terça-feira, março 17, 2020

Um presidente contra o País - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 17/03

Bolsonaro colocou em risco a vida de pessoas. A única coisa que lhe interessa é seu projeto de poder, que está acima do Brasil e de todos os brasileiros


O presidente Jair Bolsonaro contrariou recomendações de seu próprio ministro da Saúde e participou no domingo de uma manifestação em Brasília a seu favor e contra o Congresso. Bolsonaro, que teve contato com mais de uma dezena de infectados pelo coronavírus, deveria ter se mantido em isolamento, conforme orientação médica. Ao não fazê-lo, colocou em risco a saúde de um número indeterminado de pessoas e a sua própria – que é, por razões óbvias, uma questão de Estado. O presidente foi tão gritantemente irresponsável que custa a crer que não soubesse o que fazia. E, se sabia, o fez de caso pensado: para ele, a saúde dos brasileiros é irrelevante, bem com os impactos econômicos e sociais tremendos da quarentena a que o País começa a ser submetido para tentar frear o avanço da covid-19. A única coisa que interessa a Jair Bolsonaro é seu projeto de poder, que está acima do Brasil e de todos os brasileiros.

Até agora, o presidente da República não parece ter levado a epidemia a sério. Não se sabe se compactua com alguns de seus seguidores, que, nas manifestações do fim de semana, asseguraram que o coronavírus é uma “mentira” destinada a esvaziar os protestos. Mas o fato é que Bolsonaro, mais de uma vez, considerou que a reação mundial à covid-19 tem sido “histérica” – como se os epidemiologistas de todo o mundo estivessem errados. Pior: nesta segunda-feira, em meio às críticas por seu comportamento inconsequente, Bolsonaro afirmou, com todas as letras e em sua gramática peculiar, que a orientação para que ficasse em isolamento, feita pelos próprios médicos da Presidência, conforme protocolos internacionais para casos como o dele, é nada menos que um “golpe” movido por “interesses que não sejam republicanos”.

Os interessados nesse “golpe”, segundo Bolsonaro, seriam os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre. “Está em jogo uma disputa política por parte desses caras”, disse o presidente à Rádio Bandeirantes. Assim, Bolsonaro amplia seu confronto com o Congresso, depois de pessoalmente ter convocado os brasileiros a ir às ruas protestar contra os parlamentares, ignorando ao mesmo tempo o respeito devido ao Poder Legislativo e as restrições a aglomerações por causa da covid-19. Nas fotos que fez com seus simpatizantes durante a manifestação de domingo em Brasília, aparecem vários cartazes que defendem o fechamento do Congresso e a prisão de líderes políticos. É pouco provável que o presidente não os tivesse visto, e é menos provável ainda que não soubesse que estava vinculando sua imagem a um movimento golpista.

Assim, o presidente tenta transformar a pandemia de covid-19 numa arma política, ignorando a aflição de milhões de cidadãos que tiveram sua rotina subitamente rompida e que, ao contrário do presidente, estão cumprindo as orientações das autoridades sanitárias, mesmo diante de pesados prejuízos.

Enquanto Bolsonaro brinca com suas fantasias sediciosas, alguns dos Ministérios que lidam com as áreas mais afetadas pela pandemia mostram serviço. Ao contrário do presidente da República, o Ministério da Saúde tem se desdobrado para fornecer informações de qualidade ao público e a preparar o sistema para receber o fluxo de doentes, que deve se multiplicar nas próximas horas. Já o Ministério da Economia, ainda que tenha demonstrado hesitação num primeiro momento, tomou algumas boas medidas para o enfrentamento dos efeitos imediatos da crise.

Além disso, o Congresso, conforme as palavras de seus líderes, não pretende entrar no jogo de Bolsonaro. “Somos maduros o suficiente para agir com o bom senso que o momento pede”, disse Rodrigo Maia.

Essa maturidade certamente continuará a ser colocada à prova pelo presidente da República, que parece cada vez mais obstinado em criar conflitos – como se estivesse em busca de um pretexto para aquele que talvez seja seu verdadeiro objetivo: destruir as instituições da democracia representativa e colocar em seu lugar o regime de democracia direta, tão caro aos autocratas populistas dos quais Bolsonaro é, por ora, apenas um esforçado aprendiz.

A epidemia do golpismo - CARLOS ANDREAZZA

O GLOBO - 17/03

Bolsonaro vai — foi —para a briga de rua


O presidente foi ou não infectado pelo novo coronavírus? Ninguém saberá. Há um estímulo oficial à descrença constante. Diz-se que não. Mas quem acredita?

O procedimento bolsonarista já está mapeado: plantar — neste caso, lá fora (numa TV americana) — a notícia (de que Jair Bolsonaro estaria contaminado) que se negará em seguida. O que interessa é desmentir; subsidiar a trombada de versões, a desconfiança generalizada.

Estamos na mais baixa cavidade da depressão política que nos consome desde 2013 — da qual o bolsonarismo é a mais intensa convulsão. A degradação é veloz. Mas o fundo do poço é fundo. O presidente comete sucessivos crimes de responsabilidade. Estica progressivamente — todos os dias — a corda dos arreganhos autoritários. Sem qualquer resposta institucional de corpo, ousa — ousará — cada vez mais. Escrevi, na semana passada, que não tardaria até que tomasse parte numa das manifestações contra os Poderes da República. Aí está.

A ação é coerente se considerarmos a série de imposturas e irresponsabilidades por meio da qual, nos últimos 30 dias, Bolsonaro liderou uma implacável blitz autoritária contra o equilíbrio democrático no Brasil. Não é dinâmica de quem pretenda se submeter aos filtros republicanos por muito tempo. Há um quê de desespero. O prometido crescimento econômico não veio. O presidente sabe que frustrará e perderá apoio. Sua única gramática — tanto mais se acuado— é a da guerra. Ele vai — foi —para a briga de rua. O clima de crise é a temperatura ideal para medidas de exceção.

Onde estão as provas de que a eleição presidencial de 2018 foi fraudada? Não se pode esquecer desse esboço para golpe. Tampouco se pode esquecer da reação covarde do Judiciário.

Faz já mais de semana desde que o presidente atentou, com gravidade sem precedente, contra o sistema eleitoral — auge de um arco dramático totalitário encenado enquanto a linha evolutiva da Covid-19 já se traçava como alarmante realidade mundial. Supremo Tribunal Federal e Congresso Nacional optaram pela omissão. Bolsonaro captou o recado: o próprio convite a que comparecesse a uma manifestação que, ora, alvejaria Congresso e STF.

Nada exprimirá melhor a mentalidade bolsonarista — o projeto autocrático de poder — do que a fala do presidente à nação, na quinta-feira passada. O eixo do pronunciamento jamais foi a gravidade da situação decorrente do avanço da Covid-19, mas uma mensagem sectária, destinada exclusivamente a seu povo, acerca dos últimos atos de rua.

O país desafiado por uma pandemia, mas a preocupação de Bolsonaro era — é — com o fomento aos grupos organizados em que investe como instrumento de força para emparedar as instituições. Para que não haja dúvida: o presidente se valeu de cadeia de rádio e TV para difundir uma falsa desconvocação para os protestos. No domingo, comportando-se como um sociopata, foi prestigiá-los in loco.

É estratégia arriscada — mas que, por isso mesmo, impõe que se reflita sobre seus propósitos. A possibilidade de que tenha ido para o all-in não é remota.

A linguagem reacionária bolsonarista é inconsistente com o trânsito da normalidade — com os parâmetros da estabilidade democrática — e não tem recursos para se sustentar em longo prazo senão sob a aposta no golpismo. Atenção: golpismo. Donde se explicaria o elevado aporte na radicalização chantagista que caracteriza a tentativa de implantar uma cultura plebiscitária entre nós.

O Palácio do Planalto é uma célula difusora de mentiras — uma estrutura inconfiável, incapaz de semear o terreno de previsibilidade necessário a pactos e contratos. O governo não tem palavra. Trai. Dinamita pontes. Confunde. Age como situação e oposição simultaneamente. Só o firme propósito autocrático de fomentar a anomia — numa circunstância propícia à ruptura institucional — justifica que, em meio a tamanha crise, com todos os elementos de uma tempestade perfeita, o centro do governo se coloque, deliberadamente, como centro gerador de desinformação e conflito.

É uma atitude para o choque que cansa, que estressa — e que é avessa a qualquer ambiente de negócios, que fere as mais básicas necessidades de um chão em crise. Quem investirá aqui? Há um horizonte projetado. A economia, mal saída da recessão, regredirá. Os tais mercados — que aderiram ao bolsonarismo sem considerar que reforma liberal é inconsistente com projeto revolucionário — não tardarão a pular fora. Não tardará a pular fora também o trabalhador cujo saco cheio financiou o ressentimento bolsonarista, mas que agora percebe que instabilidade não gera emprego. Um cenário a que Bolsonaro, com menor base social, responderá com ainda maior tribalismo golpista.

As chances de o Brasil singrar celeremente para a ingovernabilidade são grandes. Até o impasse absoluto, entretanto, o novo coronavírus servirá de desculpa para muita incompetência, muito embuste — e alguns crimes.

Presidente confinado - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 17/03

Na crise do vírus, melhor deixar tarefas com capazes, e Bolsonaro com bizarrices



O presidente da República parece rumar a uma espécie de quarentena voluntária. Desde que assumiu o cargo, isolou-se da sabedoria, da liderança, da ciência, do bom senso e da melhor prática política.

A atitude estúpida de ir ao encontro de sua diminuta seita de extremistas neste domingo (15), em Brasília, indica que o país não contará com o chefe de Estado na condução da resposta à maior urgência humanitária em décadas.

Pelo contrário, Jair Bolsonaro ameaça tornar-se obstáculo à extraordinária coordenação de esforços e recursos necessária para mitigar o impacto que o espalhamento da Covid-19 exercerá no sistema de saúde, no bem-estar de dezenas de milhões de brasileiros e na economia, duramente atingida.

O melhor, pois, é deixar o ocupante intelectual e politicamente isolado do Planalto falando e fazendo asneiras sozinho, enquanto os capacitados se incumbem da tarefa monumental.

Os ministros ainda lúcidos, como o da Saúde e o da Economia —cujas declarações à Folha nesta segunda (16) repõem a esperança na racionalidade e no somatório de esforços—, podem articular-se diretamente com os presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal, bem como com os governadores dos estados, onde fica o terreno dessa batalha.

O presidente não faria mal, nesse contexto, em delegar a uma autoridade nacional o enfrentamento da epidemia e de suas consequências imediatas, a exemplo do que ocorreu durante o racionamento de energia elétrica em 2001.

A despeito do modelo que se adote, o fluxo de informações e decisões necessita ser fluido e ancorado em evidências. Planos de contingência para hipóteses extremas, como o bloqueio de circulação em regiões com vasto contingente populacional, precisam estar delineados em questão de poucos dias.

Com enorme parcela dos trabalhadores na informalidade e elevado contingente de desempregados, milhões de famílias poderão ter queda vertiginosa em seu poder de compra. Será preciso garantir a alimentação desses brasileiros.

Os mais vulneráveis à debacle, seja na saúde, seja na renda, exigem socorro prioritário. A asfixia econômica também requererá ações para que o mergulho passageiro não deflagre uma onda de falências.


Diante da enormidade do desafio, cujo sucesso será avaliado em vidas e empregos poupados, seria desperdício de tempo preocupar-se com as bizarrices de Bolsonaro.

Que permaneça em seu confinamento de fato até que a crise esteja superada. Todos terão a ganhar.

segunda-feira, março 02, 2020

Marcha da insensatez - DENIS LERRER ROSENFIELD

ESTADÃO - 02/03

Sábios seriam o presidente e seu grupo se cancelassem as manifestações do dia 15



Ogoverno está manifestamente desorientado. Adotou desde o início a política do confronto, baseada na distinção amigo/inimigo, em que o outro sempre aparece como alguém a ser neutralizado ou eliminado. O esquema permanece sempre o mesmo, muda apenas o alvo. Pode ser um partido de oposição, pode ser um(a) jornalista, pode ser a imprensa em geral, pode ser todo aquele que discorde, por uma ou outra razão, de alguma política governamental. A prática democrática corre ao largo de tal concepção, por estar baseada no diálogo, na ponderação e na negociação.

Acontece, porém, que tal processo ganha outra significação quando o inimigo passa a ser a própria instituição democrática, como se ela fosse um empecilho para a política a ser implementada. Se a democracia se torna um obstáculo, é porque está em pauta um claro pendor autoritário. A manifestação prevista para o dia 15 é um claro exemplo disso, por estar focada no Congresso Nacional, entendido não como um Poder independente, mas como uma facção a ser suprimida.

Note-se que um argumento frequentemente utilizado diz respeito a que o presidente, eleito dada essa legitimidade, está autorizado a fazer qualquer coisa. Para além do fato óbvio de um presidente se encontrar constitucionalmente limitado, caso contrário seria um tirano, a Câmara dos Deputados e o Senado têm igual legitimidade, por serem os seus representantes igualmente eleitos pelo voto popular. Ambos são frutos da soberania popular, usufruindo as mesmas prerrogativas.

No entanto, o presidente e o seu grupo familiar e digital optaram pelo confronto com a Câmara e o Senado, isto é, escolheram o enfrentamento como outra expressão da vontade popular, pressionando o País para uma ruptura institucional. Se o governo é contrariado, basta eliminar o opositor, no caso, o Legislativo, como se esse Poder devesse ser simplesmente submisso à vontade presidencial.

Uma vez a celeuma instalada, começam a se suceder supostos desmentidos, segundo os quais a mensagem das redes sociais não foi bem a que veio a se tornar pública, após sucessivas reviravoltas em que nem um equilibrista consegue se manter em pé, procedimento, aliás, típico do atual governo. Quando a reação não for a esperada, dá-se um “desmentido”, seguido por outro, numa trapalhada sem fim.

O problema é que fica no caminho o ataque a jornalistas respeitadas, refiro-me aqui a Vera Magalhães, do Estadão, e antes Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo. Ambas nada mais fizeram que um trabalho sério. O resultado, porém, foram ataques de baixo nível, ameaças e, institucionalmente, o questionamento do próprio trabalho da imprensa, pejorativamente tratada de “extrema imprensa”. Contudo a “extrema imprensa” só deve ser extrema na defesa das liberdades, que são ameaçadas por aqueles que a atacam.

O governo tem uma nítida dificuldade de articular politicamente os seus projetos. A reforma da Previdência passou mais pela habilidade do deputado Rodrigo Maia, presidente da Câmara, com o apoio do presidente do Senado, David Alcolumbre, do que por uma efetiva articulação presidencial. Uma vez aprovada a reforma, nada mais conseguiu, fazendo com que os seus ataques dobrem, quando são apenas o produto precisamente dessa falta de negociação.

Reformas não avançam se não forem o resultado do diálogo entre os Poderes. Atos de imposição ou de força de nada adiantam.

O atual momento torna-se ainda mais problemático pelo fato de o presidente ter literalmente militarizado o Palácio do Planalto, além de outros ministérios, como se precisasse de uma fortaleza para se proteger. Na verdade, houve um enclausuramento no núcleo familiar e dos assistentes mais próximos, de cunho preponderantemente ideológico, até mesmo alguns militares passando a defender tais posições. Entendia-se no início do atual governo que os militares teriam a função de moderação, algo que agora não se está confirmando, na medida em que o incitamento para as manifestações do dia 15 partiu de um ministro militar. Felizmente, um ex-ministro igualmente militar qualificou tal chamado de “irresponsabilidade”.

A imagem das Forças Armadas e, em particular, do Exército terminou por ser associada ao atual governo, segundo a percepção da opinião pública. Esta não faz a distinção entre oficiais da reserva e da ativa, sobretudo quando os primeiros têm tal proeminência. Ademais, dois dos ministros militares do palácio estão ainda na ativa, embora um deles, segundo foi noticiado, estaria para passar para a reserva.

Nesse sentido, pode-se dizer que o Exército fez uma aposta arriscada. Se o atual governo der certo – o que não é hoje evidente –, ficará com os louros. Se fracassar, ficará com toda a responsabilidade, perdendo o imenso prestígio que conquistou no processo de redemocratização do País, tornando-se um dos seus pilares.

No atual contexto institucional, sábios seriam o presidente e o seu grupo se cancelassem as manifestações do dia 15. Fariam um grande serviço à Nação. Do contrário, o País seguirá na marcha da insensatez.

 PROFESSOR DE FILOSOFIA NA UFGRS

O método Bolsonaro - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 02/03

É necessário tomar consciência de dois trunfos da gangue do presidente


É chegada a hora de prestarmos atenção ao método Bolsonaro. É famosa a citação segundo a qual Shakespeare diria que há método mesmo na loucura. Vivemos hoje um momento em que há método mesmo na estupidez.

Essa estupidez, que atinge, às vezes, o nível da delinquência, se dispersa pelas redes sociais, se alimenta delas e escorre, infelizmente, agora, pela Presidência da República.

Muitas vezes, a identificação de um método se faz através de observações óbvias. O filósofo René Descartes (1596–1650) dizia que uma das qualidades do bom método é a simplicidade. Por isso, essa simplicidade em observar um método nos leva à obviedade.

O presidente costuma usar camisetas de time de futebol nas mais variadas cenas em que se comunica com sua base de apoiadores, como no vídeo em que atacou na última quinta-feira, dia 27 de fevereiro, a jornalista Vera Magalhães, do jornal O Estado de S. Paulo, e também apresentadora da TV Cultura.

A associação entre essa prática e as redes sociais é uma mensagem que vai diretamente ao coração de muitos brasileiros que se sentem “desrepresentados” pela mídia, pelos políticos e pelo Supremo Tribunal Federal.

Todas essas instituições são identificadas como parte das “elites” por pessoas distantes de um entendimento de que a democracia seja um regime de instituições e não, meramente, de pessoas isoladas.

Aqui, Bolsonaro avança em práticas de que o próprio ex-presidente Lula fazia uso: populismo agressivo com a intenção de jogar “as massas” contra “as elites” —uma tática simples com efeitos poderosos no plano dos afetos identitários. É banal e óbvia, porém eficaz.

O que Bolsonaro e asseclas andam fazendo com os jornalistas e as instituições visa minar a representação política. E devemos bater de volta. Mas há dois detalhes que julgo importante apontar nesse embate, para que quem atua na mídia profissional não fique pregando pra conversos. É necessário tomar consciência de dois trunfos que a gangue Bolsonaro tem em mãos nesse terreno.

O primeiro é um fato apontado já pelo jornalista Paulo Francis, morto em 1997, após apontar esquemas de corrupção na Petrobras pré-PT, mas sem provas, o que custou muito caro à sua saúde, que era a colonização de grande parte das redações no país por apoiadores do PT e similares.

Profissionais da mídia não podem abraçar ideologicamente partidos políticos ou conjuntos ideológicos de forma militante, assim como juízes não podem se tornar cabos eleitorais. Quase como um asceta, um jornalista não pode ter, nem na vida privada, práticas partidárias militantes. Estas devem se restringir ao segredo do voto. A privacidade está morta no mundo das redes.

Se essas práticas não implicaram parcialidade na lida profissional com governos do PT, no nível da “microfísica do poder”, elas acontecem e isso nos enfraquece.

Quem disser o contrário é mentiroso ou ingênuo. Bolsonaro navega de braçada nesse fato óbvio. Faculdades de jornalismo em peso ensinam aos alunos a serem de esquerda sim. Grande parte dos colegas da mídia acha tão óbvio ser de esquerda como sendo “do bem” que nem enxerga mais esse viés.Esse fato se tornou um telhado de vidro a favor da gangue dos Bolsonaro.

O segundo fator é meramente ferramental. Ninguém precisa mais da mídia profissional para receber ou emitir conteúdos. O método Bolsonaro também navega de braçada nas consequências políticas da comunicação em redes sociais.

O jornalismo corre o risco de se tornar uma quase bolha entre conversos, enquanto grande parte da população se “informa” e “informa” os outros pelas redes com vídeos, textos e memes, minando a bolha citada acima.

O cerne do método Bolsonaro é a ideia de que a democracia se faz diretamente entre a soberania popular e o Executivo. O conceito de “bolsochavismo”, delineado pela jornalista Vera Magalhães, no domingo, dia 23 de fevereiro, no jornal O Estado de S. Paulo, identifica um fator fundamental: o autoritarismo rompe limites ideológicos.

A Venezuela está à esquerda, e o Brasil está à direita. Que ninguém alimente isso indo à manifestação do dia 15 de março. Não saia de casa neste dia.

Evite a contaminação.

Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

terça-feira, fevereiro 11, 2020

Setecentos anos - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 10/02

Obsessão pela originalidade é uma forma de pobreza de espírito da vida moderna



Uma das maiores formas de ignorância é a ideia de que os ancestrais e os idosos não servem para nada. A boçalidade ganhou ares de suposta sabedoria em meio a um mundo que se degrada, até mesmo pelas mãos daqueles que se dizem defensores de uma atitude progressista.

Vou contar uma pequena história que pode nos ajudar a sair dessa ignorância. Certa vez, uma mulher brasileira apaixonada por jardins, viajando pelo interior da Inglaterra, passou de carro por uma pequena cidade do interior e estacionou diante de um belíssimo jardim. Encantada com o que viu, e querendo saber o modo como a dona daquela casa teria sido capaz de criar tamanha beleza em seu jardim, parou o carro e correu até a casa, batendo à porta com o coração em saltos.

Uma pequena senhora abriu a porta sorridente. Nossa brasileira falava inglês perfeitamente. Ela tinha muitas perguntas para aquela pequena senhora, mas a primeira resposta já impactou nossa conterrânea cultivadora de jardins no Jardim Europa.

“Há quanto tempo a senhora cultiva esse jardim para que ele seja tão belo?” Nossa pequena senhora respondeu, de modo direto e simples: “Setecentos anos”.

Qual a moral dessa história? A vida de uma pessoa, de uma sociedade, de uma cultura, é como um jardim. Setecentos anos são necessários para você ver e cultivar a beleza, que aqui não representa apenas a beleza puramente estética, mas, acima de tudo, a harmonia das formas, construída pelo silêncio de quem dedica o cotidiano à beleza e à moral que tornam a vida algo de valor.

A verdade é que a beleza e a harmonia na vida (uma vida moral) nunca têm nada de original, ao contrário do que pensam os idiotas, que são fruto de rupturas trazidas por recém-nascidos ou adolescentes raivosos.

A beleza, assim como a vida moral, nunca teve nada de original. A obsessão pela originalidade é uma forma de pobreza de espírito típica da vida moderna. Mede-se a estupidez de uma cultura pela desvalorização do conhecimento dos idosos, dos ancestrais e dos mortos.

Uma das razões da bestialidade que assola nosso mundo é a crença infantil de que devemos dar todo o poder aos que acabaram de chegar ao mundo.

Mesmo que o capitalismo, na sua fúria pelo fetiche da inovação, nos enfie essa falácia goela abaixo, o futuro depende muito mais dos mais velhos do que dos mais jovens.

Eis a máxima que desaparece sob a poeira da boçalidade de muitos dos defensores de uma vida cheia de inovações: o futuro depende dos mais velhos e não dos mais jovens.

Isso em nada significa a adesão cega a formas de preconceitos ou superstições como pensam os inteligeninhos. Esse tipo de capacidade e percepção tem mais a ver com a habilidade de quem treinou tanto piano ao longo da vida que, ao ouvir as primeiras notas do “Noturno” de Chopin, é capaz de continuar a tocar a música sem ler nenhuma partitura. A vida é uma arte prática e não teórica.

A vida é como uma sinfonia na qual entramos depois que muitos já a tocaram e nos ensinaram a tocar com seus gestos delicados e discretos. A discrição é uma virtude dos que sabem ouvir e não dos que gritam por aí suas pequenas crenças em hashtags.

A burguesia, como classe social histórica, é presa natural dessa forma de estupidez: acreditar no novo como resposta é sempre uma forma gourmet de ignorância. É confundir uma nova geração de iPhones com o modo como se educa os mais jovens ou se conduz o cotidiano.

A ignorância da burguesia caminha passo a passo com o seu sucesso estrondoso. Toda forma de prosperidade carrega em si um risco de estupidez.

Os mais velhos, em meio a sua dor, seus fracassos, suas doenças e seus medos, sabem muito mais sobre a vida do que jovens barulhentos que confundem tecnologia com conhecimento. E a educação, na medida em que se faz workshops de algoritmos, anuncia a cegueira que caracteriza o mundo moderno acerca de si mesmo.

Quem ainda não entendeu que o futuro é dos mais velhos, não entendeu que “a sociedade é uma comunidade de almas que reúne os mortos, os vivos e os que ainda não nasceram”, como diria Edmundo Burke.

Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

segunda-feira, janeiro 27, 2020

O garrote ideológico desgraça o debate público há anos - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 27/01

Discussão sobre Oriente Médio segue a agenda de preferências ideológicas

Quase um mês após o ataque americano que matou o todo-poderoso Qasem Soleimani do Irã, podemos ver como muito da discussão especializada sobre Oriente Médio segue a agenda de preferências ideológicas.

O Oriente Médio vive uma guerra fria entre a sunita Arábia Saudita e o xiita Irã. Mas o número de absurdos que foram ditos sobre esse conflito deixa claro que o debate público presta um enorme desserviço a quem recorre à mídia para se informar sobre o tema.

Muita gente boa fez do Irã quase um regime democrático, doce e tolerante, um coitadinho, vítima do mal americano e israelense.

Que peninha dele, que teria sido monstruosamente atacado pelo império do mal —os Estados Unidos, que servem à cruel ditadura saudita e aos sionistas.

Não me preocupa aqui defender os Estados Unidos nem seus aliados. Não existem santinhos em geopolítica. Um dos danos da contaminação ideológica do pensamento público é a tentativa de continuar afirmando que inimigos dos americanos são santinhos.

O Irã é um regime que alimenta grupos terroristas e guerrilheiros que matam sistematicamente civis e que arma grupos que visam solapar a soberania dos países à sua volta —e, assim, construir uma rede capaz de realizar guerras por procuração, a favor dos interesses do Irã. No Líbano, na Síria, no Iraque, em Gaza, no Iêmen...

Se é uma ingenuidade ou um mau-caratismo achar que sauditas e israelenses são anjinhos, não é menos ingenuidade ou mau-caratismo achar que os iranianos são os representantes dos oprimidos na região. Essa tentativa de fazer da ditadura teocrática iraniana um governo bondoso, vítima da violência de sauditas e americanos, toca as raias do ridículo.

Só existem três razões para alguém bem formado ir a público defender essa ideia ridícula: 1) por vínculos afetivos com o Irã; 2) por obsessões ideológicas, como a descrita antes aqui, daqueles que insistem em dizer que os EUA são agressivos e que omitem a violência do regime iraniano, uma democracia fake; 3) por grana.

O ódio ideológico aos EUA é óbvio. Só podemos supor, a menos que existam vínculos familiares com algum dos países em conflitos ou vínculos financeiros, que seja a cegueira ideológica que move esse ridículo.

Uma coisa que sempre me chamou a atenção nesse clube dos alienados (os ideológicos amantes do regime do Irã) é a ambivalência das intelectuais nesse campo. Escondidas atrás de um relativismo de butique, elas se esquivam do fato que as mulheres no Irã, muitas vezes, são tratadas como brinquedos domésticos em seu país.

A crítica dura à condição da mulher do Ocidente, crítica que faz grande parte da mídia, do cinema, do teatro e da literatura, um pé no saco de tão repetitiva e entediante pela sua obsessão em demonizar tudo que não for violentamente feminista, contrasta com a suavidade com que a condição da mulher (muito pior na maioria dos países do Oriente Médio, menos em Israel) é tratada pelo exército de simpatizantes do Irã.

Esse mesmo exército de simpatizantes trata os homens ocidentais, a priori, como opressores evidentes das mulheres. Bem ridícula essa contradição.

Como se os aiatolás fossem uns anjinhos a favor do empoderamento feminino. O garrote ideológico desgraça o debate público há anos. Os regimes que esses bobos babam para defender fariam deles mingau de farinha se quisessem.

Com relação a Israel (que tampouco é santinho), outro odiado pela trupe ideológica mentirosa, grupo que domina a ONU, a coisa é bem clara.

A revolução fanática que administra o Irã desde 1979 tem como uma das suas pautas pétreas a destruição do Estado de Israel. Essa mesma trupe gosta de afirmar que o risco de destruição de Israel passou.

Risadas? Se Israel hoje tem uma condição de segurança um pouco melhor, é porque os países ao redor perderam todas as guerras que visavam destruir israelenses.

Além disso, o país é uma economia que cresce vertiginosamente, inclusive em áreas de tecnologia da informação e de inteligência, além de ser, obviamente, uma potência nuclear que arrasaria o Irã em seis dias. O resto é pura bravata.

Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

domingo, janeiro 26, 2020

Sinais preocupantes - MARCOS LISBOA

FOLHA DE SP - 26/01

São muitos os sinais de desatino na República, não apenas no Planalto


Causou preocupação o ex-secretário da Cultura ter mimetizado um discurso de Goebbels, ministro da propaganda de Hitler. Parece que muitos desconhecem a história e a lenta construção do desatino.

Resta o consolo de que, mesmo em tempos atrozes, a arte sobrevive de forma inesperada.

Tadeusz Borowski foi prisioneiro em Auschwitz. A ordem era executá-lo em Dachau, campo igualmente malfadado. Entretanto, o avanço soviético, de um lado, e a chegada dos americanos, de outro, salvaram sua vida e sua literatura.

Em 1946, Borowski publicou uma coletânea de contos em que descreve sem complacência o comportamento dos prisioneiros em um campo de concentração.

Primo Levi era italiano e estudava química nos anos 1930. As leis raciais proibiam sua gente de frequentar escolas públicas. Conseguiu se formar, mas o diploma registrou sua "raça judia". Acabou prisioneiro em Auschwitz.

Levi sobreviveu e contou sua história com perturbadora serenidade, apesar de saber que por pouco não fora exterminado. "A Trégua" descreve sua longa odisseia depois de ser liberado em meio a uma Europa devastada pela guerra.

Bruno Schulz nasceu na Polônia, dominava a prosa como poucos e desenhava admiravelmente. Foi assassinado, durante a ocupação nazista, ao sair de casa para buscar comida.

Ismail Kadare sofreu as agruras do totalitarismo na Albânia. Sua novela "O Palácio dos Sonhos" conta a história de um jovem que trabalha na repartição encarregada de vigiar os sonhos dos súditos do Império Otomano. Os delírios de quem dorme revelariam as intenções de Deus e as ameaças ao Sultão.

Cabia aos servidores do palácio identificar inimigos e torturar possíveis conspiradores. A brutalidade era considerada aceitável, afinal tratava-se de punir o malfeito, mesmo que fosse obra de sonhos.

Por aqui, os intelectuais se dividem entre os assustados com as estocadas autoritárias dos fanfarrões e os que acreditam que a nossa democracia segue normal.

Comparar o atual governo aos regimes totalitários é disparate. Mas isso não significa que tudo anda bem.

São muitos os sinais de desatino na República, não apenas no Planalto.

Investigações sobre os indícios de crime dos condestáveis são seguidamente interrompidas. O Ministério Público denuncia um jornalista que obteve de hackers gravações que indicam possíveis malfeitos de servidores do Estado.

Executivos são indiciados ou presos com base em evidências dignas de Simão Bacamarte. Juízes do Supremo afastam leis democraticamente aprovadas, decidem sobre salários de professores universitários e interferem em contratos que respeitam a Constituição.

Gotas em demasia transbordam qualquer copo.

Marcos Lisboa
Presidente do Insper, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (2003-2005) e doutor em economia.

Elegia para um monstro insepulto - BOLÍVAR LAMOUNIER

O Estado de S.Paulo - 26/01

Fazemos de tudo para evitar o conceito de patrimonialismo, mas é disso que se trata



Ideologias morrem, mas nem todas são sepultadas. E as insepultas são as mais perigosas.

No Brasil, faz tempo que o “nacional-desenvolvimentismo” está morto, mas, até agora, são poucos os que se preocupam em proporcionar-lhe o merecido sepultamento. A maioria, parece, prefere esperar uma improvável ressurreição.

“Nacional-desenvolvimentismo”, como sabemos, é o modo mais sonoro que encontramos para designar um modelo de crescimento baseado em ampla intervenção estatal. Uma aversão a tudo o que saiba a liberalismo ou economia de mercado e, correlativamente, uma quase santificação do Estado. Uma crença virtualmente indestrutível em que os burocratas planaltinos farão o que precisar ser feito com uma diligência a que empresários privados não podem aspirar.

O pilar mais importante da crença nacional-estatizante é a rapidez do crescimento econômico. Uma engrenagem de poder concentrada, unitária, gerida por tecnocratas altruístas e esclarecidos nos livraria (livrará) do subdesenvolvimento num ritmo muito superior ao de qualquer modelo privado de organização econômica.

Justiça seja feita, essa suposição era razoável enquanto estávamos falando da chamada “fase fácil da industrialização”. Nos primórdios, o crescimento é movido muito mais pela incorporação de mão de obra (problema que a migração do campo para as cidades resolveu facilmente), num nível técnico extremamente baixo, do que por investimentos de maior porte, pelo avanço tecnológico e pelo aumento da produtividade, o que pressupõe uma acentuada elevação do nível médio de educação na sociedade.

Findo o referido ciclo inicial, todo país tem de se precaver para não ficar com os pés metidos no que se tem chamado de “armadilha do baixo crescimento”. Nessa altura, o que se constata é que o buraco é mais embaixo, e nós, brasileiros, teríamos constatado isso mesmo se a dra. Dilma Rousseff não tivesse baixado as suas asas sobre nós. As previsões de crescimento divulgados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) durante a recente conferência de Davos trouxeram-nos uma fresta de esperança, mas nem de longe um real alívio. O crescimento do PIB brasileiro projetado para 2020 é de 2,2%, bem melhor que o 1.0% de 2019, e melhor até que o 1,6% previsto para a totalidade da América Latina. Mas inferior aos 3,3% projetados para a economia mundial considerada em conjunto e apenas metade dos 4,4% esperados para os países ditos “emergentes”.

Outro problema a considerar é que o nacional-estatismo pressupõe, como é óbvio, que o governo arrecadará muito mais do que gasta. Sem um superávit substancial não tem como investir e muito menos como transferir ao florão de grupos de interesse que habitam seu intestino os nacos orçamentários sobre os quais julgam ter “direitos adquiridos”. A luta que estamos travando é para repor a máquina de governo num nível em que ela possa pelo menos fechar o orçamento anual. Justiça seja feita à atual equipe econômica, que não tem medido esforços para nos tirar da beira de precipício na qual estamos dependurados há vários anos.

E lamento dizer que ainda não cheguei à questão que considero mais complicada. “D’abord la politique”, dizia o marechal De Gaulle. Primeiro, a política. De fato, no Brasil, quando falamos em ajustar as contas públicas, em modernizar o Estado, em submeter a administração pública a um rigoroso sistema de mérito, etc., etc., estamos, na verdade, recorrendo a eufemismos para evitar a expressão que realmente machuca. Fazemos de tudo para evitar o arcaico conceito de patrimonialismo, mas, gostemos ou não, é disso que se trata. Em 1958, quando o mestre Raymundo Faoro martelou esse termo em seu clássico Os Donos do Poder, ainda podíamos imaginar o monstro como o ápice relativamente pequeno da estrutura nacional do poder. Para abreviar a explicação do conceito de patrimonialismo, dizíamos que era um sistema montado para benefício dos “amigos do rei”. Para uma pequena oligarquia, em suma. Em comparação com nossa frágil sociedade, ele parecia um Leviatã manso, que cedo ou tarde domaríamos, à medida que a base da democracia se alargasse, que uma elite com real espírito público se constituísse e as grandes máquinas indutoras do crescimento – como o BNDES – se mantivessem estritamente fiéis à sua missão.

O quadro que hoje nos é dado contemplar é bem diferente. O Leviatã se agigantou, isso é óbvio. E ao mesmo tempo se democratizou. Democratizou-se não em benefício dos partidos políticos e dos legislativos, que ele devorou sem a menor cerimônia, mas de uma infinidade de grupos corporativos que de bobos não têm nada; cada um entrincheirou na legislação, nos três níveis da Federação, todos os “direitos adquiridos” que queriam garantir. Democratizou-se – e aqui peço perdão ao leitor por certa ponta de perversidade – em benefício de grandes empreiteiras, grandes frigoríficos e grandes sabe Deus o que mais, que aí estão, mancomunados com grande parte do Congresso e com a cúpula do Judiciário a fim de dar férreo combate ao combate à corrupção.

Sócio-Diretor da Augurium Consultoria, é membro das Academias Paulista de Letras e Brasileira de Ciências

sexta-feira, janeiro 24, 2020

Moro 2022 já se manifesta no MPF e no Supremo - REINALDO AZEVEDO

FOLHA DE SP - 24/01

Real ameaça à democracia é o bonapartismo da aliança entre setores do Ministério Público e do Judiciário


Que ameaça à democracia representa um clown deprimido que, num surto de mania, resolve envergar as vestes de Goebbels da periferia? Ou um paspalho que confunde Kafka com kafta, infernizando a vida de milhares de estudantes com sua incompetência acima de qualquer suspeita? Ou um outro, terraplanista fanático, que acredita que o rock conduz ao “abortismo” e ao satanismo?

Essas e outras personagens, que inventaram para si mesmas, na última hora, o papel de extremistas de direita em busca de alguma relevância em suas respectivas existências miseráveis, degradam a vida pública, sim. Mas a sociedade sabe se defender de seus delírios, como, felizmente, temos visto. O espectro que ronda a democracia é outro.

A que propósito atende Wellington Divino Marques de Oliveira, procurador da República, que, ao denunciar o jornalista Glenn Greenwald, afronta, com um único ato, a Constituição, o devido processo legal e uma decisão do Supremo, num exemplo escancarado de abuso de autoridade?

Que metafísica influente leva o ministro Luiz Fux a assinar talvez a liminar mais patética da história do Supremo, cassando decisão de um outro colega, suspendendo sem prazo a eficácia do juiz das garantias, previsto em texto amplamente aprovado pelo Congresso?

É falso como nota de R$ 3, e isso ficará claro —vamos ver quando—, que a lei agride o artigo 96 da Constituição. É falaciosa a tese de que se está criando despesa sem a devida receita. Quem traz tal mácula na biografia é Fux, quando, com uma canetada, estendeu, em 2014, o auxílio-moradia a todos os juízes e membros do Ministério Público.

Permaneceu quatro anos sentado sobre a decisão, ao custo de quase R$ 1 bilhão por ano. Já tinha em sua biografia a declaração de inconstitucionalidade da lei que regulava o pagamento de precatórios de estados e municípios. Impôs a esses entes, em 2013, um espeto de quase R$ 100 bilhões, que deveriam ser pagos até 2018. Mandou às favas a economicidade da medida. Pesquisem. Fux criou tal confusão que foi obrigado a conceder liminar suspendendo a própria decisão.

O procurador Divino é o mesmo que apresentou uma denúncia, rejeitada pela Justiça, contra Felipe Santa Cruz, presidente da OAB, inconformado com uma crítica que este fizera a Sergio Moro, pré-candidato indisfarçado à Presidência da República, que se dedica a um trabalho árduo e cotidiano de sabotar o pouco que pode haver de virtuoso no governo Bolsonaro no que respeita à institucionalidade.

“In Fux we trust” (“confiamos em Fux”) é a frase já tornada imortal com que Moro respondeu a uma mensagem de Deltan Dallagnol, que assegurava ao então juiz, em abril de 2016, o pleno alinhamento do ministro com a Lava Jato. A intimidade era tal, revelou The Intercept Brasil, em parceria com meu blog, que Fux fustigou Teori Zavascki porque o então relator do petrolão ousara dar um pito em Moro.

Divino e Fux fazem parte de um movimento. O que ameaça a democracia brasileira é o bonapartismo da aliança entre setores do Ministério Público e do Judiciário. O ainda ministro da Justiça personaliza o que pretende ser um ente de razão, a que se subordinaria toda vida pública no país.

Parte das milícias de extrema direita nas redes sociais já tem seu novo líder: Bolsonaro foi substituído por Moro como demiurgo — ou ogro — de suas fantasias totalitárias. O ponto de ancoragem de sua militância é o ódio às garantias do Estado democrático e de Direito.

Ocorre que o agora ministro da Justiça também fala a outro público. Amplos setores da sociedade brasileira, com destaque para a imprensa, foram convencidos de que o combate à corrupção deveria ser encarado como um valor absoluto. E uma das características do absoluto é a ausência de regras, de parâmetros, de limites.

Não! Não temam os tolos e os patetas. O que nos ameaça são as aspirações daquele que, apostando na ruína de seu chefe, está à espera de que o manto imperial lhe caia sobre os ombros. Se e quando acontecer, parafraseando alguém, então a estátua da Justiça que fica à frente do STF terá ido ao chão.

Reinaldo Azevedo
Jornalista, autor de “O País dos Petralhas”.

segunda-feira, janeiro 20, 2020

Marx tinha razão - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 20/01

O idiota de mercado acha que sociedade de mercado é entidade meramente econômica


Portaria inteligente ou remota. Claro que o termo “inteligente” aparece sempre que alguém quer vender algo que faz os inteligentinhos de mercado ficarem excitados.

Tenho conversado com pessoas cujos condomínios contrataram portarias inteligentes e as opiniões são controversas. Mas a moda está pegando e a demissão em massa dos profissionais na área cresce.

Uma portaria inteligente é uma portaria sem porteiros ou nenhum funcionário similar. Você fala com um cara, sei lá, no Acre, que monitora 150 portarias pelo país. O argumento básico é a redução de custos, claro.

Podemos olhar para esse fenômeno de um modo mais amplo, ou mais imediato, ligado ao cotidiano. A portaria inteligente torna o prédio impermeável, inclusive a você e a seus convidados ou encomendas. Coisa de gente chata.

A ordem espontânea e expandida (expressão usada pelo economista liberal Friedrich Hayek para se referir ao mercado) é uma entidade moral, social, política e econômica. Na China, por exemplo, você vê um número enorme de pessoas, claramente sem grande formação, realizando pequenos trabalhos.

Esse fato garante a atividade e a dignidade de pessoas dentro dessa ordem espontânea e expandida. Economia sem a dimensão social é uma economia tão cega quanto um mercado em que o Estado controla preços: gera desemprego, instabilidade, e, por tabela, pobreza, concentrando a riqueza na mão de quem destrói o próprio tecido social do mercado. Coisa de idiotas de mercado.

Infelizmente, no Brasil, existe em grande número esse personagem que é o idiota de mercado ou o liberal inteligentinho, que acha que sociedade de mercado é uma entidade meramente econômica.

Não. O mercado é moral e social. Adam Smith, filósofo do século 18, antes de ser um economista, foi um filósofo moral. Como você identifica um idiota de mercado?

Esse personagem confunde a dimensão social e moral do mercado com a ingerência de um Estado gigantesco na vida das pessoas. A dimensão social e moral do mercado é a responsabilidade moral dos agentes econômicos nas suas pequenas decisões diárias, nas suas esferas de poder.

Mas, para além dessas consequências mais amplas, há que se pensar nas consequências mais imediatas, a curto e médio prazo, no mínimo.

A humanidade envelhece a passos largos. Idosos que conseguem manter suas casas, onde viveram e constituíram memória, dependem de pessoas que os ajudem a lidar com o cotidiano, nos prédios em que vivem. Portarias inteligentes destroem essa dimensão do vínculo externo da casa com o condomínio. Apenas millennials, enquanto ainda têm 15 anos de idade, não percebem isso.

Todo mundo sabe que porteiros e similares são os primeiros a darem socorro e tomarem decisões em momentos de emergência. Muitos idosos dependem deles no seu dia a dia, inclusive para ajudar na lida com pequenas compras.

Os inteligentinhos de mercado, provavelmente, dirão que esses idosos devem ser lançados em casas de repouso, locais em que a história presente na memória material deles inexiste.

O problema é que o número de idosos só cresce, e destruir essa rede de vínculos próximos, no cotidiano, só aumenta a inviabilidade da vida desses idosos nos prédios em que sempre viveram. É uma forma clara de desumanização.

Se por um lado, a sociedade contemporânea deve pensar no meio ambiente e nos jovens, ela deve se ocupar com o modo como lidará com o crescimento da longevidade.

Outro traço das portarias inteligentes é o aumento gigantesco de burocracia, inclusive mediado pelo uso de ferramentas mais próximas à sensibilidade dos millennials.

Receber, por exemplo, uma nova faxineira, transforma-se num processo semelhante a tirar vistos para viajar. Cada passo banal da relação do prédio com o mundo externo se transforma num grande processo kafkiano. Você se sente um K, personagem famoso do Kafka, se quiser receber uma encomenda e não tiver ninguém em casa pra recebê-la.

Portarias inteligentes comprovam a tese marxista segundo a qual o capital, um dia, mandaria os humanos a merda e se tornaria autônomo no seu processo entrópico.

Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

segunda-feira, janeiro 13, 2020

Aposentados do INSS começam a ganhar revisão da vida inteira na Justiça

Aposentados do INSS começam a ganhar revisão da vida inteira na Justiça

Ações voltam a andar após decisão do STJ; aposentada vai receber R$ 3.214,75 a mais no benefício

FOLHA DE SP - 13/01/20

SÃO PAULO
A recente decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça) autorizando o recálculo da aposentadoria ou pensão com todas as contribuições pagas antes da concessão já está sendo aplicada nos tribunais dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Nessa revisão, o aposentado inclui no cálculo do benefício as contribuições antigas, pagas em outras moedas. 
No interior de São Paulo, uma aposentada, representada pelo escritório Aith, Badari e Luchin Advogados, vai aumentar a sua renda de R$ 1.039 para R$ 4.253,75 com a chamada revisão da vida toda. Uma diferença de R$ 3.214,75.
O TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região) entendeu que a segurada preencheu os requisitos necessários para a revisão de sua aposentadoria por idade, com a inclusão de contribuições feitas antes de julho de 1994. 
A trabalhadora se aposentou aos 60 anos de idade, em outubro de 2014, e conseguiu, por meio da ação judicial, incluir as contribuições feitas desde 1976. 
Além da diferença mensal, a aposentada vai receber R$ 203 mil de atrasados.
Outro caso, no Rio de Janeiro, também teve decisão favorável a um aposentado em primeira instância. A aposentadoria passou de R$ 954 (salário mínimo de 2018) para R$ 4.798,93, com atrasados calculados em R$ 42.119,20. Ele se aposentou por idade, com 15 anos de contribuição.
Há ainda outros dois casos de primeira instância do Rio de Janeiro, que voltaram a andar após o julgamento do Tribunal Superior.
Segundo o advogado João Badari, responsável pelas ações, a chamada revisão da vida toda costuma dar atrasados e diferenças mensais menores no benefício. "Atrasados muito altos, de R$ 200 mil, por exemplo, são raros para esse tipo de revisão", diz.
Para o especialista, é mais comum o trabalhador começar a carreira ganhando pouco e depois aumentar a renda, e não o contrário. Além disso, a revisão só pode ser pedida em até dez anos do pagamento da primeira aposentadoria. 
Interessados em ingressar na Justiça com esse tipo de processo devem dar atenção a alguns detalhes da ação, pois ela só vale a pena para beneficiários que realizaram contribuições previdenciárias sobre salários relativamente altos antes de julho de 1994. 
Será esse o período de recolhimentos que irá entrar no cálculo da nova média salarial para definir o novo valor da aposentadoria. 
Como o cálculo inclui a conversão em reais e a atualização monetária dos valores contribuídos, a recomendação é procurar um especialista previdenciário ou consultor atuarial. O serviço costuma ter custo e o pagamento não depende do resultado da ação judicial.
Procurado, o TRF-3 afirmou que "a partir do julgamento realizado pelo STJ, os magistrados das instâncias inferiores devem aplicar o entendimento imediatamente nos julgamentos sobre a matéria". 

Contribuições da vida inteira | Correção do benefício

  • Os segurados que tinham altas contribuições antes da implantação do Plano Real, em julho de 1994, podem se dar bem com a revisão da vida inteira. A correção foi aprovada pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça)
Para quem vale a pena
  • Em geral, a revisão da vida inteira ou da vida toda vale a pena para quem tinha carteira assinada e contribuía com valores altos à Previdência em outras moedas
Como funciona
  • Aposentados que contribuíram sobre salários altos antes de 1994 estão indo à Justiça para pedir a revisão do seu PBC (Período Básico de Cálculo)
  • Na ação judicial, os salários recebidos antes da criação do real entram no cálculo da aposentadoria
  • Essa regra foi criada pela lei 9.876/99, após a reforma previdenciária realizada no governo Fernando Henrique Cardoso
Prazo para fazer o pedido
  • O prazo para pedir a revisão da vida toda é de até dez anos
  • Para o segurado que se aposentou no início de 2010, o prazo está chegando ao final
Só na Justiça
  • A revisão da vida toda é reconhecida pela Justiça, mas não no INSS
  • O pedido dessa revisão, se feito direto para o INSS, será negado
  • Mas vale a pena fazer a solicitação primeiro para o órgão previdenciário
  • Isso demonstrará à Justiça que o segurado tentou a solução administrativa
  • Essa tentativa de revisão no posto elimina o risco de a ação ser rejeitada pelo juiz
  • Um advogado especialista em Previdência conhece o procedimento para iniciar a ação
Faça as contas
  • Antes de ir ao Judiciário para pedir a correção, é importante buscar um especialista e fazer as contas
  • Isso porque a revisão não é válida para todo mundo
  • Quem ganhava salários menores antes de 1994 ou recebia salário mínimo não será beneficiado
Recurso
  • A decisão do STJ ainda pode ser contestada pelo INSS no Supremo Tribunal Federal
  • A AGU (Advocacia-Geral da União), que representa o governo na Justiça, já informou que vai analisar se irá recorrer ao STF
  • Neste caso, a revisão poderá ficar parada, à espera de decisão final
  • No entanto, para especialistas, quem tem direito deve fazer o pedido o quanto antes
Atrasados
  • Os trabalhadores que conseguem revisão da renda têm direito aos atrasados
  • Os valores são de até cinco anos antes do pedido
Fontes: Gisele Kravchychyn, da Kravchychyn Advocacia e Consultoria, STJ (Superior Tribunal de Justiça), IBDP (Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário), AGU (Advocacia-Geral da União), emenda constitucional 103/2019 e reportagem

sábado, janeiro 11, 2020

Suleimani retrata a derrota da razão - JOÃO PEREIRA COUTINHO

Suleimani retrata a derrota da razão - JOÃO PEREIRA COUTINHO

Por incrível que pareça, é possível criticar Trump sem canonizar terroristas

FOLHA DE SP - 11/01/2020


Deprimente. Patético e deprimente. Em finais de outubro de 2019, os Estados Unidos eliminaram Abu Bakr al-Baghdadi. Se o leitor consultar a Wikipédia, verá que al-Baghdadi era o líder do Daesh, a organização terrorista que encantou o mundo com suas decapitações e barbaridades.

Infelizmente, uma parte da mídia relegou esse pormenor para segundo plano. Eu sei porque vi: estava na terra do Tio Sam e jornais como o “Washington Post” apresentavam al-Baghdadi como um “austero académico religioso”. Como Joseph Ratzinger, talvez? Como um Dalai Lama iraquiano?

Eis o processo mental que ocorreu na cabeça dessa gente: al-Baghdadi foi executado por Trump; Trump é mau; donde, al-Baghdadi só podia ser bom. O ódio anti-Trump é como certos vírus: instala-se na cabeça do hospedeiro e reduz a massa encefálica a farofa.

Passaram dois meses. Aconteceu o mesmo com Qassim Suleimani, o ex-comandante da Força Quds que espalhava o terror pelo Oriente Médio na tentativa de exportar a teocracia iraniana.

Nos comentários à sua morte, Suleimani passou a ser um grande general, um herói, até um mártir. Alguns, tomados por excitação adolescente, falaram de Suleimani como “o Rommel da Pérsia”.

Isso é elogio? Aplaudir Suleimani por ser como um general nazista? É sério?

Atenção: não está aqui em causa o acerto ou a desacerto de Donald Trump em matar Suleimani. Embora, aqui entre nós, ainda esteja por provar que a decisão de Trump dificultou qualquer negociação com Teerã.

Suspeito que, pelo contrário, só com a remoção da influência maligna do “Rommel da Pérsia” será possível dialogar com os aiatolas.

A própria retaliação do Irã contra duas bases militares que abrigam soldados americanos, milimetricamente calculada para não causar qualquer baixa entre as tropas, parece mais uma peça de teatro para consumo interno do que propriamente uma vingança digna desse nome.

Mas isso são outros assuntos. Porque o assunto principal está no padrão: Suleimani foi executado por Trump; Trump é mau; donde, Suleimani só podia ser bom.

Esse tipo de “raciocínio” (digamos assim) parece uma repetição do flerte intelectual que a revolução iraniana de 1978-1979 provocou em certos intelectuais do Ocidente.

O caso de Michel Foucault, muito bem documentado em livro que recomendo (“Foucault e a Revolução Iraniana”, de Janet Afary e Kevin Anderson, editado pela É Realizações), é o exemplo máximo da estupidez e da mendacidade que ataca alguns espíritos.

Em 1978, Foucault viajou para o Irã (duas vezes) para reportar os avanços da revolução. Sim, o regime autoritário de Reza Pahlavi, que governava o país há quase 40 anos, não era recomendável.

Mas Foucault foi mais longe e viu na luta dos islâmicos a promessa de uma nova era – uma nova “espiritualidade política”, enfim, capaz de salvar o Ocidente da sua decadência intelectual e do seu anti-heroísmo burguês.

Dizer que Foucault se enganou seria um gigantesco eufemismo. Digamos apenas que, na república teocrática que Foucault aplaudia, ele seria o primeiro a ser executado por suas preferências sexuais.

Em matéria de liberdades cívicas e pessoais, o Ocidente decadente e anti-heroico, pelos vistos, ainda era um destino preferível –uma evidência que até Simone de Beauvoir, em nome das mulheres iranianas que seriam rapidamente enclausuradas por Khomeini, conseguiu perceber sem esforço.

Passaram quarenta anos. Parece que regredimos outros quarenta. Para uma parte da inteligência ocidental, criticar Trump e, ao mesmo tempo, reconhecer Qassim Suleimani como um criminoso de guerra é um exercício arriscado que pode provocar uma explosão neuronal.

Um erro, gente. Por incrível que pareça, é possível criticar Trump sem canonizar terroristas. A cabeça aguenta.

João Pereira Coutinho
Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.