quarta-feira, abril 08, 2020

Emergência e democracia - PAULO DELGADO

O Estado de S.Paulo - 08/04

Berrar instruções para a morte é querer companhia para plano de extinção pessoal



Um mal-assombrado uso do poder nos dilacera: isolamento voluntário de todos ou solução final para a velhice. A esse delírio absurdo e não cristão soma-se a perda de contexto da missão fiscal na economia, deixando a cartilha liberal sem norte para fazer o que precisa.

Uma parada global sincronizada, um governo incapaz de estabilizar suas ações. A confusão alucinatória do presidente, fustigando sem pudor seu ministro da Saúde, estressa mais ainda o cenário e pode levar o Brasil a ser o maior perdedor entre os emergentes. Enquanto o palácio boicota a Nação, o povo ainda encontra temperança, seguro de que nenhum princípio humano ou ético é violado pelo Ministério da Saúde ou pelos governadores.

Itamar, maduro e experiente, custou-lhe tanto a acreditar no Real que o ministro da Fazenda virou o autor do plano, salvando o País da inflação. Jair, o verde, despreza tanto a doença que o ministro da Saúde é que vai salvar o País da infecção. Mandetta, a URV do coronavírus, é mais do que governo. Virou ministro da República.

Lançando sombras sobre o País, parte do governo parece mais agarrada à bolsa do que à vida, convicto de que saúde pública atrapalha a economia. Viúvas do mundo velho, não conseguem realizar o luto pela morte que o vírus impôs ao estilo de vida moderno. Stop. A vida parou, ou foi o presidente? Antifuturista, martirizado pela desinformação, finge governar.

A democracia é forte, mas não é um regime de força. Confunde quem trabalha com expectativa falsa e não consegue agir certo diante de dificuldades. Que governante se mantém à tona sugerindo que o bombeiro salve os móveis e deixe a família se queimar? Acreditar nele é como segurar água na mão. Com atrevimento diz sem pensar o que pensa. Está virando o nome do desastre. Schettino, Schettino, não abandone o navio na hora do naufrágio!

Não é difícil manter a democracia em situações de emergência. Mas que trauma leva o presidente a se identificar tanto com esse vírus a ponto de ter necessidade sádica de ridicularizá-lo, insultá-lo, desafiá-lo? Quem sabe o Centro de Inteligência do Exército de Agulhas Negras o alerte para o que dizem os modelos estratégicos de enfrentamento de populações abandonadas e em pânico. Não é em todas as situações que o homem escolhe sua saída.

Não é fácil conciliar democracia e emergência quando a situação exige mais cérebro e sentimento do que desejo e força. O método de convencimento democrático, pelo isolamento voluntário a pedido da autoridade sanitária, é o melhor para conter a doença. Ajuda, ainda, na preservação do tempo de esperança e solidariedade capaz de soerguer a sociedade depois da desgraça.
Para isso é preciso abandonar qualquer fraude no comportamento. O que houve no mundo foi mais do que uma parada repentina tirando a liquidez dos mercados. Diante da inadimplência geral, e vendo a riqueza sem movimento, a autoridade que não considera o PIB um conceito de fluxo, e não gosta do papel do Estado, sente-se catatônica.

A espiral negativa quando atinge o capital e o trabalho tem de ser amenizada prontamente pelo Estado, recalibrando sua relação com a base fiscal e monetária. O ultraliberal, não podendo ser dogmático, sente-se um insincero titular do poder. Não é burocracia, é a filosofia a razão da demora em estancar a infecção na economia.

É hora da união, de os estadistas de todos os setores afirmarem que é desaconselhável romper o isolamento e obrigatório o Tesouro impulsionar a salvação do País. Por que na emergência a economia se desmancha? Que país é esse que supõe que a vida humana vale menos do que dois meses de produção econômica? Se não há uma base existencial mínima de entendimento, fiquemos com a principal: se somos uma democracia, não precisamos usar a força.

Não é preciso abrir o embrulho para ver o que contém. O universo paralelo do presidente se desfez com a pandemia. Eleito pelo modelo mental virtual, por onde não passa nenhuma privação, ele se virava com retórica, sem ligar para autoridade. Agora o cálculo estratégico que opera, ao jogar com o vírus imaginando não quebrar a cara, parte da ideia de que o Brasil sofre, mas não morre. O ponto de equilíbrio surgirá quando as instituições democráticas o convencerem de que não há necessidade de o País todo sofrer, talvez ele, mantida sua prerrogativa de falar pelos cotovelos.

Há atletas a quem a camisa pesa. Outros, cansativos, acionam uma necessidade de atenção maior do que a que podemos dar. Imaginem estado de calamidade, tendo de suportar coexistência e hierarquia com um governo que se esfrangalha ali onde a fantasia se choca com a realidade.

O mundo intrapsíquico de quem vê a política como jogo trapaça-charlatão-sabichão não prevê desmoralização. Mas se diante do nada até a incompetência costuma ser aceita, quando há necessidade de comando e controle profissional não adianta falar mais alto. Concepções vagas de como governar no temporal podem não corroer os ossos da raiva. Mas berrar instruções para a morte é querer companhia para um plano de extinção pessoal.

Sociólogo.

Fuga de Flávio Bolsonaro rói o benefício da dúvida - JOSIAS DE SOUZA

UOL - 08/04


Justiça boa para Flávio Bolsonaro é aquela que tarda, mas não chega. Acusado de morder um pedaço dos contracheques dos assessores quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, o primogênito do presidente da República ainda não foi capaz de exibir uma defesa. Mas tornou-se um ás da protelação. Já recorreu uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove vezes.

O penúltimo recurso corre no Superior Tribunal de Justiça, o STJ. Nele, a defesa de Flávio alega novamente que o Coaf quebrou seus sigilos bancário e fiscal, repassando dados para o Ministério Público do Rio sem autorização judicial. Conversa fiada, contestam os promotores que cuidam do caso. Segundo eles, faltam lógica e fundamentação jurídica ao recurso do Zero Um.

Ao julgar recurso anterior de Flávio, em novembro do ano passado, o Supremo Tribunal Federal decidiu que a comunicação entre Coaf e órgãos de controle dispensa autorização judicial. Os dados sobre as operações suspeitas foram compartilhados pelos canais legais. "Não houve qualquer solicitação de informações ao Coaf por e-mail", sustenta o Ministério Público.

Por uma trapaça da sorte, o recurso de Flávio foi à mesa do ministro Félix Fischer, um dos mais implacáveis magistrados do STJ. Não há prazo para a apreciação do pedido de interrupção da investigação. Pivô do caso, o faz-tudo da família Bolsonaro, Fabrício Queiroz, continua vivendo em regime de auto-quarentena. Esse é o único isolamento social que conta com a aprovação de Jair Bolsonaro.

A tenacidade com que Flávio foge de um veredicto vai roendo o benefício da dúvida. O filho mais velho do presidente é presumido culpado até que prove algum interesse em se defender.

Davi Uip, a cloroquina e a sordidez. A propósito: general Heleno tomou? - REINALDO AZEVEDO

UOL - 08/04


David Uip, coordenador do programa de combate à Covid-19 de São Paulo. Médico faz bem em se negar a dizer se tomou ou não cloroquina. Não existe boa resposta para pergunta errada



O infectologista Davi Uip, que chefia o Centro de Contingência contra a COVID-19 em São Paulo, contraiu a doença. Está curado. Espalhou-se o boato de que teria recorrido à cloroquina. E o bolsonarismo — incluindo o general Augusto Heleno, chefe do GSI (Gabinete da Segurança Institucional) — passou a cobrar que ele viesse a público para dizer se tomou ou não o remédio. Uip preferiu não se manifestar. E fez bem.

Sabem por que fez bem? Porque não se trata de uma questão pessoal. Ele é um médico. É um especialista. Seu testemunho, nessa perspectiva, não tem importância. Se diz que não tomou, parece que se opõe a pesquisas que estão em curso. Digamos, no entanto, que tivesse tomado. Pergunto: e daí?

É um indivíduo. Mais: é um indivíduo médico. Tem o direito, se quiser, de usar o seu próprio corpo — conhecendo os efeitos colaterais do remédio — para testar uma possibilidade. O eventual uso, no entanto, não reproduz as condições necessárias para uma pesquisa de caráter científico.

Imaginem as consequências se um dos maiores infectologistas do país, chefe de um programa de combate à Covid-19, viesse a público para dizer que tomou, sim, a cloroquina. Isso corresponderia a um convite tresloucado para que o remédio passasse a ser usado a torto e a direito, sem maiores cuidados. Pior: estimularia de maneira irresponsável a automedicação. A cloroquina é uma substância perigosa sem o devido controle médico.

"Ora, Reinaldo, mas, se ele não tomou, basta negar." Errado! A pergunta já nasce de um debate distorcido, do qual um médico responsável deve ficar longe. Há pesquisadores trabalhando dia e noite no Brasil e no mundo, testando essa e outras substâncias. A patrulha é, por si, um despropósito porque sugere que ele poderia usar a sua sólida reputação profissional para esconder a efetividade de uma substância para salvar vidas. É um bate-boca indecente, travado na lama e na sordidez.

A propósito: o avião que trouxe Bolsonaro de Miami despejou 22 contaminados em solo pátrio. Há, entre eles, quem tenha tomado a cloroquina? Ora, que deem, então, seu testemunho. E arquem com as consequências. Ou ninguém, naquele grupo, ousou seguir as recomendações do chefe?

A propósito: o senhor tomou cloroquina, general Heleno?

A relação entre a matemática e a erradicação de doenças - MARCELO VIANA

FOLHA DE SP - 08/04

Modelo matemático apontou perspectiva positiva em inocular pessoas saudáveis com fluidos de indivíduos contaminados com varíola

A matemática é uma ferramenta inestimável no estudo e controle de epidemias. Permite realizar de modo virtual, no computador, experimentos para testar diferentes técnicas de contenção da doença, o que seria inviável e até antiético fazer na vida real, colocando pessoas em risco.

Uma das primeiras grandes contribuições da matemática à epidemiologia foi feita no século 18 por Daniel Bernoulli (1700 - 1782). Os Bernoulli são a família mais extraordinária da história da ciência, tendo produzido nada menos que oito matemáticos de primeira linha. Eram suíços, mas Daniel nasceu na Holanda e viveu em vários países europeus. O pai, Johann, era professor de matemática, mas queria uma carreira mais rentável para o filho: obrigou-o a estudar negócios e medicina. Daniel aceitou, com a condição de que o pai lhe desse aulas particulares de matemática. Ficou muitíssimo bem equipado para contribuir para a erradicação da varíola da Europa.

Não se conhece a origem da doença, mas é muito antiga: há marcas de varíola em múmias egípcias do século 3 a.C. Acredita-se que entrou na Europa no início do século 16 e rapidamente se tornou endêmica. A taxa de letalidade era de 30% e muitos sobreviventes ficavam com sequelas graves. No início do século 18 matava 400 mil pessoas por ano na Europa e um terço dos sobreviventes ficava cego.

Nas primeiras décadas do século 18, médicos ingleses começaram a experimentar uma técnica, chamada variolação, que consiste em inocular pessoas saudáveis com fluidos de indivíduos contaminados, para provocar a produção de anticorpos. Ela já era praticada na China há séculos, mas o uso era polêmico. Embora reduza a letalidade para apenas 1% dos infectados, em alguns poucos casos pode provocar a doença na pessoa saudável no lugar de impedi-la.

Daniel Bernoulli desenvolveu um modelo matemático da doença, um tipo de equação diferencial, para avaliar se seria vantajoso inocular todos os recém-nascidos dessa forma, visando prevenir o desenvolvimento posterior da doença. Utilizando os melhores dados disponíveis na época, ele concluiu que o ganho em vidas resultante da imunização proporcionada pela variolação generalizada seria muito superior às eventuais perdas causadas.

Em meados do século, a Inglaterra começou a aplicar a variolação de modo amplo. A partir de 1796, quando o médico Edward Jenner demonstrou a eficácia da primeira vacina, a inoculação tornou-se obrigatória para todas as crianças. Como resultado, a varíola foi extinta no país ainda no século 19.

Na sequência de uma campanha global de vacinação coordenada pela OMS, ao final dos anos 1970 a varíola tornou-se a primeira doença contagiosa a ser erradicada no mundo.

Marcelo Viana
Diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, ganhador do Prêmio Louis D., do Institut de France.

A hora da escalada - VERA MAGALHÃES

ESTADÃO - 08/04

Semanas de pico da pandemia não permitirão mais os erros cometidos até aqui


Vai começar a subida da montanha, metáfora que vem sendo usada pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, para designar a fase, que há muito se sabe que chegaria, de escalada rumo ao pico de contaminação pela covid-19 no Brasil.

Até aqui, alguns fatores ajudaram e outros atrapalharam sobremaneira a preparação do País para essa escalada inexorável, pela qual todas as demais nações do globo passaram ou estão passando.

As nossas vantagens comparativas vêm sobretudo do timing. A contaminação começou na China e se espalhou pela Europa e pelos Estados Unidos antes de chegar aqui de maneira sustentada, o que nos deu tempo para aprender com acertos e erros de outros povos e outros governos.

Foi positivo, por exemplo, para que os governos estaduais e mesmo o governo federal decretassem situações de emergência, calamidade ou quarentena, a depender da designação, e com isso pudessem restringir a atividade econômica e a circulação de pessoas e preparar a retaguarda do sistema de saúde, que já está sendo pressionado e deve enfrentar uma situação próxima ao colapso, quando não de colapso efetivo, nos próximos dias.

Mas não soubemos aproveitar plenamente o que os especialistas chamam de “vantagem temporal” que o vírus nos deu. E isso graças a imperdoáveis erros e omissões políticos, que podem cobrar um preço enorme em termos de vidas perdidas e situação social e econômica agravada.

Nenhum desses erros tem a ver com a decisão de distanciamento social, como quer fazer crer a narrativa bolsonarista que campeia irresponsavelmente em gabinetes de Brasília e nas redes sociais, atormentando uma sociedade já assustada e que precisa de diretrizes inequívocas das autoridades para se guiar numa tempestade inédita.

Eles decorreram justamente do oposto: o boicote inexplicável do presidente da República e de seu entorno a tudo que envolve o protocolo de combate à pandemia, do distanciamento em si à liderança do ministro da Saúde. Birra.

Enquanto desautorizava Mandetta, divulgava medicamento e fazia traquinagem furando o distanciamento, Bolsonaro deixou de tomar providências urgentes e relevantes que ajudariam a preparar as mochilas de escalada dos brasileiros.

A começar pelas providências da área econômica. Essas, sim, deveriam ter sido alvo da obstinação teimosa do presidente. Por que não exigiu e cobrou a execução de um cronograma enxuto para o pagamento da ajuda emergencial de R$ 600 (que pode chegar a R$ 1.200) aos mais vulneráveis, que só começará a ser paga, se tudo der certo, amanhã?

Qual a razão para o presidente não ter impedido que qualquer auxiliar seu, a começar pelo filho e chegando ao ministro da Educação, que nada tem a ver com o peixe, criasse encrenca com a China no momento em que o Brasil vai precisar do país para retomar suas exportações e para importar insumos de emergência para o combate à própria pandemia?

Essas, sim, são tarefas eminentes ao uso da autoridade presidencial, essa que Bolsonaro adora afetar, ameaçando infantilmente usar a caneta para depois recuar, o que acaba apenas por desmoralizá-lo mais perante auxiliares, eleitores e o resto do mundo.

O presidente tirou uma “folga” ontem, depois de pintar o sete na segunda-feira e deixar o País com o fôlego preso diante da possibilidade de demitir o titular da Saúde em plena crise. O recuo não pode ser considerado definitivo, e a trégua de um dia estranhamente tranquilo pode ser aquela calmaria que antecede o caos.

Mas foi um bom teste. Se o presidente mantiver o foco em não atrapalhar a escalada, pode ser que cheguemos ao doloroso cume e comecemos a descer de volta menos machucados que nossos vizinhos desenvolvidos.

Controle de danos - ROSÂNGELA BITTAR

O Estado de S.Paulo - 08/04


Política entrou em ação para dissuadir Bolsonaro de demitir o ministro da Saúde


Jair Bolsonaro insiste em fazer da Presidência da República uma roleta-russa para os brasileiros. Sua família se acha dona do País e comanda o governo com baixos instintos: soberba, inveja, paranoia, ciúme, obsessão. Vieram para matar ou morrer. Sua última e tresloucada experiência de apertar o gatilho ao sabor do azar deu xabu, mas poderia ter resultado na dispensa do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em plena administração de uma pandemia letal.

Sabem todos o que se passou, passa e passará com a família governante. E do lado do bom senso, o que se passa? Não há ninguém parado. Pelo contrário, nunca a política e os políticos estiveram com tanto apetite e, ao mesmo tempo, tão prudentes. Não é hora de aparecer. No meio de uma guerra, sem conhecer a lista dos sobreviventes, movimentos radicais são exercícios perigosos.

O que se pode identificar é que há dois consensos atraindo a praça política, um deles consolidado e o segundo em construção discreta. Em pleno vigor, o primeiro tem sido denominado de “controle de danos”. Consiste em deixar Jair Bolsonaro falando sozinho, aplicando suas ideias como quiser, sem contestações, enquanto a Câmara, o Senado, o Supremo, a Economia, os ministérios, os órgãos de controle seguem governando. Tocam suas agendas ao mesmo tempo em que tentam consertar os absurdos que as instituições não conseguirem absorver.

Os militares são importantes nas tarefas de contenção. Já constataram que Bolsonaro é incompetente para exercer liderança num momento como este e já demonstraram que não o querem como seu ditador. Não temem a volta à planície até porque qualquer reviravolta, se houver, deixará seguro seu processo de resgate para a política, pois o vice é um dos seus. Mas tentam, por todos os meios, equilibrar o presidente e reduzir as consequências de seus atos.

Os mais influentes, todos ministros próximos ao presidente, são fortes e formam o chamado eixo Leste: Fernando Azevedo, ex-comandante do Leste (Rio); Luiz Eduardo Ramos, ex-comandante do Sudeste (São Paulo); Braga Netto, ex-comandante do Leste e ex-chefe do Estado-Maior do Exército, aquele que organiza tudo, do atual comandante Edson Pujol.

O eixo Leste é um eixo de poder que se contrapõe ao general Augusto Heleno, nos últimos tempos mais afeito ao pelotão dos incendiários.

Os governadores, também neste consenso, perceberam logo que o presidente da República está em campanha eleitoral e quer mesmo é desestabilizá-los. Tendo o enfrentamento da pandemia sob sua responsabilidade, apegaram-se aos ministros que funcionam para seguir seu caminho sem ter de dar satisfação a Bolsonaro.

Foi exatamente esta política de “controle de danos” que entrou em ação, na segunda-feira, para dissuadir o presidente de demitir o ministro da Saúde. Com sucesso, até terça, 7. Bolsonaro é imprevisível na sua marcha de dois passos para a frente e dois para trás.

O segundo consenso, também invisível, que a política está à procura e do qual são conhecidos apenas alguns sinais, é encontrar a forma de afastar Bolsonaro. Seja criando condições para a renúncia, seja pelo impeachment. Não são soluções imediatas. Prioridade, agora, é a vida, por um fio no Brasil e no mundo.

Entre os sinais emitidos, foi grave o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), dizer com toda a clareza que o presidente não tem coragem de demitir um ministro, deixando a Bolsonaro a opção de se complicar, se demitir, ou parecer covarde, se não demitir.

Outro, igualmente grave, foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) dizer que, se Bolsonaro perder as condições de governar, “o que se vai fazer, muda”. O DEM e o PSDB sabem como se faz, estiveram à frente dos dois impeachments presidenciais havidos no Brasil nas duas últimas décadas.

Um governo de amadores - RUY CASTRO

Folha de S. Paulo - 08/04

Um dia, seus poucos membros profissionais se envergonharão de ter participado dele



Jair Bolsonaro foi educado em quartéis. Como não se conhecem trabalhos de sua autoria sobre história do Brasil, matemática e balística, disciplinas de interesse dos militares, o mais perto que desempenhou de uma atividade científica pode ter sido esfregar cavalos. Isso não o impediu de, como presidente da República, dar palpite sobre o coronavírus, minimizando-o ("Uma gripezinha! Um resfriadinho!"), estimulando as pessoas a correr o risco de contraí-lo e jogando com a saúde da população.

A audácia de Bolsonaro ao desafiar a comunidade científica mundial, ofender os já milhares de mortos e tentar esvaziar o seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta —que ele só não demitiu na segunda-feira porque foi peitado por gente ainda sã no governo— não tem equivalente nos anais.

Para piorar, seu estilo de governar, arrogante, despótico e indiferente às consequências, tem sido replicado por vários de seus auxiliares, não por coincidência também autorizados a pontificar sobre assuntos além das respectivas solas.

Com sua vocação para a chanchada, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, por exemplo, criou um problema internacional com uma piada em que comparou os chineses ao Cebolinha. A secretária de Cultura, Regina Duarte, postou um vídeo falso em que o ministro da Saúde parecia autorizar o uso da cloroquina como um elixir mágico contra o vírus —o que Regina Duarte tem a ver com saúde? Em que ciência se basearam tantos ministros para pregar que só os maiores de 60 anos devem se confinar? E, nesse caso, quem autorizou o general Augusto Heleno, macróbio e portador do vírus, a desafiar as autoridades sanitárias e quebrar a quarentena que milhões de brasileiros prudentes estão cumprindo?

É um governo basicamente de amadores. Por isso essas pessoas foram escolhidas para integrá-lo. As exceções um dia se envergonharão de ter participado dele.

Ruy Castro, jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.

Hamburgo, 1892 - ELIO GASPARI

O GLOBO/FOLHA DE SP - 08/04

O andar de cima sabia mais, e assim a cólera matou dez mil pessoas na última epidemia do bacilo na Europa


Há os conservadores e há os atrasados, mas os comerciantes e banqueiros de Hamburgo achavam que eram conservadores iluminados, mas eram também atrasados. Em agosto de 1892, a cidade era administrada pela plutocracia local. Tinha o maior porto da Alemanha e macaqueava os ingleses. Morreu gente nos bairros pobres, mas não podia ser cólera, pois essa peste já teria sido controlada na Europa. A cidade tinha lindos prédios, mas não havia começado a obra para tratar sua água. Em 1871 seus notáveis haviam recusado a obrigatoriedade da vacina contra a varíola, porque ofenderia o direito das pessoas. (33 anos depois, Rui Barbosa usou o mesmo argumento, estimulando a rebelião de alguns militares e a maior revolta popular do Rio de Janeiro.) Tudo em nome dos princípios do liberalismo político e econômico que administrava a cidade.

Os plutocratas de Hamburgo acreditavam que a cólera disseminava-se por miasmas do ambiente, mais perigosos nos bairros de gente pobre e suja. Nove anos antes, o médico Robert Koch havia demonstrado que a cólera era transmitida por um bacilo e circulava com a água. Como eles acreditavam nos vapores, recusaram-se até a endossar a obrigatoriedade de fervê-la. (Em 1904, quando Oswaldo Cruz fumegava as casas do Rio para matar o mosquito da febre amarela, vários médicos ilustres insistiam na teoria do miasma.)

Até o verão de 1892 os plutocratas de Hamburgo entendiam que tudo dependia da higiene individual. O negacionismo dos notáveis durou pouco, até que começou a morrer gente no andar de cima. A imprensa havia evitado o assunto e a imediata instituição de uma quarentena foi descartada, pois prejudicaria os negócios. Quando as ruas estavam tomadas por cadáveres, o governo de Berlim mandou Robert Koch a Hamburgo e ele contou: “Senhores, eu esqueci que estava na Europa”. Oito anos antes, Nápoles, velha cidade insalubre com seu porto, havia derrubado a cólera com uma quarentena.

Uma médica americana que estava em Hamburgo escreveria: “Treze epidemias leves não haviam conseguido mostrar aos governantes da cidade que deveriam botar a casa em ordem.”

A história dessa epidemia, com dez mil mortos, foi contada pelo historiador inglês Richard Evans (“Death in Hamburg: Society and Politics in the Cholera Years, 1830–1910.” De 1988, infelizmente só existe em papel.)

Sir Richard evitou atribuir o desastre a um mero interesse econômico. Ele foi mais fundo, mostrando que as opiniões dos médicos não são autônomas, mas têm raízes e funções sociais. Os donos das teorias do miasma eram médicos, como o doutor Osmar Terra.

Aos 72 anos, numa entrevista ao repórter Isaac Chotiner, Evans rebarbou a teoria segundo a qual ditaduras e democracias lidam com epidemias de maneiras diferentes.

“[Epidemias] exigem grandes intervenções dos governos. Seja qual for a sua forma, seja qual for o tipo do Estado ou o partido que está no poder. De certa maneira, é a epidemia quem dá as cartas.”

Hoje, na praça em frente à Bolsa e à prefeitura de Hamburgo, um monumento lembra os mortos da epidemia de cólera. Ele foi esculpido em 1896. Oito anos depois, no Brasil, ainda se falava em miasma. O presidente Rodrigues Alves e o médico Oswaldo Cruz tiveram que enfrentar uma revolta contra a vacina obrigatória. Grande presidente, esse Rodrigues Alves.


Choque com Mandetta revela insegurança do presidente - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 08/04


O livro “A cadeira da águia”, do escritor mexicano Carlos Fuentes, tem uma ótima citação de Stálin que serve como uma luva na disputa em curso entre o presidente Bolsonaro e seu ministro da Saúde Mandetta. Digo “em curso” porque não acredito que o presidente Bolsonaro se recolha diante da impossibilidade de impor sua vontade. Tentará novamente.

Na década de 30 do século passado, relata Carlos Fuentes, um assessor do líder soviético gritou ao ser elogiado por seu trabalho: “Por favor, não me elogiem! Não me mandem para a Sibéria”. A insegurança de líderes autoritários, sejam de esquerda ou de direita, é recorrente na história da civilização, e estamos vendo uma repetição dessa eterna disputa de poder, real ou imaginária.

Muitos ministros de Bolsonaro se incomodam com os elogios, pois sabem que podem ter problemas com o capitão. Para compensar, alguns começam a elogiar Bolsonaro e a concordar com ele pelas redes sociais, que é onde o registro vale de verdade para o presidente e seus acólitos.

Esse temperamento inseguro do presidente tem rendido comentários e memes nas mesmas redes sociais, tão valorizadas pelo próprio presidente, que revelam a percepção das angústias de Bolsonaro. O que mais esteve presente nas redes durante essa crise foram brincadeiras sobre os ministros mais criticados de seu governo, como o da Educação Abraham Weintraub, o chanceler Ernesto Araújo ou o do Meio Ambiente Ricardo Salles.

“Se começarmos a elogiar o Weintraub, será que ele cai?”, é um exemplo do humor cáustico das redes sobre o comportamento nada errático do presidente, que protege os que são “perseguidos” pelos “jornalistas esquerdistas”, e coloca na sua mira os ministros que são elogiados. Se seus “inimigos” gostam deles, é porque não são confiáveis.

O caso do ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antonio é o mais enigmático de todos os que Bolsonaro protege. Acusado de crime eleitoral como coordenador de um esquema de candidaturas “laranjas”, ele jamais foi incomodado por Bolsonaro, que se jacta de não aceitar corrupção em seu governo. O fato de a acusação se referir à período anterior ao seu mandato presidencial não explica essa leniência, pois quando escolhido o ministro já respondia a esses questionamentos.

O fato é que o presidente Bolsonaro lida diariamente com essas angústias que lhe comem as entranhas, situação exacerbada depois que levou a facada durante a campanha eleitoral. Na ocasião, seu filho Carlos já tuitara dizendo que havia gente no entorno de seu pai que queria sua morte com objetivos políticos, referindo-se claramente ao vice Hamilton Mourão.

Essa paranóia alimentada pela mente tumultuada de Carlos e seus dois irmãos persegue o presidente, e é impossível imaginar que possa ser tutelável. O general Vilas Boas, que uma vez me disse que o candidato Bolsonaro era “incontrolável”, recentemente foi mais cerimonioso numa entrevista e disse que “ninguém tutela o presidente”.

De fato, não é bom um presidente tutelado por militares. Mas também não é bom ter um presidente que coloca em risco a população que governa com decisões sem bases legais ou jurídicas. Não se elege um ditador, mas um chefe de Estado que aceita as regras do jogo democrático. Nela, os poderes se contrapõem e se controlam mutuamente.

Não aceitar essa premissa, e tentar mudar as regras do jogo que o colocaram no poder através de manipulação da opinião pública, coloca o presidente eleito em uma rota de ilegalidade que em algum momento vai cobrar consequências.

Um artigo importante, assinado por um grupo de juristas no Globo Online de ontem, define bem os limites presidenciais numa democracia: “Um presidente da República está limitado pela ciência — porque está limitado pela realidade. Não pode decretar que o sol nasça no poente e se ponha no nascente. Não pode negar evidências científicas seguras, tampouco orientar que sua administração assim o faça”.

Isso quer dizer que o presidente Bolsonaro não pode nem decretar que a terra é plana, embora possa acreditar nisso, nem dar fim à quarentena sem apoio de bases cientificas. Uma frase atribuída ao chefe do gabinete Civil do governo Geisel, Golbery do Couto e Silva, define bem a situação: “Há três tipos de poder, o que você acha que tem, o que os outros acham que você tem, e o que realmente você tem.”

Os incendiários e os bombeiros - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 08/04

A tarefa dos militares lotados no governo, como o general Braga Netto, tem sido a de proteger o presidente Bolsonaro de si mesmo e do tal “gabinete do ódio”

O presidente Jair Bolsonaro esteve a ponto de demitir seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, segundo informações de bastidores que circularam em Brasília ao longo de toda a segunda-feira. Não o fez, mas isso não significa que não venha a fazê-lo no futuro próximo, a julgar pelo clima de crispação criado pelo próprio Bolsonaro, empenhado nos últimos dias em desmoralizar publicamente o ministro Mandetta mesmo diante da brutal crise sanitária causada pela epidemia de covid-19.

O motivo do recuo de Bolsonaro não ficou muito claro, assim como já não eram muito claros os motivos pelos quais o presidente estava investindo contra um de seus ministros – e não um qualquer, mas sim, justamente, aquele sobre cujos ombros está a responsabilidade de organizar os esforços do governo federal para enfrentar a epidemia. Sob a Presidência de Bolsonaro, a rigor, nada parece fazer muito sentido, a não ser para a chamada ala “ideológica” que assessora o presidente, e para a qual tudo se resume à luta pelo poder contra os “comunistas” – nome genérico de todos os que essa turma considera como inimigos.

Seja como for, o recuo de Bolsonaro em sua escalada contra o ministro Mandetta, ainda que provavelmente seja apenas momentâneo, é um indicativo de que o presidente se viu limitado pelas circunstâncias. Ou seja, teve que se conformar com as coisas como elas são, e não como os bolsonaristas radicais que o cercam gostariam que fossem.

A julgar pelo que tem sido o comportamento de Bolsonaro até aqui, no entanto, é difícil acreditar que o presidente tenha se dado conta sozinho de que não é prudente brigar tanto com a realidade, especialmente no momento em que o País mais precisa de paz para enfrentar a calamidade sanitária e econômica causada pela epidemia. No caso específico da quase demissão do ministro Mandetta, Bolsonaro voltou atrás depois de ser convencido pelo seu ministro da Casa Civil, general Walter Braga Netto, segundo revelou reportagem do Estado.

Essa informação confirma o papel de “gerente” do governo assumido pelo ministro Braga Netto, formalmente escalado para comandar o comitê de crise que coordena as ações do governo durante a epidemia. A Casa Civil tem entre suas funções primárias justamente a de coordenar a ação do Ministério, mas atualmente, em razão das características caóticas da governança de Bolsonaro, seu titular também está tendo de fazer entrar em forma a própria Presidência.

Assim, o ministro Braga Netto, general que se destacou ao liderar a intervenção federal no Rio de Janeiro em 2018, parece trabalhar ao mesmo tempo como uma espécie de moderador no Palácio do Planalto em face do avanço da ala “ideológica” dentro do governo – a ponto de um de seus principais expoentes, o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente e líder do chamado “gabinete do ódio”, ter ganhado uma sala ao lado do gabinete do pai. Não à toa, partem de Carlos Bolsonaro alguns dos piores ataques nas redes sociais aos militares que estão no governo e que, como Braga Netto, tratam de temperar os ímpetos voluntaristas do presidente.

A tarefa dos militares hoje lotados no governo, portanto, tem sido a de proteger o presidente Bolsonaro de si mesmo e do tal “gabinete do ódio”, dirigido a distância por um ex-astrólogo que mora nos Estados Unidos. Essa figura extravagante, ao exigir a demissão de Luiz Henrique Mandetta, escreveu nas redes sociais que o ministro da Saúde “é o exemplo típico do que acontece quando um governo escolhe seus altos funcionários por puros ‘critérios técnicos’, sem levar em conta a sua fidelidade ideológica”.

Ao desestimular a demissão do ministro Mandetta, o general Braga Netto e outros que nisso se empenharam provavelmente atuaram pela lógica segundo a qual essa atitude intempestiva minaria o governo a ponto de ameaçar sua própria continuidade. É justamente esse clima de confronto e até de ruptura que interessa muito aos fanáticos do “gabinete do ódio”, que apostam no caos, mas não interessa nada ao País, que precisa desesperadamente de tranquilidade política para atravessar a tormenta.


terça-feira, abril 07, 2020

A paralisia do Estado segregado da Nação - FERNÃO LARA MESQUITA

ESTADÃO - 07/04

A muralha regulatória chegou à perfeição: pôs fora da lei as ações a favor da sociedade


É melancólica essa novela da disponibilização do socorro financeiro à economia paralisada pelo coronavírus e da exploração política da “culpa” pela demora em consegui-la.

Como de hábito, os funcionalismos “de direita” e “de esquerda” puseram-se fora do “Orçamento de Guerra”, o que confirma e aprofunda o nosso apartheid. Todas as medidas do Estado para com o Estado para coibir “malfeitos” ou incentivar comportamentos desejados estão fadadas a transformar-se em ações entre amigos, seja para não serem aplicadas aos funcionários culpados, seja para serem aplicadas a todos independentemente de merecimento.

O mundo que funciona é o que não cuida de legislar desenfreadamente para cercar comportamentos possíveis, atravancando a vida de todo mundo, mas premia ou pune inexoravelmente, por iniciativa popular, os comportamentos de fato havidos, pois, sendo o povo a vítima dos maus ou o beneficiário dos bons comportamentos dos agentes estatais, é ele a única entidade em condições de julga-los com legitimidade. Mas o Brasil não aprende com os fatos e a tudo responde com mais Estado e menos cidadania.

Na semana passada atribuí à China a invenção do método e errei. Foi da Coreia do Sul a ideia de aplicar o aparato de espionagem que as gigantes globais de animação de redes montaram para roubar e vender informações sobre cada um de nós a quem quiser pagar por elas, dos comerciantes aos políticos, passando pelos assassinos profissionais, no combate ao coronavírus.

A má vizinhança tornou-os atentos e a epidemia de gripe com síndrome respiratória grave de 2015 (Sars), prima desta, levou-os à revisão e consolidação de um conjunto de leis que define responsabilidades do governo federal, dos governos locais, dos médicos e dos cidadãos para desimpedir ações voltadas para a prevenção, notificação, investigação, compensação e mobilização de recursos de combate à epidemia.

A Coreia fez, em resumo, tudo o que o resto do mundo não fez, especialmente evitar depositar nas mãos da China a segurança da sua saúde pública, deixando para importar de lá tudo quanto é necessário para garanti-la, como fizeram todos quantos agora ardem no fogo da pandemia. Graças a isso, aplica hoje 5.200 testes por milhão de habitantes, enquanto os Estados Unidos ainda não chegaram a 100, e tem em estoque os respiradores, testes e equipamentos de proteção (EPIs) essenciais à emergência.

Criou, então, um “aplicativo de autodiagnóstico”, que cruza as respostas a um questionário com os resultados dessas medições e o log retroativo de deslocamentos físicos nos últimos 14 dias de cada cidadão, via celular, para atribuir-lhe uma classificação - vermelho, amarelo ou verde - que define seus direitos e deveres quanto à mobilidade ou graus de isolamento. Agora o celular é usado e exigido como um passaporte, o que permitiu ao país continuar funcionando enquanto combate a epidemia, com segurança e eficiência. É esse o esquema que vem sendo imitado por todo mundo que ainda pode fazê-lo, como Israel, Alemanha e até a própria China.

Quarentena burra, portanto, fica mais claro a cada minuto, é para quem não tem mais nada, nem testes, nem EPI, nem organização e, portanto, nenhuma noção segura do que está acontecendo. É o “remédio” que restou aos políticos relapsos, que não fizeram a lição de casa para não parecerem o que são. O único recurso ao alcance de muita gente que já foi boa como Estados Unidos e grande parte da Europa, especialmente a latina, por razões que incluem dosagens variáveis de incúria, de dolo e até de cinismo.

Todo mundo, entretanto, já admite pelo menos onde foi que errou e corre, Estados e cidadãos juntos, para construir a ponte que permite sair da quarentena burra - que, posto que a epidemia só cessa quando a maioria contrai o vírus e fica imunizada, serve, no máximo, para desconcentrar o número de mortes - e evoluir para a quarentena inteligente, que evita a hecatombe econômica.

O ministro Mandetta já mencionou que tem uma equipe completa correndo atrás da nossa versão do algoritmo coreano. Só que o caminho do Brasil está travado pela solidez mineral da burrice dos “soldados da fé”, cujo objetivo não é buscar a verdade, mas apenas “eliminar o oponente”. Estes, à direita e à esquerda, tanto quanto os que amplificam seus coices e rasteiras na mídia, bastam-se uns aos outros no seu ódio mútuo. Os pró-quarentena excluem tudo menos a quarentena e os contra-quarentena admitem tudo menos a quarentena, morra quem morrer, o que proporciona que a privilegiatura que come o dinheiro que nos falta permaneça gostosamente na sombra.

É debaixo desse barulho que a gente de boa-fé se debate trágica e inutilmente no atoleiro dos milhões de leis e regulamentos insanos que dão pretexto à colonização do Estado pela legião de fiscais, fiscais dos fiscais e “tribunais temáticos”, a rainha das “jabuticabas”, que mantém o País Real “rachadinho” e a serviço deles. Erguida para blindar o Estado contra a interferência do povo, a muralha regulatória chegou à perfeição: pôs fora da lei as ações do Estado a favor da sociedade.

JORNALISTA

Será que objetivo era demitir Mandetta já? O alerta para um jogo com corpos - REINALDO AZEVEDO

UOL - 07/04


Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, no dia em que anunciou que fica no Ministério da Saúde depois de sua demissão ter sido dada como certa. Ficou sem ter de pedir perdão pelas coisas certas que fez. Sim, Bolsonaro faz um cálculo, e o objeto da contabilidade são cadáveres

Em meio a tantas coisas inéditas, parece que vimos mais uma: no dia em que o presidente prometeu demitir o ministro da Saúde, foi o ministro da Saúde, para todos os efeitos, quem demitiu o presidente. Deixo aqui uma questão: não terá Bolsonaro errado no tom no domingo? Quereria ele demitir mesmo o ministro, para valer? Arrisco-me a dizer que não.

Querer, eu sei, é claro!, que ele quer. Ocorre que pode ser obscurantista, mas não é burro. O número de contaminados e mortos vai subir exponencialmente. Todos sabemos disso. Mesmo com as medidas de isolamento social.

Se Mandetta caísse agora, Bolsonaro estaria obrigado a implementar outra política. Ainda que os governadores resistissem, o que o atual ministro chama de "movimentos assimétricos" nos Estados viraria uma rotina. Demitir o titular da Saúde seria chamar para o próprio colo os doentes e os mortos.

A cada palavra dita na sua entrevista coletiva, Mandetta respondia a Bolsonaro. Depois da truculência exibida pelo presidente, mais o ministro queria sair do que o presidente queria que ele saísse. E isso chegou a ser um fato por algum tempo porque também Mandetta não queria ficar.

E quem queria que ele ficasse?

Rodrigo Maia, presidente da Câmara.

Davi Alcolumbre, presidente do Senado.

Os 27 governadores.

Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa, que tem o apoio irrestrito dos comandantes militares.

Os ministros planaltinos oriundos da caserna: Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e general Braga Netto, chefe da Casa Civil. Augusto Heleno, infelizmente, quer hoje o que quer Bolsonaro. Saúdo o fato de ter se recuperado da Covid-19 sem sequelas, que se saibam ao menos. Mas parece que se deixou tutelar intelectualmente por quem deveria ser seu tutelado.

Ah, claro! A esmagadora maioria dos brasileiros também queria a permanência de Mandetta. Uma informação: quando começou a circular o boato da demissão, houve panelaço no meu bairro — de classe média alta e ricos. Não pergunto o voto de ninguém. O corte, digamos, sociológico me faz apostar numa maioria folgada pró-Bolsonaro em 2018. Quando o ministro concedeu a coletiva dizendo que não sairia, ouvi outra coisa inédita: panelaço a favor. Eu mesmo escrevi aqui outro dia que isso não existe. Agora existe! Bolsonaro convocou um para apoiá-lo e não aconteceu nada, lembram-se?

Mandetta, como brincava a turma nas redes sociais (tudo envelhece muito rápido) sambou na cara da sociedade -- ou melhor: na cara de Bolsonaro:
- reafirmou o isolamento social, deixando claro não ser quarentena ou lockdown, sem descartá-los;
- falou de sua escolha em favor da ciência, escandindo sílabas; no dia anterior, o presidente havia sido ungido como milagreiro, de joelhos, por um pastor;
- reiterou que o pior ainda está por vir;
- saudou o trabalho da imprensa;
- pediu que cada auxiliar direto seu reafirmasse as medidas adotadas até agora;
- contou que foi convocado a participar de reunião com médicos cheios de ideias sobre remédios, convidando-os a falar com a Associação Médica Brasileira e com cientistas que pesquisam o assunto;
- deu até uma bronca carinhosa dos funcionários do Ministério da Saúde que lhe foram empenhar apoio; pediu que fossem combater o vírus.

Atendeu, em suma, aos apelos para não sair, mas ficou evidente que, então, tem de ser do seu jeito. E, parece, enquanto estiver lá, que será.

O PIOR POR VIR

Ocorre que o pior, O MUITO PIOR, está por vir. Mesmo com o amansamento ou achatamento da curva, especialistas preveem dias caóticos para o sistema de Saúde. Os brasileiros precisam ser permanentemente alertados para o inexorável. Quando acontecer, sejamos claros, é evidente que vai cair a confiança em Mandetta e na estratégia até aqui adotada.

Diante do sofrimento e da eventual anomia, as pessoas procurarão culpados. E, então, o "presidente demitido" pode querer se apresentar para anunciar: "Não sou eu! Falei que daria errado! Ficamos com os doentes e mortos e sem os empregos" — como se estes fossem resistir se o governo mandasse os brasileiros para o matadouro.

Bolsonaro sabe que a situação vai piorar muito. Aliás, os fatalistas que buzinam à sua orelha contra o isolamento social, a exemplo de Osmar Terra (o senhor está entrando para a história, deputado, acredite!), certamente o advertiram disso, razão por que dizem que tudo o que se faz seria inútil. Operam como se o vírus exigisse uma cota pré-estabelecida de corpos.

E, parece, o presidente conta com isso para, então, voltar a liderar. Tudo, claro!, sempre a depender do estado de ânimo dos brasileiros. Às portas do Alvorada, no domingo, Bolsonaro demonstrou certa insatisfação com o fato de o povo ser "pacífico até demais"

CAMINHANDO PARA A CONCLUSÃO

Bolsonaro queria, sim, medidas de relaxamento e um Mandetta contra os governadores. Age nesse sentido porque precisa fazer a vontade, inclusive, de alguns empresários que financiam as milícias digitais, conforme apontou Rodrigo Maia no programa "Canal Livre".

Mais: como sabe o fiscal do Ibama que o multou em 2012 e perdeu o cargo de confiança em 2019, Bolsonaro é vingativo. Vale para ele a famosa frase de Talleyrand sobre um qualquer dos Bourbons: "Não aprende nada nem esquece nada".

Infelizmente, parece que o presidente está a fazer uma aposta macabra: tentar jogar nas costas de Mandetta e dos governadores, mais adiante, a suposta escolha errada, que então terá resultado em mortos e doentes aos montes.

E, no entanto, é preciso que se diga desde já: a escolha que está aí não é escolha. É o que apontam a razão e a ciência. É preciso que o ministro, sua pasta, os governadores e a imprensa sejam bastante realistas e, de fato, alertem os brasileiros para um período, com o perdão do clichê apavorante, de "sangue, suor e lágrimas".

Sem ele, é preciso que fique claro e explícito, seria ainda mais sangue, ainda mais suor, ainda mais lágrimas.

O RNA do bolsonarismo explica por que o dinheiro dos pobres ainda não saiu - REINALDO AZEVEDO

UOL - 07/04

Não sei, não...

O presidente Jair Bolsonaro, como resta evidente, está mais interessado em desestabilizar um ministério que tem tido uma boa atuação — o da Saúde — e não dá a mínima bola para o da Cidadania, que está encarregado de tornar viável o pagamento de R$ 600 aos pobres e informais que perderam renda.

Por que é assim?

Poucos perceberam, mas o presidente se traiu — isto é, cometeu um lapso não exatamente de linguagem, mas de pensamento — e revelou sem querer o que, por óbvio, está proibido de dizer de maneira clara, consciente. Ao fazer, do domingo, uma vez mais, a pregação em favor do fim do isolamento social, Bolsonaro registrou, em tom claro de lamento, a existência no país de um povo "até pacífico demais, muitas vezes, né?"!

O que é, na boca de Bolsonaro, "um povo até pacífico demais, muitas vezes"? Será que ele deseja a, digamos, revolução?

A fala é perigosa. Afinal, o homem já havia confessado, em entrevista, que estava, no que dizia respeito ao fim do isolamento horizontal, esperando "o povo pedir mais"...

É evidente que o "povo" que Bolsonaro tem em mente não é formado pelos pobres de tão pretos e pretos de tão pobres a reivindicar, por aí, igualdade ou justiça social — e de modo organizado e não-pacífico, certo? Para estes, suponho, ele prescreve o remédio típico de um admirador de ditaduras.

Parece que o presidente apostou que as medidas de isolamento social iriam gerar revolta — e não se descarte, por certo, o aumento da tensão social. Mas eis que os brasileiros também desenvolveram um saudável medo de morrer...

Não obstante, a situação dos muitos pobres, que já era dramática, caminha para ser desesperadora. Daí que o sr. Onyx Lorenzoni deva começar a pagar imediatamente o que lhes deve.

Pergunto: em que medida aquele "pacífico até demais" embute uma espécie de cálculo? Será que há gente no governo a pensar que um arranca-rabo de classes seria oportuno?

Esse governo tem, por assim dizer, um RNA intelectual, não é mesmo? E é evidente que isso pauta as suas ações.

No dia 1º de abril, por exemplo, Carlos Bolsonaro, a maior influência intelectual do presidente Jair Bolsonaro, que ganhou um gabinete no Palácio do Planalto sem ter cargo oficial, escreveu no Twitter a seguinte maravilha:
"O desenho é claro: partimos para o socialismo. Todos dependentes do estado até para comer, grandes empresas vão embora e o pequeno investidor não existe mais. Conseguem a passos largos fazer o que tentam desde antes de 1964. E tem gente preocupada com a fala do Presidente."

A gente olha para o rapaz e percebe logo a mente atormentada de um intelectual que devorou uma vasta biblioteca sobre o que é socialismo, capitalismo, liberalismo...

Dado o que sabemos sobre a relação de ambos, ninguém tem o direito de achar que o pai pense coisa muito diferente.

Ah, sim: "Você errou, Reinaldo. Escreveu RNA em vez de DNA". Não errei, não. Como o novo coronavírus, o bolsonarismo tem RNA. Infecta células, que passam a trabalhar para ele, como zumbis, deixando por um tempo inativo o sistema imunológico do bom senso.

É uma bênção quando o nº 1 sabe dar ordens - PEDRO CAFARDO

Valor Econômico - 07/04

Pessoas sensatas agem para que medidas restritivas façam efeito e crise possa ser superada o mais rápido possível



Chegará o dia em que os paulistanos lotarão a avenida Paulista, os cariocas superlotarão as praias de Copacabana e Ipanema e os brasileiros, em geral, sairão às ruas para comemorar o “Dia da Vitoria”. Muitos, com lágrimas nos olhos, esquecerão sua condição de petista ou bolsonarista, de esquerda ou direita e se abraçarão na via pública. Como no fim da Segunda Guerra, um marinheiro uniformizado beijará uma jovem enfermeira no cais do porto de Santos, a exemplo do que um americano fez na Time Square, em 1945.

Sim, esse dia da vitória, que na verdade será a derrota do coronavírus, vai chegar. Acredita-se, porém, que não haverá um único dia D dessa vitória, porque a retomada será gradual e também em tempos diferentes, dependendo do país e da cidade. Em Wuhan, na China, por exemplo, as comemorações já começaram.

Seja como for, haverá um momento em que, a um sinal das autoridades da área da saúde, a vida voltará ao normal. Estaremos livres das quarentenas e dos isolamentos sociais, sem riscos de morrer por deficiência respiratória. Estará terminada uma batalha global nunca antes travada pela humanidade com tamanha intensidade, caracterizada de um lado por um único inimigo, poderoso, e, de outro, por quase 8 bilhões de terráqueos.

As crianças e os jovens voltarão às escolas saindo cedinho de casa. As igrejas reabrirão suas portas para reunir seus fiéis. Os “farialimers” e similares retornarão aos escritórios refrigerados e os operários, às fábricas. Os casais voltarão a entrar nas salas de cinema com enormes sacos de pipoca. Os fanáticos por futebol voltarão aos estádios para berrar a favor e contra seus times - os técnicos voltarão a ser chamados de burros, e as mães dos árbitros, desrespeitadas.

Novos livros, uns bons e outros nem tanto, baseados em vida real ou em ficções imaginadas nos momentos de solidão, chegarão às livrarias. Compositores mostrarão músicas também criadas no desalento da quarentena. Algumas delas nos farão chorar.

Aviões voltarão a decolar cheios de turistas - inclusive, com empregadas domésticas -, levando filhos à Disney. Bares ficarão cheios de jovens e idosos falando alto. Restaurantes finos reabrirão suas portas, reescreverão seus cardápios com preços assustadores e reorganizarão filas de espera.

Filas também voltarão às lojas lotéricas, de pessoas com esperança de acertar na Mega-Sena. Os shopping centers recuperarão seu público fiel, que mais passeia do que compra. Os bailes funk, demonstração cultural das periferias, retomarão seus batidões barulhentos. O trânsito das grandes cidades voltará a ser infernal, as estradas ficarão congestionadas nos fins de semana, e as bicicletas reaparecerão em grande número.

A melhor notícia de todas, porém, é a certeza de que, nove meses depois do isolamento, o índice de natalidade aumentará muito em todo o mundo. Milhões de bebês virão substituir vidas tristemente perdidas e darão início à geração pós-corona. Serão os novos “baby boomers”, talvez tão numerosos quanto no pós-guerra, e que não terão as lembranças terríveis de seus pais e avós sobre esses tempos de doença, isolamento e sofrimento. Nem sofrerão com a memória de tantas perdas de pessoas queridas.

Orgulhosa de seus avanços tecnológicos em todas as áreas, inclusive na da medicina, a atual geração nunca imaginou que seria encurralada e ameaçada não pela bomba atômica ou pelas armas químicas dos ditadores, mas sim por uma microscópica proteína coberta de finíssima camada de gordura, um vírus.

Hora das pessoas sensatas
Os parágrafos acima não são devaneios. É certo que essa vitória sobre o vírus virá mais cedo ou mais tarde, ainda que seja gradual e que não tenhamos um dia D e que milhares de bravos soldados fiquem pelo caminho. E todo o esforço das pessoas sensatas, neste momento, é para que essa vitória venha o mais cedo possível.

Infelizmente, a Presidência da República ainda tenta convencer a opinião pública de que seus subordinados estão errados em suas determinações de isolamento social amplo. Vários chefes de Estado que tinham opinião semelhante mudaram de ideia à medida que o impacto da pandemia aumentava em seus países.

Não há espaço, num momento como este, para contestações leigas contra determinações da ciência. Vale, então, fazer uma citação de uma grande personalidade do século 20:

“O poder numa crise nacional, quando um homem acredita saber que ordens devem ser dadas, é uma bênção. Em qualquer esfera de ação, não há comparação entre as posições do número um e dos números dois, três ou quatro. Os deveres e problemas de todas as pessoas que não são o número um, são muito diferentes e, sob muitos aspectos, mais difíceis. É sempre uma infelicidade quando o número dois ou o número três têm que tomar a iniciativa de um plano ou de uma medida de peso. Ele tem que considerar não apenas os méritos da medida, mas também a cabeça do chefe; não apenas o que deve recomendar em sua posição e não apenas o que fazer, mas também o modo de obter anuência para isso e o modo de conseguir que seja executado”.

A citação entre aspas é de Winston Churchill, o poderoso primeiro-ministro britânico um dos líderes dos países aliados durante a Segunda Guerra. A declaração está em seu monumental livro de seis volumes, “Memórias da Segunda Guerra Mundial”, algumas páginas antes de citar sua famosa frase dita na Câmara dos Comuns - “Nada tenho a oferecer senão sangue, trabalho, suor e lágrimas” - ao conclamar o país para a vitória contra Adolf Hitler.

Em qualquer tempo da história, sem dúvida, é uma bênção quando o número um sabe quais ordens devem ser dadas. Neste momento, seria imprescindível.

Pedro Cafardo é editor-executivo

O capitão prepara o adeus ao marechal - ANDREA JUBÉ

Valor Econômico - 07/04

Bolsonaro não desistiu de demitir ministro da Saúde


O começo teve ar de mau agouro. No dia 20 de novembro de 2018, quando confirmou a escolha do ex-deputado federal Luiz Henrique Mandetta para compor o seu time de auxiliares, o então presidente eleito Jair Bolsonaro disse aos jornalistas: “eu confirmo o marechal Mandetta, que se Deus quiser assumirá ano que vem com essa enorme missão”.

É singular a associação do nome de Mandetta, na largada do governo, a um posto da hierarquia militar extinto em 1967. O marechalato havia se transformado no regime militar em uma espécie de sinecura a militares em fim de carreira, e o fim da patente - embora decretado como uma tentativa do presidente Castello Branco de impor revés ao general Costa e Silva - acabou recepcionado como um aceno à austeridade fiscal.

Voltando ao presente, é como se Bolsonaro ao anunciar o “marechal Mandetta” para o ministério o tivesse nomeado já com prazo de validade.

Sem vaticínios ou ilações, o que os fatos mostram nas últimas semanas é o desgaste da relação entre o presidente e o auxiliar acentuando-se num crescendo quase insuportável. No domingo, Bolsonaro admitiu a um interlocutor que o visitou no Palácio da Alvorada que a decisão de demitir o ministro da Saúde é irrevogável. A dúvida continua sendo quando consumar o ato.

Segundo interlocutores que se reuniram com o presidente nos últimos dois dias, Bolsonaro está convicto de que Mandetta extrapolou os limites da hierarquia e incorreu em quebra de confiança em uma sequência de ações que remontam ao início da crise do coronavírus.

Bolsonaro ouviu de um de seus comensais no Alvorada neste fim de semana que errou ao não imitar neste episódio o presidente americano Donald Trump, que se abespinhou com seu secretário de Saúde Alex Azar, o porta-voz da pandemia que roubou a cena.

Trump sugeriu que a palavra sobre a crise deveria ficar com o responsável pelo Centro dos Serviços de Medicare e Medicaid, Seema Verma. Depois, rendeu-se à figura de Azar e passou a dar entrevistas ao lado do auxiliar. Bolsonaro, na visão de aliados, errou porque ao contrário de Trump, preferiu romper com Mandetta e se isolar.

A conclusão de quem ouviu Bolsonaro e Mandetta ao longo da fervura é de que a demissão do ministro se transformou em uma questão de honra para o presidente, convencido de que o auxiliar desafiou sua autoridade. Bolsonaro tornou público esse inconformismo. Em uma entrevista de rádio, teve de lembrar: “O presidente sou eu”. No domingo, foi mais explícito: “A hora deles não chegou, mas vai chegar. E a minha caneta funciona e será usada”.

Num momento em que as pesquisas de opinião atestam a deterioração de sua popularidade, Bolsonaro continua dando sinais de que vai mais uma vez ceder à ala ideológica do governo e comprovar a influência de Olavo de Carvalho.

No meio da tarde de domingo, o guru bolsonarista em sua conta no Facebook a cobrança: “Fora, ministro Punhetta [Mandetta]!” E prosseguiu: “O Punhetta [sic] é o exemplo típico do que acontece quando um governo escolhe seus altos funcionários por puros ‘critérios técnicos’, sem levar em conta a sua fidelidade ideológica”.

Poucas horas depois, um Bolsonaro visivelmente contrariado pareceu em sintonia com Olavo ao admitir a apoiadores na porta do Alvorada, que havia se equivocado na composição de seu ministério. “Escolhi por critérios técnicos, errei com alguns, alguns já foram embora, estamos vivendo agora um novo momento”.

A opção pela ala ideológica enquanto a economia marcha sobre o cadafalso terá um custo político. Após horas de suspense, com impacto direto no mercado, e nova onda de panelaços em bairros influentes de São Paulo, Bolsonaro terminou o dia sem demitir o ministro da Saúde. Mas o ambiente continua tenso e os sinais estão truncados.

O embate arrastado com o ministro da Saúde já fez ruir o apoio do grupo político que avalizou a nomeação do “marechal Mandetta”, capitaneado pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), agora um opositor declarado de Bolsonaro. Da mesma ala, o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, saiu enfraquecido da Casa Civil, e o correligionário Abelardo Lupion perdeu o cargo de assessor especial no Planalto.

O apoio residual do DEM ao governo ainda não virou pó porque a manutenção de Mandetta no cargo garante a interlocução com os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (AP), e da Câmara, Rodrigo Maia (RJ). Se o ministro for afastado, a relação institucional pode implodir.

Enquanto Mandetta e sua equipe agonizaram mais 24 horas ontem no cargo, o ex-ministro da Cidadania Osmar Terra, cotado para substitui-lo, roubou os holofotes ao participar de uma reunião com Bolsonaro e os quatro ministros do Planalto - Walter Souza Braga Netto (Casa Civil), Jorge Antônio de Oliveira (Secretaria-Geral da Presidência), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional). A pauta foi a epidemia do coronavírus, mas sem o titular da Saúde.

Mandetta continua na cadeira, mas Terra calçou as chuteiras e está no aquecimento. Desde o ano passado, o emedebista faz movimentos discretos para tentar sentar na cadeira. A saúde sempre foi feudo do MDB, o partido dirigiu a pasta com o ex-deputado Saraiva Felipe (MG) e o hoje senador Marcelo Castro (PI).

De um lado, a cúpula do MDB afirma que se Terra for convidado por Bolsonaro, será um nome de sua cota pessoal. Nos últimos dias, as redes sociais do MDB publicaram mensagens explícitas de apoio a Mandetta e às medidas de distanciamento social.

A “cota pessoal” vale como retórica, mas se Terra ascender à Saúde, levará junto o MDB e acirrará a disputa de poder entre as siglas hegemônicas no Congresso. O MDB não tem ministério, mas tem os dois interlocutores do Planalto com o parlamento: os líderes do governo no Congresso, senador Eduardo Gomes (TO), e no Senado, Fernando Bezerra Coelho (PE).

Bolsonaro não tem base de apoio formal no Congresso, mas DEM e MDB têm apoiado o governo nas agendas econômicas. Acirrar a disputa entre as duas siglas às vésperas da sucessão nas presidências da Câmara e do Senado é inoportuno. Se ao fim e ao cabo Bolsonaro defenestrar o “marechal Mandetta”, perderá o DEM e a linha direta com o Congresso, num ambiente tenso em que a palavra “impeachment” deixou de ser um sussurro.

Cheque em branco - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 07/04

O Tesouro não tem recursos infinitos. Por estar em branco, o cheque que a sociedade acaba de conferir ao Executivo para lidar com a crise deve ser usado com muita responsabilidade


Não resta a menor dúvida de que, por mais robustas que sejam, as medidas adotadas pela maioria dos governos do mundo para mitigar os efeitos da epidemia de covid-19 sobre a economia não serão suficientes para evitar um desastre de proporções ainda desconhecidas. Assim, o aumento exponencial de gastos públicos tornou-se quase uma obrigação, sobretudo porque, além de reforçar o sistema de saúde, é preciso proteger os empregos e a renda da parcela da população que vive na informalidade e vê a fome bater à porta.

Num cenário como esse, é evidente que não se pode falar, ao menos neste momento, em contenção fiscal, razão pela qual é uma boa notícia a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 10/20, que criou o chamado “orçamento de guerra” – que tratará especificamente das despesas decorrentes do enfrentamento da epidemia, separado do Orçamento da União.

O texto passou na Câmara com votações expressivas (505 votos a 2 no primeiro turno e 423 a 1 no segundo) e está para ser apreciado a qualquer momento no Senado. Tal apoio a um projeto gestado pela própria Câmara é claro indicativo de que não há polarização política que resista ao imperativo de salvar vidas e proporcionar ao setor produtivo condições de sobreviver em meio à tormenta já em pleno curso.

A PEC do “orçamento de guerra” dá liberdade praticamente irrestrita ao Executivo, representado por um Comitê de Gestão de Crise, que será dirigido pelo presidente Jair Bolsonaro, para administrar os recursos destinados ao enfrentamento da epidemia. Até mesmo a regra de ouro – que impede o governo de emitir títulos para pagar gastos correntes – estará suspensa durante a vigência do estado de calamidade. O Congresso, contudo, se reservou o direito de sustar as decisões do comitê “em caso de irregularidade ou de extrapolação dos limites” estabelecidos na PEC. E fez bem. A calamidade não pode ser pretexto para que se criem despesas permanentes, estranhas ao estritamente necessário para o esforço do combate à epidemia.

Não é um risco desprezível, a julgar pelo histórico de irresponsabilidade do poder público com o dinheiro do contribuinte. Basta ver o que fez o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, na sexta-feira passada, ao determinar que a União pague a Estados e municípios o complemento das verbas do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef). Graças a uma interpretação criativa da lei que criou o fundo, que vigorou de 1998 a 2006, Estados com baixa receita e menos alunos julgavam-se no direito de receber o mesmo valor destinado aos Estados com muito mais alunos.

A decisão do ministro Dias Toffoli representa uma despesa adicional de R$ 90 bilhões para os cofres da União, já bastante comprometidos pela necessidade urgente de socorrer cidadãos e empresas em meio à epidemia de covid-19. É a criação de esqueletos fiscais dessa natureza que fragiliza as contas nacionais mesmo que não houvesse o novo coronavírus a nos atormentar.

Assim, não se pode permitir que as boas intenções – seja a melhoria da educação, seja a luta contra os efeitos da epidemia de covid-19 – sirvam como subterfúgio para favorecer grupos de interesse em detrimento do resto do País, a quem restará pagar a conta do colapso fiscal. “Tem de separar setores com problemas emergenciais do oportunismo”, disse ao Estado a economista Zeina Latif, que defendeu a manutenção do teto de gastos: “Tenho medo do precedente que se abre ao suspendê-lo”.

O secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, foi claro ao dizer que “não há por que continuar (no futuro) com políticas que só se justificam em um contexto de calamidade”, mas o receio de que isso venha a acontecer é mais que justificado. O Tesouro Nacional – leia-se, os contribuintes – não tem recursos infinitos, e tudo o que se fizer agora terá consequências graves no futuro. Justamente por estar em branco, o cheque que a sociedade acaba de conferir ao Executivo para lidar com a crise deve ser usado com muito mais parcimônia e responsabilidade.

Caneta sem tinta - ELIANE CANTANHÊDE

O Estado de S.Paulo - 07/04

Demitir Mandetta é provocar STF, Congresso, governadores, sociedade e... generais



Na reunião decisiva de dez dias atrás em que alertou o enciumado presidente Jair Bolsonaro de que não pediria demissão, o ministro Luiz Henrique Mandetta também assumiu o compromisso de não capitalizar política e eleitoralmente o eventual sucesso da estratégia do Ministério da Saúde ao fim da pandemia. Isso, porém, não depende só de Mandetta, depende das circunstâncias.

Médico ortopedista, nascido em Mato Grosso do Sul, 55 anos, Mandetta foi secretário de Saúde no seu Estado, cumpriu dois mandatos de deputado federal e não disputou a eleição de 2018. Mas, apesar do currículo político magro e da discrição no primeiro ano no Ministério da Saúde de Bolsonaro, ele conquistou imensa visibilidade, disparou em popularidade e passou a mexer com os brios de Bolsonaro ao ser olhado como candidato. A quê? Neste momento, a qualquer coisa.

No início dos anos 1990, o professor e sociólogo Fernando Henrique Cardoso não se reelegeria para o Senado e discutia se valia a pena disputar uma vaga na Câmara quando o presidente Fernando Collor caiu, o vice Itamar Franco assumiu e ele, no Ministério da Fazenda, foi o grande avalista do Plano Real. Conclusão: em 1994, elegeu-se presidente da República já no primeiro turno.

O Plano Real foi para FHC o que a pandemia pode se tornar para Mandetta: a grande alavanca da sua carreira política. O Real, por ter sido o maior plano de estabilização da economia da história. A covid-19, por ser o maior desafio de vida ou morte das pessoas e das lideranças de todo o mundo. O ex-presidente Lula levou tão a sério o isolamento que nem se sabe onde está, nem que nome ele trabalha para 2022. Governadores equilibram-se entre a desgraça e o sucesso. Ciro Gomes só sabe gritar. Luciano Huck só aparece em propaganda de TV. E, em política, não há vácuos.

Bolsonaro está esfarelando seu capital eleitoral e sua credibilidade mundial e nacional com sua incrível teimosia e, quanto mais ele cai, mais Mandetta sobe. Até ao instituir entrevistas diárias de ministros para tirar os holofotes do titular da Saúde, Bolsonaro conseguiu o efeito oposto: as entrevistas se transformaram justamente em manifestação de união em torno de Mandetta.

Ressentido desde que o ministro trabalhou republicanamente com o governador João Doria contra a pandemia, Bolsonaro agora desdenha de quem se julga “estrela” e saca sua caneta para tentar mostrar quem manda. Sua obsessão em demitir Mandetta, porém, pode custar muito mais caro do que ele imagina. “O governo acaba”, diz importante personagem do poder.

O Supremo em peso, os presidentes e líderes do Congresso, a grande maioria dos governadores, os maiores partidos e a opinião pública se voltariam contra o presidente, que correria o risco de ser desautorizado em todos os flancos – e os generais do poder sabem disso. O STF pode derrubar a demissão de um ministro? Resposta de um jurista da ativa: “Em tese, ele não pode até que possa”. Ou seja, seria inédito, não impossível.

E, além do STF, Estados e municípios podem se rebelar contra o poder central (contra o fim do isolamento social, principalmente) e convém não esquecer que o deputado Rodrigo Maia não tem a caneta, mas tem a pauta da Câmara: cabe a ele decidir, por exemplo, se põe ou não em votação um processo de impeachment.

Se demitir Mandetta e desarticular a Saúde em meio a uma pandemia que matou mais de 75 mil pessoas no mundo até ontem, Bolsonaro estará traçando seu próprio destino e o de Mandetta. No vazio de homens e ideias que o Brasil vive, nada como uma pandemia para destruir governantes e alavancar novos líderes. Uma constatação que enlouquece Bolsonaro e prejudica Mandetta, mas é impossível tapar o sol com a peneira. O rei está nu.

Um ministro abusado - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 07/04

Brasileiros colhem os ventos e os raios da tormenta criada pela copa e cozinha de Bolsonaro


Duas semanas após o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) ter provocado uma crise diplomática ao publicar um tuíte acusando os chineses de terem escondido informações sobre o início da pandemia do novo coronavírus, o que levou o embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, a divulgar uma nota na qual afirmava que o filho do presidente Bolsonaro contraíra um “vírus mental que infectou a amizade entre os povos”, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, fez uma bobagem semelhante. Em tuíte postado no sábado, usou a imagem do Cebolinha, personagem da Turma da Mônica, na Muralha da China, e substituiu o “r” pelo “l”, ironizando o modo como ele acha que os chineses falam português. “Quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial?”, escreveu o ministro.

Essa iniciativa irresponsável foi marcada por três importantes coincidências. Entre segunda e terça-feira da semana passada, o governo brasileiro foi surpreendido com a decisão do governo chinês de enviar material médico-hospitalar para os Estados Unidos, em detrimento de acordos que já haviam sido firmados com o Brasil. Na quinta e na sexta-feira, o ministro da Saúde, Luís Henrique Mandetta, deu declarações explicando o quanto o Brasil depende do fornecimento de equipamentos provenientes da China, a principal fonte mundial de material médico-hospitalar, para poder enfrentar a pandemia do novo coronavírus de modo eficiente. Além disso, no dia em que Weintraub postou seu tuíte, o cônsul-geral da China no Rio de Janeiro publicou um artigo no jornal O Globo refutando as declarações ofensivas do filho do presidente Jair Bolsonaro.

Após a inconsequente atitude do ministro da Educação, que deu a medida de seu despreparo, a embaixada da China distribuiu nota classificando suas palavras e ironias como “absurdas e desprezíveis”, com “cunho fortemente racista e objetivos indizíveis”. A nota também afirma que, ao estigmatizar os chineses, o tuíte de Weintraub vai na contramão da “cooperação proativa internacional necessária para acabar com a pandemia e restabelecer a saúde pública mundial com brevidade”.

Nas duas notas de protesto divulgadas pela embaixada em resposta às tolices do filho de Bolsonaro e de seu ministro da Educação, o denominador comum foi a menção ao fato de que as falas de ambos “causaram influências negativas no desenvolvimento saudável das relações bilaterais China-Brasil”. Isso dá a medida do descalabro com que o governo Bolsonaro vem se comportando em matéria de política externa. Justamente no momento em que o Brasil mais precisa da China para salvar vidas, a população brasileira colhe os ventos e os raios da tormenta criada pela copa e cozinha do presidente da República.

No primeiro incidente, em vez de pedir desculpas exigidas pela China, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, saiu em defesa do filho do presidente, limitando-se a afirmar que a opinião do deputado Eduardo Bolsonaro não refletia a posição do governo brasileiro. O que dirá agora após o segundo incidente, quando tolices semelhantes foram postadas por um ministro de Estado? Ainda no primeiro incidente o presidente Bolsonaro tentou remediar os efeitos negativos da fala de seu filho e ligou para o presidente chinês, Xi Jinping, a pretexto de “reforçar os laços de amizade”. Se for atendido, o que poderá alegar agora, depois do texto difamatório que Weintraub postou em seu Twitter?

Em matéria de relações exteriores, os países têm de fazer escolhas. Como qualquer nação soberana, a China escolhe os beneficiários do material médico-hospitalar que produz conforme seus interesses estratégicos e com base na qualidade de seus relacionamentos bilaterais. Diante do estrago feito primeiramente pelo deputado Eduardo Bolsonaro e, agora, pelo ministro Weintraub, qual será o comportamento do governo brasileiro, uma vez que nada fez para merecer tratamento favorecido ou prioritário do governo chinês nesta crise sanitária?

Domingo eu almocei duas vezes - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 07/04

Como há mal no mundo, um deus onisciente, onipotente e benevolente não existe


Domingo passado eu almocei duas vezes. Fi-lo porque comer é gostoso e para me contrapor ao jejum anticoronavírus convocado pelo presidente Jair Bolsonaro e por lideranças evangélicas. Se existe um deus com as características apregoadas pelas principais religiões monoteístas, então a culpa pela epidemia e o sofrimento que ela causa é toda dele —e parece inútil apelar para sua misericórdia.

O problema do mal, que já abordei neste espaço, é filosófico e, ao que tudo indica, foi levantado pela primeira vez por Epicuro (341 a.C.-270 a.C.). Numa formulação mais moderna e técnica, o argumento reza: se há um deus onisciente, onipotente e benevolente, então não existe mal. Ora, há mal no mundo.

Portanto, um deus onisciente, onipotente e benevolente não existe.

A forma lógica do raciocínio, "modus tollens", é impecável. Se as premissas são verdadeiras, a conclusão necessariamente também o é. Daí que, para esboçar uma resposta, é preciso negar a onipotência/onisciência de deus, ou sua benevolência ou a existência do mal.

Teólogos e filósofos teístas experimentaram um pouco de tudo. Especialmente entre os cristãos, é comum tentar resolver o imbroglio refugiando-se no livre-arbítrio humano —que não deixa de ser uma limitação do poder divino. Outra saída popular é jogar tudo para o além. A justiça divina se realiza mesmo é na próxima vida, na qual cada um receberá o que de fato merece. Assim, o que vemos hoje como mal não passa de uma ilusão de momento, que será sanada na eternidade.

Ainda que engenhosas, nenhuma dessas réplicas parece muito satisfatória. A solução mais econômica e elegante, creio, é aceitar a conclusão lógica de que não existe nenhum criador com as características que as religiões monoteístas lhe atribuem. A vantagem adicional desse caminho é que podemos comer à vontade e responsabilizar com mais veemência governantes pelas decisões que tomam.


Hélio Schwartsman
Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…".

A década infame - FABIO GIAMBIAGI

O GLOBO - 07/05

Temos pela frente um ano duríssimo, com possibilidade da pior queda do PIB


Traçar cenários é uma tarefa das mais difíceis. Em circunstâncias como as atuais, ela se apresenta como um desafio sujeito a erros enormes. Embora a atividade seja passível de todo tipo de chacota por parte dos não economistas — o que é compreensível —, o fato é que pensar acerca do que nos espera é essencial para muitas atividades. Imaginemos o dono de uma lanchonete. Deve se preparar para uma depressão econômica ou para um mês e meio de dificuldades, seguidas de um retorno à normalidade? E o megainvestidor que planeja investir numa rodovia? O que ele deve encontrar pela frente? Imaginar o futuro é inerente a qualquer atividade que envolva assumir riscos envolvidos num negócio econômico. O que se segue é um modesto exercício, assumidamente precário — posto que envolvido por uma enorme incerteza acerca dos desdobramentos do coronavírus — acerca do que podemos esperar para o PIB de 2020.

Há três coisas fundamentais:

1) a extensão da epidemia, algo que ninguém sabe;

2) a duração das medidas de confinamento da população;

3) o efeito defasado na situação econômica de quem vier a ser afetado pela interrupção do fluxo de renda.

A epidemia pode durar dois meses ou quatro? O confinamento durará seis semanas ou dez? Como se comportará o gasto de quem deixou de faturar um mês e tem contas a pagar que se acumularão nos próximos 30 ou 60 dias? A incerteza é maiúscula em relação a todos esses aspectos.

A crise tem alguns antecedentes, ainda que causados por outros fenômenos. No confisco de Collor, o PIB caiu 4,3 %. Na crise de 2008, nos primeiros dois trimestres após a crise, o PIB colapsou um total de 5,5 %, para se recuperar intensamente, mas só no terceiro trimestre após a quebra da Lehman em setembro daquele ano.

Pensemos, como hipótese, no seguinte cenário. Suponha-se uma contração de 2 % (ajustada sazonalmente) no primeiro trimestre e mais forte (5 %) no segundo, com uma recuperação do índice do quarto trimestre de 2019 só ocorrendo no primeiro trimestre de 2021, o que, dado tudo o que está acontecendo, pode ser considerada uma hipótese otimista. Nesse caso, a contração do PIB seria de 3,2 % em 2020. Registro que neste exercício estamos lidando com números mais otimistas que as projeções que começam a circular para as taxas de crescimento do PIB na Europa e nos EUA para o primeiro e o segundo trimestres, que são pavorosas, típicas de uma economia que, por algumas semanas, praticamente está operando em “ponto morto”. A base para isso é a suposição de que o lockdown se estenda aqui menos tempo que em outros países, mas é algo acerca do qual é impossível assumir hipóteses categóricas.

Temos pela frente um ano duríssimo, com possibilidade de assistirmos à pior queda do PIB desde a origem das Contas Nacionais, iniciadas na década de 1940. Quero, no final, compartilhar uma reflexão amarga com os leitores. A década de 1980 é conhecida no Brasil como a “década perdida”, porque nela tivemos uma queda acumulada do PIB per capita de 4%. Mesmo assim, nos tempos em que eu dava aula costumava dizer que isso ocorreu em termos quantitativos, mas que naqueles anos houve três grandes avanços:

1) o diagnóstico da crise, que propiciou as medidas posteriores;

2) o início da constituição de um melhor arcabouço fiscal para lidar com os desastres anteriores;

3) e, o mais importante, a recuperação das liberdades democráticas.

Agora, além de estarmos a caminho de termos uma renda per capita em 2020 pelo menos 5 % inferior à de 2010, estamos dando sequência a uma página negra de nossa história. Anos em que tivemos desde uma corrupção desenfreada, até todo tipo de equívocos em relação ao meio ambiente, à inserção do Brasil no mundo, à educação, à postura diante da ciência e ao papel da política, quando o bom senso saiu de férias. Ousaria prever que o período 2011/2020 será conhecido no futuro pela historiografia como a “década infame”, quando o país se desencontrou de si mesmo. Pior que a década perdida.

Presidente flerta com seu fim político - CARLOS ANDREAZZA

O GLOBO - 07/04

Herói por contraste (obituário)

Foi Bolsonaro quem converteu a normalidade de Mandetta em algo notável


Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro em atividade, não é um técnico; mas um agente político de passado modesto, médico de formação, com alguma experiência regional de gestão na área da Saúde, que, desafiado pela peste (o novo coronavírus, para que não haja dúvida), de súbito se destacaria — alçado mesmo à condição de estadista —pela oposição pública que lhe fez o chefe, um populista autoritário cujo comportamento sociopata transforma equilíbrio e razoabilidade em brilhantismo, talvez mesmo em atributos da coragem.

Para que reste claro: o ministro, demitido no mercado futuro, só virou estrela, um herói, por motivo de contraste — do outro lado estando o presidente da República, vulgo conflito ambulante, aquele que jura um colaborador e depois vai orar.

Um pouco de história — porque tenho memória. Mandetta só se tornou ministro como consequência de uma indicação política (algo legítimo, mas criminalizado pelo bolsonarismo) que o então presidente eleito aceitara no escuro (uma temeridade); e que — eis o ponto — passaria a ser vendida, por Bolsonaro, como de natureza técnica. Nunca foi. Estava longe de ser nomeação que justificasse a propaganda de uma equipe de notáveis. Mandetta não é um Oswaldo Cruz. Faz, porém, trabalho correto e seguro. Era o presidente quem o apregoava como técnico. Esse mesmo técnico que o presidente fulminaria à primeira demonstração de alguma... técnica.

Foi Bolsonaro quem converteu a normalidade de Mandetta em algo notável. Sua comunicação irresponsável, expressão da incapacidade de liderar o país na empreitada contra a Covid-19, faria do auxiliar uma espécie de oásis da tarde — aquele cuja fala, ao fim do dia, programa de confinado, vem para trazer temperança, manifestação percebida e esperada pela sociedade como a palavra que desembaraçará o emaranhado de estímulos conflitantes disparados pelo presidente, com método, para fins de desinformação e desordem.

Algo subiu, sim, à cabeça de Mandetta. Bolsonaro tem razão. Insisto: o ministro é um agente político e tem pretensões. Frente à incompetência do chefe, vendo o presidente da República encarnar a crise — fator de instabilidade adicional — dentro da crise, percebeu que, insubordinando-se, poderia ser o que jamais seria em circunstâncias normais ou sob comando respeitável: um líder.

O insubordinado Luiz Henrique Mandetta hoje é uma nova liderança como as que — governadores em primeiro plano —começam a emergir ante a radicalização do golpista potencial que Bolsonaro é; movimento que o ceticismo convida a observar sob a seguinte pergunta: estarão mesmo a se elevar ou, parados, parecem crescer porque afunda, rebaixa-se, o chão?

O ministro não é um gênio e seu desempenho tem problemas. (Um deles não sendo a maneira prudente como reagiu ao faminto assédio do lobby econômico por um medicamento de eficácia ainda não cientificamente comprovada.) O maior deles: a testagem em massa para Covid-19 não ser política de Estado — o que nos lança a um voo no escuro.

Navegaremos mesmo às cegas, dirigidos pelo nevoeiro, enquanto não houver respostas para as seguintes questões: quantos testes o país realiza diariamente?; quantos já foram feitos?; qual a metodologia para sua aplicação?; quantos kits o Brasil tem disponíveis?; e por que tanta demora no processamento dos resultados? Penso na realidade das favelas brasileiras — com altos índices, por exemplo, de tuberculose — e nas covas que já excluem das estatísticas mortos por causa indeterminada.

Como falar em achatar a curva de disseminação do vírus entre nós — razão de estarmos, corretamente, em isolamento social — se a subnotificação parece ser a realidade e se nem sequer a sombra do crescimento da epidemia conseguimos mapear?

Essa coordenação — esse esforço para dar corpo ao touro que se quer domar — o Ministério da Saúde não faz. Só ouço promessas. É um erro grave. Diante, porém, do que prega Bolsonaro e diz gente como Osmar Terra, Mandetta logo se transmuta, sim, num Oswaldo Cruz.

Eis onde estamos — por sábia prevenção: o ministro tem o apoio da sociedade menos pelo que é e faz do que pelo que outros poderiam ser e fazer em seu lugar. Medo.

___________

Este jornal, em sua capa da edição de domingo, deu destaque às faces das vítimas da peste. Isso é necessário. A Covid-19 mata e, tudo indica, já vai descontrolada entre nós. Exibir as vidas perdidas — de idades diferentes e condições diversas — educa para a gravidade sem precedentes desta pandemia. É o certo a fazer. E não para lhes colar a tragédia à irresponsabilidade do presidente. Mas para que, informadas, possíveis vítimas da planície — sem plano de saúde e sem a proteção sanitária da Presidência — compreendam a seriedade da situação e tenham meios de se imunizar contra a inconsequência alheia.

Sem tinta - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 07/04

Militares respaldaram Mandetta


Funcionou, não sem um estresse desnecessário, a tutela branca dos ministros militares que ocupam os gabinetes do Palácio do Planalto. Foram eles, mais o Congresso e o Supremo, que deram respaldo à permanência do ministro Luiz Henrique Mandetta no ministério da Saúde, depois que o presidente mandou aprontar um decreto demitindo-o.

Mais uma vez o presidente Bolsonaro criou um clima de instabilidade no país a troco de nada. Ou melhor, a troco de demonstrar infantilmente o poder de sua caneta presidencial, e o que conseguiu foi explicitar que lhe falta tinta para usar a caneta, como havia ameaçado na véspera.

O presidente tantas fez que acabou perdendo as condições práticas de governar. Seus desejos, no mais das vezes voltados para seu beneficio pessoal, não do país, encontram cada vez mais barreiras pela frente. Só são respeitados entre seus filhos, e naquele núcleo radicalizado que alimenta as redes sociais com intrigas e difamações, além de falsificações, como fizeram com o ministro Mandetta.

Criaram um perfil falso na internet onde o ministro da Saúde criticava o presidente Bolsonaro, dando motivos para sua quase demissão. O mais curioso é que Bolsonaro parece até mesmo acreditar nas falsidades criadas pelo “gabinete do ódio”, que trabalha dentro do Palácio do Planalto sob o comando de seu filho 02, o vereador Carlos Bolsonaro, que abandonou sua função no Rio para aboletar-se em um gabinete palaciano para aconselhar seu pai.

Volta e meia Bolsonaro tem que retirar de seu twitter notícias que lá publicam e se revelam mais tarde mentiras. Durante todo o dia de ontem os mercados financeiros registraram a instabilidade provocada por palavras do próprio presidente desde a noite de domingo. Se não fossem as instituições funcionando, e os militares atuando nos bastidores, teríamos agora uma mudança radical na conduta do ministério da Saúde no combate à Covid-19, que causaria uma crise institucional grave, das muitas que já foram armadas pelo próprio Bolsonaro, contra seu próprio governo.

O presidente do Senado David Alcolumbre telefonou para o Palácio do Planalto para avisar que a demissão de Mandetta provocaria uma reação do Congresso. Na noite de domingo, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, deu uma entrevista dizendo que Bolsonaro seria responsabilizado pessoalmente por mudanças no combate à Covid-19 que não obedecessem às orientações da Organização Mundial de Saúde.

Vários ministros do Supremo, inclusive seu presidente Dias Toffoli, deram declarações a favor do isolamento horizontal. O que poderia ser um motivo de satisfação para Bolsonaro, ter montado um ministério com algumas pessoas técnicas de valor reconhecido pela opinião pública, que é o caso de Luiz Henrique Mandetta, torna-se um tormento quase infantil, uma inveja do sucesso de seus ministros poucas vezes vista.

Um exemplo recente foi o de Itamar Franco, que, depois de várias tentativas, acertou na escolha de Fernando Henrique para o ministério da Fazenda. Mesmo aconselhado por vários assessores contra aspectos do Plano Real, Itamar sempre acabou respeitando a orientação técnica da equipe, mesmo que às vezes fosse preciso que o próprio Fernando Henrique interviesse para desfazer intrigas e maledicências.

A relação de Itamar e Fernando Henrique sempre foi tumultuada, especialmente quando o sucesso do Planalto Real era atribuído a Fernando Henrique, e não a ele. A ponto de Itamar, tendo sido eleito governador de Minas Gerais, dar um calote na dívida, quase desmontando o Plano Real no início do segundo governo de Fernando Henrique.

Hoje estamos em uma crise mundial de saúde, e somos obrigados a assistir a picuinhas de um presidente que já não tem condições plenas de governar porque toma decisões estapafúrdias, sem base técnica ou legal.

Ao insistir no uso da cloroquina sem que haja comprovação científica de sua validade, e colocar no seu gabinete de crise técnicos que pensam diametralmente oposto ao que a Organização Mundial de Saúde recomenda, o presidente Bolsonaro está apenas criando uma nova crise na saúde, que pode dificultar a luta contra a Covid-19. Como diz o ministro Mandetta, é preciso ter paz para enfrentar essa guerra” .

Um caso clínico - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 07/04

Boçalidade do ministro Weintraub em ataque à China ilustra pior do bolsonarismo


O comportamento da China no manejo do início do que hoje é a pandemia do coronavírus já mereceu diversas críticas. Tentativa inicial de abafamento, estatísticas inconfiáveis e crescente autoritarismo em nome da emergência sanitária são alguns dos itens a observar.

Também é certo que a crise de proporção planetária, enquanto inspira cenas inauditas de solidariedade, tem mostrado a face predatória de nações com mais recursos, notadamente os Estados Unidos. Acirra-se a competição por meios para combater a Covid-19.

A lógica prevalente nas cadeias produtivas globais colocou nos chineses peso enorme na confecção de insumos básicos na crise, de simples máscaras cirúrgicas a ventiladores mecânicos.

Logo, apenas um lorpa decidiria eleger Pequim como alvo no momento em que cooperação e boa vontade são tão importantes. Ou alguém vil. Seja qual for o caso, tal indivíduo existe e ora ocupa um dos mais importantes ministérios do Brasil, o da Educação.

Abraham Weintraub conseguiu reacender uma crise que estava contida após o presidente Jair Bolsonaro conversar por telefone com o líder da ditadura chinesa, Xi Jinping, na semana retrasada.

O contato visava contornar declarações do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho presidencial que havia endossado a acusação de que a China contribuíra para piorar a propagação do vírus, para a ira da diplomacia chinesa.

Por sua vez, Weintraub encontrou tempo para fazer troça de indisfarçável tom xenófobo ao modo como parte dos asiáticos pronuncia palavras da língua portuguesa. Tudo isso para questionar quem sairia ganhando mais da crise atual.

Não satisfeito, ao ser ouvido sobre críticas da Embaixada da China, que apontou racismo na manifestação, Weintraub subiu o tom.

Disse que se desculparia caso Pequim vendesse mil respiradores a preço de custo —e sugeriu que o país asiático escondeu informações ao mundo sobre a doença para auferir lucro com equipamentos, além de ter escondido o número de ventiladores que possui.

Weintraub, assim como Eduardo Bolsonaro, testa os limites do que há de pior no bolsonarismo radical.
Infelizmente, comanda uma pasta que não pode se dar ao luxo da estagnação. Não satisfeito em comprometer o futuro do ensino nacional, o ministro se coloca entre o Brasil e seu maior parceiro comercial. Trata-se de um caso clínico.

Ameaça a Mandetta reflete o que é Bolsonaro - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 07/04

Só um presidente que não segue as leis da lógica pode afastar este ministro numa hora dessas


A fritura do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, é típica de um governo como o de Bolsonaro, em que a lógica cartesiana costuma ser contrariada por outras condicionantes. Pelo perfil psicológico do presidente e/ou por crenças ideológicas dele, da família e de quem os cerca. Não é lógico e depõe contra a inteligência agredir a China, o maior parceiro comercial do país, e de quem o Brasil precisa de ajuda para enfrentar a epidemia de coronavírus. Mas, nesta espécie de mundo paralelo, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, faz crítica à China, e o ministro da Educação, Abraham Weintraub, segue atrás e põe na rede uma brincadeira de mau gosto e de má-fé com os chineses. Não estão preocupados com assuntos de governo e de Estado, apenas com suas crendices sectárias.

Por isso, Mandetta, cuja atuação na epidemia da Covid-19 é aprovada por 76%, segundo pesquisa recente do Datafolha, corre risco de ser mandado embora e no momento em que a crise de saúde inicia sua fase de agravamento. Os sensatos que estão na cúpula do governo ajudaram a convencer ontem o presidente a não cometer o desatino. Há algum tempo Bolsonaro tem demonstrado conviver mal com esta popularidade, ameaçando usar a caneta contra aqueles que “viraram estrelas”. Mais explícito, só se citasse o nome. Talvez falte ao ministro da Saúde o cuidado que tem o colega Paulo Guedes, da Economia, de sempre consultar o chefe. Mesmo ungido superministro, Guedes deve ter considerado a necessidade de ser cauteloso diante do estilo impulsivo de Bolsonaro, mesmo que atue numa área em que teoricamente seria mais difícil Bolsonaro dar ouvidos a outros. Não se deve arriscar. Ou talvez Mandetta devesse ter o cuidado de Sergio Moro, da Justiça e Segurança Pública, escalado nas apostas como concorrente de Bolsonaro em 2022. Moro fez defesas de teses caras ao presidente, caso do “excludente de ilicitude”, entre outros gestos.

Cair ministro é parte do jogo de poder. O grave é o que pode significar a saída de Mandetta, responsável, com sua equipe, por adotar no Brasil o isolamento social, como indicam a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a grande maioria dos médicos e especialistas. Reduzir a um mínimo a circulação das pessoas retarda a disseminação do coronavírus e dá tempo ao sistema de saúde, público e privado, de preparar-se para atender a um forte crescimento da demanda por leitos, principalmente de terapia intensiva.

Os contornos da tragédia desta pandemia estão sendo desenhados pelas muitas mortes decorrentes do erro de avaliação de alguns governos, como o que Bolsonaro cometerá se trocar Mandetta por alguém sensível ao seu argumento de que manter as pessoas em casa — com exceção dos trabalhadores em áreas vitais — é destruir empregos e salários, levando o país a uma crise nunca vista. Bolsonaro não se preocupa com um avanço rápido da epidemia, porque — mesmo que não diga — considera que um número maior de mortes será compensado pela preservação dos setores produtivos, a tempo de o crescimento voltar bem antes das eleições de 2022. Engana-se, como vários estudos acadêmicos provam. E ainda incorrerá na questão ética de desprezar vidas em nome de um projeto eleitoral.

Uma grande crise econômica haverá de qualquer forma, mas seu governo a tornará mais grave se atrasar bastante a retomada ao permitir o que está acontecendo nos Estados Unidos, na Itália e na Espanha. Seus governos demoraram a se convencer de que deveriam fazer um rígido isolamento social, e o número de seus mortos ultrapassa os 3.300 da China. Nos Estados Unidos, passaram ontem dos 10 mil. O Norte da Itália antecipou o que poderá acontecer no Brasil: a morte de um grande número de idosos infectados por filhos e netos na volta para casa depois do trabalho. O destino de incontáveis famílias pobres poderá ser decidido pela caneta de Jair Bolsonaro.