forte queda do consumo e da produção que veio depois, porque o isolamento social só foi adotado no Brasil na última semana de março. A destruição do tsunami que veio em seguida vai ser registrada nos trimestres seguintes, especialmente no segundo e no terceiro. E vai ser um desastre avassalador que, no entanto, já está sendo previsto ou já está no preço, como se diz no mercado financeiro, embora não se saiba ainda em que proporções.
Iniciou lá fora. Os números negativos do primeiro trimestre refletem tanto as incertezas que já vinham se avolumando quanto os graves problemas nos principais países que já estavam atolados na pandemia, especialmente China e Europa. E contou, também, a prostração que atingiu a Argentina. O consumo interno já vinha baqueando bem antes do início da quarentena, na medida em que o desemprego começou a crescer em janeiro, porque as empresas anteviram o que já estava a caminho e se anteciparam nas dispensas de pessoal e, pior, no adiamento de novas contratações. As estatísticas do Caged e da Pnad, divulgadas na semana que passou, já mostravam esse estrago.
O baque nos serviços. Assim como o uso do cachimbo deixa a boca torta, há certo desvio na percepção do brasileiro de que PIB por aqui é principalmente comportamento da indústria. Por isso, tende a ver tudo o que de ruim acontece no PIB como reflexo do mal das pernas que atinge em cheio o setor industrial. É preciso não perder de vista as proporções. Pelos dados das Contas Nacionais de 2019, o setor de serviços tem um peso de 74% no tamanho do PIB do Brasil: são transportes, comércio, turismo, ensino, serviços de saúde, setor financeiro, comunicações, informática, correios, serviços pessoais, etc. A indústria de transformação entra com 11% e a agropecuária, com apenas 5,2%. Por isso, para o bem ou para o mal, o impacto maior no PIB vem do setor de serviços. No primeiro trimestre, essa fatia caiu mais do que a indústria, 1,6% ante 1,4%. Desta vez, o comportamento pior refletiu a retração do consumidor que apenas se acentuou com as perdas de salário e renda.
Sem repeteco. As estatísticas de investimento e poupança do primeiro trimestre (ver gráfico abaixo) foram a maior surpresa do PIB. A poupança avançou de 12,2% do PIB para 14,1% do PIB. E o investimento subiu de 15,0% para 15,8%. Em boa parte tem a ver com efeitos estatísticos e, também, com aumento de importações de equipamentos de petróleo. Mas esse avanço não se repetirá tão cedo.
Tentativa e erro. O que há são apostas e não propriamente previsões. Quem disser que tem certeza sobre o tamanho da queda do PIB deste ano ou está desinformado ou desregulado. Uma das chaves é a retomada da atividade econômica, variável incerta. As autoridades estavam no escuro quando determinaram o início do distanciamento social e continuam no escuro neste início de flexibilização, quando o País vai batendo recordes de contaminação e de mortes pelo novo coronavírus e, ainda assim, os números chegam com indícios de subnotificação.
Mas há outra variável que pode piorar tudo: a política. Os desencontros entre os poderes institucionais são graves e recorrentes, de desfecho também imprevisível, neste ano de eleições municipais. A última estimativa feita por 73 analistas de economia, tal como relatada pelo Boletim Focus, do Banco Central, é de queda do PIB de 5,1% em 2020. É projeção sujeita a constantes revisões porque não passa de exercício de tentativa e erro.
Maioria já vê código de barras no governo Bolsonaro - JOSIAS DE SOUZA
UOL - 30/05
De todas as notícias que o Datafolha trouxe para Jair Bolsonaro nos últimos dias, a mais simbólica ganhou as manchetes neste sábado: 67% dos brasileiros reprovam o casamento do capitão com o centrão.
Significa dizer que praticamente sete em cada dez patrícios passaram a enxergar no governo um código de barras presumido, marca registrada do pacto demoníaco que rege as coligações no Brasil.
Bolsonaro ainda faz pose de limpinho. Alega que negocia cargos de escalões inferiores, não ministérios ou estatais. Tolice. No fisiologismo, integridade é como virgindade. Não existe pela metade. Também não dá segunda safra. Perdeu, perdida está.
O presidente comporta-se, de resto, como um gestor idealista que se rende à realidade. Nessa versão, Bolsonaro seria apenas um presidente bem-intencionado forçado a lidar com uma classe política viciada.
Assim, Bolsonaro adotaria os meios dos parceiros apenas para obter suas nobres finalidades. Bobagem. O capitão se rende para evitar que apertem a corda que ele amarrou ao redor do seu próprio pescoço.
Outra alegada diferença entre o toma-lá-dá-cá de Bolsonaro e o escambo dos antecessores seria a "exigência" de que os partidos do centrão façam indicações técnicas. Conversa mole.
Na máquina estatal, não basta ser técnico. É preciso saber a serviço de quem estarão as habilidades técnicas dos apadrinhados. Se Sergio Moro ainda fosse ministro, Bolsonaro poderia chamá-lo para uma conversa.
Moro relataria uma experiência que viveu como juiz da Lava Jato. Deu-se no interrogatório do primeiro depoimento do delator Paulo Roberto Costa. Ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulinho, como Lula o chamava, foi inquirido em outubro de 2014.
Funcionário de carreira da Petrobras, o réu chegou à diretoria por indicação do PP, um dos partidos que agora se achegam aos cofres da gestão Bolsonaro. Antes de dar por encerrado o interrogatório, Moro perguntou se Paulinho gostaria de "dizer alguma coisa".
E o réu: "Queria dizer só uma coisa, Excelência. Eu trabalhei na Petrobras 35 anos. Vinte e sete anos do meu trabalho foram trabalhos técnicos, gerenciais. E eu não tive nenhuma mácula nesses 27 anos. Se houve erro —e houve, não é?— foi a partir da entrada minha na diretoria por envolvimento com grupos políticos, que usam a oração de São Francisco, que é dando que se recebe. Eles dizem muito isso. Então, esse envolvimento político que tem, que tinha em todas as diretorias da Petrobras, é uma mácula dentro da companhia."
Ou seja: em meio a muitas dúvidas sobre o modo como Bolsonaro administra o balcão, só uma coisa é certa: ainda que o centrão retirasse coelhos de suas cartolas, o objetivo do grupo seria transformá-los em gambás.
De acordo com o Datafolha, 64% dos entrevistados disseram que Bolsonaro descumpre o que prometera na campanha de 2018 sobre o modo como se relacionaria com o Legislativo. Esse sentimento coletivo tem um nome na política. Chama-se estelionato eleitoral.
De todas as notícias que o Datafolha trouxe para Jair Bolsonaro nos últimos dias, a mais simbólica ganhou as manchetes neste sábado: 67% dos brasileiros reprovam o casamento do capitão com o centrão.
Significa dizer que praticamente sete em cada dez patrícios passaram a enxergar no governo um código de barras presumido, marca registrada do pacto demoníaco que rege as coligações no Brasil.
Bolsonaro ainda faz pose de limpinho. Alega que negocia cargos de escalões inferiores, não ministérios ou estatais. Tolice. No fisiologismo, integridade é como virgindade. Não existe pela metade. Também não dá segunda safra. Perdeu, perdida está.
O presidente comporta-se, de resto, como um gestor idealista que se rende à realidade. Nessa versão, Bolsonaro seria apenas um presidente bem-intencionado forçado a lidar com uma classe política viciada.
Assim, Bolsonaro adotaria os meios dos parceiros apenas para obter suas nobres finalidades. Bobagem. O capitão se rende para evitar que apertem a corda que ele amarrou ao redor do seu próprio pescoço.
Outra alegada diferença entre o toma-lá-dá-cá de Bolsonaro e o escambo dos antecessores seria a "exigência" de que os partidos do centrão façam indicações técnicas. Conversa mole.
Na máquina estatal, não basta ser técnico. É preciso saber a serviço de quem estarão as habilidades técnicas dos apadrinhados. Se Sergio Moro ainda fosse ministro, Bolsonaro poderia chamá-lo para uma conversa.
Moro relataria uma experiência que viveu como juiz da Lava Jato. Deu-se no interrogatório do primeiro depoimento do delator Paulo Roberto Costa. Ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulinho, como Lula o chamava, foi inquirido em outubro de 2014.
Funcionário de carreira da Petrobras, o réu chegou à diretoria por indicação do PP, um dos partidos que agora se achegam aos cofres da gestão Bolsonaro. Antes de dar por encerrado o interrogatório, Moro perguntou se Paulinho gostaria de "dizer alguma coisa".
E o réu: "Queria dizer só uma coisa, Excelência. Eu trabalhei na Petrobras 35 anos. Vinte e sete anos do meu trabalho foram trabalhos técnicos, gerenciais. E eu não tive nenhuma mácula nesses 27 anos. Se houve erro —e houve, não é?— foi a partir da entrada minha na diretoria por envolvimento com grupos políticos, que usam a oração de São Francisco, que é dando que se recebe. Eles dizem muito isso. Então, esse envolvimento político que tem, que tinha em todas as diretorias da Petrobras, é uma mácula dentro da companhia."
Ou seja: em meio a muitas dúvidas sobre o modo como Bolsonaro administra o balcão, só uma coisa é certa: ainda que o centrão retirasse coelhos de suas cartolas, o objetivo do grupo seria transformá-los em gambás.
De acordo com o Datafolha, 64% dos entrevistados disseram que Bolsonaro descumpre o que prometera na campanha de 2018 sobre o modo como se relacionaria com o Legislativo. Esse sentimento coletivo tem um nome na política. Chama-se estelionato eleitoral.
O vírus, a China, os EUA e nós - PAULO SOTERO
ESTADÃO 30/05
O Brasil perderá se escolher um lado na briga entre Washington e Pequim
Por motivos diferentes, Pequim e Washington responderam tardiamente à covid-19. No caso da China, a causa da demora reside no controle político central inerente ao regime, que inibe a transmissão de informações negativas de baixo para cima – no caso, da cidade de Wuhan, onde o flagelo começou, para a capital. Mas o controle central explica também a eficácia com que as autoridades reagiram para conter a propagação do vírus, depois de se darem conta de que estavam diante de uma epidemia, como escreveu Miyamoto Yuji, ex-embaixador do Japão na China, em elucidativo artigo publicado no final de março.
As informações sobre a virulência da covid-19 e sua chegada aos EUA eram conhecidas desde janeiro no governo americano. Mas foram suprimidas, segundo denúncia feita no início do mês pelo médico infectologista Rick Bright, afastado do cargo de diretor da Divisão Biomédica e de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério de Saúde, por contestar o uso do remédio antimalária cloroquina, receitado publicamente pelo presidente Donald Trump. “Fui pressionado a permitir que a política e o clientelismo orientassem decisões, em detrimento das opiniões dos melhores cientistas que temos no governo”, afirmou Bright, depois de apresentar queixa formal contra a punição que sofreu.
Tendo falhado na resposta à pandemia, que já matou mais de 75 mil americanos, ou um terço do total de vítimas do vírus, Trump agora joga a culpa na China. E encontrou respaldo no chanceler do governo Bolsonaro, o mesmo que já atribuiu à China a responsabilidade pela crise global da mudança climática.
É essencial ter a China em mente na discussão sobre o covid-19, mas por outro motivo. A pandemia acelerou o curso da História e, na certa, encurtará a transição geopolítica do poder mundial para um novo equilíbrio em que aumentará o peso relativo da China e diminuirá o dos Estados Unidos.
O Brasil só tem a perder escolhendo um lado na disputa entre duas potências dominantes, ambas parceiras estratégicas do País. A tarefa que a realidade impõe às lideranças brasileiras é identificar o interesse nacional em cada campo do nosso relacionamento bilateral e multilateral com a China e os EUA e persegui-lo, guiadas por dois propósitos. O primeiro é evitar os efeitos colaterais adversos da confrontação sino-americana. Como me disse o experiente embaixador Gelson Fonseca, quando era chefe da missão do País na ONU, “não devemos entrar em briga de cachorro grande”. O segundo propósito é tirar o melhor proveito possível da briga, falando pouco e apenas o necessário.
É um exercício para o qual nossos políticos, empresários, funcionários e intelectuais se têm mostrado inapetentes e despreparados. Sabemos bem o que não queremos. Mas geralmente falhamos quando se trata de definir objetivos positivos realistas e desenvolver uma visão estratégica – ou seja, de longo prazo – para alcançá-los no contexto da complexa e cambiante realidade internacional.
É urgente superarmos essa dificuldade, até porque a realidade não oferece alternativas. “Diferentemente dos últimos setenta anos, o Brasil se posicionará num mundo em que os Estados Unidos (...) não constituem mais uma liderança inconteste em todas a áreas”, alertou a diplomata e economista Tatiana Rosito na mais recente publicação do Conselho Empresarial Brasil-China. “Preparamo-nos para uma era em que grande parte do poder econômico e político estará centrada em países sobre os quais nosso conhecimento, relações interpessoais e capacidade de mobilização e influência são relativamente escassos.” Poderíamos começar incentivando o estudo da China e do mandarim em nossas escolas e universidades, de modo a estimular e enraizar os laços entre as duas sociedades e torná-los menos dependentes dos governos. A porta parece aberta.
Maior compradora das exportações brasileiras há mais de uma década, a China diz-se pronta para ampliar a cooperação bilateral, a começar pelo combate à pandemia, não obstante as declarações sinofóbicas dos ministros das Relações Exteriores e da Educação e do padrinho de ambos no Planalto, o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente. Em entrevista recente a Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, reduziu os ataques a seu país a “ruídos” e salientou “as histórias comoventes de solidariedade e de ajuda mútua entre os dois povos”.
O desafio maior para o Brasil é se beneficiar de uma relação produtiva com a China sem se distanciar das nações do Ocidente, de que é parte e com o qual compartilha História, cultura e valores. Facilitará a tarefa o provável fracasso de Trump nas eleições de novembro, já visível nas pesquisas de opinião e implícito nas projeções de universidades e entidades oficiais sobre o número de mortos pelo vírus da pandemia nos próximos meses. Sem o distanciamento social, que começa a ser relaxado, dados do próprio governo indicam que os óbitos podem dobrar para 140 mil até o fim de julho e mais do que triplicar até o fim do ano.
JORNALISTA, É PESQUISADOR SENIOR DO BRAZIL INSTITUTE NO WILSON CENTER, EM WASHINGTON
O Brasil perderá se escolher um lado na briga entre Washington e Pequim
Por motivos diferentes, Pequim e Washington responderam tardiamente à covid-19. No caso da China, a causa da demora reside no controle político central inerente ao regime, que inibe a transmissão de informações negativas de baixo para cima – no caso, da cidade de Wuhan, onde o flagelo começou, para a capital. Mas o controle central explica também a eficácia com que as autoridades reagiram para conter a propagação do vírus, depois de se darem conta de que estavam diante de uma epidemia, como escreveu Miyamoto Yuji, ex-embaixador do Japão na China, em elucidativo artigo publicado no final de março.
As informações sobre a virulência da covid-19 e sua chegada aos EUA eram conhecidas desde janeiro no governo americano. Mas foram suprimidas, segundo denúncia feita no início do mês pelo médico infectologista Rick Bright, afastado do cargo de diretor da Divisão Biomédica e de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério de Saúde, por contestar o uso do remédio antimalária cloroquina, receitado publicamente pelo presidente Donald Trump. “Fui pressionado a permitir que a política e o clientelismo orientassem decisões, em detrimento das opiniões dos melhores cientistas que temos no governo”, afirmou Bright, depois de apresentar queixa formal contra a punição que sofreu.
Tendo falhado na resposta à pandemia, que já matou mais de 75 mil americanos, ou um terço do total de vítimas do vírus, Trump agora joga a culpa na China. E encontrou respaldo no chanceler do governo Bolsonaro, o mesmo que já atribuiu à China a responsabilidade pela crise global da mudança climática.
É essencial ter a China em mente na discussão sobre o covid-19, mas por outro motivo. A pandemia acelerou o curso da História e, na certa, encurtará a transição geopolítica do poder mundial para um novo equilíbrio em que aumentará o peso relativo da China e diminuirá o dos Estados Unidos.
O Brasil só tem a perder escolhendo um lado na disputa entre duas potências dominantes, ambas parceiras estratégicas do País. A tarefa que a realidade impõe às lideranças brasileiras é identificar o interesse nacional em cada campo do nosso relacionamento bilateral e multilateral com a China e os EUA e persegui-lo, guiadas por dois propósitos. O primeiro é evitar os efeitos colaterais adversos da confrontação sino-americana. Como me disse o experiente embaixador Gelson Fonseca, quando era chefe da missão do País na ONU, “não devemos entrar em briga de cachorro grande”. O segundo propósito é tirar o melhor proveito possível da briga, falando pouco e apenas o necessário.
É um exercício para o qual nossos políticos, empresários, funcionários e intelectuais se têm mostrado inapetentes e despreparados. Sabemos bem o que não queremos. Mas geralmente falhamos quando se trata de definir objetivos positivos realistas e desenvolver uma visão estratégica – ou seja, de longo prazo – para alcançá-los no contexto da complexa e cambiante realidade internacional.
É urgente superarmos essa dificuldade, até porque a realidade não oferece alternativas. “Diferentemente dos últimos setenta anos, o Brasil se posicionará num mundo em que os Estados Unidos (...) não constituem mais uma liderança inconteste em todas a áreas”, alertou a diplomata e economista Tatiana Rosito na mais recente publicação do Conselho Empresarial Brasil-China. “Preparamo-nos para uma era em que grande parte do poder econômico e político estará centrada em países sobre os quais nosso conhecimento, relações interpessoais e capacidade de mobilização e influência são relativamente escassos.” Poderíamos começar incentivando o estudo da China e do mandarim em nossas escolas e universidades, de modo a estimular e enraizar os laços entre as duas sociedades e torná-los menos dependentes dos governos. A porta parece aberta.
Maior compradora das exportações brasileiras há mais de uma década, a China diz-se pronta para ampliar a cooperação bilateral, a começar pelo combate à pandemia, não obstante as declarações sinofóbicas dos ministros das Relações Exteriores e da Educação e do padrinho de ambos no Planalto, o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente. Em entrevista recente a Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, reduziu os ataques a seu país a “ruídos” e salientou “as histórias comoventes de solidariedade e de ajuda mútua entre os dois povos”.
O desafio maior para o Brasil é se beneficiar de uma relação produtiva com a China sem se distanciar das nações do Ocidente, de que é parte e com o qual compartilha História, cultura e valores. Facilitará a tarefa o provável fracasso de Trump nas eleições de novembro, já visível nas pesquisas de opinião e implícito nas projeções de universidades e entidades oficiais sobre o número de mortos pelo vírus da pandemia nos próximos meses. Sem o distanciamento social, que começa a ser relaxado, dados do próprio governo indicam que os óbitos podem dobrar para 140 mil até o fim de julho e mais do que triplicar até o fim do ano.
JORNALISTA, É PESQUISADOR SENIOR DO BRAZIL INSTITUTE NO WILSON CENTER, EM WASHINGTON
A exploração política do Holocausto - MARCOS GUTERMAN
ESTADÃO - 30/05
Ao imitar Lula, Weintraub ofende a memória de quem padeceu sob o nazismo
O ministro da Educação, Abraham Weintraub, comparou a operação da Polícia Federal contra militantes bolsonaristas investigados em inquérito sobre fake news, na quarta-feira, dia 27, com a Noite dos Cristais – pogrom nazista contra os judeus na Alemanha em 1938, prenúncio do horror do Holocausto. Escreveu o ministro em suas redes sociais: “Hoje foi o dia da infâmia, vergonha nacional, e será lembrado como a Noite dos Cristais brasileira. Profanaram nossos lares e estão nos sufocando. Sabem o que a grande imprensa oligarca/socialista dirá? SIEG HEIL!”.
Na Noite dos Cristais (Kristallnacht, em alemão), entre os dias 9 e 10 de outubro de 1938, os camisas pardas nazistas lideraram uma alucinante razia contra sinagogas, lojas e residências de judeus. O nome faz referência às janelas e vitrines quebradas. Quase cem judeus foram assassinados e outros 30 mil foram mandados para campos de concentração naquela noite de selvageria. O pretexto do massacre foi o assassinato de um diplomata alemão em Paris, cometido por um judeu cuja família havia sido expulsa da Alemanha.
É evidente, portanto, que a analogia oferecida pelo ministro da Educação não tem cabimento, em nenhum sentido. Para começar, os policiais federais que agiram contra militantes bolsonaristas o fizeram respaldados em mandados judiciais, dentro do mais absoluto respeito à lei. Já os nazistas atuaram à sua maneira: como bárbaros estimulados pelo discurso de ódio contra os judeus, sem amparo em nenhuma lei, a não ser a da selva. Em segundo lugar, os policiais federais, diferentemente da turba hitlerista, não quebraram nada, não incendiaram templos, não prenderam ninguém de maneira arbitrária e, principalmente, não mataram ninguém. Por fim, mas não menos importante, os nazistas invocados pelo ministro Weintraub atacaram, com especial ferocidade, milhares de concidadãos inocentes, cujo único “crime” era serem judeus, enquanto a polícia federal agiu contra suspeitos de crimes reais.
São tantas as falhas no raciocínio do ministro Weintraub que, numa hipótese benevolente, é possível especular que ele talvez estivesse só de brincadeira – versão muito comum num governo em que altas autoridades proferem toda sorte de barbaridades num dia e, diante da natural repercussão negativa, dizem que foram “mal interpretados”. No caso do ministro Weintraub, contudo, aparentemente essa hipótese deve ser descartada, porque nos dias seguintes àquele tuíte ele não só confirmou a absurda analogia, como reiterou sua indignação.
Assim o ministro Weintraub se apropria da memória do Holocausto para fins políticos. Não é o primeiro a fazê-lo nem será o último, é claro. O massacre industrial de 6 milhões de judeus na 2.ª Guerra Mundial é evento de tal forma transcendental na História contemporânea, simbolizando o zênite do Mal, que o termo que popularmente o designa – Holocausto – passou a ser usado para qualificar qualquer situação de padecimento. Tornou-se, assim, poderosa arma retórica, para usos diversos, dos mais nobres aos mais cínicos.
Um exemplo curioso desse uso é uma campanha publicitária do grupo de defesa dos animais Peta (People for the Ethical Treatment of Animals) de 2004, intitulada Holocausto no seu prato. Os cartazes da campanha exibiam fotos de judeus prisioneiros de campos de concentração ao lado de imagens de animais em condições degradantes. E um desses cartazes, ao citar o número de mortos no Holocausto, denunciava que “o mesmo número de animais é morto a cada quatro horas para se tornar alimento apenas nos Estados Unidos”.
Duramente criticada, a Peta defendeu-se dizendo que a campanha havia sido criada por um de seus colaboradores judeus e paga por doadores judeus, um modo nada sutil de tentar legitimar a ofensa.
Não por acaso, o ministro Weintraub fez exatamente a mesma coisa. Criticado por fazer comparações esdrúxulas entre os militantes bolsonaristas e os judeus perseguidos pelos nazistas, ele invocou sua ancestralidade judaica e seu parentesco com sobreviventes de campos de concentração como uma espécie de salvo-conduto para subverter a memória do Holocausto em favor de seus correligionários encrencados com a Justiça, tentando conferir-lhes o status de vítimas indefesas de carrascos que os perseguem apenas por serem bolsonaristas. Nem original o ministro Weintraub foi: em 2015 o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva queixou-se de que estava “cansado do tipo de perseguição e criminalização que tentam fazer à esquerda deste país”, o que, para ele, “parece os nazistas criminalizando o povo judeu”.
Ao imitar o ex-presidente Lula, portanto, o ministro Weintraub ofende não apenas a inteligência alheia, mas principalmente a memória dos que padeceram sob o nazismo – inclusive a memória de seus avós sobreviventes de campos de concentração, que certamente sabiam muito bem que a Noite dos Cristais nada tem em comum com uma batida policial contra suspeitos de espalhar fake news.
Em resumo, é como se o Holocausto simplesmente não tivesse terminado – o massacre continua, agora na forma de uma monstruosa banalização.
JORNALISTA, HISTORIADOR, É AUTOR DO LIVRO ‘HOLOCAUSTO E MEMÓRIA’ (ED. CONTEXTO, 2020)
Ao imitar Lula, Weintraub ofende a memória de quem padeceu sob o nazismo
O ministro da Educação, Abraham Weintraub, comparou a operação da Polícia Federal contra militantes bolsonaristas investigados em inquérito sobre fake news, na quarta-feira, dia 27, com a Noite dos Cristais – pogrom nazista contra os judeus na Alemanha em 1938, prenúncio do horror do Holocausto. Escreveu o ministro em suas redes sociais: “Hoje foi o dia da infâmia, vergonha nacional, e será lembrado como a Noite dos Cristais brasileira. Profanaram nossos lares e estão nos sufocando. Sabem o que a grande imprensa oligarca/socialista dirá? SIEG HEIL!”.
Na Noite dos Cristais (Kristallnacht, em alemão), entre os dias 9 e 10 de outubro de 1938, os camisas pardas nazistas lideraram uma alucinante razia contra sinagogas, lojas e residências de judeus. O nome faz referência às janelas e vitrines quebradas. Quase cem judeus foram assassinados e outros 30 mil foram mandados para campos de concentração naquela noite de selvageria. O pretexto do massacre foi o assassinato de um diplomata alemão em Paris, cometido por um judeu cuja família havia sido expulsa da Alemanha.
É evidente, portanto, que a analogia oferecida pelo ministro da Educação não tem cabimento, em nenhum sentido. Para começar, os policiais federais que agiram contra militantes bolsonaristas o fizeram respaldados em mandados judiciais, dentro do mais absoluto respeito à lei. Já os nazistas atuaram à sua maneira: como bárbaros estimulados pelo discurso de ódio contra os judeus, sem amparo em nenhuma lei, a não ser a da selva. Em segundo lugar, os policiais federais, diferentemente da turba hitlerista, não quebraram nada, não incendiaram templos, não prenderam ninguém de maneira arbitrária e, principalmente, não mataram ninguém. Por fim, mas não menos importante, os nazistas invocados pelo ministro Weintraub atacaram, com especial ferocidade, milhares de concidadãos inocentes, cujo único “crime” era serem judeus, enquanto a polícia federal agiu contra suspeitos de crimes reais.
São tantas as falhas no raciocínio do ministro Weintraub que, numa hipótese benevolente, é possível especular que ele talvez estivesse só de brincadeira – versão muito comum num governo em que altas autoridades proferem toda sorte de barbaridades num dia e, diante da natural repercussão negativa, dizem que foram “mal interpretados”. No caso do ministro Weintraub, contudo, aparentemente essa hipótese deve ser descartada, porque nos dias seguintes àquele tuíte ele não só confirmou a absurda analogia, como reiterou sua indignação.
Assim o ministro Weintraub se apropria da memória do Holocausto para fins políticos. Não é o primeiro a fazê-lo nem será o último, é claro. O massacre industrial de 6 milhões de judeus na 2.ª Guerra Mundial é evento de tal forma transcendental na História contemporânea, simbolizando o zênite do Mal, que o termo que popularmente o designa – Holocausto – passou a ser usado para qualificar qualquer situação de padecimento. Tornou-se, assim, poderosa arma retórica, para usos diversos, dos mais nobres aos mais cínicos.
Um exemplo curioso desse uso é uma campanha publicitária do grupo de defesa dos animais Peta (People for the Ethical Treatment of Animals) de 2004, intitulada Holocausto no seu prato. Os cartazes da campanha exibiam fotos de judeus prisioneiros de campos de concentração ao lado de imagens de animais em condições degradantes. E um desses cartazes, ao citar o número de mortos no Holocausto, denunciava que “o mesmo número de animais é morto a cada quatro horas para se tornar alimento apenas nos Estados Unidos”.
Duramente criticada, a Peta defendeu-se dizendo que a campanha havia sido criada por um de seus colaboradores judeus e paga por doadores judeus, um modo nada sutil de tentar legitimar a ofensa.
Não por acaso, o ministro Weintraub fez exatamente a mesma coisa. Criticado por fazer comparações esdrúxulas entre os militantes bolsonaristas e os judeus perseguidos pelos nazistas, ele invocou sua ancestralidade judaica e seu parentesco com sobreviventes de campos de concentração como uma espécie de salvo-conduto para subverter a memória do Holocausto em favor de seus correligionários encrencados com a Justiça, tentando conferir-lhes o status de vítimas indefesas de carrascos que os perseguem apenas por serem bolsonaristas. Nem original o ministro Weintraub foi: em 2015 o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva queixou-se de que estava “cansado do tipo de perseguição e criminalização que tentam fazer à esquerda deste país”, o que, para ele, “parece os nazistas criminalizando o povo judeu”.
Ao imitar o ex-presidente Lula, portanto, o ministro Weintraub ofende não apenas a inteligência alheia, mas principalmente a memória dos que padeceram sob o nazismo – inclusive a memória de seus avós sobreviventes de campos de concentração, que certamente sabiam muito bem que a Noite dos Cristais nada tem em comum com uma batida policial contra suspeitos de espalhar fake news.
Em resumo, é como se o Holocausto simplesmente não tivesse terminado – o massacre continua, agora na forma de uma monstruosa banalização.
JORNALISTA, HISTORIADOR, É AUTOR DO LIVRO ‘HOLOCAUSTO E MEMÓRIA’ (ED. CONTEXTO, 2020)
Autocomplacência pandêmica - HÉLIO SCHWARTSMAN
Folha de S. Paulo - 30/05
Países muito mais pobres que o Brasil se saem bem melhor na pandemia
É claro que um país pobre, repleto de favelas e com uma população pouco instruída como é o Brasil não poderia ter se saído muito bem no enfrentamento da Covid-19. Há algo de autocomplacente nesse raciocínio.
É verdade que alguns fatores pesam contra nós. O alto índice de informalidade da economia dificulta manter as pessoas dentro de casa. Muita gente se vê compelida a sair para conseguir renda para alimentar os filhos, que ficaram sem a merenda escolar. A grande densidade demográfica das favelas e suas condições precárias transformam o isolamento de doentes em um experimento natural de contaminação dos familiares.
Não são dificuldades pequenas. O fato, contudo, é que países muito mais pobres que o Brasil estão se saindo bem melhor.
Um caso modelo é o do Vietnã. Com uma renda per capita que é menos de 1/3 da brasileira e pouca disponibilidade de leitos hospitalares, o país asiático foi capaz de identificar rapidamente os doentes e isolá-los. No dia 29 de maio, contava com apenas 327 casos e nenhuma morte. Sua receita foi fazer um “lockdown” forte logo no início e testar ostensivamente. O Vietnã desenvolveu seu próprio sistema de teste, que já exporta para outros países.
Mas o Vietnã é uma ditadura comunista e sua população é asiaticamente obediente, dirá o cínico. Verdade, mas alguns países da América Latina e da África, onde se temia uma catástrofe, também estão em melhor posição que nós, apesar de Estados fracos e populações indisciplinadas.
A pandemia é uma maratona, não uma corrida de 100 metros. Até que tudo tenha acabado, é preciso cuidado com as comparações entre países. Ademais, fatores difíceis de ponderar, incluindo o acaso, exercem grande influência. Mas acho que já dá para afirmar que o Brasil cometeu erros graves. Seria bom tentar entendê-los, para evitar que se perpetuem ao longo dos meses ou anos em que ainda teremos de conviver com o vírus.
Países muito mais pobres que o Brasil se saem bem melhor na pandemia
É claro que um país pobre, repleto de favelas e com uma população pouco instruída como é o Brasil não poderia ter se saído muito bem no enfrentamento da Covid-19. Há algo de autocomplacente nesse raciocínio.
É verdade que alguns fatores pesam contra nós. O alto índice de informalidade da economia dificulta manter as pessoas dentro de casa. Muita gente se vê compelida a sair para conseguir renda para alimentar os filhos, que ficaram sem a merenda escolar. A grande densidade demográfica das favelas e suas condições precárias transformam o isolamento de doentes em um experimento natural de contaminação dos familiares.
Não são dificuldades pequenas. O fato, contudo, é que países muito mais pobres que o Brasil estão se saindo bem melhor.
Um caso modelo é o do Vietnã. Com uma renda per capita que é menos de 1/3 da brasileira e pouca disponibilidade de leitos hospitalares, o país asiático foi capaz de identificar rapidamente os doentes e isolá-los. No dia 29 de maio, contava com apenas 327 casos e nenhuma morte. Sua receita foi fazer um “lockdown” forte logo no início e testar ostensivamente. O Vietnã desenvolveu seu próprio sistema de teste, que já exporta para outros países.
Mas o Vietnã é uma ditadura comunista e sua população é asiaticamente obediente, dirá o cínico. Verdade, mas alguns países da América Latina e da África, onde se temia uma catástrofe, também estão em melhor posição que nós, apesar de Estados fracos e populações indisciplinadas.
A pandemia é uma maratona, não uma corrida de 100 metros. Até que tudo tenha acabado, é preciso cuidado com as comparações entre países. Ademais, fatores difíceis de ponderar, incluindo o acaso, exercem grande influência. Mas acho que já dá para afirmar que o Brasil cometeu erros graves. Seria bom tentar entendê-los, para evitar que se perpetuem ao longo dos meses ou anos em que ainda teremos de conviver com o vírus.
O PIB do coronavírus - ADRIANA FERNANDES
O Estado de S.Paulo - 30/05
O ministro da Economia, Paulo Guedes parece ter exagerado nos argumentos de que a economia estava voando antes da economia
O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil nos três primeiros meses do ano, divulgado nesta sexta-feira, 29, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que a economia brasileira nem de longe estava “decolando” antes da pandemia do coronavírus.
Sem surpresas, o instituto informou que a economia brasileira encolheu 1,5% no primeiro trimestre de 2020 em comparação ao quarto trimestre do ano passado com cerca de um sexto do período afetado pelos efeitos da paralisação das atividades da pandemia no Brasil, a partir da segunda quinzena de março.
Como reconhece a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia, em documento divulgado nesta sexta-feira para comentar o PIB, a economia apresentava “sinais” de retomada, após dados fracos de atividade no último trimestre de 2019. Eram, portanto, sinais ainda não consolidados, com os meses de janeiro e fevereiro marcados por “bons” resultados nos indicadores de arrecadação, mercado de trabalho e atividade. Nada excepcional a comemorar.
O ponto mais negativo foi a queda do consumo das famílias de 2% em relação ao quarto trimestre do ano passado – a primeira diminuição desde o último trimestre de 2016 e a maior retração desde 2001. Do lado positivo, a alta de 3,1% dos investimentos (FBCF), explicado pela SPE pela melhora que ocorreu nos meses de janeiro e fevereiro deste ano.
O ministro da Economia, Paulo Guedes, parece ter exagerado nos argumentos de que a economia estava voando antes da economia. Consumo estava melhorando, e com queda de juros, parecia que ia continuar nessa toada positiva. Mas a economia ainda não tinha decolado da forma como o ministro fala. Muitos entraves a serem resolvidos e dificuldades da equipe econômica em emplacar a sua agenda depois da reforma da Previdência.
Por praxe, ministros da economia têm que ser otimistas. Vender bem o seu peixe. No caso de Guedes, há também outra explicação. O desempenho fraco da atividade no último trimestre do ano passado já havia colocado pressão do Palácio do Planalto para a equipe de Guedes mostrar resultados.
Retomada lenta incomodava o presidente e o seu círculo de auxiliares mais próximos. A pandemia só amplificou esse debate, como já mostrado no episódio da disputa em torno do programa Pró-Brasil, para ampliar o investimento público em infraestrutura.
Quadro que tende a piorar com o impacto da pandemia mais forte no mercado de trabalho, diante do fracasso, em alguns casos, e da demora das linhas de crédito de socorro para as empresas.
Tudo isso deve acentuar a tensão entre Bolsonaro e governadores por reabertura mais rápida da economia, como já está acontecendo em muitos Estados. Mal feita, essa abertura pode atrasar ainda mais a recuperação da economia depois do tombo assustador do PIB que está contratado e por vir.
Guedes tem dito que a economia vai crescer em “V” depois da pandemia e que gosta da imagem do pássaro ferido, que quer começar a voar e precisa das duas asas de novo. Vai precisar muito mais que palavras estimulativas desse tipo para coordenar o processo de recuperação com a responsabilidade que o cargo impõe.
O ministro da Economia, Paulo Guedes parece ter exagerado nos argumentos de que a economia estava voando antes da economia
O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil nos três primeiros meses do ano, divulgado nesta sexta-feira, 29, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que a economia brasileira nem de longe estava “decolando” antes da pandemia do coronavírus.
Sem surpresas, o instituto informou que a economia brasileira encolheu 1,5% no primeiro trimestre de 2020 em comparação ao quarto trimestre do ano passado com cerca de um sexto do período afetado pelos efeitos da paralisação das atividades da pandemia no Brasil, a partir da segunda quinzena de março.
Como reconhece a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia, em documento divulgado nesta sexta-feira para comentar o PIB, a economia apresentava “sinais” de retomada, após dados fracos de atividade no último trimestre de 2019. Eram, portanto, sinais ainda não consolidados, com os meses de janeiro e fevereiro marcados por “bons” resultados nos indicadores de arrecadação, mercado de trabalho e atividade. Nada excepcional a comemorar.
O ponto mais negativo foi a queda do consumo das famílias de 2% em relação ao quarto trimestre do ano passado – a primeira diminuição desde o último trimestre de 2016 e a maior retração desde 2001. Do lado positivo, a alta de 3,1% dos investimentos (FBCF), explicado pela SPE pela melhora que ocorreu nos meses de janeiro e fevereiro deste ano.
O ministro da Economia, Paulo Guedes, parece ter exagerado nos argumentos de que a economia estava voando antes da economia. Consumo estava melhorando, e com queda de juros, parecia que ia continuar nessa toada positiva. Mas a economia ainda não tinha decolado da forma como o ministro fala. Muitos entraves a serem resolvidos e dificuldades da equipe econômica em emplacar a sua agenda depois da reforma da Previdência.
Por praxe, ministros da economia têm que ser otimistas. Vender bem o seu peixe. No caso de Guedes, há também outra explicação. O desempenho fraco da atividade no último trimestre do ano passado já havia colocado pressão do Palácio do Planalto para a equipe de Guedes mostrar resultados.
Retomada lenta incomodava o presidente e o seu círculo de auxiliares mais próximos. A pandemia só amplificou esse debate, como já mostrado no episódio da disputa em torno do programa Pró-Brasil, para ampliar o investimento público em infraestrutura.
Quadro que tende a piorar com o impacto da pandemia mais forte no mercado de trabalho, diante do fracasso, em alguns casos, e da demora das linhas de crédito de socorro para as empresas.
Tudo isso deve acentuar a tensão entre Bolsonaro e governadores por reabertura mais rápida da economia, como já está acontecendo em muitos Estados. Mal feita, essa abertura pode atrasar ainda mais a recuperação da economia depois do tombo assustador do PIB que está contratado e por vir.
Guedes tem dito que a economia vai crescer em “V” depois da pandemia e que gosta da imagem do pássaro ferido, que quer começar a voar e precisa das duas asas de novo. Vai precisar muito mais que palavras estimulativas desse tipo para coordenar o processo de recuperação com a responsabilidade que o cargo impõe.
A mentira escancarada - ALVARO COSTA E SILVA
Folha de S. Paulo - 30/05
Cinismo considera 'liberdade de expressão' o gabinete do ódio instalado dentro do governo
Ao longo de 50 anos de jornalismo, 30 deles atuando como comentarista político, Carlos Castelo Branco, o Castelinho, enfrentou duas ditaduras —a de Vargas e a dos militares— e nunca ouviu do presidente da República, mesmo que este fosse um general de maus bofes, gritos de “Cala a boca!” e “Acabou, porra!”. Em compensação, em mais de 8.000 colunas publicadas no Jornal do Brasil, ele jamais tratou de Bolsonaro. Ô sorte!
O centenário de nascimento de Castelinho, no dia 25 de junho, coincide com mais uma grave crise institucional no país, que envolve diretamente a imprensa. Não é novidade que déspotas agem para controlar a mídia. Quando não conseguem, espumam de ódio e usam todo tipo de método para alcançar seu objetivo: intimidação, censura, estrangulamento financeiro, prisão e até assassinato.
A morte do filho de Castelinho, Rodrigo, num acidente de carro em Brasília, em 1976, gerou no jornalista a desconfiança de que o desastre fora premeditado pelo Serviço Nacional de Informações, um aviso e uma vingança contra seus artigos de opinião.
A mentira —que no Brasil dos macaqueadores de Trump foi rebatizada de fake news— é outra poderosa arma de controle. O cinismo atual considera “liberdade de expressão” o funcionamento, dentro do Palácio do Planalto, de um bunker digital, comandado pelo filho do presidente, Carlos Bolsonaro, e financiado por empresários e pelo próprio governo —o qual se especializou em produzir e espalhar ameaças, ofensas e calúnias contra políticos, autoridades, jornalistas, artistas e ministros do STF.
Nos mais duros períodos do regime militar, Castelinho não tinha liberdade de expressão. “Procuro dizer as coisas que estão proibidas de maneira que eu as possa dizer”, ensinava ele. A verdade era lida nas entrelinhas de seus textos. Ao contrário de hoje, quando a mentira é escancarada com todas as letras.
Cinismo considera 'liberdade de expressão' o gabinete do ódio instalado dentro do governo
Ao longo de 50 anos de jornalismo, 30 deles atuando como comentarista político, Carlos Castelo Branco, o Castelinho, enfrentou duas ditaduras —a de Vargas e a dos militares— e nunca ouviu do presidente da República, mesmo que este fosse um general de maus bofes, gritos de “Cala a boca!” e “Acabou, porra!”. Em compensação, em mais de 8.000 colunas publicadas no Jornal do Brasil, ele jamais tratou de Bolsonaro. Ô sorte!
O centenário de nascimento de Castelinho, no dia 25 de junho, coincide com mais uma grave crise institucional no país, que envolve diretamente a imprensa. Não é novidade que déspotas agem para controlar a mídia. Quando não conseguem, espumam de ódio e usam todo tipo de método para alcançar seu objetivo: intimidação, censura, estrangulamento financeiro, prisão e até assassinato.
A morte do filho de Castelinho, Rodrigo, num acidente de carro em Brasília, em 1976, gerou no jornalista a desconfiança de que o desastre fora premeditado pelo Serviço Nacional de Informações, um aviso e uma vingança contra seus artigos de opinião.
A mentira —que no Brasil dos macaqueadores de Trump foi rebatizada de fake news— é outra poderosa arma de controle. O cinismo atual considera “liberdade de expressão” o funcionamento, dentro do Palácio do Planalto, de um bunker digital, comandado pelo filho do presidente, Carlos Bolsonaro, e financiado por empresários e pelo próprio governo —o qual se especializou em produzir e espalhar ameaças, ofensas e calúnias contra políticos, autoridades, jornalistas, artistas e ministros do STF.
Nos mais duros períodos do regime militar, Castelinho não tinha liberdade de expressão. “Procuro dizer as coisas que estão proibidas de maneira que eu as possa dizer”, ensinava ele. A verdade era lida nas entrelinhas de seus textos. Ao contrário de hoje, quando a mentira é escancarada com todas as letras.
Governo Bolsonaro é de minoria - EDITORIAL O GLOBO
O Globo - 30/05
Eleito com 39% dos votos totais, presidente perde apoio, entre outros fatores, pela epidemia
Carregado em saguões de aeroportos por militantes que o recepcionavam com gritos de “mito”, o pré-candidato Jair Bolsonaro parecia ser mais um desses exóticos concorrentes ao Planalto. Mas ganhou o segundo turno em 2018, com a ajuda da rejeição ao PT e da incapacidade do centro, à direita e à esquerda, de encontrar um nome que enfrentasse um populismo de extrema direita que também avançava em outros países.
Um ano e cinco meses de poder depois, Bolsonaro continua sendo apoiado por aqueles fanáticos que o carregavam nos ombros, e que estão no grupo de um terço do eleitorado que se mantém fiel ao presidente, apesar de todas as crises.
Pesquisa do Datafolha apurada na segunda e terça-feira, publicada ontem na “Folha de S. Paulo”, tem leitura pró-Bolsonaro e contra. A favorável chama a atenção para a solidez deste apoio de 33%, já verificada na sondagem anterior; a preocupante para o bolsonarismo é que o seu presidente, com 43% de avaliação negativa, já é o inquilino do Planalto mais mal avaliado desde a redemocratização, com um ano e meio de governo — entre Collor, Fernando Henrique, Lula e Dilma.
Nada impede que se recupere. Mas a radicalização e os modos fora de padrão de Bolsonaro não parecem ser o melhor caminho. A pesquisa foi feita depois da divulgação do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, cuja trilha sonora está pontilhada de palavrões e gritos do presidente.
Há uma correlação direta entre a piora na avaliação presidencial e aquelas cenas. Dos entrevistados, 55% assistiram ao vídeo, e destes, 53% consideraram “ruim ou péssimo” o governo, dez pontos percentuais acima do resultado geral da sondagem.
Outro resultado negativo para Bolsonaro é sua atuação na epidemia. O número crescente de vítimas tem tido um apelo mais forte para a população do que a pregação bolsonarista contra medidas preventivas — ontem, ao alcançar 27.878 mortos pela Covid-19, o Brasil ultrapassou a Espanha e passou a ser o quinto país do mundo com mais mortos na pandemia.
Com estes 33% de apoio firme, pelo menos até agora, o bolsonarismo curiosamente repete o lulopetismo, que nos piores momentos das revelações de suas traficâncias na corrupção mantinha um terço do eleitorado fiel. Coincidências entre pontos extremos do campo ideológico.
O bolsonarismo, que chegou ao Planalto com votos das faixas mais abonadas da população, começa a ser um pouco mais bem-visto entre os de renda baixa, ajudado pelo abono de emergência. Mas nada significante. A ver se o governo tentará fazer do auxílio, guardadas as diferenças, o que o Bolsa Família é para o lulopetismo desde sua criação. Seria fiscalmente desastroso.
Neste ano e meio de governo, Bolsonaro se firma como governo de uma minoria. Se formos levar em conta os números totais da eleição de 2018, considerando os votos brancos, nulos e abstenções, o presidente foi eleito com 39,3% dos votos totais. Mas 55,1% dos válidos, e ganhou a faixa presidencial.
Eleito com 39% dos votos totais, presidente perde apoio, entre outros fatores, pela epidemia
Carregado em saguões de aeroportos por militantes que o recepcionavam com gritos de “mito”, o pré-candidato Jair Bolsonaro parecia ser mais um desses exóticos concorrentes ao Planalto. Mas ganhou o segundo turno em 2018, com a ajuda da rejeição ao PT e da incapacidade do centro, à direita e à esquerda, de encontrar um nome que enfrentasse um populismo de extrema direita que também avançava em outros países.
Um ano e cinco meses de poder depois, Bolsonaro continua sendo apoiado por aqueles fanáticos que o carregavam nos ombros, e que estão no grupo de um terço do eleitorado que se mantém fiel ao presidente, apesar de todas as crises.
Pesquisa do Datafolha apurada na segunda e terça-feira, publicada ontem na “Folha de S. Paulo”, tem leitura pró-Bolsonaro e contra. A favorável chama a atenção para a solidez deste apoio de 33%, já verificada na sondagem anterior; a preocupante para o bolsonarismo é que o seu presidente, com 43% de avaliação negativa, já é o inquilino do Planalto mais mal avaliado desde a redemocratização, com um ano e meio de governo — entre Collor, Fernando Henrique, Lula e Dilma.
Nada impede que se recupere. Mas a radicalização e os modos fora de padrão de Bolsonaro não parecem ser o melhor caminho. A pesquisa foi feita depois da divulgação do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, cuja trilha sonora está pontilhada de palavrões e gritos do presidente.
Há uma correlação direta entre a piora na avaliação presidencial e aquelas cenas. Dos entrevistados, 55% assistiram ao vídeo, e destes, 53% consideraram “ruim ou péssimo” o governo, dez pontos percentuais acima do resultado geral da sondagem.
Outro resultado negativo para Bolsonaro é sua atuação na epidemia. O número crescente de vítimas tem tido um apelo mais forte para a população do que a pregação bolsonarista contra medidas preventivas — ontem, ao alcançar 27.878 mortos pela Covid-19, o Brasil ultrapassou a Espanha e passou a ser o quinto país do mundo com mais mortos na pandemia.
Com estes 33% de apoio firme, pelo menos até agora, o bolsonarismo curiosamente repete o lulopetismo, que nos piores momentos das revelações de suas traficâncias na corrupção mantinha um terço do eleitorado fiel. Coincidências entre pontos extremos do campo ideológico.
O bolsonarismo, que chegou ao Planalto com votos das faixas mais abonadas da população, começa a ser um pouco mais bem-visto entre os de renda baixa, ajudado pelo abono de emergência. Mas nada significante. A ver se o governo tentará fazer do auxílio, guardadas as diferenças, o que o Bolsa Família é para o lulopetismo desde sua criação. Seria fiscalmente desastroso.
Neste ano e meio de governo, Bolsonaro se firma como governo de uma minoria. Se formos levar em conta os números totais da eleição de 2018, considerando os votos brancos, nulos e abstenções, o presidente foi eleito com 39,3% dos votos totais. Mas 55,1% dos válidos, e ganhou a faixa presidencial.
Precisamos conversar sobre o Parlamentarismo - MARCUS PESTANA
O TEMPO - MG - 30/05
A história republicana brasileira, e já se vão 130 anos da Proclamação da República, não foi propriamente um céu de brigadeiro ou um mar de almirante em termos de estabilidade política e institucional. Assemelha-se mais a uma montanha russa.
Já no nascedouro a República foi marcada por uma confusa ruptura com a monarquia, a partir da ação das Forças Armadas. Em 1930, tivemos outra quebra da ordem constitucional, após a dissolução do pacto de governabilidade da República Velha e do seu pilar, a famosa política do café com leite. Getúlio Vargas, liderando uma aliança com Minas Gerais e o Nordeste brasileiro, instalou a República Nova e o Governo Provisório. Pressionado pela Revolução Constitucionalista de 1932, capitaneada por São Paulo, foi obrigado a convocar uma Assembleia Constituinte que gerou a Constituição de 1934, de curta vida. Em 1937, aproveitando a instabilidade provocada pelas movimentações integralistas e pela Intentona Comunista de 1935, tendo como biombo o fantasioso Plano Cohen, Getúlio dá um golpe institucional, fecha o Congresso e outorga a quarta Constituição do Brasil, a terceira da República, conhecida como a Polaca, em 10 de novembro de 1937. Mais uma vez, as Forças Armadas tiveram papel preponderante. Contemporâneos a esses acontecimentos avaliam que o golpe viria com ou sem Getúlio. A nova ordem do Estado Novo era baseada em forte centralização do poder na União, nacionalismo, intervencionismo estatal e anticomunismo. Durou até 1945, quando a vitória dos aliados na Segunda Grande Guerra impôs a volta à democracia.
De 1946 em diante, tivemos também grande instabilidade política com o suicídio de Vargas em 1954, as conspirações contra JK, a renúncia de Jânio Quadros em 1961, a frustrada experiência parlamentarista de 1962, a radicalização extrema no governo João Goulart e como consequência o golpe militar de 1964, os Atos Institucionais e a nova Constituição de janeiro de 1967, interrompendo a experiência democrática anterior e que persistiria até 1985.
A luta democrática dos anos de 1970 desencadeou as históricas campanhas pela Anistia e das Diretas-Já que pavimentaram o caminho para a vitória de Tancredo Neves contra Paulo Maluf no Colégio Eleitoral em 1985 e a fundação da Nova República com a sua Constituição de 1988. Mesmo este ciclo político foi marcado por momentos tensos como os dois processos de impedimento dos Presidentes eleitos Fernando Collor (1992) e Dilma Rousseff (2016). A eleição disruptiva de 2018 representou o fim do ciclo da Nova República e cristalizou o desgaste extremo de todas as forças políticas tradicionais.
O novo governo liderado pelo Presidente Jair Bolsonaro abriu mão do chamado “presidencialismo de coalizão” e de construir maioria parlamentar estável. Na sociedade e no novo palco de disputa política, as redes sociais, nunca houve, desde 1985, um ambiente tão polarizado e radicalizado.
Este longo, mas superficial, mergulho na história política brasileira é somente para jogar luzes na preocupação de que como diria Otávio Mangabeira “A democracia é uma planta tenra, a gente tem que cuidar todo dia”. A liberdade é talvez o maior sonho do ser humano e a democracia, o melhor caminho para definirmos os destinos do país e do mundo.
Neste sentido, precisamos interromper rapidamente a atual “marcha da insensatez”. O governo e sua base de apoio político e social promovem uma polarização intensa e radical contra o Congresso Nacional e o STF. O STF, apoiado pelo Ministério Público Federal e a Polícia Federal, empreende uma série de ações e inquéritos, cumprindo suas funções institucionais, que afetam importantes atores políticos da República. A imprensa, cumprindo seu papel social, em uníssono defende diariamente a democracia e aponta os riscos envolvidos. O Congresso Nacional, surpreendentemente, por ser uma casa mais quente e fragmentada, tem desempenhado o papel de mediador de conflitos e poder moderador, mas abriga a natural polarização política, já que é a caixa de ressonância da sociedade. As Forças Armadas reiteram seu compromisso com a Constituição, mas algumas lideranças delas egressas jogam lenha na fogueira da crise. Onde vamos parar? Haverá luz no final do túnel?
O desenrolar dos fatos aponta para um inevitável impasse. Seria lamentável que isso ocorresse. Enfrentamos uma brutal e surpreendente crise sanitária com a pandemia do coronavírus e seus efeitos colaterais agressivos no desempenho da economia. Imaginem um impasse político de difícil solução com pessoas morrendo nos hospitais, desemprego chegando a 20 milhões de brasileiros, queda substantiva de renda daqueles que vivem à margem do mercado formal de trabalho, quebra de milhares de empresas e crise fiscal do setor público nos três níveis agravada pela pandemia? Caminharemos para uma encruzilhada onde apenas quatro cenários possíveis e dramáticos se colocam: o golpe institucional a partir do Palácio do Planalto, rompendo com a Constituição e a democracia, o impeachment pelo Congresso, o afastamento do Presidente pela via judicial ou a alternativa de empurrar com a barriga por dois anos e meio até 2022, com crises diárias e interrupção do processo de reformas estruturais e de ajuste fiscal e da retomada do crescimento econômico?
Não, este não é o caminho! Apostar no impasse é uma irresponsabilidade com o país e com a democracia brasileira. Podemos viver uma crise de hegemonia de repercussões imprevisíveis com instituições e sociedade divididas, sem um rumo claro para a superação do impasse político e institucional.
Em boa hora, aconteceram o importante discurso do Presidente da Câmara, Rodrigo Maia, onde conclamou pela união de esforços e pediu serenidade e diálogo a todas as lideranças das instituições republicanas, e a iniciativa do Presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre, de procurar o Presidente da República, Jair Bolsonaro, na última quinta-feira, para pedir cautela. O Congresso Nacional, muitas vezes tão injustiçado nas redes sociais e na opinião pública, está tendo um comportamento exemplar na difícil quadra histórica em que mergulhamos.
No longo prazo, sem interferir nos direitos políticos adquiridos de curto prazo, de forma institucional, impessoal e suprapartidário, temos que dialogar sobre o parlamentarismo. No meu ponto de vista, o presidencialismo brasileiro se esgotou. Claro que a alternativa parlamentarista teria que ter adesão da sociedade, uma prévia reforma política e o fortalecimento do funcionamento da burocracia de Estado, no sentido weberiano, assegurando estabilidade permanente e profissionalizada às políticas públicas.
No presidencialismo americano o debate e os impasses envolvem apenas dois partidos, republicanos e democratas, garantindo a funcionalidade do sistema e as condições mínimas de governalibidade. Aqui temos hoje vinte e quatro partidos presentes no Congresso Nacional e na atual configuração os termos maioria e minoria perderam o sentido. Não há estabilidade política possível e nem responsabilização inequívoca de papéis para permitir o avanço de qualquer agenda governamental.
O parlamentarismo é muito mais ágil e flexível para administrar suas crises. Nele, há clara formação de maioria e minoria, com responsabilidades e papéis muito bem definidos. Aqui, somos escravos da rigidez dos mandatos e diante de impasses caminhamos logo para a traumática via do impeachment.
Na Itália, a desestabilização do gabinete introduzida por ousada e atrapalhada ação da extrema-direita de Matteo Salvini e sua Liga do Norte, foi respondida pela improvável aliança do Movimento 5 Estrelas com o Partido Democrático. Na falta de maioria parlamentar em Portugal, foi configurada a chamada Geringonça Portuguesa, alinhando o Partido Socialista, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, que se saiu muito bem no governo.
Na Espanha, depois de várias eleições, a solução para a governabilidade teve o Partido Socialista Operário Espanhol como pêndulo entre Ciudadanos e Podemos, formando, ao final, maioria para governar em torno de Pedro Sánchez. Na Alemanha, Angela Merkel, com sua experiência e autoridade política, governa com maioria no Bundestag, embora as próximas eleições reservem perspectivas nebulosas, se Merkel realmente sair de cena. Na França, Emmanuel Macron formou ampla maioria no parlamento francês nas últimas eleições. Lá também as próximas eleições reservam emoções fortes. Mas o parlamentarismo é muito mais eficiente para resolver os impasses de hegemonia e governabilidade.
Enfim, no Brasil, temos que evitar o impasse político de curto prazo em situação de aguda crise sanitária e econômica, e cuidar de nossa tenra planta, a democracia brasileira. E no momento próprio, instalar um amplo debate no Congresso e na sociedade, em torno da alternativa parlamentarista.
Fora isto, teremos uma perspectiva caótica, sombria e perigosa.
Não repara a bagunça - DEMÉTRIO MAGNOLI
Folha de S. Paulo - 30/05
Nossa epidemia seguirá crepitando, enquanto o mundo vira uma página
Na bandeira, substitua-se o lema positivista “Ordem e Progresso” por “Não repara a bagunça”, a inevitável saudação brasileira às visitas, escrita assim mesmo, do jeito bagunçado que as pessoas falam. A sugestão irônica, triste e afetuosa, circulava entre nós, nos tempos de faculdade. Hoje, 40 anos depois, a crise do coronavírus revela sua atualidade.
Um presidente negacionista decidiu que a Covid é “uma gripezinha”, recusou-se a organizar o respaldo econômico à emergência sanitária, fechou o Ministério da Saúde, engajou-se em atos de sabotagem das regras de distanciamento social.
O STF reagiu transformando o país numa confederação de 27 entidades territoriais mais ou menos independentes. Na ausência de coordenação nacional, governadores, prefeitos e até juízes intrometidos costuraram uma colcha de retalhos de medidas sanitárias incongruentes.
A bagunça esvaziou menos as ruas que o sentido das palavras. Do Maranhão ao Ceará, quarentenas parciais ganharam o nome de “lockdown”.
O governo paulista anunciou uma “quarentena inteligente”, confessando involuntariamente que experimentamos dez semanas de quarentena burra. Na etapa da burrice, fechou-se às pressas a economia de centenas de cidades do interior quase livres da epidemia. Na da inteligência, essas áreas serão desconfinadas, justamente na hora da chegada do vírus.
A bagunça é, às vezes, cálculo eleitoral. O prefeito paulistano, um administrador que executa antes para depois planejar, o gênio de bloqueios viários e megarrodízios, clamou por um “lockdown” imposto pelo governador, sobre quem recairia o peso do fracasso, antes de girar 180 graus, temendo a paralisação de obras de apelo eleitoral.
Na capital paulista, ninguém pode andar em parques, atividade saudável e segura, mas todos já podem visitar os shoppings. No Rio, cidade que declina sem elegância, as praias continuam proibidas, mas o prefeito puro e santo excetuou as igrejas, permitindo aglomerações nos templos. Há jornalistas que culpam o povo pela dissolução das quarentenas.
Às vezes, a bagunça é método. No estado do Rio, sob um governador-juiz que prega a eliminação extrajudicial de suspeitos, a corrupção adaptou-se celeremente ao cenário epidemiológico. Seguindo a clássica receita de autoajuda dos investidores, de converter crises em oportunidades, firmaram-se contratos fraudulentos para a construção de hospitais de campanha.
Saúde antes de tudo. O extinto Ministério da Saúde, reduzido à condição de acampamento militar, foi colonizado por curandeiros charlatães. Curvado às ordens presidenciais, ele recomenda o uso indiscriminado da cloroquina em pacientes de Covid, contrariando as conclusões de investigações científicas abrangentes. Às vezes, a bagunça é crime.
Não damos sopa para o azar. Os países europeus, bagunceiros, só exigem o uso de máscara em lugares fechados. No Brasil, somos ordeiros, rígidos, implacáveis: a Câmara estendeu a obrigação aos espaços abertos. Obedientes, as pessoas percorrem as calçadas com o apetrecho na testa ou no pescoço, manuseando-o irrestritamente, enquanto as máscaras dos motoqueiros se cobrem de películas de fuligem. Fazemos leis para chinês ver.
Nunca relaxamos. O fechamento geral de escolas é medida de eficácia improvável no combate ao coronavírus, concluiu um estudo publicado pela Lancet, revista médica de referência.
Na Europa, a reabertura escolar figura entre as medidas pioneiras da flexibilização, pois a longa interrupção atinge devastadoramente famílias e alunos pobres. Mas, por aqui, isso foi relegado ao epílogo do cronograma das autoridades. “Vire-se, povinho!” —eis a mensagem de governantes tementes a Deus ou à “Ciência”.
Nossa epidemia seguirá crepitando, enquanto o mundo vira uma página. Temos tempo para substituir o lema que atravessa a esfera azul celeste da bandeira tão amada.
Nossa epidemia seguirá crepitando, enquanto o mundo vira uma página
Na bandeira, substitua-se o lema positivista “Ordem e Progresso” por “Não repara a bagunça”, a inevitável saudação brasileira às visitas, escrita assim mesmo, do jeito bagunçado que as pessoas falam. A sugestão irônica, triste e afetuosa, circulava entre nós, nos tempos de faculdade. Hoje, 40 anos depois, a crise do coronavírus revela sua atualidade.
Um presidente negacionista decidiu que a Covid é “uma gripezinha”, recusou-se a organizar o respaldo econômico à emergência sanitária, fechou o Ministério da Saúde, engajou-se em atos de sabotagem das regras de distanciamento social.
O STF reagiu transformando o país numa confederação de 27 entidades territoriais mais ou menos independentes. Na ausência de coordenação nacional, governadores, prefeitos e até juízes intrometidos costuraram uma colcha de retalhos de medidas sanitárias incongruentes.
A bagunça esvaziou menos as ruas que o sentido das palavras. Do Maranhão ao Ceará, quarentenas parciais ganharam o nome de “lockdown”.
O governo paulista anunciou uma “quarentena inteligente”, confessando involuntariamente que experimentamos dez semanas de quarentena burra. Na etapa da burrice, fechou-se às pressas a economia de centenas de cidades do interior quase livres da epidemia. Na da inteligência, essas áreas serão desconfinadas, justamente na hora da chegada do vírus.
A bagunça é, às vezes, cálculo eleitoral. O prefeito paulistano, um administrador que executa antes para depois planejar, o gênio de bloqueios viários e megarrodízios, clamou por um “lockdown” imposto pelo governador, sobre quem recairia o peso do fracasso, antes de girar 180 graus, temendo a paralisação de obras de apelo eleitoral.
Na capital paulista, ninguém pode andar em parques, atividade saudável e segura, mas todos já podem visitar os shoppings. No Rio, cidade que declina sem elegância, as praias continuam proibidas, mas o prefeito puro e santo excetuou as igrejas, permitindo aglomerações nos templos. Há jornalistas que culpam o povo pela dissolução das quarentenas.
Às vezes, a bagunça é método. No estado do Rio, sob um governador-juiz que prega a eliminação extrajudicial de suspeitos, a corrupção adaptou-se celeremente ao cenário epidemiológico. Seguindo a clássica receita de autoajuda dos investidores, de converter crises em oportunidades, firmaram-se contratos fraudulentos para a construção de hospitais de campanha.
Saúde antes de tudo. O extinto Ministério da Saúde, reduzido à condição de acampamento militar, foi colonizado por curandeiros charlatães. Curvado às ordens presidenciais, ele recomenda o uso indiscriminado da cloroquina em pacientes de Covid, contrariando as conclusões de investigações científicas abrangentes. Às vezes, a bagunça é crime.
Não damos sopa para o azar. Os países europeus, bagunceiros, só exigem o uso de máscara em lugares fechados. No Brasil, somos ordeiros, rígidos, implacáveis: a Câmara estendeu a obrigação aos espaços abertos. Obedientes, as pessoas percorrem as calçadas com o apetrecho na testa ou no pescoço, manuseando-o irrestritamente, enquanto as máscaras dos motoqueiros se cobrem de películas de fuligem. Fazemos leis para chinês ver.
Nunca relaxamos. O fechamento geral de escolas é medida de eficácia improvável no combate ao coronavírus, concluiu um estudo publicado pela Lancet, revista médica de referência.
Na Europa, a reabertura escolar figura entre as medidas pioneiras da flexibilização, pois a longa interrupção atinge devastadoramente famílias e alunos pobres. Mas, por aqui, isso foi relegado ao epílogo do cronograma das autoridades. “Vire-se, povinho!” —eis a mensagem de governantes tementes a Deus ou à “Ciência”.
Nossa epidemia seguirá crepitando, enquanto o mundo vira uma página. Temos tempo para substituir o lema que atravessa a esfera azul celeste da bandeira tão amada.
A agonia do governo Bolsonaro - MARCO ANTONIO VILLA
Revista IstoÉ
O mercado financeiro tolerava Bolsonaro, era considerado boquirroto, tosco, ignorante
A escalada bolsonorista contra o Estado Democrático de Direito continua de vento em popa. Desde 1º de janeiro de 2019, Jair Bolsonaro age frontalmente contra as instituições. É o cavaleiro das trevas do reacionarismo. O autoritarismo explícito, a falta de decoro, o uso de instituições de Estado como instrumentos da sua vontade, tudo era relevado. Afinal, o importante seria o programa econômico e as reformas estruturantes repetidas ad nauseam pelos porta-vozes do mercado.
Era o que interessava. Seria o preço a ser pago pela reestruturação do processo de acumulação capitalista. Já que os partidos tradicionais tinham dificuldade de empolgar o eleitorado, desgostoso com os escândalos sucessivos de corrupção, restou ao grande capital apoiar um desconhecido, meio exótico para os padrões da Faria Lima, mas que parecia amestrado no campo econômico. O mercado não via em Bolsonaro alguém com um projeto próprio de poder. Era encarado como um boquirroto, tosco, ignorante.
Mas a chegada do coronavirus mudou este quadro. Mesmo sem oposição de fato, e graças à ação desastrada e desumana, Bolsonaro acabou se transformando mundialmente no símbolo maior da incompetência no enfrentamento do covid-19, inclusive colocando em risco as bases da economia brasileira e, por sua vez, prejudicando o mercado. Não há especulador que resista a uma recessão de -7%/-8% e a possibilidade de um lustro de crescimento medíocre derrubando a renda per capita e o índice de desenvolvimento humano. Isto porque a somatória da piora sucessiva da distribuição de renda com o aumento da miséria pode se transformar, em curto prazo, em combustão para uma explosão social em escala nunca vista no Brasil.
A fuga de capitais é uma demonstração inequívoca que o grande capital internacional já abandonou qualquer manifestação de apoio, mesmo discreto, ao governo. Internamente, as frações mais modernas do capitalismo nacional detectaram que o futuro econômico do país — e de seus negócios — está seriamente comprometido. Constatou que não há mais uma política econômica, uma ação coordenada pelo ministério da Economia e suas secretarias. Viu que em meio a pandemia o que sobrou foi um governo lutando para se manter a todo custo no poder. E que sonha com o rompimento da institucionalidade, isolando ainda mais o país da comunidade internacional. Começou a contagem regressiva para o fim do governo Bolsonaro. Mas sem ação política, a agonia pode ser longa.
E daí? - MERVAL PEREIRA
O Globo - 30/05
A proximidade excessiva, quase obscena, de Aras com o presidente Bolsonaro traz o descrédito ao corpo de procuradores
O procurador-geral da República, Augusto Aras, não consegue nem mesmo entrar no elevador cheio na sede de Brasília da instituição que preside, tamanho o desconforto que está provocando entre seus pares.
A proximidade excessiva, quase obscena, com o presidente Bolsonaro, a quem cabe a Aras julgar no caso da interferência na Polícia Federal, traz o descrédito ao corpo de procuradores. Não é por acaso que surgiu o abaixo-assinado, com assinaturas de mais da metade dos componentes do Ministério Público, para tornar lei a praxe de o presidente da República ter que escolher de uma lista tríplice o ocupante do cargo.
Aras colocou-se à margem da corporação, não participando da disputa, atitude que agradou a Bolsonaro. Mesmo assim, a revolta interna o atinge, a ponto de ter havido uma reação branca dos procuradores, que se recusaram a ajudá-lo a escrever a manifestação da PGR contra o inquérito das fake news.
Em Brasília, já há quem o chame de procurador-geral do Bolsonaro. Ou quem diga que o governo tem hoje três pessoas exercendo o cargo de advogado-geral da União: o próprio, José Levi, o atual ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça, e o procurador-geral da República, Augusto Aras.
Os dois últimos, por sinal, disputando vagas no Supremo Tribunal Federal, a cenoura com que Bolsonaro lhes acena para conseguir que assumam tarefas incompatíveis com os cargos que ocupam. Por isso, há no Congresso uma movimentação para aprovar uma lei que impediria que o procurador-geral da República fosse reconduzido ao cargo, e também exigiria uma quarentena para que pudesse assumir cargo no governo depois de terminar seu mandato.
Mendonça, por exemplo, não seria o mais indicado para assinar a petição do habeas corpus para o ministro da Educação, Abraham Weintraub, no Supremo Tribunal Federal. Seria tarefa de José Levi, mas Bolsonaro queria que o ato tivesse uma demonstração política de repúdio à convocação de seu ministro e de todos os que foram alvo da ação da Polícia Federal na quarta-feira. É esse tipo de solidariedade política que Bolsonaro exigia, e nunca obteve, de Sergio Moro.
Aliás, este governo é tão disfuncional que, na fatídica reunião ministerial, Bolsonaro estranhou que ministros fossem elogiados enquanto ele recebia críticas da imprensa. Criou-se até uma campanha nas mídias sociais estimulando elogios ao ministro da Educação, Abraham Weintraub, para que fosse demitido por ciúmes de Bolsonaro.
O humor tem sua razão de ser, mas, de repente, Weintraub, que estava sob críticas de alas do Planalto que o consideram, além de incompetente, um gerador de atritos com a sociedade, passou a ser um símbolo dos extremistas após ter dito na reunião que colocaria “os vagabundos do Supremo” na cadeia.
Temeu ser preso, exigiu uma proteção oficial, gerando o tal habeas corpus. Chamado a depor, ficou em silêncio, numa atitude de protesto, embora legal. Ganhou alguns meses de vida. Ontem, foi condecorado pelo presidente Bolsonaro com a Ordem do Mérito Naval, ao lado do procurador-geral da República (do Bolsonaro?), Augusto Aras.
A desenvoltura com que o presidente utiliza-se dos instrumentos institucionais para fazer política é surpreendente. Usa condecorações oficiais para mandar recados, vai a posse de procuradores sem ser convidado para elogiá-los numa tentativa de constrangê-los, coloca Augusto Aras oficialmente numa lista de nomes para o Supremo Tribunal Federal, humilhando-o publicamente. Distribui cargos a rodo para o centrão, sem o menor pudor.
Talvez esteja indo com muita sede ao pote, temendo que os inquéritos em andamento o peguem desprevenido no meio do caminho. Tal qual o governador do Rio, Wilson Witzel, seu antigo amigo e hoje inimigo figadal, Bolsonaro e seus filhos foram apanhados muito cedo pela Justiça. Como Michel Temer, terá que dedicar o resto do mandato a salvar a sua pele e a dos seus. E daí?
A proximidade excessiva, quase obscena, de Aras com o presidente Bolsonaro traz o descrédito ao corpo de procuradores
O procurador-geral da República, Augusto Aras, não consegue nem mesmo entrar no elevador cheio na sede de Brasília da instituição que preside, tamanho o desconforto que está provocando entre seus pares.
A proximidade excessiva, quase obscena, com o presidente Bolsonaro, a quem cabe a Aras julgar no caso da interferência na Polícia Federal, traz o descrédito ao corpo de procuradores. Não é por acaso que surgiu o abaixo-assinado, com assinaturas de mais da metade dos componentes do Ministério Público, para tornar lei a praxe de o presidente da República ter que escolher de uma lista tríplice o ocupante do cargo.
Aras colocou-se à margem da corporação, não participando da disputa, atitude que agradou a Bolsonaro. Mesmo assim, a revolta interna o atinge, a ponto de ter havido uma reação branca dos procuradores, que se recusaram a ajudá-lo a escrever a manifestação da PGR contra o inquérito das fake news.
Em Brasília, já há quem o chame de procurador-geral do Bolsonaro. Ou quem diga que o governo tem hoje três pessoas exercendo o cargo de advogado-geral da União: o próprio, José Levi, o atual ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça, e o procurador-geral da República, Augusto Aras.
Os dois últimos, por sinal, disputando vagas no Supremo Tribunal Federal, a cenoura com que Bolsonaro lhes acena para conseguir que assumam tarefas incompatíveis com os cargos que ocupam. Por isso, há no Congresso uma movimentação para aprovar uma lei que impediria que o procurador-geral da República fosse reconduzido ao cargo, e também exigiria uma quarentena para que pudesse assumir cargo no governo depois de terminar seu mandato.
Mendonça, por exemplo, não seria o mais indicado para assinar a petição do habeas corpus para o ministro da Educação, Abraham Weintraub, no Supremo Tribunal Federal. Seria tarefa de José Levi, mas Bolsonaro queria que o ato tivesse uma demonstração política de repúdio à convocação de seu ministro e de todos os que foram alvo da ação da Polícia Federal na quarta-feira. É esse tipo de solidariedade política que Bolsonaro exigia, e nunca obteve, de Sergio Moro.
Aliás, este governo é tão disfuncional que, na fatídica reunião ministerial, Bolsonaro estranhou que ministros fossem elogiados enquanto ele recebia críticas da imprensa. Criou-se até uma campanha nas mídias sociais estimulando elogios ao ministro da Educação, Abraham Weintraub, para que fosse demitido por ciúmes de Bolsonaro.
O humor tem sua razão de ser, mas, de repente, Weintraub, que estava sob críticas de alas do Planalto que o consideram, além de incompetente, um gerador de atritos com a sociedade, passou a ser um símbolo dos extremistas após ter dito na reunião que colocaria “os vagabundos do Supremo” na cadeia.
Temeu ser preso, exigiu uma proteção oficial, gerando o tal habeas corpus. Chamado a depor, ficou em silêncio, numa atitude de protesto, embora legal. Ganhou alguns meses de vida. Ontem, foi condecorado pelo presidente Bolsonaro com a Ordem do Mérito Naval, ao lado do procurador-geral da República (do Bolsonaro?), Augusto Aras.
A desenvoltura com que o presidente utiliza-se dos instrumentos institucionais para fazer política é surpreendente. Usa condecorações oficiais para mandar recados, vai a posse de procuradores sem ser convidado para elogiá-los numa tentativa de constrangê-los, coloca Augusto Aras oficialmente numa lista de nomes para o Supremo Tribunal Federal, humilhando-o publicamente. Distribui cargos a rodo para o centrão, sem o menor pudor.
Talvez esteja indo com muita sede ao pote, temendo que os inquéritos em andamento o peguem desprevenido no meio do caminho. Tal qual o governador do Rio, Wilson Witzel, seu antigo amigo e hoje inimigo figadal, Bolsonaro e seus filhos foram apanhados muito cedo pela Justiça. Como Michel Temer, terá que dedicar o resto do mandato a salvar a sua pele e a dos seus. E daí?
Mirando o passado - ASCÂNIO SELEME
O GLOBO - 30/05
Que importância têm PT, PSOL, PCdoB? Nenhuma. No momento, nem oposição fazem corretamente. No futuro, talvez, mas terão de rebolar muito para conseguirem voltar a ter a preponderância que culminou nas eleições de Lula da Silva e Dilma Rousseff. Então, por que Bolsonaro, seus filhos, seus ministros mais engajados e toda a ala ideológica do governo não param de falar nesses partidos? Porque não têm mais desculpa para o fracasso político do chefão. O presidente, que poderia ter governado em paz, mesmo tocando aqui e ali sua tresloucada pauta conservadora, perdeu completamente o rumo e a liderança quando os escândalos de seus filhos começaram a bater em sua porta. E então apontou seus canhões para o passado.
Os alvos de Bolsonaro e sua turma passaram a ser os partidos de esquerda, sobretudo o PT, do qual o presidente se julga o verdadeiro antagonista. Por isso, todas as vezes que se vê confrontado parte para cima do que já passou, do que virou história. Discurso contra a bandeira vermelha é de uma obviedade sem limites. Atacar os governos de Lula e Dilma virou quase um bordão na boca do presidente e de seus aliados. O que eles fazem é explorar o sentimento de rejeição ao PT que transbordou pelos quatro cantos do país depois da desilusão provocada pelos escândalos do petismo.
Tem o mesmo valor o continuado discurso anticorrupção do clã, que também motiva a militância bolsonarista. Não há um dia em que Bolsonaro, um de seus zeros, um de seus ministros ou um aliado importante não fale que a era da corrupção acabou no país. Em seus monólogos para sua claque e alguns microfones na portaria do Palácio da Alvorada, Bolsonaro não se cansa de repetir: “querem a volta da corrupção”; “perderam a boquinha e querem a mamata de volta”; “estou há 500 dias no governo e não há nenhum caso de corrupção contra mim”. Claro que combater a corrupção é importante, mas não é tudo.
Alguém tem dúvida de que mais cedo ou mais tarde vão começar a eclodir casos de corrupção no governo, sobretudo agora que Bolsonaro embarcou a turma do centrão em postos que comandam orçamentos de bilhões de reais? Ninguém. Quando houver, têm de ser cortados, corrigidos e os responsáveis devem ser punidos. É assim que a banda toca. Esta é uma questão bem encaminhada no país. Com a Lava-Jato, abriu-se um caminho nunca antes trilhado no combate à corrupção. Nem por isso, aliás, Bolsonaro deixou de tirar seu ministro-símbolo, Sergio Moro, para poder manipular a Polícia Federal em favor dos meninos, da família e de amigos, como ele mesmo explicou.
Mas estes argumentos têm prazo de validade. Os militantes mais sofisticados e sinceros e menos engajados e radicais já começam a perceber que Bolsonaro quer tapar o sol que queima a todos com a peneira dos partidos de esquerda e os escândalos de corrupção da era petista. E, mais grave, usa uma cortina de fumaça para tentar esconder o que mais o apavora, a fragilidade dos filhos enrolados com a Justiça. Bolsonaro se exaspera, eleva a voz e xinga desbragadamente por um único motivo, percebe que a navalha se aproxima de sua garganta.
Os novos inimigos de Bolsonaro, Supremo e Congresso servem eventualmente como argumento substituto dos partidos de esquerda e da corrupção. Na ótica de sua excelência, tem a mesma intenção, impedir que o capitão purifique a nação do comunismo e da roubalheira. A indigência intelectual dessa lógica é óbvia, mas dela a turma do Palácio do Planalto não se afasta. Naquela já famosa reunião ministerial, quando Abraham Weintraub se volta na cadeira e aponta para a Praça dos Três Poderes, ele falava dos dois Poderes instalados ali do lado. Embora tenha mencionado apenas o Supremo, queria mandar prender também “os vagabundos” do Congresso. Seu gesto e sua fala não deixam margem para a dúvida.
O aloprado prestou depoimento ontem à Polícia Federal. Não disse nada, exercendo o direito de não produzir prova contra ele mesmo (e precisava?). Mas se tivesse falado, com certeza diria que defendia o Brasil, a moralidade e os bons costumes, que tratava retoricamente de um retrocesso do país ao tempo da corrupção e da ameaça vermelha. Weintraub é tão atrasado e retrógrado quanto Bolsonaro. Pior do que Bolsonaro, porque é de uma sabujice de fazer inveja ao Barão de Pindaré, um dos maiores puxa-sacos de Dom Pedro II. Weintraub é a prova incontestável de que este governo só mira o passado, mesmo quando tenta sobreviver no futuro.
Saudades de FH e Lula
Tolerância é a mola que movimenta a política. Sem ela, não se faz política. Os últimos presidentes brasileiros deram show de tolerância. Michel Temer foi objeto de uma denúncia de altíssima combustão, não saiu das páginas dos jornais e teve seu governo contaminado por ela, mas jamais perdeu a fleuma. Dilma foi impedida de continuar governando e nunca ameaçou qualquer tribunal ou casa legislativa. Lula foi julgado e acabou preso depois de ser denunciado em cinco casos de corrupção. Nem por isso ameaçou descumprir a sentença, apesar de aloprados ao seu redor aconselharem que não se entregasse ou se refugiasse numa embaixada. Fernando Henrique foi denunciado por compra de votos na emenda da reeleição e acusado no falso dossiê Cayman e nunca ameaçou virar o barco. Eram outros tempos.
Degenerativa
Professores gostam de dar nomes a etapas da História. Batizaram de “República do Café com Leite” a política dos anos 30, de “Nacional Populismo” a ditadura Vargas, de “Nova República” a transição democrática de Tancredo Neves e Ulysses Guimarães. Chamaram de “Social-Liberalismo” a era FH, e de “Reformista” a de Lula. Difícil encontrar um nome para atual etapa da (turbulenta) vida nacional. Há os que já chamam o governo de Bolsonaro de “Neofascista”, mas o ex-deputado e professor de História Chico Alencar prefere a designação de “República Degenerativa do Brasil”. Faz sentido.
Reconhecendo a fake
A frase de Bolsonaro é esclarecedora. No monólogo irresponsável em que ameaçou não cumprir determinação do Supremo Tribunal Federal, produziu mais uma confissão de culpa: “(Querem tirar) a mídia que tenho a meu favor”. Oras, presidente, mídia a favor não se têm. Compra-se. No seu caso, o que existe é mídia paga ou ideologicamente comprometida. É mídia mentirosa, falsa e criminosa.
Indo às compras
Em qualquer lugar do mundo o gesto seria tratado como um acinte à Justiça. No Brasil desses dias parece apenas mais uma bobagem do presidente. Ao afirmar que o procurador Augusto Aras é merecedor de uma terceira vaga no STF, Bolsonaro mostrou que está disposto a pagar qualquer preço para o processo contra ele não caminhar no Supremo. Além de, embora diga que não, estar desejando a aposentadoria (ou a morte) precoce de um dos ministros do tribunal.
Ex-futuro ministro
Muito dificilmente o ministro da Justiça, André Mendonça, ganhará cadeira no Supremo Tribunal Federal. Pode até ser indicado para a vaga por Bolsonaro, mas depois da aberração que produziu, na forma de um habeas corpus em favor do colega Abraham Weintraub, a coisa se complicou para ele. Primeiro, será discretamente detonado pelos atuais ministros do STF. Depois, vai ter que se explicar no Senado onde será sabatinado. O problema é que seu caso não tem explicação.
Ódio a índio
O amalucado ministro da Educação disse naquela reunião memorável no Palácio do Planalto que tem “ódio da expressão povos indígenas”. Pois é. No início desta semana, o general Eduardo Pazuello, ministro interino da Saúde, inaugurou uma ala de hospital no Amazonas que atenderá exclusivamente a índios, onde disse: “A gente vai ter capacidade de recebê-los num local preparado para eles, na sua cultura, na sua essência como povo indígena”. E agora, Weintraub?
Influência
“Sou a deputada mais influente do Congresso, que mais tem visualização de vídeos”, disse esta semana, orgulhosa, Carla Zambelli. Saudades do tempo em que influência na Casa se media pela participação em comissões, pelo número de projetos aprovados, pela capacidade de aglutinar e produzir entendimentos.
Benedita fora
O jornalista José Maria Trindade, da Rádio Jovem Pan, comentando esta semana a ação da PF contra o governador do Rio, Wilson Witzel, lembrou que quatro dos últimos cinco mandatários estaduais já foram presos, só Benedita escapou. E disse que perguntou a ela por que nunca foi alcançada. Bené teria respondido, segundo Zé Maria, “fiquei pouco tempo, meu filho”.
Bacana SP 1
Casas chiques em subúrbios e condomínios elegantes no entorno de São Paulo, como Boa Vista e Terras de Itú, estão sendo alugadas para a quarentena por até R$ 100 mil por mês. O proprietário de uma dessas mansões alugou a sua por quatro meses e com o dinheiro comprou uma quitinete para sua filha nos Jardins.
Bacana SP 2
Outra novidade desta crise é o aumento importante do interesse por residências fora das áreas mais densas da cidade, já que as pessoas perceberam que dá para trabalhar sem sair de casa. Em São Paulo, o Jardim Guedala, um bairro bacana mas de baixíssima valorização, de repente virou o queridinho de quem tem algum dinheiro e quer sair da muvuca. Três casas foram vendidas na mesma rua do Jardim Guedala na semana passada. Uma delas estava encalhada há mais de dois anos.
Bacana SP 3
Quase todas as lojas de decoração da Alameda Gabriel Monteiro da Silva, em São Paulo, estão funcionando a todo vapor, apesar de não serem essenciais e por decreto estarem proibidas de abrir. Basta chegar e bater na porta. Muitos dos que alugaram casas no interior durante a pandemia estão aproveitando para fazer reformas nas suas casas paulistanas. E as lojas de decoração são indispensáveis numa hora dessa, não é mesmo?
Do jeito errado e sem a maioria - EDITORIAL O ESTADÃO
ESTADÃO - 30/05
A maioria da população não apoia o modo de Jair Bolsonaro governar. Se o presidente o fizesse do jeito certo, talvez crescesse a aprovação a seu governo
Em seus arroubos contra as instituições, o presidente Jair Bolsonaro gosta de se colocar como fiel escudeiro da vontade popular. A proximidade com o cidadão comum seria seu baluarte. Segundo o discurso bolsonarista, todo o restante seria secundário, o importante seria a conexão do presidente Bolsonaro com o sentimento majoritário da população brasileira, o que lhe autorizaria a fazer o que bem entender. O povo estaria incondicionalmente ao lado de Bolsonaro – ao lado dessa espontaneidade sem regras, freios ou protocolos.
Ainda que entusiasme os camisas pardas, esse discurso está muito distante da realidade. Na verdade, há algum tempo a maioria da população desaprova o modo como Jair Bolsonaro governa. A maioria não está ao seu lado, como indica, entre outras sondagens, a última pesquisa do Datafolha, realizada nos dias 25 e 26 de maio.
A avaliação do presidente Jair Bolsonaro é ruim ou péssima para 43% dos brasileiros. É o maior porcentual de rejeição desde o início do governo. Os que o consideram ótimo ou bom são 33%; e regular, 22%. Na comparação com os outros três presidentes anteriores – Fernando Henrique, Lula da Silva e Dilma Rousseff –, nesse mesmo tempo de governo, Jair Bolsonaro tem a pior avaliação.
A respeito do comportamento do presidente Jair Bolsonaro, 37% consideram que ele nunca se comporta de forma adequada. Em posição oposta, 13% acham que Bolsonaro se comporta adequadamente em todas as ocasiões. A rejeição é quase três vezes maior, mostrando o equívoco de dizer simplesmente que o País está dividido em relação a Bolsonaro. Há sim apoiadores do presidente, mas o fato é que existem muito mais pessoas descontentes com seu modo de governar.
Quanto à avaliação do desempenho do presidente da República em relação à pandemia, os números são ainda piores para Jair Bolsonaro. Metade dos brasileiros (50%) avalia como ruim ou péssimo o desempenho de Bolsonaro na pandemia. Aqueles que o consideram ótimo ou bom são 27%; e regular, 22%. A esse respeito, são significativas as quedas na avaliação positiva do Ministério da Saúde nos últimos dois meses, após as demissões de Luiz Henrique Mandetta e de Nelson Teich. Jair Bolsonaro pode achar que faz impunemente o que bem entender, mas a população não viu com bons olhos a atuação presidencial na Saúde.
Outro dado é que, para a maioria dos brasileiros (53%), o presidente da República tem responsabilidade, em alguma medida, pelo avanço da pandemia. Para 33% dos entrevistados, Bolsonaro é muito responsável pelo atual quadro; e para 20%, “um pouco responsável”. Vê-se que a maioria da população não acha nenhuma graça com o “e, daí?” de Bolsonaro, em relação ao número de mortes pela covid-19.
E não é apenas uma única pesquisa a mostrar a rejeição a Bolsonaro. Realizada em 28 de maio, a sondagem da XP/Ipespe aponta, por exemplo, que, para 49% dos brasileiros, o governo de Bolsonaro é ruim ou péssimo; para 26%, ótimo ou bom; e para 23%, regular. Novamente, fica evidente a desproporção da rejeição. O número de pessoas que desaprovam o governo de Jair Bolsonaro é quase o dobro das que o aprovam.
Com 17 meses de governo, é evidente que a rejeição a Bolsonaro não é nenhuma torcida contra o País ou para que o governo fracasse. É antes a decepção de quem, no início de 2019, nutria expectativas de que o novo governo pudesse trazer melhorias ao País, mas que, decorrido menos de ano e meio, vê com cansaço um quadro desolador de irresponsabilidades, ações destemperadas, conflitos desnecessários e prevalência de interesses familiares.
Trata-se de um fato: a maioria da população não apoia o modo de Jair Bolsonaro governar. Além disso, está claro, a essa altura, que esse jeito de conduzir o País, criando continuamente conflitos com outros Poderes, não lhe traz nenhum apoio popular adicional. Não se pode nem mesmo dizer que Bolsonaro esteja consolidando uma base de apoio, pois esta é cada vez menor. O que cresce é a oposição a ele. Por que não fazer do jeito certo, governando dentro dos limites constitucionais, com planejamento, competência e responsabilidade? Talvez assim Bolsonaro experimentasse uma sensação inédita – a de ver crescer o número de pessoas que aprovam o seu governo.
A maioria da população não apoia o modo de Jair Bolsonaro governar. Se o presidente o fizesse do jeito certo, talvez crescesse a aprovação a seu governo
Em seus arroubos contra as instituições, o presidente Jair Bolsonaro gosta de se colocar como fiel escudeiro da vontade popular. A proximidade com o cidadão comum seria seu baluarte. Segundo o discurso bolsonarista, todo o restante seria secundário, o importante seria a conexão do presidente Bolsonaro com o sentimento majoritário da população brasileira, o que lhe autorizaria a fazer o que bem entender. O povo estaria incondicionalmente ao lado de Bolsonaro – ao lado dessa espontaneidade sem regras, freios ou protocolos.
Ainda que entusiasme os camisas pardas, esse discurso está muito distante da realidade. Na verdade, há algum tempo a maioria da população desaprova o modo como Jair Bolsonaro governa. A maioria não está ao seu lado, como indica, entre outras sondagens, a última pesquisa do Datafolha, realizada nos dias 25 e 26 de maio.
A avaliação do presidente Jair Bolsonaro é ruim ou péssima para 43% dos brasileiros. É o maior porcentual de rejeição desde o início do governo. Os que o consideram ótimo ou bom são 33%; e regular, 22%. Na comparação com os outros três presidentes anteriores – Fernando Henrique, Lula da Silva e Dilma Rousseff –, nesse mesmo tempo de governo, Jair Bolsonaro tem a pior avaliação.
A respeito do comportamento do presidente Jair Bolsonaro, 37% consideram que ele nunca se comporta de forma adequada. Em posição oposta, 13% acham que Bolsonaro se comporta adequadamente em todas as ocasiões. A rejeição é quase três vezes maior, mostrando o equívoco de dizer simplesmente que o País está dividido em relação a Bolsonaro. Há sim apoiadores do presidente, mas o fato é que existem muito mais pessoas descontentes com seu modo de governar.
Quanto à avaliação do desempenho do presidente da República em relação à pandemia, os números são ainda piores para Jair Bolsonaro. Metade dos brasileiros (50%) avalia como ruim ou péssimo o desempenho de Bolsonaro na pandemia. Aqueles que o consideram ótimo ou bom são 27%; e regular, 22%. A esse respeito, são significativas as quedas na avaliação positiva do Ministério da Saúde nos últimos dois meses, após as demissões de Luiz Henrique Mandetta e de Nelson Teich. Jair Bolsonaro pode achar que faz impunemente o que bem entender, mas a população não viu com bons olhos a atuação presidencial na Saúde.
Outro dado é que, para a maioria dos brasileiros (53%), o presidente da República tem responsabilidade, em alguma medida, pelo avanço da pandemia. Para 33% dos entrevistados, Bolsonaro é muito responsável pelo atual quadro; e para 20%, “um pouco responsável”. Vê-se que a maioria da população não acha nenhuma graça com o “e, daí?” de Bolsonaro, em relação ao número de mortes pela covid-19.
E não é apenas uma única pesquisa a mostrar a rejeição a Bolsonaro. Realizada em 28 de maio, a sondagem da XP/Ipespe aponta, por exemplo, que, para 49% dos brasileiros, o governo de Bolsonaro é ruim ou péssimo; para 26%, ótimo ou bom; e para 23%, regular. Novamente, fica evidente a desproporção da rejeição. O número de pessoas que desaprovam o governo de Jair Bolsonaro é quase o dobro das que o aprovam.
Com 17 meses de governo, é evidente que a rejeição a Bolsonaro não é nenhuma torcida contra o País ou para que o governo fracasse. É antes a decepção de quem, no início de 2019, nutria expectativas de que o novo governo pudesse trazer melhorias ao País, mas que, decorrido menos de ano e meio, vê com cansaço um quadro desolador de irresponsabilidades, ações destemperadas, conflitos desnecessários e prevalência de interesses familiares.
Trata-se de um fato: a maioria da população não apoia o modo de Jair Bolsonaro governar. Além disso, está claro, a essa altura, que esse jeito de conduzir o País, criando continuamente conflitos com outros Poderes, não lhe traz nenhum apoio popular adicional. Não se pode nem mesmo dizer que Bolsonaro esteja consolidando uma base de apoio, pois esta é cada vez menor. O que cresce é a oposição a ele. Por que não fazer do jeito certo, governando dentro dos limites constitucionais, com planejamento, competência e responsabilidade? Talvez assim Bolsonaro experimentasse uma sensação inédita – a de ver crescer o número de pessoas que aprovam o seu governo.
O ronco dos fracos - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 30/05
Bolsonaro e asseclas esbravejam contra instituições, mas têm de seguir ritos
A população já sabe que não deve levar a sério o que diz o presidente Jair Bolsonaro. Ainda assim, é forçoso anotar, até como registro para a posteridade, que, no dia 28 de maio de 2020, o chefe de Estado do Brasil afirmou, referindo-se a decisões do Poder Judiciário: “Ordens absurdas não se cumprem”.
O mandatário, que jurou submissão à Carta democrática de 1988, atravessava mais um surto autoritário. Crivado de derrotas nos tribunais, com um inquérito do Supremo tendo na véspera fechado o cerco sobre a máquina de difamações e ameaças alimentada por familiares e assessores próximos, Bolsonaro voltou a cevar a franja de lunáticos golpistas que o apoia.
“Mais um dia triste na nossa história. Mas o povo tenha certeza, foi o último. Acabou,...” e proferiu mais um de seus palavrões habituais. Pouco antes, o deputado federal Eduardo Bolsonaro declarara, num encontro de carnívoros da truculência, que a ruptura era questão de quando, não mais de se.
Os rugidos são inversamente proporcionais ao dano que essas figuras liliputianas da política brasileira podem causar à institucionalidade. Configuram-se, na verdade, sintomas do enfraquecimento e do isolamento progressivos de Jair Bolsonaro e seu círculo de fanáticos.
Em pleno século 21, decorridos 35 anos de enraizamento da democracia na sociedade e na máquina administrativa, não há hipótese de retrocesso às quarteladas do passado. Elas eram compatíveis com um país muito mais simples, quase simplório, e com um contexto global maniqueísta. Isso, sim, acabou.
O presidente da República que decida afrontar uma ordem do Poder Judiciário não disporá de tanques como salvaguarda. Enfrentará as consequências criminais e políticas que o ato estúpido implica. O parlamentar que, como Eduardo, reincide ao invocar rupturas autoritárias tem encontro marcado com o Conselho de Ética da sua Casa.
O presidente que rosnou perante a turma de agitadores violentos que o bajula no famigerado cercadinho do Alvorada foi o mesmo que, ordeiramente, ingressou com recurso no Supremo para tentar evitar o depoimento do ministro da Educação que havia insultado a corte.
O ensaio de rebeldia de Abraham Weintraub —que faria mais jus a ser titular de uma pasta da Ignorância— tampouco se materializou. Nesta sexta (29), bovinamente, cumpriu seu dever de comparecer ao depoimento no inquérito que apura ameaças a membros do STF e exerceu o direito de ficar em silêncio. Calado, aliás, é um poeta.
Nada garante que não haverá novas operações como a que alvejou bolsonaristas na quinta (27). Mas, se o presidente quiser reduzir sua probabilidade, basta andar entre as linhas traçadas pela Constituição.
Bolsonaro e asseclas esbravejam contra instituições, mas têm de seguir ritos
A população já sabe que não deve levar a sério o que diz o presidente Jair Bolsonaro. Ainda assim, é forçoso anotar, até como registro para a posteridade, que, no dia 28 de maio de 2020, o chefe de Estado do Brasil afirmou, referindo-se a decisões do Poder Judiciário: “Ordens absurdas não se cumprem”.
O mandatário, que jurou submissão à Carta democrática de 1988, atravessava mais um surto autoritário. Crivado de derrotas nos tribunais, com um inquérito do Supremo tendo na véspera fechado o cerco sobre a máquina de difamações e ameaças alimentada por familiares e assessores próximos, Bolsonaro voltou a cevar a franja de lunáticos golpistas que o apoia.
“Mais um dia triste na nossa história. Mas o povo tenha certeza, foi o último. Acabou,...” e proferiu mais um de seus palavrões habituais. Pouco antes, o deputado federal Eduardo Bolsonaro declarara, num encontro de carnívoros da truculência, que a ruptura era questão de quando, não mais de se.
Os rugidos são inversamente proporcionais ao dano que essas figuras liliputianas da política brasileira podem causar à institucionalidade. Configuram-se, na verdade, sintomas do enfraquecimento e do isolamento progressivos de Jair Bolsonaro e seu círculo de fanáticos.
Em pleno século 21, decorridos 35 anos de enraizamento da democracia na sociedade e na máquina administrativa, não há hipótese de retrocesso às quarteladas do passado. Elas eram compatíveis com um país muito mais simples, quase simplório, e com um contexto global maniqueísta. Isso, sim, acabou.
O presidente da República que decida afrontar uma ordem do Poder Judiciário não disporá de tanques como salvaguarda. Enfrentará as consequências criminais e políticas que o ato estúpido implica. O parlamentar que, como Eduardo, reincide ao invocar rupturas autoritárias tem encontro marcado com o Conselho de Ética da sua Casa.
O presidente que rosnou perante a turma de agitadores violentos que o bajula no famigerado cercadinho do Alvorada foi o mesmo que, ordeiramente, ingressou com recurso no Supremo para tentar evitar o depoimento do ministro da Educação que havia insultado a corte.
O ensaio de rebeldia de Abraham Weintraub —que faria mais jus a ser titular de uma pasta da Ignorância— tampouco se materializou. Nesta sexta (29), bovinamente, cumpriu seu dever de comparecer ao depoimento no inquérito que apura ameaças a membros do STF e exerceu o direito de ficar em silêncio. Calado, aliás, é um poeta.
Nada garante que não haverá novas operações como a que alvejou bolsonaristas na quinta (27). Mas, se o presidente quiser reduzir sua probabilidade, basta andar entre as linhas traçadas pela Constituição.
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