terça-feira, julho 16, 2019

Dallagnol tem tudo para provar a lisura de seus atos, basta mostrar as planilhas - RANIER BRAGON

FOLHA DE SP - 16/07

É aceitável que procurador use função pública para alavancar negócios privados?

As conversas se assemelham àquelas que saem no Jornal Nacional tendo como pano de fundo o encanamento estourado, a jorrar maços e maços de dinheiro de dentro de suas tubulações enferrujadas.

Discutem-se cifras e percentuais, várias vezes. O plano é encobrir o real objetivo —o ganho financeiro— escalando laranjas para gerir a empresa ou criando uma entidade simuladamente sem fins lucrativos.

Conforme revelam mensagens obtidas pelo Intercept Brasil e analisadas em conjunto com a Folha, o procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da Lava Jato, montou um plano privado de negócios a partir de seu trabalho na operação.

Os diálogos mostram procuradores arrebatados por um único desejo, auferir o maior lucro possível —o que incluiria parceria com outras empresas— por meio de uma atividade a ser escamoteada pelo manto da filantropia. De forma chocante, não há nada ali que lembre remotamente a versão pública de Dallagnol sobre o objetivo de sua prolífica carreira de palestrante —estimular a cidadania e o combate à corrupção.

"Tomara que seja algo como 1 bi porque vamos faturar!!", escreveu o chefe da Lava Jato na madrugada do dia 15 de fevereiro ao também procurador Roberson Pozzobon. Dallagnol diz não haver veracidade comprovada nem contexto nas mensagens. É hora então de ele revelar o devido contexto de seus atos.

Cerca de 40 palestras teriam lhe rendido mais de R$ 300 mil "limpos" em 2018. Basta levar as planilhas ao escrutínio público. Quem o contratou, quanto recebeu, quanto foi parar no seu próprio bolso? Pode provar, como sempre disse, que destinou grande parte a entidades filantrópicas ou de combate à corrupção?

Dallagnol é um funcionário público pago para desbaratar maracutaias. É lícito, ético, que use essa atividade como escada para negócios privados? Ao tramar nas sombras e cogitar subterfúgios e institutos de fachada para ocultar a real finalidade da empreitada, o coordenador da Lava Jato parece saber a resposta.


Ranier Bragon
Repórter especial em Brasília, está na Folha desde 1998. Foi correspondente em Belo Horizonte e São Luís e editor-adjunto de Poder.

Questão de intepretação - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 16/07


A divulgação de diálogos, escritos e falados, atribuídos aos procuradores da Lava Jato, entre si e com o então juiz Sérgio Moro, não revelou nenhuma ação que distorcesse a investigação, que forjasse provas inexistentes, que indicasse conluio contra qualquer investigado da Operação Lava Jato, muito menos o ex-presidente Lula, o objetivo evidente da operação de invasão de celulares.

Estamos até o momento no terreno da interpretação das leis. Assim como o site Intercept Brasil, que divulga o material, tem lado evidente, vendo ilegalidade em todas as conversas entre os personagens, há inúmeros juristas e advogados que entendem ao contrário.

A questão está posta em relação ao nosso processo penal, que tem o mesmo juiz que controla a investigação do Ministério Público e da polícia dando a sentença do julgamento. Nos processos criminais do Supremo Tribunal Federal (STF), para figuras que têm foro privilegiado, acontece o mesmo.

O relator do mensalão, ministro hoje aposentado Joaquim Barbosa, foi também quem relatou o julgamento dos réus. No caso das forças-tarefa, a situação é mais limítrofe ainda, pois o juiz controla as investigações, embora seja impedido de participar delas.

Autoriza medidas como quebra de sigilo e interceptações telefônicas, busca e apreensão, ou as proíbe. Colhe depoimentos e determina prisões provisórias. Para dar agilidade ao combate contra os crimes financeiros, a Vara especial de Curitiba existe desde 2003, criada por recomendação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Somente em 2014 a Força-Tarefa da Lava-Jato foi criada, por decisão da Procuradoria-Geral da República (PGR). Quem organizou a Força-Tarefa do Ministério Público foi o procurador Deltan Dallagnol, que já trabalhara com o juiz Moro no caso Banestado, no início dos anos 2000.

O procurador integrou a Força-Tarefa que fez, em 2003, a primeira denúncia contra o doleiro Alberto Youssef. Dallagnol e Moro, portanto, se conhecem há quase 20 anos. Nenhuma ação dos procuradores do Ministério Público nem da Polícia Federal pode ser feita sem uma autorização do juiz.

A busca da sinergia entre as diversas corporações que trabalham em conjunto – Ministério Público, Polícia Federal, Receita Federal – é o que dá sentido às forças-tarefa. As etapas das operações tinham que ser autorizadas por Moro, como questões logísticas e exigências legais, como formalização de atos.

Para isso, Juiz e os investigadores têm que conversar para saber se é a melhor hora para fazer tal ação, se é possível atender aos pedidos dos procuradores e da Polícia Federal, se está bem embasado o pedido de prisão, de quebra de sigilo.

O entendimento sobre essa sinergia, que dá maior eficiência ao combate ao crime, é que está em discussão com a divulgação desses diálogos que, em todo o caso, os supostos participantes não reconhecem como autênticos na sua integralidade.

O problema da maneira como o site Intercept decidiu divulgar o material que recebeu do invasor dos celulares é que a falta da integralidade impede que se tenha condição de verificar a autenticidade dos documentos.

Mais ainda, o Intercept escolhe que partes quer divulgar, fora de seu contexto integral e, principalmente, escolhe o que não divulgar. O trabalho de edição é uma função jornalística, mas a recusa do Intercept de dar acesso ao material, mesmo àqueles que participam da divulgação, não tem uma explicação razoável.

O material do Wikileaks, que divulgou documentos oficiais do governo dos Estados Unidos, foi distribuído a uma cadeia de jornais e revistas, cada uma fazendo sua própria edição, por critérios próprios.

A última leva, por exemplo, com conversas de procuradores entre si e com suas mulheres, sobre a formação de uma empresa para gerenciar palestras, se resume à revelação da intimidade das autoridades, sem nada que justifique a divulgação.

A empresa não foi aberta, e as palestras são autorizadas pelo Conselho Nacional de Justiça. Se eventualmente alguém vê sinais de ganância nesse desejo, trata-se de uma conclusão moral, não penal.

O erro dos procuradores foi outro, o de propor a criação de um fundo, que eles geririam, com a indenização bilionária que a Petrobras teve que pagar aos Estados Unidos. O fundo foi vetado. Agora, Dallagnol e os procuradores terão que dar explicações à Procuradora-Geral República, Raquel Dodge.


Por que imposto único de Marcos Cintra é uma péssima ideia - PEDRO MENEZES

GAZETA DO POVO - PR - 16/07

Marcos Cintra, secretário da Receita, defende imposto sobre movimentações financeiras que substituiria tributos federais.| Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Desde as eleições, o ministro Paulo Guedes promete uma reforma tributária. A proposta ainda não apareceu. Há indícios no ar. O ministro anunciou o responsável por elaborar o projeto, Marcos Cintra, secretário da Receita Federal. Um economista que empunha a mesma bandeira desde os anos 1980: o imposto único.

Originalmente, era uma ideia literal, que pretendia mesmo reunir todos os impostos brasileiros em apenas um, que incidiria sobre as movimentações financeiras. Como tamanha unificação seria inviável, Cintra relativizou sua proposta nos últimos anos. No início do governo, novas versões apareceram em entrevistas. Nos últimos dias, o deputado Luciano Bivar, presidente do PSL, e Flávio Rocha, dono da Riachuelo, também defenderam o imposto único.

As críticas, por falar nelas, não tem sido poucas. Mesmo entre economistas liberais, a proposta sofre forte resistência. Justa resistência, na minha visão. A Câmara, através de Rodrigo Maia, aproveitou a oportunidade para propor sua própria versão da reforma tributária.

Nesta confusão, a posição de Paulo Guedes não é clara. Apesar de integrar a equipe econômica, Marcos Cintra já era próximo de Bolsonaro há alguns anos, por razões políticas. O ministro já elogiou a proposta da Câmara, apesar de prometer alterações. Ele sabe que o imposto único não é bem recebido pela maior parte dos economistas do setor privado.

Já escrevi um texto sobre o assunto aqui na Gazeta. Nele, explico em linhas gerais a proposta de Appy e a guerra de narrativas por trás do debate da reforma. Mas pouco comento sobre economia. E há uma interessante questão que não vem sendo respondida: se o imposto único é mais simples e barato, segundo Cintra, por que é ruim? Boa pergunta.

O que Cintra propõe – e por que é ruim
De acordo com suas declarações até o momento, a reforma tributária proposta pelo secretário da Receita Federal consiste num imposto sobre movimentações financeiras que substituiria tributos federais. Esse imposto teria uma alíquota pequena (fala-se em 2,5%) e seria pago em qualquer transação realizada dentro do sistema bancário.

A princípio, é natural que muitos considerem uma boa ideia. Simplificar a legislação tributária é uma necessidade básica do país. Um sistema tão simples, com uma alíquota tão pequena, soa tentador. Mas a diferença da proposta de Cintra para as outras não está na simplificação. As propostas discutidas no Legislativo também unificam vários impostos em apenas um. O maior diferencial deste modelo seria a cobrança sobre as transações financeiras.

Como ponto de partida, é útil notar que Cintra pretende tributar atividades não-econômicas. Geralmente, pagamos impostos quando produzimos riqueza – seja como renda do trabalho, lucro de empresas ou herança. Mas nem todas as transações financeiras geram riqueza.

No sistema proposto por Cintra, você paga imposto se mandar dinheiro para um irmão que ficou desempregado. E paga também caso divida uma conta com um amigo e decida pagar depois, por depósito bancário. Faz sentido que essa transação não-produtiva seja tributada da mesma forma que a compra de aço para uma fábrica da Fiat?

Nenhum país adota um sistema tributário como esse. Alguns tentaram modelos mais limitados e, depois, desistiram. O motivo foi simples: distorções infernais no sistema de preços. Como ocorre com frequência, a Lei das Consequências Não-Intencionais é crucial para a economia.

O que Marcos Cintra não vê
A Lei das Consequências Não-Intencionais é uma das mais antigas da economia. Em resumo, diz o seguinte: o impacto de uma política pública costuma ser difícil de prever. Como escreveu o francês Frédéric Bastiat num famoso ensaio do século 19, um burocrata não pode se preocupar apenas com o que se vê. O que não se vê é igualmente importante.

Peço desculpas ao leitor pelo tom professoral e trago outro conceito: a neutralidade do sistema tributário. Um sistema neutro é aquele que não distorce as decisões do contribuinte no seu dia-a-dia. Nas faculdades de economia, é comum o exemplo de um antigo imposto inglês, que se baseava no tamanho das janelas dos imóveis para estimar seu valor e, assim, cobrar impostos. Como resultado, as casas construídas no Reino Unido passaram a ter janelas menores. O sistema tributário neutro evita esse tipo de dilema, que incentiva comportamentos nonsense só por causa dos impostos.

A proposta de Marcos Cintra faz exatamente isso. Numa primeira análise, esse sistema acabaria por desbancarizar a economia. Afinal, se as transações pagam imposto no sistema bancário, fará mais sentido lidar com dinheiro vivo. Essa preferência induzida por cédulas é como as janelas britânicas, é um comportamento que não faria sentido sob um outro sistema tributário e indica distorção dos preços de mercado.

Além disso, haverá uma desigualdade tremenda no quanto será pago por cada setor. A indústria precisa realizar muitas transações antes de entregar seu produto. Já um prestador de serviços, como um advogado, precisa de bem menos fornecedores. Esse tipo de desequilíbrio tende a desindustrializar ainda mais a economia brasileira.

De modo geral, é possível apontar diversas vezes o mesmo problema: esse novo sistema tributário, cujo pagamento é cumulativo na produção, distorce o sistema de preços e induz hábitos antieconômicos.

Por que o projeto da Câmara é melhor
O projeto apresentado por Baleia Rossi (MDB-SP), formulado por Bernard Appy e liderado nos últimos meses por Rodrigo Maia é muito melhor que o de Marcos Cintra. Ainda não se sabe se o projeto de Cintra será mesmo o do governo – o anúncio deve vir em breve –, por isso seria bom para o país se Paulo Guedes desistisse da má ideia.

Antes de me aprofundar nesse projeto específico, vale uma pergunta: como seria o sistema tributário ideal? Na minha visão, primeiro a sociedade tem que escolher democraticamente quais tipos de atividade econômica serão tributadas – produção de bens e serviços, renda, patrimônio, etc – e quanto sairá de cada fonte. Num segundo momento, um imposto é criado para cada tipo de atividade econômica que se pretende tributar, e este imposto deve ser tão simples quanto possível, com uma alíquota para todos.

A reforma tributária de Rossi, Appy e Maia simplifica uma das fontes de impostos do Brasil: a produção de bens e serviços. Hoje, cada setor paga impostos diferentes – a indústria tem o IPI, os serviços tem o ISS, dentre outros. Além disso, cada imposto atual tem uma infinidade de casos excepcionais, de modo que ninguém sabe quanto tem que pagar.

Com a reforma que avança na Câmara, cinco impostos (IPI, ICMS, ISS, PIS e Cofins) seriam unificados no novo IBS, sigla para Imposto sobre Bens e Serviços. Este novo imposto teria alíquota única para todos, sem regimes especiais. Além disso, trata-se de um imposto não-cumulativo, que incide apenas sobre o valor adicionado.

O IBS resolveria o problema da tributação de bens e serviços. Resolve a pior parte do sistema tributário brasileiro – e as outras, como o IR, estão longe de serem boas. Depois dessa reforma, ainda seriam necessárias outras, bem menores.

O problema do imposto único é que, ao tentar simplificar demais, ele quebra as caixinhas – isto é, tributa a mesada do pai para o filho da mesma forma que o lucro da Petrobras. Um sistema com poucos impostos simples traria pouca burocracia a mais e muitas distorções a menos.

Este pode ser o maior erro de Paulo Guedes até o momento
Nos próximos dias, o governo deve anunciar sua posição – se apresenta outra proposta igual à de Cintra, se modifica a má ideia do imposto único ou apoia o projeto da Câmara. Se seguir os planos do seu secretário, Guedes corre o risco de cometer o pior erro de sua gestão.

Bernard Appy, economista respeitado que formulou a proposta da Câmara, já tentou aprovar uma reforma tributária durante o governo Lula. Depois de notar que a resistência maior vinha dos governadores e prefeitos, adaptou o texto para resolver esse problema político. Posteriormente, sua proposta foi debatida na academia por longos anos, melhorada no teste do tempo. É improvável que outra reforma avance tão rápido quanto esta, que acumula anos de discussão.

O projeto, adotado por Rodrigo Maia, tem bases liberais, alinhadas às linhas gerais defendidas por Paulo Guedes. A decisão de Guedes deve vir ainda nesta semana, segundo informa a imprensa. Seria bom se o governo adotasse o velho princípio conservador da prudência, respeitando aquilo que sobreviveu a anos de debates e deu certo noutros lugares do mundo. A outra opção, claramente anti-conservadora, é tentar desenhar um sistema inédito neste planeta a partir do escritório em Brasília. Escolher o imposto único de Marcos Cintra seria o pior erro da boa gestão de Guedes até o momento."

Do nióbio a Washington - FERNANDO DOURADO FILHO

O Estado de S. Paulo - 16/07

Bolsonaro não é o pioneiro em iniciativas que beiram a idiotia para promover exportações


Quem assistiu à alocução no Facebook do presidente da República em que ele alardeou as virtudes do nióbio na confecção de adereços e badulaques teve motivos bastante fortes para procurar um esconderijo até que o estupor se diluísse em constrangimento. Diante da cena, imaginamos que mesmo os eleitores mais fiéis do capitão devem ter sentido a escandalosa dissonância cognitiva entre o ocupante e a função, e os menos engajados hão de ter suspirado de saudades dos ventos de Dilma, das mesóclises de Temer, das recorrentes referências de Lula ao ludopédio, das exortações raivosas de Collor a uma gente que chamava de sua e, por que não, do odor das cavalariças do general Figueiredo, que o preferia ao cheiro do povo.

Que ninguém pense, contudo, que Jair Bolsonaro é o pioneiro em iniciativas que beiram a idiotia ao tentar promover nossas exportações, demonstrando um comportamento tão amador quanto desastrado em seu sales speech. Se foi o primeiro presidente a atuar como mascate improvisado, miríades de políticos brasileiros já deram provas candentes de quão nosso país pode ser amador quando seus representantes se arvoram a missão de apresentar ao mundo um simulacro ralo de nossa competitividade. Inferência da armadilha que atribui a nossos indígenas um fascínio por pedrinhas brilhantes, não são poucos os aventureiros que deslustraram a liturgia das funções para tentarem emular o colonizador espertalhão, no caso, diante dos gringos incautos.

Nos idos dos 1980, o falecido deputado Ricardo Fiúza não se cansava de contar as incursões de seus empedernidos pares às areias do Oriente Médio. Certa feita, em relato amparado por testemunhas, o então parlamentar Theodorico Ferraço não se acanhou diante do austero e imponente então monarca saudita, o rei Fahd bin Abdul Aziz al-Saud, e valeu-se da audiência para tirar da pasta várias amostras de cubos de granito, produto de destaque na pauta exportadora de seu Espírito Santo natal. Com desenvoltura de fazer inveja aos camelôs que exibem raladores de legumes nas calçadas do mundo, não teve pruridos em desafiar o monarca a encarar a estultice de seu governo de privilegiar a compra de mármores italianos de Carrara, a preços elevados, em detrimento do “similar” capixaba. Inábil com os dedos, ponto fulcral na anatomia de um mascate de grei, derrubou as pedrinhas no colo de Sua Majestade. Para coroar a tarde, recitou uma lista de preços, para desespero do intérprete, a quem, naquele momento, ocorreu que teria sido bom negócio não ter nascido.

Nessa mesma excursão, mais uma das tantas missões inglórias promovidas pelo Congresso Nacional, o senador paraense Gabriel Hermes, tomado da melhor das intenções de desfraldar nas barbas dos muezins de minaretes a bandeira valetudinária do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, a que era ligado, saudou o rei Fahd verbosamente, ressaltando que o fazia em nome de toda a gente briosa do Senai. Sem saber ao certo o que vinha a ser aquela sigla, muito menos o que fazia pauta tão paroquial numa reunião de elevada representatividade, o pobre intérprete traduziu como pôde. Ora, pensou, o senador aludia ao Sinai, então área ocupada por Israel, subtraída ao Egito. O que seria aquilo, pensou o rei? Uma provocação em sua própria casa, cujas portas abrira com a fidalguia que só os filhos do deserto conhecem? Ultrajado, deixou o recinto acompanhado de solidário séquito, alegando mal-estar. E para trás lá ficou a comitiva verde-amarela, recolhendo cubos de granito e as migalhas de seu despreparo.

Foi por essa época, a crer no que dizia o deputado pernambucano, que outra comitiva foi ao Japão. Nem sempre a parvoíce se manifestava apenas à hora de mascatear as glórias terrenas de seus rincões de origem. Pois eis que à saída do Kendaren, a poderosa federação das indústrias do arquipélago, vários parlamentares e cônjuges desciam pelo elevador principal quando a esposa do então deputado Ernâni Sátiro, da Paraíba, manifestou que acabara de perder ali mesmo o precioso anel de brilhante que ganhara do marido. Solidário com a desdita da companheira, em altos brados o parlamentar proibiu que qualquer um ali saísse do elevador sem antes ser submetido a uma revista que ele próprio conduziria. Em defesa de seu zelo, segredou à esposa que era ciclópica a quantidade de ladrões no recinto.

Mais parece que essa comitiva estava mesmo fadada ao infortúnio. Pois coube a outro parlamentar a desventura de ter vivido um anticlímax que quase desaguou nas páginas policiais. Curioso em se iniciar nas alardeadas delícias do trato sensual de uma gueixa, instou a esposa a fazer uma excursão ao Monte Fuji. Quanto a ele, alegou uma tarde de reuniões com dirigentes de alto calibre, interessados em investir no Estado da Bahia. Sozinho na suíte do hotel Imperial, tomou banho prolongado e se paramentou com uma yukata para receber a visitadora. Com os cabelos besuntados de banguê do Recôncavo, perfumado, abriu a porta com mesuras, mas qual não foi a sua surpresa ao deparar com a própria esposa, que voltara para pegar a máquina fotográfica. Estranhando que o marido não estivesse tratando da venda de óleo de dendê aos ilhéus, e desconfiada de tamanho apuro no vestir, resolveu ficar. Para desespero do parlamentar, a gueixa apareceu minutos mais tarde, esbanjando sensualidade milenar. O que não estava nos planos é que fosse enxotada porta afora por uma baiana furibunda, que resolveu lavrar queixa na recepção, acusando o lendário hotel de ser um tugúrio de prostituição camuflada. Que o diga nosso então embaixador em Tóquio.

Se serve de consolo, Bolsonaro e os trancelins de nióbio integram alentada crônica de patetices que, como se vê, piora mês após mês. E cujo novo clímax tem como palco nossa embaixada em Washington, em flagrante demonstração de amadorismo.

A reforma que Bolsonaro não quis liderar - MAÍLSON DA NÓBREGA

O GLOBO - 16/07

Presidente renunciou ao papel reservado ao chefe do governo no presidencialismo brasileiro


O Congresso vai aprovar, tudo indica, uma reforma da Previdência suficientemente robusta em seus efeitos fiscais. Jamais uma mudança dessa complexidade foi acolhida por mais de três quintos dos parlamentares sem o envolvimento pessoal do presidente da República.

Jair Bolsonaro renunciou ao papel reservado ao chefe do governo no presidencialismo brasileiro, qual seja o de coordenador do jogo político. Recusou-se a formar uma coalizão estável e majoritária para garantir a governabilidade, como é a regra em todas as democracias caracterizadas por sistemas multipartidários, em que o governo não faz a maioria nas eleições legislativas.

Nesses casos, as coalizões funcionam mediante trocas legítimas e republicanas, em que o chefe do governo compartilha o poder, enquanto os partidos aliados assumem o compromisso de apoiar a agenda oficial.

Acontece que o presidente confunde coalizão com clientelismo e corrupção. Chegou a sugerir que correria o risco de ir para a cadeia se adotasse o toma lá dá cá de governos anteriores. É como se a corrupção revelada pela Operação Lava-Jato constituísse um padrão no Brasil, o que está longe de ser verdadeiro. Ademais, ele se ocupa cotidianamente de temas irrelevantes, como se ainda estivesse em campanha eleitoral.

Dois de nossos melhores cientistas políticos, Sérgio Abranches — autor da teoria do presidencialismo de coalizão — e Carlos Pereira, têm alertado para os riscos que o presidente corre ao decidir liderar um governo minoritário. Em artigo recente, Abranches foi enfático: “A coalizão se tornou um imperativo da governabilidade”.

Além da opção por um governo minoritário, Bolsonaro parece ter entendido que seu papel na reforma da Previdência seria apenas o de enviar o projeto ao Parlamento, aqui e acolá apelando para o “patriotismo” dos parlamentares. Não se dá conta de que o exercício do “patriotismo” não é relevante para a sobrevivência política deles. Em alguns momentos, agiu para desidratar a proposta, como na defesa de privilégios de policiais.

Como explicar, mesmo assim, a aprovação da reforma da Previdência? Esse paradoxo decorre da combinação virtuosa de quatro fatores:

1) O governo não consumiu tempo na formulação da proposta. A PEC 06, da reforma, tem base no projeto Paulo Tafner-Armínio Fraga;

2) A maioria da sociedade se convenceu da necessidade da reforma, fruto das discussões decorrentes de medida semelhante no governo Temer;

3) As preferências da maioria dos parlamentares convergiram para o apoio à reforma. Eles perceberam que o fracasso os incluiria na lista dos perdedores;

4) A tarefa de agregar tais preferências foi exercida, na ausência de Bolsonaro, pelo presidente da Câmara. Pode vir a ser um caso raro de vitória por persuasão, pois Rodrigo Maia não dispõe dos recursos de poder para conquistar votos, como nomeações para cargos e liberação de emendas parlamentares.

O êxito não garante, todavia, que essa combinação se reproduza em outras mudanças, o que pode indicar riscos de derrotas futuras. Não fora isso suficiente, Bolsonaro parece não dispor de filtros que o protejam de ações equivocadas, como as de atos flagrantemente inconstitucionais, rejeitados pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Congresso.

Tradicionalmente, a Casa Civil é a fonte básica desses filtros. A ela cumpre escrutinar documentos a serem assinados pelo presidente, avaliando conveniência e oportunidade. Verifica a compatibilidade de medidas propostas com a agenda do governo, particularmente com a política econômica. Checa a constitucionalidade e as remissões à legislação.

Há sinais de ineficiência na Casa Civil, o que pode ter decorrido da anunciada “despetização”. O órgão pode ter perdido, assim, pessoal experiente e qualificado para realizar o exame adequado de documentos levados à assinatura do presidente. Não parece agora existir uma figura semelhante à do lendário Professor Carvalho, que serviu a mais de um governo. Nenhuma das falhas de Bolsonaro passaria pelo seu crivo.

Pode-se imaginar, alternativamente, que os erros decorrem de puro voluntarismo do presidente, que imporia sua vontade a um grupo submisso de auxiliares. Seja como for, um governo minoritário e sem filtros eficazes é propenso a derrotas, ao fracasso na gestão e, no limite, à interrupção do mandato.

Maílson da Nóbrega é economista e foi ministro da Fazenda

Cenário melhor e longe do ideal - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 16/07


A equipe econômica já trabalha com o que se poderá fazer no Senado para que a reforma da Previdência ande rápido e reinclua os estados e municípios. A atividade econômica teve ontem um primeiro dado positivo em muito tempo, mas os economistas não acham que isso seja o início de alguma retomada. O IBC-Br de 0,54% é visto como um ponto fora da curva, depois de quatro meses de queda. A aprovação da reforma, em primeiro turno, foi comemorada pelo mercado, mas sem a interpretação de que isso resolverá os problemas que levaram à estagnação.

O Senado terá todo o apoio da equipe econômica para incluir estados e municípios, segundo se diz no governo. Uma fonte que eu ouvi disse que “agora é a hora do protagonismo de Davi Alcolumbre”. Se a reinclusão dos estados exigir garantias de que o dinheiro do petróleo será dividido com eles, não haverá obstáculos no Ministério da Economia. Isso é visto lá como um passo importante rumo ao verdadeiro “federalismo”.

— Precisamos acabar com o dirigismo. Temos que descentralizar os recursos. Se para isso precisar garantir uma parte dos recursos da partilha, dos royalties e da cessão onerosa para os estados, tudo bem — diz um economista do governo.

Para isso será preciso aprovar uma legislação específica, fazer o leilão e entender que o dinheiro do petróleo não resolverá todos os problemas, não entrará no caixa rapidamente, nem substituirá a reforma da Previdência. A aposentadoria dos policiais e dos professores tem impactado os estados e municípios, mas justamente esses dois itens foram suavizados pelo plenário da Câmara. E, claro, é preciso aprovar a reforma em segundo turno.

Na economia real, ainda há dúvidas sobre o ritmo da recuperação. O mercado financeiro revisou pela 20ª semana seguida a projeção para o PIB deste ano, para 0,81%, e cortou o número do ano que vem, para 2,1%. O governo reduziu sua estimativa para este ano, de 1,6% para 0,8%. Na visão do economista-chefe da Rio Bravo Investimentos, Evandro Buccini, a reforma da Previdência sozinha não garante o crescimento sustentável, e o governo não tem o que fazer para impulsionar a economia no curto prazo:

— A reforma pode até ser uma faísca para acender o crescimento, o problema é que a economia não tem combustível para crescer. Os empresários têm dúvidas em relação à demanda, quem investiu nos últimos tempos se deu mal. Enquanto não houver certeza de que o consumo vai voltar, será difícil destravar o investimento.

A aprovação da reforma favorece o cenário de corte de juros pelo Banco Central. A expectativa de parte do mercado financeiro é de que a Selic comece a cair na reunião do final deste mês, de 6,5% para 6%, e termine o ano em 5%. Mas isso não é garantia de que as taxas ficarão mais baratas para o consumidor final.

— Nenhuma empresa pequena ou média consegue empréstimo a menos de 30% ao ano, mesmo com a Selic a 6,5%. O spread continua muito elevado, apesar de todo o esforço do Banco Central — afirmou Buccini.

No cenário externo, permanecem as incertezas. A China anunciou que cresceu no segundo trimestre à menor taxa em 27 anos. Traria euforia para qualquer país, porque foi 6,2%, mas isso preocupou os mercados ontem. O Banco Central americano interrompeu a alta dos juros, e isso significa que vê problemas para o crescimento mundial. Na Argentina, que é o principal destino dos nossos produtos industriais, há eleições em outubro com chance de vitória do candidato da oposição Alberto Fernández. Em entrevista ao jornal “Clarín”, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, já falou em “atritos” na relação entre os dois países, em caso de vitória de Fernández. Tudo isso deixa o horizonte mais nebuloso, porque na projeção para o PIB do ano que vem a indústria tem um papel fundamental, com alta de 3%. Se ela falhar, jogará o PIB para baixo.

A equipe econômica estuda medidas para destravar a economia. Mas cometerá um erro se tentar buscar o crescimento a qualquer custo no curto prazo. O cenário está assim: há uma boa expectativa por causa da reforma da Previdência, mas a economia permanece gelada, o mundo está ficando mais complexo, e com o presidente da República não se pode contar. Seu pensamento sempre está longe do foco. Ontem, achava que o principal problema do país era a taxa de Fernando de Noronha.


O poder como capricho - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 16/07

Caso o convite a Eduardo Bolsonaro para a embaixada em Washington seja oficializado, é responsabilidade do Senado barrar a indicação, que avilta o bom senso


É um disparate, em todos os sentidos, a ideia de o presidente Jair Bolsonaro indicar o seu filho Eduardo para o posto de embaixador do Brasil em Washington. Caso o convite seja oficializado, é responsabilidade do Senado barrar a indicação de pai para filho, indicação essa que avilta o bom senso, menospreza a defesa técnica e qualificada do interesse nacional, transforma o Estado em assunto de família e manifesta, uma vez mais, a dificuldade de Jair Bolsonaro para compreender o que é ser presidente da República, muito diferente de ser chefe de um clã.

“No meu entender, (Eduardo Bolsonaro) poderia ser uma pessoa adequada e daria conta do recado perfeitamente em Washington”, disse o presidente, após apontar as razões pelas quais entende que seu terceiro filho poderia ser o embaixador do Brasil nos Estados Unidos: “Ele é amigo dos filhos do Trump, fala inglês e espanhol, tem vivência muito grande de mundo”.

O papel do embaixador é representar o País e o interesse nacional, numa relação de confiança e, ao mesmo tempo, de independência perante outro país. As nações que têm a pretensão de serem respeitadas no cenário internacional dispõem de um corpo diplomático bem formado e tecnicamente qualificado. Não faz nenhum sentido que o Brasil, com uma tradição diplomática do mais alto nível, deixe a embaixada em Washington nas mãos de um amador, por mero capricho familiar.

O embaixador não está em representação de uma pessoa, de um partido ou de uma causa. Ele representa o Estado brasileiro. Tanto é assim que “compete privativamente ao Senado Federal aprovar previamente, por voto secreto, após arguição em sessão secreta, a escolha dos chefes de missão diplomática de caráter permanente”, como dispõe a Constituição.

Após o presidente Jair Bolsonaro anunciar o possível mimo ao filho, Eduardo disse que “aceitaria qualquer missão que o presidente me der”. Mostrando que sabe tão pouco quanto o pai sobre a diplomacia, o deputado federal pelo PSL falou de suas credenciais para o cargo. “Não sou um filho de deputado que está do nada vindo a ser alçado a essa condição. (...) Sou presidente da Comissão de Relações Exteriores, tenho uma vivência pelo mundo, já fiz intercâmbio, já fritei hambúrguer lá nos Estados Unidos, no frio do Maine, Estado que faz divisa com o Canadá, no frio do Colorado, em uma montanha lá. Aprimorei o meu inglês, vi como é o trato receptivo do norte-americano para com os brasileiros”, disse.

A fala de Eduardo Bolsonaro, absolutamente adequada em uma cena de comédia e absolutamente inadequada na discussão sobre o preenchimento de um posto diplomático da importância da embaixada em Washington, só confirmou sua ignorância sobre as relações internacionais. Em novembro do ano passado, na condição de filho do presidente eleito, Eduardo circulou pelos Estados Unidos com um boné de cabo eleitoral de Donald Trump. A Constituição de 1988 define, entre os princípios que devem nortear o País em suas relações internacionais, a independência nacional, a autodeterminação dos povos e a igualdade entre os Estados. Com o boné “Trump 2020”, Eduardo Bolsonaro desrespeitou, de uma só vez, os três princípios constitucionais.

Na mesma viagem aos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro deu outro exemplo de seu desconhecimento sobre a complexidade das relações internacionais e o interesse nacional. Questionado sobre uma possível mudança da embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, Eduardo pontificou: “A questão não é perguntar se vai, a questão é perguntar quando será”. A ideia, mera imitação dos caprichos de Trump e que poderia custar muito caro ao Brasil, foi por ora abandonada pelo governo.

É evidente que Eduardo Bolsonaro não tem nenhuma credencial para o cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos. O único atributo que leva seu nome a ser cogitado para o posto em Washington é ser filho de Jair Bolsonaro. Uma indicação assim, tão despótica – no sentido mais exato do termo –, desmerece o País interna e externamente. Se o capricho familiar for adiante, que o Senado, em sinal de respeito ao País e à Constituição, lhe aponha o devido veto.


segunda-feira, julho 15, 2019

A tentação estoica - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 15/07

A própria ideia de que a prosperidade seja parâmetro de saúde mental é algo ilusório


Alguns leitores me perguntaram o que eu quis dizer quando me referi dias atrás a “opção Jon Snow”, um dos personagens centrais da série “Game of Thrones”. Descrevi essa opção como sendo uma utopia estoica.

Jon Snow, verdadeiro herdeiro legítimo ao trono de ferro na série, recusa desde cedo qualquer cargo de poder que lhe é oferecido, evoluindo ao longo da trama para uma atitude muito próxima ao ideal estoico. O que é esse ideal estoico?

Os nomes mais famosos dessa escola filosófica são romanos, e gente poderosa, como o imperador Marco Aurélio e os senadores Sêneca e Cícero, todos vivendo no auge do império romano. Mas, para além de nomes famosos, a ética estoica permanece encantadora por seu chamado à renúncia dos engodos do mundo.

Muitas pessoas que detestaram o final da série o fizeram por entender que o destino de seu maior herói, Jon Snow, foi demasiadamente melancólico.

Se o temperamento estoico sempre foi marcado por uma certa melancolia, como pode essa ética antiga permanecer encantadora para aqueles que se sentem atraídos pela sua visão de mundo? A fortuna crítica se refere a ela como “constante estoica” no sentido que, apesar das mudanças históricas entre o mundo antigo e o nosso, o estoicismo continua falando conosco. Qual seria esse idioma?

O estoicismo parte do pressuposto de que há um grande engodo na vida. Esse engodo é a busca do sucesso. Talvez, uma das melhores sínteses do estoicismo seja as seguintes questões: vale a pena buscar o sucesso na vida? Isso deve ser nosso critério de felicidade? E aí, tocamos numa nota essencialmente constante do estoicismo.

Arriscaria dizer que, se o desafio estoico (a recusa ao engodo do sucesso) era um desafio para poucos na Antiguidade (reis, senadores, aristocratas, Jon Snow), hoje ele foi “democratizado”. A própria ideia de que a prosperidade seja parâmetro de saúde mental é algo que chama a atenção para qualquer temperamento estoico. Dito de outra forma: o estoicismo nunca foi tão necessário em dias como os nossos, rasgados pela breguice do sucesso como ontologia.

Marco Túlio Cícero, senador romano envolvido no assassinato de Júlio Cesar, um dos filósofos mais importantes do período romano, em seu “Paradoxo dos Estoicos”, publicado no volume “Textos Filosóficos” da Fundação Calouste Gulbenkian de Lisboa, analisa algumas máximas estoicas.

Sabemos que Cícero guardava uma relação no mínimo ambivalente, para não dizer eclética, com o estoicismo, diriam alguns, justamente, pela sua enorme vaidade moral e ambição política. Traços que conflitam frontalmente com a ética estoica.

Nessa obra, entre outras máximas, duas são muito características do temperamento estoico. Vamos a elas: 1) “Apenas o sábio é livre, todo o insensato é escravo”; 2) “Apenas o homem sábio é rico”.

De partida, sabemos que o estoicismo sempre relacionou felicidade a sabedoria. A primeira nos fala da liberdade do sábio. Mas liberdade em relação a quê? A pergunta é vasta, mas, seguramente, liberdade em relação às ambições mundanas, como dinheiro, poder e sexo.

Não se trata de uma condição celibatária, tampouco de um voto de pobreza, mas do reconhecimento de que há um combate contínuo com o risco da insensatez, entendida como a escravidão a dinheiro, poder e sexo —numa palavra, as paixões. Essa é busca pela autonomia estoica. Sempre se soube que essas três coisas estão relacionadas.

Os americanos sempre dizem “siga o dinheiro”, os franceses “busque onde está a mulher na história”, ambas as máximas no sentido de que, onde há dinheiro e sexo (claro, estou falando do ponto de vista masculino heterossexual, que sempre teve a maior parte do poder no mundo; é sempre bom avisar aos inteligentinhos e seus irmãos caçulas, os idiotas de gênero), há briga pelo poder. As três realidades estão profundamente imbricadas.

Se juntarmos as duas máximas estoicas citadas por Cícero, chegamos à conclusão de que a riqueza verdadeira não é muito dinheiro e muito poder para ter muitas mulheres, mas a capacidade de resistir à atração incontrolável desses três fatores sobre nossa natureza (claro, isso vale pra todos os sexos da humanidade).

A utopia estoica é atingir a ataraxia, uma alma em repouso, que não se ilude com as promessas efêmeras do mundo. Numa cultura da prosperidade como a nossa, o estoicismo continuará encantador, justamente pelo seu desprezo a tudo aquilo que os idiotas do sucesso pregam.

Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

Time de Jesus respeita DNA do Flamengo ao buscar gol até o final - RODRIGO MATTOS

UOL - 15/07

Com a goleada sobre o Goiás, o Flamengo tornou-se o melhor ataque do Brasileiro com 21 gols, dois a mais do que o Palmeiras. É a maior marca ofensiva do time rubro-negro nesta etapa do campeonato nos últimos dez anos. O técnico Jorge Jesus deixou claro que sua filosofia é se expor aos riscos pelo ataque.

Foi em outra arrancada em 2008 que o Flamengo tinha ataque superior ao atual em 10 rodadas. Na ocasião, obteve 22 gols na campanha em que se destacava como líder, e depois degringolou. No ano passado, sob comando de Barbieri, o time era o primeiro da tabela na 10a rodada, mas com 18 gols.

É apenas a segunda partida do Flamengo sob o comando de Jesus. Mas ele já traçou um time que vai respeitar o DNA ofensivo rubro-negro, especialmente no Maracanã. Após o jogo, afirmou: "Nos expomos ao risco pela minha forma de olhar o jogo, o fácil é defender com muitos. Difícil é defender com poucos, mas devemos nos expor aos riscos."

Como já ensaiara no jogo diante do Athletico-PR, Jesus colocou sua linha de defesa bem avançada para reduzir o campo e obter a retomada de bola na frente. De positivo, a pressão ofensiva resultou no primeiro gol em que o passe forçado da defesa do Goiás parou em Arão que armou o contra-ataque que acabou no gol de Arrascaeta. De negativo, a linha ainda não está bem treinada e portanto deu espaços nas costas das laterais.

O que se viu de diferente no Flamengo no Maracanã em relação à Arena da Baixada foi a movimentação ofensiva com a bola. Seja na retomada de bola pela marcação pressão, seja como o time rodando a bola, o Flamengo soube achar os espaços na defesa nas triangulações.

A presença dos três meias Diego, Everton e Arrascaeta foi essencial, pois Diego soube fazer uma função que se assemelha a segundo volante. Já tinham jogado juntos em determinadas passagens com Abel Braga, mas em geral com dois volantes por trás. Em sua posição ideal, na esquerda, com aproximações, Arrascaeta apresentou sua melhor versão no time carioca.

Com a escalação desse domingo, podiam servir e tabelar com dois atacantes. Era impressionante como havia jogadores do Flamengo na área para concluir a gol, foram quase 20 finalizações certas. E foi assim até o final mesmo com a goleada definida no primeiro tempo.

O desenho rubro-negro deve variar já que Jesus prevê rodar jogadores – trocou quatro de sua estreia diante do Athletico-PR. A única certeza é de que o time não vai abrir mão de atacar de forma intensa: vai perder ou ganhar desse jeito.

Ritual para gastar pode sair caro para o consumidor - SAMY DANA

O GLOBO - 19/07

Compradores às vezes adotam comportamento distinto para certos produtos e marcas

Não é segredo que muita gente usa rituais para consumir. É costume de algumas pessoas, por exemplo, separar o biscoito recheado em duas metades antes de comer ou colocar uma rodela de limão no gargalo se a cerveja for mexicana. Alguns mais bem dispostos até enfrentam filas de dias ou semanas pelo direito de ser um dos primeiros a ter um iPhone. As empresas sabem disso e estimulam esses comportamentos, esperando que ajudem nas vendas.

Mas por que os consumidores adotam hábitos só para alguns produtos e marcas? Em um estudo Kathleen Vohs, Yajin Wang (ambas da Universidade de Minnesota), Michael I. Norton e Francesca Gino (Harvard) sugerem que um ritual ressalta o lado positivo de uma compra ou uma experiência. O trabalho foi publicado na revista Psychological Science Magazine.

Em quatro experimentos, 284 estudantes se envolveram em rituais como quebrar um chocolate ao meio, fazer uma pausa para beber limonada ou bater na madeira e respirar antes de comer cenouras. Depois, davam uma nota, de a 1 a 7, para o quanto aprovavam o alimento. Pode parecer inusitado, mas cada ritual levou a uma avaliação mais positiva, e as pessoas também atribuíam um preço maior ao produto.

Rituais tornam a vida melhor e o consumo mais desfrutável, concluem os psicólogos. Vale para alimentos e também café, nossa bebida mais nacional, segundo um trabalho brasileiro.

Estudo dos professores Ronan Torres Quintão (Instituto Federal de Educação Tecnológica de São Paulo), Eliane Pereira Zamith Brito (FGV-SP) e Russell W. Belk (York University), entre os fãs dos cafés mais refinados, aponta que rituais são usados para se destacar dos consumidores comuns.

Beber o café puro, sem leite e sem açúcar, buscar informações sobre a origem do grão e gastar com cafés gourmet até dez vezes o preço de um café comum no supermercado, bem como com moedores e cafeteiras, estão entre os hábitos dos fãs dos cafés especiais. Geralmente, esse conhecimento vem de baristas ou de comunidades especializadas, levando a novos hábitos de consumo.

É lógico que tudo isso torna o ritual de beber café muito mais do que apenas ir ao botequim da esquina — e certamente muito, muito mais caro. A razão? O trabalho, com base nas entrevistas e apontamentos da visita de Quintão a 48 cafeterias nos Estados Unidos e no Canadá, sugere que se identificar com uma subcultura ajuda seus praticantes a gastarem mais, pois estão se diferenciando dos consumidores comuns.

E, falando em beber café, outro caso conhecido de ritual com a bebida é uma ida ao Starbucks. No livro “The Starbucks Experience”, o psicólogo Joseph Michelli nota que a rede de cafeterias americana criou um espaço que vende a mística de que cada empregado gosta tanto de café quanto os clientes. A ideia veio de pequenas cafeterias italianas, visitadas pelo criador da rede, Howard Schultz. Todo esse esforço, diz Michelli, torna o ritual de beber um expresso no Starbucks uma espécie de oásis na vida atribulada das grandes cidades americanas.

A razão? Rituais levam a interesse e envolvimento maior com o que consumimos, dizem Kathleen Vohs e seus colegas. Do lado positivo, como mostra o primeiro estudo, rituais podem ajudar no esforço de uma alimentação saudável, fazer exercícios, bons hábitos financeiros ou ser mais produtivo. Mas, quando se trata de consumo, quase sempre significam que você vai gastar mais.

A não ser que se tenha um ritual contra isso.

Pautas com pegada - CARLOS ALBERTO DI FRANCO

O Estado de S. Paulo - 15/07


Ninguém pagará por aquilo que pode encontrar de forma similar e gratuita na rede



É preciso sentir o cheiro da notícia. Persegui-la. Buscar novas fontes e encaixar as peças de um enorme quebra-cabeças para apresentá-lo o mais completo possível. Dentre as competências necessárias para exercer um bom jornalismo, algumas parecem ser inatas e por mais que se tente aprender, inútil será o esforço. É assim o tal “faro jornalístico”. Uma capacidade quase inexplicável que alguns profissionais possuem de descobrir histórias inéditas, de furar a concorrência e manter pulsando a certeza de que é possível produzir conteúdo de qualidade que sirva ao interesse público.

Nunca se pôs em xeque o papel essencial do instinto jornalístico. Nem eu pretendo fazê-lo agora. Como já venho reiterando há tempos neste espaço, apenas essa vibração será capaz de devolver a alma que, por vezes, percebo faltar ao trabalho das redações. O que quero é acrescentar um aspecto que julgo importante nesta discussão: na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números. A informação precisa ser bem fundamentada.

Realidades que pareciam alheias aos negócios da mídia estão cada vez mais próximas dos veículos. É o caso do Big Data. A cada dia os acessos digitais aos portais de notícias produzem quantidades incríveis de dados sobre o comportamento de nossas audiências, mas ainda não fomos capazes de enxergar o potencial que há por trás dessa montanha de informação desestruturada. Nas redações brasileiras multiplicam-se as telas coloridas que trazem, minuto a minuto, indicadores e gráficos mirabolantes. Ao final de um dia de trabalho, qualquer editor está habilitado a responder quais foram as reportagens mais lidas. Mas e depois disso? Continuamos incapazes de interpretar adequadamente todas essas cifras e utilizá-las a nosso favor.

É preciso investir forte em tecnologia, não há outro caminho. Os jornais The New York Times e The Washington Post, para citar algumas referências da mídia impressa, já entenderam que, neste novo contexto digital, produção de conteúdo e tecnologia vão de mãos dadas. Tanto que em tempos de crise no setor o renomado diário de Jeff Bezos parece fazer questão de andar na contramão da concorrência. Ao invés de enxugar os seus quadros, o que faz é expandir suas equipes. Mas Bezos não contrata apenas jornalistas. Busca também profissionais que, controlando ferramentas de dados, apoiem a redação, o departamento comercial e o marketing. São engenheiros, estatísticos e desenvolvedores que interpretam os números gerados pelas audiências digitais, identificam tendências e propõem estratégias relacionadas ao negócio.

Também não levará muito tempo para que a tão comentada inteligência artificial seja incorporada à rotina das redações. Na Associated Press e em outras agências de notícias já são os robôs que geram parte das notícias sobre os balanços corporativos e o fechamento das bolsas de valores. Um prato cheio para empresas jornalísticas especializadas na cobertura do setor financeiro. Mas com isso não quero dar a entender que, num futuro não muito distante, as redações poderão prescindir de seus repórteres. Apenas acredito que profissionais altamente capacitados deixarão de se dedicar a informações que podem ser geradas automaticamente para contribuírem com reportagens analíticas e contextualizadas. Quem ganha é o consumidor.

Certo é que os veículos não podem assistir inertes ao avanço dessas novas tendências. Não podemos repetir a atitude que tivemos nos primórdios da internet, quando raras figuras nas redações apostavam que o ambiente multimídia tomaria a dianteira nos negócios. Também não podemos reproduzir a postura de meados da década passada, quando, fechados em nossos paradigmas, observávamos, atônitos, como o Google e o Facebook abocanhavam parcelas cada vez mais significativas da verba publicitária.

Na última semana tive a oportunidade de conversar com um grupo de competentes jornalistas e gestores de veículos de comunicação, todos eles responsáveis pelo processo de transição digital em suas empresas. Vindos de diferentes Estados brasileiros e de alguns países da América Latina, eles se reuniram em São Paulo para o segundo módulo do programa Estratégias Digitais para Empresas de Mídia, que dirijo na ISE Business School.

Todos eles estavam desejosos de encontrar novos caminhos de monetização. Em sala de aula crescia a certeza de que as verbas publicitárias não retornarão aos níveis de antigamente e, portanto, os ingressos deverão ser alavancados prioritariamente por meio do conteúdo digital. Como tarefa de casa levaram um desafio nada fácil: olhar para a cobertura de seus veículos e questionar-se se há valor diferencial naquilo que estão entregando aos seus consumidores. Sabem que se a resposta for negativa poucas serão as possibilidades de monetizar esse conteúdo. Afinal, ninguém pagará pelo que pode encontrar de forma similar e gratuita na rede.

Receberam também a missão de colocar a audiência no centro do processo. Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer. Felizmente, o ambiente digital rompeu a comunicação unidirecional que, por muitas décadas, imperou nas redações. O fenômeno das redes sociais estourou a bolha em que se confinavam alguns jornalistas que produziam notícias para muitos, menos para o seu leitor real. Além disso, perdemos o domínio da narrativa. Chegou a hora das pautas com pegada.

Sou otimista quanto ao futuro das empresas de comunicação, mas não deixo de considerar que o renascer do nosso setor será resultado de um doloroso processo. Passará pela construção de uma identidade editorial sólida, com apoio da tecnologia que permita escutar a voz dos consumidores. Mas, antes de tudo, exigirá uma boa dose de audácia para dinamitar antigos processos e modelos mentais que, até este momento, vêm freando as tentativas de inovação.

Mercosul precisa correr após prolongada paralisia - EDITORIAL VALOR ECONÔMICO

Valor Econômico - 15/07

O Mercosul saiu da letargia. Para se fazer justiça, foi um movimento iniciado pelo governo do ex-presidente Michel Temer, que já havia dado um caráter de pragmatismo ao bloco e recuperado sua vocação original: a de integrar comercial e economicamente os quatro países do Cone Sul - Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.

Não se duvida aqui do desejo sincero de lideranças como Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Néstor e Cristina Kirchner de unir politicamente a região. O problema é precisamente esse: convertido em tribuna, o Mercosul descumpria seus verdadeiros objetivos. Enquanto as cúpulas presidenciais serviam para proclamar, com evidente exagero, que nunca se havia feito tanto pelo fortalecimento do bloco, nós comerciais se multiplicavam e exigiam intervenções em instâncias políticas cada vez mais altas para serem desatados. Criaram-se fóruns de pouca serventia, como o Parlasul e o Instituto Social, mas o básico da integração não funcionava e continua sem funcionar. Basta perguntar a qualquer turista brasileiro se consegue recarregar o telefone celular em um hotel em Buenos Aires, sem uso de adaptador, ou questionar qualquer aposentado argentino se acha fácil retirar sua pensão morando no Rio.

Deixando de lado as caricaturas, o Mercosul foi perdendo importância. A livre circulação de bens jamais se consolidou. Do leite em pó uruguaio às maçãs argentinas, sem falar no comércio administrado de automóveis, o protecionismo interno sempre prevaleceu mesmo entre parceiros que se supunham preferenciais. A Tarifa Externa Comum está longe de honrar o nome e cada país vai abrindo exceções nas alíquotas de importação conforme necessidades e conveniências. Fora da região, só três acordos de livre comércio foram assinados. Todos com países inexpressivos: Israel, Egito e Palestina.

O tiro de misericórdia no pragmatismo do bloco foi dado com uma chicana para permitir a adesão da Venezuela, já em escalada autoritária. Travada pelo Senado paraguaio, a entrada do país caribenho ocorreu após uma polêmica suspensão que os sócios do Mercosul aplicaram ao Paraguai, como resposta ao impeachment relâmpago do ex-presidente Fernando Lugo. Se esse arranjo animava as discussões políticas, também gerava semiparalisia funcional.

Entre 2016 e 2018, houve movimentos para recuperar o tempo perdido. Em deterioração rápida no campo dos direitos humanos, a Venezuela foi suspensa. Dois importantes acordos foram alcançados: um de compras governamentais (dando tratamento nacional para empresas de cada país-membro em licitações públicas abertas por outro sócio), outro de cooperação e facilitação de investimentos (oferecendo maior segurança jurídica às empresas com negócios na região).

O maior avanço, no entanto, foi o anúncio do tratado de livre comércio com a União Europeia, negociado exaustivamente ao longo das últimas décadas. Por mais que detalhes, como tarifas e cotas, sejam desconhecidos, as informações já trazidas à tona sugerem um acordo relativamente equilibrado e vantajoso para os interesses sul-americanos. Dá-se, enfim, um sopro de ânimo no bloco como plataforma para a abertura de mercados, lembrando que quatro países negociando em conjunto têm poder de barganha mais alto do que agindo cada um isoladamente.

Do lado brasileiro, uma vez mais para se fazer justiça, é preciso dar o devido crédito a governos anteriores pelo tratado. Dilma foi responsável pela retomada das negociações com a UE e conseguiu costurar, em seu breve segundo mandato, uma oferta de abertura do Mercosul aos europeus - apresentada, curiosamente, na véspera do afastamento pelo Senado. Temer, beneficiando-se do maior engajamento de Mauricio Macri na Argentina, em relação ao protecionismo kirchnerista, acelerou as discussões. Bolsonaro, ao entrar no Palácio do Planalto, já encontrou grande parte do esforço empreendido. Deve-se reconhecer, porém, que nos acordos comerciais a "última milha" das negociações constituem sempre o ponto mais desafiador. Isso dá méritos incontestáveis à sua equipe, embora - ressalte-se - o diabo more nos detalhes e seja necessário ver atentamente se há armadilhas no texto final, como a aplicação do "princípio da precaução" para produtos agrícolas.

Será mais do que legítimo nesta semana, durante a cúpula do Mercosul em Santa Fé, se Macri e Bolsonaro se dedicarem a comemorar o acordo com a UE. Mas a estagnação do bloco foi tão longeva que se recomenda economizar nas congratulações e aproveitar a presidência rotativa do Brasil, nos próximos seis meses, para atacar uma agenda prioritária: eliminar barreiras internas, acelerar tratados de livre comércio, reestruturar a TEC e buscar convergência no que afeta os cidadãos, das aposentadorias a celulares.

Na volta do futebol disputado no Brasil, de novo mesmo só o Flamengo do português - MAURO CEZAR PEREIRA

GAZETA DO POVO - PR - 15/07


Mais do mesmo. Foi o que se viu em São Paulo 1 x 1 Palmeiras, em Corinthians 1 x 0 CSA e até nos 2 a 1 do Grêmio sobre o Vasco. Inclusive as decisões, entre polêmicas e bizarras, dos árbitros com uso do VAR. E na volta do futebol brasileiro, do campeonato nacional, a única novidade foi o Flamengo de Jorge de Jesus, que, faminto, fez 6 a 1 sobre o Goiás.

Antes que alguém desmereça o time goiano, independentemente de estar longe dos mais caros e fortes da Série A, havia sofrido somente oito gols nos oito jogos que disputou antes da parada para a disputa da Copa América, já que o confronto na casa do Corinthians foi adiado. Em apenas 90 minutos, os esmeraldinos levaram mais meia dúzia de tentos.

Com um elenco de (R$) milhões e muito talento, os rubro-negros mostraram algo que a torcida nem se lembra quando havia visto pela última vez. Um comportamento incomum entre a maioria dos times do país. Aquele apetite de quem faz um gol e quer outro, e mais outro, e outro... Foi assim que o Goiás viveu até o instante final tentando evitar o famoso placar de 7 a 1.

Linhas altas, ou seja, marcação lá no campo ofensivo, pressão no adversário quando este tem a bola, para que ela seja imediatamente recuperada, intensidade o tempo todo, comportamento com o qual não estamos habituados por aqui. Resultado: o Flamengo finalizou 28 vezes, 17 delas na direção do gol, pelos números do Footstats.

Claro, ao avançar seus homens, o time de Jorge Jesus deixou inevitáveis espaços entre sua linha defensiva e o goleiro Diego Alves, que em determinados lances precisou sair da área para interceptar o ataque do Goiás. Nada anormal sendo apenas o segundo cotejo sob comando do português, o primeiro no Rio de Janeiro e em gramado natural.

Não sabemos onde vai parar esse Flamengo de Jesus, mas é um alento ver uma equipe recheada de bons jogadores tirando deles o que se espera: futebol, com fome de gols, desejo pela bola, por atacar, o que a torcida e quem admira o esporte gosta de ver. O fato de a única inovação vir de além-mar é mais um motivo para preocupar os questionados treinadores brasileiros.

***

Neymar disse no sábado que sua melhor lembrança pós-jogo é a virada do Barcelona sobre o PSG pela Liga dos Campeões, quando defendia o time catalão e uma goleada por 6 a 1 classificou a equipe, após perder por 4 a 0 na França. A resposta pode ter sido sincera, mas no contexto atual, soa como provocação. E assim foi recebida.

O brasileiro é esperado nesta segunda-feira em Paris, uma semana depois da data estipulada pelo clube para sua reapresentação. O atleta contesta. Fato é que o clima não poderia ser pior. Difícil saber o que Neymar pretende com isso, sendo que seu contrato em vigor tem mais três anos e tendo custado €222 milhões ao Paris Saint-Germain. Que estratégia é essa?

***

Uma semana depois de encerrada a Copa América, outro camisa 10, mesmo sem erguer o troféu, está em alta com sua gente. Lionel Messi foi "Maradonizado" durante o certame de seleções, fez graves acusações à Conmebol, mas ganhou incontáveis pontos na Argentina.

A nova postura do craque, questionador, líder, parece ter preenchido uma lacuna. A coluna ouviu jornalistas argentinos para entender o que eles dizem sobre o camisa 10 depois do certame disputado no Brasil.

"Era o Messi que estávamos esperando", resume Nadir Ghazal, do site La Página Millonaria, dedicado ao River Plate.

"Era necessário expor a Conmebol e sua má utilização do VAR. Messi pagou uma dívida com ou povo argentino, se posicionou como um líder, mostrou ainda mais vontade, cantou ou hino, destaca Nicolas Montalá, que escreve no site Racing de Alma.

"Na imprensa muitos gostaram das declarações de Messi. Eu estimo que ele se aproximou da personalidade de Maradona, mas muito pouco", avalia Nacho Peralta, da ESPN e Radio Punto AM 1400.

"Um novo Messi foi grande personagem, sendo o que pedia cada argentino. Ele aproximou-se do pensamento do cidadão comum, que muitas vezes o questionou. Lembrou Maradona ao colocar equipe em seu ombro como capitão e dizer as coisas de frente. Mesmo sem o título, houve satisfação com o desempenho da equipe, que melhorou na competição. Mas o que mais devemos destacar é a atitude de Messi", diz Alejandro Marinelli, das rádios FM UTN 94,3 de Córdoba e AM 740 de Buenos Aires.

"A ‘dieguización’ de Messi foi bem recebida, em geral, por imprensa e torcedores. Ele cantou o hino e isso acabou celebrado como um gol. Questionou a Conmebol, algo comemorado como um título. Acredito que essas atitudes não só o aproximam de Maradona, como do argentino comum, como nós. E gostamos disso.", ressalta Juan Claudio Castro, TyC.

"Ele falou em nome da equipe e do país que representa e não se escondeu. Este Messi representa um capitão real. Ele assumiu a liderança e ganhou uma grande parte da imprensa que reivindicava isso. Mas Maradona e Messi, na equipe nacional, ainda não são muito comparáveis. Maradona venceu uma Copa do Mundo quase perfeita. Mas o relacionamento mudou muito. Este é um Messi para os argentinos, para os fãs. Que fala por todos ou quase todos., rebelde, desafiando todo mundo, falando sem pensar nas conseqüências, quebrando as regras. Ele é mais argentino que o jogador do Barcelona", analisou Juan Vallego, Radio Impacto Cordoba.

"Sem dúvida vimos outro Lionel Messi, sem muito brilhantismo no futebol, mas com personalidade para liderar uma seleção de vários jovens, suas declarações foram precisas e fizeram o povo argentino se identificar com a alegação", disse o jornalista Vasco Gorrochategui.

"O torcedor argentino é sensacionalista, gosta de gestos que não têm nada a ver com o jogo, mas funcionam na frente das câmeras de televisão. Messi nesta Copa América teve gestos que muitos reivindicaram durante anos, como cantar o hino, lutar na quadra com outros jogadores ou declarar em coletiva de imprensa contra quem domina o futebol. Tudo isso era o que Maradona fazia e desta vez ele fez", resume Cristian Del Carril, da rádio A Todo Ciclón."

Num só dia, o Deltan contador do Paraíso e o mundano das mulheres-laranjas - REINALDO AZEVEDO

UOL - 15/07


Nas páginas dos jornais deste domingo — ou em suas respectivas edições eletrônicas —, havia dois Deltans: o Dallagnol que é contador do Paraíso concedeu uma entrevista ao Estadão. Nunca houve homem mais reto do que ele. Ainda se atreve a falar como um missionário. Já o Dallagnol que está nos diálogos publicados pela Folha é um tantinho mais mundano, não é mesmo? Só em 2018, estimou em R$ 400 mil o ganho líquido com palestras, R$ 100 mil a mais do que recebeu como procurador — carreira que está no topo entre as funções de Estado.

Mas, como evidenciam as conversas reveladas pelo "The Intercept Brasil" e pela "Folha", Deltan quer muito mais. E faz planos, em parceria com Roberson Pozzobon, o Robinho, outro jacobino da operação, para aumentar os ganhos. Mais do que isso: ambos envolvem suas respectivas mulheres num plano para aumentar exponencialmente o lucro pessoal e privado decorrente de sua atividade pública sem levantar suspeitas.

E, ora vejam, esses são dois dos patriotas que respondem pela operação que destruiu parte considerável da classe política brasileira; que tem levado o Poder Judiciário a desrespeitar de maneira flagrante o ordenamento jurídico do país; que empurrou o Ministério Público para uma verdadeira militância em favor de ilegalidades; que tem destruído empresas e empregos com uma fúria impressionante; que transformou a boçalidade reacionária em uma espécie de norte moral.

A parceria ilegal dos procuradores com o então juiz Sérgio Moro já foi escancarada. E é certo que surgirão novas evidências de agressão à Constituição, ao Código de Processo Penal, ao Código de Ética da Magistratura e ao devido processo legal. O material divulgado neste domingo, no entanto, cuida de outra coisa, bem mais universal e mundana: do apetite para lucrar, ainda que esse lucro seja consequência direta dos sortilégios que colheram os brasileiros.

Ao Estadão, Deltan especula sobre quem estaria na origem da captação de suas conversas no Telegram:

"O interesse é anular condenações e barrar o avanço da investigação. A operação atingiu muitos poderosos e detentores do poder econômico. Poderia ser qualquer um deles, além dos corruptos que ainda não foram alcançados pela Lava Jato."

Que gente má, não é mesmo?

Na Folha, lemos a conversa de Deltan com Fernanda, sua mulher, referindo-se a Amanda, parceira do procurador Pozzobon, que chama de "Robito":
"Você e Amanda do Robito estão com a missão de abrir uma empresa de eventos e palestras. Vamos organizar congressos e eventos e lucrar, ok? É um bom jeito de aproveitar nosso networking e visibilidade."

E Deltan tranquiliza aquela que Sergio Moro chamaria de sua "conge". Ninguém precisa se preocupar em ganhar o pão com o suor do rosto. Diz ele:
"Vocês não vão ter que trabalhar. Contratam uma empresa para organizar o evento".

Ou por outra: o coordenador da força-tarefa, aquele que diz ao Estadão que corruptos podem estar na origem dos vazamentos, sugere a seu interlocutor e respectivas "conges" um meio de driblar as restrições e a fiscalização. A isso a Lava Jato e o Ministério Público costumam chamar "laranjas".

Uma vez criada a empresa, Deltan especula sobre vários meios de ganhar dinheiro: associando-se a uma empresa de palestras e a uma outra de formaturas, de seu tio — ele só não prometeu dançar a valsa —, ou ainda dedicando-se ao ramo de eventos motivacionais, em parceria com uma empresa da área chamada "Conquer". Ele chega até a dar nomes a possíveis "aulas", com todas as aspas, que ele e Robinho ministdrariam. Prestem atenção:
1) Empreendedorismo e governança: seja dono do seu negócio e saiba como governá-lo;
2) Negociação: domine essa habilidade ou ela vai dominar você;
3) Liderança: influencie e leve seu time ao topo
4) Ética nos negócios e Lava Jato: prepare-se para o mundo que te espera lá fora.


É de embrulhar o estômago. O homem de Estado que responde pela operação que destruiu a indústria de construção de base no Brasil quer ensinar empreendedores da iniciativa privada; aquele que sempre contou com o instrumento da prisão preventiva para fazer valer a sua vontade quer dar aula de negociação; o que sugere ao futuro sócio lucrar com empresa em nome das respectivas mulheres quer ensinar "ética nos negócios". E, como se nota, o nome "Lava Jato" serve de chamariz.

Como está falando entre os seus, ele não esconde o jogo:
"Cada palestra teria que ser muito bem desenhada, ter uma pegada de pirotecnia e ainda dependeríamos de uma boa divulgação. Todas as palestras deixariam um gostinho de quero mais (tempo limitado) e direcionariam pra Conquer, com retorno de percentual sobre cada aluno que se inscrever no curso da Conquer nos 4 meses seguintes."

Dallagnol a defender o uso da Lava Jato para enriquecer — e é disso que se trata — mal disfarça a picaretagem intelectual, estampada já no título de suas aulas.

Ao Estadão, ele diz não se arrepender de nada. Afirma:
"É sempre possível aperfeiçoar os trabalhos, mas os repetiria, mesmo sabendo do alto preço pessoal pago por confrontar ricos e poderosos"

A expressão "alto preço" só faz sentido se designar os R$ 400 mil líquidos obtidos com palestras em 2018, valor que Deltan acha pouco, daí as estratégias que desenhou para ganhar mais dinheiro.

E, como a gente nota, a sua tendência mesmo é ser professor de ética.

Com pirotécnica, claro!, e gostinho de "quero mais".

A forma da reforma - MARCUS ANDRÉ MELO

FOLHA DE SP - 15/07

Jogo de soma positiva: não há um grande vencedor, mas vencedores

O que explica o paradoxo da aprovação do texto-base da reforma da Previdência, por larga margem, por um presidente sem base formal?

Foram 139 dias para a aprovação —Lula levou 104 dias, FHC, 34 meses. FHC e Bolsonaro tiveram que enfrentar resistência por parte da oposição. No primeiro caso, efetiva, no segundo, inócua. Isso explica a diferença de tempo, em dias, para a instalação da comissão especial: 60 (Bolsonaro), 34 (Lula) e 162 (FHC). Lula contou com os votos da oposição, mas deparou-se com uma rebelião de correligionários.

A base parlamentar explica pouco: na fase de tramitação dessas PECs na Câmara, as coalizões estavam em gestação. O PMDB, o partido pivô, não as integrava.

Reformas da Previdência são politicamente difíceis. Os custos são tangíveis e ninguém é ganhador líquido: é uma guerra de atrito em torno de como não perder ou ser menos afetado do que os demais. Os benefícios são difusos e seu impacto diferido no tempo: promessa de crescimento.

O cálculo de custo-benefício dos cidadãos é alterado quando há ameaças aos seus benefícios. Enquanto essas ameaças forem intangíveis, não-críveis —"no futuro a Previdência estará falida"— ele não se altera.
Contudo, a crise fiscal dos estados e o não pagamento de benefícios e salários conferiu credibilidade a tais ameaças. É a crise que explica o forte e paradoxal apoio —popular e, por extensão, congressual— à reforma. A crise afetou assim os preços relativos da reforma mitigando para o presidente e os parlamentares o custo de patrociná-la e apoiá-la.

Não há um grande vencedor, mas vencedores. As relações Executivo-Legislativo não são um jogo de soma zero: há ganhos de troca. Os ganhos são máximos quando há delegação e o governo conta com uma base de apoio, pois reduz os custos de transação envolvidos.

Para Bolsonaro, que rejeita a barganha política e o compromisso parlamentar, a reforma que maximiza ganhos é aquela que não contém negociação pública, sobretudo com seu envolvimento pessoal, mas que de fato ocorre e viabiliza apoios (embora a um custo maior). Ele parecia ser o grande vencedor do jogo até decidir ser protagonista e patrocinar interesses corporativos de sua base.

De todo modo, se houver uma retomada da economia, o presidente poderá colher os créditos políticos (cenário mais provável); se não, seu alheamento terá sido eficiente politicamente.

Para Rodrigo Maia, a reforma ideal envolve capitalizar individualmente o surpreendente apoio congressual e na opinião pública à reforma e, sobretudo, ao Parlamento como instrumento de contenção do governo Bolsonaro.

O jogo entre os Poderes é de soma positiva.


Marcus André Melo
Professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA).

A ousadia de ir além das amarras ideológicas - TABATA AMARAL

FOLHA DE SP - 15/07

Muitos partidos já não representam de fato a sociedade, mas somente alguns de seus nichos


Faço aqui, no espaço quinzenal que tenho nesta Folha, uma provocação que julgo saudável para a política e para os partidos, com o único intuito de contribuir para um debate que temos postergado, mas que a sociedade há muito demanda. É uma reflexão necessária diante do impacto provocado pelos oito deputados do PDT, dentre os quais me incluo, que votaram “sim” à reforma da Previdência, e os 11 do PSB, contrariando a orientação partidária. Não estamos falando de dois ou três parlamentares, mas de praticamente um terço das bancadas de duas relevantes siglas que ocupam posição mais ao centro no espectro da esquerda. A expressividade dessa dissidência acendeu ao menos a luz amarela nas estruturas?

Sabemos que a extrema esquerda não admite flexibilidade alguma de posicionamento, pois está enclausurada em suas amarras. No entanto, uma parcela da centro-esquerda quer dialogar com o contexto e a sociedade e caminha para se modernizar. Nisso nos fiamos, nós que temos convicções sociais fortes, olhamos para o futuro do Brasil e enfrentamos o desafio urgente de termos crescimento sustentável, condição para a consolidação da justiça social.

Muitos partidos já não representam de fato a sociedade, mas somente alguns de seus nichos. Embora tenham em seus quadros um número cada vez maior de deputados com visão modernizante, as siglas ainda ostentam estruturas antigas de comando, e na maioria faz falta mais democracia interna. Muitas vezes, consensos sobre pautas complexas não são construídos de baixo para cima, e cartilhas antigas se sobrepõem aos estudos e evidências. Quando algum membro decide tomar uma decisão que considere responsável e fiel ao que acredita ser importante para o país, há perseguição política. Ofensas, ataques à honra e outras tentativas de ferir a imagem tomam lugar do diálogo. Exatamente o que vivo agora.

A boa política não pode ser dogmática. Discordâncias são normais no cotidiano e o ajuste e as acomodações das diferentes visões vão se dando em questões menores, com as bancadas muitas vezes sendo liberadas para as votações. O que foge completamente a esse processo e demonstra o grau do conflito instalado é quando a “rebeldia”, como está sendo interpretado o voto de opinião, atinge um terço de bancadas expressivas. Encaro esse debate como de fato a única tentativa da centro-esquerda de se renovar, mas os partidos estão virando as costas para essa realidade. É mais fácil lidar no plano da insubordinação. A construção de novas mentalidades não é processo fácil e exige coragem.

No fundo, são dois os temas que se sobrepõem nesse momento. A lógica de funcionamento dos partidos políticos no presidencialismo e o processo de renovação da política brasileira. A combinação de presidencialismo e federalismo, como ocorre no país, favorece as chamadas “indisciplinas partidárias”. Busca-se reforçar o poder da liderança partidária punindo dissidentes pela máxima de que os partidos não podem passar sinais de fraqueza. Será preciso uma reforma muito profunda do nosso sistema político para produzir os incentivos necessários para “disciplinar” as siglas. Enquanto existir o presidencialismo, o multipartidarismo e a federação, as lideranças partidárias precisarão ouvir e negociar com suas bases, dissidentes ou não.

A ampla renovação política que está em curso e da qual faço parte agrava o quadro de conflitos internos dos partidos. É racional que as lideranças recorram a argumentos de ocasião para justificá-los. Mais racional contudo é pensarmos no Brasil.

Tabata Amaral
Cientista política, astrofísica e deputada federal pelo PDT-SP. Formada em Harvard, criou o Mapa educação e é cofundadora do Movimento Acredito.

Um pouco além das bananas - FERNANDO GABEIRA

O GLOBO - 15/07

Trabalhei na infância em fábrica de meias e loja de tecidos. Rigidez dos horários e tarefas mecânicas me entristeciam


Bolsonaro andou falando sobre trabalho infantil. De um modo geral, não costumo comentar todas as frases do presidente. Fazia o mesmo com Lula. Líderes populares falam muito e em lugares diferentes. Às vezes, precisam de um habeas língua; se não, nos obrigam a parecer rigorosos fiscais do politicamente correto.

Acontece que este artigo é resultado de algumas coincidências. Bolsonaro carregava banana nas plantações de Eldorado, no Vale do Ribeira. Eu, quando menino, vendia bananas num balaio. Hoje, também por coincidência, passei o dia documentando a rotina dos bananais. Nada a ver com Bolsonaro, apenas aspecto do meu aprendizado no Vale do Ribeira, nessas três semanas em que me dediquei a viajar pela região.

Vender bananas no balaio foi o trabalho mais fácil que tive. Era independente, podia sempre deixar o balaio num canto e, com um pedaço de cipó, montar um cavalo manso a pelo, colher goiabas ou mesmo tomar um refresco de groselha no armazém de um italiano chamado Seu Menta.

Mas trabalhei ainda na infância numa fábrica de meias e numa loja de tecidos. A rigidez dos horários, as tarefas mecânicas, tudo isso me entristecia como menino. Na verdade, gostava de brincar e satisfazer minha curiosidade sobre coisas que não estavam ali, naquele trabalho.

Isso foi o suficiente para que jamais pensasse em repetir com os filhos aquela experiência de 70 anos atrás. E a passagem dos anos confirmou em teses e até políticas internacionais a importância do brinquedo e do estudo na vida das crianças.

Interessante na passagem do tempo foi a evolução do próprio processo produtivo, não somente valorizando o conhecimento mas também um elemento essencial no brinquedo: a criatividade.

Aliás, foi isso que ponderei com Bolsonaro quando ele enfatizava a disciplina das escolas militares. Estimular a inovação prepara melhor para sobreviver no mundo de hoje. Por isso, sempre gosto de lembrar a música de Santana: “Let the children play”.

Na verdade, as coincidências me fizeram lembrar do trabalho infantil. O próprio Bolsonaro afirmou que não pretendia transformar esse tema em projeto, nem levá-lo ao Congresso. O trabalho infantil não consta oficialmente de sua “retropia”.

Voltando às bananas, tal como as vi num dia de trabalho adulto, creio que entendi melhor essa resistência visceral diante de nossas políticas ambientais.

As plantações de banana estão numa região que detém 60% da Mata Atlântica, grande riqueza hídrica. A região é coberta por um conjunto de parques estaduais, reservas privadas como a da Votorantim, já desenvolvendo negócios a partir da floresta em pé: produção de mudas, pesquisa biotecnológica.

Os plantadores de banana questionam as restrições ambientais. A contrapartida que uma visão sustentável poderia representar não existe ainda: estradas, conexão fácil. Ainda acreditam, como talvez no tempo de Bolsonaro, que o grande entrave ao negocio é essa condição de área preservada.

Alguns quilombos — há cerca de 70 no Vale — acharam um nicho plantando banana orgânica. Talvez não seja essa a alternativa para as grandes plantações. Mas o interessante é que planejam fazer uma campanha de marketing em torno da banana. Quem sabe, um dia, exportar.

Se o caminho for esse, certamente haverá compromissos e conciliações. Foi o que aconteceu com Bolsonaro ao assinar o acordo do Mercosul com a União Europeia.

Viajar pela Régis Bittencourt sempre nos lembra como o Vale do Ribeira é um caminho e parte de dois estados poderosos: São Paulo e Paraná. O fato de não ter ainda dado um salto para além de suas limitações atuais não significa que isto seja impossível. Sua riqueza florestal e hídrica deve ser a alavanca desse salto. O potencial turístico ainda é pouco explorado, faltam infraestrutura, restaurantes.

Por isso, um conselho de vendedor para carregador de banana: será melhor definir o futuro em função dessa realidade de um Vale preservado e adaptar suas principais atividades a ela.

O investimento em pesquisa, estradas e conexão também pode impulsionar a banana do Vale, como se fez com o café no Sul de Minas. Bolsonaro deveria ajudar seus amigos a olhar para a frente. Mas é um entusiasta do passado.

Desista, presidente - LEANDRO COLON

FOLHA DE SP - 15/07

Bolsonaro deveria ter sobriedade e recuar de ideia lunática sobre filho nos EUA

Jair Bolsonaro conseguiu uma proeza ao anunciar a decisão de indicaro filho e deputado Eduardo para embaixador nos EUA.

A intenção recebeu críticas do guru Olavo de Carvalho e dos raros aliados no Congresso. Foi vista com desconfiança pelo núcleo militar do Planalto e avaliada com deboche e espanto nos bastidores do Itamaraty.

A única exceção foi o assessor especial Filipe Martins, amigo do peito de Eduardo Bolsonaro e figura inexpressiva do PSL alçada a especialista em política internacional no Planalto.

Se Bolsonaro tiver um pouco de bom senso (algo um tanto improvável tratando-se do personagem), deveria recuar e afirmar que teve um delírio causado pela euforia familiar com os 35 anos completados pelo seu 03 na última quarta-feira
Aliás, o ministro da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, homem de confiança do presidente, indicou que essa história pode ser apenas um balão de ensaio.

“É um processo que tem de ver se vai ser confirmado. Ele (Bolsonaro) não disse da embaixada em Jerusalém? Ela está onde? Em Tel Aviv. O presidente tem esses momentos”, afirmou o ministro aos jornalistas.

Ao levar adiante a nomeação do filho para Washington, Bolsonaro terá de enfrentar o escrutínio dos senadores, responsáveis por aprovar ou rejeitar escolhas do governo para assumir o comando de embaixadas.

O risco é duplo: um possível vexame na hipótese de o Senado derrubar a indicação do filho do presidente e a contaminação política do tema no mesmo período em que a Casa deve discutir a reforma da Previdência a ser enviada pela Câmara.

Ao querer prevalecer a escolha de cunho pessoal e familiar ao posto mais importante da diplomacia brasileira no exterior, Bolsonaro pode atrapalhar a tramitação legislativa de um projeto de interesse do estado.

Ele tem dito que a decisão caberá ao filho. Mas seria um gesto de sobriedade e racionalidade se o próprio presidente desistisse da ideia lunática, confirmando que tudo não passou de mais um de seus “momentos”.

Leandro Colon
Diretor da Sucursal de Brasília, foi correspondente em Londres. Vencedor de dois prêmios Esso.

Goleada do Flamengo impulsionada pela bem-vinda ousadia de Jesus - CARLOS EDUARDO MANSUR

O GLOBO - 15/07 

😂😂😂
Mais do que apresentar um horizonte promissor à torcida do Flamengo, a goleada de 6 a 1 sobre o Goiás produz outro efeito importante: dá respaldo a quem parece disposto a romper paradigmas. O futebol brasileiro precisa de gente assim.

Jorge Jesus lançou mão da formação mais ofensiva de que dispunha. Juntou Diego, Éverton Ribeiro, Arrascaeta, Gabigol e Bruno Henrique, sem falar em dois laterais notáveis muito mais pela qualidade técnica do que pelo vigor ou pela recomposição, casos de Rafinha e Trauco.

São raros os técnicos dispostos a tal ousadia, ainda mais num contexto que convidava a dar um passo atrás: fazia muito calor às 11h de ontem; o time vinha de um jogo duro em Curitiba; haverá outra decisão pela frente em três dias; seus jogadores ainda se adaptam a ideias contraculturais no Brasil, como a pressão constante no rival e a linha defensiva jogando adiantada, no limite. O Maracanã viu, mais do que futebol de alto nível, o quanto o país tem a lucrar ao receber treinadores de diferentes culturas e de alto nível, permitindo o fluxo do conhecimento. Como se nota no Santos de Jorge Sampaoli, vice-líder do Brasileiro com um modelo de jogo que também é raro por aqui.

Ontem, o Flamengo foi especialmente bem na produção ofensiva, tarefa que mais costuma enredar times brasileiros. Quando precisava abrir espaços, as posições ocupadas por Éverton Ribeiro e pelo brilhante Arrascaeta eram preciosas. No lugar de serem pontas abertos, jogavam alguns metros mais pelo centro, ampliando opções de passe para Diego e abrindo corredor para os laterais.

Jesus tampouco abre mão de ter dois atacantes pelo centro, sistema que se tornou pouco habitual, a ponto de defesas terem se desacostumado a enfrentá-lo. E Gabigol parece se beneficiar muito do modelo.

Embora o quinto gol tenha nascido de bela e paciente construção, os times de Jesus não são dependentes de posses de bola longas, ao contrário. O Flamengo insistiu na pressão no campo ofensivo para recuperar a bola e avançar em ações rápidas. Abriu o placar assim e ainda se valeu de dois contragolpes no terceiro e quarto gols. Mas o que seduziu mesmo as 65 mil pessoas no Maracanã foi um apetite insaciável pelo ataque de um time impiedoso na busca por transformar em números sua superioridade técnica.

Tudo isso está longe, no entanto, de significar um Flamengo pronto em menos de um mês. Não há modelo de jogo que não assuma um risco, e Jorge Jesus assume os seus ao adiantar a defesa e ter tantos jogadores leves à frente. Algo que exige pressão constante no ataque, imediatamente após a perda da bola: sem isso, o rival tem espaço para, de forma equilibrada, buscar os lançamentos às costas dos defensores rubro-negros.

Ontem, quando a intensidade baixou, o Goiás quase virou o jogo num piscar de olhos — embora o gol do 1 a 1 pouco tenha a ver com o modelo tático, já que o erro técnico de Rodrigo Caio surgiu em lance dominado. O caso é saber se, com jogadores pouco habituados a manter ritmo alto sem a bola, tal pressão será constante com o acúmulo de jogos e a exigência do calendário. Por um breve momento, os goianos tiveram fartos espaços para contra-ataque, em especial às costas dos laterais. E vale lembrar que cruzarão o caminho deste Flamengo times tecnicamente mais dotados do que o Goiás.

É uma reeducação, um aprendizado. Até o goleiro Diego Alves, que precisa intervir longe da área caso os lançamentos vençam a defesa do Flamengo, busca se adaptar à bem-vinda ousadia de Jesus. Os ajustes a fazer são naturais e o ponto que se atingirá depende de tempo e de bom trabalho. Ver novas ideias nos campos brasileiros é saudável.


Vasco mais sólido
Por mais amarga que tenha sido a derrota de virada, é possível ver evolução no Vasco de Vanderlei Luxemburgo. E ela se concentra na forma eficiente como o time se defende. Por mais que o Grêmio tenha usado um bom número de reservas, os vascaínos tiveram solidez. A questão é como a equipe vai se comportar quando precisar ser protagonista de jogos. Ainda mais com um elenco que tem suas limitações.


Vítima do var
Na derrota de Porto Alegre, os vascaínos reclamam, de forma compreensível, da anulação do gol de Yago Pikachu. Entenda-se que tenha havido ou não a falta de Rossi, o lance escancara a forma deturpada como o VAR vem sendo usado em competições pelo mundo: a busca por irregularidades em lances que não caracterizam erros claros, provocando intervenção e paralisação excessivas no jogo.


Defeito persistente
Ao menos no primeiro jogo após a volta da Copa América, o Botafogo não conseguiu resolver um problema que o persegue desde o início do Brasileiro: a falta de agressividade, apesar do bom domínio da posse de bola. O time abusou de trocar passes entre volantes e zagueiros, mas raramente incomodou o Cruzeiro. Os mineiros, aliás, voltaram a jogar mal, e o 0 a 0 no Mineirão foi um jogo esquecível.
💳

Receita da oposição para reeleger Trump - DEMÉTRIO MAGNOLI

O GLOBO - 15/07

A submissão ao discurso identitário conduz os democratas ao labirinto da política de minorias


‘Havia uma criança na Califórnia, que pertencia à segunda turma da integração das escolas públicas, e ela foi conduzida de ônibus à escola todos os dias. Essa criança era eu.” O depoimento da senadora Kamala Harris, 55 anos, deixou uma marca no primeiro debate televisionado entre os pré-candidatos presidenciais democratas nos EUA. Os democratas movem-se para a esquerda, sob aplausos da militância mobilizada, sinalizando o caminho da reeleição de Donald Trump.

O chamado busing foi um expediente amparado pelos tribunais para promover a dessegregação racial nas escolas, a partir do final da década de 1960. Crianças negras eram transportadas a escolas antes segregadas em ônibus gratuitos. Harris não recordou sua infância para celebrar o movimento pelos direitos civis mas para cravar uma seta no rival Joe Biden, o vice de Barack Obama e ainda favorito à nomeação partidária. Biden, um moderado de 76 anos, começou sua carreira política durante a difícil ruptura de seu partido com as políticas segregacionistas. Mais de quatro décadas atrás, ele apresentou um projeto de lei contrário aobusing . Os democratas que tentam puni-lo pelo pecado do passado distante nada aprenderam da tragédia eleitoral de 2016.

A lição estava clara para Obama. Na encruzilhada decisiva de sua primeira campanha à Casa Branca, em março de 2008, ele pronunciou o discurso “Uma mais perfeita união”, que respondia a controversas declarações de seu antigo pastor, Jeremiah Wright. Nele, o “candidato negro” conclamou os americanos à unidade para enfrentar dilemas “que não são negros ou brancos ou latinos ou asiáticos mas que nos confrontam a todos”. Hillary Clinton não soube seguir a trilha desmatada por Obama, sucumbindo à pressão multiculturalista da militância partidária. Cairão os democratas na mesma armadilha uma segunda vez?

Não que só Biden seja capaz de derrotar Trump. Três anos atrás, Trump chegou à Casa Branca perdendo no voto popular por margem de quase 3 milhões de votos. As sondagens indicam que, apesar do ciclo de crescimento econômico, o presidente experimenta consistente reprovação majoritária. Há uma maioria que rejeita, por princípio, o nacionalismo extremado, a arrogância isolacionista, os modos repugnantes e os discursos asquerosos do herói de Bolsonaro. Mas isso não garante o triunfo democrata no Colégio Eleitoral de 2020.

Obama descreveu-se como mestiço e, com a Constituição entre as mãos, falou para todos os americanos. Harris, filha da união de uma indiana com um jamaicano, descreve-se exclusivamente como negra, desperdiçando a oportunidade de falar, em primeira pessoa, sobre os cruzamentos de histórias e origens que formaram a nação americana. A submissão ao discurso identitário conduz os democratas ao labirinto da política de minorias: negros, latinos, asiáticos, nativos, mulheres, LGBT. No imenso vácuo aberto pela religião secular do multiculturalismo, Trump dirige-se à maioria de americanos brancos agitando a bandeira nacional e o “America First”. A receita testada pode funcionar novamente.

Não é uma questão de esquerda ou direita. A jovem deputada Alexandria Ocasio-Cortez define-se como socialista e defende ideias típicas da social-democracia europeia, mas escapa ao molde do discurso identitário. Numa entrevista ao “The New York Times”, ela revelou que seus ancestrais distantes, judeus sefarditas, fugiram da Inquisição espanhola, estabelecendo-se em Porto Rico. E descreveu os porto-riquenhos como uma complexa mistura: “Não somos uma coisa única. Somos negros, indígenas, hispânicos, europeus.” Não há ideia mais corrosiva para o nacionalismo reacionário e nativista que a de mistura. Mas, para sorte de Trump, a militância democrata continua seduzida pela aquarela fragmentária do multiculturalismo.

Há muito em jogo na eleição presidencial americana de 2020. A reeleição de Trump dissolveria de vez o consenso ocidental do pós-guerra que sustenta as sociedades abertas, plurais e tolerantes. A economia, por si mesma, não assegurará um novo triunfo trumpiano. Para tanto, será preciso o concurso de Kamala Harris e dos seus.

Um trabalho hercúleo - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S. Paulo - 15/07


Espera-se que as recomendações do TCU para a desburocratização ajudem a desatar os nós que transformam o ato de empreender em pesadelo.


Desde 1979, com a criação do Ministério da Desburocratização, institucionalizou-se no governo federal a pretensão de reduzir os entraves burocráticos na economia e na vida social do Brasil. No atual governo, essa função está a cargo da Secretaria Especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital, parte do Ministério da Economia. A julgar pelos resultados reunidos pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em recente estudo sobre esse tema, os esforços até aqui não tiveram os efeitos desejados. O País continua a ser um intrincado labirinto de leis, exigências e padrões dentro do qual têm de perambular todos os brasileiros que decidem empreender, o que compromete decisivamente sua produtividade e sua competitividade.

O TCU identificou o que chamou de “disfunção burocrática”, expressão que resume a complexidade das “regras do jogo”, incluindo “a elevada quantidade de normas que regem um mesmo assunto, a falta de organização dessas normas e a ausência de transparência e apresentação adequadas”, o que “gera dúvidas, insegurança jurídica, custos de atualização e cumprimento de obrigações”. E tudo isso se dá mesmo na vigência de uma legislação específica sobre a transparência, como a Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527/2011), o Decreto n.º 7.724/2012 – que demanda dos órgãos do Estado o acesso do público à informação oficial por meio de “procedimentos objetivos e ágeis, de forma transparente, clara e em linguagem de fácil compreensão” –e o Decreto 9.094/2017 – que demanda dos órgãos federais “informações claras e precisas sobre cada um dos serviços prestados”.

No entanto, o TCU constatou vários obstáculos para o pleno cumprimento dessa legislação. A Receita Federal, por exemplo, “não sabe informar a quantidade de normativos vigentes por ela expedidos” anualmente. Esse problema é especialmente grave quando se sabe, conforme lembra o tribunal, que “existem 57 tributos instituídos no Brasil (com exceção das taxas), e que foram editadas mais de 377 mil normas tributárias desde a Constituição de 1988, sendo mais de 3 mil atos editados apenas pela Receita Federal”.

Além disso, o TCU constatou também “falhas de articulação e compartilhamento de dados entre órgãos”, que “ocasionam retrabalho e redundância de exigências aos usuários de serviços públicos, aumentando o custo e o tempo para a prestação desses serviços”.

A Constituição, em seu artigo 37, inciso XXII, estabelece que as administrações tributárias da União, dos Estados e dos municípios “atuarão de forma integrada, inclusive com o compartilhamento de cadastros e de informações fiscais, na forma da lei ou convênio”. No entanto, o TCU mostrou vários exemplos em que essa determinação é ignorada. Um deles é o da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que “não possui sistema de peticionamento eletrônico para o registro da maioria dos tipos de medicamento, além de produtos cosméticos e perfumes”, o que obriga as empresas interessadas a encaminhar “toda a documentação em papel, muitas vezes por meio da contratação de despachantes”. Já a Anvisa precisa “digitalizar a documentação novamente para uso interno”, tudo porque a agência usa “sistemas obsoletos”.

Casos como esse se multiplicam por toda a administração federal – e, presume-se, também nas esferas estaduais e municipais. Como resultado, o TCU relata, com base em dados do Banco Mundial e da Fiesp, que desde 1988 foram emitidos mais de 5 milhões de normas no País, o que dá 764 por dia. Não à toa, o Brasil aparece em 109.º lugar entre 190 países no ranking do Banco Mundial sobre facilidade para a abertura de um negócio. Quando se trata de burocracia para emissão de alvará para construção, o Brasil aparece em 171.º lugar. Quanto à facilidade para pagamento de impostos, o País está em 184.º lugar. No geral, o Brasil é apenas o 80.º em competitividade, apesar de ser uma das maiores economias do mundo.

O custo da burocracia excessiva, portanto, está mais do que demonstrado. Os gargalos também estão perfeitamente identificados. Espera-se que as recomendações do TCU ajudem a desatar os nós que prendem o País a um número infinito de normas que se sobrepõem umas às outras e que transformam o ato de empreender num pesadelo.